Author Archives: Nuno Faria

O Novo Império Português

“There is something about Portugal” é esta a sensação internacional para com o nosso pequeno país. Um território diminuto, um aparente caos assente no desenrasca, tanta coisa por melhorar, uma população modesta com uma tenaz capacidade de arriscar, sofrer, inovar, brilhar.

Apesar de estarmos a léguas do domínio territorial e riqueza do 5º Império reaparecemos novamente na vanguarda da influência mundial, desta vez num aspecto mais importante, a um nível inspiracional.

A nível político inventou-se uma geringonça, uma união política nunca antes vista, que quebrou o seguir à letra a receita imposta por Bruxelas. Substituindo-se uns ingredientes, alterando o peso de algumas medidas lá se conseguiu, contra o vaticínio de orgãos europeus e mercados internacionais, apresentar aquilo que pretendiam por meios mais agressivos, um bolo de indicadores económicos satisfatórios. Neste momento tornou-se um case study internacional com partidos em todo o mundo a equacionar configurações semelhantes para ultrapassar bloqueios e atravessar tempos difíceis.

A nível da cooperação internacional um português consegue conquistar a unanimidade na nomeação para o mais alto cargo da ONU com a sua eloquência na exposição e abordagem de resolução dos graves problemas mundiais que afectam os direito humanos.

A nível desportivo não foram poucas as conquistas dos últimos tempos, com realce para as conseguidas por atletas de alta competição que recuperaram de graves lesões, bem como a mediática conquista do Europeu de Futebol por uma equipa a milhas de distância da promissora geração de ouro. Mais uma vez o factor de tenacidade e crença a conseguir milagres, com a particularidade futebolística da substituição forçada do astro galáctico e entrada em campo de um patinho feio que se transformou num cisne. Mais um desenrasca de fazer milagres com a prata da casa, alicerçado em muito esforço e capacidade por detrás da ilusão de magia. Uma demonstração de que é possível vencer contra todas as adversidades, de que a superação contínua é uma obrigação quando os nossos melhores deram o tudo por tudo e são forçados a abandono precoce. Tal como no passado, o aprender de mais uma lição grega.

A nível artístico tivemos sábado passado uma avassaladora demonstração da alma lusa. Um raio de densa, complexa, melancólica e fascinante escuridão a eclipsar o fogo de artifício do pop globalizado em que se transformou o Eurofestival da Canção. O esmagar do entretenimento pelo sentimento desnorteou o mundo, relembrando-o do fascínio que é a forma de expressão própria de cada povo. A cereja no topo do bolo foi o discurso de um Salvadorable despretensioso, desejoso de transformar o mundo musical em algo melhor. Um Salvador frágil, capaz de uma performance e influência poderosas, tal como o seu país.

Portugal tem estado na boca, olhos e ouvidos do mundo, influenciando, inspirando milhões. Que este novo tipo de império seja longo e próspero, impulsionando a evolução pessoal necessária para que um dia a excelência de alguns se torne o padrão da maioria e possamos um dia vir a ser também uma referência mundial a nível social.

Anti-Fascismo Vacinacional

Retornado de umas férias, ao estilo retiro offline, constato que a polémica sobre a vacinação deu ainda muito que falar. Vi em diferido o Prós e Contras dedicado ao tema da vacinação onde o único contra-peso à altura do painel, 100% defensor da vacinação, foi José Cruz, que refutou conclusões científicas com conclusões científicas colocando algumas questões pertinentes que foram habilmente contornadas pelo painel.

Nas redes sociais este tema levantou os movimentos de inquisição do costume, com trolls incendiários a incinerar todo aquele que demonstrasse dúvidas sobre a necessidade de uma vacinação obrigatória.

Apesar do Sarampo ter sido a origem da discussão esta é muito mais vasta. Quando se fala de vacinação deve olhar-se para cada vacina como um caso isolado, existindo vários espectros de aceitação, desde as que não têm resistência à toma às que são altamente colocadas em causa.

Basicamente existem os que têm confiança cega na medicina e os que dela desconfiam procurando saber um pouco mais sobre a relação custo vs benefício de cada vacina. A medicina blinda-se exigindo estudos com aceitação científica que contradigam os benefícios das vacinas. O outro lado da barricada realiza estudos contraditórios, análise estatística dos dados conhecidos e a adopção de terapêuticas não convencionais.

Quem se posicione ao centro, esteja disponível para ouvir o que tem cada um deles a dizer, perceberá que não existem certezas nem garantias de protecção absoluta em qualquer um dos lados. Ambos apresentam argumentação válida, ambos têm um nível de risco associado. Pelo que me parece que a solução mais sensata será realmente o da manutenção da não obrigação da vacinação. Isto porque as hipotéticas consequências nefastas da vacinação ou não-vacinação não atravessam os grupos populacionais em causa. A argumentação de que os pais não devem deter esse poder sobre as vidas dos seus filhos choca com o livre-arbítrio existente para a escolha de uma religião, uma crença, uma filosofia de vida, não temos necessariamente de aceitar e compreender, temos sim de ser tolerantes. Relembro que esta não é uma escolha vinculativa nem totalitária, podem ser recusadas ou adiadas a toma de apenas determinadas vacinas e a qualquer momento pode ser retomado o programa de vacinação, total ou parcial, se expressa essa vontade ou necessidade.

O que me parece sensato é aproveitar este momento para juntar ambas as partes a fim de organizar um estudo comparativo a longo prazo do estado da saúde física e psíquica de população vacinada vs população não vacinada. Julgo que seria do interesse de todos este tira-teimas, garantindo-se em simultâneo um acompanhamento mais próximo da população não vacinada que hipoteticamente se encontra em maior risco. Desta forma daqui a umas décadas seria possível constatar com dados concretos, em cenário contemporâneo, quais os benefícios e prejuízos de cada uma das opções.

Numa tentativa de diminuir o nível de linchamento dos não vacinantes passo a compilar alguns pontos de vista sobre a matéria que espero possam levar a um melhor entendimento do porquê deste movimento emergente de anti-vacinação (total ou parcial).

Argumentação Pró-vacinação Argumentação Anti-vacinação
As vacinas evitam anualmente milhões de mortes e potenciais sequelas graves em todo o mundo. Este número expressivo provém de um acumulado estatístico. No mundo existem milhares de milhões de humanos. Numa análise local, a cada país, estas mortes, apesar de lamentáveis, correspondem a uma ínfima porção da população chegando a vacinarem-se milhões para evitar centenas de mortes potenciais com origem numa doença específica.

Por outro lado não existem estudos a longo prazo sobre efeitos colaterais de vacinas com indicação de mortes e sequelas graves provocadas pela sua toma, mesmo que só manifestadas décadas depois da toma. Nem sequer está facilmente acessível, como acontece com os restantes medicamentos, uma bula para cada vacina com as normais contra-indicações e potenciais problemas decorridos da sua toma.

O estudo alarmante que estabelecia uma ligação entre uma vacina específica do Sarampo e o aumento de casos de autismo foi provado ser uma fraude. Não existe apenas um estudo, existem centenas de estudos a apontar para essa mesma  conclusão. Para além desta vacina em particular existem estudos que analisam potenciais efeitos de outras vacinas.
A vacinação é a única forma de garantir a protecção ou imunidade contra um conjunto de doenças comuns e severas que podem conduzir à morte. Nas últimas décadas assistiu-se a grande evolução de aspectos essenciais à construção de um sistema imunitário forte como a higienização pessoal, limpeza de espaços onde se vive,  cuidados de nutrição com alimentação equilibrada, prática de estilos de vida potenciadores de saúde, bem como são cada vez mais adoptadas terapêuticas não convencionais que apresentam resultados comprovados quer na prevenção quer no tratamento.
As vacinas em utilização são comprovadamente seguras e eficazes. Alguns exemplos de situações ocorridas no passado noutros países:

O conhecimento científico em que se baseiam as práticas de medicina ocidentais deve ser reconhecido como uma verdade absoluta pois é fruto de trabalho minucioso realizado por especialistas ao longo do tempo. A medicina ocidental ostracizou e ridicularizou práticas como o yoga, vegetarianismo, medicina tradicional chinesa, etc, que décadas mais tarde veio a reconhecer como altamente benéficas para a saúde.

A medicina ocidental age de acordo com o conhecimento que detém ao momento, sem flexibilidade para encaixar aproximações alternativas, sendo extremamente lenta na desconstrução de dogmas instalados. Para agravamento da situação existem em acréscimo fortes lobbies com interesses económicos capazes de colocar obstáculos em  certos rumos da ciência médica quando isso coloca em perigo a rentabilidade do seu negócio.

Livres de perigo periférico

O mundo anda estranho.

No Reino Unido os grandes centros urbanos votam contra o Brexit perdendo a votação para o resto do país que decidiu estar farto do deboche Europeu.

Nos Estados Unidos da América Trump perde a votação nos grandes centros urbanos obtendo a eleição presidencial muito alicerçada em votos do mundo rural e ‘pequenas’ cidades.

Na Turquia Erdogan pede ao povo mais poder e condições para poder prolongar o seu domínio por mais umas décadas, as grandes metrópoles batem-lhe o pé agora partido pela vergasta vencedora do resto do país.

Em França o movimento embrionário da Frente Nacional de Le Pen germinou timidamente nas periferias mostrando agora uma força capaz de arrebatar o país.

Todas estas são demonstrações contemporâneas de como periferias densamente povoadas podem desequilibrar os pratos da balança forçando rumos imprevistos aos abençoados habitantes da centralidade urbana.

Pelo que talvez tanto eu como o Sr. Presidente nos devêssemos preocupar menos com questões relacionadas com periferias sub-desenvolvidas e despovoadas. Poderá ser um mal que vem por bem garantido que em Portugal não há cá desses volte-faces políticos. Ufa!

Celebração de uma Europa Sexagenária

Este FDS foram celebrados com pompa e circunstância os 60 anos de União Europeia. Alguns defendem que é ainda uma jovem em fase de aprendizagem e formação de carácter, outros evidenciam que atingiu a fase de pré-reforma sendo necessário pensar na sua substituição.

Infelizmente esta Europa ainda não se conseguiu desfocar da sua matriz original, a reconstrução da destruição causada pela segunda guerra mundial, a integração de economias, a abolição de fronteiras aduaneiras, a união monetária, a criação de um imenso mercado comum com fortes inter-dependências cruzadas e bidireccionais de países clientes/fornecedores. Objectivo que se conseguiu com distinção apesar do recente abalo no sistema financeiro.

No papel existem outros objectivos como a coesão política, jurídica e social, cujo sucesso está ainda muito aquém do desejado. Existem disparidades a vários níveis, desde número de horas de trabalho, número de dias de férias, período de licença parental, condições de despedimentos, códigos penais, taxação de impostos, escolaridade mínima obrigatória, e muitos outros pontos que definem em cada país diferentes conceitos de direitos, obrigações e cidadania.

Como é possível que em 60 anos não se tenha estudado o que de melhor se faz em cada país e, mediante comprovação de resultados, se tenham implementado as melhores práticas nos outros países? Como é possível que questões fulcrais como a legalização do aborto, da eutanásia, da prostituição, do consumo de drogas leves, não sejam referendados a nível europeu em vez de apenas discutidos localmente, país a país?

É possível porque até ver não passámos da materialização do objectivo primordial. A criação de um enorme mercado e o potenciar de crescimento económico. Esta é a cola que parece ser suficiente para manutenção da paz mas que é deveras insuficiente para uma coesão de cidadania com livre circulação de cidadãos em pé de igualdade e não meros trabalhadores/consumidores de espaço europeu.

Parece-me que com a introdução da Europa a várias velocidades poderemos em breve distinguir quem realmente está empenhado na construção de uma Europa sólida, com conceito de cidadania harmonizado, de quem pretende apenas colher benefícios económicos mantendo uma conveniente e soberana desordem no seu galinheiro.

Em breve será clara qual a nossa velocidade em matéria de plena integração europeia.

Incapacidade patológica e elitista

Após vários anos de constatação empírica é neste momento evidente que ambos o exercício governamental e a gestão de topo são actividades com grande potencial degenerativo daqueles que os exercem a longo prazo.

Basta assistir atentamente a sessões parlamentares, comissões de inquérito ou grandes entrevistas com perguntas incómodas, para rapidamente perceber os sintomas.  Poses estudadas para emanar uma franca certeza, olhos a revirar,  respostas lacónicas para perguntas complexas, certezas absolutas rapidamente contraditas pela análise dos factos, e em situações limite um simples “não tenho memória”.

Não falamos de casos esporádicos mas sim de dezenas de casos, todos eles de pessoas que exerceram posições de poder com enorme impacto sobre a economia portuguesa, subsequentemente sobre a vida dos portugueses.

Vivendo em bolhas de protecção privilegiada estas pessoas atingiram um tal estado de alienação, da vida dos demais comuns, que perdem a capacidade de perceber, não só a degeneração das suas próprias faculdades cognitivas e empáticas, como deixam de ter noção do impacto que as suas decisões têm sobre a vida de milhares ou mesmo milhões.

Claramente estamos perante uma patologia incapacitante que atinge um segmento muito concreto da nossa sociedade. Como tal não lhes tenho qualquer ódio, pelo contrário, sinto uma certa mágoa ao vê-los desorientados quando reduzidos à sua simples humanidade, quando confrontados com a magnitude dos danos causados pela imposição da sua fantasia egocêntrica e narcisista. Acusam mesmo um certo espanto, incrédulos da sua culpa, ao constatar que afinal não eram apenas balanços digitais, números em linhas de folhas de Excel, era a vida de uma população, o futuro de um país.

Para impedir que esta epidemia se propague só vejo um caminho, pouco ortodoxo mas seguramente eficaz, a extensão e adaptação das chamadas reformas douradas. Assim que um primeiro-ministro, ministro ou administrador, demonstrasse sinais de falha de memória, de não estar a par do que se passa ou passou debaixo da sua alçada, seria imediatamente reformado coercivamente, com uma dourada e preventiva pensão de invalidez que o extirpasse da vida activa. Por uma questão de saúde pública da nossa economia estancava-se a aplicação da tradicional solução da dança de cadeiras, evitando-se assim a contaminação de todo o ecossistema político e empresarial.

A nível orçamental acarretaria  o aumento de custo de uns milhões de euros. Uma bagatela se considerarmos os milhares de milhões que se esfumaram nos últimos anos por mantermos indeterminadamente em funções indivíduos claramente incapazes para o exercício do poder.

Matrioskas Reguladoras

Depois do “Assalto ao Castelo” torna-se evidente que o Banco de Portugal dispôs de informação alarmante sobre o descalabro do BES muito antes de reagir adequadamente à situação. Dezanove meses terá sido o período que passou entre a exposição de problemas graves no BES e o seu triste fim.

O Governador do BdP continua a escudar-se na complexidade e subjectividade na interpretação da informação sobre actividade suspeita, bem como na confiança institucional natural entre regulador e regulado, que tornava à partida mais credível e prioritária a informação fornecida por este último.

O Governo, ainda com o sapo atravessado, aproveita o embalo do desmoronar da credibilidade do BdP para ponderar o criar de uma nova entidade supra-reguladora já que aparentemente a demissão de Carlos Costa seria um assunto delicado.

Ou seja, mais uma vez a cobardia, incompetência, desonestidade, ilegalidade, acabam por ser desconsiderados, mesmo ilibados, sem consequência directa para os seus perpetuadores. Não, a culpa não é das pessoas-chave e suas decisões, a culpa é da falta de mecanismos adicionais de regulação porque, como se comprovou, a configuração actual não funciona.  Vejamos cada uma das etapas existentes para regulação:

  1. Direcção/Administração  da entidade regulada – detém toda a informação ao seu dispôr sobre a sua actividade decidindo em consciência qual a metodologia para a divulgação de relatórios que espelhem o cenário real do seu ‘estado de saúde’;
  2. Gabinente de Compliance da entidade regulada – cada entidade tem este orgão de estrutura responsável pelo garantir de que é cumprida toda a legislação, códigos, regras e normativos em vigor (interna e externamente);
  3. Entidade Reguladora – recebe a informação relevante das entidades reguladas cabendo-lhe não só a análise do seu conteúdo como o dever da sua validação periódica, recorrendo a meios que tem ao seu dispor para acesso a informação confidencial relacionada com movimentos financeiros realizados pelas entidades reguladas (para o sistema bancário as mais relevanves serão o BdP e a CMVM);
  4. Mecanismo Único de Supervisão – o MUS foi criado apenas em Novembro de 2014 e será o fim de linha no controlo da saúde do sistema bancário Europeu. (sem culpas no caso do BES cujo desfecho ocorreu em Agosto de 2014)

Como vemos o actual sistema já obriga a que dezenas de pessoas tenham de estar conscientes sempre que algo de extremamente grave e danoso se esteja a passar. Neste momento a criação de uma entidade adicional mais não é do que o contornar artificialmente a dificuldade de mudar pessoas que já não deveriam estar nos cargos que exercem. Na prática transferindo-se poderes para uma nova equipa, hoje considerada mais idónea e competente, mas que no futuro poderá sofrer o mesmo tipo de bloqueio que hoje se verifica no BdP.

O foco da resolução do problema deveria ser sem dúvida relacionado com os mecanismos de nomeação, demissão e imputação de responsabilidades das pessoas que exercem estas posições fulcrais.

No lado do regulador muitos tiveram contacto com informação alarmante que contrastou com a inadequada e branda reacção. Pelo que, se se comprovar que o governador do BdP e sua equipa são responsáveis por falha muito grave, é natural que devam por isso ser penalizados em termos profissionais com no mínimo a cessação das suas funções.

No lado da entidade regulada a culpa do descalabro não pode recair numa única pessoa (pex  Ricardo Salgado no caso BES) pois esta não conseguiria fazer nada sozinha. Haverão sempre vários gestores e equipas numerosas, envolvidas no tecer da teia nebulosa de fluxos de capitais, que se não se podem escudar no simples cumprir do seu dever e sigilo profissional.

Com base neste e noutros casos deveriam sim elaborar-se alterações jurídicas que permitam imputar a cada um a sua quota de responsabilidade, seja porque detinha o poder de decisão, seja porque detinha conhecimento de actos ilícitos e nada revelou por imposição de hierarquias superiores ou protecção do próprio posto de trabalho. Talvez devessem também ser criados mecanismos oficiais de delação, desenhados para o garantir da protecção de testemunha, que permitissem que estas pessoas fizessem chegar às entidades reguladoras e/ou autoridades competentes a informação necessária para agirem antecipadamente, ao invés de termos de esperar alguns anos por um qualquer jornalismo de investigação que decida explorar o tema recorrendo a estas fontes de informação.

Desta forma, alargando o espectro de imputáveis tementes da lei, seria muito mais difícil manter incógnitos grandes esquemas, quebrando-se também a rentabilidade da atribuição de possíveis compensações apaziguadoras pelo exponencial aumento de pessoas a gratificar.

Concluindo a solução não passa pela criação de reguladores de reguladores, é sim preciso ajustar todo o sistema existente para melhor lidar com o que de pior pode surgir no factor humano, a incompetência, a inacção, o conluio.

Se pretendem criar novos organismos talvez o que faça falta seja um gabinete de compliance governamental que se certifique que todos os ministérios cumprem as suas obrigações, eliminando a possibilidade de ocorrência futura de novos casos Paulo Núncio.

 

Brexit is Chinin

Eis que a poderosa Europa impõe a sua força de forma putativa tentando demonstrar que o custo de saída é proibitivo e assim erradicar quaisquer devaneios de outros membros.

Entretanto no Reino Unido a vida continua e o mundo gira. Os Estados Unidos da América parecem estar a especializar-se em controvérsia, deixando progressivamente de ser reconhecidos inequivocamente como a potência mundial dominante, sendo cada vez mais ombreados, senão mesmo ofuscados, por uma Rússia e China que transitam do emergente para o omnipresente.

Se em relação à Rússia o Reino Unido ainda está condicionado pela participação na decisão europeia de aplicação de sanções económicas, em relação à China o caso muda de figura.

A London City escancara as suas portas à moeda chinesa ao mesmo tempo que o investimento chinês é very much welcome, a histórica rota das sedas é restabelecida e até a alienação via futebol é admirada, importada e comprada avidamente.

Gerindo a hostilidade de uma Europa unificada por arames, o Reino Unido prepara-se a grande velocidade para a nova realidade geopolítica, sendo muito provável que no futuro o ‘infortúnio’ do Brexit se venha a revelar como uma viragem positiva na história do Reino Unido, que de forma inesperada o salva antecipadamente da duradoura turbulência Europeia.

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Apocalipse Eucalíptico

Finalmente este FDS tivemos mais um pouco de chuva que se veja, tem sido um Inverno demasiado seco, chateia um pouco mas é a melancolia causada pelo frio encharcado do Outono-Inverno que torna tão calorosa a nossa Primavera-Verão. É ao olhar o horizonte raiado a água que entristeço, não com a chuva, mas com o facto de 80% do verde da paisagem serem eucaliptos.

Esta conquista dos nossos solos ocorreu a uma velocidade vertiginosa sendo desolável que, de Norte a Sul, grandes áreas florestais de espécies autóctones tenham dado lugar a eucaliptos, resultando numa total descaracterização regional que só contribui para o enfraquecimento da nossa percepção de identidade nacional. Sou de uma geração que nos anos 80 era passeada pelos pais em viagens de longa duração pelas nacionais embrenhadas no nosso território. A paisagem era marcada pelas distintas copas das árvores típicas de cada região que, imponentes, ladeavam e sombreavam a estrada. Havia um fascínio e orgulho naquela beleza natural que era a nossa. Hoje são raras as bolsas que mantiveram intacta esta beleza e atmosfera, sentindo-se agora um certo incómodo por esta presença invasora que padronizou muito do território nacional.

O Eucalipto é uma espécie lesiva para a nossa fauna e flora, um vampiro todos os recursos do solo onde se instala. Quando ocorreu o boom de crescimento terá tido o seu ratio económico sendo agora necessário reavaliar o seu impacto a todos os níveis, num cenário de alterações climáticas em curso. O território precisa de se preparar para as mudanças climatéricas que se avizinham, as técnicas e conhecimento sofisticaram-se, existindo muita margem para explorar economicamente as espécies naturais que compõem a nossa floresta (inclusive com o aumento do turismo de Natureza).

Fico contente com o primeiro passo recente de travar a proliferação de Eucaliptos, aguardo com ansiedade o próximo passo, o de diminuir drasticamente a sua taxa de ocupação do território e o recuperar de milhares de hectares perdidos de área florestal compensando também os custos associados ao progresso.

Esta é uma revolução basilar para recuperarmos o fascínio sobre as nossas regiões e caminharmos de encontro ao máximo potencial da economia verde.

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Mário só ares?

Muita água já passou debaixo da ponte desde o meu último post, lá fora temos um novo líder mundial que deixa muita gente infeliz por cumprir a todo o gás as suas promessas eleitorais, por cá Portugal fica a saber que não existem peças sobressalentes para manter a gerigonça funcional, basta um dos componentes pifar e há promessas que ficam por cumprir.

No entanto apetece-me falar de Mário Soares, julgo não ser ainda ‘demasiado cedo’ para tocar em certos temas com isso relacionado. Após a morte de Mário Soares fomos inundados por uma exurrada de peças jornalísticas que nos vendem Mário Soares como o pai da democracia, o pai da liberdade, que todos, inclusive os que o criticam agressivamente, lhe devem uma idolatração incondicional.

É inegável que foi um homem culto, inteligente, aparentemente simpático e afável, presente em vários momentos marcantes da história recente de Portugal, e como tal merece respeito e reconhecimento no momento da sua morte. Nada mais do que isso.

A verdadeira liberdade foi tomada pelos capitães de Abril que a devolveram aos surpreendidos cidadãos. Foram estes homens que tiveram a capacidade de se revoltar, organizar secretamente, executar um golpe com tal mestria que não necessitou do derrame de sangue. Sem qualquer sede de poder, apenas motivados por um sentimento de dever e de justiça social. Se a alguém devo estar agradecido pela minha liberdade é a esses senhores e aos homens que tiveram a coragem de os seguir.

Mário Soares reconheceu-o, aproveitando a janela de oportunidade que lhe foi escancarada. Granjeou os apoios necessários e instalou-se no panorama político nacional e internacional.

Segundo as reportagens solenes a Mário Soares muito devemos do desenvolvimento de Portugal e a melhoria avassaladora de todos os indicadores que definem o nível de uma sociedade. Será? Ou o ponto de partida era tão baixo e miserável que seria impossível não os melhorar de forma significativa? Sobretudo com o músculo dos apoios comunitários  com uma média de entrada de 9 mil milhões de euros por dia desde 1986!

Se a Mário Soares querem atribuir a paternidade da democracia, bem como grande parte do mérito do estado do Portugal actual, talvez acabem por contribuir mais para o denegrir do que o elogiar do seu nome. O que devem as nova gerações agradecer? O sobreendividamento do país? As oligarquias amparadas e amparadoras? O estado da banca nacional? A corrupção? O desaparecimento de milhares de milhões dos fundos comunitários? Tudo isto também precisou de boas décadas de instalação e desenvolvimento.  Será o custo inerente, e aceitável, ao desenvolvimento meteórico da saúde, educação, ciência e economia?

Mário Soares foi um político, um homem com pelo menos um bom olho numa altura em que a maioria da população era cega, surgiu numa altura em que foi fácil realizar coisas de encher o olho e ao mesmo tempo realizar coisas menos transparentes. Não foi de todo consensual a sua actuação, não faltando rabos de palha relacionados com o carácter, conduta e interesses pessoais e daqueles que o rodeavam.

Correndo o risco de ser ingrato confesso que não me sinto de todo impelido a um agradecimento incondicional, pelo contrário fico com a sensação de que se poderia ter feito muito mais e melhor, apesar de comparativamente ao ponto de partida se ter realmente feito muito.

Finalizando deixo uma sugestão para os meios de comunicação, quando faleça uma pessoa com importância relevante, por favor, não se desdobrem em elogios desmesurados, que sejam apenas prestadas condolências respeitosamente, pois mesmo nestes momentos têm o dever de informar e esclarecer sem contribuir para um branquear além da palidez concedida pela morte.

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Rumo a 2017

Chega hoje a noite de tréguas. A noite em que se descarta tudo o que se passou no ano transacto, em que acreditamos que o ano vindouro será sempre melhor.

Ao contrário do que aconteceu internacionalmente, a nível nacional 2016 foi um ano aparentemente menos turbulento, talvez porque se mudou a forma de gerir a comunicação governamental, talvez porque se mudou a forma de noticiar, talvez porque estejamos melhores, talvez porque este tenha sido um ano de construção de novas fundações e não de cobrança de resultados.

Nós por cá navegámos em patrulha, contra correntes de pensamento, tentando agitar as águas, disparando os canhões e torpedos à nossa disposição, procurando alertar para os perigosos submarinos que se escondem sob inócuos periscópios sonda da consciência da sociedade civil.

Tão contranatura como a estabilidade da nau Geringonça, tão incompreensível como a manutenção de Passos Coelho ao leme do navio social democrata e tão (ou mais!) inacreditável como a chegada a bom porto da candidatura de Trump nas presidenciais norte-americanas, o crescimento de nosso blog é um mistério absolutamente inexplicável à luz da racionalidade.

Provavelmente, está tudo relacionado e mesmo que nem todos os supracitados fenómenos nos agradem, apraz-nos a recepção tida em 2016 às dissertações da nossa guarnição, com um aumento de 41% de visitas ao blog e de 70% de seguidores em Facebook, pelo que cá estaremos para vos acompanhar na vivência de um novo e maravilhoso ano de navegação e combate marítimo.

Resta-nos desejar uma boa saída de 2016 e melhor entrada em 2017 a todos.

 

rumo-a-2017