Category Archives: Geração “à rasca”

Em tempos apelidada de “rasca”, esta geração declara-se hoje “à rasca”.

O Passaporte de Churchill

Dois ilustres encontram-se no purgatório.

O primeiro está em trânsito: cumprem-se procedimentos e burocracias intermináveis. Aguarda pelo inevitável destino: a descida ao abismo, obviamente escoltado por agentes do ICE. Indignado, reclama, diz-se injustiçado. É desagradável com todos, exige prioridade, tratamento especial. Insiste que quer falar com os superiores, persiste que tudo não passa de um erro administrativo. É Donald J. Trump.

O segundo é uma alma penada, um espírito gasto, quase irreconhecível. Enlouquecido por décadas a deambular entre a luz e o abismo, vítima da indecisão das autoridades do além — foi virtuoso e foi trágico, fez o bem e fez o mal, pintou mas conspirou — vagueia num estado de permanente delírio. É Sir Winston Leonard Spencer Churchill.

Ao cruzarem-se num corredor enevoado e esconso, Trump aborda o antigo estadista britânico e mete conversa:

— Winston! Winston Churchill! Grande homem! Um dos grandes, como eu. Nós, os grandes homens, temos sempre destinos complicados, não é verdade?

Churchill não reage. Olhar vazio, fechado sobre si próprio, claramente perturbado. Apenas silêncio. Trump, imperturbável na sua autopromoção, reitera, insiste em tentar ombrear:

— Somos grandes, como nós há poucos. Com quem é que já te cruzaste por aqui? Nunca ninguém viu nada tão grandioso como a minha obra. Talvez a maior!

Churchill reage. Bamboleia, enquanto se baba, e começa a dizer, com voz trémula:

— Mortes… muitas mortes… muita desgraça por minha culpa… foi vaidade… foi soberba…

Trump sorri e aproxima-se, para segredar:

— Eu percebo isso. A pressão. Só os grandes sabem. Eu fui um líder extraordinário, tremendo! Mudei o mundo. Tu entendes. Somos do mesmo tipo, Winston. Visionários.

Churchill oscila ligeiramente, como se não estivesse ali. Volta a murmurar, agora misturando tempos e culpas:

— Epstein… mortes… Golfo da América… desgraça… tarifas… Dardanelos… Groenlândia…

Sem abrandar, Trump continua:

— As pessoas adoravam-me! Multidões. Nunca se viu nada assim. E tu? Também tiveste as tuas multidões, certo? Discursos fantásticos. Eu também faço discursos incríveis, é o que todos dizem.

Churchill começa a andar em círculos, cada vez mais perturbado:

— Mortes… muita desgraça… por minha culpa… soberba…

Trump acompanha-o, quase lado a lado, decidido a com ele construir uma excelente relação:

— Há quem diga que fui mal compreendido. Injustiçado, até. Como tu. A história trata mal os grandes homens. Mas, no fim, reconhece. Reconhece sempre!

Churchill leva as mãos à cabeça e grita:

— Por minha culpa… por minha culpa… tanta gente…

Depois, congela e remete-se ao silêncio. Surpreendido, Trump perde o embalo, abranda sem dar por isso. O silêncio de Churchill começa a incomodá-lo. Olha à volta e percebe que ali, todos são indiferentes ao seu brilho. Pela primeira vez, a confiança vacila.

— Quer dizer… Nem sempre reconhece…

Churchill não responde, retoma os movimentos erráticos e repetitivos. Trump baixa o tom:

— Há decisões… decisões que ficam. Que não desaparecem na espuma dos dias.

Churchill murmura, quase inaudível:

— Ficam… ficam sempre…

Trump engole em seco. A voz perde força, soa a contratenor:

— Talvez… talvez me tenha precipitado nalguma decisão… algumas coisas correram mal… outras não deviam ter sido tentadas

Breve pausa. Trump murmura, enquanto olha para o chão:

— Se calhar… se calhar, atacar a Pérsia não foi grande ideia…

Absoluto silêncio. Nesse exacto instante, Churchill pára. Endireita-se subitamente. O olhar ganha foco. A loucura dissipa-se como o nevoeiro ao sol. A voz regressa, firme, inteira:

— Muito bem.

Trump, incrédulo, fica imóvel. Churchill apaga o charuto com altivez, ajeita o casaco, recupera toda a compostura e despede-se:

— Prazer em ver-te, velha carcaça. Obrigado.

Vira-lhe as costas. Caminha decidido até São Pedro e declara:

— Já tenho o meu passaporte para o céu.

São Pedro levanta os olhos, intrigado:

— Ah, sim? E qual é?

Churchill sorri, um sorriso rasgado, largo e triunfante:

— Eu… causei uma enorme tragédia ao tentar abrir um estreito que estava fechado!

Faz uma pausa, saboreando o momento.

— Ele… foi fechar um que estava aberto!

Em silêncio, São Pedro anui.

Ucrânia – pico de incoerências

Noutro tipo de análise, ao cruzar as grandes tendências de opiniões sobre esta guerra com a defesa dos valores contemporâneos, é possível identificar algumas lacunas na dimensão ética, moral e ideológica das milhentas reacções pessoais partilhadas online. Procuro aqui demonstrar a confusão de valores em que nos encontramos actualmente. Se não é possível manter a sua coerência em situações limite talvez seja preciso ajustar conceitos sobre os mesmos. Caso contrário qual o critério para sua aplicação agressiva numa moderna e cada vez mais comum política de cancelamento?

A aceitação do Negacionismo fará parte da recém-adquirida admiração do povo ucraniano? Efectivamente são um dos menos vacinados no continente Europeu, sendo referência como “mau comportados” no que diz respeito ao uso de máscara, respeito do confinamento e confiança nas vacinas. Efectivamente o contexto de guerra atirou para 2º plano a questão pandémica, tanto na luta pela sobrevivência como na recepção aos refugiados. O que quer dizer que talvez @s ucranian@s tenham razão na forma como abordavam o tema antes do conflito… Ou serão forçados à adopção de comportamentos sanitários nos países/casas de acolhimento? Estarão aqueles que os recebem mais tolerantes ao “negacionismo” Ucraniano em comparação com o inaceitável “negacionismo” dos seus compatriotas?

O fim instantâneo da pandemia ditado pela agenda mediática e não pelos acontecimentos no terreno. Todos aceitam o aliviar de medidas sem se questionar como é possível que de um dia para o outro tudo o que era usado como justificação indiscutível fosse deitado por terra de forma imediata. O vírus saiu da agenda numa altura em que queimava em lume brando vários líderes mundiais (pex Canadá, USA, UK, França) que se vêem salvos pelo protagonismo dado no assumir de uma máscara de liderança dura e firme ao lidar com temas militares. Ao mesmo tempo informação confidencial da Pfizer é libertada por ordem judicial, e os discursos ajustam-se para reforçar que a ciência à data não poderia ter certezas de resultados nem de efeitos adversos. Assistimos ao pioneiro da vacinação obrigatória na União Europeia a anular essa medida, antes mesmo de iniciar a sua implementação… Na Alemanha abafam-se evidências constatadas em análises independentes feitas por seguradoras no ramo da vida e saúde. E um estudo preliminar indica que, ao contrário do que era afirmado, a informação genética da vacina se pode integrar no DNA do tomador de vacinas mRNA e tornar-se uma ameça à integridade do genoma do hospedeiro com efeitos adversos prejudiciais à saúde. Interessará mesmo a tod@s acompanhar estas notícias relacionadas com tema da gestão pandémica? Ou será preferível acreditar, por esquecimento, que chegámos ao seu tão desejado fim?

A (i)legitimidade da declaração de guerra é negada à Rússia, que não tem direito a invadir sob pretexto de defesa dos seus interesses e segurança nacional, prevenindo afirmação de potência nuclear agressiva na sua fronteira. No entanto as guerras recentes no Médio Oriente, a milhares de Km das fronteiras de USA e UE, tendo por base uma suspeita não confirmada de desenvolvimento de armas de destruição massiça, foram relativamente bem aceites e consideradas justas pela opinião pública (ou pelo menos assim nos foi passado pelos media). Poderão ver a expressividade das mesmas em termos de baixas para comparar com o que se passa hoje na Ucrânia. Por exemplo na primeira semana estimam-se menos de 600 baixas civis na Ucrânia quando no Iraque ocorreram mais de 4000 baixas civis nos primeiros dias de guerra.

Incitamento a Ódio tolerado nas redes sociais, desde que a visada seja a Rússia, continuando a censurar de forma veemente essas formas de expressão tendo como alvo outros povos e etnias. Deveríamos ter plena liberdade de expressão ou quais os critérios para aceitar este tipo de censura?

Glorificação da Violência expresso nos likes, adoros, força, admiro-te, e outros elogios feitos a homens e mulheres que postam, nas suas páginas pessoais do Linkedin e universo Meta, fotos de si próprios em equipamento militar e/ou armados, declarando-se como alguém que abandonou tudo o que tinha para ir combater. Alguns inclusive regressaram da emigração para o efeito. Colegas e amigos dos países ocidentais entram em extâse com tamanha demonstração de alma e coragem, como se matar ou morrer se banalizasse como mais um elevador social. Se matar e ostentar que o fez receberá gratificações? Se morrer receberá smiley de lágrima no canto no olho?

Celebração do isolamento de um povo deixando-o em teoria à mercê do seu “regime totalitário”. Por um lado criamos mais dificuldades a um povo que poderia agarrar-se ao contacto com o mundo ocidental para alimentar uma aspiração de mudança, por outro ao ver tamanho número de empresas em actividade na Rússia talvez seja um forte sinal de que não estão assim tão isolados do mundo ocidental. É dito que o objectivo é pressionar o governo através da revolta da sua população, o que quer dizer que temos consciência, ou idealizamos, que esta vai ser penalizada e que isso terá grande influência no desenrolar do conflito militar. Assim de repente lembro-me de Cuba e Palestina como sendo alvo de embargos altamente criticados, mas agora estará tudo bem porque é o “nosso inimigo”. Tendo em conta que se invoca o passado “sujo” da Rússia, até para com o seu povo, porque não o fizemos mais cedo?

Discriminação de género na proibição da saída de homens dos 18 aos 60 anos, com liberdade de fuga a todas as mulheres. Por um lado diminui as mulheres, como se nos dias de hoje estas não tivessem capacidade de integrar forças militares, por outro retira autonomia aos homens de decidir por si qual o nível da sua resposta a este conflito armado tornando-os prisioneiros forçados sob ameaça de um recrutamento obrigatório no futuro próximo. Falhou-se uma boa oportunidade de equidade, ora proibindo a saída de homens e mulheres, ora concendendo liberdade de escolha a tod@s.

Racismo na discriminação positiva dos refugiado de guerra da Ucrânia. A União Europeia mostra-se pronta para acolher 5 Milhões de deslocad@s ucranian@s, com total apoio público. A mesma União Europeia que gasta milhares de milhões de euros a construir campos de alojamento precário para conter milhares de emigrantes de África e Médio Oriente por forma a impedir a sua entrada massiva em território Europeu, com total apoio público. Deixo a ponderação dos critérios para tal discrepância a cargo do(a) leitor(a) e se nela não surgem argumentos facilmente catalogados de racistas ou xenófobos. Por curiosidade o sentimento d@s refugiad@s ucranian@s em relação a Portugal parece estar em linha com os dos seus pares de outras geografias.

Escrever posts, manifestar opiniões, expressar sentimentos, sem ter integrado todas estas contradições, batalhado pelo seu equílibrio no juízo da situação actual, não é mais do que permitir que o impulso precipitado tome o controlo, criando uma espiral descontrolada baseada simplesmente em indução por factores externos e recompensa imediata por aceitação generalizada daqueles que giram ao sabor dos ventos mediáticos.

Tentemos que o anseio de pertenção ao maior grupo não nos tolde a visão e discernimento, nem promova a adesão incondicional ao séquito daqueles que ditam o alinhamento de notícias e opiniões. Não o fazer é não exercitar o pensamento, progredindo num perigoso embrutecimento colectivo que será capaz de fazer e dizer exactamente o contrário dos valores que advoga.

NOTA: depois do último post tive contacto com os documentários “Ucrânia em Chamas” e “Donbass”, que permitem reforçar o contexto dos acontecimentos contemporâneos. Recomendo a sua visualização a tod@s.

O Aplauso dos Inocentes

Em resultado da fuga a todo o custo, do contrair de enfermidade severa, é a febre da cabine que avança, indomável sobre a guarnição. Nem toda, pois alguns bravos garantem a flutuabilidade, o guarnecer das refeições, o alinhamento de velas e leme para que não se perca o rumo.

Em isolamento social, voluntário mesmo antes do imposto pela capitania, do alto da gávea condicionada, da janela das cabines cerradas, os mais ilustres, os mais afortunados e os mais vulneráveis aplaudem os seus heróis, mesmo antes do início da odisseia que se prevê atribulada e perigosa. Tal entusiasmo só rivaliza na história com o gáudio das elites romanas, ao encorajar as fileiras de gladiadores que entravam na arena do coliseu. Ambos dispostos a dar tudo pelos outros.

Esses “heróis”, que não o escolheram ser, apenas calhou de originalmente exercerem essas tarefas, trabalharão a dobrar, com risco acrescido, compensando as lacunas, satisfazendo a demanda, daqueles cujo ofício não interfere com o cumprir do serviço mínimo obrigatório à continuidade da navegação.

 

Fenómenos Ambientais à Portuguesa

Que refrescante ver a nossa juventude a mobilizar-se para exigir que o governo faça mais pela prevenção/reversão das alterações climáticas.

Portugal está mesmo a precisar de alguma orientação neste sentido. Recentemente tivemos a novela da prospecção de petróleo finda por um movimento cívico. Um ministro vem a público preconizar o fim do diesel, o que parece ser uma boa notícia não fosse o facto de o futuro eléctrico necessitar de muuuuito lítio, que, por acaso do destino, é um mineral em que Portugal é riquíssimo! Claro que a mineração de lítio implica severa destruição ambiental mas alguém tem de pagar o preço ambiental para receber o melhor retorno económico e contribuir para um mundo mais verde, pelo menos até à era da mineração de asteróides ou outros astros.

Talvez nos pudessemos inspirar na China para a abertura de horizontes futuros. Com pragmatismo medidas assentes em estudos científicos impulsionam uma drástica mudança dos hábitos alimentares dos seus habitantes, para o seu bem e o do ambiente. Inclusive criam leis que penalizam a indústria agro-pecuária identificada como uma das principais causas de poluição.

E é aqui que vemos que o nosso Governo não dorme, mais uma vez analisando esta situação age aproveitando a oportunidade. Como? Simples, tornando-se uma enorme fábrica de produção de carne do mercado chinês. Serão mais de meio milhão de suínos a juntar-se às centenas de milhares de animais de outras espécie que se exportam anualmente. Passemos à frente do tema crueldade animal, do que passam esses animais portugueses nas viagens, do que os espera nos países de destino, o foco aqui é o tema ambiental e mais uma vez estamos disponíveis para emitir o CO2 que os outros não querem ou não podem emitir, esgotar os nossos recursos hídricos, desolar os nossos solos e poluir os nossos aquíferos para obter retorno capitalista ou crescimento de dois dígitos na exportação. Somos tão prestáveis que até assobiamos para o lado enquanto esvaziam a nossa biodiversidade desde que para um bom parceiro económico, para corte nos custos de produção agrícola ou para deleite gastronómico local.

Estes temas infelizmente não se estudam, não estão nos cardápios da nossa restauração, é preciso escavar, dedicar-lhe algum tempo para perceber que além das demandas aos organismos governamentais também existem transformações do foro pessoal que podem acelerar todo o processo de melhoria ambiental pois a chave de tudo é o consumo, quiçá, nos dias de hoje, com um poder de transformação global ainda maior do que o do voto.

Aguardo com serenidade a vossa força e sapiência jovens, que não seja mais uma trend, hype, flashmob, para preencher umas insta-stories à maneira porque Portugal, a Terra, precisam de uma mudança consistente e não apenas de mais um dia viral que o Governo e feed das redes sociais consigam rapidamente dissipar.

Sejamos o acelerador da mudança que exigimos aos governantes!

Alojamento vs Aluxamento vs Axulamento Universitário

Entrada para a Universidade, um marco na trajectória de vida de qualquer ser humano que tenha felicidade de o poder alcançar. Uma descida aos infernos para todos os que têm de se deslocalizar e procurar alojamento, que na capital chega facilmente aos 5 400 € anuais o que somado a aproximadamente 1 000 € de propinas totaliza uns simpáticos 6 400 € anuais apenas para alojamento e matrícula faltando somar gastos com comida, viagens, e outras necessidades do dia-a-dia. Falamos de mais de metade do rendimento anual médio de um trabalhador Português, um enorme rombo numa família já a cargos com despesas de crédito habitação, casa e dia-a-dia.

A culpa, dizem, é da pressão do alojamento turístico, da escassa oferta de alojamento para este tipo de aluguer prolongado, enfim, do mercado a funcionar. Lisboa talvez pondere resolver este problema com a definição de quotas mas até lá felizmente podemos contar com benevolentes e atentos empresários que procuram ajudar a resolver o problema criando alojamento universitário de luxo que podem resolver as preocupações, pelo menos as dos mais abonados.

E assim temos alunos universitários a ser explorados, pagando excessivamente pelas condições que lhes são fornecidas, com pressão acrescida por serem foco de enorme despesa para a sua família, que começam já nesta fase precoce da sua vida a entrar no estado de espírito do sobrevivente socioeconómico. Aprendem de forma inconsciente que é esta a forma de viver daqui para a frente, espremidos, condicionados, explorados em conformidade com os demais porque, afinal, se ninguém for tratado com justiça ninguém é prejudicado.

Ao mesmo tempo temos espalhados pelo país, também pela capital, idosos em solidão e depressão, com parcas reformas, casas vazias, que muito poderiam beneficiar da partilha de espaço com gerações vindouras. Talvez haja aqui uma oportunidade para uma política social que aproxime extremos etários, reforce os rendimentos dos reformados, reduza factura de alojamento a quem precisa de conforto e estabilidade durante três ou quatro anos.

Até lá alguém que resolva a confusão fonética causado pelo actual Alojamento/Aluxamento/Axulamento Universitário!

 

Nobel do Orçamento

nobel-do-orcamento

Longa foi a espera, semanas de grande expectativa, inquietação e até alguma ansiedade, mas a Academia Sueca lá divulgou finalmente o novo prémio Nobel do Orçamento. Anunciado o vencedor, de imediato se intensificou a polémica e se extremaram posições entre apoiantes e oponentes. Os críticos atacaram a obra do artista, os fãs enalteceram. Será Literatura? Prosa não é certamente e a poesia, segundo sei, nem sempre é assim. Uma coisa é certa, presta-se a todo o tipo de ambiguidade e a muito pouca certeza.

Em rigor é uma obra incomparável – O Orçamento não é comparável com nenhum dos que o precedeu. Todas as generalizações viáveis, toda a especulação possível, todas as interpretações sustentáveis à luz deste ou daquele detalhe, subtil ou abrupto. Compreender o seu verdadeiro impacto é um exercício de sensibilidade, logo, absolutamente subjectivo. Talvez por isso me incline para a poesia. Deve ser isso que o galardoado documento é, poesia.

Bob Centeno, poeta de fraquíssimos dotes vocais, mas cujo virtuosismo como instrumentista muito tem surpreendido, lá conseguiu dar-nos música, uma melodia manifestamente banal, mas suficientemente harmoniosa para conjugar os graves acordes de Guitarra requeridos pelos parceiros da banda “a geringonça”, com as notas de Harmónica (vulgo Gaita-de-Beiços) tão agudas quanto o exigido pela Europa. Não é de direita, também não é de esquerda, nem de centro. Nem sim, nem não, antes pelo contrário. É um Orçamento de protectorado. Deixámos de ser uma província submissa, obediente e periférica para passarmos a ser uma região quase autónoma, paralisada e dependente.

bob-centeno

Onomatopeias Anacrónicas

Cavaco-Silva

Rumava aos fiordes quando numa conversa informal recorreu a uma onomatopeia, um involuntário “pum!“. Todos os presentes disfarçaram com elegância. Talvez por isso ninguém percebeu se falava da agricultura ou se seria apenas uma graçola. Na dúvida, ninguém disse palavra. Entretanto compreenderam que falava das leis eleitorais, essas anacrónicas linhas que tanto mal promovem no país. Um dos presentes, alguém com um olfacto mais sensível, terá compreendido que a onomatopeia mais não foi do que o prenúncio da obra em si, isto é, a promulgação da proposta de alteração à lei da cobertura eleitoral. Será um momento solene. Ele sempre manifestou grande carinho para com estas propostas de consenso.

4Aproveitou a conversa informal para recordar os tempos idos, esses gloriosos anos em que chefiou o executivo. Nesses dias, quando os grandes da nação, na sua suprema abnegação à causa pública ainda não eram empresários de sucesso, desses que com exigência e método viram mundo. Não, à época o seu foco era outro, muito menos egoísta, absolutamente centrado no nosso bem-estar. Foram bons tempos, mas acabaram. Agora, coitados, apenas se podem ajudar a si próprios. Resignados assistem ao sacrifício de outros. A benemérita missão está hoje confiada aos jovens de outrora.

2Filhos pródigos, não resistem ao elogio aos seus mentores. Por vezes, o entusiasmo é tanto, que lá se liberta mais um “Pum!“. Compreende-se a onomatopeia, pois poucos empreenderam como estes homens, poucos contribuíram tanto para a criação da nossa pujante indústria exportadora de bens transaccionáveis. Contudo, nem sempre os elogiados apreciam a atenção. Quem dá à nação como eles deram, não visa reconhecimento ou honrarias. Não, tudo quanto procuram é sossego. Sossego e discrição. Deu tanto trabalho passar despercebido que a ribalta nesta altura da vida não os seduz.

Respeitemos a sua vontade, por mais anacrónica que seja.

Deambulações à Esquerda

A Comissão dinamizadora do Movimento Juntos Podemos retirou-se e parece que a coisa não acabou nada bem. O colectivo da revista Rubra seguiu-lhes as pisadas e bateu com a porta. Confesso que não fui às reuniões posteriores à assembleia e não acompanhei o desenrolar de toda uma racha que se voltou a abrir entre os movimentos sociais em Portugal. O certo é que a coisa foi tão boa ou tão má, que a polémica tem feito bater os teclados nos blogues… E eu depois de umas gargalhadas cá venho humildemente, aqui que ninguém nos lê, rabiscar umas coisas.

Tal não é coisa que se estranhe. A Comissão Dinamizadora acusa o MAS (Movimento de Alternativa Socialista) de querer dominar o movimento. O MAS e o João Labrincha (da Academia Cidadã) acusam o PCP de boicotar o Juntos Podemos. Enfim… não se percebe patavina. Entendo que não fique bem haver partidos dentro de um partido (mas o Juntos Podemos já era partido e ninguém avisou?), mas não creio que isso fosse razão de cisão. O MAS não teve grande expressão nas últimas eleições, e não vejo como de tão pequeno tenha aspirações gigantes. E também não percebo o que raio impede pessoas de um partido ajudarem à criação de um movimento. Se formos por aí, todos os movimentos socias têm partido de militantes de partidos políticos. A questão é que o MAS se precipitou a tornar pública a sua integração num movimento que agora surge. Foi ingenuidade. E creio que o MAS é constituído por pessoas que querem mesmo mudar isto, e que se enquanto partido não o conseguem fazer sozinho, juntam-se a quem quer participar dessa mudança. Já as acusações ao PCP não as entendo…

Mas talvez a quem criou o Movimento Juntos Podemos, com intenções claramente eleitorais, não ficasse bem ficar ligado a um anão político como o MAS, que faz barulho nas manifestações, que é mal comportado, mas que não tem medo de assumir o que pensa, como prisão para quem roubou e endividou o país, o regresso da moeda nacional etc… Não fica bem ficar ligado a um partido que não cede aos jogos políticos, que é pequeno e que tem tanta coisa ainda para maturar. Mas que tem uma coisa, vontade de mudar, sangue na guelra, amor para transformar e raiva para lutar. E é o que no fundo todos têm. O que eles não têm é medo da explosão e da falta de controlo. E falta-lhes alguns traços característicos dos esquerdistas. Talvez essa seja a real questão: não nasce das fileiras intelectuais, não é snob o suficiente para debater filosofia politica, não está ligado directamente ao meio académico, não participa nos blogues “bem” da esquerda, e isso torna-o menor aos olhos das corujas da esquerda.

A questão talvez seja o protagonismo e o sentimento de posse por parte de quem cria os movimentos e que os deseja controlar. O sentimento de altruísmo e desapego é importante. A tolerância (que é escassa) é essencial… e não é à mínima coisa que se começa aos berros, em acusações e insultos. E outra coisa, a esquerda em Portugal ainda tem traços de hereditariedade. Ainda fica bem e dá estatuto ser filho de comunistas perseguidos, de sindicalistas assassinados, de anarquistas resistentes e inspiradores. Muitos ainda se legitimam nessa herança de família, na cultura desde o berço da esquerda, da ditadura que não viveram mas ouviram contar na primeira pessoa. Isso é interessante, valoriza o próprio, mas não legitima os propósitos! E assim se vai limitando a orientação dos movimentos sociais, porque as pessoas que os dirigem pertencem a uma elite criada no pós 25 de Abril, e ainda que arreigada a ideais hoje assaltados, mantém-se numa posição de conforto na situação actual.

E a questão é que se tem sido muito tímido em questões de se deixar levar os movimentos sociais avante. O QSLT era altamente fechado e secreto, não se abria a novos membros e só por convite expresso é que se poderia participar nas reuniões. Quando aquilo esteve a morrer com a debandada de muitos elementos decidiram fazer umas reuniões mais abertas, mas muito a medo… Tinham por único objectivo fazer Grandes Manifestações. Nada mais. Foram bons nisso. Mas poderiam ter sido muito mais audazes, mas a audácia eles negaram quando isso lhes poderia retirar a participação popular nas ruas ou o comprometimento em determinadas questões. Senão fossem os devisionismos e os assombros da falta de controlo teríamos hoje um outro tipo de movimentos sociais, mais maduros, com mais gente, a atraírem mais pessoas e com um outro tipo de actuação. Em vez disso, a Troika não se lixou, foi-se embora pelo próprio pé e os mesmos que criaram o QSLT mudaram-se para o POT. Há sempre qualquer coisa que impede que se arrisque e se avance, então nunca se sai da zona de conforto. É confortável para muitos andarmos na eterna guerrilha entre esquerdas, divisionismos, acusações baratas… E assim tudo isto mantém a ordem actual das coisas e enquanto se discute o que divide a esquerda (que todos já estamos fartos de saber) não se discute aquilo que a une.

E sempre que os problemas dos esquerdismos aparecem eu recordo o momento em que percebi o Álvaro Cunhal:

“No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.” 

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.

E é impossível não concordar com Cunhal nisto. E verdade seja dita já vi pessoas ligadas ao BE a tentarem dominar e conduzir acções  (até na defesa dos direitos dos animais) mas nunca vi nenhum comunista impor o seu ponto de vista.

Todavia e agora sem Joana Amaral Dias para fazer “vistassa” aos olhos de homens mais vulneráveis aos encantos femininos, o Movimentos Juntos Podemos irá continuar. Parece-me que mais do que nunca avançará determinado à luta eleitoral. Foi hoje, na Ler Devagar, a reunião de preparação para a assembleia cidadã no Porto. Não estive presente e apesar de não pretender alterar as minhas intenções de voto, mas admitindo que há uma larga maioria que não se sente representada, e dado que o movimento avançará, convido todos a estarem atentos.

Espero sinceramente que mais do que um partido, não deixem morrer um movimento que pode colher a simpatia e a mobilização social para a transformação social urgente em Portugal. Porque há muito a fazer, famílias a serem despejadas, desempregados sem esperança, trabalhadores que não se conseguem sustentar com o salário que ganham, o SNS a colapsar, a TAP a ser vendida, a PT que já foi vendida e está agora à vista o resultado da privatização, a justiça inoperante, o ensino a ser precarizado, teatros a fecharem, conservatórios sem terem como abrir no dia seguinte, os transportes a ser literalmente gozados pelo governo, a RTP idem idem… E isto em parte porque temos permitido!

A falácia do empreendedorismo

Nesta segunda década do Século XXI, Portugal ficou cheio de empreendedores. O empreendedorismo entra-nos pelos olhos, ouvidos e outros sentidos a dentro, como se disso dependesse o nosso futuro. O problema, é que visto com uma lupa maior, rapidamente se percebe que o empreendedorismo não é mais que uma moda, uma buzzword que fica bem.
Na sua grande maioria o nosso empreendedorismo não é mais do que aquilo que Portugal teve sempre acima da média. O Auto-Emprego. A maior diferença para um fenómeno sempre tão popular em Portugal está nas condições e motivações dos empreendedores, que passaram de “querer ser patrão de si mesmo” para “não há emprego na minha área de formação”. Portanto, na sua maioria o nosso empreendedorismo é auto-emprego mas com um objectivo de sobrevivência.

Há obviamente diferenças de um Portugal dos anos 80 e primeira metade dos 90s em que vivíamos num país menos formado e essencialmente intermediário. A grande maioria dos negócios próprios era baseados quase exclusivamente na compra e venda de bens, sem qualquer criação de valor. Muita gente prosperou, alguns tiveram a inteligência de perceber que não era isso que lhes iria garantir o crescimento. De resto quase tudo era alicerçado num negócio que criando património não trás qualquer valor acrescentado ao país. O negócio da construção civil.
Hoje em dia é diferente. A construção atingiu um ponto de saturação e a nossa economia, especialmente por responsabilidade dos governos de Cavaco Silva, esqueceu a noção de criação e achou que o futuro eram os serviços. E é aí que essencialmente estamos encravados.

E é por isso que o Empreendedorismo à portuguesa é falacioso, porque é na sua grande maioria baseado em serviços, ou em bens não essenciais. Estão melhor encaixotados, em Marcas mais bonitas, com embalagens mais bonitas mas são actividades na sua grande maioria que não só não contribuem para a nossa independência económica enquanto país, como agravam essa falta de independência, pois são na sua essência negócios que dependem de uma dinâmica de mercado interno, que não temos, para prosperar.

 

Sim, porque empreendedor não é a milésima loja de roupa de crianças, ou a amiga que faz os melhores cupcakes de sempre, ou o cake designer que faz bolos lindos. Muito menos empreendedor é o gajo que vive de vender palestras sobre empreendedorismo ou o gajo que tem uma consultora informática, que na sua maioria nada mais são que um mercado de carne humana, criado para contornar as leis laborais.
O empreendedorismo deve ter um foco de criação, de trazer algo novo, ou de pegar em algo tradicional e essencial e reposicioná-lo no mercado global.

O empreendedor é aquele que sonha com o mundo e que faz a pensar no mundo, não a pensar no nosso pequeno mercado interno.

Em portugal, há dois bons exemplos enquanto grupos de empreendedores. A industria têxtil e a agricultura, na área dos vinhos e azeites.

São grupos que estão, para usar um chavão, a agir local e a pensar global.

E os outros?

 

Os outros, e este é o maior problema na minha opinião, estão a ser atirados para negócios sem futuro, que em nada contribuem para a saúde económica do país e que na sua maioria, sem se aperceberem, estão a fazê-lo por razões muitíssimo pouco nobres, ou de desejo individual.

O que está a acontecer e que para mim é o mais preocupante, é que este “Empreendedorismo”, que nos está a ser vendido de forma massiva como a solução para o nosso país, não é mais do que mais um forma de encapotar uma das maiores desvalorizações que assistimos na nossa sociedade. A dignidade dos trabalhadores.

Este é o empreendedorismo dos eternos estagiários, das pessoas que a única coisa que encontram é um ordenado miserável, em sítios com condições de trabalho miseráveis, sem qualquer perspectiva de futuro.

São estes os “empreendedores”. São aqueles que não têm outra solução, que querem poder ter uma casa, ou umas férias como qualquer pessoa com um mínimo de dignidade.

Sendo também que estes “empreendedores” que são óptimos para o estado, porque ao serem “empreendedores” deixam de ser desemprego, contribuições sociais, etc, para passarem a ser IRC/IVA, etc.

 

Acima de tudo precisamos de empreendedores a sério. Muito menos que os que achamos que temos, mas precisamos.

Até porque só esses conseguirão gerar o emprego digno que os outros, podem e devem ter.

 

 

P.S.: Há alguns meses o Nuno Faria convidou-me para me juntar a este blog. Só agora o faço, não porque o projecto não me tenha interessado, mas apenas e só porque sinto que tenho pouco a dizer. Mas aqui fica o meu olá a todos.

Jota Kafka

(depois do almoço), e você já a pensar no lanche.

05-Jota Kafka-03É para que saiba o que custa uma espera, para mais, sabendo que enquanto espera, alguém está refastelado a almoçar ou a degustar qualquer outra coisa comezinha enquanto nós estamos aqui, na ignorância dum atendimento adequado hoje, se hoje, e se hoje, se será loquaz, paciente e explicativo. Nós sim senhor!, que eu também estou cá! Como você.

Estas azias não são de nada que tenha comido, muito menos pela sua presença, companhia que aprecio e agradeço, mas do adiantado da hora que já se verifica, uma vez que, da esquerda não vem viva alma nem da direita vivalma e já passaram as treze e cinquenta e cinco. Essa é que é essa! Peço desculpas pelo você; você merece-me realmente outro trato só pelo facto de estar atento à narrativa e pelo lanche que foi a brincar, pelas minhas origens anglófonas. Refiro-me ao sub-título e não ao texto que agora se inicia. Mantenho porém, o depois do almoço, porque é do que se trata finalmente, embora não tenha almoçado, conforme prometido e a referência ao lanche tem a ver com a palavra derivativa de “lunch”, e quanto ao eventual evento está desde já convidado.

Abre-se a porta dos sustos mais uma vez «até que enfim», e, qual não é o nosso espanto quando, quem a abre é alguém. Bem podia ser um daqueles automatismos modernos que evitam mais um salário e, por isso, menos uma despesa, mas não, era mesmo alguém que abria a porta e, como não tinha sido vista vindo do lado das vivas almas nem do lado das vivalmas, só poderia ter vindo do lado dos sustos e, agora percebemos tudo, não a vimos porque a porta que se abria agora para a população, vulgo utentes como descrito na parte da manhã antes do almoço, estava fechada.

Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… com licença, com licença, com licença e, nem queira saber o que vi na pantalha, que, só soube nos final da manhã que era um plasma e que muito enfadou J. uma vez que se sentiu enganado desta a sua chegada. «Pantalha é pantalha, plasma é plasma!, não se brinca assim com uma pessoa!», disse-o do alto do seu aborrecimento e com muita razão. Embora ecrã para nós fosse suficiente. É ou não é?

Com a minha ascendência na Cornualha preferiria “screen”, mas não faço questão nem alarido. Perdeu J. a conta dos Dlim-Dlams que ouviu até ter conseguido entrar no corredor de espera. Era a sua vez na mesa cinco, a mesma, e única, que tinha estado ocupada durante toda a manhã, era seu alguém, a senhora do chamamento detalhadamente descrita pelas doze e trinta para que não fosse confundida o que criava à partida um problema, talvez até, um grande problema.

Apelo ao melhor discernimento e sentido de crítica do meu querido companheiro de leitura para a seguinte falha na organização da adm. central anteriormente elogiada, e seus executores: – quem é alguém, nunca poderá ser outrem, e muito menos, e simplesmente, funcionária, como foi adiantado aí pelas dez e trinta da manhã. Não é obvio que J. tenha dado pela falha, mas, há ainda um detalhe a ter em conta que nos pode até, levar a uma certa omnipresença preocupante se levada à letra a expressão utilizada nas famosas “duas linhas” de oratória com um «… façam o favor de se dirigirem a mim…». Será um premonitório “vinde a mim” pensado na alta adm. central no sentido de arrebanhar a grei, na sua totalidade à repartição em causa. Deus nos livre e guarde e J. nem sonhe. Já nos basta que seja omnipotente para alguns. Seria o cabo dos trabalhos.

De seguida convido-o a não interromper o que penso ser o final dos trabalhos em curso, uma vez que vai dar início o tão esperado encontro entre quem precisa e quem tem. Peço-lhe, além do maior silêncio, a maior atenção também. Sei que é capaz.

«Boa tarde», «Boa tarde», «faça favor de sentar», «Obrigado», «Qual é o seu número, se faz favor?», «A49», «Pode mostrar-me a ficha de presença?», «Com certeza, aqui está.», «Olá… temos aqui um problema…», «Problema?…», «Sim, a sua ficha é a A49.», «É», «Não é E, mas sim A.», «Sim, disse é com o sentido de ser, como se dissesse é a á quarenta e nove.», «O sr…», «J.», «O sr. Jota Ponto…», «Só J.», «Hum… o sr. Jota está a tentar colocar entraves à adm. pública na pessoa dum seu funcionário?», «Não!, eu…», «O sr. Jota pensa que eu não sou ninguém?», «Não!… Tenho a certeza que a senhora é alguém!», «Ainda bem», «O sr. Jota quando entrou nesta repartição estava a ser atendida a ficha de presença A15, certo?», «Certo», «E o sr. Jota disse, os nossos serviços bem ouviram, que só faltavam 33, certo?», «Hum… não me lembro bem…», «Mas se fosse uma pessoa responsável devia lembrar. Faça o favor de me seguir na aritmética, quinze mais trinta e três perfaz… perfaz… 48 e não, 49!, certo?», «Certíssimo.», «Então, se me faz o favor, e para que não tenhamos que prosseguir para instâncias superiores, levante-se e, aguarde a sua vez.», «Mas… nem sei… talvez tenha feito mal as contas, talvez estivesse a pensar nos A16, aquele casal que esteve nesta mesa a manhã toda…», «O sr. Jota só está a piorar a sua situação!», «Como assim?», «O casal A16 não esteve nesta mesa a manhã toda, o casal A16 esteve nesta mesa a tratar dum problema complicadíssimo para ele e para os nossos serviços, durante a manhã toda, o que é bem diferente!», «Pois sim, não digo que não, mas, a repartição está quase a fechar, eu sou o último utente, mesmo que saia, não tem mais ninguém a seguir…», «O sr. Jota além de estar a ser inconveniente, está a tentar defraudar o normal funcionamento do serviço e, mais grave ainda, a tentar adulterar a honestidade da ordem de chamada!», «Não é minha intenção, não é minha intenção, eu é que, eu estou aqui desde as dez da manhã, este assunto tenho de o ter resolvido hoje, da parte da tarde não veio ninguém…», «Como é que o sr. Jota pode afirmar, e logo cabalmente, que da parte de tarde não veio ninguém se a chamada foi feita, completa e pela ordem autenticada no final do turno da manhã?», «Minha senhora…», «Não me trate por minha senhora!, eu sou alguém!», «Claro! É o meu sistema nervoso, peço desculpa, mas acontece que eu estava ali à porta, quase não fui almoçar e vi toda a gente a entrar e», « O sr. Jota não se cansa de fazer falsas declarações. Nós sabemos muito bem que almoçou. Quem pensa que são os nossos serviços? Sopa e conduto!, ouviu?, sopa e conduto, é o que diz a nota interna dos nossos serviços!», «Pois… certo, foi tão rápido para não perder a vez, mas o que eu queria dizer é que, da parte da manhã para a parte da tarde, depois do atendimento da A16, e depois de muitos Dlim-Dlams sem qualquer presença foi o meu Dlim- Dlam, o Dlim-Dlam do A49 que foi chamado, por conseguinte…», «Mas o que é que o sr. Jota tem a ver com as ausências verificadas no turno da tarde. Provavelmente as pessoas não quiseram aguardar aqui até às doze e trinta para serem autenticadas ou não quiseram voltar de tarde, provavelmente não tiveram tempo de ir e voltar e desistiram a meio do caminho, provavelmente estão a aproveitar o tempo das três senhas de tolerância, provavelmente até, não era assim tão urgente e voltarão, que é o que costumam fazer as pessoas com coisas urgentes a tratar e não têm paciência para esperar!», «Acredito, acredito, sei que a vossa função não é fácil e, ainda bem que há alguém que disponibilize a sua vida para atender aos problemas do cidadão, mas, veja bem, são quinze e trinta e cinco, a repartição fecha às dezasseis horas, eu sou o único utente, será que…», «Se a adm. central se tivesse que preocupar com serás, e outros elementos do existencialismo, do ente humano, da pessoa física e moral no seu conjunto, do ser como um todo, era o cabo dos trabalhos sr. Jota. A nossa função é o rigor, o exemplo e a execução. O resto sr. Jota, o resto são filosofias!», «Então, resta-me, sair, e, aguardar a minha vez que penso ser esta», «Exacto!», «E, se me permite a pergunta… se não for chamado até às dezasseis horas?, «Terá de voltar amanhã, mais cedo, que era o que devia ter feito hoje!», «Então repete-se o sistema da autentic», «Era o que havia de faltar!, já agora!, amanhã começa do zero! Vocês não queriam mais nada!».

Respiremos agora um pouco. Bem precisamos. Mas só o suficiente para ver o nosso J. muito conformado, a reentrar na sala de espera que era mais um corredor, agora vazio, e aguardar a sua chamada, ou a chegada do chefe da repartição, que até aí, assoberbado nas suas tarefas se tinha mantido invisível, para mandar todos os cidadãos abandonarem o atendimento. E J., creia meu ilustre, ao ver a porta dos sustos fechar-se atrás dele como que protegendo-o dos sobressaltos da existência, abandonou-se caminho fora sabendo, sem qualquer dúvida agora, que era cidadão. A incerteza era se amanhã, na volta, seria considerado pessoa.

Para mim, e porque merece, será sempre o nosso J. e, nunca mais, só, Jota kafka.

FIM! Finalmente (quem sabe até, do Mundo).

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