Monthly Archives: Agosto 2014

Silêncio

Sagaz e mui honrado senhor, a pulso progrediu. Politico de grande estatura, por ser professor, prestigiado docente, por ser politico, um estadista que fez escola. E que escola! Eleito e reeleito, dado como acabado voltou. Voltou e repetiu. Apelou.

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Outrora brilhante investidor, deu garantias, depois calou-se. A neblina caiu e nunca mais se ouviu. Terá sido enganado como nós, ou ajudou à festa? Não retira consequências? Bem sei que não são os estatutos dos Açores, mas nem um gesto? Nada?

São só milhões, bpn e picos, nem 8 mil. Compreende-se. Ou não? Estará de Férias? Doente? Já sei, reflecte enquanto ouve musica:

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Com-Fisco ou Sem-Fisco?

Contribuinte

 

 

 

 

 

Abro o jornal, e ouço falar do BES, do BPN, do BPP.
Mudo de canal e leio… BES, BPN, BPP.
Ligo o rádio (ou telefonia… enfim… ) e o que vejo? BES, BPN, BPP.
No porta moedas apalpo (!) 10.000.000.000. Dez Mil Milhões?!

Começo a ficar baralhado… a sentir… coisas; pronto…
Bom dia também para si. Será bom dia? Dia?

Também anda a morrer gente que eu gosto. Frequentemente.

PS-A imagem imposta aqui, é de contribuição anónima.

 

Catedral de Santa Maria

Faz hoje 69 anos que foi lançada a segunda bomba atómica. O alvo, a cidade fundada por portugueses em 1570 foi completamente arrasada pela Fat Man.

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Nove de Agosto de 1945 é, e para sempre será uma data infame. Um símbolo de morte e destruição. Quase nada permaneceu de pé em Nagasaki. São famosas as imagens do Torii que resistiu à devastação, mas raras vezes é mencionada a solidez da alvenaria portuguesa. Numa época em que a displicência vigente ainda não fazia escola, obra lusa era sinônimo de qualidade e prestígio. Sem marca ou publicidade que lhe apregoem virtude, o nosso legado arquitetónico espelha apenas a nossa simplicidade, da pedra sobre pedra, do trabalho bem feito. Um “saber fazer” que no fundo, no fundo, existe em cada um de nós. Acredito que a fútil sofisticação do “economês” que sobre nós se abateu dará (um dia) lugar à nossa singela essência, não para construir impérios, mas para a eles resistir. É por isso que hoje vos recordo a Catedral de Santa Maria, por nós construída em Nagasaki, e que o mais poderoso engenho destrutivo que o homem lançou sobre o homem, não foi capaz de arrasar por completo.
Apesar de hoje a maioria permanecer calada, consentindo que a obscenidade da mentira e do roubo vençam, não duvido por um segundo que partindo daquilo que restar de pé, reconstruiremos algo de simples, como nós, mas grandioso de humanidade.

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A falácia do empreendedorismo

Nesta segunda década do Século XXI, Portugal ficou cheio de empreendedores. O empreendedorismo entra-nos pelos olhos, ouvidos e outros sentidos a dentro, como se disso dependesse o nosso futuro. O problema, é que visto com uma lupa maior, rapidamente se percebe que o empreendedorismo não é mais que uma moda, uma buzzword que fica bem.
Na sua grande maioria o nosso empreendedorismo não é mais do que aquilo que Portugal teve sempre acima da média. O Auto-Emprego. A maior diferença para um fenómeno sempre tão popular em Portugal está nas condições e motivações dos empreendedores, que passaram de “querer ser patrão de si mesmo” para “não há emprego na minha área de formação”. Portanto, na sua maioria o nosso empreendedorismo é auto-emprego mas com um objectivo de sobrevivência.

Há obviamente diferenças de um Portugal dos anos 80 e primeira metade dos 90s em que vivíamos num país menos formado e essencialmente intermediário. A grande maioria dos negócios próprios era baseados quase exclusivamente na compra e venda de bens, sem qualquer criação de valor. Muita gente prosperou, alguns tiveram a inteligência de perceber que não era isso que lhes iria garantir o crescimento. De resto quase tudo era alicerçado num negócio que criando património não trás qualquer valor acrescentado ao país. O negócio da construção civil.
Hoje em dia é diferente. A construção atingiu um ponto de saturação e a nossa economia, especialmente por responsabilidade dos governos de Cavaco Silva, esqueceu a noção de criação e achou que o futuro eram os serviços. E é aí que essencialmente estamos encravados.

E é por isso que o Empreendedorismo à portuguesa é falacioso, porque é na sua grande maioria baseado em serviços, ou em bens não essenciais. Estão melhor encaixotados, em Marcas mais bonitas, com embalagens mais bonitas mas são actividades na sua grande maioria que não só não contribuem para a nossa independência económica enquanto país, como agravam essa falta de independência, pois são na sua essência negócios que dependem de uma dinâmica de mercado interno, que não temos, para prosperar.

 

Sim, porque empreendedor não é a milésima loja de roupa de crianças, ou a amiga que faz os melhores cupcakes de sempre, ou o cake designer que faz bolos lindos. Muito menos empreendedor é o gajo que vive de vender palestras sobre empreendedorismo ou o gajo que tem uma consultora informática, que na sua maioria nada mais são que um mercado de carne humana, criado para contornar as leis laborais.
O empreendedorismo deve ter um foco de criação, de trazer algo novo, ou de pegar em algo tradicional e essencial e reposicioná-lo no mercado global.

O empreendedor é aquele que sonha com o mundo e que faz a pensar no mundo, não a pensar no nosso pequeno mercado interno.

Em portugal, há dois bons exemplos enquanto grupos de empreendedores. A industria têxtil e a agricultura, na área dos vinhos e azeites.

São grupos que estão, para usar um chavão, a agir local e a pensar global.

E os outros?

 

Os outros, e este é o maior problema na minha opinião, estão a ser atirados para negócios sem futuro, que em nada contribuem para a saúde económica do país e que na sua maioria, sem se aperceberem, estão a fazê-lo por razões muitíssimo pouco nobres, ou de desejo individual.

O que está a acontecer e que para mim é o mais preocupante, é que este “Empreendedorismo”, que nos está a ser vendido de forma massiva como a solução para o nosso país, não é mais do que mais um forma de encapotar uma das maiores desvalorizações que assistimos na nossa sociedade. A dignidade dos trabalhadores.

Este é o empreendedorismo dos eternos estagiários, das pessoas que a única coisa que encontram é um ordenado miserável, em sítios com condições de trabalho miseráveis, sem qualquer perspectiva de futuro.

São estes os “empreendedores”. São aqueles que não têm outra solução, que querem poder ter uma casa, ou umas férias como qualquer pessoa com um mínimo de dignidade.

Sendo também que estes “empreendedores” que são óptimos para o estado, porque ao serem “empreendedores” deixam de ser desemprego, contribuições sociais, etc, para passarem a ser IRC/IVA, etc.

 

Acima de tudo precisamos de empreendedores a sério. Muito menos que os que achamos que temos, mas precisamos.

Até porque só esses conseguirão gerar o emprego digno que os outros, podem e devem ter.

 

 

P.S.: Há alguns meses o Nuno Faria convidou-me para me juntar a este blog. Só agora o faço, não porque o projecto não me tenha interessado, mas apenas e só porque sinto que tenho pouco a dizer. Mas aqui fica o meu olá a todos.

Banco Yin Yang

Good Bank vs Bad BankNão havendo muito mais a acrescentar em termos de opiniões do caso BES e/ou GES arrisco-me a aventurar por caminhos alternativos de pensamento. Faço-o porque não acredito na separação plena do bem e do mal, o equilíbrio dá-se na harmoniosa convivência de ambos. Além de que não basta separar donos, marcas, activos e passivos.

No seio do BES continuarão empregadas muitas pessoas envolvidas nas decisões ou na sua execução. Pessoas que terão tido contacto directo com o refogado, que podiam ter ligado ao 112 para alguém desligar o lume antes que se desse a queima do repasto e mesmo o estragar do tacho. Se a sua mentalidade e obediência se mantiver a recorrência é possível e provável.

Olhando para o balanço consolidado do BES vê-se que realmente o rombo dos milhares de milhões de euros falados arrebenta com todos os rácios de solvabilidade só que isso não invalida que esteja ainda ali muito dinheiro, mais de 36 mil milhões em depósitos, mais de 45 mil milhões de créditos a clientes e pelo outro lado mais de 16 mil milhões de dívida a credores.

Dodd-Frank Falls Short on ‘Too Big to Fail’ BailoutsQuando falam em “too big to fail” vêm-me à cabeça os perto de 10 mil milhões de euros acumulados que o estado utilizou para tapar os buracos BPN, BPP e agora BES. Esses 10 mil milhões não seriam suficientes para remendar as rupturas que pudessem surgir? Num cenário de queda de um banco como o BES seria natural que os penalizados directos fossem os seus accionistas e investidores, os depósitos deveriam ser salvaguardos na integridade pois é essa a natureza de um instrumento financeiro de poupança com baixa rentabilidade, aos credores caberia a divisão dos despojos remanescentes. Ou seja, a queda de um banco só deveria provocar prejuízos em quem tem com ele uma relação com risco associado. É quem nele investe e quem lhe dá crédito que deve exigir boa gestão, avaliação e regulação independente. Já aos clientes de crédito sairia um género de jackpot pois na prática a entidade credora deixaria de existir. E com isto o verdadeiro prejuízo ficava ao nível das baleias da alta finança. Na economia teríamos até uma injecção de capital indirecta pois todos aqueles que deixavam de cumprir com as suas obrigações de crédito passavam a dispôr do valor dessas prestações para investir e consumir. O dinheiro continuaria a fluir mas de outra forma.

Fala-se na fraca regulação estatal, ou de entidades centrais, que deixam passar estes casos complexos sendo que essa displacência, apesar de criticada, acaba por ser aceite de ânimo leve porque os credores do banco que quase cai são tendencialmente protegidos. Os planos de revitalização de um banco em dificuldades são feitos sobretudo para que este consiga cumprir com as suas obrigações de endividamento e não propriamente para salvaguardar interesses dos seus clientes ou accionistas.

Não me parece que seja penalizando a concorrência nacional do seu sector de actividade que a coisa fica melhor composta. A melhor forma de apertar as malhas e recursos dedicados à fiscalização e regularização é precisamente deixar que as consequências subam as cascatas de capital, como um salmão que vai desovar um caviar pútrido na bandeja dos lambões dos juros sobre empréstimos de alto volume.

Na minha óptica o cerne do problema é precisamente o estancar do propagar das consequências, pelo que a melhor forma de rapidamente reformular toda a monitorização e regulação dos mercados financeiros seria com medidas como:

  • “Even giants may fail” – na queda de um banco todos os depósitos seriam garantidos, os créditos a clientes seriam dado como fundo perdido (total ou parcial em função do montante ainda em dívida vs montante inicial), os credores dividiram activos remanescentes, accionistas e investidores assumiriam por inteiro o risco e a má gestão. Desta maneira iriam surgir organicamente muito mais condicionantes ao surgimento dos gigantes bem como mecanismos de supervisão sobre a sua gestão;
  • “Offshore? Of course!” – toda e qualquer entidade que utilize mecanismos offshore para suavizar as suas contas teria de pagar um imposto especial de prevenção à fraude económica. Uma tributação significativa e variável em função do número de empresas e offshores por si constituídas vs volume de negócio da entidade. A intenção não será propriamente o seu fim mas proporcionar meios para que o que nelas se passa seja muito mais transparente;
  • Maior responsabilidade a gestores de 2ª linha e executores de planos de gestão fraudulenta – incomodar os cabecilhas não basta, é preciso que também os seus crentes e fiéis executantes, que tenham um nível de know-how sufiente para perceber no que estão envolvidos, sejam indiciados como membros activos da concretização da gestão danosa. Eles devem ser a primeira linha da garantia de consciência e rectidão de gestão;
  • Recompensa indexada ao valor da fraude – criar mecanismos que permitam a denúncia com protecção de anonimato e que recompense os denunciantes com um valor monetário indexado ao volume da fraude. Para compensar a honestidade e também para que os possíveis ganhos com o envolvimento no esquema de fraude tenham concorrência forte para os mais susceptíveis ao untar de mãos para pautar a sua acção e consciência;

Este seria um novo ambiente que não seria presunçoso ao ponto de se achar capaz de dizer qual é/será o banco bom e o banco mau do momento. Um sistema onde todos os bancos são Yin Yang, capazes do melhor e do pior, alternadamente, em perfeito equilíbrio e auto-correcção.

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Lisboa Menina e Moça que os meus olhos te vêm tão pobre

Lisboa está na moda! Em rota de contra-ciclo com a economia portuguesa, o turismo da capital tem ganho um novo fulgor. De repente, as sete colinas, a luz e o pitoresco das ruas atraem a atenção dos jornalistas da especialidade.

Para mim, nada mais óbvio. Sempre que visitei o estrangeiro e as outras capitais europeias, e por mais belas e monumentais que fossem, sempre achei que lhes faltava a claridade e a proximidade do rio que Lisboa possui.

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O turismo é encarado como algo positivo em Portugal, e ai de quem disser o contrário, afinal mexe com os interesses de muitos e o trabalho de tantos. Contudo o país virar-se para o turismo como aposta é errado e não se coaduna com um país que se quer desenvolvido. Nós portugueses, nunca fomos mesmo bons nesta coisa de se pensar no que se quer do país. Nós só pensamos o país de repente, quando a coisa corre para o torto, e de repente todos sabíamos que isto ia dar mau resultado, mas também de repente paramos de pensar…

A aposta no turismo como modelo económico de determinadas zona do país como o Algarve e a Madeira, para além de descaracterizarem as religiões (o Algarve todos o vêm como zona balnear, com casas vazias e hotéis que se enchem no verão, e todos desconhecem o Algarve das gentes rurais, de povoamentos isolados, das gentes pobres que caminhavam quilómetros e quilómetros sob o sol que queima para chegar ao médico, à biblioteca, à farmácia). Essa aposta leva a que essas zonas para além de dependerem de uma actividade sazonal (no caso do Algarve cujo pico de turismo é no verão) expõe-o às flutuações das condições económicas (veja-se aquando do início da crise de 2008 o sufoco que foi no Algarve e também na Madeira devido à queda da procura generalizada). Para além de que para estas duas zonas, o turismo não tem sido uma boa arma para fixar a população jovem, sendo zonas de grande êxodo.

O Douro, que já está em rampa de lançamento acelerado para o turismo, corre um certo risco de descaracterização, embora menor do que aquele a que o Algarve esteve e está exposto, mas depende da vontade de quem domina esse turismo, e lembre-mo-nos que as grandes propriedades vinícolas do Douro estão nas mãos de estrangeiros. Neste processo de descaracterização que o turismo provoca, é cultura que se perde. E a cultura é aquilo que nos une enquanto povo.

O turismo tem ainda outro risco, é que ele é apenas um serviço, e não cria riqueza. Talvez por isso, o turismo em Portugal tem sido gerador de postos de trabalho precários, empregando muita mão-de-obra pouco qualificada e com taxas de sindicalização muito baixas, o que reduz ainda mais os salários, não pingando para a sociedade os recursos adquiridos com a actividade. O comércio criado ao serviço deste turismo também não cria postos de trabalho seguros. A giríssima marca “LisbonLovers” é acusada de contratar os seus trabalhadores a recibos verdes. 

Quando o turismo é uma aposta em anos de empobrecimento e de acentuação profunda das desigualdades, e quando é um sector que nesses anos cresce sem que haja condições do fomento da procura interna mas o enfoque na atracção da procura externa, é só mais um sinal de empobrecimento e um veículo de aprofundamento das desigualdades. Isto acontece em Portugal e nós não temos desculpa, porque sabemos muito bem o que é o turismo. Tornar o país num destino turístico sem que haja uma visão estratégica para o país, sem que o turismo seja enquadrado como apenas mais uma dimensão, mas em vez disso como oportunidade e recurso de criação de riqueza a curto prazo, é uma mentalidade terceiro mundista, própria de países pobres e atrasados que não têm mais nada para oferecer.

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Atenção, eu não estou contra o turismo. Ele cria postos de trabalho e acima de tudo promove a requalificação urbana da cidade. Mas não nego que me causa a sensação de soco no estômago quando na minha hora de almoço, diariamente, dia após dia, vejo a pobreza que vai nas ruas da capital. Os sem-abrigos são em número nunca visto, os portugueses passam nas ruas de olhos tristes, após 8 horas, 9 horas, 10 horas ou até mais de trabalho, sem conseguirem fazer face às despesas,  com familiares em casa desempregados e crianças para cuidar, na incerteza de um futuro que não se quer ver, ou os portugueses que já nem trabalho têm nem a esperança de um dia o voltar a ter e que caminham vencidos neste país, que em vez de os apoiar os engole.

Diariamente, várias vezes ao dia, passo pelos mesmos pedintes, pelos mesmos rostos, alguns já idosos, outros mais jovens, uns alcoólicos que desistiram já deste mundo, uns que aparecem num dia e no outro já não os vejo, outros que um dia apareceram e desde aí todos os dias os vejo, outros ainda que terão casa e tecto mas simplesmente o rendimentos não lhes basta para o dia-a-dia. Alguns é certo, conheço-os há anos demais e não posso culpar a crise: há um senhor que vende fotografias e relógios de sol e tem dois cães, chegou a ter 11 samoiedos, conheço-o desde miúda, creio que é da América do Sul e gosto dele.  Existe ainda a famosa D.Maria que canta o fado à porta da Lord, ou o grupo de freaks que na rua do Carmo pedem dinheiro para cerveja e charros. Mas e os outros todos? E o velhote que está todas as manhãs à saída do parque Camões e pede repetidamente “uma moedinha”? E a velhota que em vários pontos da cidade ao passarem por ela no passeio grita que está cega e pede 10euros para pagar a renda?  E as duas senhoras que vendem poemas entre o Carmo e a Rua Garret? Em torno do Teatro D. Maria uma fila de sem-abrigos dormem lado a lado. Pela Avenida da Liberdade outros não sei quantos fazem daquela calçada sua cama. O Sofitel recentemente colocou ferros para evitar que os sem abrigo se deitem ali. A loja da Gant há vários anos que partilha o seu tapete da rua com um sem abrigo, jovem, toxicodependente. Ao lado do São Luís 3 homens dormem, pelo menos 1 está lá sempre. Tem um cartaz a pedir respeito e para não o incomodarem. Sempre existiram sem abrigos, mas não neste número. Os Restauradores, ao cair da noite, transforma-se num dos dormitórios de Lisboa. Santa Apolónia assiste ao engrossamento do seu exército de hóspedes há anos. O número de sem-abrigos cresceu silenciosamente, o perfil do sem-abrigo mudou. Há famílias a viveram na rua, em carros, em dormitórios incertos. Arriscam manchar o turismo da cidade.

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Na cidade onde ainda aqueles que trabalham (mas não conseguem já aqui morar, porque muitos foram empurrados para procurar casa longe da sua cidade natal), ou na cidade daqueles que ainda aqui moram, nesta cidade abrem hotéis atrás de hotéis, transformam-se terraços em restaurantes de luxo e bares finos, nos quais a maioria dos lisboetas não poderá jamais jantar ou beber uma imperial. As ruas desta cidade desenhada por colinas, onde abrem esplanadas no mesmo sítio onde antes brincaram os lisboetas, são de facto lindas. Os turistas são bem vindos, os lisboetas certamente ficam felizes por verem Lisboa reconhecida por aquilo que eles sempre souberam: é a mais bela cidade do mundo. Mas os lisboetas desta cidade da moda agonizam, e com eles agoniza também a cidade. Porque onde abre um hotel foi antes a casa de alguém ou os escritórios de uma importante empresa, onde abre um restaurante de um qualquer chef, foi uma loja habitual de muitos lisboetas, ou o seu ponto de encontro. E uma após outra loja foram fechando e vão fechando, cedendo ao low cost, às lojas dos chineses, às lojas dos indianos, aos hotéis, aos restaurantes… Livrarias, alfarrabistas, ourivesarias, capelistas, lojas de roupa, pastelarias, tascas… E uma e outra, vão morrendo, e com elas morre também uma parte de Lisboa.

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O Turismo é bom. Mas este turismo que ameaça a memória da cidade, que destrói postos de trabalho, e que é feito ao lado da miséria de tantos e que exclui os lisboetas e os portugueses, este turismo destrói!

A injeção

O plano nacional de vacinação prossegue a todo o vapor. Felizmente há quem pense no bem comum. Estamos em boas mãos, dizem entre eles, uns dos outros. Cortesias de “médico”.

É da nossa saúde que se trata, não da deles. Nitidamente! Os depósitos, os depósitos… não havia um fundo para os garantir? Os postos de trabalho, os postos de trabalho… O que terão estes de especial quando comparados com os dos outros bancos? (Já nem pergunto sobre o desemprego noutras aéreas). Sim, é por todos nós que zelam.
Relembremos o Diagnóstico e plano terapêutico.
Primeiro o banco era sólido e tinha reservas (2kM€). Viva o aumento de capital. Aprove-se o prospecto. Foi um sucesso. Depois, anunciada a saída da família santa, o espírito de brincadeira promove umas travessuras, coisa pouca (+1,7kM€). Impossível de antever. Bom, é aqui entram os profissionais! Adiam, adiam. São contas difíceis, reconheço.
Afinal não é tão sólido. Pois. E agora? Bom, o plano era tão secreto (a bem da estabilidade) que todos os “comentadeiros” ao serviço da causa “eis aquilo que deves pensar” sabiam dele. Seríssimo.
A aritmética, essa, fica para depois. Repito, é da nossa saúde que estamos a tratar.
Finalmente o plano “Novo Banco”. Que bonito. Dinheiros públicos? Nada, quer dizer, um pouquinho, bem, tudo, mas reembolsável. Ah, fico mais descansado. Tratam de mim e nem tenho que pagar. Nem em Cuba!
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E o banco mau? Fica com os acionistas, esses malandros. É fofinho não é? Até soa a justo…
Por fim a injeção (4,9kM€) no BOM, no NOVO BANCO, aquele que não tem nada tóxico. Esperem. Alto. Se é bom, se não padece de qualquer enfermidade, porquê a injeção? A minha aritmética é fraca. Ajudem-me se puderem:
2+1,7=3,7
4,9-3,7=1,2…