Monthly Archives: Julho 2012

Borda d’Alegoria

Ausentei-me por uns tempos. Caminhei pelo Alentejo e desliguei de tudo o que são notícias. Ao segundo dia já não havia crise. Havia o pulsar de um país à medida das possibilidades sem queixumes. Sem o mediatismo do zum-zum constante que ecoa no abismo infernal, do qual nos abeiramos, rapidamente olhamos para os acontecimentos locais simplesmente como modos de vida. Vive-se o que se pode, como se pode, sem pensar no que poderia ou poderá. Como a velhota de 80s que à porta da mercearia disse que ia ao velório do compadre, não me lembra o nome, para ver o compadre, que também não me lembra o nome, porque, pasme-se, achava que o homem não ia durar muito mais e para o ano já não estava entre nós. Mas como pode ela estar tão confiante que estará entre nós!?

Voltei para a cidade. Ouvi o circo mediático mas já imune à sua anestesia. Que se foda, pá. Se não morrer hei-de sobreviver de alguma forma até ter de matar quem de direito se preciso fôr. Caia lá esta merda toda para ver se é tão mau como predizem os que não souberam ler o passado para salvaguardar o presente.

Capa do Almanaque Borda d'Água 2013

E eis que no meio da contínua tempestade e desgraça social, política e económica vislumbro um vendedor do Borda d’Água que tentava vender o almanaque a um pai com uma filha pequena, que o ignorou, e para quem ficou a olhar enquanto dizia: “Se faz favor, posso-lhe fazer uma pergunta? Se faz favor…” Predispus-me à sua frente como cliente. Olhou para mim atónito. Não me abordou. Disse-lhe eu que queria um, por favor. Desconfiado passou-mo para a mão. Passei-lhe os 2 € sem que me dirigisse a palavra. Quando me inclinei para seguir o meu caminho ganha coragem e pergunta-me se não lhe posso arranjar um emprego. Fez-me sentir desajeitado por não ser um patrão… apesar de ser verdade, ao contrário de algumas vezes em que digo sem remorsos não ter moeda. Respondi-lhe que trabalhava por conta de outrem e não podia dar empregos, nem conhecia quem os estivesse a dar. Senti-me estúpido.

Refugiei-me no Borda d’Água e olhando para a capa diria que até aqui temos um Sr. Dr., como que a dizer que estudou muito, com sapiência divina para prever com exactidão todos os acontecimentos naturais, astronómicos e meteorológicos com influência  sobre o nosso querido Portugal. (há 2013!)

Folheei-o e tem uma grande lacuna. Não fala nem uma única vez em relvas. Toda a gente sabe que Portugal tem o clima e condições apropriadas para a produção de relvas. Temos relvas específicas que se desenvolvem em terrenos onde se meta muita água e onde seja abundante o estrume e o lodo. Misturando-se esses elementos, num grande caldeirão, obtém-se a poção mágica que dá força e vigor a essas relvas. O pasto é imenso e pode sustentar muitos bois que a mantêm rente. Suficiente para se perceber que existe, insuficiente para estorvar as movimentações aleatórias e desorientadas dos líderes da manada. Depois de algum tempo de sustento os bois ficam bem nutridos e partem para os seus tachos respectivos. E as relvas crescem sem ninguém para as comer. Porque o meter água, o lodo e o estrume não param de jorrar. Chegando ao ponto em que passam o ponto de pasto e se tornam altas e vigorosas formando uma barreira viçosa e nebulosa. Nesse ponto quem dela cuidou já não se arrisca a cortá-las. Porque sabem perfeitamente que o que se esconde por debaixo será revelado se as relvas se forem.

Certamente que esta falha poderá ser corrigida nas próximas edições do almanaque. Já na contra-capa encontrei um texto que resumidamente diz que de 2013 não podemos esperar grandes melhoras. Excepto em duas linhas que nos relembram que a esperança deve sempre ser a última a morrer. Mais descansado no FDS, para descomprimir, fui cortar a relva.

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O segredo dos canudos

Steve Jobs, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Joe Berardo, Américo Amorim, Rui Nabeiro e muitos outros tornaram-se empresários de sucesso sem terem um canudo. Enveredaram no mundos dos negócios por uma aproximação de ‘mãos na massa’ sem ‘perder tempo’ a construir uma carreira académica que lhes garantisse um título e um certificado de habilitações e competência.

É próprio da mentalidade tuga perseguir o canudo só porque faz parte das etapas da vida.

Temos a mão de obra desempregada mais qualificada de sempre! Mas esta é história antiga…

Aspirantes a governantes a perseguirem canudos a todo custo deve-se por isso à necessidade de dar resposta a este respeito cego que nós Portugueses temos pelos Sr.s Dr.s da vida.

Um incompetente sem canudo é apontado como usurpador de um cargo que exige mais habilitações. Um beneficiado por favores ocultos que passou injustamente à frente de muitos outros com canudo. Pode ser posto em causa mesmo antes de cometer qualquer erro. Simplesmente por não ser um Sr. Dr.

Já um incompetente com canudo é um Sr. Dr. a quem a vida correu mal. Ele tem um canudo, ele sabe o que faz, só teve azar, coitado. É dar tempo ao tempo e a coisa compõe-se… Um canudo é sobretudo garantia de um maior tempo de vida e do benefício da dúvida.

Por isso temos Sr.s Dr.s altamente competentes como Vitor Constâncio, Alberto João Jardim, Dias Loureiro e muitos outros  a quem são desculpados pequenos erros, omissões e falhas técnicas porque é garantido, pelas suas habilitações académicas, que apenas procuravam fazer o melhor possível e com o máximo de boa fé. (convido-vos desde já a deixar na zona dos comentários nomes de licenciados que, tal como estes, deram grande contributo ao país na nossa história recente)

E que dizer do altamente qualificado ministro das finanças que se anda a surpreender com a discrepância entre as estimativas e a realidade dos números? Se tivesse um canudo da farinha Amparo seria imediatamente mais um incompetente. Mas não. Ele é doutorado. Por isso pode dar-se ao luxo de não arrepiar caminho. De continuar com a política que tanto o está a surpreender. Entusiasmado executor/observador de um ensaio fascinante, num laboratório real chamado Portugal, que lhe dará matéria suficiente para no futuro escrever um livro fenomenal baseado na experiência adquirida.

Nós os Portugueses idolatramos canudos porque os vemos como anuladores de incompetência, motivo válido de isenção da responsabilização por actos lesivos tomados em processos de decisão complexos.

Sem canudo somos responsáveis pelas decisões tomadas porque derivam da nossa experiência e aprendizagem de vida. Se somos professores de nós próprios somos imputáveis!

Com canudo somos meros veículos das melhores práticas e metodologias lecionadas academicamente. Quem está errado são os ensinamentos aceites e difundidos globalmente e não a nossa avaliação e decisão a nível individual que foi castrada e despida de valores éticos e morais durante o prestigiante percurso académico.

Se não concordas com isto, achas que um curso apenas dá as bases necessárias a uma evolução profissional e não é garantia  de posto nem de competência, é porque deves estar de calças na mão, no desemprego ou na vida activa empresarial, acabadinho de perceber que os subsídios de férias e de natal desapareceram de vez e para todos.

Tem mais ambição! Filia-te num partido e rapidamente terás este post como uma referência no manual de sobrevivência política. Encanuda-te antes que vás pelo cano!

Ou então deixa de avaliar competência em função dos canudos e títulos apresentados. Aviso que esta opção é bastante mais complicada. Está-nos nos sangue lusitano e suas caganças!

PS – consegui escrever isto sem mencionar os nomes de Miguel Relvas ou José Sócrates!