O Passaporte de Churchill
Dois ilustres, dois ex-líderes ocidentais, encontram-se no purgatório.
O primeiro está em trânsito: cumprem-se procedimentos e burocracias intermináveis. Aguarda pelo inevitável destino: a descida ao abismo, obviamente escoltado por agentes do ICE. Indignado, reclama, diz-se injustiçado. É desagradável com todos, exige prioridade, tratamento especial. Insiste que quer falar com os superiores, persiste que tudo não passa de um erro administrativo. É Donald J. Trump.
O segundo é uma alma penada, um espírito gasto, quase irreconhecível. Enlouquecido por décadas a deambular entre a luz e o abismo, vítima da indecisão das autoridades do além — foi virtuoso e foi trágico, fez o bem e fez o mal, pintou mas conspirou — vagueia num estado de permanente delírio. É Sir Winston Leonard Spencer Churchill.
Ao cruzarem-se num corredor enevoado e esconso, Trump aborda o antigo estadista britânico e mete conversa:
— Winston! Winston Churchill! Grande homem! Um dos grandes, como eu. Nós, os grandes homens, temos sempre destinos complicados, não é verdade?
Churchill não reage. Olhar vazio, fechado sobre si próprio, claramente perturbado. Apenas silêncio. Trump, imperturbável na sua autopromoção, reitera, insiste em tentar ombrear:
— Somos grandes, como nós há poucos. Com quem é que já te cruzaste por aqui? Nunca ninguém viu nada tão grandioso como a minha obra. Talvez a maior!
Churchill reage. Bamboleia, enquanto se baba, e começa a dizer, com voz trémula:
— Mortes… muitas mortes… muita desgraça por minha culpa… foi vaidade… foi soberba…
Trump sorri e aproxima-se, para segredar:
— Eu percebo isso. A pressão. Só os grandes sabem. Eu fui um líder extraordinário, tremendo! Mudei o mundo. Tu entendes. Somos do mesmo tipo, Winston. Visionários.
Churchill oscila ligeiramente, como se não estivesse ali. Volta a murmurar, agora misturando tempos e culpas:
— Epstein… mortes… Golfo da América… desgraça… tarifas… Dardanelos… Groenlândia…
Sem abrandar, Trump continua:
— As pessoas adoravam-me! Multidões. Nunca se viu nada assim. E tu? Também tiveste as tuas multidões, certo? Discursos fantásticos. Eu também faço discursos incríveis, é o que todos dizem.
Churchill começa a andar em círculos, cada vez mais perturbado:
— Mortes… muita desgraça… por minha culpa… soberba…
Trump acompanha-o, quase lado a lado, decidido a com ele construir uma excelente relação:
— Há quem diga que fui mal compreendido. Injustiçado, até. Como tu. A história trata mal os grandes homens. Mas, no fim, reconhece. Reconhece sempre!
Churchill leva as mãos à cabeça e grita:
— Por minha culpa… por minha culpa… tanta gente…
Depois, congela e remete-se ao silêncio. Surpreendido, Trump perde o embalo, abranda sem dar por isso. O silêncio de Churchill começa a incomodá-lo. Olha em volta e percebe que ali, todos são indiferentes ao seu brilho. Pela primeira vez, a confiança vacila.
— Quer dizer… Nem sempre reconhece…
Churchill não responde, retoma os movimentos erráticos e repetitivos. Trump baixa o tom:
— Há decisões… decisões que ficam. Que não desaparecem na espuma dos dias.
Churchill murmura, quase inaudível:
— Ficam… ficam sempre…
Trump engole em seco. A voz perde força, soa a contratenor:
— Talvez… talvez me tenha precipitado nalguma decisão… algumas coisas correram mal… outras não deviam ter sido tentadas…
Breve pausa. Trump murmura, enquanto olha para o chão:
— Se calhar… se calhar, atacar a Pérsia não foi grande ideia…
Absoluto silêncio. Nesse exacto instante, Churchill pára. Endireita-se subitamente. O olhar ganha foco. A loucura dissipa-se como o nevoeiro ao sol. A voz regressa, firme, inteira:
— Muito bem.
Trump, incrédulo, fica imóvel. Churchill apaga o charuto com altivez, ajeita o casaco, recupera toda a compostura e despede-se:
— Prazer em ver-te, velha carcaça. Obrigado.
Vira-lhe as costas. Caminha decidido até São Pedro e declara:
— Já tenho o meu passaporte para o céu.
São Pedro levanta os olhos, intrigado:
— Ah, sim? E qual é?
Churchill sorri, um sorriso rasgado, totalmente triunfante:
— Eu, por soberba, causei uma enorme tragédia ao tentar abrir um estreito que estava fechado…
Faz uma pausa, saboreando o momento.
— Ele… foi fechar um que estava aberto!
Em silêncio, São Pedro anui.
O bom, o mau e vilão
Depois da noite passada de entrega de Óscares julgo que se pode de imediato antecipar o vencedor incontestável da edição do próximo ano. Está em exibição internacional uma insuperável longa metragem, repleta de complexidade, humor, terror, drama, animação por IA, fantasia e surrealismo, que irá certamente arrebatar todas as categorias de prémios. Correndo o risco de ser spoiler deixo aqui o resumo e crónica do seu argumento.
Era uma vez um vilão que conspirava para ter os meios necessários para a destruição de uma nação vizinha. Essa nação, de grande poderio militar e excepcionais serviços de inteligência, fez queixinhas ao seu mais querido aliado, seduzindo-o para um ataque preventivo que impedisse o vilão de se empoderar para níveis ameaçadores.
O aliado mostrou-se surpreso, afinal há menos de um ano tinham anuido a semelhante acção, tendo pomposamente anunciado ao mundo que 12 dias foram suficientes para obliterar as infra-estruturas necessárias para execução dos maléficos planos do vilão. Além da surpresa mostrou renitência, afinal estavam a decorrer negociações com o vilão que na última sessão demonstrou abertura a abandonar parte dos seus planos e repensar a sua atitude.
Contudo, a nação com forte sentimento de ameaça iminente mostrou-se intrasigente, exigindo nova acção militar que lhe permitisse voltar a sentir-se segura. O aliado respirou fundo e, talvez por um pacto de sangue ou por simples amarração de amor, pôs a máquina de guerra a trabalhar num traiçoeiro “Shock and awe”.
O vilão encaixou. O seu líder martirizou e galvanizou. A estrutura remanescente retaliou. Na resposta atacou bases e interesses do aliado em 15 países diferentes e ainda visou a nação temerosa como esta nunca tinha sido atingida. Pior, exerceu a sua soberania territorial para proibir a circulação no estreito comercial energético mais movimentado do mundo. Para cada ataque sofrido, retaliação à medida ,visando o mesmo tipo de alvos demonstrando que tem poderio e capacidade para fazer o que quer quando quer. O vilão não está a escalar a guerra mas sim a responder à escalada a que é submetido. Isso deixa a nação virtuosa e seu aliado numa alhada porque cabe-lhes a eles o complicar ou facilitar desta guerra. Cada sua jogada define a próxima de forma bastante previsível.
Felizmente o aliado tinha-se precavido, apenas umas semanas antes reconstruira amizade com uma outra nação próxima, que facilmente lhe providencia o necessário abastecimento energético. Os efeitos colaterais apenas se sentem no resto do mundo, sendo que, na sua óptica, todos concordam que uma guerra virtuosa justifica uma vivência sofrida e penosa. Irritantemente descobriu que a sua visão não é corroborada pelos parceiros de longa data que se recusam a participar na cruzada por si iniciada. Fica assim orgulhosamente só de mão dada com a sua nação amada, para o que der e vier.
Esta história permite tirar três ilacções. Uma é a de que o vilão sempre teve poderio suficiente para obliterar quem quer que fosse na sua região, nunca o tendo exercido, o que demonstra que talvez seja mais pacífico do que aquilo que nos querem fazer transparecer. A segunda é a de que a nação, de pronome “santa”, não hesitou em destabilizar e arruinar toda a região estando preparada e quiçá ansiosa por ter um motivo para personificar Sansão. A última é o facto do poderoso aliado mostrar a sua face de total subserviência às vontades e caprichos da “frágil” nação, talvez também por forte necessidade de desvio de atenção.
Certamente haverá anjos e demónios nesta história dominada por duas correntes teológicas, o mais complicado é descortinar como estão distribuídos já que a dissimulação propagandista é forte em ambos os lados. Uma coisa é clara, o objectivo principal, ou mesmo secundário, não é a vontade de despoletar uma mudança de regime ou libertação de opressão no país vilão. Coisa só possível por vontade e mobilização orgânica da maioria de uma população de 90 milhões de habitantes.
O mais importante a reter é que todo o dominó que se seguiu ao início da guerra é facilmente simulado e previstos em jogos de guerra e de estratégia geo-política. Não há nada a acontecer que não fosse esperado, logo está a ser executado de acordo com plano de reformulação da relação de poderes na região e mundial. Provavelmente os atacantes não esperariam que o vilão fosse tão hábil praticante de judo, sendo capaz de suportar as idas ao tapete e de imediato controlar e redirecionar o movimento dos adversários.
Don’t Look Up
Neste regresso aos nossos clássicos do cinema, focamos o projector num sucesso recente: recuamos apenas uma mão-cheia de anos até ao filme Don’t Look Up. A obra de 2021, então simultaneamente classificada como comédia e drama, hoje poderá parecer sátira política, mas, na minha modesta opinião, sempre foi um ensaio sobre a estupidez cósmica. Questiona, sob múltiplos ângulos, quão fúteis conseguimos ser, sem dúvidas ou remorsos. Como espécie, munidos dos mais sofisticados meios tecnológicos, estamos no pináculo da nossa cegueira.
A história do filme, realizado por Adam McKay e protagonizado por uma verdadeira constelação de estrelas, relata-nos a forma como sociedades e governos lidam com a perspetiva da extinção — leia-se, o fim de algo tão precioso e raro como a vida dita inteligente. O absurdo governa o mundo, mantém-se inabalável mesmo quando a agenda entra em rota de colisão com os acontecimentos, ignorando que nenhum poder é infinito. A realidade, essa, quando adversa, é posta de lado. Vivemos num circo global e mediático, onde a ignorância extrema é valorizada e o conhecimento galacticamente ignorado. Não há risco, só certezas. Lançam retórica como se a sua vontade fosse lei da física, como se o universo se vergasse ao seu desejo.
A bravata perante o fim trágico — mesmo diante da possibilidade de extinção — alerta-nos, ou deveria alertar, para quão frágil a nossa existência é. Perante o cometa em rota de colisão com o planeta, mantemo-nos focados no umbigo, esse buraco negro da compaixão, onde toda a empatia se extingue no horizonte do ego. É precisamente aí que estamos centrados, sentadinhos ora no sofá, ora no carro, enquanto aguardamos na fila para abastecer, como se, de facto, o preço dos combustíveis fosse o verdadeiro problema. Não é. O problema é bem mais profundo e pode, caprichosamente, ser revelado pela superficialidade daqueles que se julgam senhores do cosmos. A sua envergadura é pequena, pequenina, e por isso se esforçam tanto para parecer grandes figuras. Nós, expectantes, assistimos à performance, ignorando que estes protagonistas poderão mesmo ficar para a história como os figurões de uma estória que ninguém ficará para contar.
Mais do que a dificuldade em agir decisivamente perante ameaças reais, o perigo reside hoje na incapacidade de agir racionalmente quando a realidade não vai ao encontro do desfecho súbito e definitivo, tal como idealizado. Aqueles que se julgam no Olimpo, perante a adversidade, não se contentam com o recurso à censura e à manipulação dos factos. Uma vez desmascarados da sua ilusão de invencibilidade, movidos pela sua fútil vaidade, vão, uma vez mais, provar que a arma dos fracos é a força — poderão, em breve, recorrer ao engenho dito tático, numa terceira demonstração do poder escondido dentro do átomo. Ao fazê-lo, dir-nos-ão que o poder destrutivo estava escondido, enriquecido pelo inimigo, e assim tentarão legitimar a ação tomada. Ante este plano de ação da fraqueza e dissimulação, agiremos como no filme: mesmo perante um perigo desta magnitude, continuaremos a discutir versões da realidade, cada qual confortável com aquela que convém à sua tribo. No entanto, a devastação neste cenário, não reconhecerá fronteiras. Tal como no filme, não existe abrigo ideológico nem refúgio geográfico. O imparável cometa, somos nós, crentes na dicotomia do “nós contra eles”, incapazes de compreender que partilhamos o mesmo planeta e como tal, o mesmo destino.
A sociedade quântica: um sistema fechado
Ao contemplar a obra de Gustav Klimt, notamos que o brilho domina as suas telas, como no “Retrato de Adele Bloch-Bauer I”, conhecido como “A Mulher em Dourado”. Envolta num manto de sacro esplendor, a mulher, à semelhança de um gato sem contornos, define-se pela ornamentação. O ouro não apenas exalta; representa uma caixa dourada, bela e elaborada, na qual se encerra a protagonista, tão felina quanto sedutora.
Um outro austríaco, o físico Erwin Schrödinger, contemporâneo de Klimt, foi, como ele, um homem de gatos. Schrödinger elevou a espécie a outro papel, muito além do tangível: promoveu-o a protagonista da mecânica quântica quando, em 1935, formulou a sua célebre experiência mental. Um gato fechado numa caixa com um dispositivo que, aleatoriamente, pode ou não matá-lo: um evento quântico que, dependendo do decaimento de uma partícula atómica, determina o destino da criatura. Só abrindo a caixa saberemos se está vivo ou morto — Fechado, o gato encontra-se num estado paradoxal, simultaneamente vivo e morto. Isolado, o protagonista desconhece esta dupla condição.

E se a caixa nunca for aberta?
Na física, o paradoxo expõe os limites da interpretação quântica. Numa metáfora social, a caixa representa o poder, fechado e auto-referencial. Um sistema que controla a informação e, sobretudo, o momento da revelação. A incerteza deixa de ser fenómeno natural e torna-se instrumento político. O gato, somos nós.
Vivemos em contradição: livres e condicionados, envolvidos e marginalizados, informados e manipulados. A promessa de equidade resume-se à existência na ambiguidade. Todos envoltos pelo mesmo ornamento dourado, ao abrigo da mesma ordem, sob a mesma lei. Mas quem detém a chave da observação não está dentro da caixa.
Tal como no quadro de Klimt, o ouro cria a ilusão de transcendência e transmite elevação, mas é garante da imobilidade. Uma figura majestosa como protagonista, porém inerte. A moldura simbólica torna-se fronteira. A caixa oferece conforto, estabilidade e pertença. O mal conhecido veste-se de liberdade; a resignação apresenta-se como maturidade política.
O observador, na experiência de Schrödinger, determina o estado final. Na analogia, o observador é a elite que molda narrativas, define o aceitável, delimita o horizonte do possível. O seu poder reside na suspensão.
Mas ninguém abre a caixa?
As elites nunca o farão, simplesmente porque o poder é o status quo. Qualquer espreitar de relance serve propósitos de luta elitista, mera contenda entre poderosos; como tal, não só a caixa rapidamente se volta a fechar, como é coberta por um manto de dúvida para que nada se conclua sobre o que se viu. Tão óbvio que não carece de exemplos, actuais ou antigos, sejam de mentiras feitas verdade, gritantes dualidades de critério ou perversão impune.
E o gato? A caixa é dourada; a promessa de igualdade, embora reduzida à uniformização, oferece segurança. Questionar implica risco; aceitar mantém o conforto conhecido. A caixa transforma-se em cultura e mantém-se enquanto for aceite como inevitável.
Ao resignar-se, o gato contraria o instinto, abdica do juízo próprio e comete um duplo pecado anti-natura: reprime a própria consciência e transmite essa repressão às gerações futuras. A clausura torna-se herança; o hábito, prisão. Somos convidados a pensar todos da mesma forma e, como formigas, a agir em uníssono. A diferença deixa de ser virtude e passa a ser ameaça.
Mas há um ponto onde a metáfora se rompe, onde a esperança quebra o ciclo vicioso e o sistema desmorona. Ao contrário do felino da experiência de Schrödinger, os humanos possuem consciência reflexiva. Não somos apenas objecto de observação. Podemos questionar a caixa, interrogar o ouro que nos envolve e distinguir entre ilusão e liberdade. A maior dádiva da vida humana é a consciência.
Urge darmos crédito ao nosso instincto, à nossa intuição, ao impulso que emana do nosso âmago e nos diz: fugir ou lutar.
Talvez assim, a caixa dourada da nossa metáfora perca o brilho hipnótico. Quem sabe o gato sai da caixa por vontade própria. É, antes de mais, o observador de si mesmo. Não é apenas a sua consciência individual, é dever moral colectivo.
Oportunidade para tira teimas às narrativas sobre imigração
O balanço ainda não foi finalizado e os números relativos ao prejuízos são já abismais. Além da disponibilidade de liquidez, será necessária disponibilidade de mão de obra para execução dos serviços e trabalhos necessários à reconstrução e revitalização das zonas afectas.
Desde o primeiro momento os nossos governantes prontificaram-se a facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros. A ala do Chega imediatamente demonstra o seu incómodo insinuando que a resposta poderia ser dada com trabalhadores nacionais se as condições de trabalho fossem atractivas.
Observo, pondero e parece-me oportuno testar ambas as narrativas pensando um pouco fora da caixa. Teremos já cerca de 1.000 trabalhadores em layoff, recebendo dois treços do salário, garantido pelas empresas com participação temporária do estado. Mais certamente se seguirão, sendo que vários poderão ir directo para a situação de desemprego. Só o Distrito de Leiria tem anualmente uma média 9 a 10 mil pessoas em situação de desemprego. Podemos então considerar para este exercício que só na zona mais afectada existem milhares de trabalhadores potencialmente válidos para ingressar os grupos de trabalho a serem criados.
Proponho então o seguinte: que excepcionalmente quem esteja em layoff, ou situação de desemprego, possa acumular o seu salário parcial ou subsídios, com o salário que receberia ao ingressar nas equipas de reconstrução das áreas afectadas. Isto significa que iriam auferir um salário substancialmente acima do que normalmente é pago na área da construção civíl (e outras necessárias como por exemplo na agricultura), esclarecendo se a baixa propensão dos portugueses em fazer este tipo de trabalho tem realmente a ver com a baixa compensação ou com um estigma ou aversão para com trabalhos em obras ou no sector primário.
Em termos técnicos é exactamente o mesmo, tenho experiência directa com empreiteiros que se queixam de não existir mão de obra qualificada para obras, nem nacional nem estrangeira, pelo que a formação e entropia inicial é uma fase necessária em qualquer dos cenários.
Em termos humanos teríamos também um grande trabalho psicológico e social, pois nada melhor para a saúde mental e realização pessoal do que recuperar as nossas habitações e os espaços comunitários directamente, com as nossas próprias mãos e suor.
Logisticamente falamos de aproveitar o capital humano já existente e instalada na região, sem complicações acrescidas de encontrar alojamento e condições dignas para os trabalhadores.Se necessário, para os que estão sem tecto, alugue-se na íntegra os vários hotéis e alojamentos locais na região até que a situação seja resolvida.
Nada contra a vinda de imigrantes, não deixando de achar rídicula a intervenção imediata do Presidente da República que parecia mais lesto em acelerar esta agenda do que em avaliar com ponderação o cenário e amparar a população afectada, mas gostaria de perceber realmente se não conseguimos proporcionar as condições que em teoria permitam reconstruir com a prata da casa.
Provavelmente a solução será um bom mix dos dois, tenhamos a coragem de tomar medidas excepcionais para situações excepcionais.
Recordistas?
O vencedor obteve a maior votação de sempre! Recordista histórico ou haverá ainda mais por explorar nesta verdade, neste feito legitimador de uma estória em detrimento da outra? Poderá alguma das narrativas em contenda, afinal, clamar triunfo? A comparação entre as eleições presidenciais de 1986 e as deste ano é, a vários níveis, inevitável: desde a óbvia e rara segunda volta, até ao arregimentar, mais ou menos tímido, de votos em torno de candidatos ditos «não naturais» aos diferentes contextos partidários. Quatro décadas volvidas, do século passado para os nossos dias, muito mudou — nem tudo para melhor — mas, em rigor, prosperámos e crescemos em população eleitoral, de 7,6 para 10,9 milhões de eleitores inscritos!
Vencedor recordista? Curto e grosso: sim. A votação no vencedor é recordista, correspondendo a um incremento de cerca de 15,7% em relação ao vencedor em 1986. Contudo, o universo de inscritos cresceu 43,8%, o que dá que pensar. Observemos a realidade crua dos números: hoje somos mais 3,3 milhões de eleitores e, paradoxalmente, o número de votantes diminuiu em relação a 1986. Sim, mais inscritos, menos 7,6% de votantes! O contraste aumenta quando nos focamos no universo do «não gosto de nenhum»: daqueles que, indo ou não exercer o seu direito, rejeitam todas as hipóteses. É flagrante: o «não voto» cresceu para mais do triplo! Quem diria que, na era da informação na ponta dos dedos, dos máximos históricos de escolaridade, o número dos que decidem não decidir mais que triplicou? Os números são avassaladores: 1,7 milhões em 1986 versus 5,7 milhões em 2026. São mais 4 milhões, um crescimento superior ao aumento do número de eleitores inscritos e talvez mais preocupante, superior ao número de eleitores que elegeram o vencedor. Mais um record.
Nos dias em que o mau tempo passou a ter nome próprio, em que o substantivo é reiterado na comunicação social, embora as datas não, pergunto-me: que vitória foi esta? Que miserável festejo foi este, que deixou de fora quem não só teve o infortúnio de sofrer as pesadas consequências do mau tempo — privado de electricidade, água, telecomunicações e transportes — como ficou à mercê de um Estado que o relega para formulários online aos quais não pode aceder, numa (infelizmente) típica manifestação de soberba, que nenhuma ignorância ou incompetência pode justificar? E, como se tudo isto não bastasse, ainda lhe dizem — numa eleição já decidida, e a única sem círculos eleitorais — «venha votar para a semana: votar é um dever». Ser, é, mas cada vez mais sentimos que estamos apenas a eleger delegados de turma: os mais populares entre nós, mas que, no concreto e no relevante, nada fazem. Absolutamente nada. Nem triunfo, nem vitória, tal como na escola, tudo não passou de um exercício, um mero procedimento. Recorde? Só de inconsequência.

O boicote é livre
Os poderes governativos julgam estarmos reféns de aspectos legais e constitucionais. Primeiro-ministo e presidente da república em funções, têm o poder de despoletar os mecanismos legais que permitem um adiamento eleitoral. Optaram conscientemente por não o fazer, alargando o leque de erros cometidos na antecipação e reacção às calamidades ocorridas um pouco por todo o país.
Neste momento temos pessoas desalojadas, ou em condições precárias, agravamento no FDS das condições metereológicas e de crise para grande parte do território, pessoas deslocando-se dos seus concelhos de residência para acudir a família/amigos ou defender propriedades que tenham em zonas de risco, sendo certo o reforço do justificado trauma colectivo que assola o nosso país. Muitos não sabem o que será o dia seguinte e certamente as eleições estão no fundo da sua lista de prioridades.
Um dos candidatos teve a audácia de sugerir o adiamento das eleições e isso tornou-se um momento marcante na definição do estilo de presidência que cada um pode oferecer. Ventura, goste-se ou desgoste-se, teve um acto de bom senso e respeito para com os portugueses afectados. Seguro revelou-se aquilo de que Ventura o acusa. De ser um político táctico, preso aos limites de jogo definidos pelo sistema, remetendo para os árbitros a decisão de adiar, apresentando atabalhoadas soluções de eleições por etapas à medida que os concelhos vão tendo condições para exercicío do direito de voto, caindo no rídiculo de insinuar que pode perder a eleição se esta não acontecer no Domingo, com adesão em massa, e que se isso acontecesse seria um golpe sujo que defraudaria a nação.
Independentemente dos jogos políticos, de forma fria, vejo um candidato supostamente sem hipóteses de ganhar a optar por manifestar empatia e mostrar-se disposto a moldar as regras do jogo para melhor servir a população, outro de vitória garantida a optar por manter-nos dentro dos limites definidos, apelando ao esforço e sacrifício para combater um terrível “inimigo” comum. Seguro perdeu o chão, a cara e a imagem sem que Ventura tenha necessariamente feito a sua conquista para si.
Em 2021 tivemos um pico de 60% de taxa de abstenção nas presidenciais. O nível de abstenção não anula umas eleições mas coloca mais ou menos legitimidade no seu resultado. Uma grande demonstração da vontade e força do povo seria neste momento a desvalorização das eleições através do seu boicote. Essa é uma linguagem política clara que fragiliza quem quer que seja que vença as próximas eleições. Se a data das eleições se mantém inadiável, terei todo o gosto em demonstrar o meu descontentamento à desvalorização dada ao momento que o país atravessa, através de uma clara abstenção solidária.
Há momentos em que para estarmos seguros é necessária uma clara definição de prioridades. Este FDS votar em nada contribui para isso. Relembro que sermos ingovernáveis no momento certo é meio caminho andado para a construção de uma governação justa, competente e de bom-senso.
Para quando a necessária tempestade política?
É impossível ficar indiferente ao nível de destruição e provação a que está neste momento sujeita uma grande parte da nossa população. Portugal não está habituado a tempestades deste nível, o que infelizmente potenciou o impacto. Todos vemos nas notícias o resultado dos ventos ciclónicos. Alguns, como eu, terão tido um contacto mais directo, apesar de distante, com moradores das zonas afectadas e é muito triste sentir o desalento e desorientação em que foram mergulhados.
O trauma humano
Muitas pessoas passaram pela ruína das suas habitações, outras viram-se no meio de um cenário de guerra, onde imediatamente foi sentida a falta de serviços básicos como água, luz, comunicações e abastecimento de combustível e alimentos. Pior do que não saber o que se passa fora da “bolha” física e local que lhes foi imposta, é sentir que nada chega do exterior, como se estivessem ao abandono e esquecimento.
Obviamente a magnitude do evento não permite a resposta global, mas essa racionalidade não é suficiente para fazer esquecer esse sentimento e a constatação de que há momentos em que só podemos contar connosco e com os que estão em nosso redor.
Ao imediatismo da necessidade de sobrevivência, junta-se o fantasma da incerteza quanto ao fim da provação (já que as chuvas torrenciais não param) e ao futuro financeiro e laboral, pelo que é preciso também zelar pela saúde mental nas áreas afectadas, criando as medidas necessárias para o proporcionar.
O real impacto económico
Apesar de as TVs focarem o que se passa na cidade de Coimbra, o território severamente afectado alarga-se no mínimo à maioria dos distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e parte de Castelo Branco (havendo outros distritos afectados consideravelmente).
Falando apenas nos três primeiros estes representam 12% a 15% do PIB nacional, com cerca de 1,3 milhões de habitantes e 750.000 trabalhadores. É indiscutível que o foco deve ser a recuperação e regenaração de comunidades e economia, custe o que custar. Mas vai fazer mossa nos anos vindouros.
Onde estão os planos de prevenção e acção?
No tema das campanhas de sensibilização relativamente a “alterações climáticas” e eventos extremos que irão assolar Portugal a bota não bate com a perdigota. Campanhas mediáticas justicam-nos enormes investimentos para preparar Portugal para o combater e prevenir, mas quando somos alvo de um real evento extremo percebemos que pode ser apenas propaganda.
Falha nas comunicações
Temos um sistema de telecomunicações para emergência e socorro baseado em antenas e fornecimento de energia que pelos vistos está altamente vulnerável, perdendo o pio exactamente nos momentos em que é necessário. Pior, a população perdeu todas as comunicações, a única viabilidade foi sintonizar sinais de rádio, o que foi feito por muita gente. No entanto isso só gerou indignação porque, esperando orientações e actualização sobre o que se passa no terreno, a fórmula era a mesma de sempre: música, entretenimento, notícias generalistas e futebol. Pelos vistos as ferramentas de alienação não têm o mesmo efeito quando foi activado o modo de sobrevivência. O que a população esperava era articulação de acções, ajuntamentos, mensagens de esperança, demonstração de progresso no terreno, o que teve foi uma desvalorização total da sua desgraça e ocupação da única ferramenta de comunicação com conteúdos totalmente inúteis e desenquadrados.
Existem soluções de recurso, por exemplo redes de walkie talkies prontas a distribuir e usar, que permitam ligar as populações próximas e agilizar a sua entre-ajuda evitando deslocações complicadas. Não faz sentido não haver prontidão local para casos de blackout de comunicações e SIRESP.
É preciso desenhar um circuito de informações centralizada que permita comunicar o que se passa dentro das zonas afectadas para o exterior e vice-versa. Para tranquilizar familiares e evitar deslocações em massa por impulso que podem ainda prejudicar mais a situação ao criar pressão acrescida numa zona sem condições.
Falha nas infrastruturas
É compreensível que partes da rede eléctrica, com décadas, estejam assentes em estruturas não preparadas para resistir às forças a que foram submetidas, inclusive há que reconhecer o bom trabalho no restabelecimento desta infraestrutura básica (61 postes de alta tensão foram derrubados). No entanto, há que questionar com muita veemência como é possível instalar telhados e estruturas industriais não preparadas para o que nos dizem vir a ser o cenário futuro do clima em Portugal.
Pior, os recentemente subsidiados painéis solares não resisitaram aos efeitos daquilo para o qual supostamente são uma medida preventiva. Um só exemplo, no parque industrial de Gaia, na Figueira da Foz, a empresa United Resins teve 800 painéis solares completamente destruídos. Em Ferreira do Zêzere, onde 85% das casas sofreram danos, estima-se que centenas de sistemas solares domésticos foram arrancados ou danificados por detritos projectados pelo vento. Posto isto será o solar a solução tendo em conta a sua vulnerabilidade para este tipo de eventos!? Significando que o dia seguinte é blackout garantido?
Falha na preparação
Obviamente as autoridades competentes deveriam estar preparadas para este tipo de cenários. Garantir comunicação a fluir para toda a população, ordenar fluxos de movimentação, organizar grupos de trabalho, etc. No entanto, também cada um de nós deve estar ciente que há momentos em que nos cabe a nós (re)agir. Saber o que fazer, ter mantimentos e combustível armazenados para x dias, estar preparado mentalmente para um cenário de blackout em que temos de nos relacionar e interajudar com a comunidade local. Essa preparação para a adversidade ou a catástrofe faz parte dos países normalmente alvo delas. Por cá os preppers são muitas vezes vistos como pessoas desequilibradas ou pessimistas mas talvez tenhamos de repensar os nossos programas escolares para introduzir tópicos de sobrevivência, resiliência e trabalho de grupo em condições extremas. Muitos vão ter essa aprendizagem agora, pela via mais dura, mas que nos sirva como reflexão para futuro pois é essencial para tornar estes momentos mais serenos.
A lentidão na decisão
Parece que tivemos um ministro lesto em fazer uma produção para as redes sociais, onde transparecia a sua dedicação e esforço, a partir de uma sala de crise constantemente ao telefone, vá lá que no terreno poucos lhe tiveram acesso por falta de electricidade ou comunicações, talvez por isso se tenha safo de um linchamento público, também compreensível nestes momentos.
Na TV assistimos a exaspero e desabafos dos que estão naquela penitência, nas redes sociais isso é ainda mais exarcebado com múltiplos posts de pessoas a partilhar a sua experiência, angústias e consternação. Na política assistimos à tacticidade do costume. Avaliação de estragos, definição de timings, polimento das declarações políticas, patati patata.
Não sei o que precisam para perceber que precisamos de decisões políticas de rajada, de preferência à mesma velocidade dos ventos que nos assolaram. Até ver o governo
- Activou rede de apoios de emergência com bens de primeira necessidade, alojamento e cuidados de saúde;
- Acelerou financiamento para recuperação urgente de infrastruturas;
- Vai providenciar indemnizações às famílias de vítimas mortais ou com lesões incapacitantes;
- Criou linhas de poio financeiro para recuperação de habitações, parques industriais e agrícolas;
O que é a resposta padrão a quaisquer eventos de calamidade, no entanto, tendo em conta a dimensão dos estragos, diria que o ideal seria
- Dar condições para quem o desejasse, vivendo nas zonas afectadas ou sendo familiar directo de quem aí habite, pudesse simplesmente pausar a sua actividade laboral, sem perda de emprego, para dedicação total à reconstrução da zona e comunidade. Com custas pagas pelo estado ou suspensão de responsabilidades relacionadas com empréstimos. Dar tempo e espaço ao refazer das vidas.
- Garantir a resposta necessária a todos os trabalhos de reconstrução que vão ser precisos. Será preciso deslocar empreiteiros? Usar a população local para fazer esses trabalhos? O sector da construção já é por natureza lento na resposta à procura, pelo que algo é necessário para acelerar.
- Ser implacável com quem comete pilhagens e roubos, seja directamente no terreno ou online com falsas campanhas de angariação de fundos.
- Até plena regularização de comunicações utilizar os canais de comunicação activos para maioritariamente comunicar sobre o que se passa no terreno, inclusive tempos de espera em bombas e supermercados disponíveis.
Isto foi o que me saiu a quente, aquele território precisa de tempo, foco e tranquilidade, certamente quem está a viver a situação terá bem mais e melhores sugestões do que quem está a ver de fora. Fica aqui o convite para o deixarem patente nos comentários.
Eleições quê?
Finalmente deixo um último pensamento. Se esta situação não estiver resolvida no prazo de uma semana que sentido faz haver umas eleições presidenciais que neste momento foram inclusive relegadas para segundo plano? Além desta população poder correr risco de não poder votar devido às circunstâncias, certamente na sua cabeça a eleição para a presidência é neste momento uma minudência. Respeitando o momento talvez estas devessem ser adiadas. Em último caso, se as entidades oficiais não tiverem essa sensibilidade, porque não uma abstenção solidária para que não se corra o risco de uma parte significativa do país não ter condições para expressar o seu voto?

Alterações a padrões de transumância eleitoral
Estas eleições manifestaram um grande sinal da mudança dos tempos. Destruiram os conceitos de “eleitorado do X” que lealmente e consistemente mantém o voto no candidato do seu partido ou do que mais próximo está da sua tendência ideológica.
O eleitorado flutou em função do dia-a-dia de debates, reportagens e declarações, com foco nos traços individuais e não propriamente na visão política de futuro. O trio Ventura, Coutrim e Gouveia e Melo teve o mérito de quebrar os normais padrões de campanha e transformar o formato de debates e campanhas. O reflexo foi um grande envolvimento e interesse por parte do público, com altos níveis de dúvida e indecisão até ao momento de submissão de um voto consciente.
O que se segue agora? Ao contrário de muitos, que pensam que Seguro está garantido, considero que Ventura tem real hipótese de ser eleito. Teremos pela frente três semanas de campanha que será certamente um combate feroz pela preferência da maioria dos portugueses.
O que vi na primeira reacção aos resultados, antes das declarações oficiais, foi um Seguro estereótipo do normal político presidente, contido, com discurso neutro e cauteloso chutando para o firmar dos números que as projecções apontavam. Já Ventura reagiu de forma mais transparente, humana com emoção e empolgamento, projectando imediatamente o que seria a sua estratégia se se confirmasse a sua passagem à segunda volta. Este pequeno momento diz mais sobre o que se pode esperar do estilo de presidência de cada um do que os discursos preparados que viriam depois.
Ventura aparecerá transformado, mais ponderado e abrangente, surpreendendo quem o vê apenas como o populista dos sound bites asquerosos. Apesar de ter começado com o clichet de direita vs esquerda provavelmente o alvo principal será o governo, reagindo às fragilidades correntes como se fora já Presidente da República, numa demonstração antecipada do que seria a sua presidência. Talvez procure encontrar ou repescar alguns rabos de palha de Seguro, no entanto, se não o fez na primeira volta, talvez não exista matéria suficiente para enveredar por esta estratégia. Em simultâneo veremos no parlamento o florescer das segundas e terceiras linhas do Chega, a tapar o buraco parlamentar aberto pela suspensão do mandato de Ventura. Se verá também qual o odor deste jardim.
Seguro será inevitavelmente arrastado para uma situação em que terá de se mostrar muito mais interventivo do que aquilo que estaria à espera. A pressão será muito alta. A estratégia passiva, observando as quezílias entre outros candidatos, que lhe permitiu sobressair como mais ponderado e recto, não será aplicável a esta segunda volta. Será bom para os Portugueses por à prova aquele que à partida é o candidato preferencial e no processo serem expostos ao argumentário adversário para abanar ideias e assunções cristalizadas. Seguro parte como vencedor da segunda volta, tal como Gouveia e Melo o fez na primeira.
Que sera, sera.

Rembrandt van Vieira
Inquestionavelmente um dos mais talentosos, prestigiados e famosos mestres do período Barroco, Rembrandt ficou conhecido como o pintor da luz e da sombra, um artista que fez do realismo das suas obras uma constante. Este amor à verdade, esta capacidade genial de captar a essência — subtil ou grosseira — foi persistente ao longo de toda a sua vida artística. Traduz-se numa obra ímpar, não isenta de crítica. Alguns, sobretudo os classicistas, acusaram-no de preferir a fealdade à beleza, pois então, tal como hoje, o recurso a filtros, maquilhagem ou efeitos especiais disfarçava verrugas, cicatrizes ou rugas. Pessoalmente, alinho com David Hume: considero que a beleza reside nos olhos de quem vê, especialmente nos auto-retratos.
Hoje, vésperas de mais um acto eleitoral, somos confrontados com mais uma escolha difícil, marcada pela escassez de opções mobilizadoras. Seremos chamados a indicar quem sucederá aos afectos no cargo de maior magistrado da República deste — quase nonocentenário — Estado-nação, este cantinho à beira-mar plantado que chamamos casa.
De um lado, os típicos representantes de si próprios, das suas causas, interesses e vaidades; do outro, Rembrandt van Vieira, personagem-auto-retrato de todos nós: ridiculamente sonhadores e infinitamente capazes de sofrer e sorrir perante o absurdo. Ao contrário dos demais, é romântico na causa, simples nos processos e muito, muitíssimo generoso naquilo que de si dá. Indignados, alguns consideram a sua candidatura uma afronta, um acto de total descaramento e falta de vergonha. “Não se brinca com coisas sérias”, clamam. “O absurdo não tem lugar na democracia”, afirmam. Tenho dúvidas. Contraponho que nenhuma outra candidatura está isenta de descaramento ou absurdo, com uma única e decisiva diferença: todas se levam a sério, embora aquilo que nos propõem seja apenas mais do mesmo — e isso, todos sabemos, não resulta!
Estou grato a Vieira pela sua obra; foi sempre ar fresco em dias abafados. Perante a indignação que a situação exige, o Candidato é a única alternativa viável à abstenção — uma rara oportunidade para manifestar desagrado mantendo a esperança. Num acto de consciência e indignação, Vieira ergue-se contra o conformismo e a rotina eleitoral. Terá o meu voto, ambos ilibados pelo inaudito e desarmante slogan: “Só desisto se ganhar”.










