Author Archives: Nuno Faria

Lamento mas não doo

O ciclo repete-se, cenário de tragédia potencial, tragédia efectiva, solidariedade catártica, reconstrução do cenário inicial.

Lamento mas desta vez não doo. À custa da minha reputação social tentarei quebrar o ciclo. Farei-me de sonso. Fingirei acreditar no sistema e nas comunicações oficiais. Confrontarei o sistema com a sua própria ilusão, exigirei dele o que é esperado.

Creio assim que a previsão meteorológica identificou o potencial problema atempadamente tendo sido executados todos os protocolos de prevenção para o que seria uma “tempestade perfeita”.

Confio plenamente que as forças no terreno estavam devidamente articuladas, dotadas de todos os meios de comunicação necessários à evacuação de populações em risco através de rotas seguras.

Fico descansado com o facto das populações em zona de alto risco receberem formação sazonal sobre o que fazer em caso de emergência catastrófica, apesar da hipótese remota desta eventualidade tendo em conta a gestão florestal preventiva e adequada.

Atribuo à ira dos deuses o infortúnio de tantas mortes num curto espaço de tempo, julgo que segundos de profanidade divina, recusando a possibilidade de que estas tenham ocorrido ao longo de horas, espaço temporal suficientemente lato para que mesmo meros humanos, capacitados e organizados, conseguissem retomar grande parte das rédeas do seu destino.

Jubilo com as garantias dadas por protecção civil e governo de que foi feito tudo o que devia ser feito, bem como de que não faltaram meios para o combate ao fogo nem faltará o apoio de todo o tipo às vítimas e lesados, recorrendo-se aos fundos de emergência nacionais e internacionais existentes para esse efeito.

Confio totalmente na retaguarda logística que deve apoiar as forças no terreno garantindo a todo o momento o fornecimento autónomo de mantimentos, bebidas e outros consumíveis de alto consumo nesta altura.

Agradeço a objectividade honesta, assertiva, transparente, do jornalismo, da comunicação das entidades oficiais, direccionadas a uma população formada num sistema educacional de excelência que a torna intelectual e emocionalmente capaz de lidar com a realidade.

E toda esta organização, todo este conhecimento técnico, todo este profissionalismo, garantido pelo simples cumprir das minhas obrigações fiscais!

Que pena tenho daqueles países que dependem exclusivamente da boa vontade, da solidariedade local e nacional. Onde os bravos se deslocam para o terreno sem saber se terão o que comer, o que beber, onde dormir durante a sua deslocação, onde não existe apoio logístico de armazenagem de raiz nem para guardar picos de donativos caóticos caso a população decida responder aos apelos sofridos. Pobres países onde grandes empresas, delapidadas por uma gestão baseada em boa vontade, esventradas de milhares de milhões de euros que acabam escorridos do orçamento do Estado, abrem apesar de tudo simpáticas contas solidárias para colar a sua marca à boa vontade do bom povo contribuidor, onde as linhas de valor acrescentado solidárias continuam a gerar valor acrescentado para terceiros, onde associações de solidariedade correm o risco de colocar em causa as sua poupanças milionárias, os seus avultados investimentos financeiros, se forem chamadas à participação de larga escala em acções beneméritas. Afectuosos países onde até a comunicação social, as entidades oficiais, baseiam o seu discurso numa condescendência branqueadora de falhas porque não se pode correr o risco de causar a revolta nas boas gentes, nas boas vontades, sobretudo quando ainda agora começou a guerra que de tanta carne para canhão vai precisar.

Felizmente estou no meu idílico Portugal. Onde o Estado, contribuintes, jornalistas cumprem o seu papel. Sei que foi difícil chegar aqui. A dado momento foi preciso o mais complicado dos tipos de afecto. O dizer não a um recorrente estender de mão. Forçando os traquinas a perceber que não podem mais depender, nem dispor, da vida, da vontade dos outros, fazê-los perceber que detêm nas suas mãos todo o poder para a mudança e definição das coisas, tal como foram mandatados em lotadas eleições. Não há construção de carácter como o choque frontal com a responsabilidade própria, com as consequências directas dos próprios actos. E pensar que tudo começou com um angustiante colectivo  “Lamento mas não doo”.

 

A teoria do big bang-bang

Numa única visita o bobo bully americano foi peremptório e esclarecedor. Depois de um lucrativo armar das arábias, lamentar-se num muro tão diferente do que quer construir,  seguiu para estarrecer o Papa, para por fim avisar os seus aliados de que devem pagar mais pela garantia da sua defesa, avisando-os também que terá de repensar  a adesão ao acordo de Paris sobre o clima. Foi de tal forma que nem os experientes líderes europeus conseguiram esconder a sua estupefacção perante os actos e os ditos deste novo líder supremo.

Em resposta Merkel alerta que a Europa deverá deixar de olhar para os Estados Unidos como um amigo do peito em quem se ponde confiar, de quem se pode depender, serão agora mais como um velho conhecido simpático do qual esperamos que não ajude nem atrapalhe. Em arrasto inclui o Reino Unido neste reajuste relacional. Caso isto se traduza em medidas reais falamos de uma potencial revolução da militarização europeia.

Trump é um empreendedor nato, com uma forte mentalidade comercial, o seu discurso passado e presente indicia que por si os custos de intervenções militares americanas, supostamente para defender interesses internacionais ou de terceiros, devem ser partilhados por todos os beneficiados. Desta forma a agenda americana seria executada com muito menor peso na factura orçamental. Uma transição do papel de ‘polícia benevolente’ para ‘mercenário benevolente’.

Por outro lado na Europa existem dezenas de milhares de militares americanos espalhados por centenas de bases. Qualquer tipo de retaliação à nova orientação americana passaria por diminuir radicalmente a manutenção da sua presença militar em solo europeu. Desta forma seria relançada a agenda da constituição de um exército europeu unificado, de uma modernização do armamento europeu, que permitisse a independência plena não só na defesa territorial como na intervenção internacional.

A nível mundial continua o reforço de armamento por parte das grandes potências, como que se preparando para cenários de braço de ferro em que o poder de fogo das suas Forças Armadas será músculo essencial.

Mais uma vez a força parece ser a única via conhecida pelos camelos que percorrem o deserto de ideias sem nunca se cruzar com o lendário oásis verdejante que uns loucos decidiram desmilitarizar.

E assim se eterniza a guerra psicológica, a roçar o terrorista, de imposição da paz pela força das armas ao invés de inviabilizar a guerra pela ausência de armas.

O Novo Império Português

“There is something about Portugal” é esta a sensação internacional para com o nosso pequeno país. Um território diminuto, um aparente caos assente no desenrasca, tanta coisa por melhorar, uma população modesta com uma tenaz capacidade de arriscar, sofrer, inovar, brilhar.

Apesar de estarmos a léguas do domínio territorial e riqueza do 5º Império reaparecemos novamente na vanguarda da influência mundial, desta vez num aspecto mais importante, a um nível inspiracional.

A nível político inventou-se uma geringonça, uma união política nunca antes vista, que quebrou o seguir à letra a receita imposta por Bruxelas. Substituindo-se uns ingredientes, alterando o peso de algumas medidas lá se conseguiu, contra o vaticínio de orgãos europeus e mercados internacionais, apresentar aquilo que pretendiam por meios mais agressivos, um bolo de indicadores económicos satisfatórios. Neste momento tornou-se um case study internacional com partidos em todo o mundo a equacionar configurações semelhantes para ultrapassar bloqueios e atravessar tempos difíceis.

A nível da cooperação internacional um português consegue conquistar a unanimidade na nomeação para o mais alto cargo da ONU com a sua eloquência na exposição e abordagem de resolução dos graves problemas mundiais que afectam os direito humanos.

A nível desportivo não foram poucas as conquistas dos últimos tempos, com realce para as conseguidas por atletas de alta competição que recuperaram de graves lesões, bem como a mediática conquista do Europeu de Futebol por uma equipa a milhas de distância da promissora geração de ouro. Mais uma vez o factor de tenacidade e crença a conseguir milagres, com a particularidade futebolística da substituição forçada do astro galáctico e entrada em campo de um patinho feio que se transformou num cisne. Mais um desenrasca de fazer milagres com a prata da casa, alicerçado em muito esforço e capacidade por detrás da ilusão de magia. Uma demonstração de que é possível vencer contra todas as adversidades, de que a superação contínua é uma obrigação quando os nossos melhores deram o tudo por tudo e são forçados a abandono precoce. Tal como no passado, o aprender de mais uma lição grega.

A nível artístico tivemos sábado passado uma avassaladora demonstração da alma lusa. Um raio de densa, complexa, melancólica e fascinante escuridão a eclipsar o fogo de artifício do pop globalizado em que se transformou o Eurofestival da Canção. O esmagar do entretenimento pelo sentimento desnorteou o mundo, relembrando-o do fascínio que é a forma de expressão própria de cada povo. A cereja no topo do bolo foi o discurso de um Salvadorable despretensioso, desejoso de transformar o mundo musical em algo melhor. Um Salvador frágil, capaz de uma performance e influência poderosas, tal como o seu país.

Portugal tem estado na boca, olhos e ouvidos do mundo, influenciando, inspirando milhões. Que este novo tipo de império seja longo e próspero, impulsionando a evolução pessoal necessária para que um dia a excelência de alguns se torne o padrão da maioria e possamos um dia vir a ser também uma referência mundial a nível social.

Anti-Fascismo Vacinacional

Retornado de umas férias, ao estilo retiro offline, constato que a polémica sobre a vacinação deu ainda muito que falar. Vi em diferido o Prós e Contras dedicado ao tema da vacinação onde o único contra-peso à altura do painel, 100% defensor da vacinação, foi José Cruz, que refutou conclusões científicas com conclusões científicas colocando algumas questões pertinentes que foram habilmente contornadas pelo painel.

Nas redes sociais este tema levantou os movimentos de inquisição do costume, com trolls incendiários a incinerar todo aquele que demonstrasse dúvidas sobre a necessidade de uma vacinação obrigatória.

Apesar do Sarampo ter sido a origem da discussão esta é muito mais vasta. Quando se fala de vacinação deve olhar-se para cada vacina como um caso isolado, existindo vários espectros de aceitação, desde as que não têm resistência à toma às que são altamente colocadas em causa.

Basicamente existem os que têm confiança cega na medicina e os que dela desconfiam procurando saber um pouco mais sobre a relação custo vs benefício de cada vacina. A medicina blinda-se exigindo estudos com aceitação científica que contradigam os benefícios das vacinas. O outro lado da barricada realiza estudos contraditórios, análise estatística dos dados conhecidos e a adopção de terapêuticas não convencionais.

Quem se posicione ao centro, esteja disponível para ouvir o que tem cada um deles a dizer, perceberá que não existem certezas nem garantias de protecção absoluta em qualquer um dos lados. Ambos apresentam argumentação válida, ambos têm um nível de risco associado. Pelo que me parece que a solução mais sensata será realmente o da manutenção da não obrigação da vacinação. Isto porque as hipotéticas consequências nefastas da vacinação ou não-vacinação não atravessam os grupos populacionais em causa. A argumentação de que os pais não devem deter esse poder sobre as vidas dos seus filhos choca com o livre-arbítrio existente para a escolha de uma religião, uma crença, uma filosofia de vida, não temos necessariamente de aceitar e compreender, temos sim de ser tolerantes. Relembro que esta não é uma escolha vinculativa nem totalitária, podem ser recusadas ou adiadas a toma de apenas determinadas vacinas e a qualquer momento pode ser retomado o programa de vacinação, total ou parcial, se expressa essa vontade ou necessidade.

O que me parece sensato é aproveitar este momento para juntar ambas as partes a fim de organizar um estudo comparativo a longo prazo do estado da saúde física e psíquica de população vacinada vs população não vacinada. Julgo que seria do interesse de todos este tira-teimas, garantindo-se em simultâneo um acompanhamento mais próximo da população não vacinada que hipoteticamente se encontra em maior risco. Desta forma daqui a umas décadas seria possível constatar com dados concretos, em cenário contemporâneo, quais os benefícios e prejuízos de cada uma das opções.

Numa tentativa de diminuir o nível de linchamento dos não vacinantes passo a compilar alguns pontos de vista sobre a matéria que espero possam levar a um melhor entendimento do porquê deste movimento emergente de anti-vacinação (total ou parcial).

Argumentação Pró-vacinação Argumentação Anti-vacinação
As vacinas evitam anualmente milhões de mortes e potenciais sequelas graves em todo o mundo. Este número expressivo provém de um acumulado estatístico. No mundo existem milhares de milhões de humanos. Numa análise local, a cada país, estas mortes, apesar de lamentáveis, correspondem a uma ínfima porção da população chegando a vacinarem-se milhões para evitar centenas de mortes potenciais com origem numa doença específica.

Por outro lado não existem estudos a longo prazo sobre efeitos colaterais de vacinas com indicação de mortes e sequelas graves provocadas pela sua toma, mesmo que só manifestadas décadas depois da toma. Nem sequer está facilmente acessível, como acontece com os restantes medicamentos, uma bula para cada vacina com as normais contra-indicações e potenciais problemas decorridos da sua toma.

O estudo alarmante que estabelecia uma ligação entre uma vacina específica do Sarampo e o aumento de casos de autismo foi provado ser uma fraude. Não existe apenas um estudo, existem centenas de estudos a apontar para essa mesma  conclusão. Para além desta vacina em particular existem estudos que analisam potenciais efeitos de outras vacinas.
A vacinação é a única forma de garantir a protecção ou imunidade contra um conjunto de doenças comuns e severas que podem conduzir à morte. Nas últimas décadas assistiu-se a grande evolução de aspectos essenciais à construção de um sistema imunitário forte como a higienização pessoal, limpeza de espaços onde se vive,  cuidados de nutrição com alimentação equilibrada, prática de estilos de vida potenciadores de saúde, bem como são cada vez mais adoptadas terapêuticas não convencionais que apresentam resultados comprovados quer na prevenção quer no tratamento.
As vacinas em utilização são comprovadamente seguras e eficazes. Alguns exemplos de situações ocorridas no passado noutros países:

O conhecimento científico em que se baseiam as práticas de medicina ocidentais deve ser reconhecido como uma verdade absoluta pois é fruto de trabalho minucioso realizado por especialistas ao longo do tempo. A medicina ocidental ostracizou e ridicularizou práticas como o yoga, vegetarianismo, medicina tradicional chinesa, etc, que décadas mais tarde veio a reconhecer como altamente benéficas para a saúde.

A medicina ocidental age de acordo com o conhecimento que detém ao momento, sem flexibilidade para encaixar aproximações alternativas, sendo extremamente lenta na desconstrução de dogmas instalados. Para agravamento da situação existem em acréscimo fortes lobbies com interesses económicos capazes de colocar obstáculos em  certos rumos da ciência médica quando isso coloca em perigo a rentabilidade do seu negócio.

Livres de perigo periférico

O mundo anda estranho.

No Reino Unido os grandes centros urbanos votam contra o Brexit perdendo a votação para o resto do país que decidiu estar farto do deboche Europeu.

Nos Estados Unidos da América Trump perde a votação nos grandes centros urbanos obtendo a eleição presidencial muito alicerçada em votos do mundo rural e ‘pequenas’ cidades.

Na Turquia Erdogan pede ao povo mais poder e condições para poder prolongar o seu domínio por mais umas décadas, as grandes metrópoles batem-lhe o pé agora partido pela vergasta vencedora do resto do país.

Em França o movimento embrionário da Frente Nacional de Le Pen germinou timidamente nas periferias mostrando agora uma força capaz de arrebatar o país.

Todas estas são demonstrações contemporâneas de como periferias densamente povoadas podem desequilibrar os pratos da balança forçando rumos imprevistos aos abençoados habitantes da centralidade urbana.

Pelo que talvez tanto eu como o Sr. Presidente nos devêssemos preocupar menos com questões relacionadas com periferias sub-desenvolvidas e despovoadas. Poderá ser um mal que vem por bem garantido que em Portugal não há cá desses volte-faces políticos. Ufa!

Celebração de uma Europa Sexagenária

Este FDS foram celebrados com pompa e circunstância os 60 anos de União Europeia. Alguns defendem que é ainda uma jovem em fase de aprendizagem e formação de carácter, outros evidenciam que atingiu a fase de pré-reforma sendo necessário pensar na sua substituição.

Infelizmente esta Europa ainda não se conseguiu desfocar da sua matriz original, a reconstrução da destruição causada pela segunda guerra mundial, a integração de economias, a abolição de fronteiras aduaneiras, a união monetária, a criação de um imenso mercado comum com fortes inter-dependências cruzadas e bidireccionais de países clientes/fornecedores. Objectivo que se conseguiu com distinção apesar do recente abalo no sistema financeiro.

No papel existem outros objectivos como a coesão política, jurídica e social, cujo sucesso está ainda muito aquém do desejado. Existem disparidades a vários níveis, desde número de horas de trabalho, número de dias de férias, período de licença parental, condições de despedimentos, códigos penais, taxação de impostos, escolaridade mínima obrigatória, e muitos outros pontos que definem em cada país diferentes conceitos de direitos, obrigações e cidadania.

Como é possível que em 60 anos não se tenha estudado o que de melhor se faz em cada país e, mediante comprovação de resultados, se tenham implementado as melhores práticas nos outros países? Como é possível que questões fulcrais como a legalização do aborto, da eutanásia, da prostituição, do consumo de drogas leves, não sejam referendados a nível europeu em vez de apenas discutidos localmente, país a país?

É possível porque até ver não passámos da materialização do objectivo primordial. A criação de um enorme mercado e o potenciar de crescimento económico. Esta é a cola que parece ser suficiente para manutenção da paz mas que é deveras insuficiente para uma coesão de cidadania com livre circulação de cidadãos em pé de igualdade e não meros trabalhadores/consumidores de espaço europeu.

Parece-me que com a introdução da Europa a várias velocidades poderemos em breve distinguir quem realmente está empenhado na construção de uma Europa sólida, com conceito de cidadania harmonizado, de quem pretende apenas colher benefícios económicos mantendo uma conveniente e soberana desordem no seu galinheiro.

Em breve será clara qual a nossa velocidade em matéria de plena integração europeia.

Incapacidade patológica e elitista

Após vários anos de constatação empírica é neste momento evidente que ambos o exercício governamental e a gestão de topo são actividades com grande potencial degenerativo daqueles que os exercem a longo prazo.

Basta assistir atentamente a sessões parlamentares, comissões de inquérito ou grandes entrevistas com perguntas incómodas, para rapidamente perceber os sintomas.  Poses estudadas para emanar uma franca certeza, olhos a revirar,  respostas lacónicas para perguntas complexas, certezas absolutas rapidamente contraditas pela análise dos factos, e em situações limite um simples “não tenho memória”.

Não falamos de casos esporádicos mas sim de dezenas de casos, todos eles de pessoas que exerceram posições de poder com enorme impacto sobre a economia portuguesa, subsequentemente sobre a vida dos portugueses.

Vivendo em bolhas de protecção privilegiada estas pessoas atingiram um tal estado de alienação, da vida dos demais comuns, que perdem a capacidade de perceber, não só a degeneração das suas próprias faculdades cognitivas e empáticas, como deixam de ter noção do impacto que as suas decisões têm sobre a vida de milhares ou mesmo milhões.

Claramente estamos perante uma patologia incapacitante que atinge um segmento muito concreto da nossa sociedade. Como tal não lhes tenho qualquer ódio, pelo contrário, sinto uma certa mágoa ao vê-los desorientados quando reduzidos à sua simples humanidade, quando confrontados com a magnitude dos danos causados pela imposição da sua fantasia egocêntrica e narcisista. Acusam mesmo um certo espanto, incrédulos da sua culpa, ao constatar que afinal não eram apenas balanços digitais, números em linhas de folhas de Excel, era a vida de uma população, o futuro de um país.

Para impedir que esta epidemia se propague só vejo um caminho, pouco ortodoxo mas seguramente eficaz, a extensão e adaptação das chamadas reformas douradas. Assim que um primeiro-ministro, ministro ou administrador, demonstrasse sinais de falha de memória, de não estar a par do que se passa ou passou debaixo da sua alçada, seria imediatamente reformado coercivamente, com uma dourada e preventiva pensão de invalidez que o extirpasse da vida activa. Por uma questão de saúde pública da nossa economia estancava-se a aplicação da tradicional solução da dança de cadeiras, evitando-se assim a contaminação de todo o ecossistema político e empresarial.

A nível orçamental acarretaria  o aumento de custo de uns milhões de euros. Uma bagatela se considerarmos os milhares de milhões que se esfumaram nos últimos anos por mantermos indeterminadamente em funções indivíduos claramente incapazes para o exercício do poder.

Matrioskas Reguladoras

Depois do “Assalto ao Castelo” torna-se evidente que o Banco de Portugal dispôs de informação alarmante sobre o descalabro do BES muito antes de reagir adequadamente à situação. Dezanove meses terá sido o período que passou entre a exposição de problemas graves no BES e o seu triste fim.

O Governador do BdP continua a escudar-se na complexidade e subjectividade na interpretação da informação sobre actividade suspeita, bem como na confiança institucional natural entre regulador e regulado, que tornava à partida mais credível e prioritária a informação fornecida por este último.

O Governo, ainda com o sapo atravessado, aproveita o embalo do desmoronar da credibilidade do BdP para ponderar o criar de uma nova entidade supra-reguladora já que aparentemente a demissão de Carlos Costa seria um assunto delicado.

Ou seja, mais uma vez a cobardia, incompetência, desonestidade, ilegalidade, acabam por ser desconsiderados, mesmo ilibados, sem consequência directa para os seus perpetuadores. Não, a culpa não é das pessoas-chave e suas decisões, a culpa é da falta de mecanismos adicionais de regulação porque, como se comprovou, a configuração actual não funciona.  Vejamos cada uma das etapas existentes para regulação:

  1. Direcção/Administração  da entidade regulada – detém toda a informação ao seu dispôr sobre a sua actividade decidindo em consciência qual a metodologia para a divulgação de relatórios que espelhem o cenário real do seu ‘estado de saúde’;
  2. Gabinente de Compliance da entidade regulada – cada entidade tem este orgão de estrutura responsável pelo garantir de que é cumprida toda a legislação, códigos, regras e normativos em vigor (interna e externamente);
  3. Entidade Reguladora – recebe a informação relevante das entidades reguladas cabendo-lhe não só a análise do seu conteúdo como o dever da sua validação periódica, recorrendo a meios que tem ao seu dispor para acesso a informação confidencial relacionada com movimentos financeiros realizados pelas entidades reguladas (para o sistema bancário as mais relevanves serão o BdP e a CMVM);
  4. Mecanismo Único de Supervisão – o MUS foi criado apenas em Novembro de 2014 e será o fim de linha no controlo da saúde do sistema bancário Europeu. (sem culpas no caso do BES cujo desfecho ocorreu em Agosto de 2014)

Como vemos o actual sistema já obriga a que dezenas de pessoas tenham de estar conscientes sempre que algo de extremamente grave e danoso se esteja a passar. Neste momento a criação de uma entidade adicional mais não é do que o contornar artificialmente a dificuldade de mudar pessoas que já não deveriam estar nos cargos que exercem. Na prática transferindo-se poderes para uma nova equipa, hoje considerada mais idónea e competente, mas que no futuro poderá sofrer o mesmo tipo de bloqueio que hoje se verifica no BdP.

O foco da resolução do problema deveria ser sem dúvida relacionado com os mecanismos de nomeação, demissão e imputação de responsabilidades das pessoas que exercem estas posições fulcrais.

No lado do regulador muitos tiveram contacto com informação alarmante que contrastou com a inadequada e branda reacção. Pelo que, se se comprovar que o governador do BdP e sua equipa são responsáveis por falha muito grave, é natural que devam por isso ser penalizados em termos profissionais com no mínimo a cessação das suas funções.

No lado da entidade regulada a culpa do descalabro não pode recair numa única pessoa (pex  Ricardo Salgado no caso BES) pois esta não conseguiria fazer nada sozinha. Haverão sempre vários gestores e equipas numerosas, envolvidas no tecer da teia nebulosa de fluxos de capitais, que se não se podem escudar no simples cumprir do seu dever e sigilo profissional.

Com base neste e noutros casos deveriam sim elaborar-se alterações jurídicas que permitam imputar a cada um a sua quota de responsabilidade, seja porque detinha o poder de decisão, seja porque detinha conhecimento de actos ilícitos e nada revelou por imposição de hierarquias superiores ou protecção do próprio posto de trabalho. Talvez devessem também ser criados mecanismos oficiais de delação, desenhados para o garantir da protecção de testemunha, que permitissem que estas pessoas fizessem chegar às entidades reguladoras e/ou autoridades competentes a informação necessária para agirem antecipadamente, ao invés de termos de esperar alguns anos por um qualquer jornalismo de investigação que decida explorar o tema recorrendo a estas fontes de informação.

Desta forma, alargando o espectro de imputáveis tementes da lei, seria muito mais difícil manter incógnitos grandes esquemas, quebrando-se também a rentabilidade da atribuição de possíveis compensações apaziguadoras pelo exponencial aumento de pessoas a gratificar.

Concluindo a solução não passa pela criação de reguladores de reguladores, é sim preciso ajustar todo o sistema existente para melhor lidar com o que de pior pode surgir no factor humano, a incompetência, a inacção, o conluio.

Se pretendem criar novos organismos talvez o que faça falta seja um gabinete de compliance governamental que se certifique que todos os ministérios cumprem as suas obrigações, eliminando a possibilidade de ocorrência futura de novos casos Paulo Núncio.

 

Brexit is Chinin

Eis que a poderosa Europa impõe a sua força de forma putativa tentando demonstrar que o custo de saída é proibitivo e assim erradicar quaisquer devaneios de outros membros.

Entretanto no Reino Unido a vida continua e o mundo gira. Os Estados Unidos da América parecem estar a especializar-se em controvérsia, deixando progressivamente de ser reconhecidos inequivocamente como a potência mundial dominante, sendo cada vez mais ombreados, senão mesmo ofuscados, por uma Rússia e China que transitam do emergente para o omnipresente.

Se em relação à Rússia o Reino Unido ainda está condicionado pela participação na decisão europeia de aplicação de sanções económicas, em relação à China o caso muda de figura.

A London City escancara as suas portas à moeda chinesa ao mesmo tempo que o investimento chinês é very much welcome, a histórica rota das sedas é restabelecida e até a alienação via futebol é admirada, importada e comprada avidamente.

Gerindo a hostilidade de uma Europa unificada por arames, o Reino Unido prepara-se a grande velocidade para a nova realidade geopolítica, sendo muito provável que no futuro o ‘infortúnio’ do Brexit se venha a revelar como uma viragem positiva na história do Reino Unido, que de forma inesperada o salva antecipadamente da duradoura turbulência Europeia.

brexit-is-chinin

Apocalipse Eucalíptico

Finalmente este FDS tivemos mais um pouco de chuva que se veja, tem sido um Inverno demasiado seco, chateia um pouco mas é a melancolia causada pelo frio encharcado do Outono-Inverno que torna tão calorosa a nossa Primavera-Verão. É ao olhar o horizonte raiado a água que entristeço, não com a chuva, mas com o facto de 80% do verde da paisagem serem eucaliptos.

Esta conquista dos nossos solos ocorreu a uma velocidade vertiginosa sendo desolável que, de Norte a Sul, grandes áreas florestais de espécies autóctones tenham dado lugar a eucaliptos, resultando numa total descaracterização regional que só contribui para o enfraquecimento da nossa percepção de identidade nacional. Sou de uma geração que nos anos 80 era passeada pelos pais em viagens de longa duração pelas nacionais embrenhadas no nosso território. A paisagem era marcada pelas distintas copas das árvores típicas de cada região que, imponentes, ladeavam e sombreavam a estrada. Havia um fascínio e orgulho naquela beleza natural que era a nossa. Hoje são raras as bolsas que mantiveram intacta esta beleza e atmosfera, sentindo-se agora um certo incómodo por esta presença invasora que padronizou muito do território nacional.

O Eucalipto é uma espécie lesiva para a nossa fauna e flora, um vampiro todos os recursos do solo onde se instala. Quando ocorreu o boom de crescimento terá tido o seu ratio económico sendo agora necessário reavaliar o seu impacto a todos os níveis, num cenário de alterações climáticas em curso. O território precisa de se preparar para as mudanças climatéricas que se avizinham, as técnicas e conhecimento sofisticaram-se, existindo muita margem para explorar economicamente as espécies naturais que compõem a nossa floresta (inclusive com o aumento do turismo de Natureza).

Fico contente com o primeiro passo recente de travar a proliferação de Eucaliptos, aguardo com ansiedade o próximo passo, o de diminuir drasticamente a sua taxa de ocupação do território e o recuperar de milhares de hectares perdidos de área florestal compensando também os custos associados ao progresso.

Esta é uma revolução basilar para recuperarmos o fascínio sobre as nossas regiões e caminharmos de encontro ao máximo potencial da economia verde.

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