Trabalhar mais por menos ou Trabalhar melhor por menos?

Diz que a crise para ser resolvida precisa de mais liquidez, de mais consumo e mais produtividade. Os nossos governantes desdobram-se em overtime e diretas, trabalhando dezenas de horas por dia, para encontrar as medidas austeras tão necessárias para a nossa salvação.

Overworking

E no meio de todas essas noites mal dormidas chegaram à brilhante conclusão de que para aumentar a produtividade é essencial evoluir das 35 horas semanais para as 40 horas semanais. 35 horas semanais são apenas 7 horas por dia. Para quem se gaba frequentemente de trabalhar 10, 12, 14 ou mais horas por dia, em prol do bem comum este é até um número ofensivo. Vai daí surgiu a ideia luminosa de somar apenas +1 horinha por dia ao sacrificio de cada um.

Vá, vá, só mais uma e os ganhos são enormes. A produtividade vai crescer tal como se pretende e depois há de se resolver o problema do consumo.

Afinal que outras formas existem de mostrar serviço depois de brincar com a taxação até ao limite do aceitável? Apesar de totalmente solidário com todas as medidas apresentadas que seguramente nos vão fazer seguir em frente, seja nesta legislatura, seja numa próxima que anule muito do que está a ser feito nesta, não pude deixar de reflectir em soluções alternativas.

Como tenho tempo para isso? Simples. Uso aquela fatia de tempo que nem é considerado horário de vida profissional, nem horário de vida pessoal. Aquelas duas horinhas que levo a chegar de casa ao trabalho e vice-versa. Que transformam as 7 horas de trabalho em 9 e as futuras 8 em 10. São as chamadas horas do limbo que só servem para queimar tempo de trabalho e tempo de vida pessoal. Horas inimputáveis, onde tudo o que acontece não tem registo passível de consulta futura, que os elementos do círculo social consideram pertencentes ao horário do foro laboral e os elementos do círculo profissional consideram pertencer ao horário do foro pessoal.

Senhores do governo ide buscar as calculadoras, ou os abácos, com que mais gostais de trabalhar na matemática orgásmica que leva à flutuação cósmica dos nossos indíces económicos. Singrai comigo por estes números:

  • 12% Taxa de Desemprego = Mais de 600 000 Desempregados
  • 99,7% das Empresas são PME = Mais de 300 000 com média de 8 colaboradores cada.

As empresas querem mais produtividade mas não querem mais custos. Logo a ideia do aumento de ‘apenas’ mais uma hora por dia sem reflexo na folha salarial é algo que encaixa na perfeição do ponto de vista de uma gestão focada em números. Para o trabalhador em si o aumento dessa hora de trabalho não lhe traz qualquer benefício directo vindo até complicar a sua vida pessoal pois terá de reajustar horários para coisas mundanas como largar e apanhar miudos na escola, apanhar transportes, fazer as compras de mercearia, preparar jantar, etc. Fait-divers é certo, sem impacto no plano económico e mapas a entregar à Troika e Bruxelas.

Há quem diga que esta é uma medida cega que não tem em conta os níveis de felicidade e motivação das pessoas e que não terá os resultados esperados. Falam de um tal de índice de felicidade, um conceito terceiro mundista criado por gente parva que acredita na realização pessoal e espiritualidade para atingir a felicidade. Mas quem é que pode acreditar que a curva de produção de um individuo desce a partir de determinado número de horas de laboração e que a prazo esse ser humano está condenado à infelicidade pessoal e social devido aos laços que é obrigado a cortar para manter esse ritmo intenso de trabalho?

Se isso fosse verdade, e estivesse provado por estudos laborais científicos pioneiros e estrategicamente ignorados, então o caminho a tomar seria completamente o inverso. Seria o de aumentar a produtividade e o emprego através da redução do horário de trabalho. Em vez de 35 horas semanais de trabalho teríamos apenas 30 horas que poderiam ser executadas em 5 dias de 6 horas ou 4 dias de 7 horas e meia. Num assolo de justiça social e profissional essa redução seria acompanhada por uma redução salarial do equivalente a 20 horas de trabalho, sensivelmente a remuneração de 3 dias úteis de trabalho, que seja.

Com isto conseguir-se-ia contribuir para a manutenção da sanidade mental, vigor e motivação dos trabalhadores portugueses, mesmo debaixo do fogo da taxação extra-ordinária, e permitir aos empresários, com devidas medidas de apoio, a contratação de mais um colaborador por cada 6 para compensar as horas de produtividade direta ‘perdidas’. Assim de rajada esta loucura utópica permitiria:

  • A criação de dezenas a centenas de milhares de postos de trabalhos sem aumento dos custos directos para os empregadores (300 000 PMEs * 8 Colaboradores / 6 = número máximo de empregos gerados para absorver diminuição de horas);
  • Aumentar os índices de consumo em função da renovada distribuição de rendimentos pela maior população activa;
  • A adopção de semana de 4 dias de trabalho (que poderiam ser diferentes 2ª a 5ª para uns e 3ª a 6ª para outros) iria aliviar o número de acidentes na estrada, a emissão de CO2 e necessidades de manutenção das principais estradas que teriam uma carga de utilização menor;
  • Redução do Absentismo e Aumento da Produtividade devido ao aumento da motivação e níveis de concentração;
  • Aumento do Retorno da Taxação sobre Consumo e de IRS;
  • Alívio Segurança Social com diminuição do Desemprego;
  • Dar aos Portugueses a oportunidade de experimentar um novo estilo de vida com mais tempo para si e para os seus e ocupar os novos tempos livres para fazer algo do seu gosto pessoal que alivie a carga negativa da crise social e financeira e contribua para melhorar a sua saúde física e mental.

Tenho a perfeita noção de que esta não é uma solução blindada porque para os casos de administradores que acumulam funções em dezenas de empresas a perda desta hora poderia significar o descalabro em várias delas. Não faz sentido que as empresas sejam privadas do meio dia, ou mesmo dia integral, mensal que estes administradores investem na sua boa condução. Pelo que talvez para os administradores de empresas realmente deva ser aprovado o aumento de horas para quiçá conseguirem mesmo gerir centenas de empresas em simultâneo.

Por outro lado é uma incógnita que reacção teriam os Portugueses a esta quebra de horário e de rendimento. Estão tão habituados a ter apenas a quebra de rendimentos sem benesse social ou pessoal que há o risco de serem gerados graves distúrbios sociais senão mesmo a tão temida guerra social preconizada por muitos agentes políticos. Fomos educados ao longo do tempo para apertar o cinto e/ou baixar as calcinhas com mais ou menos choradinho. Isto é um género de troca de calças por calções que nem é carne nem peixe. Não saberiam se é bom ou é mau por isso o melhor seria partir para a violência por via da dúvida.

Estas são ideias progressistas que claramente só podem sair da cabeça de pessoas com tempo a mais para pensar em vez de estarem simplesmente a trabalhar. Espero que os nossos governantes continuem as suas jornadas de dezenas de horas diárias de laboração e não tenham tempo para ler estes disparates pois só assim chegámos até aqui e chegaremos lá longe ao fundo do túnel mais dia menos dia. Quero também relembrá-los que o limite máximo de horário semanal na União Europeia é de 48 horas pelo que se é para aumentar ainda têm bastante folga. Que sejamos primeiro num dos índices de actividade a nível europeu! Seja como os que mais trabalham ou como os que menos trabalham. Pelo menos no papel. Isso encher-nos-ia de um orgulho e felicidade imensa que seria meio caminho para vencer esta crise que nos assola.

Pessoas Felizes

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Outubro 25, 2011, in Ideias para o País and tagged , , , . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. seráquevaleapena

    O que distingue uma época económica de outra, é menos o que se produziu do que a forma de o produzir.

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