Author Archives: Nuno Faria
Não me demito. Câmbio.
15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.
Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.
Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.
Câmbio
Combustível Eleitoral
Para que servem eleições?
Os incêndios devastadores deste Verão demonstraram que nem todos se batem devidamente pelo bem comum, sendo responsáveis directos por más decisões, más regulações, más fiscalizações. Quer a a nível local quer a nível estatal. Para além dos cenários macabros evidentes em cobertura jornalística, um estudo da Quercus veio demonstrar que um quarto dos municípios de Portugal Continental não cumpre as suas obrigações no âmbito da Legislação de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Há 72 municípios do Continente que não têm sequer em vigor o “Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios” obrigatório por Lei!
Por curiosidade fiz um levantamento das taxas de abstenção, somadas aos votos nulos e brancos, dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 2017, evidenciando-se que muita da população (40% a 50%) dos concelhos de risco não está minimamente preocupada com entrega das chaves do poder. E assim contribui para o estado da sua autarquia, da nação. A fim de entenderem a gravidade da sua ausência no processo decisório, quem não se preocupa com a nomeação dos seus cuidadores talvez também não devesse esperar cuidados de terceiros quando os que ajuda a eleger por omissão falham nas suas funções.
Voltarei a este exercício no dia 2 de Outubro para perceber se nestas autárquicas o choque das chamas descontroladas, com muita culpa do poder local, terá despertado um sentimento de revolta nos cúmplices abstencionistas que os leve a revidar com a queima de quem de direito.
Afinal, a primeira coisa para que servem umas eleições é para votar.
| % Abstenção + % Votos Nulos + % Votos Brancos | ||
| CONCELHO | AUTÁRQUICAS 2013 | LEGISLATIVAS 2015 |
| Alijó | 42% | 53% |
| Anadia | 52% | 51% |
| Águeda | 52% | 49% |
| Arcos de Valdevez | 55% | 62% |
| Arouca | 38% | 45% |
| Caminha | 39% | 50% |
| Castanheira de Pera | 35% | 44% |
| Castelo Branco | 56% | 45% |
| Figueiró dos Vinhos | 36% | 44% |
| Funchal | 55% | 53% |
| Góis | 36% | 44% |
| Pampilhosa da Serra | 38% | 48% |
| Pedrógão Grande | 42% | 48% |
| Penela | 42% | 48% |
| Sertã | 43% | 43% |
| Vale de Cambra | 43% | 45% |
| Viana do Castelo | 55% | 49% |
| Vila de Rei | 34% | 35% |
O fim do opinar classista
As questões laborais voltam a estar na ordem do dia. As notícias apontam para o aumento de abusos e precariedade, a eminência de novas greves em sectores públicos, o mediático caso Autoeuropa. O problema basilar continua a ser a delicada relação entre remuneração vs produtividade vs horários que já abordei no passado remoto.
Sendo uma discussão recorrente existe agora um alto nível de opinar nas redes sociais que só vem demonstrar a fragmentação existente entre as várias classes laborais. Quem exerce actividade no sector debaixo de ataque normalmente tem uma opinião muito distinta daqueles que não entendem os detalhes sectoriais. Para piorar as coisas grandes chavões são utilizados para cavalgar a precariedade e desconhecimento, conduzindo uma forte reprovação social generalizada contra a ‘escandalosa’ luta por melhores condições e direitos. Mais uma vez a aplicação da velha máxima “dividir para reinar”, a uma grande escala, jogando as maioritárias classes espectadoras contra as poucas classes reivindicativas.
Uma vez que será utópico esperar que num curto-prazo o discernimento isento abranja a maior parte da população só vejo uma forma de trazer paz social e justiça laboral a este tipo de negociações, a criação de sindicatos ou ordens sectoriais apartidárias que, em conjunção com governo e patronato, definam as condições basilares de trabalho e remuneração para cada classe de trabalhador e sector económico.
Isto implicaria que cada sector de actividade, coercivamente todos os seus trabalhadores, estariam abrangidos pela área de influência e jurisdição de uma única destas entidades reguladoras, cada uma delas especializada na sua área de actuação. Em consequência seriam extintos múltiplos sindicatos, que actualmente se sobrepõem, bem como deixaria de existir um salário mínimo nacional, existindo antes vários, um por cada classe e sector de actividade.
Com transparência estariam disponíveis para consulta pública os detalhes dos pilares de cada actividade, em termos de formação necessária, direitos e condições de trabalho, progressão na carreira, estatísticas de comparação com outros países, etc. Apesar de transversais ao sector poderiam sempre existir negociações particulares em casos especiais e temporários como o da Autoeuropa.
Desta forma eliminaríamos as hordas de trabalhadores explorados que, após uma análise básica alicerçada na comparação cega de salário bruto e carga horária semanal, se indignam com as exigências de trabalhadores ‘claramente’ em muito melhores condições do que as suas. Passaríamos sim a ter trabalhadores tranquilos, protegidos por grandes estruturas credíveis que, ao entender as particularidades de cada profissão, conseguem proporcionar-lhes um ambiente estável e equilibrado de trabalho, bem como o espaço e tempo adequados ao desfrutar da sua vida pessoal.
Isto não é nada de novo nem inovador. Faz-se nos USA, Suécia, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suiça entre outros.
A mudança de paradigma é simples. Ao invés de termos uma maioria descontente a pretender que os outros sejam nivelados pelo que é a sua referência, baixos ou nenhuns salários, alta carga horária, abusos patronais, teríamos sim um puxar para cima de todos os que se encontram abaixo do nível mínimo de dignidade e respeito.
Seria assim posto fim aos tiros nos pés daqueles que opinam sobre actividades que desconhecem. Que ao fragilizar a posição de quem exige melhor recompensa pela sua dedicação acabam por contribuir para o fortalecer e perpetuar das condições precárias em que eles próprios se encontram.
Até lá patronato e governo agradecem a continuidade desta luta de classes invejosas.
O emprego turístico
Ao olhar para uma taxa de desemprego no nível mais baixo desde Fevereiro de 2009 não sei se fique semi-alegre se fique semi-triste. Isto porque ainda me lembro da inesperada crise económica que se seguiu em 2010-2014 fazendo disparar o desemprego.
Alguns alertam que esta descida da taxa de desemprego é sazonal, relacionada com a necessidade de resposta à época alta do turismo. Assim o parece ser, com este sector ainda não saciado a procurar mais cinco mil trabalhadores só no Algarve.
Seria um orgulho para todos nós que o agora fulcral sector do turismo fosse exemplar nas suas práticas laborais e não um predador das presas fáceis condicionadas ao habitat da precariedade. Infelizmente o contentamento nacional satisfaz-se com o despregar da bandeira do crescimento. É verdade que em 2016 o turismo algarvio proporcionou um extra-ordinário crescimento de 20% dos lucros, num bolo total perto dos mil milhões de euros! Em contrapartida aumentam os contratos a termo com baixa remuneração.
Bem sei que ainda não há muito tempo existia uma grande crise, até no turismo, o que nos deveria levar a valorizar o ter emprego como uma grande melhoria face à sua recente inexistência. É uma ideia que tem a sua força, até falarmos presencialmente com algarvios, tristonhos, desapontados, derrotados, que apontam este trabalho sazonal, pesado física e psicologicamente, com carga horária exigente, mal pago, como sendo o grilhão que os mantém numa vida perto da simples subsistência, sem margem financeira para meras saídas sociais quanto mais para eles próprios praticarem o turismo noutras zonas de Portugal. São rodas de um perpétuo movimento circular, trabalhar arduamente uns meses, receber um parco subsídio de desemprego nos restantes, sem qualquer estabilidade, sendo ruminados ao sabor dos empregadores.
Aproveitando a saúde e importância do sector o Governo deveria focar-se na empregabilidade do turismo, promovendo a justiça social nas remunerações e condições de trabalho. Imediatamente pôr fim a estágios não remunerados, definir ratios de contratos com e sem termo, promover a criação de salários de base fixa com componente variável indexada à facturação mensal ou à época (baixa/média/alta), criar outras medidas que incentivem e garantam a qualidade dos serviços através de uma maior taxa de retenção, motivação e contínua formação dos profissionais do turismo (a cargo dos empregadores e não dos centros de emprego). O Governo deveria proteger o sector da sua própria ganância já que a desqualificação e desmotivação dos seus colaboradores tem impacto directo na qualidade de um serviço que tanto depende de uma atenciosa relação com o público.
Como português fico bastante incomodado sempre que sou servido por pessoas sem qualquer qualificação para o atendimento ao público ou quando o sou por pessoas qualificadas visivelmente esgotadas a trabalhar nos limites. Fico-o porque sei que podemos dar mais e melhor serviço desde que Gestão de RH signifique Gestão de Recursos Humanos e não Gestão de Resíduos Humanos.
O sector do turismo tem muita margem de melhoria para demonstrar que as pessoas não devem ser o meio para uma economia saudável mas sim que a economia é o meio para o melhorar das condições de vida, bem estar e felicidade das pessoas. Todas as pessoas, não apenas clientes e patronato.
Deveria ser mais do que suficiente que os lucros crescessem apenas 10%, ou mesmo 5%, até que fosse atingida a justiça laboral, sem que os trabalhadores do turismo continuassem a ser também turistas do emprego.
Portugal eco-friendly ou eco-fucker?
Um estudo recente aponta para um futuro de secas extremas na península ibérica, que poderá conduzir à fricção na gestão de recursos hídricos partilhados por Portugal e Espanha. Será antecipado o catastrófico cenário de conflitos geopolíticos por disputa de recursos vitais como a água? O passado recente não tem sido abonatório para Portugal, com Espanha a colocar os seus interesses muito à frente dos nossos.
O que pode fazer Portugal? O que está ao seu alcance. Ser ética e ecologicamente exemplar para que não tenha telhados de vidro na altura de ‘atacar’ diplomaticamente a inaceitável posição do país vizinho. Se é a água um recurso partilhado sem o qual não poderemos viver, se o cenário projectado não é promissor, faz todo o sentido que ataquemos o problema analisando como gastamos água, acelerando a inevitável alteração dos hábitos de produção e de consumo rumo a um país inatacável em matéria de eco-sustentabilidade.
Portugal deve ponderar se a longo prazo será vantajoso promover actividades lúdicas sugadoras vorazes de recursos hídricos, se é inteligente manter uma gestão florestal indiferente aos volumes de consumos de água directo e indirecto (via combate a incêndios), se deve continuar a tolerar altos níveis de poluição, se faz sentido manter em marcha lenta a evolução do nível de eficiência energética nacional, bem como se não chegou a altura de redefinir a política de (des)incentivos à produção agrícola procurando promover a produção sustentável de alimentos saudáveis.
Para demonstrar ao mundo o seu empenho no combate à emissão de CO2, principal motor das alterações climáticas, Portugal deveria também acelerar a sua transição para uma economia o mais verde e circular possível. Até porque além da seca outro dos efeitos das alterações climáticas será a subida considerável do nível do mar. Situação que afectará Portugal em toda a sua costa, no que será uma enorme machadada no tão importante turismo.
E aqui surgem eventos contraditórios. Não há muito tempo foi travada, e bem, uma aventura petrolífera Algarvia, do nada surge agora uma acelerada aventura Alentejana. Ambas são ameaça ambiental idêntica em zona geográfica distinta, apenas com rentabilidade garantida para corporações, com vantagens duvidosas para a nação. O anular de apenas uma delas levanta a questão se o motivo terá realmente sido a defesa dos interesses de Portugal ou simplesmente o facto de ter execução entregue a corporações que não estão nas boas graças da governação.
Seja como fôr estamos num momento decisivo. A posição que Portugal assumir neste momento definirá não só o seu retrato ambiental como também a sua margem diplomática para negociações sobre recursos naturais partilhados. Portugal terá de escolher se se quer assumir como um admirável percursor de novas estratégias de eco-desenvolvimento, disposto a dar o tudo por tudo para arrepiar caminho, adiar ao máximo a chegada de grandes tormentas, ou se quer, de forma camuflada, limitar-se a reagir aos problemas vindouros, explorando ao máximo o sistema económico vigente, esgotando de forma predatória os seus próprios recursos naturais a qualquer custo, impulsionando uma economia extractiva global altamente poluidora, apenas para garantir um presente política, social e economicamente confortável.
Até ver parecemos caminhar rumo ao segundo cenário, enrolados numa emaranhada teia político-corporativa pouco preocupada com os sacrifícios e hipotecas irrecuperáveis a realizar para garantir lucros chorudos.
Espero que ainda vamos a tempo de acordar para estes temas, que venhamos a ser tão vigorosos a expressar a revolta face a este rumo como o fazem muitos dos estrangeiros radicados em terras Algarvias e Alentejanas. Parece que mesmo não sendo de cá sabem melhor do que nós compreender a projectada finitude dos nossos delicados tesouros naturais.

Silly Reason
Meus amigos, temo que a perdida tradição da “silly season” venha progressivamente a ser substituída por uma nova época, a da “silly reason”.
Cada vez mais os acontecimentos sucedem-se sem tréguas, talvez desregulados pela indefinição climática que desconstrói a outrora estável e acolhedora estação do Verão. Inesperadamente, na preparação ou mesmo em plenas férias, há situações graves a acontecer a todo o momento, a concentrar atenções do público, a exigir prontas reacções de governo, entidades e oposição. E quem paga por isto? A razão. A pressa de justificar, relativizar, retirar do radar mediático, leva ao atropelo da razão absoluta por manadas de razões desorientadas, vindas dos atalhos por onde deambulam fragmentadas, espantadas por precários caçadores de meias-verdades.
Também eu gostaria muito de encontrar A razão de cada acontecimento. Para contribuir na sua busca deixo algumas questões pisteiras. Haja faro e bom-senso!
O que tem maior validade? Uma análise demorada, científica, detalhada, do alto volume de informação recolhida, ou uma conclusão de uma investigação policial apressada, sob pressão mediática, ainda durante o decorrer do acontecimento? Poderia a segunda conclusão ser garantida sem a prévia consideração da primeira?
O que surgiu primeiro? A necessidade de guardar armamento ou a tecnologia dos sistemas de vídeo-vigilância?
Uma esquerda que consente cativações, sem exigir o seu detalhe, pode agora descartar-se de responsabilidades? Quando se assina um acordo vinculativo não é costume a definição detalhada de limites e condições a fim de evitar passar cheques em branco?
Numa época em que se batem todos os recordes (menor défice, maior tributação fiscal per capita, maior volume de cativações orçamentais) será desta que veremos uma descida acentuada da dívida pública?
Apesar da reversão de cortes salariais directos, o bater do recorde da colecta fiscal será indicação de que estaremos realmente a ser alvo de uma austeridade encapotada? Tal como afirma o maior especialista nacional do tema? Se quem quis ir além da Troika agora reclama que este governo corta em demasia quererá isto dizer que já estamos além do além da Troika?
Quando motivos éticos não justificam demissões na hora de ministros e secretários de estado, que depois obtém essa justificação tardia por via judicial, será chegado o momento de redefinição da ética em si? Ou bastaria acelerar a justiça?
Por ventura foram alargados os deveres do Presidente da República obrigando-o a ser o relações públicas do governo em funções? Deverá neste mandato ser ele a principal face de todos os acontecimentos? Cabe-lhe agora fazer as primeiras, as intermédias, as últimas declarações? Sempre apaziguadoras ao estilo “Não passa nada”, “Está tudo sob controlo”, “Vamos apurar responsabilidades e melhorar”?
O estranho é que algumas destas questões parecem responder-se a elas próprias, não deixando de ser curioso existirem tantas confusões para chegar à razão evidente. Estaremos a ser governados por tolos que se deixam enganar por razões tontas? Ou por sábios que nos tomam por tolos?
Lamento mas não doo
O ciclo repete-se, cenário de tragédia potencial, tragédia efectiva, solidariedade catártica, reconstrução do cenário inicial.
Lamento mas desta vez não doo. À custa da minha reputação social tentarei quebrar o ciclo. Farei-me de sonso. Fingirei acreditar no sistema e nas comunicações oficiais. Confrontarei o sistema com a sua própria ilusão, exigirei dele o que é esperado.
Creio assim que a previsão meteorológica identificou o potencial problema atempadamente tendo sido executados todos os protocolos de prevenção para o que seria uma “tempestade perfeita”.
Confio plenamente que as forças no terreno estavam devidamente articuladas, dotadas de todos os meios de comunicação necessários à evacuação de populações em risco através de rotas seguras.
Fico descansado com o facto das populações em zona de alto risco receberem formação sazonal sobre o que fazer em caso de emergência catastrófica, apesar da hipótese remota desta eventualidade tendo em conta a gestão florestal preventiva e adequada.
Atribuo à ira dos deuses o infortúnio de tantas mortes num curto espaço de tempo, julgo que segundos de profanidade divina, recusando a possibilidade de que estas tenham ocorrido ao longo de horas, espaço temporal suficientemente lato para que mesmo meros humanos, capacitados e organizados, conseguissem retomar grande parte das rédeas do seu destino.
Jubilo com as garantias dadas por protecção civil e governo de que foi feito tudo o que devia ser feito, bem como de que não faltaram meios para o combate ao fogo nem faltará o apoio de todo o tipo às vítimas e lesados, recorrendo-se aos fundos de emergência nacionais e internacionais existentes para esse efeito.
Confio totalmente na retaguarda logística que deve apoiar as forças no terreno garantindo a todo o momento o fornecimento autónomo de mantimentos, bebidas e outros consumíveis de alto consumo nesta altura.
Agradeço a objectividade honesta, assertiva, transparente, do jornalismo, da comunicação das entidades oficiais, direccionadas a uma população formada num sistema educacional de excelência que a torna intelectual e emocionalmente capaz de lidar com a realidade.
E toda esta organização, todo este conhecimento técnico, todo este profissionalismo, garantido pelo simples cumprir das minhas obrigações fiscais!
Que pena tenho daqueles países que dependem exclusivamente da boa vontade, da solidariedade local e nacional. Onde os bravos se deslocam para o terreno sem saber se terão o que comer, o que beber, onde dormir durante a sua deslocação, onde não existe apoio logístico de armazenagem de raiz nem para guardar picos de donativos caóticos caso a população decida responder aos apelos sofridos. Pobres países onde grandes empresas, delapidadas por uma gestão baseada em boa vontade, esventradas de milhares de milhões de euros que acabam escorridos do orçamento do Estado, abrem apesar de tudo simpáticas contas solidárias para colar a sua marca à boa vontade do bom povo contribuidor, onde as linhas de valor acrescentado solidárias continuam a gerar valor acrescentado para terceiros, onde associações de solidariedade correm o risco de colocar em causa as sua poupanças milionárias, os seus avultados investimentos financeiros, se forem chamadas à participação de larga escala em acções beneméritas. Afectuosos países onde até a comunicação social, as entidades oficiais, baseiam o seu discurso numa condescendência branqueadora de falhas porque não se pode correr o risco de causar a revolta nas boas gentes, nas boas vontades, sobretudo quando ainda agora começou a guerra que de tanta carne para canhão vai precisar.
Felizmente estou no meu idílico Portugal. Onde o Estado, contribuintes, jornalistas cumprem o seu papel. Sei que foi difícil chegar aqui. A dado momento foi preciso o mais complicado dos tipos de afecto. O dizer não a um recorrente estender de mão. Forçando os traquinas a perceber que não podem mais depender, nem dispor, da vida, da vontade dos outros, fazê-los perceber que detêm nas suas mãos todo o poder para a mudança e definição das coisas, tal como foram mandatados em lotadas eleições. Não há construção de carácter como o choque frontal com a responsabilidade própria, com as consequências directas dos próprios actos. E pensar que tudo começou com um angustiante colectivo “Lamento mas não doo”.
A teoria do big bang-bang
Numa única visita o bobo bully americano foi peremptório e esclarecedor. Depois de um lucrativo armar das arábias, lamentar-se num muro tão diferente do que quer construir, seguiu para estarrecer o Papa, para por fim avisar os seus aliados de que devem pagar mais pela garantia da sua defesa, avisando-os também que terá de repensar a adesão ao acordo de Paris sobre o clima. Foi de tal forma que nem os experientes líderes europeus conseguiram esconder a sua estupefacção perante os actos e os ditos deste novo líder supremo.
Em resposta Merkel alerta que a Europa deverá deixar de olhar para os Estados Unidos como um amigo do peito em quem se ponde confiar, de quem se pode depender, serão agora mais como um velho conhecido simpático do qual esperamos que não ajude nem atrapalhe. Em arrasto inclui o Reino Unido neste reajuste relacional. Caso isto se traduza em medidas reais falamos de uma potencial revolução da militarização europeia.
Trump é um empreendedor nato, com uma forte mentalidade comercial, o seu discurso passado e presente indicia que por si os custos de intervenções militares americanas, supostamente para defender interesses internacionais ou de terceiros, devem ser partilhados por todos os beneficiados. Desta forma a agenda americana seria executada com muito menor peso na factura orçamental. Uma transição do papel de ‘polícia benevolente’ para ‘mercenário benevolente’.
Por outro lado na Europa existem dezenas de milhares de militares americanos espalhados por centenas de bases. Qualquer tipo de retaliação à nova orientação americana passaria por diminuir radicalmente a manutenção da sua presença militar em solo europeu. Desta forma seria relançada a agenda da constituição de um exército europeu unificado, de uma modernização do armamento europeu, que permitisse a independência plena não só na defesa territorial como na intervenção internacional.
A nível mundial continua o reforço de armamento por parte das grandes potências, como que se preparando para cenários de braço de ferro em que o poder de fogo das suas Forças Armadas será músculo essencial.
Mais uma vez a força parece ser a única via conhecida pelos camelos que percorrem o deserto de ideias sem nunca se cruzar com o lendário oásis verdejante que uns loucos decidiram desmilitarizar.
E assim se eterniza a guerra psicológica, a roçar o terrorista, de imposição da paz pela força das armas ao invés de inviabilizar a guerra pela ausência de armas.









