Category Archives: Geração “à rasca”

Em tempos apelidada de “rasca”, esta geração declara-se hoje “à rasca”.

Nobel do Orçamento

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Longa foi a espera, semanas de grande expectativa, inquietação e até alguma ansiedade, mas a Academia Sueca lá divulgou finalmente o novo prémio Nobel do Orçamento. Anunciado o vencedor, de imediato se intensificou a polémica e se extremaram posições entre apoiantes e oponentes. Os críticos atacaram a obra do artista, os fãs enalteceram. Será Literatura? Prosa não é certamente e a poesia, segundo sei, nem sempre é assim. Uma coisa é certa, presta-se a todo o tipo de ambiguidade e a muito pouca certeza.

Em rigor é uma obra incomparável – O Orçamento não é comparável com nenhum dos que o precedeu. Todas as generalizações viáveis, toda a especulação possível, todas as interpretações sustentáveis à luz deste ou daquele detalhe, subtil ou abrupto. Compreender o seu verdadeiro impacto é um exercício de sensibilidade, logo, absolutamente subjectivo. Talvez por isso me incline para a poesia. Deve ser isso que o galardoado documento é, poesia.

Bob Centeno, poeta de fraquíssimos dotes vocais, mas cujo virtuosismo como instrumentista muito tem surpreendido, lá conseguiu dar-nos música, uma melodia manifestamente banal, mas suficientemente harmoniosa para conjugar os graves acordes de Guitarra requeridos pelos parceiros da banda “a geringonça”, com as notas de Harmónica (vulgo Gaita-de-Beiços) tão agudas quanto o exigido pela Europa. Não é de direita, também não é de esquerda, nem de centro. Nem sim, nem não, antes pelo contrário. É um Orçamento de protectorado. Deixámos de ser uma província submissa, obediente e periférica para passarmos a ser uma região quase autónoma, paralisada e dependente.

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Onomatopeias Anacrónicas

Cavaco-Silva

Rumava aos fiordes quando numa conversa informal recorreu a uma onomatopeia, um involuntário “pum!“. Todos os presentes disfarçaram com elegância. Talvez por isso ninguém percebeu se falava da agricultura ou se seria apenas uma graçola. Na dúvida, ninguém disse palavra. Entretanto compreenderam que falava das leis eleitorais, essas anacrónicas linhas que tanto mal promovem no país. Um dos presentes, alguém com um olfacto mais sensível, terá compreendido que a onomatopeia mais não foi do que o prenúncio da obra em si, isto é, a promulgação da proposta de alteração à lei da cobertura eleitoral. Será um momento solene. Ele sempre manifestou grande carinho para com estas propostas de consenso.

4Aproveitou a conversa informal para recordar os tempos idos, esses gloriosos anos em que chefiou o executivo. Nesses dias, quando os grandes da nação, na sua suprema abnegação à causa pública ainda não eram empresários de sucesso, desses que com exigência e método viram mundo. Não, à época o seu foco era outro, muito menos egoísta, absolutamente centrado no nosso bem-estar. Foram bons tempos, mas acabaram. Agora, coitados, apenas se podem ajudar a si próprios. Resignados assistem ao sacrifício de outros. A benemérita missão está hoje confiada aos jovens de outrora.

2Filhos pródigos, não resistem ao elogio aos seus mentores. Por vezes, o entusiasmo é tanto, que lá se liberta mais um “Pum!“. Compreende-se a onomatopeia, pois poucos empreenderam como estes homens, poucos contribuíram tanto para a criação da nossa pujante indústria exportadora de bens transaccionáveis. Contudo, nem sempre os elogiados apreciam a atenção. Quem dá à nação como eles deram, não visa reconhecimento ou honrarias. Não, tudo quanto procuram é sossego. Sossego e discrição. Deu tanto trabalho passar despercebido que a ribalta nesta altura da vida não os seduz.

Respeitemos a sua vontade, por mais anacrónica que seja.

Deambulações à Esquerda

A Comissão dinamizadora do Movimento Juntos Podemos retirou-se e parece que a coisa não acabou nada bem. O colectivo da revista Rubra seguiu-lhes as pisadas e bateu com a porta. Confesso que não fui às reuniões posteriores à assembleia e não acompanhei o desenrolar de toda uma racha que se voltou a abrir entre os movimentos sociais em Portugal. O certo é que a coisa foi tão boa ou tão má, que a polémica tem feito bater os teclados nos blogues… E eu depois de umas gargalhadas cá venho humildemente, aqui que ninguém nos lê, rabiscar umas coisas.

Tal não é coisa que se estranhe. A Comissão Dinamizadora acusa o MAS (Movimento de Alternativa Socialista) de querer dominar o movimento. O MAS e o João Labrincha (da Academia Cidadã) acusam o PCP de boicotar o Juntos Podemos. Enfim… não se percebe patavina. Entendo que não fique bem haver partidos dentro de um partido (mas o Juntos Podemos já era partido e ninguém avisou?), mas não creio que isso fosse razão de cisão. O MAS não teve grande expressão nas últimas eleições, e não vejo como de tão pequeno tenha aspirações gigantes. E também não percebo o que raio impede pessoas de um partido ajudarem à criação de um movimento. Se formos por aí, todos os movimentos socias têm partido de militantes de partidos políticos. A questão é que o MAS se precipitou a tornar pública a sua integração num movimento que agora surge. Foi ingenuidade. E creio que o MAS é constituído por pessoas que querem mesmo mudar isto, e que se enquanto partido não o conseguem fazer sozinho, juntam-se a quem quer participar dessa mudança. Já as acusações ao PCP não as entendo…

Mas talvez a quem criou o Movimento Juntos Podemos, com intenções claramente eleitorais, não ficasse bem ficar ligado a um anão político como o MAS, que faz barulho nas manifestações, que é mal comportado, mas que não tem medo de assumir o que pensa, como prisão para quem roubou e endividou o país, o regresso da moeda nacional etc… Não fica bem ficar ligado a um partido que não cede aos jogos políticos, que é pequeno e que tem tanta coisa ainda para maturar. Mas que tem uma coisa, vontade de mudar, sangue na guelra, amor para transformar e raiva para lutar. E é o que no fundo todos têm. O que eles não têm é medo da explosão e da falta de controlo. E falta-lhes alguns traços característicos dos esquerdistas. Talvez essa seja a real questão: não nasce das fileiras intelectuais, não é snob o suficiente para debater filosofia politica, não está ligado directamente ao meio académico, não participa nos blogues “bem” da esquerda, e isso torna-o menor aos olhos das corujas da esquerda.

A questão talvez seja o protagonismo e o sentimento de posse por parte de quem cria os movimentos e que os deseja controlar. O sentimento de altruísmo e desapego é importante. A tolerância (que é escassa) é essencial… e não é à mínima coisa que se começa aos berros, em acusações e insultos. E outra coisa, a esquerda em Portugal ainda tem traços de hereditariedade. Ainda fica bem e dá estatuto ser filho de comunistas perseguidos, de sindicalistas assassinados, de anarquistas resistentes e inspiradores. Muitos ainda se legitimam nessa herança de família, na cultura desde o berço da esquerda, da ditadura que não viveram mas ouviram contar na primeira pessoa. Isso é interessante, valoriza o próprio, mas não legitima os propósitos! E assim se vai limitando a orientação dos movimentos sociais, porque as pessoas que os dirigem pertencem a uma elite criada no pós 25 de Abril, e ainda que arreigada a ideais hoje assaltados, mantém-se numa posição de conforto na situação actual.

E a questão é que se tem sido muito tímido em questões de se deixar levar os movimentos sociais avante. O QSLT era altamente fechado e secreto, não se abria a novos membros e só por convite expresso é que se poderia participar nas reuniões. Quando aquilo esteve a morrer com a debandada de muitos elementos decidiram fazer umas reuniões mais abertas, mas muito a medo… Tinham por único objectivo fazer Grandes Manifestações. Nada mais. Foram bons nisso. Mas poderiam ter sido muito mais audazes, mas a audácia eles negaram quando isso lhes poderia retirar a participação popular nas ruas ou o comprometimento em determinadas questões. Senão fossem os devisionismos e os assombros da falta de controlo teríamos hoje um outro tipo de movimentos sociais, mais maduros, com mais gente, a atraírem mais pessoas e com um outro tipo de actuação. Em vez disso, a Troika não se lixou, foi-se embora pelo próprio pé e os mesmos que criaram o QSLT mudaram-se para o POT. Há sempre qualquer coisa que impede que se arrisque e se avance, então nunca se sai da zona de conforto. É confortável para muitos andarmos na eterna guerrilha entre esquerdas, divisionismos, acusações baratas… E assim tudo isto mantém a ordem actual das coisas e enquanto se discute o que divide a esquerda (que todos já estamos fartos de saber) não se discute aquilo que a une.

E sempre que os problemas dos esquerdismos aparecem eu recordo o momento em que percebi o Álvaro Cunhal:

“No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.” 

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.

E é impossível não concordar com Cunhal nisto. E verdade seja dita já vi pessoas ligadas ao BE a tentarem dominar e conduzir acções  (até na defesa dos direitos dos animais) mas nunca vi nenhum comunista impor o seu ponto de vista.

Todavia e agora sem Joana Amaral Dias para fazer “vistassa” aos olhos de homens mais vulneráveis aos encantos femininos, o Movimentos Juntos Podemos irá continuar. Parece-me que mais do que nunca avançará determinado à luta eleitoral. Foi hoje, na Ler Devagar, a reunião de preparação para a assembleia cidadã no Porto. Não estive presente e apesar de não pretender alterar as minhas intenções de voto, mas admitindo que há uma larga maioria que não se sente representada, e dado que o movimento avançará, convido todos a estarem atentos.

Espero sinceramente que mais do que um partido, não deixem morrer um movimento que pode colher a simpatia e a mobilização social para a transformação social urgente em Portugal. Porque há muito a fazer, famílias a serem despejadas, desempregados sem esperança, trabalhadores que não se conseguem sustentar com o salário que ganham, o SNS a colapsar, a TAP a ser vendida, a PT que já foi vendida e está agora à vista o resultado da privatização, a justiça inoperante, o ensino a ser precarizado, teatros a fecharem, conservatórios sem terem como abrir no dia seguinte, os transportes a ser literalmente gozados pelo governo, a RTP idem idem… E isto em parte porque temos permitido!

A falácia do empreendedorismo

Nesta segunda década do Século XXI, Portugal ficou cheio de empreendedores. O empreendedorismo entra-nos pelos olhos, ouvidos e outros sentidos a dentro, como se disso dependesse o nosso futuro. O problema, é que visto com uma lupa maior, rapidamente se percebe que o empreendedorismo não é mais que uma moda, uma buzzword que fica bem.
Na sua grande maioria o nosso empreendedorismo não é mais do que aquilo que Portugal teve sempre acima da média. O Auto-Emprego. A maior diferença para um fenómeno sempre tão popular em Portugal está nas condições e motivações dos empreendedores, que passaram de “querer ser patrão de si mesmo” para “não há emprego na minha área de formação”. Portanto, na sua maioria o nosso empreendedorismo é auto-emprego mas com um objectivo de sobrevivência.

Há obviamente diferenças de um Portugal dos anos 80 e primeira metade dos 90s em que vivíamos num país menos formado e essencialmente intermediário. A grande maioria dos negócios próprios era baseados quase exclusivamente na compra e venda de bens, sem qualquer criação de valor. Muita gente prosperou, alguns tiveram a inteligência de perceber que não era isso que lhes iria garantir o crescimento. De resto quase tudo era alicerçado num negócio que criando património não trás qualquer valor acrescentado ao país. O negócio da construção civil.
Hoje em dia é diferente. A construção atingiu um ponto de saturação e a nossa economia, especialmente por responsabilidade dos governos de Cavaco Silva, esqueceu a noção de criação e achou que o futuro eram os serviços. E é aí que essencialmente estamos encravados.

E é por isso que o Empreendedorismo à portuguesa é falacioso, porque é na sua grande maioria baseado em serviços, ou em bens não essenciais. Estão melhor encaixotados, em Marcas mais bonitas, com embalagens mais bonitas mas são actividades na sua grande maioria que não só não contribuem para a nossa independência económica enquanto país, como agravam essa falta de independência, pois são na sua essência negócios que dependem de uma dinâmica de mercado interno, que não temos, para prosperar.

 

Sim, porque empreendedor não é a milésima loja de roupa de crianças, ou a amiga que faz os melhores cupcakes de sempre, ou o cake designer que faz bolos lindos. Muito menos empreendedor é o gajo que vive de vender palestras sobre empreendedorismo ou o gajo que tem uma consultora informática, que na sua maioria nada mais são que um mercado de carne humana, criado para contornar as leis laborais.
O empreendedorismo deve ter um foco de criação, de trazer algo novo, ou de pegar em algo tradicional e essencial e reposicioná-lo no mercado global.

O empreendedor é aquele que sonha com o mundo e que faz a pensar no mundo, não a pensar no nosso pequeno mercado interno.

Em portugal, há dois bons exemplos enquanto grupos de empreendedores. A industria têxtil e a agricultura, na área dos vinhos e azeites.

São grupos que estão, para usar um chavão, a agir local e a pensar global.

E os outros?

 

Os outros, e este é o maior problema na minha opinião, estão a ser atirados para negócios sem futuro, que em nada contribuem para a saúde económica do país e que na sua maioria, sem se aperceberem, estão a fazê-lo por razões muitíssimo pouco nobres, ou de desejo individual.

O que está a acontecer e que para mim é o mais preocupante, é que este “Empreendedorismo”, que nos está a ser vendido de forma massiva como a solução para o nosso país, não é mais do que mais um forma de encapotar uma das maiores desvalorizações que assistimos na nossa sociedade. A dignidade dos trabalhadores.

Este é o empreendedorismo dos eternos estagiários, das pessoas que a única coisa que encontram é um ordenado miserável, em sítios com condições de trabalho miseráveis, sem qualquer perspectiva de futuro.

São estes os “empreendedores”. São aqueles que não têm outra solução, que querem poder ter uma casa, ou umas férias como qualquer pessoa com um mínimo de dignidade.

Sendo também que estes “empreendedores” que são óptimos para o estado, porque ao serem “empreendedores” deixam de ser desemprego, contribuições sociais, etc, para passarem a ser IRC/IVA, etc.

 

Acima de tudo precisamos de empreendedores a sério. Muito menos que os que achamos que temos, mas precisamos.

Até porque só esses conseguirão gerar o emprego digno que os outros, podem e devem ter.

 

 

P.S.: Há alguns meses o Nuno Faria convidou-me para me juntar a este blog. Só agora o faço, não porque o projecto não me tenha interessado, mas apenas e só porque sinto que tenho pouco a dizer. Mas aqui fica o meu olá a todos.

Jota Kafka

(depois do almoço), e você já a pensar no lanche.

05-Jota Kafka-03É para que saiba o que custa uma espera, para mais, sabendo que enquanto espera, alguém está refastelado a almoçar ou a degustar qualquer outra coisa comezinha enquanto nós estamos aqui, na ignorância dum atendimento adequado hoje, se hoje, e se hoje, se será loquaz, paciente e explicativo. Nós sim senhor!, que eu também estou cá! Como você.

Estas azias não são de nada que tenha comido, muito menos pela sua presença, companhia que aprecio e agradeço, mas do adiantado da hora que já se verifica, uma vez que, da esquerda não vem viva alma nem da direita vivalma e já passaram as treze e cinquenta e cinco. Essa é que é essa! Peço desculpas pelo você; você merece-me realmente outro trato só pelo facto de estar atento à narrativa e pelo lanche que foi a brincar, pelas minhas origens anglófonas. Refiro-me ao sub-título e não ao texto que agora se inicia. Mantenho porém, o depois do almoço, porque é do que se trata finalmente, embora não tenha almoçado, conforme prometido e a referência ao lanche tem a ver com a palavra derivativa de “lunch”, e quanto ao eventual evento está desde já convidado.

Abre-se a porta dos sustos mais uma vez «até que enfim», e, qual não é o nosso espanto quando, quem a abre é alguém. Bem podia ser um daqueles automatismos modernos que evitam mais um salário e, por isso, menos uma despesa, mas não, era mesmo alguém que abria a porta e, como não tinha sido vista vindo do lado das vivas almas nem do lado das vivalmas, só poderia ter vindo do lado dos sustos e, agora percebemos tudo, não a vimos porque a porta que se abria agora para a população, vulgo utentes como descrito na parte da manhã antes do almoço, estava fechada.

Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… com licença, com licença, com licença e, nem queira saber o que vi na pantalha, que, só soube nos final da manhã que era um plasma e que muito enfadou J. uma vez que se sentiu enganado desta a sua chegada. «Pantalha é pantalha, plasma é plasma!, não se brinca assim com uma pessoa!», disse-o do alto do seu aborrecimento e com muita razão. Embora ecrã para nós fosse suficiente. É ou não é?

Com a minha ascendência na Cornualha preferiria “screen”, mas não faço questão nem alarido. Perdeu J. a conta dos Dlim-Dlams que ouviu até ter conseguido entrar no corredor de espera. Era a sua vez na mesa cinco, a mesma, e única, que tinha estado ocupada durante toda a manhã, era seu alguém, a senhora do chamamento detalhadamente descrita pelas doze e trinta para que não fosse confundida o que criava à partida um problema, talvez até, um grande problema.

Apelo ao melhor discernimento e sentido de crítica do meu querido companheiro de leitura para a seguinte falha na organização da adm. central anteriormente elogiada, e seus executores: – quem é alguém, nunca poderá ser outrem, e muito menos, e simplesmente, funcionária, como foi adiantado aí pelas dez e trinta da manhã. Não é obvio que J. tenha dado pela falha, mas, há ainda um detalhe a ter em conta que nos pode até, levar a uma certa omnipresença preocupante se levada à letra a expressão utilizada nas famosas “duas linhas” de oratória com um «… façam o favor de se dirigirem a mim…». Será um premonitório “vinde a mim” pensado na alta adm. central no sentido de arrebanhar a grei, na sua totalidade à repartição em causa. Deus nos livre e guarde e J. nem sonhe. Já nos basta que seja omnipotente para alguns. Seria o cabo dos trabalhos.

De seguida convido-o a não interromper o que penso ser o final dos trabalhos em curso, uma vez que vai dar início o tão esperado encontro entre quem precisa e quem tem. Peço-lhe, além do maior silêncio, a maior atenção também. Sei que é capaz.

«Boa tarde», «Boa tarde», «faça favor de sentar», «Obrigado», «Qual é o seu número, se faz favor?», «A49», «Pode mostrar-me a ficha de presença?», «Com certeza, aqui está.», «Olá… temos aqui um problema…», «Problema?…», «Sim, a sua ficha é a A49.», «É», «Não é E, mas sim A.», «Sim, disse é com o sentido de ser, como se dissesse é a á quarenta e nove.», «O sr…», «J.», «O sr. Jota Ponto…», «Só J.», «Hum… o sr. Jota está a tentar colocar entraves à adm. pública na pessoa dum seu funcionário?», «Não!, eu…», «O sr. Jota pensa que eu não sou ninguém?», «Não!… Tenho a certeza que a senhora é alguém!», «Ainda bem», «O sr. Jota quando entrou nesta repartição estava a ser atendida a ficha de presença A15, certo?», «Certo», «E o sr. Jota disse, os nossos serviços bem ouviram, que só faltavam 33, certo?», «Hum… não me lembro bem…», «Mas se fosse uma pessoa responsável devia lembrar. Faça o favor de me seguir na aritmética, quinze mais trinta e três perfaz… perfaz… 48 e não, 49!, certo?», «Certíssimo.», «Então, se me faz o favor, e para que não tenhamos que prosseguir para instâncias superiores, levante-se e, aguarde a sua vez.», «Mas… nem sei… talvez tenha feito mal as contas, talvez estivesse a pensar nos A16, aquele casal que esteve nesta mesa a manhã toda…», «O sr. Jota só está a piorar a sua situação!», «Como assim?», «O casal A16 não esteve nesta mesa a manhã toda, o casal A16 esteve nesta mesa a tratar dum problema complicadíssimo para ele e para os nossos serviços, durante a manhã toda, o que é bem diferente!», «Pois sim, não digo que não, mas, a repartição está quase a fechar, eu sou o último utente, mesmo que saia, não tem mais ninguém a seguir…», «O sr. Jota além de estar a ser inconveniente, está a tentar defraudar o normal funcionamento do serviço e, mais grave ainda, a tentar adulterar a honestidade da ordem de chamada!», «Não é minha intenção, não é minha intenção, eu é que, eu estou aqui desde as dez da manhã, este assunto tenho de o ter resolvido hoje, da parte da tarde não veio ninguém…», «Como é que o sr. Jota pode afirmar, e logo cabalmente, que da parte de tarde não veio ninguém se a chamada foi feita, completa e pela ordem autenticada no final do turno da manhã?», «Minha senhora…», «Não me trate por minha senhora!, eu sou alguém!», «Claro! É o meu sistema nervoso, peço desculpa, mas acontece que eu estava ali à porta, quase não fui almoçar e vi toda a gente a entrar e», « O sr. Jota não se cansa de fazer falsas declarações. Nós sabemos muito bem que almoçou. Quem pensa que são os nossos serviços? Sopa e conduto!, ouviu?, sopa e conduto, é o que diz a nota interna dos nossos serviços!», «Pois… certo, foi tão rápido para não perder a vez, mas o que eu queria dizer é que, da parte da manhã para a parte da tarde, depois do atendimento da A16, e depois de muitos Dlim-Dlams sem qualquer presença foi o meu Dlim- Dlam, o Dlim-Dlam do A49 que foi chamado, por conseguinte…», «Mas o que é que o sr. Jota tem a ver com as ausências verificadas no turno da tarde. Provavelmente as pessoas não quiseram aguardar aqui até às doze e trinta para serem autenticadas ou não quiseram voltar de tarde, provavelmente não tiveram tempo de ir e voltar e desistiram a meio do caminho, provavelmente estão a aproveitar o tempo das três senhas de tolerância, provavelmente até, não era assim tão urgente e voltarão, que é o que costumam fazer as pessoas com coisas urgentes a tratar e não têm paciência para esperar!», «Acredito, acredito, sei que a vossa função não é fácil e, ainda bem que há alguém que disponibilize a sua vida para atender aos problemas do cidadão, mas, veja bem, são quinze e trinta e cinco, a repartição fecha às dezasseis horas, eu sou o único utente, será que…», «Se a adm. central se tivesse que preocupar com serás, e outros elementos do existencialismo, do ente humano, da pessoa física e moral no seu conjunto, do ser como um todo, era o cabo dos trabalhos sr. Jota. A nossa função é o rigor, o exemplo e a execução. O resto sr. Jota, o resto são filosofias!», «Então, resta-me, sair, e, aguardar a minha vez que penso ser esta», «Exacto!», «E, se me permite a pergunta… se não for chamado até às dezasseis horas?, «Terá de voltar amanhã, mais cedo, que era o que devia ter feito hoje!», «Então repete-se o sistema da autentic», «Era o que havia de faltar!, já agora!, amanhã começa do zero! Vocês não queriam mais nada!».

Respiremos agora um pouco. Bem precisamos. Mas só o suficiente para ver o nosso J. muito conformado, a reentrar na sala de espera que era mais um corredor, agora vazio, e aguardar a sua chamada, ou a chegada do chefe da repartição, que até aí, assoberbado nas suas tarefas se tinha mantido invisível, para mandar todos os cidadãos abandonarem o atendimento. E J., creia meu ilustre, ao ver a porta dos sustos fechar-se atrás dele como que protegendo-o dos sobressaltos da existência, abandonou-se caminho fora sabendo, sem qualquer dúvida agora, que era cidadão. A incerteza era se amanhã, na volta, seria considerado pessoa.

Para mim, e porque merece, será sempre o nosso J. e, nunca mais, só, Jota kafka.

FIM! Finalmente (quem sabe até, do Mundo).

sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.

Jota Kafka

(depois do almoço), ainda com partes do jejum.

 

05-Jota Kafka-02

Boas tardes então, e desculpe, nunca gostei lá muito da expressão “repasto”. É incisivo demais para a variedade das ementas oferecidas, mas enfim, foi para não dizer assim, de chofre, mastigado o comer… Não leve a mal.

Já está almoçado, que bem se vê, mas isto aqui ainda vai uma açorda. Nem queira saber.

Está o J. de regresso, guarda-chuva a tiracolo, castelo bem axilado e olho em riste procurando assento. Olhe!, lá vem ele… sentou-se; ainda bem. A espera desespera, vamos ver se alcança.

Provavelmente já se perguntou, mas que raio é aquilo do castelo que, uma vez se sovaca e outra se axila? Tem razão, eu mesmo já me tinha feito a mesma pergunta e, merece uma explicação. Explicação que, lamentavelmente, não tenho processo de dar.

Também me causa espécie o facto do guarda-chuva em dia de Sol, e não me vê aqui de patas ao ar numa metamorfose ridícula a tentar descobrir. Para mais não temos nada com isso.

É ou não é?

J. olhou em volta e era um conhecido no meio de conhecidos. Não conhecia ninguém mas não havia cara que lhe escapasse desde que tinha saído para ver se chovia. O que não acontecia.

Sentou-se na beirinha dum vaso baixinho e desfolhou o livro. Nessa altura eram onze e meia na espera e vinte e duas e quarenta e cinco no livro e, Kapa continuava a tentar espreitar Klamm sentado no colo de Barnabás, que se tinha escondido da estalajadeira com medo de ser visto a dar cobertura ao desaforo que era espreitar Frieda uma vez que, todos sabiam, esta tinha sido amante dum kapa e era, agora, noiva de outro. Sim, dois kapas. Um para Kapa, que, para evitarmos confusões doravante escreveremos K com ponto e Klamm, que, como inicial tem, também, K, mas sem ponto. E, para que não pense que era má vontade desvendar-lhe o que era “o castelo”, fique sabendo que só o descobri porque perguntei ao sr. Aníbal, acabadinho de pagar o dízimo que lhe tinha custado uma vigésima. Pelo menos assim lhe pareceu e me disse. E, quanto a doravante escreverem apenas K., isto é, Kapa ponto, não sei como isso será possível, uma vez que só um escreve, que sou eu, e não escreverá mais nada sobre K. ou qualquer outra coisa sobre o referido livro. Não se aplica portanto, nem o plural, nem o lembrete.

Nestas e noutras deambulações foi passando o tempo, ouvindo Dlim-Dlams e zum-zums até às doze e trinta, a hora do almoço, onde, o seu papel acetinado devia ser assinado com a competência do alguém para que outrem, ao regressar, soubesse que se tinha estado em fila de espera, de manhã, até às doze e trinta. A senhora afónica tinha já saído para tomar uma gemada, e eu tenho estado a falar de J..

NOTA: – (pequena nota: – esta nota não fica nada bem num texto que não se pretende panfletário, e é utilizada apenas porque não há outra forma de notar o que se segue na nota). Mantém-se a designação “manhã” embora fossem doze e trinta. Ora, como sabe, a hora convencionada para se passar a designar tarde é o meio-dia, isto é, as doze horas (12:00 em alguns relógios). Aqui, nesta nota, tenta explicar-se que, também a hora do almoço, que não tem hora, pode separar a manhã da tarde. No caso vertente, nem se tratava duma coisa nem doutra mas sim, a hora determinada pela administração central para os seus funcionários irem almoçar e que, ultrapassada essa e o respectivo tempo em minutos necessário à refeição, fosse considerada após publicação, a parte da tarde, logo, depois do almoço. Fim da NOTA.

Perguntar-me-á muito pertinentemente, «Mas como sabia J. que eram doze e trinta se não havia relógio na espera?»

Dir-lhe-ei que «Foi muito bem observado, sim senhor!», uma vez que, não conhecendo o recinto e não lho tendo sido alguma vez descrito qualquer tic-tac ou pantalha digital, podia realmente existir. Mas não, não existia.

O processo foi o do chamamento histriónico de quem tem fome e mastiga apetites de saída imediata, e, da seguinte forma «senhores utentes, por ordem, façam o favor de se dirigirem a mim para autenticar as vossas fichas de presença, sem a qual não serão reconhecidas após o almoço. Obrigada.»

Veja, meu fiel, a eficiência da administração central (tão desprestigiantemente chamada de, função pública), sim, que isto não é só dizer mal. Veja, o quanto se desvendou em duas linhas de oratória. Certifique-se, de uma vez por todas que, não é necessário ser-se, como dizer, tonitruante, para que uma pessoa se faça entender. Decomponhamos; raciocine comigo.

Acabaram as indefinições quanto à pessoa. Nunca mais confusões como, contribuintes, obrigados, retribuidores, nem o que mais quiser pensar. Utentes. E a senhora aí da fila dos émes tenha lá mais respeitinho que não é só quem o tem que tem obrigações, está bem?

Quem não o tem que se arranje, que vá trabalhar, porque quando for chamado a ter, será utente como qualquer um de nós!, essa agora… Ou será tenente?

E por ordem, muito bem, não queremos cá autenticar o trinta antes do vinte-e-sete, nem o quarenta depois do quarenta-e-nove; que ao J. ninguém passa à frente!

Autenticar, vê!, quem sabe, sabe; era a palavra que me faltava ao meio da manhã para lhe explicar o que significava a assinatura rubricada no papel acetinado. É que não basta a máquina cuspir um papelinho acetinado com uma letrinha e um numerozinho. Nada! A coisa só é autêntica quando autenticada. Não sei onde residia a sua dúvida. Que era nossa.

E mais, caso não siga escrupulosamente todo o procedimento, que são vários, não haverá lugar a reconhecimento em posterior atendimento após o tal repasto. Disse o alguém.

Para finalizar, porque é importantíssimo, não deixarei de salientar que finalmente, sabemos quem é alguém. Alguém é uma senhora de meia-idade, seja lá o que isso for, com saia abaixo do joelho, casaco de fazenda, meias de nylon lá de cima até uns sapatos azuis a condizer. Por dentro uma blusa algo vaporosa com uma flor de bom gosto presa ao peito esquerdo com reluzente alfinete. Mãos cuidadas e unhas com perfeição de gel alegremente pintadas. Não são feitas referências à cor do cabelo e respectivo penteado uma vez que as senhoras o alteram com mais rapidez que uma mudança de roupa. Eis alguém.

Quanto á obrigatoriedade de almoçar, uma vez que não tem senha para autenticar nem número que o identifique, pode saltá-lo. Obrigada na mesma. Subentendeu-se.

Pare, escute, olhe e aperceba-se da fiabilidade da máquina administrativa e quão árduo é o trabalho de sequenciação da população, mesmo na mais pequena escala duma repartição. Na senda da optimização, que não pode descurar o ínfimo pormenor, uma vez que, hei!, hei!, mas onde é que o sr. vai?! já foi autenticado? Ai não?! De tarde não se queixe que não for atendido, que isto com franqueza, não se pode confiar em ninguém, em tudo a adm. central pensa, em tudo a adm. central tem que pensar, uma vez que o utente; nem tenente.

Apesar de cansado, que sei que está, queria só lembrar-lhe que, nós, sim, nós, ainda não fomos almoçar, e esta, talvez seja a única oportunidade de o fazer, uma vez que alguém já saiu na companhia de todos os outros alguéns, utentes e tenentes também e até o J., que se levantou esbaforido ao saber que só tem noventa minutos para ir a casa, aquecer a sopa e o conduto, comer este e depois aquele e, regressar. Regressar a tempo de nova conferência, que sabe, e nova espera, que adivinha. Por isso até depois, agora sim, do almoço. Eu fico por cá, não vá o diabo tecê-las e a chamada começar mais cedo.

(continua)

sobre a figura:       da WEB, sem paternidade registada.

Jota Kafka

(antes do almoço), portanto, de manhã.

05-Jota Kafka-01

A porta dos sustos estava ali mesmo em frente, escancarada, directa para a rua; e dela escoava um rum-rum, era mais um zum-zum, de muita gente que mastigava ondes quandos e porquês.

Embora muitos lessem só o jornal grátis, e em silêncio.

Entrou, procurou indicações, leu letreiros, colantes, avisos e dirigiu-se à máquina das presenças. O aparelho cuspiu um A49 em papel acetinado, seguido de quarenta e nove, e «Ah!» disse ele quando na pantalha mural viu o A15, actual piscante. São dez horas, já foram atendidos quinze, faltam 33. Ora, se numa hora foram 15, vai ser rápido. Dlim-Dlam… «vês!», disse se si para com ele, já chamam o dezasseis…

Apertou o Castelo no sovaco, enrolou o guarda-chuva, procurou assento e exalou um «Aguardemos» resignado.

O corredor de espera, porque não se tratava duma sala, estava apinhado de contribuintes, talvez um cento, quem sabe, não sei, não quero contribuir para o confundir ainda mais, não a ele, a si, meu leitor; nem impor um número para pintar a cena. E apinhada, é uma maneira de falar porque, o entrançado de pessoas era tal que mais parecia um enramado; enfim é o que sói dizer-se quando já não cabe mais uma sardinha na lata, que era o que parecia o ambiente, tal a quantidade de alumínio e aço inoxidável nas paredes. E mesmo contribuintes, meu querido, não sei não, ninguém estava ali com vontade de contribuir com coisinha nenhuma, que isto de impostos, são mesmo o que a palavra quer dizer, uma imposição, portanto, olhe, infligidos?, obrigados?, obrigados também talvez não, pois induz a uma retribuição, olhe!, talvez seja isso mesmo; re,tri,bu,i,do,res. Embora ninguém lhes tenha dado nada para devolução posterior.

Sentou-se, desfolhou, «esta agora, onde tenho os óculos?» ouviu-se. E saiu. Todos o olharam. As conversas não pararam, nem mesmo aquela senhora afónica que contava os motivos da vinda e nunca mais se ia; todos olharam. Deve ser o tédio da espera, quando alguém sai da postura, altera o cromatismo do ambiente e chama a atenção, e daí as pessoas olham, curiosas, olha aquele, agora ficou a espera descomposta, borrou a pintura, estava ali tão bem sentado e, olhe, ó senhor?, que lhes hei-de fazer, irra, cuscos!, vou só ali ao carro buscar os óculos!, as letras são pequeninas! Nada!, estou a brincar consigo, então acha que aquela mole de gente se havia de importar com mais um que abandonava? Ficavam era todos contentes por ser menos um no estorvo. Tudo continuou na mesma com a diferença de ter perdido o lugar sentado, para nunca mais. Pelo menos pensa-se que sim.

Já agora, quero deixar bem esclarecido que, quando o tratei por ‘querido’, não o fiz por excesso de confiança mas sim por amizade à paciência que normalmente manifesta em ler o que lhe conto de viva voz. Aliás, aquela senhora ali ao fundo é que poderia ficar ofendida uma vez que, não gosta que lhe troquem o género. Grato por compreender.

Voltou, conferiu a posição e, «Ah!» interjeitou, «ainda no A16?» Que se teria passado? Que estranho avanço desenvolveria o Dlim-Dlam da máquina, se aquilo não avançava? Foi verificar. Constatou que, como há quinze minutos atrás, a mesa 5 estava com o mesmo casal e a mesma funcionária e, as mesas 1, 2, 3 e 4 permaneciam vazias de funcionários e clientes.

Voltou ao corredor de espera e; não, ninguém olhou desta vez. A senhora afónica continuava na sua voz de flanela eriçada a despejar o gasganete. Procurou a pantalha e, o que viu!, os tempos de espera de Portugal inteiro estavam a ser apresentados em pequenas barras verticais a lembrar termómetros, mas, sem tempos. Não sei se me faço entender. Espreite aqui, está a ver aquele grupo de barras verticais que lembram uma flauta de pan? Ora na pontinha devia estar o tempo que demora o atendimento em Portalegre, em Castelo Branco, em Freixo de Espada à Cinta, e por-aí-fora; mas não, não sabemos quantos minutos (ou horas!) demora atender cada cliente. Não sabemos até, se será hoje!

Procurou um balcão de informações. Aí sim, toda a gente olhou outra vez. Reolharam pronto, que isto é mesmo assim, quando uma pessoa começa a buliçar numa fila de atendimento, não há quem resista a botar os olhinhos.

Nos entretantos, lá do fundo, ora veja, lá do fundo, vem um senhor simpático, o sr. Aníbal Alfaiate, muito prazer, que, na tentativa de ajudar, diz ao nosso Jota que não se pode fazer contas às médias aritméticas do tempo despendido por cada cliente a ser atendido porque há casos mais demorados que outros, outros mais complicados ainda, o que demora ainda mais tempo, e, por isso, temos de ter paciência. De ter não; que ter!

«Muito obrigado», sibilou o nosso Jota. «É que sou novo nestas coisas», resibilou. «O sr. é que como alfaiate deve estar habituado a atender muita gente e com medidas diferentes, mas eu…». Ao que o sr. Aníbal respondeu, «eu sou mecânico de automóveis e sou a seguir para pagar a décima; felicidades, que lhe corra tudo bem.»

Está bom de ver que aquele companheiro de espera veio exasperar bastante o nosso herói. Pois se a coisa nem andava nem desandava, como poderia correr? E que nem bem nem mal, mas enfim. «Assim, como assim, já que tenho a manhã perdida vou ler a informação importante espalhada pelas paredes até ser atendido.» disse o nosso herói.

Sei que já reparou que tenho tratado o público em geral por clientes (sem ofensa) e o nosso Jota por herói. Porque é disso que se trata, dum herói!

Quanto a Jota, que abreviarei para Jponto, é o nome de baptismo, sendo o Kafka de família, pela parte das circunstâncias e narrativas bizarras, e, como todos nós, J., é “um homem e a sua circunstância”, e nisto, talvez se salvem as mulheres e crianças.

Saberá o amável leitor que tudo tem limites e, quando J. viu agrafado na parede um nota informativa em papel A4 dizendo que quem tivesse papeis acetinados ‘E’ podia não ser atendido no mesmo dia da chegada, caiu de joelhos. Calma… calma… é metafórico; até porque J. tinha papel acetinado ‘A’. Já não se lembrava? Pois é, mas agora imagine que ia, como qualquer Português que se preze, pagar a sua colecta, mesmo que fosse derrama, no último dia do prazo hã?, que fazia hã?, claro que também caía de joelhos ao ler semelhante.

No caso de J. o caso é mais simples mas, mais insólito. Insólito talvez não seja bem a palavra uma vez que o que lhe contarei acontece frequentemente, no entanto, não deixa de ser estranho. J. estava preso. Sabia que não ia mais ser atendido durante a manhã, nem tinha a certeza de ser atendido de tarde, só que, e este só é para não nos alongarmos, estava escrito noutra folha A4 que os ‘A’ teriam de aguardar até às doze e trinta, para que um funcionário viesse validar o número em sorte para que pudesse ser reconhecido de tarde, às catorze horas. E como, tanto podia ser um funcionário como podia ser uma funcionária, vou deixar aqui escrito, sem medo a criticas que seria, alguém.

De maneira que, embora tenhamos já falado muito e acontecido outro tanto, são ainda, e só, dez horas e trinta minutos, e, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, o número da pantalha mantém-se firme há meia hora no ‘A16’ e, nem o pai morre nem a gente almoça.

«Mas porque carga de água não posso sair para almoçar agora, e voltar de tarde?»

«Já agora, como tenho tempo, vou lá fora ver o tempo. Há bocado não chovia.»

Nem preciso de lhe dizer que as anteriores duas (2) afirmações são no nosso J., sendo que uma é uma interrogação e a restante uma afirmação com uma dúvida no fim.

Agora nós, eu para vós.

E, uma vez que este fandango vai demorar, e nós não queremos fazer sofrer o alheio (o J. também concordará) vá, se faz o favor, almoçar que cá nos encontraremos no pós-repasto.

Bom apetite!

E, esqueça agora o sub-título, que não há nada como uma barriguinha cheia para resolver

esses imbróglios.

(continua)

 

sobre a figura:       da WEB, sem paternidade registada.

O Valor das ‘Não Coisas’

Hoje as pessoas não têm tempo para nada.  Nem para conversar.

Se não é o trânsito…

O Valor das 'Não Coisas'

 

 

 

 

 

 

O amigo que vendia férias

O Agostinho foi o maior felizardo que conheci; tive até inveja dele. Sabe porquê? É que o Agostinho, que não vejo faz tempo – Olá Agostinho!; vendia férias. Ólarilas!… o Agostinho tinha tempo livre para vender, e mais, era um tempo que se desmultiplicava ao ponto de poder ser sempre dividido! Olé!…

Veja o que as pessoas conseguem para ganhar a vida.

A empresa dele chamava-se, veja só, “Não Faça Nada – Time-Sharing, Lda.”

O “não faça nada” está-se mesmo a ver, eram as férias, o “time-sharing” era a tal desmultiplicação da coisa (ou multiplicação… dependendo do “ponto de fuga”) e; a cereja no bolo era o “lda.”; porque, ele, de limitado não tinha nada. Vendia tempo livre desmultiplicado a toda a gente e toda a gente lho comprava. Havia tempo para todos! Ai ninas!…

Há qualquer coisa no “fare niente” muito “dolce” para que toda a gente o queira, não é?

Olha!… já anda a bicha… talvez ainda cheguemos a tempo.

(eh eh eh!; cá em cima chamamos bichas às filas… você sabia?)

Hortas de carros

Quando era catraio (sim!, já fui catraio também…) ouvia os velhotes dizerem que um bocadito de terreno, era a fartura das famílias. Qualquer bocadito de chão dava para plantar couves e novidades e ainda se arranjava um cantito para o esgravatar da criação.

Agora, olhe ali!… vê?, num retalho entre muros medra uma plantação de carros em segunda mão, brilhantes como em primeira.

Em cada esquina, em vez de couves, nabiças, alhos, feijão verde, etc., galinhas, patos, perus, coelhos e afins, temos; carros em segunda mão a brilharem de novos.

Porque será que as pessoas se desfazem assim dos haveres, ainda tão novos? Já pensou?

Vá lá… já seguimos de novo. Até estou a gostar do viscoso do trânsito; dá para a cavaqueira, que já tinha saudades.

As lojas do “compro ouro”

Ali no último cruzamento, você não reparou; estava uma loja da moda. Se olhar para trás ainda vê… vê?, isso mesmo!

Toda a gente dizia mal dos chineses (cala-te boca, que nos cortam a luz…) que estavam em todo o lado, em qualquer esquina; enfim… Agora são as lojas do ouro. Que se compra ouro cobrindo qualquer oferta. É forte hã… cobrindo qualquer oferta!

A aflição das pessoas… Levam ali os anéis para ficarem com os dedos é o que é.

Nunca vi tantas lojas destas; deve ser muita a desgraça e precisão.

Já viu bem que se abrem lojas e vendem franchisingues alimentados a desgraça?

Montemos o negócio

– Diga? Não; estava aqui a pensar, não era propriamente a falar consigo agora, mas mais com os meus botões.

Pode ouvir… pode até; olhe… pode até ser meu sócio caso queira e tenha tempo.

O negócio é o seguinte; uma loja de tempo. Isso mesmo!, comercialização e distribuição de tempo. Vai chamar-se Tempo & Bom Senso, SA.

Porquê bom senso? Ó criatura! Porque já não há nem se fabrica.

Ponha lá uma moedinha no parcómetro que isso ainda é um negócio onde nos havemos de meter; vender espaço consoante o tempo!

À Vossa atenção:

Este texto foi publicado a 11 de Jan. de 2012 na página “Ao Leme – Grupo Aberto”, no n/vosso conhecido facebook.

Ao tempo floriam como cogumelos as “lojas ouro”, onde já tinham sido bancos, onde já tinham sido cafés, onde agora se instalam “lojas do cigarro electrónico”, onde amanhã, espero, estejam cafés novamente.

E digo, novamente, não, outra vez. Porque espero que nos tragam, outra vez, algo de novo.

Grato por lerem. Convido a um cimbalino, ali, na habitual mesa da montra, onde passa a vida.

Obrigadinho.

 

sobre a figura:  Apanhada no trânsito da WEB, sem paternidade registada.

Portugal, país más grande que qualquer outro

Portugal, país más grande que qualquer outro
hoje e sempre será a mais altíssima e mais viçosa folha de Outono
Seus terrenos pantanosos, pretensamente estéreis
são na verdade mui férteis, neles germinando multi-variados tributos onerosos
Tão necessários à sobrevivência da mais alta finesse
A única capaz de garantir a navegação na maionese

Foi-se o tempo em que, fracos, caíamos como Tordos
Agora voamos! Emigramos mais ou menos tortos
Trocámos o mandar da toalha ao chão pelo bilhete de avião
Operamos a mudança com vuuuuuuuuuuuuuuuum em vez de PUM PUM PUM!

Fiéis à raiz da nossa democracia ainda cravamos
Notas, moedas d’oiro e cobre, muitos centavos cascalhos
Ser bom português não implica cantar um fado
Ser bom português é não dar despesa ao estado

Hoje poucos sabem o que é ter o prazer de viver até morrer
Talvez por isso vos foda a cabeça em tons de escárnio e mal-dizer

Essa cambada de filhos da tuta e meia
Vendem Portugal ao desbarato como quem bons ventos semeia

Quem nos governa?
É merda

Repito

QUEM NOS GOVERNA?
É MERDA!

Merda, merda, MERDA

Sem um pingo de carácter nem espinha dorsal
Merda desnutrida que não alimenta mosca nem besouro
Só capaz de montar um privado arraial
em torno do real e público tesouro

Gaspar a mascote que cá esteve ronronar e vai agora FMIar, é sério, não é trote
Relvas o homem só que nenhum cão quer ver sobre o seu cócó
Manchete o malade de la tête perdido nalguma secreta enquête
Poiares Maduro o literário que nada vale sem o seu fundo comunitário
Aguiar Branco o das forças armadas que busca estaleiro capaz de blindar decisões às forças amadas
Crato o educador de aço, utilizador de balas educadas, revestidas a amianto, na prática do tiro ao prato, não sabendo o que fazer com os cacos do seu estilhaço
Portas e seus mercados, mestre da distribuição de recados
Passos Coelho o unificador, está para a boa esperança como o famigerado Adamastor
Cavaco em agonia, o erradicador do cheiro a sovaco, saudosista da sua própria antagonia

N outras cousas ao estilo BPN
Alto! Banqueiros não! Assim reza a prescrição

Quem nos desgoverna?
Profissionais da política
Arautos da chama Olímpica
Executores de pancadas paralíticas
Gente semítica, raquítica, Excel analítica

Portugal, país más grande que qualquer outro
Queira o seu povo matar o polvo
Coragem ou viagem
vuuuuuuuuuuuuuuuuuuum

 

Gira-gira giro Portugal

20 de Janeiro e nada. 20 dias de 2014 em que praticamente só se falou de intempéries, de morte e consagração no futebol. Eis que quando as nuvens se dissipavam,  parecendo haver abertura para voltar a anunciar e discutir as medidas políticas em curso, sai da cartola um referendo que volta a armar a tenda do circo mediático. Os spin doctors têm tido uma vida tranquila, com os eventos ‘cortina de fumo’ a eclodirem naturalmente, bastando agora atirar esta granada co-adoptada para queimar mais uns dias preciosos.

Ponderei abordar o tema do asqueroso pantanão nacional acabando por preferir cingir-me ao espremer de algumas das notícias mais levezinhas de 2014.

Arnaut na Goldman Sachs e Gaspar no FMI, é de certa forma assustador porque os ratos só abandonam o navio quando este deixa de ter provisões ou quando o naufrágio está iminente. Não me preocupa tanto que tenham passado para o covil dos vilões da crise, alerta-me para provavelmente não existirem mais jóais da coroa que mereçam a cobiça dos grandes players mundiais e que justifiquem a permanência de testas de ferro para grandes operações financeiras infiltradas.

Reduzir escolaridade obrigatória para o 9º ano vs 4 em cada 10 jovens sem dinheiro para estudar, a Juventude Popular podia ser a esperança de melhores políticos e assume-se como mais do mesmo ou pior. Acredito que para a despesa do estado retirar 3 anos de ensino obrigatório seria um corte simpático, por opção própria de jovens inconscientes, quiçá mesmo encorajados para tal porque o desemprego está repleto de diplomados. O ensino superior tornou-se inacessível para muitos e se não se pode nivelar por cima nivela-se por baixo, certo? Imagino que para os novos patrões, de vários sectores em Portugal, nove anos de escolaridade seja um indíce bastante satisfatório tendo em conta a média de escolaridade no seu território.

Temo que existam visionários a fazer contas, afinal já exportámos grande parte da mão de obra qualificada, outra parte significativa está desempregada e o mercado não terá capacidade da sua absorção tão cedo. Logo não se perde nada se as próximas gerações forem menos qualificadas. Alguém para quem um baixo salário seja uma benção, que saiba sobretudo consumir sem temores, sem consciência nem capacidade aritmética, uma nova manada ainda mais fácil de domesticar mediante futebol e lixo televisivo. Uma legião de clientes perfeitos para a nova economia emergente.

Miró’s quadros bónitos! Pela módica quantia de 35 M leve estas obras no valor de 150 M! Que este governo não quer saber da cultura já não é novidade sendo que aqui é simplesmente escandaloso aceitar tal desvalorização nos activos aceites para resolução do caso BPN.  O povo está-se cagando, até parece que os quadros valem a estátua do Eusébio, cujo corpo o governo sabiamente anuiu em transladar para o panteão nacional ASAP. Ao estilo popularucho.

Por fim até os escândalos amorosos de chefes de estado de outros países ocupam grande parte dos nossos media. Ainda por cima de um país tão liberal no que toca ao amour. Talvez faça sentido se considerarmos que a austeridade, tão em voga, foi sobretudo explorada e desenvolvida em França pelo Marquês de Sade. O que me apoquenta neste caso é que não me lembro na democracia Portuguesa de escândalos amorosos envolvendo governantes em funções. Será isso mais uma demonstração da fraqueza da nossa democracia e sociedade? Ou serão eles tão desinteressantes e obscenos ao ponto de nem surgirem candidatas a amantes reais ou interesseiras deslumbradas pelo poder? Outra hipótese plausível é que desde sempre os nossos políticos mal-interpretem a resposta “isso são brincadeiras de crianças“, que é dada pelos representantes de outros estados quando por eles questionados em privado “Isto de governar no vosso país dá para engatar gajas?”

E assim vai girando o nosso país nas mãos dos garotos.