Category Archives: Deriva

Nem só da arte de marear se faz rumo, por vezes é a deriva que nos leva a bom porto.

Não me demito. Câmbio.

15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.

Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o  Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.

Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.

Câmbio

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Pensar além do Pikachu

Há poucos dias defrontei-me com o fenómeno do momento: de repente, pessoas na casa dos 30, a jogarem no telemóvel aquilo que depois vim a saber que era o jogo dos Pokemons. Assisto a conversas para lá da minha capacidade de compreensão: portais, andar de carro a caçar pokemons, não ter mais dinheiro para andar por aí, “ir lá jogar é caro!”, o gajo perdeu aquela zona, ele ganhou aquela zona toda, acabou com o jogo na região… não sei se era tudo acerca do pokemons ou não, mas era sobre uma realidade num mundo virtual. Alertaram-me que estes jogos são bons porque obrigam as pessoas a mexerem-se, a saírem de casa… para jogar, e a ir a sítios para…jogar!

Quando andava na faculdade sabia de colegas meus que jogavam horas e horas no computador, faltavam às aulas, estoiraram playstations por excesso de uso etc… Não quero impôr o meu ponto de vista a ninguém, mas naqueles tempos li livros que me abriram uma visão do mundo, que moldaram as minhas escolhas futuras, que faziam o contrapeso com aquilo que estudava. Li romances que ainda hoje recordo com saudade, li poemas que ainda hoje sei de cor, apaixonei-me pelo Carlos da Maia, vibrei com o Primo Basílio, sorri com a imensa beleza do Adriano, chorei Por Quem os Sinos Dobram e enfureci-me com as Vinhas feitas de Ira mas tive Esperança com a Dignidade Humana.

Não quero impôr a minha visão a ninguém, e não sou pelo utilitarismo de todas as opções. Não existe nada mais delicioso do que poder fazer algo simplesmente porque gostamos, sem utilidade futura, apenas para nosso imenso prazer de gastarmos um tudo em troca de nada simplesmente porque sim e sermos felizes com isso.

Mas não posso deixar de olhar à minha volta e de, dadas as devidas distâncias em termos de preferências entre mim e as outras pessoas, me questionar sobre as imensas formas de alienação social existentes. Programas da manhã e da tarde, onde se discutem assassinatos e violência doméstica em famílias completamente disfuncionais, onde se falam de casos concretos de pessoas que dizem “não quererem trabalhar”, onde se questiona uma bruxa na televisão sobre problemas pessoais, traições do marido ou o futuro de um filho doente. E onde aparece um psicólogo a atacar “ciganos”, num dia banal de degradação televisiva e não muito diferente do habitual, e de repente todos se indignam! Apenas aparece a indignação nesta e noutra situação especifica.  As pessoas indignam-se com o ataque aos ciganos mas não se indignaram quando bairros inteiros de ciganos foram destruídos para que os mesmos ciganos fossem metidos em prédios nos quais não queriam viver! Por alguns dias, a caça aos Pokemons teve competição em Portugal com a caça ao psicólogo que ataca ciganos.

A indignação ditada pelas redes sociais é também um meio de promoção do jogo do caça pokemons… de repente a sociedade está infantilizada pela caça de pokemons. A revolução tecnológica que tem incontornáveis vantagens e que revolucionou a nossa vida, trouxe também veículos não só de partilha de informação e distracções conseguidas de forma muitas vezes imediata, sem dificuldades, evasivas e viciantes porque fáceis e envolventes. A dedicação de várias horas diárias a uma realidade virtual é uma forma de alienação social, que desformata o processo de socialização e afasta o individuo da sua realidade e do que o envolve. Obviamente que o processo não é exterminador como os profetas da desgraça proclamam, e encaixa na perfeição na sociedade que construímos actualmente.

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Pretendem-se raciocínios curtos e imediatos orientados para o resultado mais eficiente no curto prazo e que encaixa na ideia de encurtamento do tempo e na obtenção da eficiência. Não se pretendem analises muito profundas, daí as noticias serem curtas e rápidas sem grande enquadramento e estrategicamente colocadas para servirem um objectivo: informar e construir uma opinião pública que não ponha em causa a ordem vigente. Promoção de evasões sociais consumíveis facilmente: um programa de televisão onde se apresenta a opinião de terceiros, um reality show aludindo à intimidade humana no grande ecrã, um jogo no computador ou até no telemóvel, com aplicações de fácil acesso com objectivos mais ou menos acessíveis de progressão no jogo e por isso atractivo e viciante. As aplicações que envolvem jogos e internet tem ainda outros perigos, nomeadamente a aceitação de termos onde se cedem dados e informações pessoais a empresas privadas sem que haja um controlo sobre o que é feito com tais informações e sem que haja uma legislação eficiente acerca disso.

Grande parte do que nos é hoje oferecido gratuitamente e de fácil acesso não o é tão gratuitamente e de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, saberemos a conta. A tecnologia está popularizada mas apenas parcialmente socializada. Os meios e os fins da tecnologia, os produtos finais consumidos e vendidos ainda não servem a maioria da população na medida em que quem os controla tem interesses bem diferentes de quem os consome. A distracção de um simples e mero jogo inofensivo que ganha milhões de fãs deve levar-nos a pensar além do Pikachu.

Um português de cherneira

Curioso que num período de tão grande exultação nacional aos feitos desportivos das últimas semanas, tenhamos como antítese o sentimento de vergonha, quiçá nojo, por um português assumir um alto cargo numa das maiores instituições bancárias do mundo.

Durão Barroso, o homem que fez questão de estender o tapete vermelho para o lançamento da guerra necessária, o patriota que se sacrificou pelo bem maior, um dos principais arquitectos e lutadores pela Europa de hoje.

Ao contrário do sentimento de indignação internacional, tenho cá para comigo que esta poderá ser uma excelente oportunidade de, a médio prazo, caminharmos para um mundo melhor. Vejamos, Barroso ‘patrocina’ uma guerra que 10 anos depois se revela desastrosa, toma a decisão de abandonar o governo de Portugal por estar garantida a situação económica do país que 10 anos mais tarde bate no fundo, por fim dirige a comissão europeia durante 10 anos e pouco depois da sua saída a Europa parece estar à beira da implosão.

Repararam nestes ciclos de 10 anos? Pelo que tenho esperança de que, conseguindo manter-se no novo cargo durante tempo suficiente, daqui a 10 anos tenha enfraquecido a Goldman Sachs ao ponto de poder vir a ser engolida por, digamos, um nacional Caixa Quase Novo Banco! Será a vingança perfeita, o culminar de um complexo plano secreto de décadas, delineado pelo próprio, ao estilo cavalo de tróia neo-liberal. Ouçam o que digo! Ainda o carregaremos em braços para o panteão nacional por tal golpada de mestre. A recuperação de milhares de milhões de euros, de ética, de justiça e de toneladas de vergonha!

Não me venham cá com teorias da conspiração, não acredito nessa treta dos grupos secretos que tentam manipular o destino do mundo para proveito próprio. Grupos que nomeariam para altos cartos a título de recompensa por serviços prestados e capacidade já demonstrada para escolher o lado certo sempre que exista um inevitável conflito de interesses.

Não, eu acredito que a história do Homem se faz pela mão de cada homem. Força Durão, tu és o tuga no local certo, afinal, quando se está há tanto tempo no tanque dos tubarões, só saber nadar não chega, há que ganhar guelras e ter olho vivo.

Eu acredito em ti. Acaba com eles!

PS – não vás ter fraca memória de curta duração reforço que falo da Goldman Sachs, não dos teus conterrâneos lusos e europeus, ok?

Um-português-de-cherneira

Na corda bamba

Temos vivido nestes últimos meses uma popular forma de estar, o “quem não chora não mama”. São manifestações, greves, apelos, lobbies que o governo tem encaixado com mestria, ouvindo argumentos, fazendo concessões, mostrando-se sensível, atento ao tema fracturante em questão, conseguindo ao mesmo tempo o apaziguar dos agentes dessa agitação e o atenuar dos seus impactos em termos de opinião pública.

A promessa de uma nova era comprou um período de aparente paz social e mediática onde na verdade não há nada que concretamente possa ser apontado como estando melhor, nem como estando pior. A mudança de discurso, as reversões em curso, a crítica de onde antes nos chegavam elogios, criaram um período experimental da geringonça durante o qual, mesmo não se percebendo bem como funciona, se crê na sua pontencialidade e utilidade futura.

Do passado chegam os números da nova fiscalidade, que será aviso suficiente para os resultados práticos das certezas orçamentadas de receita fiscal futura. Traduzido em números a receita fiscal com impostos sobre tabaco, alcool  e sacos de plástico foi um desastre, mais de metade abaixo do estimado, no entanto do ponto de vista do consumo e do ambiente só podemos felicitar-nos com este sucesso. Afinal a tributação agravada sobre estes bens prejudiciais tinha como objectivo diminuir drasticamente o seu consumo ou simplesmente aumentar a receita? Qual será a intenção do recente aumento sobre os combustíveis?

Aproveitando ainda o emblemático 1º de Maio e demonstrada que está a capacidade da fiscalidade influenciar rapidamente comportamentos menos recomendados, sugiro o seu uso para diminuir a precariedade no trabalho e promover o aumento dos salários. Bastaria tabelar o IRC com escalões em função da carga salarial vs volume de pagamentos realizados a trabalhadores independentes e da percentagem de trabalhadores a auferir o salário mínimo. Penalizar fiscalmente as empresas que fomentam esse tipo de vínculos, beneficiar as que não os praticam e dão melhores condições e rendimento aos seus colaboradores.

Concluindo, sente-se que este governo está a mudar estratégias, a arrepiar caminho em relação ao rumo traçado pelo antigo governo, no entanto fá-lo de uma forma tão silenciosa que não é de todo perceptível qual a sua dimensão, nem qual a eficácia esperada dessas mudanças. Em termos mediáticos, a crispação, a confrontação do governo com as suas opções, o tema crise, tudo parece ter desaparecido, existindo foco nos escândalos ‘autorizados’ a vir a público, na dinâmica do novo Presidente da República e no entretenimento do momento. Será este um sinal do acalmar da tempestade? A crise está finalmente a dissipar-se? Ou mais do mesmo estará para vir?

Corda-Bamba

Abstenção da coerência

Este foi um FDS de derby lisboeta com milhões alienados pela ‘grandiosidade’ do embate entre Sporting e Benfica e como sempre as bancadas abarrotadas, as audiências no pico.

A minha relação com o futebol passou por vários estágios. Até ao início da adolescência ignorei-o, depois joguei-o, tornei-me fã e sócio de um clube: o Glorioso. Cheguei a ter passe durante 2x ou 3x épocas não falhando um jogo. Depois deixei de ir ao estádio mas tentava não perder a transmissão dos seus jogos, até que progressivamente comecei a dar aquelas 3 horas por jogo (contando com o pré e pós) como perdidas. As coisas que eu poderia fazer nos dias acumulados que gastava a ver futebol. E cortei de vez com esse mundo de fantasia e idolatria. Num ápice libertei-me dos calendários de jogos, das novelas futebolísticas e de todo o entretenimento montado à sua volta. O bem que me fez e sem qualquer tipo de ressaca!

O que me surpreende nos dias de hoje é a falta de coerência de muitos milhares ?milhões? de adeptos portugueses que alegam não se interessar por política, não votar, porque os políticos são todos iguais, corruptos e mafiosos. Ou seja, a retaliação para com a máfia política é a ausência na participação consciente e activa no único acto que poderia afectar directamente essa máfia.

A incoerência vem do seu comportamento para com o futebol. Nos últimos anos foram revelados factos irrefutáveis de que o futebol é corrupto, é mafioso em todas as suas vertentes. Presidentes de clubes, agentes desportivos, árbitros, jogadores, em todas as camadas é gritante a existência de mais um sistema criminoso. No entanto no futebol não existe retaliação para com esta realidade. Ao invés da abstenção na ida aos estádios e no assistir aos jogos na verdade existe assiduidade e atenção tão segura que permite a assinatura de contratos milionários apenas para garantir direitos de transmissão.

Talvez do que Portugal precise seja da substituição dos agentes políticos pelos agentes futebolísticos. PS, PSD, CDS, etc, substituídos por uns superiormente representados SLB, SCP, FCP, etc. Seguramente que os apoiantes de cada partido/clube iriam querer demonstrar a sua supremacia sobre os eternos rivais rumando às urnas em grupos organizados, entoando cânticos entusiásticos, pelo que mesmo que isto nenhum benefício trouxesse ao país ao menos teríamos muito maior legitimidade para o empossar dos seus governantes.  E assim teríamos presidentes de clubes a presidir a nação em simultâneo, comentadores desportivos como deputados em acesos debates parlamentares sobre estatísticas e falhas de execução das políticas do último defeso, misters e jornalistas a elaborar estudos de pormenor e projecções detalhadas sobre os próximos desafios, sempre que um banco fosse desfalcado prontamente se resolveria a situação com a contratação de grandes craques, e por fim os adeptos/eleitores atentos, interessados, com alto nível de exigência, levando ao rolar de cabeças quase imediato sempre que os resultados não apareçam.

Assim de repente parece-me um sistema funcional! Talvez até mais do que o de hoje! O melhor de tudo é que esta concentração de gente honrada, o uso de linguagem fácil e acessível,  levaria ao aumento do interesse da população e a tal valorização do Canal Parlamento que acredito que viria a ser possível pagar a dívida externa só com a venda da exclusividade dos seus direitos de transmissão.

Se nada disto vos fizer sentido experimentem passar por um ano de castidade futebolística e voltem a reler este post. Tenho a certeza que é post para golo, nem que seja um auto-golo ou mal anulado.

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A Inexplicável Evolução

Hoje, ao sexagésimo quinto dia de 2016, o nosso blog ultrapassou o número de visitas recebidas durante todo o primeiro ano, 2011. Não sabemos se a evolução resulta de um trabalho bem feito ou se é mera consequência da propagação da demência pela população portuguesa. Embora a imodéstia nos empurre para a primeira, algures em nós persiste uma réstia de realismo que nos leva a suspeitar da segunda.

Amamos a nossa língua materna e muito embora a possamos mal tratar, fazemo-lo sempre por manifesta ignorância e nunca por velada vontade. Não obstante esta opção pela expressão numa só língua, a nossa, as visitas ao nosso blog são oriundas de um número crescente de países. Com excepção das regiões polares, chegamos a todos os continentes do planeta. Também desconhecemos a causa para esta disseminação à escala global. Ignoramos se é igualmente influenciada por razões do foro da saúde mental, ou se é mera manifestação da diáspora. Talvez ambas. São mais as dúvidas do que as certezas, por isso caro internauta, se anda perdido, não nos siga.

Apesar da inexplicabilidade dos motivos para os fenómenos acima relatados, não ficará mal o agradecimento. Estamos gratos a todos, aos que conosco partilham o rumo, mas igualmente aos outros, àqueles que ainda mantêm alguma sanidade, pelo menos a suficiente para não terem ainda embarcado na nossa deriva.
Obrigado! Bem-haja a todos.

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O confuso mundo cor-de-rosa

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2016 tem-me deixado demasiado confuso, quase incapaz de processar factos para formar opiniões seguras.

Ainda na ressaca de 2015 o futuro parecia um pouco mais risonho, mas de imediato surgem sinais contraditórios com a maior fonte de energia do planeta a tornar-se mais barata e apetecível, o suficiente para que governos gulosos cavalguem a onda das maiores margens de lucro, ao invés de potenciar o desenvolvimento exponencial de um parque automóvel assente numa rede eléctrica robusta e fiável. É então que me lembro que esta é conversa global antiga com pelo menos 20 anos de meu testemunho. E fico confuso como conversa e medidas com mais de 20 anos podem ser consideradas uma novidade refrescante, um novo começo.

O fantasma dos bancos recentemente desaparecidos assombram-me também com frequência. Levam-me a suspeitar ser impossível a separação entre gestão e governação nestes casos catastróficos e eis que, quando começo a recuperar a confiança nos nossos políticos e reguladores, é a própria comissão europeia que nos dá um golpe de machadada. Acusam-nos de não sermos nem íntegros nem transparentes, atrevem-se a sugerir-nos medidas fáceis de combate à corrupção. E fico confuso como nos aventuramos na imprevisível rota da austeridade, sem demonstração de resultados prévios, e nos coibimos de nos lançarmos no combate à corrupção com medidas demonstradas eficazes noutros países.

E é quando penso obter refúgio noutras paragens que me deparo com os refugiados Sírios. Primeiro deveríamos acolhê-los a todo o gás para pouco depois se fecharem fronteiras, se baixarem níveis de hospitalidade e se controlarem as notícias de ‘má publicidade’ aos refugiados. De uma crise humanitária urgente passou a assunto corriqueiro, hipoteticamente controlado qb ou quiçá mesmo desaparecido. E fico confuso, perco o genuíno sentimento de solidariedade, tão habilmente cultivado pelos media, e volto ao meu velho eu, mais cru, mais beligerante, mais prático.

É ao recomeçar a pintar de cinza os cenários cor-de-rosa apresentados que percebo a falta que me faz o professor Marcelo Rebelo de Sousa de domingo à noite, para me sugerir literatura da sarjeta que me mantenha entretido e alheado da verdadeira sarjeta.

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Estafeta presidencial

As eleições presidenciais a ocorrer já neste mês têm 10 candidatos, porém Marcelo Rebelo de Sousa parece ser o já eleito ao cargo.
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Depois de 10 anos de sofrimento com Cavaco Silva, vejamos o que poderá vir aí. Pela espada do Dom Afonso Henriques que isto não augura nada de bom!

Marcelo Rebelo de Sousa, exímio comentador televisivo, fazedor de opiniões há larguíssimos anos, é assim das pessoas mais influentes e por isso, também, das mais poderosas do país. Já é um clássico que em qualquer café ou tasco na segunda feira que se debite as opiniões e julgamentos por ele proferidos no domingo. Sai assim do seu emprego de comentador para o mais alto cargo da nação.

Tem assim um capital muito superior a qualquer político. Ele próprio é o juiz de todos os políticos. Aliás, ele é o juiz de tudo. Fala barato por excelência, até de espirros fala se for preciso. E não, não estou a brincar. Eis que hoje me cai em mão um livro sobre… espirros lá está, e com prefácio de quem? Do Marcelo!

Marcelo, fala barato por natureza, é um homem muito bem relacionado. Professor, de profissão e de nome (o que até dá uma certa autoridade no saber, que o povo é muito ignorante), homem do PDS, bom nadador, juiz na causa de todos, é homem próximos das mais altas esferas do poder. É o eleito pela comunicação social, que tomou partido de si antes mesmo de ser candidato. Gasta menos na campanha por isso, não precisa simplesmente de gastar nada, até capa de jornais tem em plena campanha eleitoral. Aliás, a comunicação social em Portugal tem mostrado tudo aquilo que não é: séria, isenta e honesta! Talvez por isso se mantenham jornais que não dão 1 tostão de lucro durante anos! Serve inteiramente os interesses do capital. A comunicação social é um investimento que o capital sempre teve, e agora domina sem se quer ter interesse em dissimular, estando por isso disposto a assumir as perdas, que mais não são do que investimentos com elevados retornos privados. Nem a RTP faz um serviço público, canal pago com os impostos de todos nós! Ainda ontem, fiquei abismada com a prestação do José Eduardo dos Santos perante o debate entre Edgar e Sampaio da Nóvoa. Mas depois da sua falta de profissionalismo e de isenção na famosa entrevista ao Sócrates, nada me deveria pasmar.

Não há por isso como ter confiança na informação que nos é dada. Se a comunicação social, que devia ter como objectivo informar em vez de manipular a informação, não informa, os cidadãos e os eleitores não poderão tomar decisões de forma informada e ponderada. Esta é uma das grandes questões das democracias modernas, e da nossa em particular.
As regras do jogo são assim injustas, e quem paga são os cidadãos. As elites têm o candidato que lhes serve os interesses e lhes garantirá o poder económico e assim a sua influência política. É por isso que tantos se sentem alienados e desiludidos. Porque no fundo, quem elege é, mais uma vez, o poder económico, os banqueiros e a comunidade empresarial. Como se essa já não tivessem bem servidos pelas suas sociedades de advogados, as quais por sua vez têm deputados eleitos, e assim legislam segundo os interesses da oligarquia económica. Os interesses dos cidadãos, daqueles que trabalham, dos que infelizmente não têm trabalho, dos que já trabalharam, dos mais pobres, o interesse desses que é o interesse da maioria, do povo, do país, esse ficará mais uma vez subjugado aos interesses da minoria. Até porque haverá uma maioria, silenciosa, alienada e desiludida que não irá votar. Os custos de oportunidade de ir votar, de forma devidamente informada são demasiado elevados para aqueles que se sentem esquecidos.

Vejamos, vejamos alguns exemplo representativos de Marcelo:
– Marcelo, homem de direita e comprometido com o antigo regime, filho de um homem do regime e afilhado de Marcelo Caetano;

– Marcelo que se diz defensor do Estado Social, votou contra a lei de bases do Serviço Nacional de Saúde. Ou seja, Marcelo, foi contra a saúde universal e gratuita para todos os cidadãos;

– Marcelo é um homem próximo do poder económico, alias tão próximo mas tão próximo, que é amigo intimo de Salgado, em casa do qual passava férias no Brasil.

Marcelo é um homem do sistema. Não há por isso esperança que a mudança seja feita por alguém que é um dos interessados no actual estado de coisas.

 

Anúncio aos navegantes

Almirantes, marinheiros, grumetes, passageiros, clandestinos, ratazanas, aprocheguem-se! Vimos por este meio anunciar que 2015 foi um ano de boa navegação para este nosso navio, mesmo optando os nossos bravos homens e mulheres Ao Leme por rotas muitas vezes contracorrente e contranatura.

Num ano ainda de crise, em que tombaram entidades bancárias, em que caiu um governo em desgraça/trapaça, em que descem a pique todos os índices de qualidade de vida da generalidade dos portugueses, o nosso blog conseguiu crescer, atingindo as mais de 1500 visitas mensais e triplicando a sua base de simpatizantes no Facebook.

A vida não está fácil, a corja corsária continua infiltrada naqueles que se encontram ao leme de Portugal, pelo que continua a ser essencial o nosso esforço, aparentemente inglório, de agitar as águas e mentalidades. Existindo impedimento legal de  cortar algumas há que tentar mudar as outras cabeças, libertá-las da subjugação ideológica e moral vendida pelos controladores das massas populares, para por fim mudar as sentenças e navegação nacional.

Desejamos a todos muita força e discernimento para o ano vindouro.

Nós por cá continuaremos a remar e velejar livremente dentro das nossa possibilidades.

Boas saídas de 2015 e melhores entradas em 2016!

ao-leme

E depois de Hiroshima e Nagasaki?

Fez hoje 70 anos que os EUA lançaram sobre Hiroshima a primeira das duas bombas atómicas que levaram à rendição do Japão na 2ª Guerra Mundial.

Três dias depois, fará no domingo 70 anos, foi lançada a segunda bomba em Nagasaki.

11 h Nagasaki

A investigação cientifica, o investimento em armas, a economia de guerra, a vontade e a acção humana mataram no Japão mais muito mais das 200 mil pessoas, número redondo, que morreram queimadas com o calor e o fogo. Outro número redondo qualquer bastante mais impreciso, forma o número de pessoas que vieram a morrer meses e anos depois devido à exposição à radioactividade. Os efeitos causados fez com que os seus sobreviventes transmitissem as lesões para as próximas gerações. Ainda hoje, crianças nascem com problemas genéticos causados pela radiação das bombas. As bombas varreram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, levando tudo, prédios, pessoas, animais, árvores, tudo, afectou os solos, entrou na própria genética daqueles que sobreviveram a este horror, e manchou para sempre a Humanidade.

Hiroshima

Sombras de Hiroshima

Nagasaki

Não existe dignidade na guerra. E é nestes momentos que me apetece malhar nos americanos… Não por Hiroshima nem Nagasaki, porque só nos resta um silêncio ensurdecedor e o fingir esquecer aquilo que jamais poderá ser esquecido… mas porque mantém uma economia da guerra, porque fazem dinheiro com a guerra, porque fazem guerras simplesmente porque sim (como com o Iraque que quiseram porque quiseram ir chagar o Saddam devido às armas de destruição massiva que nunca foram encontradas!), porque vão para o Afeganistão e a coisa é sempre pintada em forma de ameaça à paz mundial, temos lá nós ferramentas para avaliar a situação… resta-nos acreditar nos jornais, no presidente sempre idóneo dos EUA e nos chamados peritos (que de resto estamos na era deles!). E assim foi a segunda metade do séc.XX, e assim se entrou no séc XXI e estamos em 2015 e só se houve falar das ofensivas americanas.

Não quero discutir as razões para os conflitos armados em cada década e a cada guerra. Quero apenas recordar aquilo que me esmaga enquanto ser humano: os milhares de pessoas mortas, feridas, sobreviventes e gerações seguintes, todos vítimas há 70 anos da bomba atómica.

E quero recordar que as décadas seguintes a este verão de 1945 foram de corrida ao armamento, com imensos pretextos, e que armas bem mais poderosas e destrutivas estão desenvolvidas. O ensurdecedor silêncio não chegou!

E falamos do euro, da gorda alemã, do Bruno Maçães que é um idiota mas não é pior do que todos os outros, falamos das eleições, falamos muito de precariedade mas pouco das suas consequências práticas, e de quando em vez ouvimos as ofensivas americanas, e no outro dia foi a mega ofensiva turca contra jihadistas e curdos do PKK, que são obrigados a lutar para sobreviver… mas de Paz falamos tão pouco! E do Desarmamento nem falamos… Armam-se porque os outros se armam, há discussões e pressões para o acesso à bomba atómica, há quem desista, há quem jure que não tem, há quem tenha e nem jura… Quando deveria-se jurar era o efectivo compromisso de desarmamento nuclear mundial!

Mas depois de Hiroshima e Nagasaki nem sei como a poesia sobreviveu, mesmo depois de ter sido dada como morta. Será isso aquilo a que chamam esperança?


Hiroshima