Monthly Archives: Maio 2014

VOLTA-FACE! STOP.

Cedário

Escreveu aquilo com um calor de segredo.

Volta-Face! STOP-A apreciada guitarra

Como nos mercados, nunca saberemos se a precedência se passou com a oferta se com a procura; o certo é que o mancebo se deitava com o cabrão e se levantava com a cabra, ocupando o quarto de hora académico com as poucas orações que sabia e o puxar de orelhas à cama rebuliçada desde que o badalo repicara a derradeira.

Era olhado como um valdevinos na Academia, visto até como femeeiro! Veja o que são as más línguas.

O facto de emparelhar com aquele velho sargento-mor conhecedor da vida real, de amiudar nas melhores casas da Rua Direita, ligeira tergiversação do curso a que o propuseram, e de ter horários inconsonantes com os restantes, tinha-lhe até melhorado o vocabulário, do serrano para o universitário como se leu finalmente em ‘B’. Conhecem-se hoje até, e pretende-se demonstrativo da aplicação do académico ao falar Coimbrão, algumas propostas à inclusão na Gíria dos Estudantes, de expressões vertidas no calor dum momento, numa refrega dialética ou outro raciocínio metódico, sendo importante referir para o bom andamento do que aqui se leva em conta que, muito do que foi dito, o foi também graças à companhia do Alfredo, desde a Pampilhosa, e à abertura de espírito que davam os tintos servidos para amparo do coração quando ouvido um fado mais apelativo do sentimento. É também inegável, e por isso se confessa, que muito do que aprendeu o deve a reputadas presenças femininas de arejados pensamentos e fazeres, que alternavam entre a costura e os trabalhos domésticos.

Ora adeus!… e o resto são maldades…

Mas regressemos a Chaves e aos preparativos da quadra que se avizinha, que de ruindades está o Mundo cheio e o que nós precisamos é de paz e harmonia. É ou não é?

Os cuidados da Maria do Amparo, já se podiam sentir nos arranjos da casa. Enquanto a Senhora Dona Maria do Carmo bordava uma toalha de consoada carregada de azevinhos, prendinhas, laçarotes e meninos Jesus, ela arejava o quarto do estudante, trocava as naftalinas, escovava colarinhos, mudava cortinados, encerava o soalho e esperava ansiosamente que o seu menino, porque também o era, regressasse de tão longe para o aconchego do lar «o meu Bastiãozinho, quase doutor, vejam lá», lacrimejava a Maria do Amparo ao limpar o pó do “passepartout” de prata que lhe tinha oferecido pela comunhão solene.

O capitão, esse, bufava aos quatro ventos a impaciência da espera por um telegrama urgente «estes serviços públicos!…» precedente de Coimbra com destino ao Posto dos Correios de Chaves remetido por Sebastião Júnior para Sua Excelência Sr. Capitão Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção.

Mandava balanço! Um filho assim, quase doutor a tratar o pai com aquela pompa… assim sim, valia a pena a despesa da alta mesada, os cuidados num reforçozinho quinzenal, sim, que um homem tem as suas necessidades… e outros mimos a que não se furtava de enviar ao cuidado do Malaquias, agora sargento-mor no Aquartelamento de Sant’ana. Um camarada!

Chegada a missiva «finalmente, pôxa!…», sentou-se nos bancos fronteiriços ao posto e «ora vamos lá ver… deve ser o dia e hora da chegada», desembainhando a unha mindinha para abrir o sobrescrito, ó Sr. Capitão!, então! foi derrubado com uma frase, que o tombou redondo para cima duma senhora sentada ao seu lado que soltou um gritinho de aflição ao ver esbardalhada a corpulência castrense do Sr. Capitão. Ai Jesus!; disse. Perdeu os sentidos; viu-se.

Imediatamente se chamaram uns recoveiros que, como era perto, o pegaram em charola e processionalmente o levaram ao repouso do quarto. Que maçada; o senhor doutor já vai a caminho.

A Sra. Dona Maria do Carmo atarantada com o acontecimento segurando numa mão o copo com água açucarada e na outra um papelito orientava a Maria do Amparo que submetia aos lombos do Sr. Capitão uma almofadinha bem pensada «por môr de lhe amparar as cruzes, Sr. Capitão».

Quando o oficial veio a si, pediu recato e disse à esposa que «não se faz!, tantos cuidados desde catraio, a melhor escola, os melhores cortes no alfaiate, Coimbra… para agora, valha-me Deus, para agora me faltar ao respeito com uma só frase… não se faz…» fizesse a fineza de ler o desaforo e falta de respeito no imperativo duma frase que lhe mandava seu filho.

Dona Maria do Carmo numa solidão materna que só as progenitoras têm e só elas entendem, leu pausadamente, e sentou-se; tirou da manga o lencinho bordado onde fungou, e «coitadinho do meu menino, sempre tão precisado, quanta ternura e respeito em escrever em maiúsculas o nome do Capitão. Até no endereço, quanta consideração. Que lhe terá acontecido para estar tão desprevenido, coitadinho. Uma frase que não é um pedido mas sim, um lamento de desespero de alguém que se antevê na penúria. Ai faz-me tanta pena…»; erguendo-se a custo, requereu:

– Então quando lhe vai valer nesta aflição Sr. Capitão?

Na credência, jazia envergonhado um telegrama amarrotado, onde espreitava uma singela frase, três palavrinhas apenas, o mais que a aflição pôde gastar numa mensagem:

PAI! Mande-me dinheiro. STOP

FIN(almente)

 

Da figura: de Celestino Alves André (zona do Arco da Almedina – entrada do “Quebra Costas”) evocativa do fado [ou canção] de Coimbra. Tributo da J. de Freg. de Almedina à cidade de Coimbra. Inaugurada no dia 18 de Julho de 2013. As foto(s), que agradeço, são de Pedro Coimbra, subtraída(s) do http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/

Nota: A apreciada guitarra não pertence aos acontecimentos nem à sua data; que se desconhece.

 

 

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Europeias 2014

Que celebração, que vitória! A maior força politica nacional, a abstenção, mostrou a sua raça. Esmagadora. Não se trata de rejeição, nem preguiça. É pior. É convicção! Cada um olha pelo seu umbigo e salve-se quem poder. Não é bonito, mas é verdade. Não escolhem mas elegem. Serão 21 deputados. Um deles foi eleito com menos de 240.000 votos. Quem é ele? Um empreendedor, está bom de ver: Qual Manuel Sérgio dos dias de hoje, fez aquilo que ninguém faz, observou os números. Compreendeu algo muito simples: Se a maioria não vota, cada voto vale o triplo. Nem necessitou de grande orçamento para campanha. Mal de nós se em vez de representar quem o elegeu, optar como os demais, por se representar a si próprio.

Os verdadeiros resultados. Fonte:  http://www.europeias2014.mai.gov.pt/

Os verdadeiros resultados da europeias 2014
Fonte: http://www.europeias2014.mai.gov.pt/

Os “vencedores” de ontem obtiveram o voto de 10% dos inscritos, e os “derrotados mas pouco”, 9%. Fascinante não é? Os partidos do regime, representarão um quinto dos eleitores (20%). Claro que juntos elegeram mais de metade dos deputados ao parlamento Europeu. Não é bom? É óptimo… Talvez seja o início do fim da hipocrisia, da diferença fingida, da alternância sem mudança. Os apelos de sua excelência, el Rey de Boliqueime serão finalmente ouvidos. Pacto de regime, união entre todos, pois de outra forma não existirão maiorias absolutas nas próximas legislativas. Clarificador. Eu por mim, mantenho o apelo à “dictadura”.

O que dizer das mais de 250.000 pessoas que se deslocaram às respectivas assembleias de voto para anularem o dito, ou o entregarem em branco? Agradeço o seu gesto, simbólico mas pleno de significado. Foram lá. Graças à lei eleitoral, também eles engrossaram as fileiras da força oculta, dessa vontade não expressa que é a abstenção, imponente que sem ambiguidade disse: está tudo bem, façam como entenderem. Eles agradecem. Assim farão.

Adeus Troika! Olá Mercados! Olá Eleições!

Já é oficial: A Troika foi-se embora! O programa chegou ao final e o Governo optou por não querer um programa cautelar. Ou seja, a Troika foi-se, pelo menos oficialmente, embora! Vamos lá ver quem é que aterra amanhã na Portela depois da noite de hoje…

Devemos muito à Troika! Graças a ela o Sócrates foi-se embora e nós pudemos matar saudades de ver o Portas outra vez ministro: qual peru engalanado rumo ao seu sempre sonhado Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas mais, o Paulinho das Feiras, pôde inaugurar o novo cargo da República, Vice-Primeiro Ministro. E com ele todos nós vibrámos, por termos mais de menos, que dará sempre mais. Ao lado do famoso líder da JSD, Pedro Passos Coelho, formaram uma dupla que ficará nos anais da história.

Graças a estes senhores, aprendemos muito sobre nós. Impossibilitados de reflectirmos sobre nós próprios e o nosso passado recente, Passos Coelho fê-lo por nós, fez-nos ver a nossa real dimensão: país pobre, corrupto, improdutivo, com vícios insuportáveis de pagar, com direitos impensáveis, com um Estado Social que não poderíamos nem merecíamos ter. Famílias endividadas souberam que não se podiam ter endividado e que teriam que pagar não só as suas dívidas (o luxo de se comprar casa e ter um carro… como se almejassem ter um nível de vida comparável aos dos restantes cidadãos europeus) como as dívidas que elas não contraíram.

Os trabalhadores viram com os seus salários diminuídos porque não eram produtivos o suficiente, e por isso passaram a trabalhar feriados e a ganhar menos pelas horas extras, em contrapartida pagariam mais IRS, para não acusarem o governo de diminuir tudo (e para não falar nos outros direitos laborais completamente varridos por este governo em sede de desconcertação social). É que os rácios do trabalho sobre o capital teriam de se aproximar dos níveis da Alemanha (o famoso modelo alemão, que anda aí fazer correr tinta em papers académicos e jornais da especialidade), todavia ninguém se lembrou que os nossos níveis de capital são muito inferiores e o nosso modelo produtivo também, logo a nossa capacidade de acumulação de capital também o é. Todavia eis que o custo marginal do trabalho (e aqui já se lembraram da nossa estrutura económica) não se deveria aproximar à Alemanha, mas antes aos países com os quais competimos a nível internacional: o sudoeste asiático.

Desempregados dependentes da segurança social ficaram também a saber que afinal não tinham direito aos apoios para os quais descontaram, que é para não termos dúvidas: a Segurança Social não é a Santa Casa da Misericórdia. E para terem direito ao subsídio para o qual descontaram passaram a ter que fazer apresentações periódicas e frequentarem cursos de formação, durante os quais deixam de fazer parte da taxa de desemprego, contribuindo assim para o melhoramento das estatísticas nacionais.

Os jovens desempregados também levam da Troika uma lição de vida: se estão desempregados é porque não são empreendedores. Neste país, os jovens ou emigram ou criam empresas, que este país não investiu tanto na educação para agora os jovens estarem em casa no facebook (já diz a Isabelucha Jonet e com toda a razão).

Ficámos também a saber que somos responsáveis também pelo endividamento dos bancos portugueses. Os mesmos emprestaram dinheiro a famílias pouco conscienciosas (não se fala no endividamento das empresas nem da cultura empresarial deste país, porque isso fica-lhes mal…então coitadinhas, criam postos de trabalho…os créditos são para pagar os chorudos salários de trabalhadores mandriões). Por isso, nada mais justo do que usar o dinheiro do resgate do FMI para injectar nos bancos, afinal o dinheiro é de um Fundo Monetário Internacional…Nada mais apropriado. Afinal a dívida dos bancos não pertence aos bancos, mas a todos nós!

Mas aprendemos mais: aprendemos que os direitos não são direitos, mas regalias. Que afinal o trabalho não é um direito, mas um privilégio. Que isso do direito à saúde, educação, habitação, segurança social são lirismos próprios de um povo saudosista… Só faltava cantarmos todos “a paz o pão habitação, saúde, educação”… paroles paroles.

Mas mais, e esta é uma lição a ter em conta: O Estado não é para ter empresas. Por isso, e para corrigir esses desequilíbrios antigos, privatizou-se a EDP (vendeu-se ao Partido Comunista Chinês….e não, não foi o PCP, foi o PSD) e aumentou-se as PPP na saúde. Chegou-se à conclusão que afinal as PPP’s não são um saco sem fundo para o qual escorre o dinheiro do Estado, mas alternativas à gestão pública que se revelou danosa.

E com tudo isto, e passado este período de intervenção externa, de ocupação estrangeira, voltámos aos mercados para nos refinanciarmos para podermos pagar a nossa dívida e…os juros voltaram a subir!

Mas mais do que juros, mais do que mercados, mais do que dívida… a suposta saída limpa deve-se ao grandioso dia de hoje: as eleições europeias! Como todos sabemos, as agendas políticas e os interesses partidários não podem ser ameaçados. Apesar de todos sabermos que o PSD chumbou o PEC4 do Sócrates porque os portugueses não aguentavam mais austeridade, num oportunismo muito politiqueiro, também agora o PSD bateu o pé e quis uma saída limpa, sem Troikas, sem cautelares, sem manchas para o seu partido, e levando para a campanha eleitoral a vitória da expulsão da Troika que eles mesmos obrigaram a chamar. Nesta semana, e em plena campanha eleitoral, eu fiquei muito descansada pelo conhecimento e pela verdade expressas pelos candidatos do PS e da Aliança Portugal à cerca do que é para cada um deles a crise do país. Para o PS e para Francisco Assis, a crise começou com o chumbo do PEC4 pelo PSD, ou seja, para o PS tudo reside na queda do Sócrates, cujas políticas estavam a fazer Portugal prosperar. Para o PSD o que nos levou à crise foram as “políticas socialistas” do PS. Ou seja, para Paulo Rangel, privatizações, reformas profundas nas leis laborais, desregulações económicas etc são políticas socialistas.  Por um lado, Francisco Assis com uma memória que não vai além dos 3 anos, e o Paulo Rangel sem saber o que é o socialismo, e que o socialismo no PS terminou no dia em que o Mário Soares o decidiu colocar definitivamente na gaveta.

Terminado o período eleitoral cujo resultado hoje se saberá, e terminada mais uma campanha eleitoral europeia onde se fala de tudo mas muito pouco da incomoda Europa, saberemos finalmente que tipo de saída limpa efectivamente temos. Uma coisa é certa, o vencedor destas eleições será, em toda a Europa, a abstenção… Sendo a prova de que uma Europa construída nas costas dos cidadãos tem como resposta em eleições, as costas dos mesmos.

VOLTA-FACE! STOP.

B

(continuando-A)

O hábito que faz o monge, é um costume asseado.

Volta-Face! STOP-In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829

Ao Sebastião(zinho) Júnior, acabados os estudos com assiduidade no Liceu Nacional de Chaves e pintando-se-lhe já o buço, fora dada a rara oportunidade de estudar em Coimbra; essa Lusa-Atenas onde tantos moços cursaram e donde tantos ilustres saíram enobrecendo Portugal. Frequentaria direito, sabida matéria que patrocina as rectidões necessárias ao Mundo conhecido, e tão privadas ao Mundo sentido.

Percebeu-se um bruaá… pelos lugares circundantes, não que duvidassem das capacidades financeiras do casal, nada disso!, e fora um bruaá… recatado, mas Coimbra… para onde era tão raro ir um conterrâneo, mesmo fidalgo. Tinham portanto razão para que se abrissem as bocas, mormente as mais desdentadas e titilassem as línguas. Era acontecimento para foguetório.

Que não, que era muito longe, muitas horas de caminho, que não aguentaria o latim, não tinha saúde, que queria fazer versos, que…

– Sebas-tião! Que… coisa nenhuma! Está decidido! Filho meu será doutor ou honrará as linhagens da família com uma carreira de armas. Passa pelo Albino a quem já lhe encomendei um traje nas melhores fazendas e te espera para tirar as medidas.

– Mas ó meu pai…

O capitão, lançando-lhe um dedo cominatório, comandou:

– Bastião! Sentido! Ou capa e batina, ou rancho e caserna!

– Pronto meu pai, se vossemecê assim quer… está bem, vou-me a Coimbra…

– Assim é que é Bastião! Descan-sar!…

Dona Maria do Carmo, presa a uma vida de compromissos e rendas, tremia de inquietude e já saudade. Era ao seu filho único, ao seu menino, que traçavam ali o destino e ao vê-lo assim, tão aflito e sem poder opinar, também chorou; chorou e tentou uma intercedência:

– Meu esposo, não leve a mal mas, se o Bastiãozinho não quer ir quem sabe…

– Senhora Dona Maria do Carmo; já fiz as minhas démarches. O futuro do mancebo está decidido.

Ficou-se então a Senhora Dona Maria do Carmo, humedecendo um lenço do enxoval sem sonhar que o capitão, homem avisado em deambulações de tropas e entendendo a mocidade ociosa, pedira já a um seu camarada de caserna que o apresentasse aos rapazes grados de Coimbra por forma a desvia-lo da tentação das tabernas e das sopeiras, fontes sabidas de complicações.

Assim o manda a mais antiga usança em se encontrando amigo a quem não se tolheram os cios nem, no caso, os bolores da caserna adulteraram o conhecimento das ruas circundantes. E a mãe que não se apoquentasse, pois o seu menino não assentaria praça em nenhuma república, abrenúncio!, esse regime de vícios e pouca-vergonha em que os rapazolas se faziam homens e logo regrediam, não! Estava já falado para pensão da Ermelinda, mulher de reputação e asseio conhecidos.

Idas as despedidas, os soluços da partida e passada a Pampilhosa, o estômago borboletava-lhe agora com uma saudade intensa, uma inquietação ignorada que o levava quase ao vómito «é este bambolear cadenciado que me tonteia», dizia à sacola da merenda enquanto rebuscava uns bolinhos de bacalhau que a Maria do Amparo lhe aprimorara para vencer o caminho.

A viagem, em vez de lhe alargar os horizontes não, fechava-lhe o futuro ao irredutível.

Um suspiro mais sonoro, e o cheiro das frituras, alertaram os sentidos dum camarada risonho, sabe-se hoje que do Porto, levando-o às falas e a uma espreitadela ao bornal. Fez-se amizade, repartiu-se o farnel, trocaram-se informações e; ficou Sebastiãozinho a saber que tinha ao seu lado um vizinho de quarto na Pensão e que, precisando de ajuda e explicações estaria ali ao dispor «com três anos de primeiro semestre sei as matérias de fio a pavio, meu menino…».

O conforto da companhia e o esvaziar da sacola aceleraram a viagem e fizerem voar as preocupações a tal ponto que, quando deu por si estava já no quarto, derreado pela subida exterior e interior para o quinto andar do nº_ _ das Escadas do Quebra- Costas. Pousou a mala e sentou-se olhando os telhados que desciam, até se deixar dormir.

Alfredo bateu à porta com energia no momento em que a Ermelinda chamava para o jantar. Conhecido da casa, o Portuense fazia de cicerone apontando as portas dos cómodos e segredando incontáveis que por pudor e recato não se revelam.

A sala de jantar sendo modesta, era familiar «então boas noites…» e o colega prometeu um amanhã cansativo que passaria num salto.

Obliteram-se ao sucedido dois meses de calendário, contados corridos em dias úteis e inúteis, e não serão enumerados os ah!s… caramba!s… céu!s… uis!… puxas!… shh!s…, alto lá!s… arre!s… e irra!s… Senhor me perdoe!s e outras interjeições e locuções que se foram proferindo por essa Coimbra fora e n’algumas passagens por cadeiras leccionadas. Pede-se compreensão, pela abstinência em comentários detalhados que é, em prol do bom nome de presentes e familiares, vivos ou memórias. Respeite-se a Academia e poupe-se o leitor (V.a Exa.); que estão de paciência esgotada.

E o desabotoado não era ostentação! mas sim falta jeito para pregar botões, ora essa!…

Há dois meses tropeçado na Lex Duodecim Tabularum e jamais visto à Porta Férrea, arguiram-lhe uma inadimplência e chamam-no de contumaz, coisa que o pasmou por pouco saber em latins. O apodo dera-lho um lente, que o ameaçara, mos maiorum, com a expulsão da Academia. Credo!…

Tudo na vida é um equivoco, um mal entendido; e este, era da cor do traje. Que apresentar como alegação?

Sem resposta para os telegramas hebdominários do pai, nem notas para apresentar, restavam-lhe as moedas para um pedido.

Mais a acrescentar? Sim, aproximava-se o Natal. Esse era o busílis in diebus illis.

 

Continua para “Cedário” e, Fim.

(da figura: In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829)

Pensar em grande, votar em pequenos

Aqui há dois dias fui surpreendido pela compreensão choque de que as eleições europeias são já este Domingo! Uma campanha que não se sente na rua, que não tem expressão nos media, praticamente inexistente. Claro que o ciclo se renova e agora o PS pede um castigo dos partidos no poder, coisa que as sondagens prevêm acontecer qb. Tal como muitos não tenho ainda firmado onde recairá o meu voto e chego a recorrer à bruxa para encontrar o caminho.

Um lugar no parlamento europeu, para além da suposta representatividade dos interesses de Portugal, representa uma vida cómoda do ponto de vista financeiro. Em adenda quando se dê a saída do parlamento europeu existe um subsídio de apoio à reintegração na vida activa ao estilo de subsídio de desemprego igualmente chorudo. Tal como no parlamento português existe uma panóplia de famílias políticas com a união de esquerdas, união de centristas, união de direitas, etc. E tal como nele existe uma tendencial flutuação entre uma maior representatividade do centro-esquerda e uma maior representatividade do centro-direita, existindo depois outras facções mais marginais.

Pus-me a matutar em acções de ‘terrorismo’ eleitoral que pudessem dar uma pedrada no charco e vim parar ao facto da abstenção nas eleições europeias (>60%) ser bem mais alta do que a abstenção nas eleições nacionais (>40%). O que só beneficia os candidatos dos maiores partidos pois a proporção de votos dos seus fiéis e crentes eleitores aumenta em muito o seu peso face ao diminuído universo de votantes.

Contudo estes 20% de diferencial na abstenção dão-me esperança para a possibilidade de usar estas eleições como real arma política. Se apenas estes 20% decidirem votar podem ter grande influência na configuração da representação portuguesa!

Compreendo que nas eleições nacionais exista um maior receio de delegar o voto, que não se quer dar aos ‘grandes’ do costume, num pequeno partido. O refúgio acaba por ser um voto nulo, em branco ou mesmo a abstenção. Acabando mais uma vez por só fortalecer o peso dos chamados ‘grandes’.

Para evitar essa rasteira auto-infligida, faço aqui uma proposta criativa para a tentativa de geração de uma onda de manifestação de insatisfação para com os aparelhos partidários responsáveis pela nossa situação: o voto válido num pequeno partido!

E de que forma votar num pequeno partido nestas eleições europeias pode ajudar a mudar algo? Provavelmente não mudará nada no imediato mas serviria de um grande sinal de alerta e sobretudo de meio de preparação de melhores políticos. Se a predominância dos votos nas europeias fosse distribuída pelos pequenos partidos estaríamos a:

  • Levar para o parlamento europeu ideias e argumentos alternativos aliados à tenacidade destes novos agentes do nosso tecido político. Mostraríamos assim que nós, Portugueses, estamos saturados de ser manipulados pelos amigos ?do alheio? do costume, estando a atingir o ponto de ruptura para com o status quo instalado sem receio do desconhecido;
  • Dar aos políticos emergentes, com menos holofotes e  presença em palco, uma experiência internacional permitindo-lhes contacto com formas de trabalho e correntes de pensamento díspares para que retornem mais fortes e mais capazes;
  • Permitir aos pequenos peixes nutrir-se do fitoplâncton europeu passando a um regime de dieta os actuais tubarões e baleias do nosso panorama político. Por outras palavras os deputados europeus destes pequenos partidos poderão amealhar uma quantia simpática que podem colocar ao serviço dos seus partidos para maior financiamento autónomo de campanhas em futuras eleições nacionais;
  • Assustar realmente os partidos nacionais tradicionalmente mais votados com esta demonstração de desbloqueio mental no acto do voto, criando assim um cenário imprevísivel para o resultado das próximas eleições para a Assembleia da República;

O mais importante seria ganhar a coragem de votar num pequeno partido sem provas dadas, com ideias inovadoras e fracturantes, com o qual apenas simpatizamos mas ainda não confiamos plenamente. Chamem-lhe um salto de fé ou um benefício da dúvida. Durante um ano poderíamos avaliar o seu desempenho no Parlamento Europeu e a sua evolução. Mesmo que não tenhamos a coragem de lhes atribuir voto nas eleições em 2015 teríamos mais 3 anos de levedação e a partir de 2018 saberíamos se valeu ou não a pena o investimento.

Corro o risco de estar a pensar demais, isto seria uma coisa em grande, sendo o meu único consolo o facto de apesar de tudo ainda ter a capacidade de sonhar. E vocês?

5 PEQUENOS PARTIDOS A CONSIDERAR NESTAS ELEIÇÕES> Saber mais sobre 5 Pequenos Partidos a Considerar nestas Eleições <

VOLTA-FACE! STOP.

A

Bravuras que um povo olvida.

 

Volta-Face! STOP-Moncorvo e a guerra Fantástica de 1762

 

Quando o capitão chegava trepidante ao cimo do morro era como um clangor e o Zêi, como lhe chamava, parava a freima da pastorícia e antes que ele posicionasse a mão Napoleónica no colete já corria desbarretando-se «às ordens do Sr. Capitão».

Imobilizada a montada «aííí…», duma mansidão que o seu ventre dilatado aceitava sem grandes ondulações, o castrense tonitroava comandando:

– Bom dia Zêi! Então não me alinhaste as ovelhas?

Era assim Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção, terratenente, capitão de cavalaria graduado e colocado em reserva antecipada pelo regimento de Cavalaria de Estremoz, mas no activo, e nas suas quintas. Da sua esposa, melhor dizendo, que o capitão era de antiga e mui nobre família de armas, servidora do reino na Guerra Fantástica e por isso, detentora de lustrosas salvas de prata e ornamentada com vasta medalhagem (embora patinada, como adiante se assestará para registo), mas sem terras conhecidas como suas, além da Pátria.

– Não senhor, senhor capitão, são umas desordenadas!… Mesmo assobiando aos rafeiros um toque a reunir elas não alinham, não senhor…

O ardor de comando e da ordem-unida estava-lhe no sangue e vinha-lhe de seu tetravô (investiga-se ainda, por indeterminação segura de datas, se pentavô); um façanhudo alferes de infantaria que se dera, por razões de entendimento nas diversas movimentações de tropas, com um oficial vindo das Índias Orientais, um tal Robert McNamara, que, olhe, quem sabe… isto das coincidências históricas são realidades tão antigas como hoje estarmos aqui e termos tantos compatriotas de olho azul. Bem, tamanho foi o entendimento que, ao que se sabe, não foi disparado um tiro, alinhada uma alabarda nem arreado um cavalo para que a guerra efectivamente se efectivasse. Razão pela qual se pensa o seu nome não constar nos anais heroicos de tão importante conflito, mas o do estrangeiro sim!, que nós, para os nossos somos uns desagradecidos mas para os de fora são as ondas que se têm visto.

No entanto e ressalve-se, ambos combateram, se assim se pode dizer, na Guerra Fantástica, desenrolada (é o termo certo) em mais de metade do ano de Mil Setecentos e Sessenta e Dois, e bem se lhe pode chamar “fantástica”, pois só em dois casos dois, que se saiba, o povo Português ganhou uma guerra sem que se disparasse um tiro. Duzentos e doze anos depois, secundava-se a façanha.

Seria injusto e incompleto se não se elogiasse aqui também a sua metade, que o era, não só de cara mas de alma e corpo inteiro; Senhora Dona Maria do Carmo Bentes, essa santa de famílias gradas, verdadeiro refrigério dos humores e impulsos do capitão que, ao contrário do que possa parecer pelo que se disse ou dirá, tinha um coração onde cabia o Mundo e sobejava espaço.

Pois a Senhora Dona Maria do Carmo era dos “Bentes” (você deve conhecer…) de Boticas, ali para os lados de Chaves, seu tetravô, os nossos respeitos, servira em infantaria e na mesma guerra que o avô de seu sogro (ou bisavô, é o tal alvitre), ambos participando nas movimentações Alentejanas, durante as quais, após assertivos posicionamentos e, temendo acusações de bastardia, acabou casando com a sua irmã mais nova, uma solteirona até à data. (irmã do futuro cunhado, entenda-se).

Fora um gesto bonito, e, veja como são as coisas; são portanto primos a Senhora Dona Maria do Carmo e o Sr. Capitão de Azinheiro Carvalho e Assumpção.

Era vê-lo galhardo, montado naquele cavalo inteiro dum ruço cardão, «comandando um pelotão de infantaria marchando de Chaves para a Torre de Moncorvo», lia-se na chapinha dum quadro que descansava as telas fendidas ao lado da cristaleira à mão direita quem entra na ampla sala de jantar e onde se via um outro, mais rendado e pequeno, num alinhamento que punha a jeito uma moça airosa, acenando adeuses com um lenço de saudades. Era sua tetravó, Deus haja, que se despedia.

Que quadros, que figuras, que história, quanta memória vertida aos vindouros que saberão, é uma certeza, enaltecê-la, quem sabe em versos, dando-nos o merecido épico pelos acontecimentos decorridos. Oxalá…

É nesses vindouros que uma família confia e nesta, estava depositada em Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção Júnior, primogénito, e até ver, único do casal de quem se fala, a esperança no que se espera.

 

Continua para “B” (com a licença de vosselência)

 

(sobre a figura: Moncorvo e a guerra Fantástica de 1762

In Cartografia Histórica Portuguesa – Catálogo de Manuscritos (Siglos XVII-XVIII)

Real Academia de la Historia Madrid)

Vai ficar tudo bem.

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Vai ficar tudo bem. Todos prometem não aumentar mais os impostos.

Vai ficar tudo bem. Todos prometem não haver mais despedimentos na função pública.

Vai ficar tudo bem. Todos prometem reduzir na despesa pública.

Vai ficar tudo bem. Todos prometem aumentar o salário mínimo.

Vai ficar tudo bem. Todos prometem o crescimento da Economia.

 

Vai ficar tudo bem. Só nos faltam políticos honestos. Alto e parou o baile!

O Mundo num Porta-Chaves

No princípio dos tempos (porque já foi há muito tempo) saiu-me num “fura” de cinco tostões, um porta-chaves. Um porta-chaves que era nada mais que… O Mundo!

Vejam a minha sorte. Por um nada (o que eram cinco centavos?…) deram-me o Mundo.

Venderam-mo, é certo, mas pelo valor que foi… entendi-o oferecido.

Guardei-o no bolso da camisa, local que no momento me pareceu mais seguro, mesmo do lado esquerdo, ao lado do coração. Segui saindo, continuando o passeio daquela tarde, já merendado e com o Mundo no bolso. Segui vivendo mil vidas e outros tantos caminhos sem nunca mais me lembrar dele, do Mundo.

Encontrei-o há uns meses, repousando numa gaveta de velharias e recordações, no meio de tudo quanto é quinquilharia e “outros mundos”, que o são, ainda, as recordações de outras deambulações.

Peguei-o, limpei-lhe o pó, poli-o, curiosamente na camisa, do lado do coração, e meti-o no bolso das calças para lhe encontrar uso corrente. Aquele Mundo ia encontrar umas chaves que abririam portas, ia encontrar utilidade, era a “sua hora”.

Sabendo que o leitor não está familiarizado com estes objectos, irá permitir que lhos descreva.

O Mundo, este, um porta-chaves singular, é composto de duas partes, sendo, o Hemisfério Sul e o Hemisfério Norte unidos num macho/fêmea de pouca tenacidade (o que me levou, e espero não leve a mal, a cola-los de forma a que nunca mais se separem); como, chamemos-lhes “elementos de utilidade”, tem uma corrente solidamente atarraxada no Hemisfério Norte (por perfuração do Pólo) e, nos antípodas, um moitão onde se aprisionarão as chaves.

Não querendo subalternizar o Mundo, será certo que a importância do conjunto será depositada nas chaves que abrirão as portas e não o que significa a esfera na outra extremidade, e nem mesmo a corrente que com engenho a aprisiona. Com efeito, mesmo as chaves, embora segredos em si mesmas, serão doravante também arrastadas para a figura de meras gazuas uma vez que o importante é “o local” que abrirão, e mesmo este, numa escala de valores materialista, será apenas o espaço que contem “a coisa” de valor.

A “coisa”, o que são as coisas… será portanto o actor principal desta história a que eu, “pomposamente” chamarei vida, uma vez que é, a razão de ser.

O Mundo num Porta-Chaves

O leitor não se apercebeu, mas entre a linha anterior e esta, fui lá fora pensar (e quanto um homem se põem a pensar…). Não é “pomposamente”! A vida é a razão de existir e, a razão de existir embora não saibamos muito bem qual é, tem pompa. E tem circunstância. Por isso, desculpe as aspas, que se manterão por honestidade de quem lhe escreve, e para que não diga que dou o dito por não dito.

Concluamos que, a razão de existir do meu porta-chaves (no seu todo) é manter a vida, o Ser. Melhor dizendo, dispor da vida, uma vez que a abre e fecha quando quer, a mostra e a oculta a seu “bel-prazer”, a oferece ou sonega como bem entende… pomposamente.

(aqui, neste pomposamente, é que talvez ficassem bem as aspas, porque sem “as mãos” não passará dum mero destroço. Mas deixemos as mãos para mais tarde.)

O motivo de o incomodar com esta leitura, e certamente pedir-lhe ajuda é, nem mais nem menos, a confusão que se alojou no meu discernimento quanto ao relacionamento, direi até, interacção, entre Mundo e vida, corrijo, Mundo e Vida.

Sendo habitante do civilizado Hemisfério Norte, e contemplando o meu porta-chaves encontro logo algo que me entristece. É que à medida que o Mundo vai rodando, a corrente que o aprisiona vai-lhe desgastando os desenhos e até, amachucando a superfície; por isso, o Hemisfério que habito está necessitando duma pintura urgente e quem sabe até, dumas marteladas para o desempenar. Enfim coisas que deixarei para alguém especializado, porque nisto de endireitar o Mundo e pinta-lo reluzente não há falta de candidatos.

Perdoe-me o desabafo; não é isso que aqui nos traz.

Continuando com a analogia, e antes que vá embora, gostava de lhe dizer para que servem as chaves. Uma vez que já subentendeu que a corrente e respectivo moitão existem apenas para que o Mundo não se separe delas, nunca. Está agarrado!

Uma abre as portas do cofre, que faz os homens ricos,

Outra abre a do conhecimento, que faz os homens sábios,

Outra a da humildade, que faz os homens Grandes.

Sabemos ambos que a vida não é só estas três coisitas, mas, de momento são as chaves que temos (como vê, até as partilho consigo) para tentarmos viver com mais agrado.

Não me obrigue a dissertar sobre a felicidade pois não se sabe ainda o que significa e, na tentativa costumeira dos Portugueses em explicar o inexplicável, resultaria na sua infelicidade imediata, coisa que, pelo respeito que me merece, nunca farei.

Dizia eu que… temos três chaves apenas e, com elas poderemos ser, ricos sábios e grandes.

Continuo a utilizar o plural sendo minha intenção partilhar (ou compartilhar, como queira) o resultado da minha/nossa acção.

Está nas nossas mãos o equilíbrio, para que não fiquemos:

– Ricos, mas estúpidos e pequenos,

– Sábios, mas inanes e nada, ou

– Grandes, mas ignorantes disso e mais uma vez, delapidados.

E é precisamente aqui que eu peço a sua ajuda. Conto consigo?

Pontuação dos valores de Abril

A Troika, deveras admirada pelo meigo apego demonstrado pelos Portugueses, perguntou a Passos Coelho quantos zeros à esquerda possuem os tão falados valores de Abril.

Passos, indignado, responde que à esquerda não existem quaisquer zeros que sejam um valor Seguro, o futuro está nos zeros à direita!

No acumular de pequenas fracções irrisórias que geram milhares de milhões de euros em receitas. O segredo está na gestão da revelação da soma adicional de cada uma destas parcelas por forma a que a balança, cega, não dê pelo ultrapassar do limite de excesso de carga.

E sobretudo ter o cuidado de não fazer com que o povo deixe de virgular e passe a pontuar. Tal como na conveniente interpretação da legislação a continuidade do poder e governação alicerça-se na ínfima e grandiosa vírgula. Há que eliminar do raciocínio do povo a capacidade de exprimir qualquer pontuação.

O ponto de exclamação é o mais fácil. Basta ao melhor estilo Português lançar sucessivos boatos incendiários e/ou de corte e costura pelos canais oficiais não oficiais. Uns diz que disse, uns exageros, umas hipóteses no cimo da mesa, algo escandaloso como “cada Português terá de contribuir com um lingote de ouro no porão para lastrar o país” Algo que possa ser prontamente rebatido com contra-informação correctiva que introduza medidas retrácteis como “cada Português terá de contribuir com 1/100 de um lingote de ouro no porão para lastrar o país” Que mesmo sendo muito duras são uma grande melhoria vs o inferno que seria o primeiramente anunciado.  Com o passar do tempo esse 1/100 poderá caminhar para 1/10 ou mesmo 1/1 sem que exista manifestação de espanto e repúdio devido à saturação com os enredos da novela governativa.

O ponto de interrogação exige mais coragem. Demonstração de uma firmeza rudimentar, de um quero posso e mando, em que um “Porque sim” ou “Sou o único capaz de indicar o caminho pois só eu detenho o conhecimento total sobre todo o cenário” são as respostas a todas e quaisquer questões pertinentes ou impertinentes. Esta é a forma de melhor instalar o “Não quero saber” ou “Não vale a pena” permitindo a tão desejada indiferença e desinteresse para com as decisões governativas. Perguntar para quê se a resposta é a cassete do costume?

O ponto final é o mais perigoso. Felizmente só pode ocorrer de 4 em 4 anos pelo que pode ser o foco total da atenção no último ano da garantia eleitoral, até porque obriga à anulação das medidas acima tomadas. Apesar de aparentemente antagónico, para evitar o ponto final, há que recuperar os níveis mínimos de pontos de exclamação e interrogação. A arte está em recuperar apenas aqueles que dão jeito! Para que então sejam ouvidos, compreendidos e aceites. Como efeitos colaterais podem surgir exclamações e interrogações relativas à escandalosa redescoberta da audição, compreensão e aceitação da voz do povo. A tentação para aplicar a receita, mais atrás prescrita, para a sua extinção será muito grande e deve ser evitada a todo o custo. A manutenção do virgular exige contenção nesta fase. Se tudo correr bem é evitado o ponto final e uma nova vírgula abre um novo e longo capítulo onde se pode respirar tranquilamente o renovado período de garantia governativa com a receita do costume.

No fundo, apesar dos cortes na área da Cultura, o nosso governo sabe que a boa vida é como a fusão de uma longa à la Manoel de Oliveira com um guião escrito ao estilo de José Saramago,

Oxford comma

Um Dia o Sol Foi Meu

AVISO:

1º Um dia o sol foi meu! Que não haja dúvida!

2º O Sol que vos ilumina só é astro rei para os sub-lunares. Que sois vós.

3º O sol que aqui trataremos foi rei um dia e sê-lo-á sempre. Coisa impossível para outros sóis. Até as estrelas morrem; fazem puf…

4º O que aqui será dito é inteiramente verdade, factualmente e cronologicamente. Salvo aquilo que se entende, e pretende, como criação.

5º À criação tudo é permitido. Até mesmo colocar o Sol em movimento rotativo, como já aconteceu.

6º Para quem tem a tendência, porque os há, de por tudo em causa; mesmo aquilo que

d-escrevo; fica-lhes aqui a orientação remetida para o ponto 1º deste aviso.

 

SOL para-'Um Dia o Sol Foi Meu'

Fiat Lux!

 

Com a chegada das andorinhas partiam os compinchas. Os afazeres domésticos agendados, alguns, desde as últimas férias grandes, tornavam os meus amigos mais atarefados que em tempo de aulas. Estávamos em férias grandes. Era uma freima.

Naquele ano, não sei porquê, os meus dois compinchas habituais estavam mais ausentes ainda. Ajudaram-me a levar o papel à farrapeira, algumas coboiadas, alguns pontapés na bola, umas idas à bouça e, murchou. O Mário parece que tinha ido visitar os seus familiares Galegos e o Júlio… o Júlio, olhem nem sei; mas que faltava à chamada habitual assobiada de cima do muro, faltava. Agora fiquei intrigado, porque faltou nesse ano?… Hei-de perguntar…

Tenho mesmo de saber porque nesse ano nem me ajudaram a arrumar a garagem.

Por isso andei por ali… não tinha irmãos, os meus primos já olhavam prá sombra das raparigas, e para elas mesmo parece-me, mas isso são outras conversas; a garagem estava ali… para ser arrumada… mas, também dali não saía… pintei as grades da varanda do jardim, lubrifiquei os estores com massa consistente, fiz uns recados, mas… Como se diria hoje, uma baita duma seca.

As únicas saídas que tinha, ali por perto, eram alguma entrega leve a uma cliente ou uma ida à farmácia. Sempre rápido, ia numa sandália e vinha noutra.

Foi numa ida à farmácia, mais precisamente numa vinda, que tudo mudou ao ser interrompido pelo meu tio Jerónimo de saída para não tenho nada com isso, Olá Zé, Olá tio, Está tudo bem lá em casa? Muito obrigado está sim senhor, E a tia como tem passado? Bem, para onde vais?

Vou agora mesmo para casa que venho da farmácia e… A avó está doente? Não senhor está tudo bem, Então vamos os dois, que eu quero falar com a tua mãe.

Com-a-mi-nha-mãe? Qé que eu fiz?

Olá Fernanda, Olá Jerónimo, Então tudo bem? (duas vezes), eu vinha cá convidar o zézito, se você deixar, para ir almoçar lá a casa, pode ser? Pode, quando? Agora, daqui a bocado. Então Zé agrada-te a ideia? Pode ser, obrigado. Ó Fernanda, levo então mais uma laranjada para o rapaz e ele assim vai já comigo.

Porta-te bem!

As mães, de todo o Mundo, deviam saber que os filhos só se portam mal em casa, em frente delas e dos respectivos maridos. Na casa dos outros são uns “anjinhos”, toda a gente sabe disso! Mas nunca resistem a envergonhar as crianças, que se sabem portar lindamente, com o inevitável; “porta-te bem”…

Tipo… ai… mete-me uns nervos…

Apresento-vos o casal, antes do almoço, senão vocês não percebem patavina do que estou para aqui a dizer. Se tiverem dúvidas perguntem. E não se façam convidados.

O meu tio Jerónimo era casado com a minha tia Laurinda, alguns de vocês conheceram, mas os mais novos não sabem como eram simpáticos e simples esses nossos tios (falo para vocês primos). Se há casais que deixam saudades pelas suas meiguices ao longo da vida este foi um deles, é por isso que, embora fossem também vossos tios, os trato assim, possessivamente.

A nossa família pode falar assim, possessivamente, de muitos tios. Conheci muitos e sei do que falo. Daremos tios de posse também, tenho a certeza.

Nem me lembro do conduto, o que se tratou no “almoço de trabalho” foi aeronáutica, e falemos disso. Vocês sabem como eu gosto de ser aéreo…

Ó tia, prometo que vos vou dedicar um tempinho, que bem merecem, para que esta meninada saiba quem foram, mas agora tratamos de engenharias, de construções, de elevações aos céus, de viagens e outros voos. Depois tia; está prometido.

Ó tio então e onde arranjo canas? Na Quinta da Pícua? Papel de seda tenho o da escola, goma-arábica arranjo na loja, fio peço à tia Alice, Não dá? Fio do Norte? Ó… isso só na drogaria; vou ao mealheiro. Rabo? Qé isso? Ah… para dar estabilidade… e o tamanho? Não! O rabo já sei. O tamanho do sol? Metro e meio? Mas… metro e meio é mais que minha altura!…

Vou arranjar as coisas e depois venho cá, domingo já devo ter as canas; depois venho cá.

Até me esqueci das despedidas, saltei as escadas, degraus dois em dois, olá prima Lurdes, até logo primo Albano e isto é segredo meu, construção clandestina Los Alamos de Águas-Santas, aeronáutica experimental em construção amadora, Alto! E o fio do norte, mas como é que vou arranjar dinheiro para comprar dois rolos de fio de norte?…

Na tarde combinada, estando os materiais devidamente aprovisionados e conferidos em quantidade e qualidade, iniciaram-se os trabalhos no hangar a que também se dava serventia de cozinha.

A simetria dos raios, seu comprimento e furação, a amarração central com precisão de bobinagem e a fixação das pontas das canas (da Índia por exigência), fizeram o conjunto aeronáutico duma limpeza que, ficamos certos, ao voar, o escoamento laminar perfeito impediria a perda imediata de sustentação. Nascia um aerodino.

Continuamos na célula. A fuselagem é tão importante quanto a estrutura.

A colagem dos gomos foi feita com um cuidado meticuloso de puzzle sendo o pincel muitas vezes introduzido de viés aperfeiçoando uma união já consolidada. As pontas das canas sendo boleadas exigiram um remate especial. As cores do papel de seda, em alternância, davam ao conjunto, um garrido que se assemelhava à alegria dos construtores de aeronaves.

Que bonito…

Antes de nós um construtor de aeronaves a sério tinha dito: – Se for bonito, voará bem!

Era o caso. Voará bem…

E eu, ainda de mãos pegajosas de goma-arábica e dedos golpeados da caça às canas tinha sido parte da aventura, era quase, é bom que se saiba para que me olhem com conveniência, engenheiro aeronáutico.

Na verdade fui mais assistente de engenharia, mais dá-cá-isso, de vez em quando chegamisso e finalmente chega-rebos, uma vez que no fim do rabo estava projectada e recebeu competente instalação, um saco com uma pedra que, poderia variar a massa em função das necessidades aerodinâmicas. Mas quem escolheu a massa fui eu!

Um Primor! Uma construção Mimosa!

Era a hora do lanche. Leite com torradas que até me está a crescer água na boca…

Ó tio, podíamos ir agora!

Não, vamos deixar secar e amanhã se estiver Sol vamos lançar o sol para a Caverneira.

Esteve Sol!

As operações não se resumiam a uns meros 10, 9, 8… e por aí fora até ao lift off…

Nada disso! Muito mais complicado, muito mais saber, muito mais engenho.

Estávamos na Caverneira! Isso de Canaverais é para amadores.

Briefing ao equipamento:

SOL – Ok,

RABO – OK (massa colocada e bloqueada),

AMARRAÇÃO – verificada e centrada,

FIO – livre e pronto a esticar,

VENTO – de frente, firme e estável,

MOTORES…

(não sei se os que me lêem sabem como se descola um sol. Se não sabem perguntem aos mais velhos e deixem de ser engraçadinhos OK?)

– Firmes!

A pista foi escolhida tendo em conta a orientação do vento e as condições do terreno, exigências técnicas que presentearam os aeronautas com uma vista lindíssima sobre o Mundo; que nos observava.

(quem conhece sabe que a vista da bouça (que ainda existe como tal) mesmo ao lado da Associação Recreativa os Restauradores do Brás-Oleiro é das mais bonitas do Mundo.)

O vento barlava suave de Setentrião, lado do bom tempo… corre!… corre mais… Mais!

Ergueu-se o aparelho em vida colorida, serpenteava o rabo em danças de dragão asiático, bamboleava a pedra ameaçando quem se intrometesse. Que beleza!…

A pilotagem era feita de coração ao pulos, como a alegria, rodopiou algumas vezes o astro mas sempre firme no seu querer de subir, que galhardia.

Durou que tempo? Minutos? Segundos? Horas não, mas o que é o tempo? Que importância é que isso tem! Ainda dura.

Até que soprou o Zéfiro regressado dos seus trabalhos equídeos. E regressou forte. Não foi cisalhamento mas uma faca que surgiu. O enfiamento perfeito, a subida firme, a postura airosa antes desta rajada, resultaram numa vrille descontrolada até às copas mais altas dos eucaliptos.

O que faz um piloto quando a sua aeronave cai?

Eu caí de joelhos. Chorei. Chorei olhando o arco-íris que o sol fazia entre a mais alta copa da bouça e os meus olhos. Nunca mais esqueci aquela luz. Passando lá, mesmo à noite, ainda a vejo.

A luz dum sonho que se eterniza.

 

(imagem retirada de http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/591638.html)