Paraquedista

Como quando o Cristiano Ronaldo é candidato a um qualquer prémio internacional, o país sustem a respiração até ao anúncio da vitória. Há como uma partilha, uma redistribuição do mérito e do prestígio conquistado. Na política também. Foi assim quando Diogo Freitas do Amaral foi nomeado Presidente da assembleia geral das Nações Unidas. Depois lá percebemos que a nós pouco beneficiou tal cargo. Mal seria. Esta ideia peregrina que os compatriotas em cargos internacionais nos vão favorecer é absurda. Quanto muito não nos prejudicariam deliberadamente, mas nem a primeira nem a segunda fazem sentido. Apenas a isenção é desejável. O favorecimento de alguns será sempre em prejuízo de outros, logo tudo o que devemos esperar é a equidistância. O percurso do anterior Presidente da comissão europeia deveria ter-nos ensinado qualquer coisa…

A nomeação que se segue é a de secretário-geral das Nações Unidas. Haverá organização internacional mais importante? Certamente que não. E nós, como estamos nesse campeonato? Estamos bem, temos candidato. Não é muito forte em aritmética, mas já venceu 5 das votações preliminares. Tudo corria bem para as nossas cores, mas eis senão quando a organização que procurava ser mais transparente e credível vê o processo de eleição tomado de assalto por uma (já há muito preparada) candidatura: Apoiada pela matriarca alemã, a búlgara Kristalina Georgieva entra na corrida a meio. Deixa a vice-presidência da união europeia e salta destemida para o centro da contenda. Entre nós há algum desconforto contido, entre dentes diz-se que há batota, chamam-lhe até paraquedista…

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Caça ao guito

“Temos de perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro” terá sido porventura uma das frases mais infelizes da politiquice recente. A sua autora entretanto já  deu mil e uma explicações que procuram aliviar o peso da literalidade desta frase, no entanto, em seu redor, orbitam outros pequenos acontecimentos que só podem deixar inquietos estes privilegiados acumuladores.

O argumentos populistas mais utilizados pela esquerda são dois. Um é o de que o leque de contribuintes nestes segmentos é reduzido e tem de contribuir mais porque, hipoteticamente, se consegue acumular tanta riqueza deve-o a algum tipo de exploração (do sistema fiscal, da lei ou de pessoas). O outro é que com a nova receita se poderá por exemplo aumentar 5 € a todas as pensões abaixo de 500 €.

Estas medidas não são mais do que demonstração de fragilidades governamentais que resultam no explorar do elo mais fraco. Preferem rotular todos os acumuladores de riqueza como suspeitos a penalizar (porque em teoria lhes custará menos) ao invés de criar medidas, futuras ou mesmo retro-activas, que consigam acabar com a riqueza indevidamente acumulada por aqueles que verdadeiramente ludibriam o sistema, ou ter a coragem de cessar ou diminuir certas coutadas fiscais sobre quem explora o mercado português.

Mais, com este tipo de discurso e acção, cultiva na sociedade um confronto de classes, em que quem está longe dos patamares falados diz um “Apoiado!” com a convicção de que se o têm é porque são uns porcos capitalistas, no outro lado milhares dos abrangidos pelo estatudo de “acumulador de riqueza” sentem-se insultados por cumprir com as suas obrigações fiscais e ainda virem a ser penalizados por ter tido um comportamento de poupança mesmo no tempo de bonança.

Se existe tão grande clivagem entre determinados segmentos da população a culpa não será maioritariamente dos que estão em melhor situação mas sim dos que legislam e gerem orçamentos por forma a criar as condições laborais e sociais que conduzem à desigualdade.

Todo o princípio de caça à receita através da penalização dos mais abastados, que já cumprem um regime fiscal progressivo, torna-se ridículo a partir de certo ponto. E o argumento da distribuição da riqueza não pega, faria muito mais sentido que ao invés de se proporem a aumentar 5 € em todas as pensões até 500 €, pelo mesmo custo aumentassem 12 € em todas as pensões até 200 € e que concentrassem futuros aumentos de pensões apenas em escalões inferiores para que estes beneficiários abandonem a precariedade mais rapidamente.

Por fim recomendo também que no exercício da caça ao guito a esquerda se foque também naquela que é pretensamente a sua especialidade, a solidariedade social, sim porque para além da acumulação também a distribuição/desperdício de riqueza acumulada por outros (mais de mil milhões de € por ano para as IPSS) deve ser alvo de escrutínio apertado e quiçá seu redireccionamento para outros pontos de maior controlo e eficácia no combate pela igualdade.

A justiça e equidade social também deve ser exercida na governação, sem penalizar em demasia certos grupos a favor de outros, nem que apenas por princípio. Impeça-se o enriquecimento ‘sujo’ mas respeite-se o enriquecimento ‘limpo’ que já é devidamente taxado quando gerado e gasto. Caso contrário iremos caminhar num progressivo nivelar por baixo, em que quem está num percentil acima da média seja sempre visto como a próxima presa a abater para alimentar aqueles que, por desgoverno do país, desesperam e proliferam no limiar da pobreza.

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Nadar com Porcos

As Bahamas, um arquipélago de ilhas paradisíacas e terra natal do povo Taíno, são deste a chegada de Colombo em 1492 um território condenado à patifaria. Logo no inicio do século XVI toda a população indígena foi escravizada e enviada para outras paragens. Extraída a mão-de-obra, os espanhóis partiram, deixando o arquipélago completamente deserto durante mais de um século.

Os britânicos começaram a chegar na segunda metade do século XVII, mas só em 1718 as ilhas se tornaram uma colonia britânica. De entre os súbitos de sua majestade, provavelmente o mais celebre de todos os colonos foi Edward Teach, um famoso empreendedor que ficou conhecido como Barba Negra, o pirata.

A independência chegou no século XX, no excelente ano de 1973. Foi em Janeiro desse ano, graças a uma acção de “sedução, roubo e fotocópia” (digna de um filme do 007), a autoridade fiscal norte-americana conseguiu obter de um imprudente funcionário bancário uma lista com o nome de mais de 300 cidadãos americanos. A estes cobrou coercivamente mais de 50 milhões de dólares em impostos não pagos. As quatro décadas seguintes foram absolutamente tranquilas.

Destino turístico de elite, detém uma oferta balnear única no mundo! Nas Bahamas, o turista ao invés de ir a banhos com cetáceos, pode nadar com suínos! Esta singular vivência raramente é partilhada pois os banhistas preferem o sigilo. São férias envoltas em secretismo, uma vez reveladas criam embaraço a quem as usufruiu. A ex-comissária europeia para a concorrência, a holandesa Neelie Kroes que o diga… Na União de Europeia de hoje, carenciada de novos e virtuosos exemplos, a omissão pode vir a custar-lhe a pensão de reforma, mas tal como o anterior episódio da saga “Papers“, a sensação do momento dará rapidamente lugar à inconsequência.

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Exterminador 2

Seria para a semana, mas já não vai acontecer. Lamentavelmente o futuro não será aquele que esperávamos. O dia da Apresentação não chegará. A Saraivada venderá, mas já sem o patrocínio do protagonista do segundo extermínio, o modelo T-1000. Vindo do futuro, o ultra moderno robô evoluiu em relação ao antecessor, uma nova geração com outro nível de plasticidade, inovação que lhe permite assumir qualquer forma inerte, vegetal ou humana. Apresenta-se normalmente na forma de policia vaticinador e tem na viscosidade da sua persona a maior e temível arma. Faz da humildade modo de vida e da boa educação uma marca pessoal – Diz “muito´brigado” como ninguém.

Bravateiro, amigo do seu amigo, nunca volta com a palavra atrás. É lá homem, perdão, robô para isso. Como boa máquina que é, processou primeiro o risco envolvido na ousada apresentação e ponderada a ameaça decidiu avançar, concluiu sem ler a obra que a amizade do autor o colocava ao fresco e que por isso não se queimaria naquele fogo onde outros são chamuscados ou mesmo torrados, mas enganou-se. Mesmo poupado na devassa publicada, foi gravemente atingido na cabeça quando manteve a postura implacável de quem corta a direito, de quem não cede e determinado reiterou no inicio da semana que não faltaria ao amigo naquela hora, mas os danos do episódio são tais que hoje “pediu ao autor, por motivos pessoais, para o desobrigar de estar presente na sessão de lançamento do livro“. Evento cancelado. Terá sido um murro no estômago do arquitecto?

 

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Saraivada

Há quase 27 anos, a revista “Semana Ilustrada” – um pasquim da época, fez capa com um escândalo protagonizado pelo arquitecto Tomás Taveira, figura que pelo carácter e obra nunca fora consensual, mas cuja intensa actividade laboral no escritório das Amoreiras se imortalizou. Quem nunca ouviu as sinceras palavras do arquitecto? Frases como “isto aqui está um inferno” ou “ai menina kookai” permanecem até hoje na nossa memória colectiva. Um raríssimo caso de longevidade num país onde qualquer discurso ou promessa eleitoral são rapidamente esquecidos. Talvez a solução para baixar a abstenção passe por recrutar mais arquitectos para a política, quem sabe…

Na falta de políticos licenciados em arquitectura, talvez os jornalistas com essa formação possam contribuir. Não há muitos, mas um em particular, José António Saraiva, tem vindo a dar o seu contributo, quer escrevendo, quer dirigindo importantes semanários. No auto-intitulado “Hipermercado da informação” foi director durante mais de 20 anos, lugar que mais tarde assumiu no concorrente directo até ao final do ano passado. Ao todo, três décadas a dirigir os principais jornais nacionais! Dirá isto mais sobre quem os detêm do que propriamente sobre o próprio.

Finda a carreira jornalística, e por certo procurando contribuir para ampliar a participação eleitoral dos seus concidadãos, o arquitecto Saraiva decidiu criar de uma assentada uma saraivada de novas “meninas kookai”. Lançará para a semana um livrito sobre a vida íntima dos políticos com quem conviveu, episódios que nunca teve oportunidade de contar, logo a nós, compatriotas que adoramos a devassa da vida privada.

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Tomb Raider

Tantos foram os filmes a estrear esta semana que qualquer cinéfilo que não viva acima das suas possibilidades se vê confrontado com uma escolha difícil. Olhando para a oferta encontramos: policiais com vítimas e justiceiros; intriga e comédia com ex-comissário em degredo milionário para lobista; teoria da conspiração sobre manobras diplomáticas na eleição para secretário-geral das Nações Unidas; e por fim, mas não por ultimo, um drama sobre paternidade e traição, a rebaldaria do anúncio unilateral. Depois de falhado o tema fracturante anterior, a inconsequente tirada sobre os Comandos, havia que fazer algo vistoso até ao final da semana. Lá veio a bomba, a granada lançada pelo bloco que assim se esforça para não parecer uma esquerda no bolso do líder da geringonça. A dita abanou. Foi nítido o desconforto de todos, para gáudio de todos os outros.

Está escolhido o filme! Um clássico para o futuro, mais uma aventura que conta com a irreverência, audácia e competência da mordaz Lara Mortágua. Coube-lhe o papel de protagonista na obra ontem estreada, mais um da saga Tomb Raider, um filme de acção, uma ficção sobre a tributação dos palácios privados. Seja qual for a regra do imposto anunciado por Lara, é irrelevante, importante foi o efeito surpresa, a emoção, a sensação… Seja como for, como propaganda, foi um bom golpe. O Trailer passou em todo o lado e por todo o lado se falou daquilo que ainda não se conhece. Por momentos, pelo menos ontem, o bloco saiu da casca…

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G.I. Jane

Num mundo em permanente mudança, a misoginia vai perdendo terreno para a igualdade entre os géneros. Nenhum lugar, nenhuma posição ou profissão está hoje vedado ao sexo feminino. Nem sempre assim foi. Há bem poucos anos tudo era ainda muito diferente, muitas portas permaneciam injustamente fechadas às senhoras. O clássico do cinema de hoje fala-nos disso, relembra-nos dos tempos idos do final do século passado, quando as mulheres de armas não podiam ainda combater. Não sendo baseado numa história verídica, G.I. Jane foi um filme marcante para muitas (então) jovens raparigas, contando-nos a estória da primeira mulher a concluir a recruta dos famosos SEALS, unidade de elite da Marinha Norte-Americana. Foi um filme inspirador, fez da protagonista, Assunção O’Neil um ídolo sem igual e ascendeu a actriz que a protagonizou à fama mundial, uma das mais bem pagas do universo, Demi Cristas.

Foi há dias anunciada a primeira sequela, o segundo filme da série, intitulado G.I. Jane 2 – O Assalto à Capital. A protagonista apresenta-se destemida, apta e pronta para qualquer missão. Ai vai ela ao ataque anfíbio, desembarcando, quem sabe, de algum submarino que o seu antecessor tenha adquirido e à imagem dele condicionar os aliados de sempre. Ele, o antecessor, reconhecidamente um especialista em entalar os líderes laranjas, triturou uns quantos e a nenhum deu descanso. A nova e voluntariosa líder segue-lhe as pisadas com distinção. Escolheu o momento com mestria e apresentou-se no terreno para travar a batalha que lhe convêm. Assim se faz o culto da líder.

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Braseiro Lusitano

Ao aterrar de umas férias frescas senti-me algo desorientado ao reentrar no nosso braseiro luso. Primeiro sinto no corpo as temperaturas a roçar os 40º, depois sinto na alma as notícias recorrentes de incêndios a lavrar florestas, terras e mesmo áreas urbanas. Isto com a desresponsabilização do costume, de supostamente haver pouco a fazer preventivamente contra o binómio, mão criminosa mais força da Natureza, que em anos atípicos como o actual é demolidor e incontrolável.

Decidi investigar um pouco o tema, deparando-me com números que demonstram que, de entre os países mediterrâneos Europeus, Portugal, apesar de ser o País com menor área florestal, disputa taco a taco, ganhando em muitos anos, o título de país com maior área ardida e maior número de incêndios por ano. São números de décadas que demonstram que apesar da nossa bravura na luta de terreno temos alguma brandura no estudo, compreensão e/ou aplicação de medidas eficazes que diminuam a ocorrência de incêndios no nosso território. O problema é global, em alguns países como Brasil, Indonésia, Rússia, Austrália, Estados Unidos, Canadá, com escalas exponencialmente maiores do que a nossa. Este será um dos poucos temas onde o factor escala nos favorece. Temos um território relativamente pequeno pelo que o seu controlo e ordenação deveria apresentar-se como um desafio superável ao invés de um inferno perpétuo.

Passo a uma desconstrução sumária do cenário actual.

Os bombeiros são parte importante da nossa protecção civil há mais de 650 anos, deverão existir  em Portugal aproximadamente 30 mil bombeiros dos quais aproximadamente 3 000 são profissionais, só 7% da sua actividade é relacionada com o combate a fogos, existindo para si um regime jurídico particular e uma enorme complexidade na sua organização e gestão.

Em termos de áreas ardidas a grande maioria é composta por mato e pastagens ou áreas florestais, diz-se que parte relevante são “terras abandonadas sem dono” que servem muitas vezes de acendalhas de grandes incêndios.

Quanto a meios e equipamentos foi feito este ano um investimento de mais de 70 milhões de euros, apesar das Forças Armadas fazerem parte do dispositivo de combate ao fogo a nossa Força Aérea não está capacitada para nele participar activamente com meios aéreos.

Passando por cima dos efeitos não quantificáveis de um fogo ficamos com aquilo que pode ser quantificável, os prejuízos económicos, que segundo estimativas do governo ascendem a mais de mil milhões de euros.

Continuam a existir variados interesses ocultos por parte de indústrias e sectores económicos que acabam beneficiados pela ocorrência destas calamidades.

Agora que temos aqui reunida a lenha para a fogueira é chegada a altura de pegar fogo à peça.

Relativamente aos bombeiros a situação é extremamente delicada pois são verdadeiros heróis e qualquer ‘revolução’ na sua estrutura pode ser vista como o colocar em causa do seu trabalho. É inegável o seu contributo para a sociedade, em todas as suas valências de actuação, mas realmente no enfrentar de fogos florestais de grande dimensão nota-se que falta qualquer coisa. Sejam meios, seja coordenação, seja formação, há algo que falha. É clara a prioridade de protecção a vidas, a habitações que culmina muitas vezes num deixa arder do resto. É isto que passa na cobertura mediática onde se registam com frequência queixas da população ou dos próprios bombeiros, mesmo que prontamente abafadas e justificadas como algo do calor do momento. Ser bombeiro é algo exigente em termos de tempo, do físico e de aspectos emocionais/psíquicos. Parece-me que nos dias de hoje, com o volume de ocorrências e as exigências da vida pessoal e profissional, o voluntariado puro possa causar problemas, se não ao nível do número de efectivos disponíveis pelo menos ao nível do seu estado individual de prontidão, da sua capacidade de resposta a todos os níveis em qualquer momento. Combater um fogo, com elevado grau de incerteza da situação e de risco para a integridade física do próprio bombeiro, será certamente muito diferente dos restantes 93% da sua actividade de voluntariado. Por outro lado existem as empresas empregadoras dos bombeiros voluntários potencialmente ‘lesadas’ até 1x mês por ano, já que o bombeiro tem direito a três dias dias por mês (pagos pela empresa) para exercício das suas funções e/ou formação, para além de se verem privadas dos seus trabalhadores durante o período de combate aos incêndios. Será que nos dias de hoje termos bombeiros estritamente profissionais não acabaria por ser mais vantajoso para todos os envolvidos? Isso até aparenta ser um desejo da Liga dos Bombeiros Portugueses, pelo menos para os seus efectivos desempregados que passariam a ser profissionais de uma forma encapotada. Não teria também um impacto positivo em termos da diminuição da taxa de desemprego?

Por outro lado parecer-me-ia útil ter uma unidade de bombeiros exclusivamente dedicados à prevenção e combate  a incêndios que pensem, estudem e lutem contra o fogo a 100% do seu tempo. Seria nela compilada toda a experiência acumulada, a nível nacional e internacional, tornando-se progressivamente na responsável pela coordenação no terreno em qualquer ponto do país. Naturalmente teriam também uma palavra a dizer na ordenação de todo o território florestal. Basicamente poderiam ser mantidos os Corpos de Bombeiros tal como estão hoje, mas extirpar-los em termos administrativos e de gestão, da componente de prevenção e combate ao fogo. Pensar os incêndios como algo sazonal e parcial não tem funcionado de todo, apenas a existência de sapadores florestais localizados tem-se revelado insuficiente, pelo que esta seria uma medida que delegaria numa entidade competente um estado de alerta permanente.

Relativamente às terras consumidas, muito mato e árvores, com uma unidade fiscalizadora, que poderia muito bem ser a acima indicada, rapidamente seriam identificadas as terras que não estão devidamente limpas podendo agir-se em conformidade. Como fazê-lo sem acarretar grandes custos quando o dono das terras não seja conhecido ou não tenha capacidade financeira para o executar? No caso de mato e pastagens seria simples, bastaria criar equipas de pastoreio com rebanhos de caprinos e ovinos que fariam a limpeza do terreno de forma barata e eficaz para além de ainda adubarem e revolverem o solo. No caso de outros tipos de massa combustível, não consumível por rebanhos, teria de se proceder a uma limpeza via trabalho humano que teria de ser suportado pelo estado, ou autarquia, sendo que aqui não me chocaria nada recorrer a grupos de voluntários, reclusos e/ou desempregados, devidamente recompensados por forma a baixar consideravelmente os custos comparativamente à contratação de serviços a empresas.

Para protecção de habitações e das copas das árvores deveríamos apostar em investigação tecnológica para diminuir custos de investimento em equipamento capaz de retardar, ou mesmo parar, fogos em zonas de alta densidade florestal. Por exemplo a construção de torres de água de alta capacidade que realizem a captação de águas pluviais no Outono / Inverno e tenham a capacidade de realizar a sua aspersão sobre as copas das árvores quando necessário, invenção de novos tipos de descarga de água por meios aéreos que sejam mais próximos de uma chuva contínua e prolongada do que de um largar de bomba aquática altamente concentrado e mesmo destrutivo, utilização de drones ou câmaras de alta precisão instaladas em torres eólicas que sejam atraídas por focos de temperaturas extremas por forma a antecipar ao máximo o envio de alertas, dotar as casas remotas de sistema de aspersão para o exterior a partir das suas paredes e telhados para que a sua defesa deixe de ser uma preocupação constante e prioritária sobre tudo o resto, etc. Como referido no início este é um problema mundial com tendência a agravar devido às alterações climáticas, o que quer dizer que é também um nicho de negócio emergente, sobretudo devido à gravidade de fogos recentes e suas repercussões ambientais e económicas em todo o globo. Ao invés de termos vários sectores económicos a beneficiar da ocorrência de fogos criaríamos novos sectores que beneficiariam da cada vez menor ocorrência de fogos.

Quanto aos meios aéreos parece que a única coisa a voar como deve de ser são os milhões de euros… nos últimos anos são frequentes ecos mediáticos da necessidade de mais ou melhores meios aéreos de combate aos incêndios. Acho um pouco estranho o não envolvimento da Força Aérea (FA). Compreendo que em termos técnicos existam condicionantes que o impeçam, poderá ser justificável se o custo de adaptação de um aparelho de aviação militar ao combate a incêndio seja demasiado caro ou se isso lhe retira capacidade operacional do ponto de vista militar, mas será que não poderiam gerir a frota ou ao menos facultar pilotos para pilotar os meios aéreos existentes? O combate aos incêndios pode ser um teatro real para treino de pilotos da FA reduzindo ao mesmo tempo custos nos contratos com privados (que incluem a pilotagem). Facto inegável é que a gestão da frota realizada nos últimos anos, fora da FA. levou à dependência quase total de meios facultados por privados ou auxílio de terceiros, estes últimos com custos diplomáticos no futuro.

E por favor estabeleçam-se objectivos concretos que permitam acabar com a dança dos números para mascarar a ineficácia da prevenção e combate aos fogos. Não é aceitável a demagogia habitual, que se diga que o ano foi positivo porque ardeu menos área que o ano passado, porque não houve vítimas de incêndio, porque não houve danos em habitações, etc. Isto é gestão populista pois certamente existem situações em que é preferível deixar arder habitações, que se recuperam num ano, para salvar largos milhares de hectares de floresta que demoram décadas a restabelecer-se. São decisões difíceis que devem ser tomadas por especialistas na gestão de fogos e de território florestal. Portugal tem de ter um número fixo de hectares máximos definidos como perda aceitável anual, a nível regional, e tudo o que passe além disso terá de ser considerado um fracasso. Pelo menos o Algarve já definiu este indicador. Considerando 400 mil ha de área florestal os 0,8% indicados representariam 32 mil ha como marca aceitável para esta região pelo que parece que alguém está a ter sucesso nesta batalha. Transparência e informação é ao menos a obrigação de divulgar o evoluir destes números sempre que se faça a cobertura mediática do combate aos fogos.

Tudo isto custará dinheiro que terá de vir de algum lado, mas tendo em conta o volume de prejuízos acumulados ao longo dos anos rapidamente se verificará que do ponto de vista económico existirá uma poupança real se realizado maior investimento na prevenção  e combate do fogo ao invés de se garantir o ressarcir de investimentos realizados.

Por fim, uma outra forma de reforçar a actuação dos governos no combate aos fogos, seria o imputar a cada país o volume de emissão de carbono gerados pelos incêndios no seu território. Este seria um indicador com impacto relevante quando todos os países têm como meta a diminuição drástica da emissão de CO2. Seria mais uma forma de trazer ao de cima uma realidade nacional que na verdade tem um efeito a nível mundial. Um incêndio não apenas emite gases tóxicos como durante um longo período reduz em muito a capacidade de absorção de CO2 por parte da flora atingida. Ou ainda acreditam que isto do aquecimento global é um mito?

Posto isto, depois de ler várias sugestões e dissertações de quem está envolvido directamente nesta guerra ao fogo, algumas das quais convergentes com ideias aqui deixadas, temo que este post não passe de mais um pouco de chover no molhado quando esta chuva de ideias deveria sim ser canalizada para a resolução do Portugal ardente. Mais do que dependência meteorológica a resolução deste problema tem dependência política pelo que a previsão não é favorável já que infelizmente a actual geringonça foi pensada para apagar outro tipo de fogos que se reacenderão assim que sejam extintas as chamas do fogo real.

 

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Exterminador Implacável

O “Exterminador Implacável” foi o filme inaugural desta popular saga cinematográfica, uma premonitória visão de um futuro dominado pela tecnologia e onde as viagens no tempo serão (finalmente!) possíveis. Esta civilização das máquinas não temerá quaisquer consequências metafísicas e decidirá alterar o seu presente, manipulando o passado. Enviará um robô humanóide, modelo T-800, vindo do futuro para assassinar o messias salvador da espécie humana. Inigualável e apaixonante narrativa, potenciada pelos sentimentos ambivalentes que este primeiro exterminador provoca na classe média.

Viajar no tempo – Imaginem! Voltar atrás no tempo e alterar o sentido do voto. Não seria bom? Pessoalmente, poupar-me-ia ao desconforto da viagem, pois todo o meu percurso de eleitor é composto por derrotas. Nunca contribui para qualquer vitória eleitoral. Tenho especial orgulho nisso, jamais me abstive e nunca votei em quem ganhou. Estou de consciência tranquila. Por outro lado, sabendo o que sei hoje, talvez pudesse voltar atrás no tempo para votar pela negativa. Se o meu voto é como uma sentença de fracasso eleitoral, poderia regressar para influenciar os resultados, negando com o meu voto a possibilidade de vitória a quem nos tramou. Que bom seria, mas não sendo hoje possível, adiante, que o assunto agora é um filme com muitas explosões. Onde é que eu ia? Ah, sim, o desfecho: depois de eleito e reeleito, o implacável robot foi perdendo o revestimento humano, pack após pack, desnudado até ao chassis, foi detido, perdeu as pernas e caiu no vil metal fundido. Assim terminou este episódio da saga…

exterminador

Looney Tunes

Costumavam ser duas épocas bem distintas, demarcadas por fronteiras muito nítidas, mas distinguir a Silly Season da Rentrée Politica é cada vez mais difícil. A tradição já não é o que era. Vulgarizámos o disparate ou baixámos a exigência? Estou inclinado para a segunda: Depois das viagens para assistir a jogos de futebol (oferecidas por quem não devia a quem não as podia aceitar), depois de revelado o acesso da Administração Tributária a algumas contas bancárias e após as inovadoras alterações ao Imposto Municipal sobre Imóveis, julgámos esgotado o estado de graça do actual executivo, mas não, o indulto parece garantido. Porque será? Será magia? Qual o segredo?

Nem magia nem segredo, simplesmente não existe qualquer oposição, apenas pretendentes, bonecos que a cada instante vaticinam a desgraça colectiva. Ignoram, coitados, que os seus planos de emboscada estão para a realidade como a pretensão do Coiote apanhar o Bip-Bip está para a fantasia. Por mais infalível a armadilha, o resultado é sempre o mesmo, isto é, nenhum. Seria até divertido se não fosse tão trágico. Nada pior do que não existir alternativa.

Retemperadas as mentes e reconfortados os espíritos, as personagens desta série de aventuras estão aptas a novas estórias de tragédia e gargalhada, humor negro do melhor que o mundo conheceu. Os protagonistas dos Looney Tunes lusitanos, a saber, António Sylvester Costa, Jerónimo Daffy Sousa, Margarida Tweety Martins, Pedro Bugs Coelho e Assunção Lola Cristas, aguardam, a partir de amanhã, a chegada do seu companheiro de aventuras, o Diabo da Tasmânia.

Looney-Tunes-Portugal