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O impacto da escolha dos carris

Portugal está há muitos meses política, social e jornalisticamente encravado. Engolido  por um furacão temático que o contém, supostamente a salvo, no seu pacífico olho, obrigando-o a dançar ao sabor dos ventos que o circundam, impedindo-lhe o vislumbre do horizonte. Nesses ventos são reciclonados caoticamente os mesmos temas  que perigam à vez o país: incêndios, Tancos, taxa de desemprego, crescimento económico, turismo, greves, dinâmica da geringonça, Marcelo em todas, crise no PSD, We Brand, negociações sindicais, operação Marquês, décimas do deficit, etc, apimentados com umas Trumpalhadas, alarmismos e terrorismos internacionais.

Devido ao toldar de visão este furacão cria uma perigosa ilusão, a de que são estas as questões de fundo essenciais ao futuro do país e do mundo. Estranhamente deixou de se falar da crise dos refugiados, da guerra da Síria, anteriormente tão absorventes, estarão resolvidas? Alguém se lembra da discussão do impacto do CETA/TTIP para Europa e Portugal? Ou é para ser assumido como um facto consumado com que ninguém tem de se preocupar? Será relevante evidenciar que atravessamos um período de seca gravíssimo e que o país precisa de repensar toda a sua gestão de recursos naturais?

Para lá desta barreira temática existem povos, aparentemente não condicionados, que vislumbram bem mais além, ousando tomar medidas disruptoras focadas na construção de um futuro melhor, não necessariamente do ponto de vista económico.

Seria muito bom que Portugal e os portugueses acompanhassem estes movimentos que vão redefinir o mundo a médio-prazo. Claro que para isso teríamos de ter uma população formada e informada, que colocasse o orgulho no seu estilo de vida, no seu impacto positivo no mundo, acima do orgulho desportivo, do comodismo do seu umbigo, uma população que da mesma forma que rejeitaria a nomeação de corruptos comprovados para tesoureiros do seu dinheiro não os elegesse para mandatos políticos renovados, uma população que colocasse o interesse comum acima do seu mesquinho interesse pessoal.

Estou certo que um dia aí chegaremos. Até lá continuaremos a desfrutar da relativa tranquilidade do olho do furacão, fortalecendo-nos num presente que em breve será um passado muito diferente do futuro que se avizinha. Quando terminar a tontura deste constante rodopiar constataremos que talvez devêssemos ter aproveitado todo o esforço despendido não a reentrar nos eixos de que saíramos mas sim a encarrilar em novos rumos, mesmo que economicamente menos favoráveis a curto prazo.

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Das Auto…

Conduzi um automóvel pela primeira vez em 1983. Já lá vão mais de trinta anos, mas lembro-me como se fosse hoje. Recordo-me até do padrão do forro da almofada que o meu avô materno me colocava nas costas, pois de outra forma não chegava aos pedais. Com saudade e muita ternura aqui relato essas tardes bem passadas, num antigo campo de treino da Carris que então existia na margem direita do rio Tejo, precisamente onde hoje estão os pilares da ponte Vasco da Gama. Foi um segredo que guardamos a três durante largos meses. O terceiro cúmplice era um Carocha 1200, Branco-Frigorífico, 100% alemão, construído na fábrica de Wolfsburg em 1959. Ostentava o brasão da cidade que o viu nascer, símbolo que a par do logótipo do fabricante, faz parte do meu universo dos afectos. Era “muito” potente, 36 cv imagine-se! Suportou toda a minha falta de perícia. Dele era a única matrícula que até hoje memorizei: LC-57-47. À época não me preocupava por ai além com o ambiente. As preocupações ambientais de então estavam relacionadas com o civismo básico. Bastava colocar o lixo nos locais apropriados. Não se falava de aquecimento global e muito menos de pegada ecológica.

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Este relato prévio explica porque motivo sou suspeito para comentar a questão da viciação dos testes de emissões poluentes por parte da Volkswagen. Sinto-me até tentado a desenvolver uma coerente teoria da conspiração, talvez envolvendo engenheiros de nacionalidade grega ou lusitana. Os primeiros são famosos pela tendência para a adulteração de números e os segundos pela tendência para a pieguice e para o ócio. Mas mais importante que identificar culpados, talvez seja mais útil compreender as dinâmicas. Uma boa teoria da conspiração deve abraçar um espectro mais amplo, ter uma maior profundidade de campo. Resumido, é sabotagem. Houve sabotagem, não dos resultados, mas sim do segredo que até então foi mantido sobre a viciação dos testes. Todos os fabricantes o fazem. Será uma questão de semanas até que tal seja um facto comprovado. Julgo que o ataque não é a um fabricante em concreto, mas sim a um combustível, o gasóleo. Talvez seja até um contra-ataque da gasolina.

O “meu” adorável Carocha, poluía e envenenava porque usava gasolina com chumbo (essa extraordinária invenção de Thomas Midgley que entre outras “coisas boas” inventou os CFCs). Muito embora os efeitos do envenenamento com chumbo sejam conhecidos desde (pelo menos) o inicio do século XX, a gasolina sem chumbo só foi banida da sofisticada Europa no ano 2000. O cosmopolita estado Português fê-lo no ano anterior, 1999. A maior economia do mundo, os Estados Unidos da América, baniu o uso da gasolina com chumbo em 1996, muito embora os primeiros alertas para o risco de plumbismo tenham ocorrido mais de setenta anos antes. Bem vistas as coisas, estamos a melhorar e muito. As denúncias que outrora demoravam décadas a surtir efeito, têm hoje impacto ao fim de apenas alguns meses. São os mercados a operar livremente, os reguladores a regular e os consumidores a consumir, tudo é esclarecido e ninguém é enganado…