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Fazedor de Independentistas

Face ao elevado e infelizmente habitual nível de abstenção nacional, ao invés de me debruçar sobre as nossas eleições autárquicas de ontem, opto pelo referendo Catalão. Ilegítimo ou unilateral, conforme as hostes e simpatias, o acto decorreu da pior forma possível. Enquanto os catalães se colocam à mercê dos cassetetes para votar, por cá nem à bastonada acordamos. O contraste só não é engraçado porque em ambos os casos os impactos são dramáticos. Choca-me a indiferença de cá, país com mais de oito séculos, no qual, apesar de recente, a democracia é altamente subvalorizada por quase metade dos eleitores. Como Estado-Nação, nem nos damos conta daquilo que somos!

A Catalunha, Nação secular, subjugada desde o reinado de Isabel a Católica, unificada nesse Estado de várias nações que se chama Espanha, manteve acesa a chama da sua cultura, da sua língua e das suas tradições. Independentemente de quaisquer interesses ocultos, eventualmente pouco justos ou até mesmo discriminatórios e sobranceiros para com as outras nações espanholas, é impossível não sentir alguma simpatia pela luta independentista dos catalães. Se por um lado o coração dita empatia, por outro a razão dita reservas. Assim é, assim será sempre que a ordem estabelecida dá sinais de mudança. Todos teremos, tal como os catalães, uma perspectiva egoísta – Será bom para nós?

Na dúvida, geralmente preferimos manter tudo como está. Talvez por isso, o governo espanhol optou por abordar o tema pela via legal, em detrimento da via politica. Com esta postura, Mariano Rajoy ao invés de guardião da indivisibilidade do estado espanhol, transformou-se no maior fazedor de independentistas. Não percebeu que os melhores e mais importantes aliados da sua causa são os catalães que não querem deixar de ser espanhóis. A estes, não só aos outros, negou o direito de tranquilamente, sem qualquer tipo de ameaça, manifestar em urna a sua vontade. Ontem despertaram muitos independentistas. Nunca a soberania foi outra coisa senão uma questão politica.

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Combustível Eleitoral

Para que servem eleições?

Os incêndios devastadores deste Verão demonstraram que nem todos se batem devidamente pelo bem comum, sendo responsáveis directos por más decisões, más regulações, más fiscalizações. Quer a a nível local quer a nível estatal. Para além dos cenários macabros evidentes em cobertura jornalística, um estudo da Quercus veio demonstrar que um quarto dos municípios de Portugal Continental não cumpre as suas obrigações no âmbito da Legislação de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Há 72 municípios do Continente que não têm sequer em vigor o “Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios” obrigatório por Lei!

Por curiosidade fiz um levantamento das taxas de abstenção, somadas aos votos nulos e brancos, dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 2017, evidenciando-se que muita da população (40% a 50%) dos concelhos de risco não está minimamente preocupada com entrega das chaves do poder. E assim contribui para o estado da sua autarquia, da nação. A fim de entenderem a gravidade da sua ausência no processo decisório, quem não se preocupa com a nomeação dos seus cuidadores talvez também não devesse esperar cuidados de terceiros quando os que ajuda a eleger por omissão falham nas suas funções.

Voltarei a este exercício no dia 2 de Outubro para perceber se nestas autárquicas o choque das chamas descontroladas, com muita culpa do poder local, terá despertado um sentimento de revolta nos cúmplices abstencionistas que os leve a revidar com a queima de quem de direito.

Afinal, a primeira coisa para que servem umas eleições é para votar.

% Abstenção + % Votos Nulos + % Votos Brancos
CONCELHO AUTÁRQUICAS 2013 LEGISLATIVAS 2015
Alijó 42% 53%
Anadia 52% 51%
Águeda 52% 49%
Arcos de Valdevez 55% 62%
Arouca 38% 45%
Caminha 39% 50%
Castanheira de Pera 35% 44%
Castelo Branco 56% 45%
Figueiró dos Vinhos 36% 44%
Funchal 55% 53%
Góis 36% 44%
Pampilhosa da Serra 38% 48%
Pedrógão Grande 42% 48%
Penela 42% 48%
Sertã 43% 43%
Vale de Cambra 43% 45%
Viana do Castelo 55% 49%
Vila de Rei 34% 35%

Lançamento do Martelo

As olimpíadas estão para uma legislatura como os jogos olímpicos estão para as eleições legislativas. Tal como a legislatura é o período de tempo entre cada ida a votos, a olimpíada é o período de quatro anos entre a realização de dois jogos olímpicos. São ambas temporadas de preparação para o momento decisivo, fases de treino ao longo das quais se ensaiam diferentes estratégias e metodologias de treino. É pois com grande espírito de sacrifício que os políticos, quais atletas de alta competição, procuram afincadamente atingir os chamados mínimos olímpicos, a marca que os conduza a nova eleição.

A glória de uma medalha de ouro encontra paralelo na política na tomada de posse como ministro e consigo traz prestígio eterno a quem a conquista. O mundo é feito de vencedores e no desporto, tal como na politica, são os eleitos que ficam para a história. Um medalhado apenas cai em desgraça quando apanhado nas malhas do doping. A batota, tal como o consumo de substancias proibidas, pode por vezes ajudar o atleta menos dotado a obter marcas de excelência, mas nem sempre.

Por vezes, o atleta precipita-se, dá passos maior que a perna e cai em desgraça. O público, tal como os eleitores, não perdoa o uso de estimulantes, narcóticos ou anabolizantes, mas há sempre atletas e políticos dispostos a correr o risco da desonra em troca da esperança de vitória. Alguns, perdidos na melancolia dos dias de glória, quando a aritmética lhes falha, na sua sede de pódio, desesperam…

Napoleão IV

Os filhos da pátria foram às urnas no passado dia 23 de Abril e tal como esperado, lá voltarão no próximo dia 7 de Maio. A abstenção foi baixa, pouco mais de 20%. O candidato mais votado, Emmanuel Macron obteve menos de 24% dos votos, ou seja, menos de 20% do número total de votantes (24% dos 80% de eleitores que votaram). Da mesma forma, a candidata que com ele vai disputar a presidência francesa, Marine Le Pen, obteve o voto de menos de 17% do total de inscritos. Primeiro e segunda representam pouco mais de um terço do total de eleitores.

Ele, é e será aquilo que o eleitor quiser que ele seja, um liberal de esquerda como lhe chamam os jornais. Em Marcha, o partido que criou, resulta da implosão do centrão gaulês, uma espécie de união daquilo que restou. Alberga o status quo disfarçado de mudança. Curiosamente, o radicalismo anda há já uns anos disfarçado de status quo, excepto no que à União Europeia diz respeito, Marine Le Pen protagoniza um nacionalismo light, soft quanto baste. De forma simplista: de um lado, mais do mesmo, com logótipo novo; do outro a ilusão de mudança, alicerçada na retórica contra a União Europeia.

Todas as previsões e sondagens apontam para a vitória de Macron, mas creio que um dado importante está mais uma vez a ser negligenciado. Tal como nas presidenciais americanas ou no Brexit, as previsões apontaram sempre para o desfecho menos disruptivo, contudo os resultados foram outros. Os eleitores não sabem o que querem, mas sabem que querem mudar! Suspeito por isso que a “união de todos contra Le Pen” a possa favorecer e reservar a Macron o lugar do derradeiro Napoleão, o IV.

Moinhos de Vento Holandeses

Foi no século XVI que Guilherme de Orange-Nassau se revoltou e liderou a luta contra a União Europeia da época, a Casa de Habsburgo. Felipe, segundo de Espanha, mais tarde primeiro de Portugal, era então o senhor católico da Holanda protestante. Qual comissário não eleito hoje, oblívio a crenças ou ambições dos seus povos, o Rei Espanhol drenava a riqueza dos Países Baixos. Eles não gostavam. A representatividade era também um conceito desconhecido, estranho aos inventores das Klompen, as típicas socas de madeira holandesas.

A Guilherme sucedeu nesta luta o seu primo Maurício, génio militar e grande mentor da reorganização das forças holandesas. Maurício de Nassau foi provavelmente o primeiro líder a compreender que o advento das armas de fogo relegava a bravura e a ousadia de um guerreiro para segundo plano em detrimento da precisão e disciplina. Liderou e venceu muitas batalhas, mas não ganhou a guerra. A paz só chegaria em 1648, com a assinatura do tratado da Vestefália. Já nessa altura os Holandeses prosperavam além-fronteiras, graças às suas companhias das índias, ocidentais e orientais, verdadeiras precursoras da corporação capitalista moderna.

Os holandeses têm contudo uma disputa bem mais antiga. Grande parte do seu território estaria submerso, não fora a sua engenhosa capacidade de gestão hídrica. Um dos símbolos maiores da nação são os seus Moinhos de Vento, extraordinárias Geringonças de bombar água entre diques. Talvez por isso, há mais de um século que os seus governos são multipartidários, por vezes de ideologias contrárias, mas lá foram capazes de fazer umas flores.

São os herdeiros destas gentes e destes feitos que hoje vão a votos. Esperemos que não metam água…

Tiro ao Boneco

Pérfido e vil traidor à pátria, ingrato e rancoroso, mesquinho e malfadado, eis o perfil que convém ao vilão do momento mediático. Na hora de glória do filho mais pródigo da nação, na falta de melhor notícia, nada como uma parangona sobre traição à nação e aos seus símbolos, sobretudo aos de carne e osso. Compreende-se. No momento de idolatrar o melhor do mundo, uma vez esgotada a notícia da vitória, nada como o contraste entre a virtude e a ignomínia, uma notícia para execrar outra personagem. Bem, pelo menos à primeira vista porque após leitura tudo se relativiza. O protagonismo coube a um velho desafortunado da nossa história desportiva, ex-seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz. Parece que entre os seleccionadores com direito a voto na eleição dos melhores, não favoreceu os compatriotas a concurso.

Terá mesmo votado contra? Em rigor, não! Não, porque não lhe coube a decisão sobre o sentido de voto. Foi mandatado. Se em Roma, sê romano, em Teerão sê iraniano. Parece que entre os persas, tal como nas grandes e liberais democracias do mundo, a lógica de um voto por cada homem cede o lugar ao colégio eleitoral, composto por super-eleitores, treinadores da Iran Pro League, que entre si decidiram o voto do treinador português, seleccionador do Irão e injustiçado vilão de mais esta desventura. O caso não é de todo aquilo que aparenta, mas à maioria pouco importarão os factos. Perante a notícia manipuladora, avançará o pelotão de fuzilamento. Vamos ter tiro ao boneco.

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Titanic 2

Promovida como embarcação inafundável, a candidatura que se propôs levar a bom porto aquela que seria a primeira mulher presidente dos Estados Unidos da América, naufragou pela segunda vez. A gélida realidade democrática, o iceberg da vontade das gentes comuns deixou mais uma vez o apaixonado casal aquém do destino.

Parece que o mundo inteiro insulta os votantes, que coitados sem culpa exerceram o seu direito de acordo com o critério que muito bem entenderam, pois mesmo que tenha sido sem pensar, foi legitimo. Ilegitimo é o nosso palpite, mesmo que a isso tenhamos sido sugestionados por semanas de intoxicação mediática. Indignamo-nos quando Herr Schäuble disserta sobre a nossa democracia, negamos-lhe o seu direito de preferência, mas não nos coibimos de exibir o nosso. Logo nós que por várias vezes elegemos tão sórdidos e tristes figurões, e não contentes, tratámos de reeleger alguns deles.

O ridículo é noção vaga e distante, sobretudo quando invocamos temores quanto ao futuro do mundo. Tantos que vejo e ouço hoje afirmar que este desfecho será terrível, será horrível, mas esquecem, ou não sabem apontar a razão concreta, para além da antipatia, que aliás partilho. Contudo, uma guerra travada sem ideias, centrada em emoções, por mais visceral e brutal que tenha sido, e foi, nada nos disse sobre as verdadeiras intenções ou planos. De parte a parte, diga-se. Tenho dificuldade em compreender o porquê de tanta preocupação, de tanto drama. Não é que subestime a estupidez humana, simplesmente não creio que outro resultado o evitaria.

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USS Constitution

Com o fim da Revolução Americana e a Independência dos Estados Unidos, a frota mercante Americana deixou de usufruir da protecção da Royal Navy. Outrora salvaguardada pela dissuasão do poder naval britânico, a nação americana viu-se então, e pela primeira vez, à mercê da pirataria. Em resposta, o Congresso Americano promulgou o Naval Act de 1794, o qual lançou as bases para criação da primeira força naval permanente dos Estados Unidos da América. Foram então encomendadas seis Fragatas, quatro delas com 44 canhões e duas mais ligeiras, “apenas” com 36 peças de artilharia. Construídas em madeira, combinando madeiras secas e verdes, sobretudo Carvalho e Pinho, eram navios robustos, com suficiente poder de fogo para enfrentar qualquer Fragata inimiga. Contudo, nenhum deles podia ombrear com os poderosíssimos navios de linha das marinhas europeias, embate que no entanto poderia ser evitado graças à sua rapidez e agilidade de manobra.

De entre estes seis navios, apenas o USS Constitution sobreviveu até aos nossos dias. Baptizado pelo primeiro presidente americano, George Washington, foi lançado à água em 1797. Combateu corsários otomanos, piratas do norte de áfrica, britânicos e franceses. Em 1812, ganhou a alcunha “Old Ironsides“, após derrotar o HMS Guerriere, fragata britânica cujos projecteis fizeram ricochete no casco do navio americano. O costado em carvalho foi mais forte que o ferro! Com mais de dois séculos de serviço, é hoje o vaso de guerra mais antigo do mundo e curiosamente é de entre todos os navios americanos actualmente no activo, aquele que mais navios inimigos afundou. Foi aliás o único que já o fez, facto que quanto a mim comprova que o rumo da politica externa americana é completamente imune ao desfecho do circo mediático que hoje (finalmente!) termina.

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Grand Prix

ferrarO cancelamento do Grand Prix de Lisboa causou grande tristeza, desalento e até alguma revolta entre os milhares de Tiffosi que se deslocaram à capital para vibrar com as emoções da competição. Os entusiastas suportaram e sobreviveram a grandes privações e desventuras, como voos lowcost, serviços de táxis ou até à compra de bilhetes de metropolitano para no fim se verem obrigados ao regresso, sem o justo premio do evento desportivo. Mais de duas décadas após a primeira corrida que opôs um Burro a um Ferrari, o conceito comprovou o seu enorme potencial de atracção turística. Diz a sabedoria popular que a forma mais sincera de elogio é a imitação, mas nem sempre é possível reeditar os grandes eventos de outras eras. Burros habituados às condições de stress do transito urbano são hoje raros, pelo menos entre quadrúpedes.

Parece então que alguém se desobrigou de comparecer ao compromisso. Os promotores falam em censura, as autoridades municipais dizem que tudo não passou do regular funcionamento das instituições, no caso as sanitárias e de saúde animal. Preocupações com o estado do tempo e a impossibilidade de ferrar o animal para piso molhado estão na base do aviso das autoridades competentes. Por outro lado, as associações de defesa dos direitos dos animais, acusaram os promotores de atentarem contra a dignidade do animal humilhando-o na via publica. Devo dizer que discordo deste argumento – Se alguém sairia humilhado neste evento, seria obviamente o Ferrari, que aliás, foi bloqueado por falta de titulo de estacionamento válido…

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G.I. Jane

Num mundo em permanente mudança, a misoginia vai perdendo terreno para a igualdade entre os géneros. Nenhum lugar, nenhuma posição ou profissão está hoje vedado ao sexo feminino. Nem sempre assim foi. Há bem poucos anos tudo era ainda muito diferente, muitas portas permaneciam injustamente fechadas às senhoras. O clássico do cinema de hoje fala-nos disso, relembra-nos dos tempos idos do final do século passado, quando as mulheres de armas não podiam ainda combater. Não sendo baseado numa história verídica, G.I. Jane foi um filme marcante para muitas (então) jovens raparigas, contando-nos a estória da primeira mulher a concluir a recruta dos famosos SEALS, unidade de elite da Marinha Norte-Americana. Foi um filme inspirador, fez da protagonista, Assunção O’Neil um ídolo sem igual e ascendeu a actriz que a protagonizou à fama mundial, uma das mais bem pagas do universo, Demi Cristas.

Foi há dias anunciada a primeira sequela, o segundo filme da série, intitulado G.I. Jane 2 – O Assalto à Capital. A protagonista apresenta-se destemida, apta e pronta para qualquer missão. Ai vai ela ao ataque anfíbio, desembarcando, quem sabe, de algum submarino que o seu antecessor tenha adquirido e à imagem dele condicionar os aliados de sempre. Ele, o antecessor, reconhecidamente um especialista em entalar os líderes laranjas, triturou uns quantos e a nenhum deu descanso. A nova e voluntariosa líder segue-lhe as pisadas com distinção. Escolheu o momento com mestria e apresentou-se no terreno para travar a batalha que lhe convêm. Assim se faz o culto da líder.

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