Category Archives: Mentalidade Tuga

Expo Défice

Parece que foi ontem, mas a inauguração da Exposição Mundial – Expo 98 aconteceu hoje, há precisamente 19 anos. Vivíamos então dias de modernização e confiança, de cultura e diversidade, uma festa patrocinada pelo infinito el dorado que se avizinhava! Reinava então o optimismo, a euforia e a crença num futuro risonho. O país dava mostras de dinamismo ao mundo, e este compareceu em peso na renovada zona oriental da velhinha cidade de Lisboa. Foi giro, foi diferente. Depois voltámos às nossas rotinas, ao ancestral lamento e revolta inconsequente. Mas, felizmente apenas meia dúzia de anos depois, outro grande evento, desta feita desportivo. Era a receita de Porter. Estivemos perto, mas não fizemos a festa, na verdade vimo-nos gregos, quer no inicio quer no fim. Ficaram os estádios, e a conta claro! Meia dúzia de anos depois, íamos de pac em pac. Já não foi nada giro, e pior ficou quando nos foi aplicado o castigo. Chamaram-lhe ajustamento. Único e inevitável remédio, para o qual não houve alternativa. Não fomos piegas, e qual óleo de fígado de bacalhau, tomamos o frasco todo.

Já acostumados à terapia, foram chegando as boas noticias, as euforias! O deslumbramento propriamente dito começou com a conquista do campeonato da Europa de futebol. Deslumbrados desde então, vitimas de optimismo irritante, não parámos! Celebramos por menos e sobretudo, gastando menos, mas já voltamos à festa. Depois do crescimento recorde, dos juros negativos, a boa noticia de hoje é o anuncio da recomendação da comissão europeia para por fim ao procedimento por défice excessivo, logo hoje, no dia do nascimento de compositor da Cavalgada das Valquírias, Richard Wagner, o que por certo não será uma mera coincidência.

Anti-Fascismo Vacinacional

Retornado de umas férias, ao estilo retiro offline, constato que a polémica sobre a vacinação deu ainda muito que falar. Vi em diferido o Prós e Contras dedicado ao tema da vacinação onde o único contra-peso à altura do painel, 100% defensor da vacinação, foi José Cruz, que refutou conclusões científicas com conclusões científicas colocando algumas questões pertinentes que foram habilmente contornadas pelo painel.

Nas redes sociais este tema levantou os movimentos de inquisição do costume, com trolls incendiários a incinerar todo aquele que demonstrasse dúvidas sobre a necessidade de uma vacinação obrigatória.

Apesar do Sarampo ter sido a origem da discussão esta é muito mais vasta. Quando se fala de vacinação deve olhar-se para cada vacina como um caso isolado, existindo vários espectros de aceitação, desde as que não têm resistência à toma às que são altamente colocadas em causa.

Basicamente existem os que têm confiança cega na medicina e os que dela desconfiam procurando saber um pouco mais sobre a relação custo vs benefício de cada vacina. A medicina blinda-se exigindo estudos com aceitação científica que contradigam os benefícios das vacinas. O outro lado da barricada realiza estudos contraditórios, análise estatística dos dados conhecidos e a adopção de terapêuticas não convencionais.

Quem se posicione ao centro, esteja disponível para ouvir o que tem cada um deles a dizer, perceberá que não existem certezas nem garantias de protecção absoluta em qualquer um dos lados. Ambos apresentam argumentação válida, ambos têm um nível de risco associado. Pelo que me parece que a solução mais sensata será realmente o da manutenção da não obrigação da vacinação. Isto porque as hipotéticas consequências nefastas da vacinação ou não-vacinação não atravessam os grupos populacionais em causa. A argumentação de que os pais não devem deter esse poder sobre as vidas dos seus filhos choca com o livre-arbítrio existente para a escolha de uma religião, uma crença, uma filosofia de vida, não temos necessariamente de aceitar e compreender, temos sim de ser tolerantes. Relembro que esta não é uma escolha vinculativa nem totalitária, podem ser recusadas ou adiadas a toma de apenas determinadas vacinas e a qualquer momento pode ser retomado o programa de vacinação, total ou parcial, se expressa essa vontade ou necessidade.

O que me parece sensato é aproveitar este momento para juntar ambas as partes a fim de organizar um estudo comparativo a longo prazo do estado da saúde física e psíquica de população vacinada vs população não vacinada. Julgo que seria do interesse de todos este tira-teimas, garantindo-se em simultâneo um acompanhamento mais próximo da população não vacinada que hipoteticamente se encontra em maior risco. Desta forma daqui a umas décadas seria possível constatar com dados concretos, em cenário contemporâneo, quais os benefícios e prejuízos de cada uma das opções.

Numa tentativa de diminuir o nível de linchamento dos não vacinantes passo a compilar alguns pontos de vista sobre a matéria que espero possam levar a um melhor entendimento do porquê deste movimento emergente de anti-vacinação (total ou parcial).

Argumentação Pró-vacinação Argumentação Anti-vacinação
As vacinas evitam anualmente milhões de mortes e potenciais sequelas graves em todo o mundo. Este número expressivo provém de um acumulado estatístico. No mundo existem milhares de milhões de humanos. Numa análise local, a cada país, estas mortes, apesar de lamentáveis, correspondem a uma ínfima porção da população chegando a vacinarem-se milhões para evitar centenas de mortes potenciais com origem numa doença específica.

Por outro lado não existem estudos a longo prazo sobre efeitos colaterais de vacinas com indicação de mortes e sequelas graves provocadas pela sua toma, mesmo que só manifestadas décadas depois da toma. Nem sequer está facilmente acessível, como acontece com os restantes medicamentos, uma bula para cada vacina com as normais contra-indicações e potenciais problemas decorridos da sua toma.

O estudo alarmante que estabelecia uma ligação entre uma vacina específica do Sarampo e o aumento de casos de autismo foi provado ser uma fraude. Não existe apenas um estudo, existem centenas de estudos a apontar para essa mesma  conclusão. Para além desta vacina em particular existem estudos que analisam potenciais efeitos de outras vacinas.
A vacinação é a única forma de garantir a protecção ou imunidade contra um conjunto de doenças comuns e severas que podem conduzir à morte. Nas últimas décadas assistiu-se a grande evolução de aspectos essenciais à construção de um sistema imunitário forte como a higienização pessoal, limpeza de espaços onde se vive,  cuidados de nutrição com alimentação equilibrada, prática de estilos de vida potenciadores de saúde, bem como são cada vez mais adoptadas terapêuticas não convencionais que apresentam resultados comprovados quer na prevenção quer no tratamento.
As vacinas em utilização são comprovadamente seguras e eficazes. Alguns exemplos de situações ocorridas no passado noutros países:

O conhecimento científico em que se baseiam as práticas de medicina ocidentais deve ser reconhecido como uma verdade absoluta pois é fruto de trabalho minucioso realizado por especialistas ao longo do tempo. A medicina ocidental ostracizou e ridicularizou práticas como o yoga, vegetarianismo, medicina tradicional chinesa, etc, que décadas mais tarde veio a reconhecer como altamente benéficas para a saúde.

A medicina ocidental age de acordo com o conhecimento que detém ao momento, sem flexibilidade para encaixar aproximações alternativas, sendo extremamente lenta na desconstrução de dogmas instalados. Para agravamento da situação existem em acréscimo fortes lobbies com interesses económicos capazes de colocar obstáculos em  certos rumos da ciência médica quando isso coloca em perigo a rentabilidade do seu negócio.

Revelações de Milhões

luis-mclaren-mentes

Enormes, desmesuradamente grandes e avultados fluxos de capital, vulgo dinheiro, são semanalmente anunciados na rubrica televisiva protagonizada pelo virtuoso piloto das massas que dá pelo nome de Mclaren Mentes. Rápido na previsão, pouco preciso na trajectória, raramente acerta mas nunca é confrontado com as previsões por concretizar. Estranho? Não! O formato de entrevista a fingir ajuda, o jornalista não exerce, faz de ponto numa conversa que muitas vezes parece ser (provavelmente é) ensaiada. Lá na estação há, que eu sei, um especialista em verificação de factos, mas por qualquer motivo esse talento na acareação é dispensado.

Compreende-se, não se ataca o próprio produto! Muito embora o grupo tenha no passado dado provas de grande independência editorial, atacando severamente o patrão quando este foi primeiro-ministro, esses tempos de liberdade terminaram. Hoje prevalecem as razões comerciais. O próprio semanário refere Mclaren Mentes como fonte, o que confirma o bom desempenho comercial do rapidíssimo piloto. Há procura para esta oferta. Há, contudo, uma dúvida que me assalta e prende-se com as fontes nunca citadas. Não! Não as quero reveladas, não tenho quanto a isso a menor curiosidade. O que me fascina, o que me deixa perplexo é Mclaren Mentes saber sempre de tudo, sobre todos, invariavelmente antes dos demais, mas sobre si, sobre as suas acções ou negócios, não se lembra, desconhece, nada, nada, nada

Das duas, uma: ou faz da inconfidência sistemática modo de vida, e como tal não se compreende como ainda não secaram as fontes, ou então simplesmente transmite recados.

lmm-a-opiniao-que-conta

 

 

Pinocchio

Eis-nos de volta aos clássicos do cinema e à encantadora história de Pinóquio, o boneco de madeira que por magia se transformou em menino de carne e osso. O Conto original de Carlo Lorenzini chega aos nossos dias graças a mais uma enternecedora polémica nacional. Sucintamente: uns pediram o que entenderam, os outros querendo agradar acederam e quando se percebeu que não podiam dar, quem pediu saiu. Bem sei que pode parecer coisa do outro mundo, da exploração espacial, mas não é. Não foi. Já todos, sem excepção sabemos o que se passou e embora não se perceba se foi incompetência ou intensão, ninguém quer saber as motivações.

Debate-se, alvitra-se, mas mais para entreter do que propriamente para chegar a qualquer conclusão. Uns conspiram e afirmam que os outros visaram a aprovação do plano maravilha, e que uma vez aprovado dispensavam a continuidade do pretendido por ser incómodo ao Status quo. Será? Talvez… Outros contrapõem que no fundo quem alimenta a polémica procura a privatização da instituição, mas eu desta última discordo. A privatização pretendida já foi feita sem ruídos ou polémicas de maior. Passou incólume aquando da venda dos CTT, processo com cereja, a oferta da doce licença bancaria. Tudo que de interessante poderia haver na privatização da instituição no centro desta polémica já está entregue a quem de direito, os sacrossantos mercados. Então que temos? Bem, Gepeto quer salvar Pinóquio, filho pródigo que aos opositores irrita solenemente porque os números são o que são e não era suposto serem.

pinocchio_centeno

Mário só ares?

Muita água já passou debaixo da ponte desde o meu último post, lá fora temos um novo líder mundial que deixa muita gente infeliz por cumprir a todo o gás as suas promessas eleitorais, por cá Portugal fica a saber que não existem peças sobressalentes para manter a gerigonça funcional, basta um dos componentes pifar e há promessas que ficam por cumprir.

No entanto apetece-me falar de Mário Soares, julgo não ser ainda ‘demasiado cedo’ para tocar em certos temas com isso relacionado. Após a morte de Mário Soares fomos inundados por uma exurrada de peças jornalísticas que nos vendem Mário Soares como o pai da democracia, o pai da liberdade, que todos, inclusive os que o criticam agressivamente, lhe devem uma idolatração incondicional.

É inegável que foi um homem culto, inteligente, aparentemente simpático e afável, presente em vários momentos marcantes da história recente de Portugal, e como tal merece respeito e reconhecimento no momento da sua morte. Nada mais do que isso.

A verdadeira liberdade foi tomada pelos capitães de Abril que a devolveram aos surpreendidos cidadãos. Foram estes homens que tiveram a capacidade de se revoltar, organizar secretamente, executar um golpe com tal mestria que não necessitou do derrame de sangue. Sem qualquer sede de poder, apenas motivados por um sentimento de dever e de justiça social. Se a alguém devo estar agradecido pela minha liberdade é a esses senhores e aos homens que tiveram a coragem de os seguir.

Mário Soares reconheceu-o, aproveitando a janela de oportunidade que lhe foi escancarada. Granjeou os apoios necessários e instalou-se no panorama político nacional e internacional.

Segundo as reportagens solenes a Mário Soares muito devemos do desenvolvimento de Portugal e a melhoria avassaladora de todos os indicadores que definem o nível de uma sociedade. Será? Ou o ponto de partida era tão baixo e miserável que seria impossível não os melhorar de forma significativa? Sobretudo com o músculo dos apoios comunitários  com uma média de entrada de 9 mil milhões de euros por dia desde 1986!

Se a Mário Soares querem atribuir a paternidade da democracia, bem como grande parte do mérito do estado do Portugal actual, talvez acabem por contribuir mais para o denegrir do que o elogiar do seu nome. O que devem as nova gerações agradecer? O sobreendividamento do país? As oligarquias amparadas e amparadoras? O estado da banca nacional? A corrupção? O desaparecimento de milhares de milhões dos fundos comunitários? Tudo isto também precisou de boas décadas de instalação e desenvolvimento.  Será o custo inerente, e aceitável, ao desenvolvimento meteórico da saúde, educação, ciência e economia?

Mário Soares foi um político, um homem com pelo menos um bom olho numa altura em que a maioria da população era cega, surgiu numa altura em que foi fácil realizar coisas de encher o olho e ao mesmo tempo realizar coisas menos transparentes. Não foi de todo consensual a sua actuação, não faltando rabos de palha relacionados com o carácter, conduta e interesses pessoais e daqueles que o rodeavam.

Correndo o risco de ser ingrato confesso que não me sinto de todo impelido a um agradecimento incondicional, pelo contrário fico com a sensação de que se poderia ter feito muito mais e melhor, apesar de comparativamente ao ponto de partida se ter realmente feito muito.

Finalizando deixo uma sugestão para os meios de comunicação, quando faleça uma pessoa com importância relevante, por favor, não se desdobrem em elogios desmesurados, que sejam apenas prestadas condolências respeitosamente, pois mesmo nestes momentos têm o dever de informar e esclarecer sem contribuir para um branquear além da palidez concedida pela morte.

mario-so-ares

Kamikaze

a6-zero

O momento era grave, a situação difícil mas foi da surpresa que oportunidade surgiu. O inimigo navegava à vista, crente e confiante na vitória apesar das diferenças de opinião a bordo. A guarnição da geringonça acreditou que podia discordar, unida nos seus antagonismos, mas enganou-se. Pronto para o supremo sacrifício, lá estava Pedro, o Kamikaze Coelho. Não hesitou. No afã de sempre servir o supremo interesse da nação atacou destemido o invasor, a frota do aumento do ordenado mínimo, esses usurpadores!

Fê-lo sem olhar para trás, porque da coerência não reza a história e a dita, como sabemos, é escrita pelos vencedores. Queria ganhar, repelir aqueles que têm revertido a sua obra. Apostou no tudo ao nada, ignorando as consequências, concentrou energias nos danos causados ao inimigo. Preparou-se para partir, tomou o Saquê e proferiu o grito de guerra – Vou salvar a concertação social, em especial as confederações patronais, pobres reféns do governo. O objectivo era nobre, a vontade férrea e o instinto de autopreservação nulo. Determinado, voou picado no seu Zero.

Porém, após o severo impacto, sobretudo mediático, a geringonça reagiu. Lambeu as feridas, reparou os danos e manteve-se à tona. O choque do primeiro embate ao invés de acicatar as diferenças, gerou consensos, refez amizades, restabeleceu afectos. O guerreiro Kamikaze inspirou os seus, mas a geringonça arrumou as hostes graças à violência do ataque. O efeito surpresa fez despertar as consciências na frota de esquerda, a todos relembrou sobre o mal que os une, o ódio a Pedro.

pedro-kamikaze-coelho

Tiro ao Boneco

Pérfido e vil traidor à pátria, ingrato e rancoroso, mesquinho e malfadado, eis o perfil que convém ao vilão do momento mediático. Na hora de glória do filho mais pródigo da nação, na falta de melhor notícia, nada como uma parangona sobre traição à nação e aos seus símbolos, sobretudo aos de carne e osso. Compreende-se. No momento de idolatrar o melhor do mundo, uma vez esgotada a notícia da vitória, nada como o contraste entre a virtude e a ignomínia, uma notícia para execrar outra personagem. Bem, pelo menos à primeira vista porque após leitura tudo se relativiza. O protagonismo coube a um velho desafortunado da nossa história desportiva, ex-seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz. Parece que entre os seleccionadores com direito a voto na eleição dos melhores, não favoreceu os compatriotas a concurso.

Terá mesmo votado contra? Em rigor, não! Não, porque não lhe coube a decisão sobre o sentido de voto. Foi mandatado. Se em Roma, sê romano, em Teerão sê iraniano. Parece que entre os persas, tal como nas grandes e liberais democracias do mundo, a lógica de um voto por cada homem cede o lugar ao colégio eleitoral, composto por super-eleitores, treinadores da Iran Pro League, que entre si decidiram o voto do treinador português, seleccionador do Irão e injustiçado vilão de mais esta desventura. O caso não é de todo aquilo que aparenta, mas à maioria pouco importarão os factos. Perante a notícia manipuladora, avançará o pelotão de fuzilamento. Vamos ter tiro ao boneco.

tiro-ao-boneco

Última Hora: Indesmentível e factual

Uma importante investigação jornalística acabou de ser divulgada, gerando grande polémica e espanto entre todos os telespectadores. Os factos são indesmentíveis e foram finalmente divulgados pelos meios de comunicação. As novas tecnologias tiveram um papel preponderante na condução da ciosa investigação, tendo permitido obter provas irrefutáveis dos factos apurados e confirmados pelas fontes anónimas, as quais permitem hoje afirmar com total certeza e convicção que a última hora terminou exactamente sessenta minutos após o seu início.

Eis o exemplo de conteúdo bem-sucedido nas redes sociais. Nem sequer precisa de ser mentira, basta dizer “Última Hora”, ser ilustrado com um rosto conhecido ou polémico, conter ambiguidade quanto baste e claro, repleto de suspeição e mistério. No fim, pode até não dizer nada. A mera ilusão de que algo de grave será revelado é suficiente para despertar a curiosidade do internauta, seja ele ou ela, perspicaz ou denso de processo cognitivo. Somos uma espécie fácil de pescar online, com a agravante do isco ser abundante e por isso acessível a todos.

Nos últimos tempos têm-nos tentado convencer que o problema reside nas chamadas notícias falsas, mentiras torpes que ameaçam um mundo paradisíaco e que nunca até aqui tinha sido palco de qualquer forma de manipulação. Revelam-nos até milagrosos planos de prevenção e combate a esta terrível ameaça ao equilíbrio do planeta. Devemos desconfiar desta nova embalagem da (julgada) extinta censura? Talvez, mas antes de aderir à teoria da conspiração, uma singela, quiçá inocente, pergunta: O problema está nos emissores ou nos receptores?

ultima-hora

Qui? Moi?

O Cour de Justice de la République – CJR, é um tribunal especial da república francesa sem congénere nacional, uma vez que apenas avalia a conduta dos ministros da república. É portanto um tribunal de governantes, que julga os casos de má conduta durante o exercício de funções. Uma nobre função, uma organização de grande importância para o regular funcionamento das instituições, mas cuja existência se deve cingir a nações com orçamentos desafogados, ou que (pelo menos) os juros da dívida soberana não façam parte das rotinas noticiosas.

Hoje que falta uma dúzia de dias para acabar o ano, o CJR condenou a actual Directora-Geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, por negligência enquanto exerceu funções como ministra da economia da república francesa. O caso envolve um polémico empresário, um fabricante de calçado alemão e um banco francês. O empresário, ele próprio ex-ministro das cidades de França no tempo do malogrado ami Mitterrand, Bernard Tapie é uma espécie de José Sócrates gaulês, mas à devida proporção. Durante uma década, esteve em todas. Dessa feita, à época falido, vendeu a sua participação na Adidas ao banco francês Crédit Lyonnais, que por curiosa coincidência também faliu. Esta venda, culminou em litígio entre o vendedor e o comprador. O desfecho desta disputa foi favorável ao empresário e foi precisamente por não ter recorrido desta decisão que Lagarde foi hoje condenada por negligência. Qual a pena? Nenhuma! É por isso que prescindimos deste tipo de tribunal especial. Seria um custo incomportável para uma função inconsequente.

qui-moi

Nobel da Nota

Vivemos dias de exacerbado orgulho nacional, de repetida celebração dos protagonistas do momento, por isso resolvi relembrar um notável de outros tempos, o primeiro português galardoado com um prémio Nobel. Nascido a 29 de Novembro de 1874 em Estarreja, Aveiro, o Professor Doutor António Egas Moniz não herdou o apelido de seu pai, mas foi por influência do irmão deste que foi baptizado. A família paterna descendia directamente de Egas Moniz de Riba Douro, o Aio, um distinto indivíduo a quem o nobre Conde D. Henrique de Borgonha confiou a educação do seu primogénito, aquele que pela força criou um reino e se fez rei, Afonso I de Portugal.

Hoje, no sexagésimo primeiro aniversário da morte do Professor, invoco a exuberância dos seus órgãos vestibulococleares (vulgo orelhas) característica que o deprimia, mas é sobretudo com muita saudade que lembro a nota criada em sua homenagem, a nota de dez mil escudos, esse símbolo da soberania monetária de outrora, livre no seu perpétuo movimento de desvalorização, mas ainda assim com maior poder aquisitivo que os actuais 50 euros.

Estranha esta saudade, não é? Logo agora que não só não existe inflação como nunca a diversidade de escolha foi tão vasta. Antigamente, quando os preços subiam constantemente, ao invés de milhares de produtos e marcas diferentes, coitados, éramos forçados a consumir os clássicos como a pasta medicinal Couto, o restaurador Olex ou as doces Fantasias de Natal, aquelas em cujo anúncio o Coelhinho ia com o Pai Natal e o Palhaço no comboio ao circo

dez-contos