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Nem só da arte de marear se faz rumo, por vezes é a deriva que nos leva a bom porto.

Reflexão pedagógica sobre as Marchas Populares de Lisboa

Calhou de assistir na TV ao arranque do desfile na Avenida da Liberdade das marchas populares deste ano. Antes do começo do evento os anfitriões gabavam-se do alto nível do espectáculo, do seu impacto positivo e capacidade de atracção de turismo. As primeiras exibições foram de escolas primárias e secundárias, depois vieram algumas marchas em competição e fiquei consternado com o que vi inicialmente.

Nada a apontar ao coração do evento, as várias marchas em competição onde adultos e adolescentes polidos, preparados, ensaiados, cumpriram com aquelas que são as expectativas para o evento. Pode gostar-se ou desgostar-se do estilo mas penso que não desiludiu o formato, no seu conjunto de estética, coreografia sonoridade, cumpriu o seu papel de manter viva, popular e turística esta tradição.

Mas o que me fez muita comichão foram as marchas escolares que abriram o desfile com baixíssimo nível, como se a exibição fosse uma simples ordem de soltura e seja o que for que aconteça estará sempre maravilhoso e propenso a elogios incondicionais. Falta de sincronia, falta de afinação, ausência de magia e talento. Apesar de alguma vergonha alheia está tudo bem, são crianças, é um momento simbólico, e o popular tem conotação com expressões artísticas pouco polidas, mais baseadas em sentimento e atmosfera do que perfeição artística. No entanto, para quem tenha contacto com eventos similares realizados por outras culturas, nota-se uma enorme diferença no empenho e desempenho das novas gerações, mais focadas, briosas, em executar performances perto da perfeição. Interpreto isto como um sinal dos valores que passamos aos mais novos, de que apesar de momento tão marcante, com alta visibilidade e representatividade de uma cultura, não são precisos preocupação nem trabalho para uma entrega inesquecível à altura do evento. O suficiente menos é maquilhado na comunicação social e institucional para um muito bom, baixando os critérios e apreciação da verdadeira excelência. E isso é receita certa para a atrofia do desenvolvimento do potencial existente em cada criança e jovem, por arrasto do futuro de Portugal.

A culpa não é das crianças e jovens mas de quem tem a responsabilidade de os preparar e incutir-lhes uma mentalidade de entrega e superação. Por cá aparentemente ainda existem alguns temas a resolver na equidade da acessibilidade ao ensino superior mas lá fora existem grandes preocupações emergentes com a degradação nas capacidades de leitura e realização de cálculos matemáticos. A origem do problema é a mesma, o facilitismo, seja por diminuir critérios de exigência/avaliação para diminuir “traumas” e custos de reprovações, seja por estimular o uso das poderosas ferramentas digitais hoje existentes transferindo a aprendizagem do conteúdo para a aprendizagem do uso de ferramentas de apoio que produzem os resultados expectáveis e sujeitos à avaliação.

Parecem situações desconexas, uma simples curta prestação nas marchas de Lisboa e o longo caminho escolar para a maioridade e integração do mercado laboral. Infelizmente interpreto-o como um sinal de que a banalidade está tão aceite e instalada que já nem é barrada à exposição massiva, antes pelo contrário, sendo assumida e transmutada em algo distinto e virtuoso por via do politicamente correcto.

Oxalá esteja errado e em simples exagero de reacção.

Children in traditional Portuguese costumes walking in a festive street parade with onlookers cheering

O domíno do medo e coragem

Apesar do medo de nascer, nascemos, num caos de dor, lágrimas, suor e sangue.

Apesar do medo do desconhecido, crescemos, experimentando todas a sensações sensoriais e emocionais.

Por medo de ficarmos sozinhos, encarneiramos ideologias ou mantemos relações que em nada nos beneficiam.

Por medo de não encontrar um emprego melhor, desgastamo-nos em drenos diários de corpo e alma.

Por medo de consequências pessoais, não nos envolvemos em injustiças globais ou alheias.

Por medo de uma doença conhecida, entregamo-nos a curas desconhecidas.

Por medo de um hipotético confronto de igual para igual, tomamos a iniciativa de combate preventivo a adversários ainda débeis.

Apesar do medo de morrer, morreremos, sabe-se lá como.

A vida empurra-nos incodicionalmente para a coragem nos ritos de passagem obrigatória (ou quase), que nos são impostos por massivas externalidades. O parto, a locomoção motora, o ficar só, o enfrentar do mar, o iniciar do ciclo de ensino, o óbito de quem nos é próximo, acidentes graves, condições crónicas, o aproximar da própria morte. Nestes momentos existe uma grande clareza: ou surge a coragem de seguir em frente ou a atrofia é garantida. Mesmo na morte convém partirmos fortes e em paz, mais não seja para facilitar a vida aos vivos.

Fora deste espectro de acontecimentos a batalha entre o medo e a coragem torna-se mais feroz. O medo é aliciante, oferece o conforto, inevitabalidade e aceitação do status quo. A coragem desassossega, comicha a acção emergente do âmago do nosso ser que procura exprimir-se e agir. O medo preserva o espaço, a coragem salta para o vazio por repulsa a esse mesmo espaço.

Curiosamente a acção resultante do medo é projectada no mundo real, normalmente levando ao reforço das condições que o geram. O medo dominante tanto pode conduzir à apatia como se pode servir da coragem para agir de forma irracional e impulsiva, com consequências imprevisíveis. Já na coragem o que primeiro muda é pessoal, a atitude, a consciência, o pensamento, sendo o principal intuito o sair da zona de influência do medo. A coragem não procura destruir a origem mas sim o medo em si, o resto advirá por si mesmo numa acção tranquila e assertiva.

Num mundo que promove o medo institivo para manipular a construção e direcção da coragem, é importante erguermos defesas informadas, a fim de manifestar uma coragem moralmente firme e impoluta.

A golden-armored warrior with a flaming sword and shield fights a dark skeletal monster with glowing purple eyes on icy terrain.

Os Ciclopes ao piano: uma mão-cheia de inovação

Venho falar-vos de música, 4 minutos de música. Descreve gigantes mitológicos a trabalhar na forja, martelando ritmicamente, a transformação pelo fogo. Um cenário rude e fabril, mas que, em rigor, precede a Revolução Industrial. É música! Barroca na forma, romântica no conteúdo. Chega-nos graças à acção isolada, mas involuntariamente concertada, de 5 notáveis.

O primeiro? Inglês, séc. XVII, Sir Isaac Newton. Sem o saber, foi o grande maestro que orquestrou tudo através da sua Lei da Gravidade. Inovou porque esclareceu.

O segundo? Italiano, então cidadão da cidade-estado de Florença, séc. XVIII, Bartolomeo Cristofori, deu corpo ao som do cravo e inventou o piano. No cravo, o som nasce pelo beliscar das cordas por um plectro, o que cria um som seco e brilhante, de textura metálica, mas cru, sem grande ressonância; as notas são vivas, mas breves. Um cravo nunca soa como uma orquestra. Cristofori inovou: criou o mecanismo de martelos que permite controlar a intensidade do som, algo que o cravo ignorava. Piano, em italiano, significa suave, leve; daí o nome completo pianoforte, instrumento que permite variar a intensidade sonora entre o mais suave e o mais forte.

O terceiro? Um engenheiro francês, séc. XIX, Sébastien Érard. Inovou ao criar o motor que faltava ao piano de Cristofori: a dupla repetição — permite ao martelo escapar à rigidez do mecanismo actuador, com ajuda da gravidade, oferecendo maior velocidade e controlo mais fino; de um modo simples, não é necessário esperar que a tecla regresse à posição original.

Aí vão 3. Quem é o 4.º? Também francês, contemporâneo do inventor do piano, séc. XVIII, foi um teórico da música que estabeleceu as leis que regem os acordes quando escreveu o seu Tratado da Harmonia. Falo-vos de Jean-Philippe Rameau, compositor que nunca escreveu para piano. É ele o autor da obra que hoje vos convido a conhecer ou recordar.

E quem a toca? Dos 5, é o único que ainda está entre nós, o virtuosíssimo pianista russo Grigory Sokolov. Qual a inovação? Bom, ele trouxe para a riqueza harmónica do piano uma obra pensada para o áspero cravo, que não só é mecanicamente mais rápido, como tem dois teclados que facilitam os cruzamentos de mãos.

O desafio? O piano de concerto é uma máquina pesada; as suas teclas, por comparação, são mais lentas na acção. Embora Sokolov não tenha sido pioneiro na adaptação de composições barrocas para o piano, foi o intérprete que as elevou para um novo patamar. A sua mestria reside na combinação aparentemente impossível entre uma precisão mecânica e uma graciosidade rara que, em conjunto, nos revelam o romantismo escondido nos frenéticos ritmos de Rameau. Graças a esta mão-cheia de inovadores, o piano soa tão ágil e preciso como o cravo e, simultaneamente, como uma orquestra.

Antes de vos dizer qual a obra, quais os maravilhosos 4 minutos que vos desafio a ouvir (e a ver), um alerta: não tentem isto em casa! Aquilo que vão ver e ouvir parece fácil, tal a mestria do intérprete, mas não é; é dificílimo. Não questiono o vosso talento ao piano: tudo está relacionado com o equipamento! Sim, mesmo a minoria que entre nós foi agraciada pela lotaria da vida e tem em casa um piano, muito provavelmente não dispõe do equipamento necessário.

Porquê? Porque, como o metro quadrado está pela hora da morte, os pianos domésticos são normalmente pianos verticais. Ora, é aqui que Newton volta a ser chamado: a acção da gravidade desempenha um papel fundamental no mecanismo de Érard. No piano vertical, as cordas estão “em pé”, o que obriga a substituir a gravidade pela acção de molas para que o martelo recue. Esta complexidade extra é contrária ao próprio conceito do piano vertical, que privilegia a simplicidade e a economia de espaço, resultando frequentemente na ausência da dupla repetição. Sem a física a favor, nem o maior virtuosismo do mundo vos salvará de “atropelar” as notas desta peça.

Resta-me revelar a peça: “Les Cyclopes”, da Nouvelles Suites de pièces de clavecin (1728), de Jean-Philippe Rameau, na interpretação ao piano de Grigory Sokolov. Espero que gostem; a mim, lava-me a alma de toda a mágoa e enche-me de alegria.

(Para ver e ouvir, clique na imagem)

Oportunidade para tira teimas às narrativas sobre imigração

O balanço ainda não foi finalizado e os números relativos ao prejuízos são já abismais. Além da disponibilidade de liquidez, será necessária disponibilidade de mão de obra para execução dos serviços e trabalhos necessários à reconstrução e revitalização das zonas afectas.

Desde o primeiro momento os nossos governantes prontificaram-se a facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros. A ala do Chega imediatamente demonstra o seu incómodo insinuando que a resposta poderia ser dada com trabalhadores nacionais se as condições de trabalho fossem atractivas.

Observo, pondero e parece-me oportuno testar ambas as narrativas pensando um pouco fora da caixa. Teremos já cerca de 1.000 trabalhadores em layoff, recebendo dois treços do salário, garantido pelas empresas com participação temporária do estado. Mais certamente se seguirão, sendo que vários poderão ir directo para a situação de desemprego. Só o Distrito de Leiria tem anualmente uma média 9 a 10 mil pessoas em situação de desemprego. Podemos então considerar para este exercício que só na zona mais afectada existem milhares de trabalhadores potencialmente válidos para ingressar os grupos de trabalho a serem criados.

Proponho então o seguinte: que excepcionalmente quem esteja em layoff, ou situação de desemprego, possa acumular o seu salário parcial ou subsídios, com o salário que receberia ao ingressar nas equipas de reconstrução das áreas afectadas. Isto significa que iriam auferir um salário substancialmente acima do que normalmente é pago na área da construção civíl (e outras necessárias como por exemplo na agricultura), esclarecendo se a baixa propensão dos portugueses em fazer este tipo de trabalho tem realmente a ver com a baixa compensação ou com um estigma ou aversão para com trabalhos em obras ou no sector primário.

Em termos técnicos é exactamente o mesmo, tenho experiência directa com empreiteiros que se queixam de não existir mão de obra qualificada para obras, nem nacional nem estrangeira, pelo que a formação e entropia inicial é uma fase necessária em qualquer dos cenários.

Em termos humanos teríamos também um grande trabalho psicológico e social, pois nada melhor para a saúde mental e realização pessoal do que recuperar as nossas habitações e os espaços comunitários directamente, com as nossas próprias mãos e suor.

Logisticamente falamos de aproveitar o capital humano já existente e instalada na região, sem complicações acrescidas de encontrar alojamento e condições dignas para os trabalhadores.Se necessário, para os que estão sem tecto, alugue-se na íntegra os vários hotéis e alojamentos locais na região até que a situação seja resolvida.

Nada contra a vinda de imigrantes, não deixando de achar rídicula a intervenção imediata do Presidente da República que parecia mais lesto em acelerar esta agenda do que em avaliar com ponderação o cenário e amparar a população afectada, mas gostaria de perceber realmente se não conseguimos proporcionar as condições que em teoria permitam reconstruir com a prata da casa.

Provavelmente a solução será um bom mix dos dois, tenhamos a coragem de tomar medidas excepcionais para situações excepcionais.

Para quando a necessária tempestade política?

É impossível ficar indiferente ao nível de destruição e provação a que está neste momento sujeita uma grande parte da nossa população. Portugal não está habituado a tempestades deste nível, o que infelizmente potenciou o impacto. Todos vemos nas notícias o resultado dos ventos ciclónicos. Alguns, como eu, terão tido um contacto mais directo, apesar de distante, com moradores das zonas afectadas e é muito triste sentir o desalento e desorientação em que foram mergulhados.

O trauma humano

Muitas pessoas passaram pela ruína das suas habitações, outras viram-se no meio de um cenário de guerra, onde imediatamente foi sentida a falta de serviços básicos como água, luz, comunicações e abastecimento de combustível e alimentos. Pior do que não saber o que se passa fora da “bolha” física e local que lhes foi imposta, é sentir que nada chega do exterior, como se estivessem ao abandono e esquecimento.

Obviamente a magnitude do evento não permite a resposta global, mas essa racionalidade não é suficiente para fazer esquecer esse sentimento e a constatação de que há momentos em que só podemos contar connosco e com os que estão em nosso redor.

Ao imediatismo da necessidade de sobrevivência, junta-se o fantasma da incerteza quanto ao fim da provação (já que as chuvas torrenciais não param) e ao futuro financeiro e laboral, pelo que é preciso também zelar pela saúde mental nas áreas afectadas, criando as medidas necessárias para o proporcionar.

O real impacto económico

Apesar de as TVs focarem o que se passa na cidade de Coimbra, o território severamente afectado alarga-se no mínimo à maioria dos distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e parte de Castelo Branco (havendo outros distritos afectados consideravelmente).

Falando apenas nos três primeiros estes representam 12% a 15% do PIB nacional, com cerca de 1,3 milhões de habitantes e 750.000 trabalhadores. É indiscutível que o foco deve ser a recuperação e regenaração de comunidades e economia, custe o que custar. Mas vai fazer mossa nos anos vindouros.

Onde estão os planos de prevenção e acção?

No tema das campanhas de sensibilização relativamente a “alterações climáticas” e eventos extremos que irão assolar Portugal a bota não bate com a perdigota. Campanhas mediáticas justicam-nos enormes investimentos para preparar Portugal para o combater e prevenir, mas quando somos alvo de um real evento extremo percebemos que pode ser apenas propaganda.

Falha nas comunicações

Temos um sistema de telecomunicações para emergência e socorro baseado em antenas e fornecimento de energia que pelos vistos está altamente vulnerável, perdendo o pio exactamente nos momentos em que é necessário. Pior, a população perdeu todas as comunicações, a única viabilidade foi sintonizar sinais de rádio, o que foi feito por muita gente. No entanto isso só gerou indignação porque, esperando orientações e actualização sobre o que se passa no terreno, a fórmula era a mesma de sempre: música, entretenimento, notícias generalistas e futebol. Pelos vistos as ferramentas de alienação não têm o mesmo efeito quando foi activado o modo de sobrevivência. O que a população esperava era articulação de acções, ajuntamentos, mensagens de esperança, demonstração de progresso no terreno, o que teve foi uma desvalorização total da sua desgraça e ocupação da única ferramenta de comunicação com conteúdos totalmente inúteis e desenquadrados.

Existem soluções de recurso, por exemplo redes de walkie talkies prontas a distribuir e usar, que permitam ligar as populações próximas e agilizar a sua entre-ajuda evitando deslocações complicadas. Não faz sentido não haver prontidão local para casos de blackout de comunicações e SIRESP.

É preciso desenhar um circuito de informações centralizada que permita comunicar o que se passa dentro das zonas afectadas para o exterior e vice-versa. Para tranquilizar familiares e evitar deslocações em massa por impulso que podem ainda prejudicar mais a situação ao criar pressão acrescida numa zona sem condições.

Falha nas infrastruturas

É compreensível que partes da rede eléctrica, com décadas, estejam assentes em estruturas não preparadas para resistir às forças a que foram submetidas, inclusive há que reconhecer o bom trabalho no restabelecimento desta infraestrutura básica (61 postes de alta tensão foram derrubados). No entanto, há que questionar com muita veemência como é possível instalar telhados e estruturas industriais não preparadas para o que nos dizem vir a ser o cenário futuro do clima em Portugal.

Pior, os recentemente subsidiados painéis solares não resisitaram aos efeitos daquilo para o qual supostamente são uma medida preventiva. Um só exemplo, no parque industrial de Gaia, na Figueira da Foz, a empresa United Resins teve 800 painéis solares completamente destruídos. Em Ferreira do Zêzere, onde 85% das casas sofreram danos, estima-se que centenas de sistemas solares domésticos foram arrancados ou danificados por detritos projectados pelo vento. Posto isto será o solar a solução tendo em conta a sua vulnerabilidade para este tipo de eventos!? Significando que o dia seguinte é blackout garantido?

Falha na preparação

Obviamente as autoridades competentes deveriam estar preparadas para este tipo de cenários. Garantir comunicação a fluir para toda a população, ordenar fluxos de movimentação, organizar grupos de trabalho, etc. No entanto, também cada um de nós deve estar ciente que há momentos em que nos cabe a nós (re)agir. Saber o que fazer, ter mantimentos e combustível armazenados para x dias, estar preparado mentalmente para um cenário de blackout em que temos de nos relacionar e interajudar com a comunidade local. Essa preparação para a adversidade ou a catástrofe faz parte dos países normalmente alvo delas. Por cá os preppers são muitas vezes vistos como pessoas desequilibradas ou pessimistas mas talvez tenhamos de repensar os nossos programas escolares para introduzir tópicos de sobrevivência, resiliência e trabalho de grupo em condições extremas. Muitos vão ter essa aprendizagem agora, pela via mais dura, mas que nos sirva como reflexão para futuro pois é essencial para tornar estes momentos mais serenos.

A lentidão na decisão

Parece que tivemos um ministro lesto em fazer uma produção para as redes sociais, onde transparecia a sua dedicação e esforço, a partir de uma sala de crise constantemente ao telefone, vá lá que no terreno poucos lhe tiveram acesso por falta de electricidade ou comunicações, talvez por isso se tenha safo de um linchamento público, também compreensível nestes momentos.

Na TV assistimos a exaspero e desabafos dos que estão naquela penitência, nas redes sociais isso é ainda mais exarcebado com múltiplos posts de pessoas a partilhar a sua experiência, angústias e consternação. Na política assistimos à tacticidade do costume. Avaliação de estragos, definição de timings, polimento das declarações políticas, patati patata.

Não sei o que precisam para perceber que precisamos de decisões políticas de rajada, de preferência à mesma velocidade dos ventos que nos assolaram. Até ver o governo

  • Activou rede de apoios de emergência com bens de primeira necessidade, alojamento e cuidados de saúde;
  • Acelerou financiamento para recuperação urgente de infrastruturas;
  • Vai providenciar indemnizações às famílias de vítimas mortais ou com lesões incapacitantes;
  • Criou linhas de poio financeiro para recuperação de habitações, parques industriais e agrícolas;

O que é a resposta padrão a quaisquer eventos de calamidade, no entanto, tendo em conta a dimensão dos estragos, diria que o ideal seria

  • Dar condições para quem o desejasse, vivendo nas zonas afectadas ou sendo familiar directo de quem aí habite, pudesse simplesmente pausar a sua actividade laboral, sem perda de emprego, para dedicação total à reconstrução da zona e comunidade. Com custas pagas pelo estado ou suspensão de responsabilidades relacionadas com empréstimos. Dar tempo e espaço ao refazer das vidas.
  • Garantir a resposta necessária a todos os trabalhos de reconstrução que vão ser precisos. Será preciso deslocar empreiteiros? Usar a população local para fazer esses trabalhos? O sector da construção já é por natureza lento na resposta à procura, pelo que algo é necessário para acelerar.
  • Ser implacável com quem comete pilhagens e roubos, seja directamente no terreno ou online com falsas campanhas de angariação de fundos.
  • Até plena regularização de comunicações utilizar os canais de comunicação activos para maioritariamente comunicar sobre o que se passa no terreno, inclusive tempos de espera em bombas e supermercados disponíveis.

Isto foi o que me saiu a quente, aquele território precisa de tempo, foco e tranquilidade, certamente quem está a viver a situação terá bem mais e melhores sugestões do que quem está a ver de fora. Fica aqui o convite para o deixarem patente nos comentários.

Eleições quê?

Finalmente deixo um último pensamento. Se esta situação não estiver resolvida no prazo de uma semana que sentido faz haver umas eleições presidenciais que neste momento foram inclusive relegadas para segundo plano? Além desta população poder correr risco de não poder votar devido às circunstâncias, certamente na sua cabeça a eleição para a presidência é neste momento uma minudência. Respeitando o momento talvez estas devessem ser adiadas. Em último caso, se as entidades oficiais não tiverem essa sensibilidade, porque não uma abstenção solidária para que não se corra o risco de uma parte significativa do país não ter condições para expressar o seu voto?

Alterações a padrões de transumância eleitoral

Estas eleições manifestaram um grande sinal da mudança dos tempos. Destruiram os conceitos de “eleitorado do X” que lealmente e consistemente mantém o voto no candidato do seu partido ou do que mais próximo está da sua tendência ideológica.

O eleitorado flutou em função do dia-a-dia de debates, reportagens e declarações, com foco nos traços individuais e não propriamente na visão política de futuro. O trio Ventura, Coutrim e Gouveia e Melo teve o mérito de quebrar os normais padrões de campanha e transformar o formato de debates e campanhas. O reflexo foi um grande envolvimento e interesse por parte do público, com altos níveis de dúvida e indecisão até ao momento de submissão de um voto consciente.

O que se segue agora? Ao contrário de muitos, que pensam que Seguro está garantido, considero que Ventura tem real hipótese de ser eleito. Teremos pela frente três semanas de campanha que será certamente um combate feroz pela preferência da maioria dos portugueses.

O que vi na primeira reacção aos resultados, antes das declarações oficiais, foi um Seguro estereótipo do normal político presidente, contido, com discurso neutro e cauteloso chutando para o firmar dos números que as projecções apontavam. Já Ventura reagiu de forma mais transparente, humana com emoção e empolgamento, projectando imediatamente o que seria a sua estratégia se se confirmasse a sua passagem à segunda volta. Este pequeno momento diz mais sobre o que se pode esperar do estilo de presidência de cada um do que os discursos preparados que viriam depois.

Ventura aparecerá transformado, mais ponderado e abrangente, surpreendendo quem o vê apenas como o populista dos sound bites asquerosos. Apesar de ter começado com o clichet de direita vs esquerda provavelmente o alvo principal será o governo, reagindo às fragilidades correntes como se fora já Presidente da República, numa demonstração antecipada do que seria a sua presidência. Talvez procure encontrar ou repescar alguns rabos de palha de Seguro, no entanto, se não o fez na primeira volta, talvez não exista matéria suficiente para enveredar por esta estratégia. Em simultâneo veremos no parlamento o florescer das segundas e terceiras linhas do Chega, a tapar o buraco parlamentar aberto pela suspensão do mandato de Ventura. Se verá também qual o odor deste jardim.

Seguro será inevitavelmente arrastado para uma situação em que terá de se mostrar muito mais interventivo do que aquilo que estaria à espera. A pressão será muito alta. A estratégia passiva, observando as quezílias entre outros candidatos, que lhe permitiu sobressair como mais ponderado e recto, não será aplicável a esta segunda volta. Será bom para os Portugueses por à prova aquele que à partida é o candidato preferencial e no processo serem expostos ao argumentário adversário para abanar ideias e assunções cristalizadas. Seguro parte como vencedor da segunda volta, tal como Gouveia e Melo o fez na primeira.

Que sera, sera.

Agarra-te ao Pendura!

Não posso deixar de manifestar um grande desencanto pelo lido num artigo de opinião da directora da Visão sobre os “penduras”, que além de completamente ao lado na interpretação dos segmentos de população visados demonstra grandes doses de preconceito e instigação ao ódio que no mínimo serão fortes indicadores sobre o actual critério e agenda editorial daquela publicação.

Continuando a sua metáfora será bom relembrar que os penduras são normalmente os braços direitos dos condutores, debitando informações complementares sobre o caminho, questionando e alertando para comportamentos de risco exercidos pelos mesmos. Curiosamente o lugar do pendura é também conhecido como o lugar do morto, esperemos que a evolução contínua dos sistemas de segurança e aumento da consciência dos condutores venham um dia a eliminar essa associação.

A senhora fala a partir da sua secretária, completamente toldada e hipnotizada pela informação que se tem de limitar a repetir. Já lá vai o tempo em que dispunha de uma frota de jornalistas de investigação capazes de furar as bolhas de confiança e segurança criadas pelos grandes poderes.

O cerco está a ser montado mas não a ser respeitado. Basta andar na rua para o perceber. Muitas violações às recomendações passam incólumes, os tugas desenrascam-se, fica servida a dose mínima do cumprimento para exibição nos noticiários, crê quem o quer.

Entretanto, de forma tremendamente científica, no atingir da imunidade de grupo passamos dos 70% de meta de população imunizada para os 90%, o que implica ter de vacinar adolescentes e crianças. Podíamos realmente estar a fazer muito mais ciência, verificar qual a população imunizada naturalmente, afinal dizem que o número de infectados deve ser muito superior o que quer dizer que o número de imunizados naturalmente também o deve ser. Mas não, preferimos vacinar preventivamente, torrando milhões em testes e vacinas sem recolher dados que de forma cabal permitissem perceber o cenário em Portugal.

A razão apontada pela maior parte daqueles que se vacinam é “não acredito que fossem injectar algo prejudicial, quero é voltar ao normal o mais rápido possível”. Acham ser uma razão suficiente para isso? Eu e muitos dos segmentos vilipendiados pela Srª Directora não acham. E não cedem a condicionamento e pressão. Certamente será um problema, mas esperemos que as decisões tomadas sejam mais racionais e acertadas do que o festival de imposição e fábula de solução a que assistimos.

Basta estar atento a notícias que vão sendo introduzidas no que se chama programação preditiva. Começa-se a falar como mera hipótese e depois aos poucos têm de ser aplicado em larga escala o mais rápido possível. Um exemplo é o dos adolescentes e crianças, seguindo-se já os animais (cães, gatos, zoos, e outros explorados pelo homem).

Confiemos a 100% nas entidades e organismos nacionais e internacionais? Claro. Sabemos que nunca existem interesses nas suas agendas e decisões, que nunca somos danos colaterais… Os “penduras” não o fazem de forma leviana. Porque visitam o histórico de condenações aplicadas a farmacêuticas, tomam conhecimento das estranhas negociações por elas exercidas com os países mais frágeis, percebem que já se preparam para reforço de doses e desenvolvimento de nova variante de vacina, descodificam a argumentação de titulares de cargos políticos de que há que ter cautela com viagens porque os vacinados são mais propensos a contrair e transportar o vírus, estão atentos a movimentação de sindicatos de profissionais de saúde que querem impedir a obrigatoriedade da vacinação a esta classe profissional, tudo para tomar uma decisão em plena consciência, afinal aquilo que é relevante está sempre nos pormenores e não nos grandes títulos e lemas de exaltação à salvação nacional.

Os “penduras” são na sua maioria pessoas comuns, que se dão ao luxo de exercer a sua soberania, sabendo que não estão a colocar em perigo direitos, liberdades e saúde de ninguém. Esse grau de confiança surge por terem acesso aos conteúdos de reputados cientistas que são tirados do ar por ousar apresentar argumentação científica que demole tudo o que se tem feito e se está a fazer. Têm-no porque escavam, percebendo há muito a falsa liberdade de opinião e acesso a informação. Os algoritmos tornaram-se políticos e ferem de morte a nossa sociedade.

Os passageiros no banco de trás não estão nem aí, já nem se apercebem do impacto que uma agenda tem nas paisagens citadinas e naturais por onde passam. Estão conectados em maravilhosas personas, avatares e universos digitais onde são imperadores condutores do seu destino.

Por agora parece ser confortável. Vai-se instalar uma App supimpa que separa os fixes dos idiotas, isso vai fazer muitos idiotas abrir a pestana e ter de se vergar para acesso a produtos e serviços, quiçá um dia mesmo a espaços públicos. Bom bom era poder ter esse controlo na porta do seu prédio e sua casa, pouparia muitas explicações desajeitadas e envergonhadas no barramento dos “penduras” do seu círculo social.

Este é o primeiro grande grilhão de uma nova corrente que está a ser imposta à humanidade. Se houver sucesso na sua implantação muitos mais virão em catadupa, chegando o momento em que ser “pendura” significará morte ou exílio. A distopia futurista está a poucas decisões de distância. Agarrem-se ao “pendura” para influenciar ao máximo a condução ou acreditem que um dia se irão arrepender do destino final por nenhum de nós ousar assumir os comandos.

Irmãos de armas

Soberano ou guerreiro que se alia a outro contra um inimigo comum.

Pessoa que entra com outra na mesma guerra ou que luta por uma causa comum.

Inimigo e Causa Comum

Vencer o coronavírus COVID19, também conhecido por SARS-COV-2.

Reduzir ao mínimo o sofrimento e número de fatalidades humanas.

Recuperar a vida normal.

Caim – O “Aceitacionista”

Tem crença absoluta nos factos e dados apresentados pelos orgãos de comunicação e entidades governamentais. Aceitação plena das decisões tomadas, que defende como se fossem suas.

É consumidor frequente dos principais meios de comunicação. Temente dos números, imagens e relatos catastrofistas. Sente pânico pela possibilidade de que @ própri@ ou os que lhe são próximos sejam afectados. Disposto a tudo para o prevenir.

Apresenta forte ausência de pensamento crítico. Descarta a necessidade de perder tempo na exploração da informação sobre as circunstâncias que revolucionaram a sua vida. Refugia-se em entretenimento e/ou relacionamento social com os que demonstrem convergência na atitude e sentimento, obtendo desta forma o conforto possível e o manter da esperança num futuro melhor.

Quase total incompreensão, com tendência ao desprezo e condenação do seu irmão “negacionista”, diabolizando-o como o responsável pelo protelar da resolução da situação.

Está disposto a sacrificar direitos e liberdades, próprios e de outrem, já que acredita verdadeiramente ser essa a única solução eficaz.

Enfurece-se com a livre expressão e exercício da não conformidade para com as recomendações.

Abel – O “Negacionista”

Rege-se por informação de detalhe, procurando os fundamentos dos grandes chavões comunicados. Contesta, questiona, consome distintas visões, cruza os acontecimentos históricos com os contemporâneos, formando uma opinião própria com base em evidências, lutando contra a algoritmia que procura afunilar a narrativa, enviando telegramas informativos para o alargamento desta discussão aos abertos à mesma.

Receia moderadamente as consequências infligidas por potencial infecção, sua ou dos que lhe são próximos, sem que isso lhe faça perder o discernimento. Alguma morte faz parte da vida. Ao mesmo tempo indigna-se com a velocidade a que ocorre, e se perpetua, a perda de direitos, liberdades e soberania individual, ingredientes essenciais nas soluções duvidosas encontradas após o descarte da ponderação de todas as outras.

Não está disposto a abdicar de direitos fundamentais nem colocar em risco populações que não estão em risco. Preocupa-se consigo e também com os outros, tentando alertar para os perigos desnecessários que se pretendem correr. Não está disposto a sacrificar nada nem ninguém a não ser talvez a sua “reputação” e “status” social.

Entristece-se com a alienação geral aos avisos realizados pelos próprios criadores que expoêm a incerteza associada à solução final.

O momento decisivo

O regente estatal/corporativo incita que Caim aplique coercivamente a solução a Abel. Durante o seu arresto Abel defende a sua soberania questionando o porquê da imposição.

Abel lança à consideração a incoerência na interpretação dos dados. Na contabilização de mortes bastava morrer-se com um teste positivo, prova do contacto com o inimigo, sem distinguir os que faleceram DE dos que faleceram COM o vírus presente no seu organismo. Agora, nas mortes e incapacitação grave associadas à solução final, já não se aplica o mesmo critério. Em óbitos por causas similares aos potenciais efeitos adversos é completamente descartada qualquer correlação remota, sendo considerado mero acaso ter acontecido em quem tenha tomado a poção mágica há semanas ou meses.

Procurando não assustar Caim, Abel questiona o porquê do comportamento dos vacinados não se destacar face ao comportamento dos não vacinados quando em contacto com a mais virulenta versão do inimigo? E porque é necessário vincar fragilidades da solução e a muito provável necessidade do reforço contínuo?

Já imobilizado, Abel alerta para o facto da proteína Spike ser um citotóxico reconhecido, havendo evidências de que este se encontra em livre circulação por todo o organismo dos abençoados “aceitacionistas”, com peculiar concentração em orgãos cruciais, à vida e continuidade da nossa espécie.

Sentindo no olhar o ódio tresloucado do seu irmão de armas, Abel implora a Deus que o poupe, concedendo-lhe o livre arbítrio de figurar como um salutar membro do grupo de controlo. Afinal é dever de um Pai proteger as suas crianças a todo o custo, inclusive de instintos fratricidas.

Durante todo o seu compassivo discurso, de forma sub-reptícia, Abel liberta-se das amarras impostas, estando em prontidão para pleno exercício da sua autodefesa. Seja o que Deus quiser e Caim o decida já que é ele a verdadeira mão na execução do plano do regente mestre carcereiro.

A nossa liberdade acaba onde acaba a dos outros

Com o tempo e espaço que temos agora em mãos seria sensato questionar alguns aspectos da nossa existência. Talvez começando pela razão do sujeitar à clausura.

Um bom começo passa por perceber o que se passa no mundo, segundo os registos oficiais esta revolução começou em Janeiro, primeiro na China, Ásia, depois Estados Unidos, chegando à Europa ainda nesse mês, via França, Alemanha, Itália e Espanha. Só passado um mês do primeiro caso em Espanha é que Portugal entra no lote dos países oficialmente COVIDados para a pandemia.

Entre Janeiro e Março foram evoluindo as estatísticas sobre grupos vulneráveis, que permitiam perceber a gravidade da situação para os mais velhos e os com condições de saúde mais vulneráveis, bem como informação sobre o período de incubação.

Inicialmente, segundo os relatórios oficiais, só a China tinha uma situação alarmante, em termos de número de mortes, o que fez com que o mundo Ocidental subestimasse o que aí vinha. Quando no final de Fevereiro disparou em Itália o número de óbitos, já todos tinham sido apanhados de surpresa. Ficou óbvio que, ou haviam muitos mais casos não reportados, ou o tempo decorrido entre os primeiros sintomas e os óbitos deu a ilusão de ser maioritariamente um género de uma gripe relativamente inofensiva.

Esta latência de percepção, do real perigo a Ocidente, fez com que seja muito provável que, na altura em que a opinião pública foi sensibilizada para a reclusão social, muitos já seriam portadores / incubadores, pelo que a instintiva reunião familiar poderá ter perigado os grupos de risco, que deveriam ter sido resguardados antecipadamente, tivesse havido esse discernimento.

“FICA EM CASA!” foi o grito desesperado de uma população desnorteada pelo imediatismo da chegada de um vírus “fulminante”. Uns por medo de que lhes toque a eles ou aos seus, outros por um dever cívico de “suavizar” a pandemia, outros condicionados por pressão política, autoritária e/ou social.

A liberdade individual foi assim anulada por um suposto bem comum, como se todos tivéssemos as mesmas condições para atravessar um recolher prolongado confortável, como se todos fossemos dominados pelos medos e riscos inerentes a viver, como se todos os que pertencem aos grupos de risco estivessem dispostos a sacrificar a sua liberdade, a sociedade e o futuro de muitos por uma hipotética segurança contra o COVID19.

A maior justificação desta paralisia nacional é a de que não queremos o rápido asfixiar de um SNS, que já estava encostado às cordas no seu dia-a-dia, preferindo-se a lenta asfixia da economia e dos portugueses. Uma decisão política fácil do ponto de vista da aceitação popular. Pergunto-me pelo que se medirá o nível do seu sucesso? Falamos em salvar vidas? Quantas? Ou sobretudo diluir óbitos no tempo?

Quantas semanas terão de passar até que tudo isto seja equacionado? Até que compreendamos que não estamos a falar de uma ameaça que potencie a extinção da humanidade, ou sequer da população de um país? Só em Portugal morrem mais de 100 000 pessoas por ano! O COVID19 irá incrementar bastante estes números ou “roubar” óbitos às doenças que mais matam em Portugal?

Vivemos tempos difíceis para os decisores políticos e população, sendo fulcral uma informação factual e objectiva para que sejam tomadas, de forma transparente, as decisões mais sensatas de acordo com a informação disponível, pensando não apenas no imediato mas também no futuro a médio prazo.

Provavelmente muito em breve veremos uma transição do movimento de “Fica em Casa!” para um “Fica em casa?”. Até lá que cada um encontre o seu propósito de reclusão pois, por agora, sair à rua é um atentado à liberdade e direitos da comunidade.

O Aplauso dos Inocentes

Em resultado da fuga a todo o custo, do contrair de enfermidade severa, é a febre da cabine que avança, indomável sobre a guarnição. Nem toda, pois alguns bravos garantem a flutuabilidade, o guarnecer das refeições, o alinhamento de velas e leme para que não se perca o rumo.

Em isolamento social, voluntário mesmo antes do imposto pela capitania, do alto da gávea condicionada, da janela das cabines cerradas, os mais ilustres, os mais afortunados e os mais vulneráveis aplaudem os seus heróis, mesmo antes do início da odisseia que se prevê atribulada e perigosa. Tal entusiasmo só rivaliza na história com o gáudio das elites romanas, ao encorajar as fileiras de gladiadores que entravam na arena do coliseu. Ambos dispostos a dar tudo pelos outros.

Esses “heróis”, que não o escolheram ser, apenas calhou de originalmente exercerem essas tarefas, trabalharão a dobrar, com risco acrescido, compensando as lacunas, satisfazendo a demanda, daqueles cujo ofício não interfere com o cumprir do serviço mínimo obrigatório à continuidade da navegação.