A Feira dos Coletes

Há uma semana que França se encontra ao rubro com a moda dos coletes amarelos, símbolos da luta de rua pela anulação das políticas que conduzem ao perder do poder de compra. Haverá luso-descendentes entre eles?

 No Mediterrâneo, apesar de ter deixado de ser preocupação mediática continua a predominância da moda dos coletes laranja que mantêm à tona algumas esperanças de vida.

Já em Portugal o foco esteve na discussão da moda do colete encarnado,  foi o próprio Parlamento que resolveu a afronta recente, espezinhando-a como merecia. Os progressistas não entendem que as lides do Touro são o futebol de Verão dos provincianos. As gentes do campo e das lezírias são muito perigosas, munidas de forquilhas, habituadas a labutar horas a fio, fortalecidas pelas agruras das jornas, sabe-se lá que lhes daria para fazer se de repente se lhes acabasse a festa! Sacrifiquem-se os touros em prole do bem comum, que farpem, sangrem, ridicularizem e matem o bicho à vontade, desviando a atenção do que fazem os seus autarcas quando não organizam esta bela festa.  Uma mão lava a outra. É tradição.

Mesmo assim já se vê o emergir de alguns coletes amarelos em Portugal, que, apesar de parcos, conseguem paralisar a dinâmica de exportações nacional! Estão a ver o perigo? Não seria melhor serem adeptos fervorosos dos coletes encarnados!?

É muito complexa a moda dos coletes. Enquanto Portugal se mantiver fiel ao encarnado tudo vai bem. É rezar para que não se dê a chegada do laranja, o que estragaria a bonita selfie do nosso Allgarve, e se consiga conter o real perigo da contaminação do amarelo, o que daria muito pouco jeito em ano de eleições.

 

And Now For Something Completely Different: OE2019

O que levará alguém a abdicar de uma vida normal e abraçar a vida circense? É sabido que o mundo é das crianças e talvez por isso se diga que os palhaços são as estrelas da companhia, mas nem só de gargalhada se faz o espectáculo. Outros artistas brilham, tais como acrobatas, contorcionistas, domadores de feras ou ilusionistas, mas tal como o estado precisa de orçamento, o circo carece de malabaristas. Sendo um número já visto, a destreza exigida ao artista é competência rara e se o talento por um lado ajuda, por outro só a prática permite atingir a perfeição.

O público é implacável e não perdoa erros – Quando a cascata falha e a bola cai ao chão, a vaia é garantidamente estrondosa. Coisas da democracia, aproximam-se as Eleições Legislativas e muito embora metade do público não participe, todos tecerão a sua crítica, ou porque é eleitoralista ou porque não é suficientemente generoso e redistributivo. Provavelmente todos terão a sua razão, mas o seu a seu dono, o malabarista continua sem deixar cair nenhuma bola.

O verdadeiro artista é assim, sabe gerir a expectativa do seu público, sabe que não pode falhar, mas também sabe que nada supera o impacto de uma correcção in extremis, vulgo cativação. Orçamenta-se, mas não se gasta. Em finanças públicas, tal como no circo, usam-se estas técnicas antigas, gastas, mas eternamente actuais. É caso para dizer… e agora algo completamente diferente: absolutamente nada. Desmonta-se a tenda e parte-se rumo ao próximo destino. São nómadas!

Alojamento vs Aluxamento vs Axulamento Universitário

Entrada para a Universidade, um marco na trajectória de vida de qualquer ser humano que tenha felicidade de o poder alcançar. Uma descida aos infernos para todos os que têm de se deslocalizar e procurar alojamento, que na capital chega facilmente aos 5 400 € anuais o que somado a aproximadamente 1 000 € de propinas totaliza uns simpáticos 6 400 € anuais apenas para alojamento e matrícula faltando somar gastos com comida, viagens, e outras necessidades do dia-a-dia. Falamos de mais de metade do rendimento anual médio de um trabalhador Português, um enorme rombo numa família já a cargos com despesas de crédito habitação, casa e dia-a-dia.

A culpa, dizem, é da pressão do alojamento turístico, da escassa oferta de alojamento para este tipo de aluguer prolongado, enfim, do mercado a funcionar. Lisboa talvez pondere resolver este problema com a definição de quotas mas até lá felizmente podemos contar com benevolentes e atentos empresários que procuram ajudar a resolver o problema criando alojamento universitário de luxo que podem resolver as preocupações, pelo menos as dos mais abonados.

E assim temos alunos universitários a ser explorados, pagando excessivamente pelas condições que lhes são fornecidas, com pressão acrescida por serem foco de enorme despesa para a sua família, que começam já nesta fase precoce da sua vida a entrar no estado de espírito do sobrevivente socioeconómico. Aprendem de forma inconsciente que é esta a forma de viver daqui para a frente, espremidos, condicionados, explorados em conformidade com os demais porque, afinal, se ninguém for tratado com justiça ninguém é prejudicado.

Ao mesmo tempo temos espalhados pelo país, também pela capital, idosos em solidão e depressão, com parcas reformas, casas vazias, que muito poderiam beneficiar da partilha de espaço com gerações vindouras. Talvez haja aqui uma oportunidade para uma política social que aproxime extremos etários, reforce os rendimentos dos reformados, reduza factura de alojamento a quem precisa de conforto e estabilidade durante três ou quatro anos.

Até lá alguém que resolva a confusão fonética causado pelo actual Alojamento/Aluxamento/Axulamento Universitário!

 

Espelho de Diana

Ao contrário do que a leitura do título possa denunciar, este texto não é nem reflexo, nem evocação da data, leia-se a efeméride do desaparecimento da outrora “sua alteza real”, para sempre “princesa do povo”, a malograda Diana Spencer. Negativo! A Diana hoje é outra, é mitológica. Não é propriamente a protagonista, mas está no centro da trama. Ora, a mais casta das deusas romanas, irmã gémea de Apolo, filha de Jupiter e de Latona, deusa da Lua, dos animais e da caça, está na origem do nome que há dois mil anos os romanos davam ao lago que hoje conhecemos com Lago Nemi, mais concretamente Speculum Dianae, latim que em bom português significa “espelho de Diana”.

A fama deste pequeno lago também se fica a dever a um dos mais inusitados projectos de construção naval de todos os tempos, pois foi naquele local que o imperador romano Calígula mandou construir (pelo menos) dois navios com mais de 70 metros de cumprimentos, feito cujo único propósito se julga ter sido satisfazer a sua megalómana personalidade. A sua cruel excentricidade foi tal que Cláudio, o seu sucessor, tudo tentou para apagar todo e qualquer vestígio do seu legado. Mandados afundar, os navios permaneceram no fundo até que em pleno século XX o ditador Benito Mussolini mandou drenar o lago fazendo-os emergir gradualmente.

As duas jóias de arquitectura naval foram então transportadas para um museu especialmente construído para as albergar, mas lamentavelmente não sobreviveram ao incêndio que as destruiu completamente em 1944. As causas do fogo nunca foram esclarecidas, se por acção de militares alemães em retirada ou por acção de bombardeamento aliado. Afundados por Cláudio, preservados submersos durante séculos, uma vez resgatados, os navios sucumbiram ao fogo. Ironia do destino? Certamente, pois o sucessor de Cláudio foi Nero, o pirómano.

Afiança

Pluralidade é para mim sinónimo de qualidade democrática. A diversidade pode até ser a solução contra a abstenção. Mais cores, mesmo recicladas, alargarão a palete de escolhas do eleitor português. Daltonismo nunca mais! Se o nascimento de uma nova força politica mobilizar pelo menos um abstencionista, então para mim já terá valido a pena.

Mobilizai-vos ò empreendedores do meu país, abraçai as vossas causas e avancem! Se causas vos faltarem, não faz mal, declarem princípios. Contraditórios ou não, a mera iniciativa colherá o meu aplauso. Não serei picuinhas, muito menos exigente. Cada vez mais me convenço que a democracia é um “negócio” de volume e como tal a riqueza emerge do somatório de pequeníssimos ganhos. A verdadeira cidadania é pragmática! Haja massa critica, a qualidade cedo ou tarde surgirá. Será o caso com esta nova força que Afiança o tacho a quem dele tenha recentemente sido privado? Não sei, duvido muito, mas nem por isso hesito na convicção das virtudes da diversidade. Venham mais, seja à Direita ou à Esquerda.

E como estão elas, a Direita e a Esquerda? A Direita digere com estóico silêncio a cisão na família, enquanto a Esquerda exulta sem alarido a chegada da nova força politica. A rentrée política foi assim antecipada pela concretização da ameaça há muito velada. Consta que do Largo do Rato à Rua da Palma, passando pela Rua Soeiro Pereira Gomes, muitos se preparam para contribuir na recolha de assinaturas. Eventualmente mobilizados pelo princípio que o inimigo do meu inimigo, meu amigo é…

Um sucesso arrepiante

Ainda ardia Monchique conduzia eu rumo a Viseu, agulhado pelo Mondego, ladeado de encostas áridas de tons alaranjados onde sobejam altos finos troncos calcinados e rebentos de eucaliptos militarmente alinhados numa formação que denuncia a mão humana que os ampara.

Pelo segundo ano consecutivo as chamas devoram a densa monocultura florestal humanamente desgovernada. Entre elas habitações, lugarejos, animais selvagens e animais domésticos aprisionados não libertos por aqueles que são forçados a abandonar os seus lares pelas forças de segurança.

27 mil hectares de floresta ardida, zero vidas humanas perdidas, um sucesso dizem eles.

Os especialistas em biodiversidade, as forças de prevenção e combate a fogos, o povo local, todos clamam aos governantes por mudanças na ordenação florestal do território. Estes fingem ouvir, garantem que algo será feito para melhor, mas é notório ao longo de décadas que não são as questões ambientais, logísticas e sociais os principais influenciadores nesta matéria.

Pelo que tentarei descer ao seu nível, entrar no economiquês do tema, talvez me faça sentir mais confortado com a aparente inevitabilidade do advir destas calamidades. Ao que encontrei por aqui parece que o potencial de riqueza da floresta portuguesa é de cerca de mil e trezentos milhões de euros por ano, dos quais 41% (533 milhões de euros) será relativa à parcela relacionada com uso da madeira e seus derivados (muito eucalipto nesta fatia).

O prejuízo médio anual relacionado com incêndios é da ordem dos 360 milhões de euros, no entanto nos últimos dois anos temos Pedrogão com prejuízos avaliados em mais de 500 milhões de euros e agora Monchique que se estima ser um valor muito superior. Com a agravante de que a recuperação das áreas ardidas demora anos, nos quais não existe produção nem rentabilidade e de que não são contabilizados os custos indirectos no turismo local, com a fuga dos visitantes, e no tecido laboral, inerente à ausência prolongada forçada por parte de bombeiros e população afectada.

Adicionando a isto o custo social, ambiental e ecológico chegamos praticamente a um ganho zero na manutenção deste atentado à nossa biodiversidade, deste risco constante de incêndios incontroláveis que arrasam comunidades locais.

Em análise económica e financeira o que se faz quando nos deparamos com uma actividade pouco rentável com demasiado risco associado?

Talvez seja chegada a hora de arrepiar caminho florestal, voltando ao básico, reaprendendo a apreciar e rentabilizar o que é verdadeiramente nosso.

eucaliptos

 

Barack Oporto

A subserviência ante os estrangeiros, especialmente as individualidades mais sonantes é quiçá uma das mais recorrentes manifestações de portugalidade. Somos assim, incapazes de por nós próprios identificar os encantos da nossa terra, qual criança com baixa auto-estima, eternamente em busca de aprovação maternal. Seremos carentes ou simplesmente complexados? Falta-nos mimo? Face ao sucesso do mandato presidencial dedicado aos afectos, dir-se-ia que sim, que como povo nos faltou carinho. Fazemos birra quando não nos gabam o património, a história e os feitos ultramarinos, mas se há coisa que não perdoamos é quando não nos gabam a gastronomia.

Numa semana que pela capital começou com a indignação e revolta em torno de uma importante questão de estacionamento e respectivo tarifário, a alegada discricionariedade da medida de excepção foi debatida e escrutinada à exaustão. Não obstante a nacionalidade da beneficiada, a circunstância ditou a contradição face à tradicional subserviência. Foi estranho. O habitual hosana nas alturas não colheu apoio popular. Muitos sugeriram até que Medina fosse excomungado. Contudo a semana acabou pior, muito pior! Inacreditavelmente, o ex-presidente norte-americano fez uma incursão relâmpago pelo nosso país. Foi duro. Barack Obama veio à cidade invicta e imagine-se o desplante, fez-nos a desfeita de não provar a mais tradicional das iguarias locais, a Francesinha!

Sê como a água do Rio, meu amigo

Um novo combatente político assume o seu canto do ringue trazendo consigo uma retórica renovada e uma fama ética. No outro canto permanece a quimera geringonçacional, ainda viciada em devolver o seu a seu dono sempre que lhe são apontadas críticas e/ou imputadas responsabilidades sobre o estado da nação.

O novo pretendente não assumiu ainda uma forma concreta, não desfere golpes violentos nem demasiado assertivos, que definam concretamente a clivagem existente entre ambos os lados do ringue. O seu jogo de pés é estonteante conseguindo bailar por toda a zona de combate, por vezes o faz até de mãos dadas com um dos elementos quiméricos enquanto soca ou pontapeia outro no estômago.

As casas de apostas parecem acreditar nesta ação líquida que se infiltra em todas as brechas. Apesar de ainda só se terem testemunhado pequenos curtos-circuitos a probabilidade de um colapso integral da máquina governativa parece estar a aumentar.

Hashtugas

Num período manchado por um pico de sinais evidentes de corrupção ao mais alto nível, por actos de destruição ambiental, por Pedrogão e seus bastidores, por novo aumento galopante do preço dos combustíveis, pelo contínuo fragilizar do nosso sistema de saúde, as grandes mobilizações chegam-nos em forma de greves orquestradas pelos sindicatos sectoriais. Por onde anda a unidade nacional que conduza a um basta generalizado? Estaremos assim tão confortáveis com o estado da nação?

Nós os portugueses, grandes pioneiros, early adopters, evangelizadores de todo o tipo de novas tecnologias, fomos de tal forma digitalizados que acreditamos que é o meio de comunicação digital a nova meca da indignação e activismo político-social. A nossa luta faz-se agora num palco virtual de volumetria imponente em termos de camaradas e reações emojionais. Apoiamos e lutamos incondicionalmente a favor de causas merecedoras desde que isso não implique uma manifestação física, uma confrontação direta com oposição frontal aos que pensam de outra forma, ou pior com as forças policiais mandatadas pelo governo contestado. Mais, ainda ridicularizamos quem ouse fazê-lo, transformando-nos em pouco mais do que trolls digitais.

Lá fora poderão não ser tão ávidos e aptos na exploração de novas tecnologias, o que faz com que, através da sua maior primitividade, acabem por utilizar os novos meios de comunicação para marcar a diferença, para forçar a mudança ou, pasme-se, mesmo para juntar grandes aglomerados de cidadãos dispostos a dar a cara, a fazer ouvir a sua voz, por algo em que acreditam.

Ao longo dos anos surgiram espontaneamente pelo mundo fora hashtags como #MeToo, #BlackLivesMatter, #WomensMarch, #MarchForOurLifes#ArabSpring, #ElectricYerevan, #Vemprarua, etc, que efectivamente se traduziram em manifestações de milhares nas ruas, forçando o debate e mudanças na sociedade civil.

Por cá as hahstags têm até hoje sido sobretudo utilizadas para fins de entretenimento e marketing corporativo, sem grande expressão ao nível de um activismo que se traduza na manifestação de milhares de Portugueses nas ruas ou na força de colocar em cima da mesa temas que o governo e media varrem para baixo do tapete. Muita sorte teve Timor por há 10 anos atrás não existir o nível de adopção das redes sociais de hoje.

Será que a passividade actual se deve à falta de situações que  justifiquem manifestações de rua? Ou teremos personalizado a hashtag ao ponto de esta se tornar mero adereço decorativo?

 

Morrer feliz

Por agora o assunto morreu sendo seguro que voltará à baila, espero que em condições. Algures no tempo tenho ideia de ter tido muito mais certeza sobre a minha posição quanto ao direito a morrer. No entanto as coisas mudam, conhecemos pessoas, ouvimos hisrias, analisamos factos, lidamos com a  luta e/ou morte de pessoas próximas, decidimos matar seres próximos (como animais de companhia), refletimos sobre a conexão holística e cármica, e de repente a base sobre a qual assentam os nossos fundamentos passa do concreto armado à areia movediça que nos obriga a movimentar cautelosamente em busca de terreno sólido onde firmar pé novamente.

Eutanásia advém do grego euthanasia que significa morte fácil, morte feliz. A componente fácil diremos que poderá estar relacionado com a comodidade, rapidez e ausência de sofrimento físico. Terá sido aqui que se focou a tradução da palavra para o mundo contemporâneo, deixando cair por completo a componente da felicidade. Julgo que não terá sido por acaso pois para garantir uma morte feliz esta terá de ser precedida por uma vida feliz, por uma vivência comunitária e familiar que construa significância. Não será complicado matar alguém de forma instântanea e indolor mas garantir que parta em paz? Com satisfação pela sua passagem por este mundo? Com orgulho do seu legado imaterial? Isso não se garante apenas com uma boa morte.

Em vez de termos a sociedade divida numa luta focada na morte deveríamos ser capazes de uma união em torno da vida. Ao invés do deslumbramento para com as histórias humanas, de sucesso e esperança futura no tratamento de doenças terminais, deveríamos perseguir as causas endémicas que levam à cada vez maior incidência de doenças física ou psíquicamente dolorosas, sofríveis, incapacitantes, fatais, procurando alterar os hábitos e comportamentos que a isso conduzem. A classe médica, que tanto se foca no tratamento do ser humano para que este se adeque e sofra o menos possível com o estilo de vida vingente, deveria dar um passo atrás, olhando para o panorama geral, tentando perceber se a sua ação não seria mais útil em intervenções na sociedade que vão muito além do que se passa dentro das instalações médicas, tendo a coragem de integrar no seu conhecimento científico os ensinamentos oferecidos pelas visões orientais sobre a saúde humana (física, psíquica, espiritual e energética).

Nos dias de hoje quem pode cuidar devidamente dos seus e de si? Quem pode manter os enfermos envolvidos e acompanhados no seu círculo social e familiar? Sem perder o emprego? Sem prejudicar a escolaridade dos filhos? Sem se desdobrar em habilidades logísticas e financeiras para conseguir cumprir com todos os compromissos assumidos? Não há pior sentimento para um acamado do que o ter a certeza absoluta de que sim, está a ser um fardo para os seus, para as suas rotinas, para o seu tempo de lazer, onde deveriam recuperar do esgotamento físico e psíquico imposto pelo nosso estilo de vida, porque, infelizmente, o enfermo deixou muitas vezes de fazer parte dessas rotinas, desse lazer. A fragmentação geográfica das famílias e comunidades ocorrida nas últimas gerações reforçou-se ainda mais com o advir das redes sociais e afins. Estamos todos tão perto uns dos outros quando tudo corre bem! Quando estamos mal? Estamos simplesmente offline, inexistindo até ao próximo post de vaidade galhofeira. Um país sem estrutura de suporte à vida digna não deve criar uma via de alternativa fácil aos que são quebrados e derrotados, como que dando o sinal de que deixará de ser relevante o impacto a longo prazo das opções governamentais e/ou individuais. Se acabarmos por destruir o nosso corpo e/ou mente não há preocupação, teremos garantido o fim do nosso sofrimento de forma fácil e limpa. Querem melhor reforço da inconsciência actual que degenera em crescentes taxas de incidência de cancros, demências e afins? A este ritmo a eutanásia poderá rapidamente tornar-se num varrer de problemas para debaixo do tapete. Se as pessoas em agonia desaparecerem não maçam, não dão despesa e não levam à formulação de porquês…

Continuo assim com a certeza de que devemos ter o direito à recusa do prolongar artificial da nossa vida, à recusa do sermos alvo de actos médicos com os quais não concordamos, agora se temos o direito a pedir que nos matem? Talvez, caso não o consigamos fazer pelas nossas próprias mãos, coisa que é passível de acontecer simplesmente pela recusa em ingerir líquidos ou alimentos como fazem alguns animais em desgosto profundo. Teremos algo a aprender com eles? Sejamos francos, 99% de nós não precisa de uma morte assistida, se o desejo fôr efetivamente morrer as possibilidades são imensas. Acredito que para o restante 1% se consigam soluções criativas se realmente necessário.

Por fim suspeito que tenhamos de reaprender a lidar com a morte aceitando-a seja lá como nos venha a ser entregue. Quando temos um moribundo diante de nós ambos temos a sagacidade de perceber que a morte se aproxima. Deveríamos ter a coragem de aguardar juntos, cabendo aos viventes o zelar e acompanhar da transição, partilhando os momentos finais que tanto impacto terão em todos os participantes mesmo que envolvidos em silêncio, toques e olhares serão suficientes. Porque por vezes me parece que o conceito de eutanásia, morte fácil, é um instrumento sobretudo facilitador para os prestadores dos cuidados de saúde, que libertarão uma vaga e reduzirão custos, e para os que ficam poderem retomar as suas vidas que parecem interrompidas por esta ‘anormalidade‘ que é o definhar de encontro à morte.