Monthly Archives: Julho 2026

Da resistência ao terrorismo basta um título de jornal

Façamos um exercício de conexão para com o impacto local destas iniciativas de interesse nacional, a nível de transformação da paisagem, extracção, uso e abuso de recursos naturais, impacto no quotidiano diário das populações dentro da esfera de influência das novas instalações e actividades.

  1. O novo data center de Sines irá consumir o equivalente a 20% da electricidade em Portugal e criará milhares de postos de trabalho directos e indirectos.
  2. A Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) irá expandir com projetos de hidrogénio verde, amónia verde, energia solar e produção de baterias de lítio, originando o abate de milhares de árvores. Ao mesmo tempo irá reforçar-se a distribuição da rede energética de e para este ponto de alta actividade industrial, com mais um milhar de árvores a abater.
  3. Logo ali ao lado também a região de Santiago do Cacém se junta ao novo festim energético com implantação de parques solares a ocupar mais de mil hectares obrigando ao abate de mais de um milhão de árvores.
  4. Pondo de lado o necessário sacrifício de fauna e flora, com mais de 500 animais selvagens de grande porte chacinados a tiro, também orgulhosamente se impõe a ecológica instalação solar da Torre Bela que descaracterizou completamente uma tapada de 1000 hectares onde 400 foram entregues aos painéis.
  5. O sucesso é tal que aceleram as iniciativas para agilizar a instalação de mais uns milhares de hectares de parques solares e eólicos, através de consulta pública para “aprovação silenciosa” de eligibilidade de mais terras para estes fins.
  6. Mais a norte outro tipo de progresso está em curso, depois da prospecção agressiva para estudo. está confirmada a viabilidade e riqueza de lítio em Boticas, Covas do Barroso, são 20 milhões de toneladas de minério a extrair, 500 postos de trabalho durante 14 anos de vida útil.
  7. (tantas outras podiam ser listadas, peço-vos ajuda a completarem nos comentários com as que vos provocam dor na alma)

Quando necessário servidões administrativas e expropriações permitiram o atropelo de proprietários, em prol do desenvolvimento do país. As máquinas e trabalham avançam de forma imparável e legalmente blindadas. Imaginemos estar no meio ou orla destes acontecimentos. O que sentíriamos, o que defenderíamos o que teríamos ganas de fazer?

O processo será sempre muito similar, primeiro a incredulidade para com o que se está a desencadear, a primeira reacção dentro da esfera legal com a abertura de providências cautelares que travem a catástrofe, a tentativa de mobilização da sociedade local e nacional, depois chega a frustração gerada por de pareceres jurídicos ou decisões governamentais que anulam o efeito imediato das providências, a constatação de que a força digital em pouco ou nada se manifesta na realidade local, por fim chega o desalento de não ter os meios e tempo necessário para um combate judicial significativo e com resultados práticos.

Há os que por fadiga desistem, abandonando causa e local, há os que por condicionantes se conformam, adaptando-se à nova realidade local, e outros passa a processar uma contínua amargura e raiva, tentando evitar desencadear acções das quais se possam arrepender. Pois agir neste contexto, mais do que resistir em defesa do que consideram justo e precioso, será interpretado, aos olhos da lei, com um hediondo acto terrorista e criminoso. O termo “terrorismo” foi definido de forma suficientemente abrangente para poder ser aplicado independentemente do contexto, causa e consequência, derivando para várias nuances, existindo a particular do ecoterrorista, alguém que ousa aplicar a equidade no uso da força em defesa de ecologia e ambiente.

Curiosamente olhando para a definição do termo podemos facilmente afirmar que existe terrorismo subjacente

  • à forma como canetas em gabinetes fechados, situados na malha urbana, emitem despachos para a destruição de largas porções de território, começando aqui um terrorismo psicológico via decretos que irão mudar substancialmente partes do território e seus modos de vida geracionais;
  • ao uso de grupos de segurança privados e grandes máquinas para entrar dentro de terrenos privados destruindo muros, árvores e tudo o mais que esteja no caminho;
  • aos grandes incêndios que coincidentemente assolam as áreas a desflorestar algum tempo antes do início dos trabalhos;
  • ao ignorar dos alertas e apelos de autarcas e populações locais sobre os efeitos nefastos dos projectos planeados/executados;
  • à ausência ou descaso de estudos de impacto ambiental pormenorizados que demonstrem os efeitos negativos dos projectos sobre os ecossistemas afectados;
  • ao vender da nossa beleza e património natural a interesses económicos de curto a médio prazo de forma praticamente irremediável;

Neste contexto não existem mecanismos legais para acusar o estado de terrorismo na manipulação da população com fins políticos, económicos ou ideológicos, estando este legitimado para exercício da violência física ao nosso território sob pretexto de progresso e desenvolvimento.

Em momentos como estes resta-nos buscar a inspiração de eventos passados. Onde acima dos artifícios legais e retórica moral, vinga o senso comum e a lei natural de direito ao bem-estar. Neste modelo acção com reacção se responde, empoderados pela justiça, bem comum e amor ao seu lar. Em união, em resiliênca, em consequência.

1989, Vale do Lila, centenas de pessoas uniram-se e DESTRUIRAM 200 hectares de plantação de eucalipto. Mesmo face a 200 agentes da GNR, não vacilaram. Expulsaram a Soporcel que decidiu não valer a pena a luta. Hoje estão rodeados de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho.

Se resistentes ou ecoterroristas os artigos mediáticos que os cataloguem em função da sua agenda, pois à vista desarmada simplesmente foram um povo a em legitima defesa dos seus interesses. A sabedoria, coragem e força para a imposição da fronteira do aceitável é algo que só descobrimos ter ou não ter quando o destino nos coloca face a face com uma situação desta gravidade e magnitude. Que a lucidez nos conduza à salvação e ao travar da expansão desenfreada em detrimento da (re)florestação.

Solar panel array beside a highway with construction site in foreground

Literacia tecnocrata em fase de transição

Curioso momento este que atravessamos, em que a igreja se vê na obrigação de redigir uma extensa CARTA ENCÍCLICA MAGNIFICA HUMANITAS DO SANTO PADRE LEÃO XIV SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL onde ressalva num extenso documento, todas as suas preocupações para com o impacto moral, espiritual, social e económico da inteligência artificial (IA) sobre a humanidade.

É inegável que a sociedade está a ser impactada rapidamente de forma silencionsa. Nos últimos anos a dinâmica online transformou-se significativamente. Hoje em dia pelo menos 50% dos novos conteúdos online são gerados por IA e quanto ao consumo de conteúdos existe mais actividade por parte de agentes autónomos inteligentes do que por humanos. Os conteúdos capturam a atenção humana, influenciando a sua percepção e opinião sobre variados temas. Pelo que claramente caminhamos de encontro à distópica teoria da internet morta.

A nível de empregos curiosamente ocorre uma primeira onda de despedimentos massivo de programadores, já que estas ferramentas vieram aumentar a produtividade de quem as domina. O mundo do IT já não oferece as oportunidades de outrora e é comum haver profissionais desta área há meses à procura de emprego, algo impensável há uns anos atrás. Outros sectores estão com maior latência na dimensão mas a vaga de novas oportunidades de trabalho remoto, para reforço do treino multi-disciplinar de modelos de IA, é clara no caminho que está a ser feito para alargar a eficácia e fiabilidade destes modelos de inteligência.

Ao mesmo tempo grandes avanços estão a ser feitos na robótica. Várias empresas contam produzir milhões de robots na próxima década, os quais serão veículos perfeitos para IA generalista ou especializada. Vemos hoje a construção desenfreada de infra-estrutura energética e para centros de dados (computação) que visam sobretudo possibilitar a expansão de serviços digitais e físicos baseados em IA. A própria revolução militar nas novas guerras o está a impulsionar.

Tudo isto parece apenas mais uma etapa evolutiva da nossa civilização, tal como os motores a combustão vieram transformar fábricas e campos, como a electricidade mudou cidades e serviços, como os computadores revolucionaram as tarefas contabílisticas e administrativas, etc. Contudo existem factores tecnológicos, humanos e sociais que irão fazer com que desta vez tudo seja diferente.

Ao contrário das anteriores revoluções, onde infra-estruturas ou equipamentos tinham de ser produzidos e instalados, requerendo primeiro instaladores e depois operadores a tempo inteiro, as novas capacidades dos serviços digitais estarão disponíveis de um dia para o outro, acessíveis a todos num curto espaço de tempo. A latência desta vez está no tempo de evolução das funcionalidades, não na sua distribuição e adopção abrangentes. Assim que uma nova funcionalidade esteja disponível, as empresas poderão transformar-se em semanas ou meses, gerando ondas de despedimentos de pessoas com as mesmas competências a uma velocidade muito maior do que a capacidade de absorção pelo mercado de trabalho. A pressão sobre a segurança social será enorme, ao nível da frustração humana por esta rápida substituição.

Certamente não será totalmente pacífica. Imaginem por exemplo todo um sector de camionistas, taxistas e condutores de uber a ficarem sem actividade num curto prazo porque a condução autónoma é finalmente aprovada. Parece exagero? Veja-se uma simples empresa que todos conhecemos, a Amazon, a planear substituir 75% dos seus empregados, mais de meio milhão, por robots que tratarão de quase toda a logística em armazens. E isto nos próximos 10 anos.

Amadurece cada vez mais a ideia de um rendimento básico universal. que no fundo distribuiria a riqueza, gerada pela automação, por toda a população de forma equitativa. No entanto isto geraria uma profunda alteração da dinâmica social, com uma população a ter de aprender a gerir ócio e lazer a tempo inteiro. Num extremo teríamos a dedicação a aspectos filosóficos e ideológicos, no outro o poder entregar-se em pleno aos pequenos “prazeres” da vida num hedonismo contínuo. Teremos maturidade suficiente para aproveitar o tempo para desenvolvimento pessoal e/ou trabalho colectivo voluntário em prol do bem comum? Ou entraremos em conflito e atrito constantes, originando novos focos de tensão e fragmentação da sociedade?

Neste cenário um sistema de crédito social é inevitável, assim como mecanismos de controlo de acesso e consumo. Haverá que penalizar quem desrespeite as novas normas, terá de se impedir a lotação esgotada de espaços apetecíveis, garantindo que todos os possam aceder periodicamente, terá de evitar-se o açambarcamento e o consumo excessivo de certos produtos, pois apesar de aparente infinito poder económico, existe finitude na produção e nos recursos disponíveis no planeta.

A imersão digital numa realidade virtual será também um meio de atenuar o aparecimento de problemas. Se todos estiverem a maior parte do tempo felizes e contidos espacialmente fica muito mais fácil de gerir a nova humanidade. Até porque convém que não se apercebam do atentado ecológico em seu redor, que garante a energia, computação e produção, basilares para a admirável nova tecnocracia. Pelo que talvez devamos passar a olhar agradecidos para a quantidade de gente que não desgruda dos ecrãs. É um sinal de que o futuro está a ser devidamente preparado para uma pacífica existência civilizada.

Futuristic city with illuminated skyscrapers, flying drones, and smart technology displays

Sensações e controlo climático

Um evento climático extremo é um fenómeno meteorológico ou climático, que se afasta significativamente da média histórica e atinge limites extremos na distribuição estatística (frequentemente ocorrendo apenas em 5% ou menos do tempo).

Cientificamente é uma anormalidade normal. Mediaticamente é o culminar da acção do homem, a consolidação do aquecimento global em curso, perigo extremo, causa de mortandande.

Para quem acompanhe notícias generalistas o tema do Super El Niño, com efeitos como os que estamos agora a sentir, já era debatido o ano passado. Super El Niños são fenómenos raros, com apenas uma mão cheia de ocorrências devidamente documentadas, e tipicamente conduzem ao quebrar de máximos de temperaturas registadas.

É relevante ter em conta que o registo científico de temperaturas no território continental é relativamente recente, veja-se abaixo um quadro de artigo no Público em 2022, onde se demonstra que a data mais baixa de início de registo contínuo de temperaturas é 1941 (em Coimbra e Beja), sendo que a maior parte teve início a partir dos anos 80. Num planeta com milhões de anos, numa nação com mais de 800 anos de história, temos apenas décadas de informação científica fiável para servir de base de comparação.

Nas TVs reina novamente o alarmismo puro, o não saia de casa a não ser que seja mesmo preciso, o fecho preventivo de espaços de lazer, a anulação de eventos ao ar livre, configurando-se uma suave indução ao confinamento climático com hábil narrativa de salvaguarda do bem-estar geral. Como gostam de nos ter em casa sossegados entregues às vicissitudes multimedia numa bela, dócil e crente egrégora.

Usa-se infografia trabalhada para, sem mentir, manipular a percepção geral de que a Europa está a arder e a roçar limites da inabitabilidade. Passam-se imagens e partilhas do que se vive nos pontos críticos, extrapolando-o como se fosse o vívido em todo o território.

E para climax final usa-se o número das mortes excessivas atribuídas ao calor. Diz-se que talvez vinte mil óbitos causados pela onda de calor na Europa. Ora estes números normalmente são calculados também através de desvios ocorridos no período, face à média dos anos passados. O que quer dizer que realmente algo terá acontecido para que a população seja mais afectada por anomalias climáticas, correlação não é causalidade. Pergunto-me se não existirá a possibilidade de que algo tenha degradado os naturais mecanismos de defesa e regulação do corpo humano, ao ponto de já não aguentar lidar com estas flutuações temporárias e simplesmente colapsar. Um estudo sério deveria ser feito sobre os óbitos para agrupamento de mortes em grupos similares de condições de saúdee hábitos de vida, a fim de verificar o que se passa e melhor prevenir futuras situações.

A nível político preparam-se os programas e investimentos para mitigar futuras ondas de calor. Será uma alavanca importante para canalizar fundos e mundos para novos sectores industriais e infra-estruturas com total aceitação das populações afectadas e desorientadas pelo impacto. Tal é a importância de informar as pessoas que instituições internacionais como o World Economic Forum investem forte na difusão de toda esta preocupação e resolução. É importante que todos reconheçam o problema e soluções apresentadas por si.

Apagada a TV, largado o computador, resta o mundo real. Lides que precisam ser feitas, com ou sem suor. Depois de se sentir o bafo o corpo ajusta-se, ajudado por uma mente forte e resoluta. Vivo no mundo rural, vejo e converso com agricultores de 80 anos que passaram uma vida inteira a labutar de sol a sol, ainda o fazendo hoje, mesmo nestes dias de calor “extremo”. Partilham histórias da sua juventude, de dias esporádicos ainda piores em termos de calor, de como mesmo no Verão faziam fogueiras no chão para cozinhar quando embrenhados em herdades a tirar cortiça ou lidar com o gado. O controlo e cuidado com o fogo era senso comum e sem burocracias iam-se limpando terrenos. Não têm memória de haver tantos fogos como nos últimos tempos. Não têm receio do que o dia oferece, adaptam-se, sendo sábios em resguardar-se e proteger o que é seu e de todos.

A principal diferença? Regem-se pelos elementos, pela sua experiência, intuição e observação. Ouvem mas retrucam e ignoram o que não joga a bota com a perdigota. E com isso vivem felizes e contentes, inspirando quem com eles se cruza a não se deixar condicionar por imposição de interpretações externas da realidade observada.

Resumindo este vai ser um ano fora dos padrões climatéricos normais a nível mundial, com agravamento no resto do ano, não estando a existir honestidade na narrativa mediática sobre a causa dos efeitos sentidos. Estejamos atentos para exageros e abusos de autoridade no controlo da percepção pública e condicionamento de comportamentos e movimentos. Prescindamos da falsa condescedência e exijamos honestidade intelectual por parte dos meios de comunicação e governantes.

Family of four sitting in a cozy living room with a large window showing farmers working in a green field