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O estreitar do poder
Numa jogada magistral eis que a invasão de Ceuta exponencia a fricção pública entre esquerdistas e direitistas, alimentando o ódio mútuo que cada vez mais alarga o fosso que os separa. Cada facção empodera-se a si própria com o reforço crescente da sua razão incontestável. Na realidade ambos são ludibriados pela sua inteligência, de espectro reduzido, deixando-se manipular devido à sua ignorância sobre o mais abrangente. Inteligência é útil mas está longe de equivaler à sabedoria. O que se passou em Ceuta não foi nada do que qualquer um dos lados alega mas sim algo muito mais complexo que é aflorado neste vídeo. Se tens a certeza de que foi um simples caso de crise humanitária, onde o que deve ser debatido é a abertura para os receber ou não, por favor permite-te exposição a enredos geo-políticos de alto nível.
Mais do que chover no molhado, opinando sobre o que já está mais do que abordado sob múltiplos pontos de vista, irei neste post destacar o que tem acontecido nos últimos tempos e que pode muito bem estar correlacionado.
- 2014: Rússia invade Crimeia passando a deter controlo do estreito de Kerch, foi a semente para a situação de guerra hoje vivida.
- 2025: USA exigem o fim da influência chinesa no canal do Panamá e maior controlo sobre a actividade marítima nessa rota.
- 2026.02: USA atacam Irão e tentam assumir o controlo do estreito de Ormuz, ensaindo várias estratégias para o seu financiamento por parte dos utentes dessa rota marítima. Ao mesmo tempo causam enorme disrupção, ou mesmo adiamento, do projecto chinês de estabelecimento de uma nova rota da seda, independente do transporte marítimo.
- 2026.06: USA reforçam influência sobre gestão do estreito de Malaca ao firmar parceria com Indonésia. (que se junta às já existentes com Tailândia, Singapura e Malásia)
- 2026.07: Marrocos usa a fachada de uma vaga migrante para exercer pressão de encontro à recuperação de território ocupado por Espanha (Ceuta e Melilla), duas cidades do Norte de África (não no continente Europeu) fundamentais para o controlo do estreito de Gibraltar. Marrocos é um aliado preferencial de USA e Israel.
- 2026.08: Trump afirma que até ao final do mandato a gestão da Gronolândia será tranferida para os USA. Curiosamente dentro da esfera de influência da Gronolândia está o importante estreito da Dinamarca.
Como se pode ver, apesar das narrativas de promoção de direitos humanos, democracia, travar o comunismo, etc, o que se efectiva é uma tentativa de domínio absoluto dos principais pontos de navegação marítima. Se executado como planeado significa o enorme alavancar na influência geo-política, impacto nas economias de transporte e negociações comerciais.

Isto é o que verdadeiramente se está a passar. A tentativa de um poder dominante prolongar a sua hegemonia, causando forte disrupção em todos os concorrentes, doa quem doer. Servindo-se de peões inocentes, criando ignorantes úteis em ambos os pólos para que se desgastem infantilmente numa luta fraterna, ao invés de como os graúdos que são, investirem o seu tempo e energia para perceber e tentar travar as nefastas transformações que estão a ser impostas ao mundo.
Não faço a mínima ideia de como se travam acontecimentos desta magnitude mas comecemos pelo básico, abramos os olhos e encontremo-nos no caminho do meio.
Da resistência ao terrorismo basta um título de jornal
Façamos um exercício de conexão para com o impacto local destas iniciativas de interesse nacional, a nível de transformação da paisagem, extracção, uso e abuso de recursos naturais, impacto no quotidiano diário das populações dentro da esfera de influência das novas instalações e actividades.
- O novo data center de Sines irá consumir o equivalente a 20% da electricidade em Portugal e criará milhares de postos de trabalho directos e indirectos.
- A Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) irá expandir com projetos de hidrogénio verde, amónia verde, energia solar e produção de baterias de lítio, originando o abate de milhares de árvores. Ao mesmo tempo irá reforçar-se a distribuição da rede energética de e para este ponto de alta actividade industrial, com mais um milhar de árvores a abater.
- Logo ali ao lado também a região de Santiago do Cacém se junta ao novo festim energético com implantação de parques solares a ocupar mais de mil hectares obrigando ao abate de mais de um milhão de árvores.
- Pondo de lado o necessário sacrifício de fauna e flora, com mais de 500 animais selvagens de grande porte chacinados a tiro, também orgulhosamente se impõe a ecológica instalação solar da Torre Bela que descaracterizou completamente uma tapada de 1000 hectares onde 400 foram entregues aos painéis.
- O sucesso é tal que aceleram as iniciativas para agilizar a instalação de mais uns milhares de hectares de parques solares e eólicos, através de consulta pública para “aprovação silenciosa” de eligibilidade de mais terras para estes fins.
- Mais a norte outro tipo de progresso está em curso, depois da prospecção agressiva para estudo. está confirmada a viabilidade e riqueza de lítio em Boticas, Covas do Barroso, são 20 milhões de toneladas de minério a extrair, 500 postos de trabalho durante 14 anos de vida útil.
- (tantas outras podiam ser listadas, peço-vos ajuda a completarem nos comentários com as que vos provocam dor na alma)
Quando necessário servidões administrativas e expropriações permitiram o atropelo de proprietários, em prol do desenvolvimento do país. As máquinas e trabalham avançam de forma imparável e legalmente blindadas. Imaginemos estar no meio ou orla destes acontecimentos. O que sentíriamos, o que defenderíamos o que teríamos ganas de fazer?
O processo será sempre muito similar, primeiro a incredulidade para com o que se está a desencadear, a primeira reacção dentro da esfera legal com a abertura de providências cautelares que travem a catástrofe, a tentativa de mobilização da sociedade local e nacional, depois chega a frustração gerada por de pareceres jurídicos ou decisões governamentais que anulam o efeito imediato das providências, a constatação de que a força digital em pouco ou nada se manifesta na realidade local, por fim chega o desalento de não ter os meios e tempo necessário para um combate judicial significativo e com resultados práticos.
Há os que por fadiga desistem, abandonando causa e local, há os que por condicionantes se conformam, adaptando-se à nova realidade local, e outros passa a processar uma contínua amargura e raiva, tentando evitar desencadear acções das quais se possam arrepender. Pois agir neste contexto, mais do que resistir em defesa do que consideram justo e precioso, será interpretado, aos olhos da lei, com um hediondo acto terrorista e criminoso. O termo “terrorismo” foi definido de forma suficientemente abrangente para poder ser aplicado independentemente do contexto, causa e consequência, derivando para várias nuances, existindo a particular do ecoterrorista, alguém que ousa aplicar a equidade no uso da força em defesa de ecologia e ambiente.

Curiosamente olhando para a definição do termo podemos facilmente afirmar que existe terrorismo subjacente
- à forma como canetas em gabinetes fechados, situados na malha urbana, emitem despachos para a destruição de largas porções de território, começando aqui um terrorismo psicológico via decretos que irão mudar substancialmente partes do território e seus modos de vida geracionais;
- ao uso de grupos de segurança privados e grandes máquinas para entrar dentro de terrenos privados destruindo muros, árvores e tudo o mais que esteja no caminho;
- aos grandes incêndios que coincidentemente assolam as áreas a desflorestar algum tempo antes do início dos trabalhos;
- ao ignorar dos alertas e apelos de autarcas e populações locais sobre os efeitos nefastos dos projectos planeados/executados;
- à ausência ou descaso de estudos de impacto ambiental pormenorizados que demonstrem os efeitos negativos dos projectos sobre os ecossistemas afectados;
- ao vender da nossa beleza e património natural a interesses económicos de curto a médio prazo de forma praticamente irremediável;
Neste contexto não existem mecanismos legais para acusar o estado de terrorismo na manipulação da população com fins políticos, económicos ou ideológicos, estando este legitimado para exercício da violência física ao nosso território sob pretexto de progresso e desenvolvimento.
Em momentos como estes resta-nos buscar a inspiração de eventos passados. Onde acima dos artifícios legais e retórica moral, vinga o senso comum e a lei natural de direito ao bem-estar. Neste modelo acção com reacção se responde, empoderados pela justiça, bem comum e amor ao seu lar. Em união, em resiliênca, em consequência.
1989, Vale do Lila, centenas de pessoas uniram-se e DESTRUIRAM 200 hectares de plantação de eucalipto. Mesmo face a 200 agentes da GNR, não vacilaram. Expulsaram a Soporcel que decidiu não valer a pena a luta. Hoje estão rodeados de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho.
Se resistentes ou ecoterroristas os artigos mediáticos que os cataloguem em função da sua agenda, pois à vista desarmada simplesmente foram um povo a em legitima defesa dos seus interesses. A sabedoria, coragem e força para a imposição da fronteira do aceitável é algo que só descobrimos ter ou não ter quando o destino nos coloca face a face com uma situação desta gravidade e magnitude. Que a lucidez nos conduza à salvação e ao travar da expansão desenfreada em detrimento da (re)florestação.
O Passaporte de Churchill
Dois ilustres encontram-se no purgatório.
O primeiro está em trânsito: cumprem-se procedimentos e burocracias intermináveis. Aguarda pelo inevitável destino: a descida ao abismo, obviamente escoltado por agentes do ICE. Indignado, reclama, diz-se injustiçado. É desagradável com todos, exige prioridade, tratamento especial. Insiste que quer falar com os superiores, persiste que tudo não passa de um erro administrativo. É Donald J. Trump.
O segundo é uma alma penada, um espírito gasto, quase irreconhecível. Enlouquecido por décadas a deambular entre a luz e o abismo, vítima da indecisão das autoridades do além — foi virtuoso e foi trágico, fez o bem e fez o mal, pintou mas conspirou — vagueia num estado de permanente delírio. É Sir Winston Leonard Spencer Churchill.
Ao cruzarem-se num corredor enevoado e esconso, Trump aborda o antigo estadista britânico e mete conversa:
— Winston! Winston Churchill! Grande homem! Um dos grandes, como eu. Nós, os grandes homens, temos sempre destinos complicados, não é verdade?
Churchill não reage. Olhar vazio, fechado sobre si próprio, claramente perturbado. Apenas silêncio. Trump, imperturbável na sua autopromoção, reitera, insiste em tentar ombrear:
— Somos grandes, como nós há poucos. Com quem é que já te cruzaste por aqui? Nunca ninguém viu nada tão grandioso como a minha obra. Talvez a maior!
Churchill reage. Bamboleia, enquanto se baba, e começa a dizer, com voz trémula:
— Mortes… muitas mortes… muita desgraça por minha culpa… foi vaidade… foi soberba…
Trump sorri e aproxima-se, para segredar:
— Eu percebo isso. A pressão. Só os grandes sabem. Eu fui um líder extraordinário, tremendo! Mudei o mundo. Tu entendes. Somos do mesmo tipo, Winston. Visionários.
Churchill oscila ligeiramente, como se não estivesse ali. Volta a murmurar, agora misturando tempos e culpas:
— Epstein… mortes… Golfo da América… desgraça… tarifas… Dardanelos… Groenlândia…
Sem abrandar, Trump continua:
— As pessoas adoravam-me! Multidões. Nunca se viu nada assim. E tu? Também tiveste as tuas multidões, certo? Discursos fantásticos. Eu também faço discursos incríveis, é o que todos dizem.
Churchill começa a andar em círculos, cada vez mais perturbado:
— Mortes… muita desgraça… por minha culpa… soberba…
Trump acompanha-o, quase lado a lado, decidido a com ele construir uma excelente relação:
— Há quem diga que fui mal compreendido. Injustiçado, até. Como tu. A história trata mal os grandes homens. Mas, no fim, reconhece. Reconhece sempre!
Churchill leva as mãos à cabeça e grita:
— Por minha culpa… por minha culpa… tanta gente…
Depois, congela e remete-se ao silêncio. Surpreendido, Trump perde o embalo, abranda sem dar por isso. O silêncio de Churchill começa a incomodá-lo. Olha à volta e percebe que ali, todos são indiferentes ao seu brilho. Pela primeira vez, a confiança vacila.
— Quer dizer… Nem sempre reconhece…
Churchill não responde, retoma os movimentos erráticos e repetitivos. Trump baixa o tom:
— Há decisões… decisões que ficam. Que não desaparecem na espuma dos dias.
Churchill murmura, quase inaudível:
— Ficam… ficam sempre…
Trump engole em seco. A voz perde força, soa a contratenor:
— Talvez… talvez me tenha precipitado nalguma decisão… algumas coisas correram mal… outras não deviam ter sido tentadas…
Breve pausa. Trump murmura, enquanto olha para o chão:
— Se calhar… se calhar, atacar a Pérsia não foi grande ideia…
Absoluto silêncio. Nesse exacto instante, Churchill pára. Endireita-se subitamente. O olhar ganha foco. A loucura dissipa-se como o nevoeiro ao sol. A voz regressa, firme, inteira:
— Muito bem.
Trump, incrédulo, fica imóvel. Churchill apaga o charuto com altivez, ajeita o casaco, recupera toda a compostura e despede-se:
— Prazer em ver-te, velha carcaça. Obrigado.
Vira-lhe as costas. Caminha decidido até São Pedro e declara:
— Já tenho o meu passaporte para o céu.
São Pedro levanta os olhos, intrigado:
— Ah, sim? E qual é?
Churchill sorri, um sorriso rasgado, largo e triunfante:
— Eu… causei uma enorme tragédia ao tentar abrir um estreito que estava fechado!
Faz uma pausa, saboreando o momento.
— Ele… foi fechar um que estava aberto!
Em silêncio, São Pedro anui.
O bom, o mau e vilão
Depois da noite passada de entrega de Óscares julgo que se pode de imediato antecipar o vencedor incontestável da edição do próximo ano. Está em exibição internacional uma insuperável longa metragem, repleta de complexidade, humor, terror, drama, animação por IA, fantasia e surrealismo, que irá certamente arrebatar todas as categorias de prémios. Correndo o risco de ser spoiler deixo aqui o resumo e crónica do seu argumento.
Era uma vez um vilão que conspirava para ter os meios necessários para a destruição de uma nação vizinha. Essa nação, de grande poderio militar e excepcionais serviços de inteligência, fez queixinhas ao seu mais querido aliado, seduzindo-o para um ataque preventivo que impedisse o vilão de se empoderar para níveis ameaçadores.
O aliado mostrou-se surpreso, afinal há menos de um ano tinham anuido a semelhante acção, tendo pomposamente anunciado ao mundo que 12 dias foram suficientes para obliterar as infra-estruturas necessárias para execução dos maléficos planos do vilão. Além da surpresa mostrou renitência, afinal estavam a decorrer negociações com o vilão que na última sessão demonstrou abertura a abandonar parte dos seus planos e repensar a sua atitude.
Contudo, a nação com forte sentimento de ameaça iminente mostrou-se intrasigente, exigindo nova acção militar que lhe permitisse voltar a sentir-se segura. O aliado respirou fundo e, talvez por um pacto de sangue ou por simples amarração de amor, pôs a máquina de guerra a trabalhar num traiçoeiro “Shock and awe”.
O vilão encaixou. O seu líder martirizou e galvanizou. A estrutura remanescente retaliou. Na resposta atacou bases e interesses do aliado em 15 países diferentes e ainda visou a nação temerosa como esta nunca tinha sido atingida. Pior, exerceu a sua soberania territorial para proibir a circulação no estreito comercial energético mais movimentado do mundo. Para cada ataque sofrido, retaliação à medida ,visando o mesmo tipo de alvos demonstrando que tem poderio e capacidade para fazer o que quer quando quer. O vilão não está a escalar a guerra mas sim a responder à escalada a que é submetido. Isso deixa a nação virtuosa e seu aliado numa alhada porque cabe-lhes a eles o complicar ou facilitar desta guerra. Cada sua jogada define a próxima de forma bastante previsível.
Felizmente o aliado tinha-se precavido, apenas umas semanas antes reconstruira amizade com uma outra nação próxima, que facilmente lhe providencia o necessário abastecimento energético. Os efeitos colaterais apenas se sentem no resto do mundo, sendo que, na sua óptica, todos concordam que uma guerra virtuosa justifica uma vivência sofrida e penosa. Irritantemente descobriu que a sua visão não é corroborada pelos parceiros de longa data que se recusam a participar na cruzada por si iniciada. Fica assim orgulhosamente só de mão dada com a sua nação amada, para o que der e vier.
Esta história permite tirar três ilacções. Uma é a de que o vilão sempre teve poderio suficiente para obliterar quem quer que fosse na sua região, nunca o tendo exercido, o que demonstra que talvez seja mais pacífico do que aquilo que nos querem fazer transparecer. A segunda é a de que a nação, de pronome “santa”, não hesitou em destabilizar e arruinar toda a região estando preparada e quiçá ansiosa por ter um motivo para personificar Sansão. A última é o facto do poderoso aliado mostrar a sua face de total subserviência às vontades e caprichos da “frágil” nação, talvez também por forte necessidade de desvio de atenção.
Certamente haverá anjos e demónios nesta história dominada por duas correntes teológicas, o mais complicado é descortinar como estão distribuídos já que a dissimulação propagandista é forte em ambos os lados. Uma coisa é clara, o objectivo principal, ou mesmo secundário, não é a vontade de despoletar uma mudança de regime ou libertação de opressão no país vilão. Coisa só possível por vontade e mobilização orgânica da maioria de uma população de 90 milhões de habitantes.
O mais importante a reter é que todo o dominó que se seguiu ao início da guerra é facilmente simulado e previstos em jogos de guerra e de estratégia geo-política. Não há nada a acontecer que não fosse esperado, logo está a ser executado de acordo com plano de reformulação da relação de poderes na região e mundial. Provavelmente os atacantes não esperariam que o vilão fosse tão hábil praticante de judo, sendo capaz de suportar as idas ao tapete e de imediato controlar e redirecionar o movimento dos adversários.
Don’t Look Up
Neste regresso aos nossos clássicos do cinema, focamos o projector num sucesso recente: recuamos apenas uma mão-cheia de anos até ao filme Don’t Look Up. A obra de 2021, então simultaneamente classificada como comédia e drama, hoje poderá parecer sátira política, mas, na minha modesta opinião, sempre foi um ensaio sobre a estupidez cósmica. Questiona, sob múltiplos ângulos, quão fúteis conseguimos ser, sem dúvidas ou remorsos. Como espécie, munidos dos mais sofisticados meios tecnológicos, estamos no pináculo da nossa cegueira.
A história do filme, realizado por Adam McKay e protagonizado por uma verdadeira constelação de estrelas, relata-nos a forma como sociedades e governos lidam com a perspetiva da extinção — leia-se, o fim de algo tão precioso e raro como a vida dita inteligente. O absurdo governa o mundo, mantém-se inabalável mesmo quando a agenda entra em rota de colisão com os acontecimentos, ignorando que nenhum poder é infinito. A realidade, essa, quando adversa, é posta de lado. Vivemos num circo global e mediático, onde a ignorância extrema é valorizada e o conhecimento galacticamente ignorado. Não há risco, só certezas. Lançam retórica como se a sua vontade fosse lei da física, como se o universo se vergasse ao seu desejo.
A bravata perante o fim trágico — mesmo diante da possibilidade de extinção — alerta-nos, ou deveria alertar, para quão frágil a nossa existência é. Perante o cometa em rota de colisão com o planeta, mantemo-nos focados no umbigo, esse buraco negro da compaixão, onde toda a empatia se extingue no horizonte do ego. É precisamente aí que estamos centrados, sentadinhos ora no sofá, ora no carro, enquanto aguardamos na fila para abastecer, como se, de facto, o preço dos combustíveis fosse o verdadeiro problema. Não é. O problema é bem mais profundo e pode, caprichosamente, ser revelado pela superficialidade daqueles que se julgam senhores do cosmos. A sua envergadura é pequena, pequenina, e por isso se esforçam tanto para parecer grandes figuras. Nós, expectantes, assistimos à performance, ignorando que estes protagonistas poderão mesmo ficar para a história como os figurões de uma estória que ninguém ficará para contar.
Mais do que a dificuldade em agir decisivamente perante ameaças reais, o perigo reside hoje na incapacidade de agir racionalmente quando a realidade não vai ao encontro do desfecho súbito e definitivo, tal como idealizado. Aqueles que se julgam no Olimpo, perante a adversidade, não se contentam com o recurso à censura e à manipulação dos factos. Uma vez desmascarados da sua ilusão de invencibilidade, movidos pela sua fútil vaidade, vão, uma vez mais, provar que a arma dos fracos é a força — poderão, em breve, recorrer ao engenho dito tático, numa terceira demonstração do poder escondido dentro do átomo. Ao fazê-lo, dir-nos-ão que o poder destrutivo estava escondido, enriquecido pelo inimigo, e assim tentarão legitimar a ação tomada. Ante este plano de ação da fraqueza e dissimulação, agiremos como no filme: mesmo perante um perigo desta magnitude, continuaremos a discutir versões da realidade, cada qual confortável com aquela que convém à sua tribo. No entanto, a devastação neste cenário, não reconhecerá fronteiras. Tal como no filme, não existe abrigo ideológico nem refúgio geográfico. O imparável cometa, somos nós, crentes na dicotomia do “nós contra eles”, incapazes de compreender que partilhamos o mesmo planeta e como tal, o mesmo destino.
Oportunidade para tira teimas às narrativas sobre imigração
O balanço ainda não foi finalizado e os números relativos ao prejuízos são já abismais. Além da disponibilidade de liquidez, será necessária disponibilidade de mão de obra para execução dos serviços e trabalhos necessários à reconstrução e revitalização das zonas afectas.
Desde o primeiro momento os nossos governantes prontificaram-se a facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros. A ala do Chega imediatamente demonstra o seu incómodo insinuando que a resposta poderia ser dada com trabalhadores nacionais se as condições de trabalho fossem atractivas.
Observo, pondero e parece-me oportuno testar ambas as narrativas pensando um pouco fora da caixa. Teremos já cerca de 1.000 trabalhadores em layoff, recebendo dois treços do salário, garantido pelas empresas com participação temporária do estado. Mais certamente se seguirão, sendo que vários poderão ir directo para a situação de desemprego. Só o Distrito de Leiria tem anualmente uma média 9 a 10 mil pessoas em situação de desemprego. Podemos então considerar para este exercício que só na zona mais afectada existem milhares de trabalhadores potencialmente válidos para ingressar os grupos de trabalho a serem criados.
Proponho então o seguinte: que excepcionalmente quem esteja em layoff, ou situação de desemprego, possa acumular o seu salário parcial ou subsídios, com o salário que receberia ao ingressar nas equipas de reconstrução das áreas afectadas. Isto significa que iriam auferir um salário substancialmente acima do que normalmente é pago na área da construção civíl (e outras necessárias como por exemplo na agricultura), esclarecendo se a baixa propensão dos portugueses em fazer este tipo de trabalho tem realmente a ver com a baixa compensação ou com um estigma ou aversão para com trabalhos em obras ou no sector primário.
Em termos técnicos é exactamente o mesmo, tenho experiência directa com empreiteiros que se queixam de não existir mão de obra qualificada para obras, nem nacional nem estrangeira, pelo que a formação e entropia inicial é uma fase necessária em qualquer dos cenários.
Em termos humanos teríamos também um grande trabalho psicológico e social, pois nada melhor para a saúde mental e realização pessoal do que recuperar as nossas habitações e os espaços comunitários directamente, com as nossas próprias mãos e suor.
Logisticamente falamos de aproveitar o capital humano já existente e instalada na região, sem complicações acrescidas de encontrar alojamento e condições dignas para os trabalhadores.Se necessário, para os que estão sem tecto, alugue-se na íntegra os vários hotéis e alojamentos locais na região até que a situação seja resolvida.
Nada contra a vinda de imigrantes, não deixando de achar rídicula a intervenção imediata do Presidente da República que parecia mais lesto em acelerar esta agenda do que em avaliar com ponderação o cenário e amparar a população afectada, mas gostaria de perceber realmente se não conseguimos proporcionar as condições que em teoria permitam reconstruir com a prata da casa.
Provavelmente a solução será um bom mix dos dois, tenhamos a coragem de tomar medidas excepcionais para situações excepcionais.
Para quando a necessária tempestade política?
É impossível ficar indiferente ao nível de destruição e provação a que está neste momento sujeita uma grande parte da nossa população. Portugal não está habituado a tempestades deste nível, o que infelizmente potenciou o impacto. Todos vemos nas notícias o resultado dos ventos ciclónicos. Alguns, como eu, terão tido um contacto mais directo, apesar de distante, com moradores das zonas afectadas e é muito triste sentir o desalento e desorientação em que foram mergulhados.
O trauma humano
Muitas pessoas passaram pela ruína das suas habitações, outras viram-se no meio de um cenário de guerra, onde imediatamente foi sentida a falta de serviços básicos como água, luz, comunicações e abastecimento de combustível e alimentos. Pior do que não saber o que se passa fora da “bolha” física e local que lhes foi imposta, é sentir que nada chega do exterior, como se estivessem ao abandono e esquecimento.
Obviamente a magnitude do evento não permite a resposta global, mas essa racionalidade não é suficiente para fazer esquecer esse sentimento e a constatação de que há momentos em que só podemos contar connosco e com os que estão em nosso redor.
Ao imediatismo da necessidade de sobrevivência, junta-se o fantasma da incerteza quanto ao fim da provação (já que as chuvas torrenciais não param) e ao futuro financeiro e laboral, pelo que é preciso também zelar pela saúde mental nas áreas afectadas, criando as medidas necessárias para o proporcionar.
O real impacto económico
Apesar de as TVs focarem o que se passa na cidade de Coimbra, o território severamente afectado alarga-se no mínimo à maioria dos distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e parte de Castelo Branco (havendo outros distritos afectados consideravelmente).
Falando apenas nos três primeiros estes representam 12% a 15% do PIB nacional, com cerca de 1,3 milhões de habitantes e 750.000 trabalhadores. É indiscutível que o foco deve ser a recuperação e regenaração de comunidades e economia, custe o que custar. Mas vai fazer mossa nos anos vindouros.
Onde estão os planos de prevenção e acção?
No tema das campanhas de sensibilização relativamente a “alterações climáticas” e eventos extremos que irão assolar Portugal a bota não bate com a perdigota. Campanhas mediáticas justicam-nos enormes investimentos para preparar Portugal para o combater e prevenir, mas quando somos alvo de um real evento extremo percebemos que pode ser apenas propaganda.
Falha nas comunicações
Temos um sistema de telecomunicações para emergência e socorro baseado em antenas e fornecimento de energia que pelos vistos está altamente vulnerável, perdendo o pio exactamente nos momentos em que é necessário. Pior, a população perdeu todas as comunicações, a única viabilidade foi sintonizar sinais de rádio, o que foi feito por muita gente. No entanto isso só gerou indignação porque, esperando orientações e actualização sobre o que se passa no terreno, a fórmula era a mesma de sempre: música, entretenimento, notícias generalistas e futebol. Pelos vistos as ferramentas de alienação não têm o mesmo efeito quando foi activado o modo de sobrevivência. O que a população esperava era articulação de acções, ajuntamentos, mensagens de esperança, demonstração de progresso no terreno, o que teve foi uma desvalorização total da sua desgraça e ocupação da única ferramenta de comunicação com conteúdos totalmente inúteis e desenquadrados.
Existem soluções de recurso, por exemplo redes de walkie talkies prontas a distribuir e usar, que permitam ligar as populações próximas e agilizar a sua entre-ajuda evitando deslocações complicadas. Não faz sentido não haver prontidão local para casos de blackout de comunicações e SIRESP.
É preciso desenhar um circuito de informações centralizada que permita comunicar o que se passa dentro das zonas afectadas para o exterior e vice-versa. Para tranquilizar familiares e evitar deslocações em massa por impulso que podem ainda prejudicar mais a situação ao criar pressão acrescida numa zona sem condições.
Falha nas infrastruturas
É compreensível que partes da rede eléctrica, com décadas, estejam assentes em estruturas não preparadas para resistir às forças a que foram submetidas, inclusive há que reconhecer o bom trabalho no restabelecimento desta infraestrutura básica (61 postes de alta tensão foram derrubados). No entanto, há que questionar com muita veemência como é possível instalar telhados e estruturas industriais não preparadas para o que nos dizem vir a ser o cenário futuro do clima em Portugal.
Pior, os recentemente subsidiados painéis solares não resisitaram aos efeitos daquilo para o qual supostamente são uma medida preventiva. Um só exemplo, no parque industrial de Gaia, na Figueira da Foz, a empresa United Resins teve 800 painéis solares completamente destruídos. Em Ferreira do Zêzere, onde 85% das casas sofreram danos, estima-se que centenas de sistemas solares domésticos foram arrancados ou danificados por detritos projectados pelo vento. Posto isto será o solar a solução tendo em conta a sua vulnerabilidade para este tipo de eventos!? Significando que o dia seguinte é blackout garantido?
Falha na preparação
Obviamente as autoridades competentes deveriam estar preparadas para este tipo de cenários. Garantir comunicação a fluir para toda a população, ordenar fluxos de movimentação, organizar grupos de trabalho, etc. No entanto, também cada um de nós deve estar ciente que há momentos em que nos cabe a nós (re)agir. Saber o que fazer, ter mantimentos e combustível armazenados para x dias, estar preparado mentalmente para um cenário de blackout em que temos de nos relacionar e interajudar com a comunidade local. Essa preparação para a adversidade ou a catástrofe faz parte dos países normalmente alvo delas. Por cá os preppers são muitas vezes vistos como pessoas desequilibradas ou pessimistas mas talvez tenhamos de repensar os nossos programas escolares para introduzir tópicos de sobrevivência, resiliência e trabalho de grupo em condições extremas. Muitos vão ter essa aprendizagem agora, pela via mais dura, mas que nos sirva como reflexão para futuro pois é essencial para tornar estes momentos mais serenos.
A lentidão na decisão
Parece que tivemos um ministro lesto em fazer uma produção para as redes sociais, onde transparecia a sua dedicação e esforço, a partir de uma sala de crise constantemente ao telefone, vá lá que no terreno poucos lhe tiveram acesso por falta de electricidade ou comunicações, talvez por isso se tenha safo de um linchamento público, também compreensível nestes momentos.
Na TV assistimos a exaspero e desabafos dos que estão naquela penitência, nas redes sociais isso é ainda mais exarcebado com múltiplos posts de pessoas a partilhar a sua experiência, angústias e consternação. Na política assistimos à tacticidade do costume. Avaliação de estragos, definição de timings, polimento das declarações políticas, patati patata.
Não sei o que precisam para perceber que precisamos de decisões políticas de rajada, de preferência à mesma velocidade dos ventos que nos assolaram. Até ver o governo
- Activou rede de apoios de emergência com bens de primeira necessidade, alojamento e cuidados de saúde;
- Acelerou financiamento para recuperação urgente de infrastruturas;
- Vai providenciar indemnizações às famílias de vítimas mortais ou com lesões incapacitantes;
- Criou linhas de poio financeiro para recuperação de habitações, parques industriais e agrícolas;
O que é a resposta padrão a quaisquer eventos de calamidade, no entanto, tendo em conta a dimensão dos estragos, diria que o ideal seria
- Dar condições para quem o desejasse, vivendo nas zonas afectadas ou sendo familiar directo de quem aí habite, pudesse simplesmente pausar a sua actividade laboral, sem perda de emprego, para dedicação total à reconstrução da zona e comunidade. Com custas pagas pelo estado ou suspensão de responsabilidades relacionadas com empréstimos. Dar tempo e espaço ao refazer das vidas.
- Garantir a resposta necessária a todos os trabalhos de reconstrução que vão ser precisos. Será preciso deslocar empreiteiros? Usar a população local para fazer esses trabalhos? O sector da construção já é por natureza lento na resposta à procura, pelo que algo é necessário para acelerar.
- Ser implacável com quem comete pilhagens e roubos, seja directamente no terreno ou online com falsas campanhas de angariação de fundos.
- Até plena regularização de comunicações utilizar os canais de comunicação activos para maioritariamente comunicar sobre o que se passa no terreno, inclusive tempos de espera em bombas e supermercados disponíveis.
Isto foi o que me saiu a quente, aquele território precisa de tempo, foco e tranquilidade, certamente quem está a viver a situação terá bem mais e melhores sugestões do que quem está a ver de fora. Fica aqui o convite para o deixarem patente nos comentários.
Eleições quê?
Finalmente deixo um último pensamento. Se esta situação não estiver resolvida no prazo de uma semana que sentido faz haver umas eleições presidenciais que neste momento foram inclusive relegadas para segundo plano? Além desta população poder correr risco de não poder votar devido às circunstâncias, certamente na sua cabeça a eleição para a presidência é neste momento uma minudência. Respeitando o momento talvez estas devessem ser adiadas. Em último caso, se as entidades oficiais não tiverem essa sensibilidade, porque não uma abstenção solidária para que não se corra o risco de uma parte significativa do país não ter condições para expressar o seu voto?

Updating…
Tipicamente, um dos mais entediantes e banais momentos dos nossos dias começa naquele instante em que o nosso computador, tablet ou telemóvel nos diz que necessita de uma actualização. Defraudados no nosso ímpeto de acesso, desapontados com esta faceta menos simpática da tecnologia, anuímos ao aborrecimento em troca da alegada melhoria, seja desempenho, segurança ou correcção de anomalia entretanto descoberta. Evolução a cada actualização, o equipamento torna-se mais rápido, mais capaz e seguro, mas não lhe é acrescentado valor, tão só uma sucessiva (nunca acabada) supressão de defeitos e fragilidades, desejavelmente ao ritmo que são detectadas, mas em rigor apenas e só à medida que a implementação se torna economicamente viável.
Ora, não obstante o nosso empenho em actualizar sistemas operativos, antivírus e firewalls, os nossos equipamentos nunca estarão 100% imunes. Por exemplo, neste preciso momento, a sua máquina pode já estar contaminada com um vírus “ainda sem nome”, cuja acção é imperceptível. Não sendo conhecido à data, não significa que não existe, apenas não foi detectado. Tão pouco se saberá como se transmite, consequentemente a forma como ocorreu o contágio. Terá entrado num email, numa actualização de um programa gratuito ou terá sido naquele site apagado do histórico de navegação?
Este mesmo vírus, sendo aparentemente inofensivo para a sua máquina, poderá criar problemas complicados, quiçá fatais, a equipamentos mais antigos ou frágeis, situações em que a derradeira falha será diagnosticada como o natural e expectável fim de ciclo de vida.
Contudo, o vírus “ainda sem nome” poderá entretanto manifestar-se num importante servidor central de uma qualquer organização relevante, dotada de poderosos recursos técnicos e para a qual possa constituir ameaça real. Nesse mesmo dia, o vírus será baptizado e classificado como “Novo”. Dias, senão horas depois, a sua definição constará de todos os antivírus deste mundo e consequentemente terá início uma vertiginosa contagem de infectados. Face ao aparente ritmo de contágio, assustados ou explorando uma oportunidade de negócio (qual bug do milénio), talvez seja declarada pandemia…
And Now For Something Completely Different: OE2019
O que levará alguém a abdicar de uma vida normal e abraçar a vida circense? É sabido que o mundo é das crianças e talvez por isso se diga que os palhaços são as estrelas da companhia, mas nem só de gargalhada se faz o espectáculo. Outros artistas brilham, tais como acrobatas, contorcionistas, domadores de feras ou ilusionistas, mas tal como o estado precisa de orçamento, o circo carece de malabaristas. Sendo um número já visto, a destreza exigida ao artista é competência rara e se o talento por um lado ajuda, por outro só a prática permite atingir a perfeição.
O público é implacável e não perdoa erros – Quando a cascata falha e a bola cai ao chão, a vaia é garantidamente estrondosa. Coisas da democracia, aproximam-se as Eleições Legislativas e muito embora metade do público não participe, todos tecerão a sua crítica, ou porque é eleitoralista ou porque não é suficientemente generoso e redistributivo. Provavelmente todos terão a sua razão, mas o seu a seu dono, o malabarista continua sem deixar cair nenhuma bola.
O verdadeiro artista é assim, sabe gerir a expectativa do seu público, sabe que não pode falhar, mas também sabe que nada supera o impacto de uma correcção in extremis, vulgo cativação. Orçamenta-se, mas não se gasta. Em finanças públicas, tal como no circo, usam-se estas técnicas antigas, gastas, mas eternamente actuais. É caso para dizer… e agora algo completamente diferente: absolutamente nada. Desmonta-se a tenda e parte-se rumo ao próximo destino. São nómadas!









