Monthly Archives: Julho 2015

Recital de Trombone

Quando tantos se indignam com o elevado custo da medida de coacção decretada, quando outros consideram vergonhosa a aparente dualidade de critérios da nossa justiça, exigindo prisão sine die, quando até os mais moderados clamam a pulseira electrónica como o mínimo de humilhação exigível, eu sinto-me na obrigação de discordar de todos. Compreendo que a justiça é como a mulher de César, não lhe basta ser séria, é preciso dar espectáculo, mas por estranho que possa parecer, é mesmo disso que se trata.

Julgo que a maior parte dos meus concidadãos não compreendeu verdadeiramente o que se está a passar. Bem sei que as eleições já estão marcadas, que o país vai de férias e que a época para a resolução sem sobressaltos de instituições bancárias já começou, mas quanto a mim, tudo isso são meras e felizes coincidências. Daquelas que existem, mas que ao caso não interessam nada.

Não se trata de justiça, mas sim de cultura. É musica! Seja Clássica, Jazz ou Contemporânea, o talento do protagonista deve ser salvaguardado. O repertório é vastíssimo, seja a solo ou com orquestra. Não existe entre nós, outro trombonista com tamanho folgo. Nunca ninguém ouviu notas tão graves ou tão agudas como aquelas que facilmente pode executar. É um virtuoso! Aguardo com elevada expectativa o anúncio da data, hora e local do seu primeiro recital. Caros compatriotas, o homem não está preso, está guardado.

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As 50 Sombras de Grey

Visualizadas as entrevistas recentes é surpreendente, mesmo impressionante, a forma com que Pedro Passos Coelho surge a enfrentar as questões que lhe são colocadas. Com um vigor, discurso e postura transmissores de uma certeza e confiança apenas capazes de ser desmontadas por quem esteja devidamente informado e preparado. O que tendo em conta o perfil do nosso eleitorado se traduz num risco real de reeleição!

Numa analogia rápida e contemporânea Passos Coelho está para Mr. Grey como o eleitorado está para Mrs Robison. Este último desconfia que o primeiro aplique métodos não ortodoxos, até dolorosos, para atingir a felicidade e apesar de todas as evidências sucumbe ao seu encanto e carisma, assumindo o risco  de um ou outro excessso.

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Também recentemente tivemos um Paulo Portas muito humilde e agradecido por nele acreditarem, satisfeito com o seu trabalho de bastidores que potenciou a economia portuguesa e definiu limites aos caprichos de Mr. Grey. Paulo Portas foi de certo modo a safeword mais eficaz que quaisquer greves, manifestações ou alarido em redes sociais.

E mesmo, mesmo, fresquinho o nosso PR também entrou ao barulho sendo que neste caso, como se fosse possível outro papel, Cavaco Silva foi o conservador defensor os bons costumes da posição do missionário que tanto prazer lhe deu no passado.

António Costa por sua vez está claramente numa fase de definição e preparação da estratégia e discursos a assumir tendo perdido muito do fulgor de outrora. O António Costa de hoje é capaz de não ser suficiente para abalar a coligação, até porque pertence a uma força política que também tem alguns pés de barro que lhe dificultam o firmamento.

Todos cumprem o papel esperado neste posicionamento na pista de tartan, excepto Cavaco Silva. Que ao invés de apontar baterias à abstenção, galvanizando os portugueses para exercer o seu voto em consciência e liberdade democrática, decide condicionar o jogo à partida, reduzindo os concorrentes aos do costume, fazendo figas para que um deles consiga uma maioria absoluta ou em último caso para que ambos os três formem a tão desejada coesão nacional. A mim parece-me um contra-senso tendo em conta que a democracia servirá exactamente para acabar com toda e qualquer forma de absolutismo.

Em breve entraremos todos na silly season para depois sermos chamados à definição do rumo que queremos dar ao nosso Portugal. A escolha não vai ser fácil, existirão muitos logros e cortinas de fumo que impedirão o conhecer de certas vias. Espero no final ter a coragem e discernimento para ser um mexilhão livre ao invés de uma Mrs. Robison agrilhoada.

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Por acaso

Por acaso a ideia foi dele, mas a modéstia que o caracteriza impediu de se gabar deste inquestionável mérito, deste momento único na sua carreira internacional.

Sejamos justos, colocar a mão no ar, solicitando a palavra numa cimeira daquelas não é para todos. Requer coragem e determinação. Não é só a questão de saber o que vai dizer, é mesmo o risco de ficar ali especado horas a fio. Quantos de nós arriscariam a humilhação de não chegar a dizer de sua justiça?

É nestes momentos que os grandes homens e as grandes mulheres fazem a diferença. Assim foi durante a negociação do Armistício. O seu a seu dono! Há registos que o confirmam. De uma vez por todas, a ideia foi dele.

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O Armistício

A semana começou com a noticia do armistício. O acordo demonstrou a inconsequência prática da democracia. Não, não me refiro à vontade dos gregos, refiro-me à vontade dos alemães. Os contribuintes alemães não querem enviar nem mais um cêntimo para a Grécia. Irrelevante vontade que será olimpicamente ignorada. Curiosa esta sintonia entre a vontade popular e a acção dos governos de cada país. Os gregos não querem austeridade, mas tê-la-ão. Os Alemães não querem pagar, mas pagarão. Se os primeiros ignoram a insustentabilidade da sua vontade no contexto da moeda que querem manter, os segundos ignoram quão lucrativos são estes empréstimos para o seu Erário Público. Pelo menos enquanto o ciclo não se quebrar. Sendo evidente que cedo ou tarde quebrará, os seus governantes procuram obter garantias, de preferência totalmente sob o seu controlo. Alguns afirmam que tal descaramento visava apenas a recusa da outra parte, a qual afinal aceitou. Perde quem ganha e quem perde nada ganha, nem tempo. Haverá propósito? Não creio.

Se até aqui apenas alguns suspeitavam do défice democrático na União Europeia, hoje todos temos a certeza que tudo é feito à revelia da nossa vontade. Queiramos ou não, o nosso voto é irrelevante no contexto desta União Europeia feita ao centro das conveniências e nas costas das populações. O único órgão europeu cuja eleição é democrática, o Parlamento Europeu, foi apenas palco de propaganda. Nada de decisivo por lá se passou. Apenas o informal Eurogrupo parece existir. Mandam os ministros das finanças e em todos eles manda um, o alemão. A união transformou-se no contrário daquilo que se propunha ser. Não promove a paz, promove o conflito.
Este Armistício não resolve nada, e por isso não vigorará muito tempo.

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De refugiados a emancipados

Ao cruzar os números da vergonha europeus com os números da vergonha americanos é impossível não ficar completamente indignado com a perpetuação do problema e todo o desperdício de verbas e vidas humanas.

Temos grandes potências mundiais a embarcar em guerras libertadoras que depois abandonam os povos libertados num caos político, militar e social, que os condena ao êxodo ou subjugação às acções de novos grupos organizados que parecem surgir do nada.

Para além da destabilização directa dos países que sofrem intervenção no terreno, criam-se focos de problema nos países circundantes com a pressão inerente ao acolhimento de enormes massas de refugiados. Posteriormente as mesmas potências beligerantes lavam as suas mãos gastando verbas exorbitantes através da ONU na criação de zonas tampão denominadas “campos de refugiados” onde são garantidas as condições mínimas de sobrevivências.

Aparentemente tudo isto é uma máquina muito bem oleada. Certamente que alguém lucrará com o contínuo esforço financeiro inerente à guerra e à sustentabilidade dos campos de refugiados.

Certo é que passaram décadas onde se comprova que existe um ciclo contínuo de miséria humana e destruição de estados soberanos. Talvez porque a guerra noutras paragens, por ideais comuns mas em terras que não as nossas, é desprovida do verdadeiro sentimento de reconstrução e compromisso ad eternum, do deixar de herança às próximas gerações um território e uma sociedade evoluídas. Estas são o tipo de guerras de toca e foge. Basicamente destrutivas e incapacitantes de um pretenso inimigo que acarreta ao mesmo tempo o desamparo e desnorteio por parte dos que residem naquelas paragens.

Julgo que tal como acontece a muitos outros níveis é chegada a altura de repensar como melhor investir estas verbas gastas em guerras ciclícas infrutíferas e no estancar/cuidar de populações em fuga. Do meu ponto de vista deveria ser criado um organismo mundial militar que ao invés de fazer a guerra em territórios alheios permitisse sim capacitar uma população de o fazer de forma autónoma. Formação militar e de engenharia (para a reconstrução), instrução de valores sociais e democráticos, capacidade de resistir a incursões terroristas. Como? Simples. Em casos de ameaças a estados legítimos, através do poderio de força militar, este organismo mundial teria legitimidade para criar um campo logístico no próprio território do país em perigo. A criação do campo de refugiados, da zona tampão fortificada, seria executada no próprio território e não num país vizinho. Um forte de defesa intrasponível, possível devido ao poderio de uma coligação mundial. E dentro desse forte ao invés da população refugiada marinar em desesperança poderia ser instruída e capacitada para a realização autónoma da defesa e reconstrução do seu país.

Com isto transformaríamos refugiados em emancipados capazes de lutar as suas batalhas, ganhar ou perder as suas guerras, mantendo a sua dignidade e o seu orgulho nacionalista. Dispostos a morrer na luta pela sua nação ao invés de pela miragem da salvação do bom acolhimento por parte de países desenvolvidos.

As grandes potências ocidentais já demonstraram ser boas a ganhar guerras mas muito más a criar condições para a manutenção de uma paz e estabilidade duradouras (parece que só funcionou nos territórios onde vivem). Talvez esteja na altura de acreditar que dados os meios adequados também outros povos serão capazes de resolver os seus assuntos de forma definitiva pelas suas próprias mãos.

keep calm and get ready for war

o Leão de Nemeia

o-Leao-de-Nemeia

Foi no domingo que o Leão de Nemeia saiu da caverna para mostrar as garras. Velha, esfomeada e doente, a mitológica criatura aterrorizou os sacrossantos mercados. Em “financês” diz-se irresponsabilidade, mas entre mortais fala-se em democracia. Na finança, os deuses não são eleitos, por isso estranham o sucedido. O rugir da criatura surpreendeu. Sem dúvida que está moribundo, mas não está nem tão fraco como se desejava no Olimpo, nem tão forte como celebram os mortais. Como sempre, os resultados são mascarados. A celebração da democracia é quanto a mim ensombrada pelo nível de abstenção, 37.5%. Perante uma questão de sim ou não, mais de um terço dos eleitores gregos não se preocuparam em formular opinião, ou pelo menos em expressá-la. Gostei do resultado, sem ambiguidade o afirmo, mas não posso deixar de sublinhar que apenas 38% dos eleitores gregos optaram pelo όχι. Estranha esta época de mitos e propaganda, mas os clássicos serão sempre contemporâneos. Eis o primeiro trabalho de Hércules, sufocar o Leão. Porém, não lhe vestirá a pele durante muito tempo, pois a constelação cairá.

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