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O impacto da escolha dos carris

Portugal está há muitos meses política, social e jornalisticamente encravado. Engolido  por um furacão temático que o contém, supostamente a salvo, no seu pacífico olho, obrigando-o a dançar ao sabor dos ventos que o circundam, impedindo-lhe o vislumbre do horizonte. Nesses ventos são reciclonados caoticamente os mesmos temas  que perigam à vez o país: incêndios, Tancos, taxa de desemprego, crescimento económico, turismo, greves, dinâmica da geringonça, Marcelo em todas, crise no PSD, We Brand, negociações sindicais, operação Marquês, décimas do deficit, etc, apimentados com umas Trumpalhadas, alarmismos e terrorismos internacionais.

Devido ao toldar de visão este furacão cria uma perigosa ilusão, a de que são estas as questões de fundo essenciais ao futuro do país e do mundo. Estranhamente deixou de se falar da crise dos refugiados, da guerra da Síria, anteriormente tão absorventes, estarão resolvidas? Alguém se lembra da discussão do impacto do CETA/TTIP para Europa e Portugal? Ou é para ser assumido como um facto consumado com que ninguém tem de se preocupar? Será relevante evidenciar que atravessamos um período de seca gravíssimo e que o país precisa de repensar toda a sua gestão de recursos naturais?

Para lá desta barreira temática existem povos, aparentemente não condicionados, que vislumbram bem mais além, ousando tomar medidas disruptoras focadas na construção de um futuro melhor, não necessariamente do ponto de vista económico.

Seria muito bom que Portugal e os portugueses acompanhassem estes movimentos que vão redefinir o mundo a médio-prazo. Claro que para isso teríamos de ter uma população formada e informada, que colocasse o orgulho no seu estilo de vida, no seu impacto positivo no mundo, acima do orgulho desportivo, do comodismo do seu umbigo, uma população que da mesma forma que rejeitaria a nomeação de corruptos comprovados para tesoureiros do seu dinheiro não os elegesse para mandatos políticos renovados, uma população que colocasse o interesse comum acima do seu mesquinho interesse pessoal.

Estou certo que um dia aí chegaremos. Até lá continuaremos a desfrutar da relativa tranquilidade do olho do furacão, fortalecendo-nos num presente que em breve será um passado muito diferente do futuro que se avizinha. Quando terminar a tontura deste constante rodopiar constataremos que talvez devêssemos ter aproveitado todo o esforço despendido não a reentrar nos eixos de que saíramos mas sim a encarrilar em novos rumos, mesmo que economicamente menos favoráveis a curto prazo.

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Celebridade Instantânea

 

andy-warhols-portuguese-soupsFoi durante a época do idealismo e da inocência do século passado, a década de sessenta, que o controverso rei da Pop Art vaticinou que o futuro nos reservava a fama Instantânea. Disse então que a todos nós estariam um dia reservados quinze minutos de fama. Hoje parece uma verdade de La Palice, uma evidência tão estupidamente óbvia que nem parece digna de nota, sobretudo para aqueles que já cresceram com a internet como um “bem de primeira necessidade”. Para todos os outros, para aqueles que como eu a infância foi vivida sem internet ou telemóveis, a ousadia da visão de Andy Warhol permanece sólida.

Esse futuro de então é o nosso presente, mas será uma dádiva? Tenho dúvidas: A exposição e visibilidade pública oferecida pelas redes sociais, qual sopa instantânea, é alimento parco para o intelecto. A forma como é experienciada, especialmente pelos mais novos, revela que o meio é um fim. Os critérios de sucesso são igualmente fúteis. Tipicamente o objectivo de primeira instancia é facilmente explicado pelos protagonistas, singelamente procuram mais “gostos”, mais fãs. Quando questionados sobre qual o retorno desse sucesso, a convicção de resposta esmorece, não sendo raro o silêncio. Descobri que entendem que o propósito da fama se explica por si só, é um bem em si mesmo e que por isso a dúvida não lhes assalta do espírito. Parecer é mais relevante que fazer, e embora Warhol não tenha previsto isso na sua profecia, o seu penteado permanece na moda. Ao mais alto nível…emplastro-em-berlim

Catch Me If You Can

Um clássico relativamente recente, um entre muitos dos êxitos do famoso realizador e produtor Steven Spielberg, “Apanha-me se Puderes” é um filme que nos conta a história de um jovem, autodidacta, dinâmico e espertalhão, boy de profissão cuja vivacidade permite exercer toda e qualquer função. Um caso raro de adaptabilidade e improviso. O logro funciona graças à ingenuidade geral. Consta que o próprio cita o conterrâneo de Tom Sawyer, Samuel Clemens: “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas…”. E não é que funciona? Ele foi aviador, sem nunca pilotar, foi médico sem nunca tratar e até foi advogado depois de no exame passar. Assim prossegue o filme, sempre em crescendo de ousadia e descaramento, até à detenção final. Cumprida a pena, é recrutado para ajudar a investigar.

Tal por cá seria impossível! Em nenhum outro país a licenciatura é tão escrutinada como entre nós, não pelo seu valor cientifico ou profissional, mas simplesmente porque deixou de ser uma licença para aprender sozinho para se tornar um sinónimo de prestigio outorgado, independente e imune à (in)competência de quem a ostenta. Pessoalmente, estou-me nas tintas para tudo isto… Muito pior que um falso testemunho, foi a reacção à “investigação” jornalística. Confrontado com os factos, terá tentado enjeitar responsabilidade, dizendo que os dados publicados aquando da nomeação como adjunto do primeiro-ministro “baseiam-se nas informações prestadas pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra datadas de Outubro de 2009″. Inqualificável, mas revelador da estirpe dos “jotas”.

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Ouça cá, sabe quem eu sou?

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Nação quase milenar, valente quanto baste, fazemos da contradição a regra. Não obstante, desta feita a coerência foi total. Decididamente, somos contra as listas VIP. Seja qual for o contexto, abominamos a soberba. Distinto ou plebeu, com ou sem pedigree, estimamos a mais rigorosa observação dos protocolos. Pelos outros claro!

Ficámos ontem a saber que há quinze dias, bárbaros do norte, ousaram barrar a entrada a um dos nossos. Concretamente a uma das nossas Ministras Plenipotenciárias, e logo de 1ª classe. Não se admite! Uma desconsideração destas não pode ficar impune. Por certo que o responsável da tutela vai protestar, pedir satisfações e exigir um pedido formal de desculpa! Nem mesmo a abundância nos cofres lá do sítio os salvaguardará de um valente puxão de orelhas. Pelo menos vão aprender a receber condignamente. Selvagens, explicam o sucedido de forma leviana – Parece que o evento requeria inscrição prévia. Um absurdo. Nem o Núncio Apostólico lhes perdoaria tal ousadia. Bem esteve a nossa chefe de legação. Sem se deixar beliscar pela arrogância do subalterno que lhe barrou a entrada (por alegadamente não constar da lista), actuou de acordo como situação requeria, proferiu com a altivez a elegantíssima frase: “Ouça cá, sabe quem eu sou?“. Haja classe.

Onde Está Wally?

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Foi em 1987 que Martin Handford publicou o primeiro livro da colecção “Onde está Wally?”. O enorme sucesso junto de graúdos e miúdos não evitou que na América do Norte lhe mudassem o nome para Waldo, mas não foi só por lá que lhe mudaram o nome…

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A genialidade está no entretenimento que estes livros nos proporcionam. São uma excelente forma de nos alienarmos de problemas ou preocupações. Os desenhos são de tal forma ricos em pormenores, que encontrar o herói é uma tarefa que requer um nível de concentração elevado. Mudar a perspectiva de observação, por vezes ajuda.

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A Wenda, o Sábio de Barbas ou qualquer um dos membros do grupo de fãs partilha cores, texturas e padrões com o nosso herói. Torna ainda mais difícil a tarefa de identificar cada um deles. A verdade nem sempre é aquilo que parece.

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Somos todos burros

Um atentado terrorista contra um jornal satírico e de repente somos todos Charlies, defensores inquestionáveis da liberdade de expressão da sociedade ocidental. A análise é pronta. Cartoonistas a exercerem a sua liberdade de expressão, fanáticos religiosos islamitas a realizarem uma execução sumária por pura barbárie.

Aos Charlies gostaria de perguntar:

Quem foi Maomé e o que representa para o Islão?

Têm noção do nível de ofensa das representações satíricas para um islamita?

Qual a linha editorial tomada conscientemente pelo jornal ao longo dos últimos anos?

Tristemente a maioria dos Charlies não saberia responder a estas questões. Pior do que isso, não quer sequer saber a resposta a tal questões. Não interessa. Falamos simplesmente de desenhos e/ou palavras que tiveram como resposta execuções sumárias! Com a agravante do atentado ter sido perpetado por cidadãos franceses, denunciando que existe actualmente na Europa uma falange de extremistas radicais capazes de passar da simples e tolerada indignação à visceral e brutal violência! Manifestemo-nos já contra este terrorismo condicionador da nossa liberdade de expressão!

O que fica exposto é que a liberdade de expressão vigente é apenas uma liberdade de expressão ideológica. A passagem à prática dessa liberdade de expressão acarreta consequências positivas ou negativas em função do contexto social e/ou político bem como do nível de conhecimento e inteligência do seu executor. É preciso saber do que falamos, onde falamos, para quem falamos e como falamos caso queiramos realmente fazer parte de um processo construtivo de desconstrução das ideologias que consideramos estarem erradas. E estarmos receptivos à desconstrução das nossas. Caso contrário partamos simplesmente para a liberdade de expressão ofensiva sem qualquer outro objectivo que não o chocar e o inflamar dos ânimos. O incendiar de uma fronteira entre duas facções cegas e surdas na relação uma com a outra. Estando prontos para lidar com todas as consequências que isso acarreta.

Ainda a quente, Somos todos burrosapós os atentados em França, reagimos como uma enorme manada de burros. Dizemos o que nos dizem para dizer, fazemos o que nos dizem para fazer, sem questionar ou pensar sobre o contexto, o historial e a motivação do mesmo. Zurramos em reconfortante uníssono.

A base de tudo isto são dois alicerces primordiais: a ignorância e a intolerância

Ignorância porque somos educados desde tenra idade com uma visão muito fechada do mundo e da sociedade. A visão vingente que nos querem impôr para que, nesse modelo, sejamos os cidadãos exemplares de amanhã.

Intolerância porque ao contrário da liberdade de expressão existe uma real opressão à expressão de toda e qualquer ideologia e forma de estar que não esteja em conformidade com a única visão que nos é instruída.

E é este binómio de ignorância e intolerância que nos torna uma manada dócil e fácil de conduzir, sem capacidade de raciocinar para além do óbvio mediatizado.

Se existir real interesse em lutar pela liberdade de expressão então teremos de reformular o processo de educação cívica dos cidadãos de amanhã. A escola deverá assumir o seu papel de formadora ao invés de simplesmente formatadora. As nossas crianças, os nossos jovens, devem obrigatoriamente ter contacto com as principais religiões, modelos de sociedade e filosofias de vida existentes no mundo. Os nossos adolescentes deveriam saber o que é o Catolocismo, o que é o Islão, o que é o Budismo, o que é o Hinduísmo, o que é a democracia, o que é o comunismo, o que é uma ditadura, etc. A diminuição da liberdade de expressão começa exactamente pelo encurtar do leque de opções para a tomada de decisões importantes sobre a forma de olhar e compreender o mundo. Deter este tipo de conhecimento seria também a maior e melhor ponte para o diálogo e respeito pelas crenças e opções de vida dos outros.

Mais, se estão agora preocupados com o controlo da imigração e seu potencial papel nefasto no infiltrar de agentes extremistas radicais capazes de actos terroristas, deveriam então criar um teste de admissão para entrada no território Europeu similar ao que acontece para obter a cidadania americana. Com uma diferença, a bateria de questões abrangeria exactamente o conhecimento sobre as principais religiões, filosofias de vida e modelos de sociedade. A demonstração deste tipo de conhecimento daria alguma garantia de que a pessoa em questão se debruçou por estes temas, tem o conhecimento básico que lhe permita compreender e tolerar o ponto de vista dos outros, com grande probabilidade de ser menos burro, mais Charlie.

Quando um burro zurra…

Além do que é afinal a liberdade de expressão que devemos defender a todo o custo? Todos devemos ter o direito de dizer/fazer tudo o que nos apeteça sem que existam barreiras nem risco de retaliações intempestivas? É que nesse caso talvez devessemos começar por demolir alguns condicionantes legais que impedem ou dificultam a passagem à prática da nossa liberdade de expressão ideológica. Por exemplo:

  • Alguém que opte por ser Vegan, defensor dos direitos dos animais, não pode libertar animais alvos de maus tratos numa unidade de exploração intensiva pois corre o risco de ser preso uma vez que existem impedimentos legais para esse tipo de acção mesmo que éticamente justificável.
  • Há quem considere que determinadas personalidades da nossa vida política são palhaços mas não o possa gritar a plenos pulmões, em canais de comunicação ou presencialmente, pois corre o risco de receber um processo penal.
  • Posso optar por uma filosofia de vida holística, comprar uma herdade no Alentejo, no entanto vou ter uma dor de cabeça enorme para conseguir garantir que esta seja uma zona livre de caça.
  • Uma mulher muçulmana pode optar por uso de Burka, no entanto não pode vesti-la no espaço público de vários países Europeus.
  • O jornalismo livre está condicionado por uma linha editorial bem definida que apenas deixa vir a público aquilo que não esbarre com interesses de accionistas, parceiros e/ou patrocinadores.

E tudo isto são formas de abate, não de vidas humanas, mas directamente da liberdade de expressão. Os anti-Charlies mais perigosos não surgem a espaços nem metralham com Kalashinkovs. Estão omnipresentes e servem-se das mesmas armas que os Charlies, palavras, através de notícias, leis e regulamentos que desenham um cenário de liberdade de expressão ilusória com fronteiras devidamente delineadas.

Os Charlies indignam-se com a morte à lei da bala sendo completamente indiferentes à morte silenciosa dos ideais pelos quais se batem, anuindo muitas vezes a serem cúmplices nesse assassinato. Porque, neste grande estábulo instituído, ao contrário da vida de burro, a vida de um verdadeiro Charlie  não é pêra doce.

Je ne suis pas…

Não, não sou Charlie Hebdo. Desconheço até o conteúdo da publicação, dita informativa. Independentemente do seu conteúdo, julgo que não devem existir quaisquer limites à forma de expressão. Verdadeira liberdade é a escolha pessoal. Cada um de nós terá o seu limite, a sua fronteira sobre o que é ou não alvo legitimo de sátira ou de ridicularização humorística.

Conheço França francamente mal. Não visito Paris desde o século passado, mas já então era perceptível que as opções urbanísticas estavam a promover uma verdadeira bomba-relógio social. Os tumultos de 2009 não me surpreenderam de todo. Vi, e vivi, a atitude de um certo xenofobismo gaulês, mas também vi, e vivi a atitude de desafio e desprezo pelas normas por parte dos ditos magrebinos. Senti, que se por um lado são excluídos, por outro, eles próprios fazem gala dessa exclusão. São estrangeiros no local de nascença, bem como nos países de origem das suas famílias. Muitos chegaram à idade adulta sem nunca terem vivido o sentimento de pertença. Perante uma causa que os acolhe e valoriza, terão então finalmente um propósito. O objectivo não foi a “vingança do profeta” em si, mas sim o impacto que o “feito” tem junto de quem os acolheu. Tal como nós, não compreendem quando são instrumentalizados. Meras ferramentas de objectivos maiores, que na verdade poderão ser contrários à moral abraçada. Duvido que algum seja capturado com vida. O seu eterno silêncio interessa a todas as partes, principalmente aos promotores do seu treino militar.

Dizem-nos que é terrorismo, mas parece-me guerra. Haverá diferença? Bem, barbárie é barbárie, seja qual for o rotulo que lhe colocarmos. Então porquê o preciosismo com o rotulo a aplicar ao que se está a passar em França? É uma questão de comunicação – A guerra é mais difícil de explicar a um ocidental, enquanto o terrorismo é algo que se auto-explica: São fanáticos, são loucos e basta. A diferença, a intolerância, o desprezo pela nossa liberdade são alguns dos adornos e adendas ao conceito de extremismo, ele próprio generoso na abrangência, mas por isso mesmo desprovido de precisão. Dá para tudo, mas nunca para qualificar nenhuma das acções ocidentais no mundo, recentes ou antigas. Extremismo é sobretudo uma questão de perspectiva.

E nós, os livres, tolerantes e equilibrados ocidentais? Não será estranha a leviandade com que abraçamos as causas digitais? Não será incómoda a facilidade com que aceitamos as explicações que nos são vendidas?

Na minha opinião, foi uma operação de guerra, idêntica às que ocorrem como rotina na Síria, Ucrânia, Colômbia ou em qualquer outro local do mundo. Com a agravante de na verdade não sabermos quem nos atacou. Qualquer objectivo de retaliação será por isso desprositado.

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Baile de Máscaras

A Mascara de Gustav_III

Em 1788, Gustav, o terceiro da Suécia não era particularmente adorado pelo seu povo. O soberano sofria de tédio. Talvez por isso se tenha empenhado tanto na promoção das artes plásticas e cénicas. Ia com frequência à Ópera. Afinal fora ele que a mandara construir – Os Despotas Esclarecidos tinham destas coisas. Chegado lá, lembrou-se de encomendar uns quantos uniformes do exercito russo da Imperatriz Yekaterina, a segunda. O pedido do soberano da Suécia não levantou suspeitas. Algum baile de mascaras, terão pensado as costureiras da Ópera Real. E foi mesmo…

Soberano sem guerra mais não é que subalterno coroado. O rei Gustav III queria a sua, mas estava constitucionalmente impedido de fazer guerra ofensiva. A mobilização militar era apenas permitida para a guerra defensiva. Daí o tédio. Gustav III cobiçava a Noruega, então parte da Dinamarca. Tentou um negócio com a Imperatriz Russa, mas esta recusou trair a sua aliança com a Dinamarca.

Gustavo-III,-Rey-de-Suecia_1777-by-RoslinFoi então que Gustav III percebeu que para concretizar os seus objectivos, a beligerância com a Rússia era inevitável. E se pensou melhor o fez. Decidiu aproveitar a oportunidade que a guerra entre o Império Russo e o Império Otomano lhe ofereceu. Nasceu o gabinete de gestão da divida externa. Estando os russos “entretidos” mais a sul, ordenou um ataque simulado a um posto fronteiriço na província de Puumala, na fronteira da Rússia com a Finlândia, então parte integrante da Suécia. Foi assim que suecos mascarados de russos atacaram suecos sem máscara. O baile, permitiu ao soberano sueco avançar contra o Império Russo. O resultado desta guerra não foi particularmente vantajoso para nenhuma das partes, tendo apenas retido recursos que outra forma teriam sido úteis noutros cenários.

Dois anos depois de assinada a paz com a Rússia, Gustav III celebrou o seu ultimo baile de mascaras na Ópera Real, a 16 de Março de 1792. Foi assassinado nessa noite às mãos de compatriotas.

VOLTA-FACE! STOP.

Cedário

Escreveu aquilo com um calor de segredo.

Volta-Face! STOP-A apreciada guitarra

Como nos mercados, nunca saberemos se a precedência se passou com a oferta se com a procura; o certo é que o mancebo se deitava com o cabrão e se levantava com a cabra, ocupando o quarto de hora académico com as poucas orações que sabia e o puxar de orelhas à cama rebuliçada desde que o badalo repicara a derradeira.

Era olhado como um valdevinos na Academia, visto até como femeeiro! Veja o que são as más línguas.

O facto de emparelhar com aquele velho sargento-mor conhecedor da vida real, de amiudar nas melhores casas da Rua Direita, ligeira tergiversação do curso a que o propuseram, e de ter horários inconsonantes com os restantes, tinha-lhe até melhorado o vocabulário, do serrano para o universitário como se leu finalmente em ‘B’. Conhecem-se hoje até, e pretende-se demonstrativo da aplicação do académico ao falar Coimbrão, algumas propostas à inclusão na Gíria dos Estudantes, de expressões vertidas no calor dum momento, numa refrega dialética ou outro raciocínio metódico, sendo importante referir para o bom andamento do que aqui se leva em conta que, muito do que foi dito, o foi também graças à companhia do Alfredo, desde a Pampilhosa, e à abertura de espírito que davam os tintos servidos para amparo do coração quando ouvido um fado mais apelativo do sentimento. É também inegável, e por isso se confessa, que muito do que aprendeu o deve a reputadas presenças femininas de arejados pensamentos e fazeres, que alternavam entre a costura e os trabalhos domésticos.

Ora adeus!… e o resto são maldades…

Mas regressemos a Chaves e aos preparativos da quadra que se avizinha, que de ruindades está o Mundo cheio e o que nós precisamos é de paz e harmonia. É ou não é?

Os cuidados da Maria do Amparo, já se podiam sentir nos arranjos da casa. Enquanto a Senhora Dona Maria do Carmo bordava uma toalha de consoada carregada de azevinhos, prendinhas, laçarotes e meninos Jesus, ela arejava o quarto do estudante, trocava as naftalinas, escovava colarinhos, mudava cortinados, encerava o soalho e esperava ansiosamente que o seu menino, porque também o era, regressasse de tão longe para o aconchego do lar «o meu Bastiãozinho, quase doutor, vejam lá», lacrimejava a Maria do Amparo ao limpar o pó do “passepartout” de prata que lhe tinha oferecido pela comunhão solene.

O capitão, esse, bufava aos quatro ventos a impaciência da espera por um telegrama urgente «estes serviços públicos!…» precedente de Coimbra com destino ao Posto dos Correios de Chaves remetido por Sebastião Júnior para Sua Excelência Sr. Capitão Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção.

Mandava balanço! Um filho assim, quase doutor a tratar o pai com aquela pompa… assim sim, valia a pena a despesa da alta mesada, os cuidados num reforçozinho quinzenal, sim, que um homem tem as suas necessidades… e outros mimos a que não se furtava de enviar ao cuidado do Malaquias, agora sargento-mor no Aquartelamento de Sant’ana. Um camarada!

Chegada a missiva «finalmente, pôxa!…», sentou-se nos bancos fronteiriços ao posto e «ora vamos lá ver… deve ser o dia e hora da chegada», desembainhando a unha mindinha para abrir o sobrescrito, ó Sr. Capitão!, então! foi derrubado com uma frase, que o tombou redondo para cima duma senhora sentada ao seu lado que soltou um gritinho de aflição ao ver esbardalhada a corpulência castrense do Sr. Capitão. Ai Jesus!; disse. Perdeu os sentidos; viu-se.

Imediatamente se chamaram uns recoveiros que, como era perto, o pegaram em charola e processionalmente o levaram ao repouso do quarto. Que maçada; o senhor doutor já vai a caminho.

A Sra. Dona Maria do Carmo atarantada com o acontecimento segurando numa mão o copo com água açucarada e na outra um papelito orientava a Maria do Amparo que submetia aos lombos do Sr. Capitão uma almofadinha bem pensada «por môr de lhe amparar as cruzes, Sr. Capitão».

Quando o oficial veio a si, pediu recato e disse à esposa que «não se faz!, tantos cuidados desde catraio, a melhor escola, os melhores cortes no alfaiate, Coimbra… para agora, valha-me Deus, para agora me faltar ao respeito com uma só frase… não se faz…» fizesse a fineza de ler o desaforo e falta de respeito no imperativo duma frase que lhe mandava seu filho.

Dona Maria do Carmo numa solidão materna que só as progenitoras têm e só elas entendem, leu pausadamente, e sentou-se; tirou da manga o lencinho bordado onde fungou, e «coitadinho do meu menino, sempre tão precisado, quanta ternura e respeito em escrever em maiúsculas o nome do Capitão. Até no endereço, quanta consideração. Que lhe terá acontecido para estar tão desprevenido, coitadinho. Uma frase que não é um pedido mas sim, um lamento de desespero de alguém que se antevê na penúria. Ai faz-me tanta pena…»; erguendo-se a custo, requereu:

– Então quando lhe vai valer nesta aflição Sr. Capitão?

Na credência, jazia envergonhado um telegrama amarrotado, onde espreitava uma singela frase, três palavrinhas apenas, o mais que a aflição pôde gastar numa mensagem:

PAI! Mande-me dinheiro. STOP

FIN(almente)

 

Da figura: de Celestino Alves André (zona do Arco da Almedina – entrada do “Quebra Costas”) evocativa do fado [ou canção] de Coimbra. Tributo da J. de Freg. de Almedina à cidade de Coimbra. Inaugurada no dia 18 de Julho de 2013. As foto(s), que agradeço, são de Pedro Coimbra, subtraída(s) do http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/

Nota: A apreciada guitarra não pertence aos acontecimentos nem à sua data; que se desconhece.

 

 

VOLTA-FACE! STOP.

B

(continuando-A)

O hábito que faz o monge, é um costume asseado.

Volta-Face! STOP-In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829

Ao Sebastião(zinho) Júnior, acabados os estudos com assiduidade no Liceu Nacional de Chaves e pintando-se-lhe já o buço, fora dada a rara oportunidade de estudar em Coimbra; essa Lusa-Atenas onde tantos moços cursaram e donde tantos ilustres saíram enobrecendo Portugal. Frequentaria direito, sabida matéria que patrocina as rectidões necessárias ao Mundo conhecido, e tão privadas ao Mundo sentido.

Percebeu-se um bruaá… pelos lugares circundantes, não que duvidassem das capacidades financeiras do casal, nada disso!, e fora um bruaá… recatado, mas Coimbra… para onde era tão raro ir um conterrâneo, mesmo fidalgo. Tinham portanto razão para que se abrissem as bocas, mormente as mais desdentadas e titilassem as línguas. Era acontecimento para foguetório.

Que não, que era muito longe, muitas horas de caminho, que não aguentaria o latim, não tinha saúde, que queria fazer versos, que…

– Sebas-tião! Que… coisa nenhuma! Está decidido! Filho meu será doutor ou honrará as linhagens da família com uma carreira de armas. Passa pelo Albino a quem já lhe encomendei um traje nas melhores fazendas e te espera para tirar as medidas.

– Mas ó meu pai…

O capitão, lançando-lhe um dedo cominatório, comandou:

– Bastião! Sentido! Ou capa e batina, ou rancho e caserna!

– Pronto meu pai, se vossemecê assim quer… está bem, vou-me a Coimbra…

– Assim é que é Bastião! Descan-sar!…

Dona Maria do Carmo, presa a uma vida de compromissos e rendas, tremia de inquietude e já saudade. Era ao seu filho único, ao seu menino, que traçavam ali o destino e ao vê-lo assim, tão aflito e sem poder opinar, também chorou; chorou e tentou uma intercedência:

– Meu esposo, não leve a mal mas, se o Bastiãozinho não quer ir quem sabe…

– Senhora Dona Maria do Carmo; já fiz as minhas démarches. O futuro do mancebo está decidido.

Ficou-se então a Senhora Dona Maria do Carmo, humedecendo um lenço do enxoval sem sonhar que o capitão, homem avisado em deambulações de tropas e entendendo a mocidade ociosa, pedira já a um seu camarada de caserna que o apresentasse aos rapazes grados de Coimbra por forma a desvia-lo da tentação das tabernas e das sopeiras, fontes sabidas de complicações.

Assim o manda a mais antiga usança em se encontrando amigo a quem não se tolheram os cios nem, no caso, os bolores da caserna adulteraram o conhecimento das ruas circundantes. E a mãe que não se apoquentasse, pois o seu menino não assentaria praça em nenhuma república, abrenúncio!, esse regime de vícios e pouca-vergonha em que os rapazolas se faziam homens e logo regrediam, não! Estava já falado para pensão da Ermelinda, mulher de reputação e asseio conhecidos.

Idas as despedidas, os soluços da partida e passada a Pampilhosa, o estômago borboletava-lhe agora com uma saudade intensa, uma inquietação ignorada que o levava quase ao vómito «é este bambolear cadenciado que me tonteia», dizia à sacola da merenda enquanto rebuscava uns bolinhos de bacalhau que a Maria do Amparo lhe aprimorara para vencer o caminho.

A viagem, em vez de lhe alargar os horizontes não, fechava-lhe o futuro ao irredutível.

Um suspiro mais sonoro, e o cheiro das frituras, alertaram os sentidos dum camarada risonho, sabe-se hoje que do Porto, levando-o às falas e a uma espreitadela ao bornal. Fez-se amizade, repartiu-se o farnel, trocaram-se informações e; ficou Sebastiãozinho a saber que tinha ao seu lado um vizinho de quarto na Pensão e que, precisando de ajuda e explicações estaria ali ao dispor «com três anos de primeiro semestre sei as matérias de fio a pavio, meu menino…».

O conforto da companhia e o esvaziar da sacola aceleraram a viagem e fizerem voar as preocupações a tal ponto que, quando deu por si estava já no quarto, derreado pela subida exterior e interior para o quinto andar do nº_ _ das Escadas do Quebra- Costas. Pousou a mala e sentou-se olhando os telhados que desciam, até se deixar dormir.

Alfredo bateu à porta com energia no momento em que a Ermelinda chamava para o jantar. Conhecido da casa, o Portuense fazia de cicerone apontando as portas dos cómodos e segredando incontáveis que por pudor e recato não se revelam.

A sala de jantar sendo modesta, era familiar «então boas noites…» e o colega prometeu um amanhã cansativo que passaria num salto.

Obliteram-se ao sucedido dois meses de calendário, contados corridos em dias úteis e inúteis, e não serão enumerados os ah!s… caramba!s… céu!s… uis!… puxas!… shh!s…, alto lá!s… arre!s… e irra!s… Senhor me perdoe!s e outras interjeições e locuções que se foram proferindo por essa Coimbra fora e n’algumas passagens por cadeiras leccionadas. Pede-se compreensão, pela abstinência em comentários detalhados que é, em prol do bom nome de presentes e familiares, vivos ou memórias. Respeite-se a Academia e poupe-se o leitor (V.a Exa.); que estão de paciência esgotada.

E o desabotoado não era ostentação! mas sim falta jeito para pregar botões, ora essa!…

Há dois meses tropeçado na Lex Duodecim Tabularum e jamais visto à Porta Férrea, arguiram-lhe uma inadimplência e chamam-no de contumaz, coisa que o pasmou por pouco saber em latins. O apodo dera-lho um lente, que o ameaçara, mos maiorum, com a expulsão da Academia. Credo!…

Tudo na vida é um equivoco, um mal entendido; e este, era da cor do traje. Que apresentar como alegação?

Sem resposta para os telegramas hebdominários do pai, nem notas para apresentar, restavam-lhe as moedas para um pedido.

Mais a acrescentar? Sim, aproximava-se o Natal. Esse era o busílis in diebus illis.

 

Continua para “Cedário” e, Fim.

(da figura: In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829)