Reflexão pedagógica sobre as Marchas Populares de Lisboa
Calhou de assistir na TV ao arranque do desfile na Avenida da Liberdade das marchas populares deste ano. Antes do começo do evento os anfitriões gabavam-se do alto nível do espectáculo, do seu impacto positivo e capacidade de atracção de turismo. As primeiras exibições foram de escolas primárias e secundárias, depois vieram algumas marchas em competição e fiquei consternado com o que vi inicialmente.
Nada a apontar ao coração do evento, as várias marchas em competição onde adultos e adolescentes polidos, preparados, ensaiados, cumpriram com aquelas que são as expectativas para o evento. Pode gostar-se ou desgostar-se do estilo mas penso que não desiludiu o formato, no seu conjunto de estética, coreografia sonoridade, cumpriu o seu papel de manter viva, popular e turística esta tradição.
Mas o que me fez muita comichão foram as marchas escolares que abriram o desfile com baixíssimo nível, como se a exibição fosse uma simples ordem de soltura e seja o que for que aconteça estará sempre maravilhoso e propenso a elogios incondicionais. Falta de sincronia, falta de afinação, ausência de magia e talento. Apesar de alguma vergonha alheia está tudo bem, são crianças, é um momento simbólico, e o popular tem conotação com expressões artísticas pouco polidas, mais baseadas em sentimento e atmosfera do que perfeição artística. No entanto, para quem tenha contacto com eventos similares realizados por outras culturas, nota-se uma enorme diferença no empenho e desempenho das novas gerações, mais focadas, briosas, em executar performances perto da perfeição. Interpreto isto como um sinal dos valores que passamos aos mais novos, de que apesar de momento tão marcante, com alta visibilidade e representatividade de uma cultura, não são precisos preocupação nem trabalho para uma entrega inesquecível à altura do evento. O suficiente menos é maquilhado na comunicação social e institucional para um muito bom, baixando os critérios e apreciação da verdadeira excelência. E isso é receita certa para a atrofia do desenvolvimento do potencial existente em cada criança e jovem, por arrasto do futuro de Portugal.
A culpa não é das crianças e jovens mas de quem tem a responsabilidade de os preparar e incutir-lhes uma mentalidade de entrega e superação. Por cá aparentemente ainda existem alguns temas a resolver na equidade da acessibilidade ao ensino superior mas lá fora existem grandes preocupações emergentes com a degradação nas capacidades de leitura e realização de cálculos matemáticos. A origem do problema é a mesma, o facilitismo, seja por diminuir critérios de exigência/avaliação para diminuir “traumas” e custos de reprovações, seja por estimular o uso das poderosas ferramentas digitais hoje existentes transferindo a aprendizagem do conteúdo para a aprendizagem do uso de ferramentas de apoio que produzem os resultados expectáveis e sujeitos à avaliação.
Parecem situações desconexas, uma simples curta prestação nas marchas de Lisboa e o longo caminho escolar para a maioridade e integração do mercado laboral. Infelizmente interpreto-o como um sinal de que a banalidade está tão aceite e instalada que já nem é barrada à exposição massiva, antes pelo contrário, sendo assumida e transmutada em algo distinto e virtuoso por via do politicamente correcto.
Oxalá esteja errado e em simples exagero de reacção.
O domíno do medo e coragem
Apesar do medo de nascer, nascemos, num caos de dor, lágrimas, suor e sangue.
Apesar do medo do desconhecido, crescemos, experimentando todas a sensações sensoriais e emocionais.
Por medo de ficarmos sozinhos, encarneiramos ideologias ou mantemos relações que em nada nos beneficiam.
Por medo de não encontrar um emprego melhor, desgastamo-nos em drenos diários de corpo e alma.
Por medo de consequências pessoais, não nos envolvemos em injustiças globais ou alheias.
Por medo de uma doença conhecida, entregamo-nos a curas desconhecidas.
Por medo de um hipotético confronto de igual para igual, tomamos a iniciativa de combate preventivo a adversários ainda débeis.
Apesar do medo de morrer, morreremos, sabe-se lá como.
A vida empurra-nos incodicionalmente para a coragem nos ritos de passagem obrigatória (ou quase), que nos são impostos por massivas externalidades. O parto, a locomoção motora, o ficar só, o enfrentar do mar, o iniciar do ciclo de ensino, o óbito de quem nos é próximo, acidentes graves, condições crónicas, o aproximar da própria morte. Nestes momentos existe uma grande clareza: ou surge a coragem de seguir em frente ou a atrofia é garantida. Mesmo na morte convém partirmos fortes e em paz, mais não seja para facilitar a vida aos vivos.
Fora deste espectro de acontecimentos a batalha entre o medo e a coragem torna-se mais feroz. O medo é aliciante, oferece o conforto, inevitabalidade e aceitação do status quo. A coragem desassossega, comicha a acção emergente do âmago do nosso ser que procura exprimir-se e agir. O medo preserva o espaço, a coragem salta para o vazio por repulsa a esse mesmo espaço.
Curiosamente a acção resultante do medo é projectada no mundo real, normalmente levando ao reforço das condições que o geram. O medo dominante tanto pode conduzir à apatia como se pode servir da coragem para agir de forma irracional e impulsiva, com consequências imprevisíveis. Já na coragem o que primeiro muda é pessoal, a atitude, a consciência, o pensamento, sendo o principal intuito o sair da zona de influência do medo. A coragem não procura destruir a origem mas sim o medo em si, o resto advirá por si mesmo numa acção tranquila e assertiva.
Num mundo que promove o medo institivo para manipular a construção e direcção da coragem, é importante erguermos defesas informadas, a fim de manifestar uma coragem moralmente firme e impoluta.
O Passaporte de Churchill
Dois ilustres encontram-se no purgatório.
O primeiro está em trânsito: cumprem-se procedimentos e burocracias intermináveis. Aguarda pelo inevitável destino: a descida ao abismo, obviamente escoltado por agentes do ICE. Indignado, reclama, diz-se injustiçado. É desagradável com todos, exige prioridade, tratamento especial. Insiste que quer falar com os superiores, persiste que tudo não passa de um erro administrativo. É Donald J. Trump.
O segundo é uma alma penada, um espírito gasto, quase irreconhecível. Enlouquecido por décadas a deambular entre a luz e o abismo, vítima da indecisão das autoridades do além — foi virtuoso e foi trágico, fez o bem e fez o mal, pintou mas conspirou — vagueia num estado de permanente delírio. É Sir Winston Leonard Spencer Churchill.
Ao cruzarem-se num corredor enevoado e esconso, Trump aborda o antigo estadista britânico e mete conversa:
— Winston! Winston Churchill! Grande homem! Um dos grandes, como eu. Nós, os grandes homens, temos sempre destinos complicados, não é verdade?
Churchill não reage. Olhar vazio, fechado sobre si próprio, claramente perturbado. Apenas silêncio. Trump, imperturbável na sua autopromoção, reitera, insiste em tentar ombrear:
— Somos grandes, como nós há poucos. Com quem é que já te cruzaste por aqui? Nunca ninguém viu nada tão grandioso como a minha obra. Talvez a maior!
Churchill reage. Bamboleia, enquanto se baba, e começa a dizer, com voz trémula:
— Mortes… muitas mortes… muita desgraça por minha culpa… foi vaidade… foi soberba…
Trump sorri e aproxima-se, para segredar:
— Eu percebo isso. A pressão. Só os grandes sabem. Eu fui um líder extraordinário, tremendo! Mudei o mundo. Tu entendes. Somos do mesmo tipo, Winston. Visionários.
Churchill oscila ligeiramente, como se não estivesse ali. Volta a murmurar, agora misturando tempos e culpas:
— Epstein… mortes… Golfo da América… desgraça… tarifas… Dardanelos… Groenlândia…
Sem abrandar, Trump continua:
— As pessoas adoravam-me! Multidões. Nunca se viu nada assim. E tu? Também tiveste as tuas multidões, certo? Discursos fantásticos. Eu também faço discursos incríveis, é o que todos dizem.
Churchill começa a andar em círculos, cada vez mais perturbado:
— Mortes… muita desgraça… por minha culpa… soberba…
Trump acompanha-o, quase lado a lado, decidido a com ele construir uma excelente relação:
— Há quem diga que fui mal compreendido. Injustiçado, até. Como tu. A história trata mal os grandes homens. Mas, no fim, reconhece. Reconhece sempre!
Churchill leva as mãos à cabeça e grita:
— Por minha culpa… por minha culpa… tanta gente…
Depois, congela e remete-se ao silêncio. Surpreendido, Trump perde o embalo, abranda sem dar por isso. O silêncio de Churchill começa a incomodá-lo. Olha à volta e percebe que ali, todos são indiferentes ao seu brilho. Pela primeira vez, a confiança vacila.
— Quer dizer… Nem sempre reconhece…
Churchill não responde, retoma os movimentos erráticos e repetitivos. Trump baixa o tom:
— Há decisões… decisões que ficam. Que não desaparecem na espuma dos dias.
Churchill murmura, quase inaudível:
— Ficam… ficam sempre…
Trump engole em seco. A voz perde força, soa a contratenor:
— Talvez… talvez me tenha precipitado nalguma decisão… algumas coisas correram mal… outras não deviam ter sido tentadas…
Breve pausa. Trump murmura, enquanto olha para o chão:
— Se calhar… se calhar, atacar a Pérsia não foi grande ideia…
Absoluto silêncio. Nesse exacto instante, Churchill pára. Endireita-se subitamente. O olhar ganha foco. A loucura dissipa-se como o nevoeiro ao sol. A voz regressa, firme, inteira:
— Muito bem.
Trump, incrédulo, fica imóvel. Churchill apaga o charuto com altivez, ajeita o casaco, recupera toda a compostura e despede-se:
— Prazer em ver-te, velha carcaça. Obrigado.
Vira-lhe as costas. Caminha decidido até São Pedro e declara:
— Já tenho o meu passaporte para o céu.
São Pedro levanta os olhos, intrigado:
— Ah, sim? E qual é?
Churchill sorri, um sorriso rasgado, largo e triunfante:
— Eu… causei uma enorme tragédia ao tentar abrir um estreito que estava fechado!
Faz uma pausa, saboreando o momento.
— Ele… foi fechar um que estava aberto!
Em silêncio, São Pedro anui.
O bom, o mau e vilão
Depois da noite passada de entrega de Óscares julgo que se pode de imediato antecipar o vencedor incontestável da edição do próximo ano. Está em exibição internacional uma insuperável longa metragem, repleta de complexidade, humor, terror, drama, animação por IA, fantasia e surrealismo, que irá certamente arrebatar todas as categorias de prémios. Correndo o risco de ser spoiler deixo aqui o resumo e crónica do seu argumento.
Era uma vez um vilão que conspirava para ter os meios necessários para a destruição de uma nação vizinha. Essa nação, de grande poderio militar e excepcionais serviços de inteligência, fez queixinhas ao seu mais querido aliado, seduzindo-o para um ataque preventivo que impedisse o vilão de se empoderar para níveis ameaçadores.
O aliado mostrou-se surpreso, afinal há menos de um ano tinham anuido a semelhante acção, tendo pomposamente anunciado ao mundo que 12 dias foram suficientes para obliterar as infra-estruturas necessárias para execução dos maléficos planos do vilão. Além da surpresa mostrou renitência, afinal estavam a decorrer negociações com o vilão que na última sessão demonstrou abertura a abandonar parte dos seus planos e repensar a sua atitude.
Contudo, a nação com forte sentimento de ameaça iminente mostrou-se intrasigente, exigindo nova acção militar que lhe permitisse voltar a sentir-se segura. O aliado respirou fundo e, talvez por um pacto de sangue ou por simples amarração de amor, pôs a máquina de guerra a trabalhar num traiçoeiro “Shock and awe”.
O vilão encaixou. O seu líder martirizou e galvanizou. A estrutura remanescente retaliou. Na resposta atacou bases e interesses do aliado em 15 países diferentes e ainda visou a nação temerosa como esta nunca tinha sido atingida. Pior, exerceu a sua soberania territorial para proibir a circulação no estreito comercial energético mais movimentado do mundo. Para cada ataque sofrido, retaliação à medida ,visando o mesmo tipo de alvos demonstrando que tem poderio e capacidade para fazer o que quer quando quer. O vilão não está a escalar a guerra mas sim a responder à escalada a que é submetido. Isso deixa a nação virtuosa e seu aliado numa alhada porque cabe-lhes a eles o complicar ou facilitar desta guerra. Cada sua jogada define a próxima de forma bastante previsível.
Felizmente o aliado tinha-se precavido, apenas umas semanas antes reconstruira amizade com uma outra nação próxima, que facilmente lhe providencia o necessário abastecimento energético. Os efeitos colaterais apenas se sentem no resto do mundo, sendo que, na sua óptica, todos concordam que uma guerra virtuosa justifica uma vivência sofrida e penosa. Irritantemente descobriu que a sua visão não é corroborada pelos parceiros de longa data que se recusam a participar na cruzada por si iniciada. Fica assim orgulhosamente só de mão dada com a sua nação amada, para o que der e vier.
Esta história permite tirar três ilacções. Uma é a de que o vilão sempre teve poderio suficiente para obliterar quem quer que fosse na sua região, nunca o tendo exercido, o que demonstra que talvez seja mais pacífico do que aquilo que nos querem fazer transparecer. A segunda é a de que a nação, de pronome “santa”, não hesitou em destabilizar e arruinar toda a região estando preparada e quiçá ansiosa por ter um motivo para personificar Sansão. A última é o facto do poderoso aliado mostrar a sua face de total subserviência às vontades e caprichos da “frágil” nação, talvez também por forte necessidade de desvio de atenção.
Certamente haverá anjos e demónios nesta história dominada por duas correntes teológicas, o mais complicado é descortinar como estão distribuídos já que a dissimulação propagandista é forte em ambos os lados. Uma coisa é clara, o objectivo principal, ou mesmo secundário, não é a vontade de despoletar uma mudança de regime ou libertação de opressão no país vilão. Coisa só possível por vontade e mobilização orgânica da maioria de uma população de 90 milhões de habitantes.
O mais importante a reter é que todo o dominó que se seguiu ao início da guerra é facilmente simulado e previstos em jogos de guerra e de estratégia geo-política. Não há nada a acontecer que não fosse esperado, logo está a ser executado de acordo com plano de reformulação da relação de poderes na região e mundial. Provavelmente os atacantes não esperariam que o vilão fosse tão hábil praticante de judo, sendo capaz de suportar as idas ao tapete e de imediato controlar e redirecionar o movimento dos adversários.
Don’t Look Up
Neste regresso aos nossos clássicos do cinema, focamos o projector num sucesso recente: recuamos apenas uma mão-cheia de anos até ao filme Don’t Look Up. A obra de 2021, então simultaneamente classificada como comédia e drama, hoje poderá parecer sátira política, mas, na minha modesta opinião, sempre foi um ensaio sobre a estupidez cósmica. Questiona, sob múltiplos ângulos, quão fúteis conseguimos ser, sem dúvidas ou remorsos. Como espécie, munidos dos mais sofisticados meios tecnológicos, estamos no pináculo da nossa cegueira.
A história do filme, realizado por Adam McKay e protagonizado por uma verdadeira constelação de estrelas, relata-nos a forma como sociedades e governos lidam com a perspetiva da extinção — leia-se, o fim de algo tão precioso e raro como a vida dita inteligente. O absurdo governa o mundo, mantém-se inabalável mesmo quando a agenda entra em rota de colisão com os acontecimentos, ignorando que nenhum poder é infinito. A realidade, essa, quando adversa, é posta de lado. Vivemos num circo global e mediático, onde a ignorância extrema é valorizada e o conhecimento galacticamente ignorado. Não há risco, só certezas. Lançam retórica como se a sua vontade fosse lei da física, como se o universo se vergasse ao seu desejo.
A bravata perante o fim trágico — mesmo diante da possibilidade de extinção — alerta-nos, ou deveria alertar, para quão frágil a nossa existência é. Perante o cometa em rota de colisão com o planeta, mantemo-nos focados no umbigo, esse buraco negro da compaixão, onde toda a empatia se extingue no horizonte do ego. É precisamente aí que estamos centrados, sentadinhos ora no sofá, ora no carro, enquanto aguardamos na fila para abastecer, como se, de facto, o preço dos combustíveis fosse o verdadeiro problema. Não é. O problema é bem mais profundo e pode, caprichosamente, ser revelado pela superficialidade daqueles que se julgam senhores do cosmos. A sua envergadura é pequena, pequenina, e por isso se esforçam tanto para parecer grandes figuras. Nós, expectantes, assistimos à performance, ignorando que estes protagonistas poderão mesmo ficar para a história como os figurões de uma estória que ninguém ficará para contar.
Mais do que a dificuldade em agir decisivamente perante ameaças reais, o perigo reside hoje na incapacidade de agir racionalmente quando a realidade não vai ao encontro do desfecho súbito e definitivo, tal como idealizado. Aqueles que se julgam no Olimpo, perante a adversidade, não se contentam com o recurso à censura e à manipulação dos factos. Uma vez desmascarados da sua ilusão de invencibilidade, movidos pela sua fútil vaidade, vão, uma vez mais, provar que a arma dos fracos é a força — poderão, em breve, recorrer ao engenho dito tático, numa terceira demonstração do poder escondido dentro do átomo. Ao fazê-lo, dir-nos-ão que o poder destrutivo estava escondido, enriquecido pelo inimigo, e assim tentarão legitimar a ação tomada. Ante este plano de ação da fraqueza e dissimulação, agiremos como no filme: mesmo perante um perigo desta magnitude, continuaremos a discutir versões da realidade, cada qual confortável com aquela que convém à sua tribo. No entanto, a devastação neste cenário, não reconhecerá fronteiras. Tal como no filme, não existe abrigo ideológico nem refúgio geográfico. O imparável cometa, somos nós, crentes na dicotomia do “nós contra eles”, incapazes de compreender que partilhamos o mesmo planeta e como tal, o mesmo destino.
A sociedade quântica: um sistema fechado
Ao contemplar a obra de Gustav Klimt, notamos que o brilho domina as suas telas, como no “Retrato de Adele Bloch-Bauer I”, conhecido como “A Mulher em Dourado”. Envolta num manto de sacro esplendor, a mulher, à semelhança de um gato sem contornos, define-se pela ornamentação. O ouro não apenas exalta; representa uma caixa dourada, bela e elaborada, na qual se encerra a protagonista, tão felina quanto sedutora.
Um outro austríaco, o físico Erwin Schrödinger, contemporâneo de Klimt, foi, como ele, um homem de gatos. Schrödinger elevou a espécie a outro papel, muito além do tangível: promoveu-o a protagonista da mecânica quântica quando, em 1935, formulou a sua célebre experiência mental. Um gato fechado numa caixa com um dispositivo que, aleatoriamente, pode ou não matá-lo: um evento quântico que, dependendo do decaimento de uma partícula atómica, determina o destino da criatura. Só abrindo a caixa saberemos se está vivo ou morto — Fechado, o gato encontra-se num estado paradoxal, simultaneamente vivo e morto. Isolado, o protagonista desconhece esta dupla condição.

E se a caixa nunca for aberta?
Na física, o paradoxo expõe os limites da interpretação quântica. Numa metáfora social, a caixa representa o poder, fechado e auto-referencial. Um sistema que controla a informação e, sobretudo, o momento da revelação. A incerteza deixa de ser fenómeno natural e torna-se instrumento político. O gato, somos nós.
Vivemos em contradição: livres e condicionados, envolvidos e marginalizados, informados e manipulados. A promessa de equidade resume-se à existência na ambiguidade. Todos envoltos pelo mesmo ornamento dourado, ao abrigo da mesma ordem, sob a mesma lei. Mas quem detém a chave da observação não está dentro da caixa.
Tal como no quadro de Klimt, o ouro cria a ilusão de transcendência e transmite elevação, mas é garante da imobilidade. Uma figura majestosa como protagonista, porém inerte. A moldura simbólica torna-se fronteira. A caixa oferece conforto, estabilidade e pertença. O mal conhecido veste-se de liberdade; a resignação apresenta-se como maturidade política.
O observador, na experiência de Schrödinger, determina o estado final. Na analogia, o observador é a elite que molda narrativas, define o aceitável, delimita o horizonte do possível. O seu poder reside na suspensão.
Mas ninguém abre a caixa?
As elites nunca o farão, simplesmente porque o poder é o status quo. Qualquer espreitar de relance serve propósitos de luta elitista, mera contenda entre poderosos; como tal, não só a caixa rapidamente se volta a fechar, como é coberta por um manto de dúvida para que nada se conclua sobre o que se viu. Tão óbvio que não carece de exemplos, actuais ou antigos, sejam de mentiras feitas verdade, gritantes dualidades de critério ou perversão impune.
E o gato? A caixa é dourada; a promessa de igualdade, embora reduzida à uniformização, oferece segurança. Questionar implica risco; aceitar mantém o conforto conhecido. A caixa transforma-se em cultura e mantém-se enquanto for aceite como inevitável.
Ao resignar-se, o gato contraria o instinto, abdica do juízo próprio e comete um duplo pecado anti-natura: reprime a própria consciência e transmite essa repressão às gerações futuras. A clausura torna-se herança; o hábito, prisão. Somos convidados a pensar todos da mesma forma e, como formigas, a agir em uníssono. A diferença deixa de ser virtude e passa a ser ameaça.
Mas há um ponto onde a metáfora se rompe, onde a esperança quebra o ciclo vicioso e o sistema desmorona. Ao contrário do felino da experiência de Schrödinger, os humanos possuem consciência reflexiva. Não somos apenas objecto de observação. Podemos questionar a caixa, interrogar o ouro que nos envolve e distinguir entre ilusão e liberdade. A maior dádiva da vida humana é a consciência.
Urge darmos crédito ao nosso instincto, à nossa intuição, ao impulso que emana do nosso âmago e nos diz: fugir ou lutar.
Talvez assim, a caixa dourada da nossa metáfora perca o brilho hipnótico. Quem sabe o gato sai da caixa por vontade própria. É, antes de mais, o observador de si mesmo. Não é apenas a sua consciência individual, é dever moral colectivo.
Oportunidade para tira teimas às narrativas sobre imigração
O balanço ainda não foi finalizado e os números relativos ao prejuízos são já abismais. Além da disponibilidade de liquidez, será necessária disponibilidade de mão de obra para execução dos serviços e trabalhos necessários à reconstrução e revitalização das zonas afectas.
Desde o primeiro momento os nossos governantes prontificaram-se a facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros. A ala do Chega imediatamente demonstra o seu incómodo insinuando que a resposta poderia ser dada com trabalhadores nacionais se as condições de trabalho fossem atractivas.
Observo, pondero e parece-me oportuno testar ambas as narrativas pensando um pouco fora da caixa. Teremos já cerca de 1.000 trabalhadores em layoff, recebendo dois treços do salário, garantido pelas empresas com participação temporária do estado. Mais certamente se seguirão, sendo que vários poderão ir directo para a situação de desemprego. Só o Distrito de Leiria tem anualmente uma média 9 a 10 mil pessoas em situação de desemprego. Podemos então considerar para este exercício que só na zona mais afectada existem milhares de trabalhadores potencialmente válidos para ingressar os grupos de trabalho a serem criados.
Proponho então o seguinte: que excepcionalmente quem esteja em layoff, ou situação de desemprego, possa acumular o seu salário parcial ou subsídios, com o salário que receberia ao ingressar nas equipas de reconstrução das áreas afectadas. Isto significa que iriam auferir um salário substancialmente acima do que normalmente é pago na área da construção civíl (e outras necessárias como por exemplo na agricultura), esclarecendo se a baixa propensão dos portugueses em fazer este tipo de trabalho tem realmente a ver com a baixa compensação ou com um estigma ou aversão para com trabalhos em obras ou no sector primário.
Em termos técnicos é exactamente o mesmo, tenho experiência directa com empreiteiros que se queixam de não existir mão de obra qualificada para obras, nem nacional nem estrangeira, pelo que a formação e entropia inicial é uma fase necessária em qualquer dos cenários.
Em termos humanos teríamos também um grande trabalho psicológico e social, pois nada melhor para a saúde mental e realização pessoal do que recuperar as nossas habitações e os espaços comunitários directamente, com as nossas próprias mãos e suor.
Logisticamente falamos de aproveitar o capital humano já existente e instalada na região, sem complicações acrescidas de encontrar alojamento e condições dignas para os trabalhadores.Se necessário, para os que estão sem tecto, alugue-se na íntegra os vários hotéis e alojamentos locais na região até que a situação seja resolvida.
Nada contra a vinda de imigrantes, não deixando de achar rídicula a intervenção imediata do Presidente da República que parecia mais lesto em acelerar esta agenda do que em avaliar com ponderação o cenário e amparar a população afectada, mas gostaria de perceber realmente se não conseguimos proporcionar as condições que em teoria permitam reconstruir com a prata da casa.
Provavelmente a solução será um bom mix dos dois, tenhamos a coragem de tomar medidas excepcionais para situações excepcionais.
Recordistas?
O vencedor obteve a maior votação de sempre! Recordista histórico ou haverá ainda mais por explorar nesta verdade, neste feito legitimador de uma estória em detrimento da outra? Poderá alguma das narrativas em contenda, afinal, clamar triunfo? A comparação entre as eleições presidenciais de 1986 e as deste ano é, a vários níveis, inevitável: desde a óbvia e rara segunda volta, até ao arregimentar, mais ou menos tímido, de votos em torno de candidatos ditos «não naturais» aos diferentes contextos partidários. Quatro décadas volvidas, do século passado para os nossos dias, muito mudou — nem tudo para melhor — mas, em rigor, prosperámos e crescemos em população eleitoral, de 7,6 para 10,9 milhões de eleitores inscritos!
Vencedor recordista? Curto e grosso: sim. A votação no vencedor é recordista, correspondendo a um incremento de cerca de 15,7% em relação ao vencedor em 1986. Contudo, o universo de inscritos cresceu 43,8%, o que dá que pensar. Observemos a realidade crua dos números: hoje somos mais 3,3 milhões de eleitores e, paradoxalmente, o número de votantes diminuiu em relação a 1986. Sim, mais inscritos, menos 7,6% de votantes! O contraste aumenta quando nos focamos no universo do «não gosto de nenhum»: daqueles que, indo ou não exercer o seu direito, rejeitam todas as hipóteses. É flagrante: o «não voto» cresceu para mais do triplo! Quem diria que, na era da informação na ponta dos dedos, dos máximos históricos de escolaridade, o número dos que decidem não decidir mais que triplicou? Os números são avassaladores: 1,7 milhões em 1986 versus 5,7 milhões em 2026. São mais 4 milhões, um crescimento superior ao aumento do número de eleitores inscritos e talvez mais preocupante, superior ao número de eleitores que elegeram o vencedor. Mais um record.
Nos dias em que o mau tempo passou a ter nome próprio, em que o substantivo é reiterado na comunicação social, embora as datas não, pergunto-me: que vitória foi esta? Que miserável festejo foi este, que deixou de fora quem não só teve o infortúnio de sofrer as pesadas consequências do mau tempo — privado de electricidade, água, telecomunicações e transportes — como ficou à mercê de um Estado que o relega para formulários online aos quais não pode aceder, numa (infelizmente) típica manifestação de soberba, que nenhuma ignorância ou incompetência pode justificar? E, como se tudo isto não bastasse, ainda lhe dizem — numa eleição já decidida, e a única sem círculos eleitorais — «venha votar para a semana: votar é um dever». Ser, é, mas cada vez mais sentimos que estamos apenas a eleger delegados de turma: os mais populares entre nós, mas que, no concreto e no relevante, nada fazem. Absolutamente nada. Nem triunfo, nem vitória, tal como na escola, tudo não passou de um exercício, um mero procedimento. Recorde? Só de inconsequência.

O boicote é livre
Os poderes governativos julgam estarmos reféns de aspectos legais e constitucionais. Primeiro-ministo e presidente da república em funções, têm o poder de despoletar os mecanismos legais que permitem um adiamento eleitoral. Optaram conscientemente por não o fazer, alargando o leque de erros cometidos na antecipação e reacção às calamidades ocorridas um pouco por todo o país.
Neste momento temos pessoas desalojadas, ou em condições precárias, agravamento no FDS das condições metereológicas e de crise para grande parte do território, pessoas deslocando-se dos seus concelhos de residência para acudir a família/amigos ou defender propriedades que tenham em zonas de risco, sendo certo o reforço do justificado trauma colectivo que assola o nosso país. Muitos não sabem o que será o dia seguinte e certamente as eleições estão no fundo da sua lista de prioridades.
Um dos candidatos teve a audácia de sugerir o adiamento das eleições e isso tornou-se um momento marcante na definição do estilo de presidência que cada um pode oferecer. Ventura, goste-se ou desgoste-se, teve um acto de bom senso e respeito para com os portugueses afectados. Seguro revelou-se aquilo de que Ventura o acusa. De ser um político táctico, preso aos limites de jogo definidos pelo sistema, remetendo para os árbitros a decisão de adiar, apresentando atabalhoadas soluções de eleições por etapas à medida que os concelhos vão tendo condições para exercicío do direito de voto, caindo no rídiculo de insinuar que pode perder a eleição se esta não acontecer no Domingo, com adesão em massa, e que se isso acontecesse seria um golpe sujo que defraudaria a nação.
Independentemente dos jogos políticos, de forma fria, vejo um candidato supostamente sem hipóteses de ganhar a optar por manifestar empatia e mostrar-se disposto a moldar as regras do jogo para melhor servir a população, outro de vitória garantida a optar por manter-nos dentro dos limites definidos, apelando ao esforço e sacrifício para combater um terrível “inimigo” comum. Seguro perdeu o chão, a cara e a imagem sem que Ventura tenha necessariamente feito a sua conquista para si.
Em 2021 tivemos um pico de 60% de taxa de abstenção nas presidenciais. O nível de abstenção não anula umas eleições mas coloca mais ou menos legitimidade no seu resultado. Uma grande demonstração da vontade e força do povo seria neste momento a desvalorização das eleições através do seu boicote. Essa é uma linguagem política clara que fragiliza quem quer que seja que vença as próximas eleições. Se a data das eleições se mantém inadiável, terei todo o gosto em demonstrar o meu descontentamento à desvalorização dada ao momento que o país atravessa, através de uma clara abstenção solidária.
Há momentos em que para estarmos seguros é necessária uma clara definição de prioridades. Este FDS votar em nada contribui para isso. Relembro que sermos ingovernáveis no momento certo é meio caminho andado para a construção de uma governação justa, competente e de bom-senso.












