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O degelo do glaciar Luísão Nevão
Os lança chamas mediáticos e cheganos abrasam a figura do ministro da administração interna. A espaços ouço as acusações de jornalistas e adversários e a defesa pelo próprio. No seu conteúdo as infracções, ou má-conduta, acabam por ser de pequeno impacto ou simplesmente estrambólicas. Longe de representarem grandes danos financeiros ao estado, ou trafulhices de redes mafiosas. Assemelham-se a mais a atalhos à la desenrasca do tuga. Pelo que a desproporcionalidade é grande na dimensão do barulho acusatório vs sobretudo uma falha no cumprimento à risca de procedimentos em vigor. Quando ouço os primeiros fico estupefacto com o rocambolesco do relatado, quando ouço a defesa em primeira pessoa até me parece um gajo honesto qb sem grandes complexos de ter ideias fora da caixa ou contornar algumas burocracias.
Dei-me ao trabalho de ir cuscar a cronologia do serviço de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária. O que depreendo é que foi muito forte na capacitação e execução operacional, mais débil em actos de gestão à prova de balas auditora. É um estilo, pragmatismo, mais focados nos fins do que nos meios, muito sangue frio (ou quiçá grande lata) para abordar temas difíceis sem rodeios.
A PJ durante o seu mandato executou várias investigações anti-corrupção, envolvendo políticos e empresários, pelo que inimigos não lhe faltam. Ao mesmo tempo concerteza deterá muitos podres de classe política e empresarial que, apesar de não se terem constituído em processos, podem ser usados para alimentar processos mediáticos de condenação em praça pública.
É difícil ler o porquê dos ataques, se simples vingança, se intenção de fragilizar o governo, a teoria de que ele continua em funções por ser um tipo de el capo de uma máfia secreta não me faz muito sentido, já que se assim fosse ele poderia responder de imediato libertando informações sensíveis ao seu dispor para ao menos dispersar o circo mediático. Além de que figuras com esse suposto nível de poder e influência preferem ficar comodamente nas sombras dos bastidores exercendo um subtil controlo de marionetas.
Do Chega focam-se na sua relação com empreiteiro, pagamentos de nota na mão, tanque que é uma trans-piscina, omissão/erros nas declarações patrimoniais, etc. Parece-me que não é muito inteligente pegar por aqui. Se o Chega desvia o seu foco da emigração ilegal e da grande corrupção em Portugal para os pequenos delitos, como a economia paralela, omissões fiscais pouco significativs, e obras não autorizadas, corre o risco de perder e/ou penalizar fortemente muitos dos seus eleitores.
Sejamos francos, a virtude do cumprimento burocrático e fiscal na vida do dia-a-dia não passa de uma ilusão mantida na oratória da classe política. Todos, particulares e privados, procuram a “optimização e poupança” fiscal, os atalhos na realização de obras banais, sobretudo em melhorias e reabilitação de espaços já existentes.
Ironicamente Luís Neves parece-me estar a ser altamente perseguido por um partido popular-nacionalista por revelar-se demasiado tuga na sua aproximação à resolução rápida de problemas complexos. Surpreendentemente o nosso novo Presidente da República parece finalmente reagir publicamente a uma polémica demonstrando o seu enfado com a situação.
O homem do sangue frio está a suar a potes, elevando de forma preocupante o nível das águas. Resta saber se a vítima do alagamento será o visado, o Chega ou o governo.

