Category Archives: Mentalidade Tuga

Não me demito. Câmbio.

15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.

Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o  Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.

Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.

Câmbio

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O impacto da escolha dos carris

Portugal está há muitos meses política, social e jornalisticamente encravado. Engolido  por um furacão temático que o contém, supostamente a salvo, no seu pacífico olho, obrigando-o a dançar ao sabor dos ventos que o circundam, impedindo-lhe o vislumbre do horizonte. Nesses ventos são reciclonados caoticamente os mesmos temas  que perigam à vez o país: incêndios, Tancos, taxa de desemprego, crescimento económico, turismo, greves, dinâmica da geringonça, Marcelo em todas, crise no PSD, We Brand, negociações sindicais, operação Marquês, décimas do deficit, etc, apimentados com umas Trumpalhadas, alarmismos e terrorismos internacionais.

Devido ao toldar de visão este furacão cria uma perigosa ilusão, a de que são estas as questões de fundo essenciais ao futuro do país e do mundo. Estranhamente deixou de se falar da crise dos refugiados, da guerra da Síria, anteriormente tão absorventes, estarão resolvidas? Alguém se lembra da discussão do impacto do CETA/TTIP para Europa e Portugal? Ou é para ser assumido como um facto consumado com que ninguém tem de se preocupar? Será relevante evidenciar que atravessamos um período de seca gravíssimo e que o país precisa de repensar toda a sua gestão de recursos naturais?

Para lá desta barreira temática existem povos, aparentemente não condicionados, que vislumbram bem mais além, ousando tomar medidas disruptoras focadas na construção de um futuro melhor, não necessariamente do ponto de vista económico.

Seria muito bom que Portugal e os portugueses acompanhassem estes movimentos que vão redefinir o mundo a médio-prazo. Claro que para isso teríamos de ter uma população formada e informada, que colocasse o orgulho no seu estilo de vida, no seu impacto positivo no mundo, acima do orgulho desportivo, do comodismo do seu umbigo, uma população que da mesma forma que rejeitaria a nomeação de corruptos comprovados para tesoureiros do seu dinheiro não os elegesse para mandatos políticos renovados, uma população que colocasse o interesse comum acima do seu mesquinho interesse pessoal.

Estou certo que um dia aí chegaremos. Até lá continuaremos a desfrutar da relativa tranquilidade do olho do furacão, fortalecendo-nos num presente que em breve será um passado muito diferente do futuro que se avizinha. Quando terminar a tontura deste constante rodopiar constataremos que talvez devêssemos ter aproveitado todo o esforço despendido não a reentrar nos eixos de que saíramos mas sim a encarrilar em novos rumos, mesmo que economicamente menos favoráveis a curto prazo.

Combustível Eleitoral

Para que servem eleições?

Os incêndios devastadores deste Verão demonstraram que nem todos se batem devidamente pelo bem comum, sendo responsáveis directos por más decisões, más regulações, más fiscalizações. Quer a a nível local quer a nível estatal. Para além dos cenários macabros evidentes em cobertura jornalística, um estudo da Quercus veio demonstrar que um quarto dos municípios de Portugal Continental não cumpre as suas obrigações no âmbito da Legislação de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Há 72 municípios do Continente que não têm sequer em vigor o “Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios” obrigatório por Lei!

Por curiosidade fiz um levantamento das taxas de abstenção, somadas aos votos nulos e brancos, dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 2017, evidenciando-se que muita da população (40% a 50%) dos concelhos de risco não está minimamente preocupada com entrega das chaves do poder. E assim contribui para o estado da sua autarquia, da nação. A fim de entenderem a gravidade da sua ausência no processo decisório, quem não se preocupa com a nomeação dos seus cuidadores talvez também não devesse esperar cuidados de terceiros quando os que ajuda a eleger por omissão falham nas suas funções.

Voltarei a este exercício no dia 2 de Outubro para perceber se nestas autárquicas o choque das chamas descontroladas, com muita culpa do poder local, terá despertado um sentimento de revolta nos cúmplices abstencionistas que os leve a revidar com a queima de quem de direito.

Afinal, a primeira coisa para que servem umas eleições é para votar.

% Abstenção + % Votos Nulos + % Votos Brancos
CONCELHO AUTÁRQUICAS 2013 LEGISLATIVAS 2015
Alijó 42% 53%
Anadia 52% 51%
Águeda 52% 49%
Arcos de Valdevez 55% 62%
Arouca 38% 45%
Caminha 39% 50%
Castanheira de Pera 35% 44%
Castelo Branco 56% 45%
Figueiró dos Vinhos 36% 44%
Funchal 55% 53%
Góis 36% 44%
Pampilhosa da Serra 38% 48%
Pedrógão Grande 42% 48%
Penela 42% 48%
Sertã 43% 43%
Vale de Cambra 43% 45%
Viana do Castelo 55% 49%
Vila de Rei 34% 35%

Içados do Lixo

Meia dúzia de anos volvidos, eis-nos subtraídos ao entulho, içados do lixo pela majestática e impoluta instituição de notação financeira. A agência em causa, que tal como as demais, jamais foi contaminada pela falha, equívoco ou erro, proferiu o seu magnânimo e positivo parecer. Celebremos! A festança será obviamente manchada pelo já habitual debate reivindicativo do mérito entre o actual e o anterior governo da República. Esta disputa tem um, e um só, ponto de convergência entre as partes em contenda. Ambas enaltecem os heróis do feito, nomeados voluntários à força para esta causa, os contribuintes portugueses. Pessoalmente dispenso o gesto de reconhecimento, pois não só é manifestamente hipócrita, como é um atestado de infantilidade que a todos nos passam. Se assim não fosse, os protagonistas não disputariam entre si louros ou glória pela ascensão no nível do aterro das dívidas soberanas.

Insultam-nos com os seus elogios fúteis e a sua descarada falsa modéstia. Falsa quer por falta de humildade dos actores, quer por ausência de fundamento. Os riscos mantêm-se e, como sempre, os avisos repetem-se. Estamos no domínio do menos mau, entusiasmados com pouco. Habituados ao nada, nem questionamos a “dádiva”. Gratos, congratulamo-nos, resignados ao incontornável poder dos mercados e dos seus agentes, não democráticos e por isso ditos idóneos. A economia de mercado de outrora confunde-se hoje com a ditadura da finança. Acabaram os estados soberanos, daí o desinteresse e a abstenção crescente. No fundo, mesmo quando não reflectimos sobre onde reside o verdadeiro poder, sabemos sempre quem manda. É triste que tudo isto se tenha tornado banal.

 

Cidadão Meditante

Como bom português, deixei para o último dia a renovação do meu cartão de cidadão. Levantei-me tarde e avancei determinado a cumprir a missão que atribuí a mim próprio para o primeiro dia de férias. Ao chegar tirei a centésima trigésima quinta senha. Eram 11h25. Àquela hora apenas 27 pessoas tinham já sido atendidas. Decidi não me preocupar, pois é este o preço a pagar pelo planeamento in extremis. Perante a obvia demora, optei por um passeio pedestre nesta nova cidade de Lisboa tão amiga do peão como do ciclista. Foi giro, mas pouco mais de uma hora depois, preocupado, inverti a marcha e rumei novamente à Conservatória do Registo Civil. O avanço fora escasso. Acabavam de chamar o quadragésimo quarto freguês do dia. Optimista, constatei que teria tempo para almoçar. Assim fiz. Regressei sem pressa, preparado para esperar. Eram então 14h00, momento do quinquagésimo freguês. Encontrei uma cadeira e aguardei enquanto lentamente o atendimento avançava.

Eram já 16h00 quando uma diligente funcionária, parecendo apelar à debandada, explica que os serviços estão sem sistema. Nesse instante senti ter recuado no tempo, ao ano 1983 quando pela primeira vez na vida, na companhia de Sr. meu Pai, fui tratar do meu primeiro Bilhete de Identidade: Centenas e centenas de pessoas com selos e fotografias na mão, em infindáveis filas, desesperando horas a fio.

Mais de três décadas volvidas, pouco mudou neste nosso Portugal. Haja paciência. Eu tive. Quando finalmente chegou a minha vez, tudo se passou rapidamente, nem 10 minutos, paguei e fugi. Eram 18h10. Ao sair fui abordado por uma simpática repórter do jornal Publico que me fez perguntas sobre a penosa aventura. Uma delas ecoou na consciência até agora: “o que fez enquanto esperou?” Respondi sem pensar, mas creio que não fugi à verdade: meditei.

 

Olhos nos olhos

Antes de mais devo dizer que vejo cada vez menos televisão. Noticiários para ser mais específico. No entanto não quer dizer que não seja bombardeado com “informação” através doutros meios de comunicação. Vivemos a era em que a informação é tão abundante que se torna a era de desinformação, se não tivermos o cuidado de a filtrar.

Nos breves minutos de “zapping” há algum tempo que sentia a falta de Medina Carreira na TV. Julguei que tivesse sido afastado como muitos outros, pois na realidade o seu “pessimismo”, pelo qual era conhecido, não o tornava popular. Li um dia alguém a referir-se a Medina como um “senhor que só dizia mal de tudo”.
Devo dizer, que eu próprio quando via a rubrica “olhos nos olhos” com a Judite Sousa, no fim só me apetecia “cortar os pulsos”. E este sentimento devia-se à forma como Medina Carreira falava com números e gráficos, que não deixava espaço para o “ah ele está a inventar”. Duma forma despreocupada, quer colocasse em cheque o Governo, o partido “A” ou “B”.
Poderão alguns apontar que Medina era um dos representantes do sistema bicéfalo que governa Portugal, por já ter sido Ministro das Finanças, ainda antes de eu ter nascido. Mas tal pode ser visto, não como uma cruz que carrega, mas pelo conhecimento que obteve dos meandros da política nacional. Além disso desde há muito tempo que estava afastado de qualquer interesse politico actual ou futuro, o que lhe permitia dizer o que entendesse, agradasse ou não o espectador.
E é precisamente o contrário disto que se vive hoje na gestão de informação dos órgãos de comunicação. Cada entidade (partido, clube de futebol, associação de qualquer tipo), duma forma mais complexa ou simples, gere a informação que quer que chegue às massas. A importância deste departamento invisível, da sua forma de actuação, por vezes pouco ética, é crucial para o sucesso destas entidades.
Colocam-se pessoas a “mastigar” informação, como comentadores “independentes” ou em debates,  conduzindo o espectador a formar uma opinião com pouco esforço cerebral. As suas motivações são organizativas e pessoais, por esta ordem de valor. Mesmo que quisessem ser independentes não conseguiriam, pois provavelmente acabariam por não ter aquele tempo de antena.
O lobby ainda compensa em demasia em Portugal.
Até podemos tentar compreender a abundância do lobismo com base na exploração a que o português foi sujeito, desde os tempos mais remotos da história do nosso país. Mas não podemos aceitar que tenhamos de pertencer a uma organização para nos sentirmos protegidos nos nossos direitos e disso tirarmos benefícios. Quando cada lobby puxa para o seu lado e os governos movem-se conforme os seus próprios lobbys, perde o país, perde o cidadão comum.
Lamento o desaparecimento de Medina Carreira pois são raros aqueles que como ele opinam, não alinhados com o modo vigente do pro ou contra, sem um objectivo pessoal. Ouvi-lo era credibilizar um pouco a informação.
Sim, talvez para alguns pudesse parecer um louco revoltado, mas para mim via bem melhor com um olho fechado e outro semicerrado do que a maioria das pessoas com os dois bem abertos.

Parada de Montalvo

Ali tão perto da cidade do Entroncamento, o Polígono de Tancos é igualmente pródigo em fenómenos, especialmente do género militar. Há pouco mais de um século, o então ministro da guerra, General Norton de Matos classificou a instrução do tragicamente célebre CEP – Corpo Expedicionário Português como o “Milagre de Tancos”. Em apenas 3 meses, o exército português transformou jovens agricultores em aptos e combativos guerreiros. Tamanho feito foi consagrado a 22 de Julho de 1916 numa cerimónia que ficou conhecida como “A Parada de Montalvo”. Perante as mais altas individualidades do estado, bem como dos embaixadores dos países aliados, desfilaram ordenadamente as unidades de Cavalaria, Artilharia e Infantaria. Contudo, nenhuma manobra de propaganda, por mais bem orquestrada, poderia alguma vez ocultar o grau de impreparação destes 20.000 portugueses para a guerra de trincheiras onde foram lançados. Deram corpo à expressão “carne para canhão”.

Desfila hoje, em parada mediática, outro fenómeno – Foram roubadas armas ao Exército português. Foi em Tancos! Debate político e público intenso, mas pouco imaginativo. Todos debatem o tema nos mesmos termos, escrutinando apenas as questões burocráticas ou processuais, deixando as perguntas óbvias por fazer. O intenso frenesim noticioso, repleto de factos, dados e detalhes, relata-nos uma acção relâmpago, perpetrado pela calada da noite, mas quais os indícios concretos que assim foi? Qual o hiato de tempo entre o roubo e a sua detecção, alguém sabe? Data do último inventário? Terá sido um acto único ou uma prática continuada?

Talvez os inquéritos (quiçá) já em curso possam esclarecer estas dúvidas, talvez haja até quem já esteja a investigar o destino destas armas…

 

Lamento mas não doo

O ciclo repete-se, cenário de tragédia potencial, tragédia efectiva, solidariedade catártica, reconstrução do cenário inicial.

Lamento mas desta vez não doo. À custa da minha reputação social tentarei quebrar o ciclo. Farei-me de sonso. Fingirei acreditar no sistema e nas comunicações oficiais. Confrontarei o sistema com a sua própria ilusão, exigirei dele o que é esperado.

Creio assim que a previsão meteorológica identificou o potencial problema atempadamente tendo sido executados todos os protocolos de prevenção para o que seria uma “tempestade perfeita”.

Confio plenamente que as forças no terreno estavam devidamente articuladas, dotadas de todos os meios de comunicação necessários à evacuação de populações em risco através de rotas seguras.

Fico descansado com o facto das populações em zona de alto risco receberem formação sazonal sobre o que fazer em caso de emergência catastrófica, apesar da hipótese remota desta eventualidade tendo em conta a gestão florestal preventiva e adequada.

Atribuo à ira dos deuses o infortúnio de tantas mortes num curto espaço de tempo, julgo que segundos de profanidade divina, recusando a possibilidade de que estas tenham ocorrido ao longo de horas, espaço temporal suficientemente lato para que mesmo meros humanos, capacitados e organizados, conseguissem retomar grande parte das rédeas do seu destino.

Jubilo com as garantias dadas por protecção civil e governo de que foi feito tudo o que devia ser feito, bem como de que não faltaram meios para o combate ao fogo nem faltará o apoio de todo o tipo às vítimas e lesados, recorrendo-se aos fundos de emergência nacionais e internacionais existentes para esse efeito.

Confio totalmente na retaguarda logística que deve apoiar as forças no terreno garantindo a todo o momento o fornecimento autónomo de mantimentos, bebidas e outros consumíveis de alto consumo nesta altura.

Agradeço a objectividade honesta, assertiva, transparente, do jornalismo, da comunicação das entidades oficiais, direccionadas a uma população formada num sistema educacional de excelência que a torna intelectual e emocionalmente capaz de lidar com a realidade.

E toda esta organização, todo este conhecimento técnico, todo este profissionalismo, garantido pelo simples cumprir das minhas obrigações fiscais!

Que pena tenho daqueles países que dependem exclusivamente da boa vontade, da solidariedade local e nacional. Onde os bravos se deslocam para o terreno sem saber se terão o que comer, o que beber, onde dormir durante a sua deslocação, onde não existe apoio logístico de armazenagem de raiz nem para guardar picos de donativos caóticos caso a população decida responder aos apelos sofridos. Pobres países onde grandes empresas, delapidadas por uma gestão baseada em boa vontade, esventradas de milhares de milhões de euros que acabam escorridos do orçamento do Estado, abrem apesar de tudo simpáticas contas solidárias para colar a sua marca à boa vontade do bom povo contribuidor, onde as linhas de valor acrescentado solidárias continuam a gerar valor acrescentado para terceiros, onde associações de solidariedade correm o risco de colocar em causa as sua poupanças milionárias, os seus avultados investimentos financeiros, se forem chamadas à participação de larga escala em acções beneméritas. Afectuosos países onde até a comunicação social, as entidades oficiais, baseiam o seu discurso numa condescendência branqueadora de falhas porque não se pode correr o risco de causar a revolta nas boas gentes, nas boas vontades, sobretudo quando ainda agora começou a guerra que de tanta carne para canhão vai precisar.

Felizmente estou no meu idílico Portugal. Onde o Estado, contribuintes, jornalistas cumprem o seu papel. Sei que foi difícil chegar aqui. A dado momento foi preciso o mais complicado dos tipos de afecto. O dizer não a um recorrente estender de mão. Forçando os traquinas a perceber que não podem mais depender, nem dispor, da vida, da vontade dos outros, fazê-los perceber que detêm nas suas mãos todo o poder para a mudança e definição das coisas, tal como foram mandatados em lotadas eleições. Não há construção de carácter como o choque frontal com a responsabilidade própria, com as consequências directas dos próprios actos. E pensar que tudo começou com um angustiante colectivo  “Lamento mas não doo”.

 

Harry Potter

Um caso de incomparável sucesso na passagem da literatura à 7ª arte, o clássico do cinema de hoje teve, ao que se diz, influência lusa. A autora, a escritora J.K. viveu entre nós, inspirou-se em figurões e paisagens da nossa terra. O êxito comercial do primeiro livro teve continuidade nos subsequentes. Um feito raro na literatura juvenil, a saga facturou a uma escala sem precedentes na era digital. A chegada ao cinema foi por isso natural.

Nesta saga, um jovem bruxo, Harry Potter de seu nome, descobre que vive no mundo das pessoas comuns, dos chamados trouxas. A fim de aprender mais feitiços, o nosso herói entra no mundo da magia, ingressa na melhor escola lá do sitio, o caro e exclusivo colégio de Hogwarts. São estes anos de internato, de vida dura e austera  que os filmes retratam com mestria, dando corpo à fantasia de um mundo incrível, povoado por terríveis monstros, magos, bruxos e bruxas, feitiços e maldições. Ao jovem aprendiz a banalidade não lhe serve, muito embora possa ser útil, pois quanto mais trouxas melhor, mais fácilmente cria valor ao accionista: A energia não é cara, os trouxas é que vivem em barracas!

Chegado à idade adulta, faz-se pagar bem por cada truque de magia, eficaz como poucos, soma triunfos e lucros para a companhia. Nenhum accionista ficou por enfeitiçar, não faltaram prémios de gestão, mas qual grande líder, ficámos hoje a saber que afinal partilha o mérito. Garante que não houve decisão que não tenha sido colegial…

Expo Défice

Parece que foi ontem, mas a inauguração da Exposição Mundial – Expo 98 aconteceu hoje, há precisamente 19 anos. Vivíamos então dias de modernização e confiança, de cultura e diversidade, uma festa patrocinada pelo infinito el dorado que se avizinhava! Reinava então o optimismo, a euforia e a crença num futuro risonho. O país dava mostras de dinamismo ao mundo, e este compareceu em peso na renovada zona oriental da velhinha cidade de Lisboa. Foi giro, foi diferente. Depois voltámos às nossas rotinas, ao ancestral lamento e revolta inconsequente. Mas, felizmente apenas meia dúzia de anos depois, outro grande evento, desta feita desportivo. Era a receita de Porter. Estivemos perto, mas não fizemos a festa, na verdade vimo-nos gregos, quer no inicio quer no fim. Ficaram os estádios, e a conta claro! Meia dúzia de anos depois, íamos de pac em pac. Já não foi nada giro, e pior ficou quando nos foi aplicado o castigo. Chamaram-lhe ajustamento. Único e inevitável remédio, para o qual não houve alternativa. Não fomos piegas, e qual óleo de fígado de bacalhau, tomamos o frasco todo.

Já acostumados à terapia, foram chegando as boas noticias, as euforias! O deslumbramento propriamente dito começou com a conquista do campeonato da Europa de futebol. Deslumbrados desde então, vitimas de optimismo irritante, não parámos! Celebramos por menos e sobretudo, gastando menos, mas já voltamos à festa. Depois do crescimento recorde, dos juros negativos, a boa noticia de hoje é o anuncio da recomendação da comissão europeia para por fim ao procedimento por défice excessivo, logo hoje, no dia do nascimento de compositor da Cavalgada das Valquírias, Richard Wagner, o que por certo não será uma mera coincidência.