Monthly Archives: Outubro 2014

O Gênio da Lâmpada

Tranquilo e confortável na sua lâmpada, o Gênio da finança viveu para criar valor para o accionista. Foi esse o seu desígnio. Sempre. Por isso ganhou prémios, louvores e condecorações. Reconhecimento entre nós é coisa rara. Quer dizer, exclusiva. É a “portugalidade”.

Zeinal Bava

Detentor de um vasto vocabulário empresarial, brilha em qualquer fórum. Após uma audição em sede de comissão de inquérito parlamentar, terá alegadamente motivado a inscrição de alguns deputados da Assembleia da Republica em cursos de iniciação ao idioma de Shakespeare. Dizem que a forma mais sincera de elogio é a imitação.

Sempre atento aos ventos da mudança, o Gênio observou o avisado conselho do êxodo. À época, cheguei a pensar que finalmente alguém levara a sério as ideias para o pais deste blog, concretamente o meu apelo ao altruísmo. Lamentavelmente, tudo ruiu passadas menos de metade das 1001 noites expectáveis. Estoirou. Querem agora crucificar o Gênio. Acusam-no de destruir todo o valor do accionista. Uma injustiça, uma enorme injustiça, digo-vos! Mero dano colateral de um outro acidente.

lampadaA culpa é do malfadado Acordo Ortográfico. Passo a explicar: A definição de “Accionista” era “aquele que detêm uma participação numa sociedade anónima”, contudo, e desde 2009, que “accionista” se escreve “acionista”, isto é, aquele que aciona. Ou seja, “Criar valor para o acionista” significa – entregar o valor àquele que aciona a lâmpada, friccionando-a.

Foi apenas isso que aconteceu, o Génio concedeu uns desejos a quem tinha a lâmpada na mão (consta que não foi o Aladino). Deviam conceder-lhe o grau de Gênio Honoris Causa. No mínimo!

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Alerta contra um futuro de vale tudo

Return MigrationApós ausência prolongada do país reconheço que ao reentrar na realidade portuguesa a sensação com que fiquei foi a de que estamos muito pior do que a percepção que temos quando vivemos continuamente neste circuito de austeridade e desesperança. Muitos foram os acontecimentos estranhos no último mês, na justiça, na educação, ainda efeitos GES, etc. Incrédulo, apercebi-me que aparentemente não existe fundo do poço, o que não é muito problemático quando também não verte um pingo de vergonha!

Em relação à actualidade, um pormenor da reforma do IRS pôs-me a ruminar sobre a sua carga positiva e/ou negativa. Algo aparentemente positivo, os vales de educação para filhos até 25 anos com benefícios fiscais para empregador e empregado.

Mais um sistema de vales, à partida com vantagens para todos. A empresa paga menos impostos, o trabalhador não tem esses vales tributados. Assim de repente ocorre-me que já existem outros tipos de vales, vales de alimentação (ou cartões pré-pagos) , vales de combustível (ou cartões com plafond) e de certa forma vales de saúde (através de sistemas de seguros de saúde). Ou seja, no seu expoente máximo uma empresa pode introduzir como variáveis no salário de um trabalhador montantes fixos consignados à despesa em sectores como a alimentação, a energia, a saúde e agora também a educação.

A empresa poupa, o trabalhador ganha mais, certo? Só que as despesas nem sempre são lineares, o que significa que quando há picos de despesa numa área o trabalhador poderá compensar com o seu capital, quando tem períodos de baixo consumo dos sectores abrangidos pelos vales fica com capital empatado pois não o pode ‘resgatar’ para outros fins. Por vezes nem sequer lhe é permitido o acumular perdendo o que não consome mensalmente.

Imagino que no futuro surjam mais vales que beneficiam ambas as partes: vales de telecomunicações, vales de entretenimento, vales de viagens, vales de roupas e acessórios, etc.

Levando a que no expoente máximo um trabalhador venha a ter na sua folha salarial uma parcela para cada um dos tipos de vales existentes.

Um belo e complexo sistema de vales que nos permite ganhar muito mais do que se apenas auferíssemos um simples salário plenamente tributável.

Temo que este seja um processo que se encontre a meio, onde somos, de forma muito subtil, condicionados e educados a distribuir a despesa de forma relativamente premeditada por sectores específicos da economia. Um conhecimento do volume de vales emitidos mensalmente permite estimar a despesa mensal em determinado sector. E desta forma afectar os nossos hábitos de consumo, forçando-nos ao consumo para esgotar o plafond uma vez que parado não rende nem pode ser utilizado para outros fins. Trabalha-se inerentemente para consumir. Os trabalhadores tornam-se meros veículos de capital em trânsito contínuo entre banca, empresas e comerciantes.

Já para não falar na complexidade acrescida à gestão contratual entre empregador e assalariado ao longo do tempo pois normalmente estas rúbricas podem ser alteradas ou eliminadas sem necessidade de consentimento prévio por parte do beneficiário. Relativamente aos vales de educação o que acontecerá automaticamente quando os filhos atingem os 25 anos? Desaparecem? São convertidos em salário bruto?

Admito que talvez esteja a ser alarmista, mais um teólogo das teorias da conspiração que alertam para a elite que pretende dominar a humanidade. Sinais de um tempo em que a política e economia do vale tudo me fazem temer que o pleno livre arbítrio no consumo talvez passe a um simples vale nada.

Who Will Rule The Consumer Cloud In 2012?

A Fuga

Tudo se quer no seu ambiente natural.

A “fuga para a frente”, embora “anti-instintiva” pode ser, e é-o muitas vezes, uma manobra de salvação.

Perante a queda eminente, perdidas todas as forças que nos sustentam, que nos seguram à vida, contra-naturalmente, damos a mão ao abismo caindo de nariz, fundo, mais fundo, sempre mais fundo, até atingirmos a velocidade de ressuscitação. Assim se recupera da perda aerodinâmica.

A “fuga para trás”; seria a desgraça e a morte.

fuga para a frente

Foto; de céu desconhecido

Baile de Máscaras

A Mascara de Gustav_III

Em 1788, Gustav, o terceiro da Suécia não era particularmente adorado pelo seu povo. O soberano sofria de tédio. Talvez por isso se tenha empenhado tanto na promoção das artes plásticas e cénicas. Ia com frequência à Ópera. Afinal fora ele que a mandara construir – Os Despotas Esclarecidos tinham destas coisas. Chegado lá, lembrou-se de encomendar uns quantos uniformes do exercito russo da Imperatriz Yekaterina, a segunda. O pedido do soberano da Suécia não levantou suspeitas. Algum baile de mascaras, terão pensado as costureiras da Ópera Real. E foi mesmo…

Soberano sem guerra mais não é que subalterno coroado. O rei Gustav III queria a sua, mas estava constitucionalmente impedido de fazer guerra ofensiva. A mobilização militar era apenas permitida para a guerra defensiva. Daí o tédio. Gustav III cobiçava a Noruega, então parte da Dinamarca. Tentou um negócio com a Imperatriz Russa, mas esta recusou trair a sua aliança com a Dinamarca.

Gustavo-III,-Rey-de-Suecia_1777-by-RoslinFoi então que Gustav III percebeu que para concretizar os seus objectivos, a beligerância com a Rússia era inevitável. E se pensou melhor o fez. Decidiu aproveitar a oportunidade que a guerra entre o Império Russo e o Império Otomano lhe ofereceu. Nasceu o gabinete de gestão da divida externa. Estando os russos “entretidos” mais a sul, ordenou um ataque simulado a um posto fronteiriço na província de Puumala, na fronteira da Rússia com a Finlândia, então parte integrante da Suécia. Foi assim que suecos mascarados de russos atacaram suecos sem máscara. O baile, permitiu ao soberano sueco avançar contra o Império Russo. O resultado desta guerra não foi particularmente vantajoso para nenhuma das partes, tendo apenas retido recursos que outra forma teriam sido úteis noutros cenários.

Dois anos depois de assinada a paz com a Rússia, Gustav III celebrou o seu ultimo baile de mascaras na Ópera Real, a 16 de Março de 1792. Foi assassinado nessa noite às mãos de compatriotas.