Author Archives: Nuno Faria

Filho de peixe sabe nadar?

Ou a ineficácia do (des)controlo parental… Dezenas de familiares de governantes encontram-se empregados pelo próprio governo numa teia de nomeações cruzadas. A pergunta que se coloca é: são tão ou mais competentes do que @s restantes candidat@s ao lugar que ocupam?

Caso o sejam, nada a dizer, caso não o sejam então o que estará completamente errado é o sistema de recrutamento/nomeação que deveria proteger o Estado deste tipo de exploração dinástica.

Os laços de sangue em nada são indicadores das capacidades individuais pelo que aquilo que deve ser decisor na sua seleção ou demissão é nada mais do que o comprovativo dos resultados apresentados pelo seu trabalho.

Que poderá dizer disto um país em que metade do seu tecido empresarial é composto por empresas familiares e em que grandes grupos empresariais têm também uma gestão familiar?

Tal como se sucede com médicos, músicos, futebolistas, etc, o filho de um grande político poderá ser um político ainda melhor. Legislar no sentido que lhe seja dificultada a colocação poderá ser injusto e danoso para os interesses do país.

Pelo que o problema não são propriamente as ligações familiares mas sim os nós cegos do processo de selecção/nomeação. Querem legislar? Criem regras bem definidas e tragam transparência a esses processos acabando com o conceito de “cargo de confiança política”. Há posições que são cargos de pura assessoria/gestão/coordenação, que deveriam ser apolíticas no sentido de exclusivamente defender interesses do Estado através do exercício de competência sem preocupações partidárias.

Isso sim, seria garantir oportunidades idênticas para todos, colocando debaixo do escrutínio de avaliação regular de desempenho todos estes distribuidores de jogo político, que na sua maioria não passam de gordura de Estado, defensores prioritários das cores do seu partido e dos seus interesses pessoais.

Culto da Amizade

A TVI revelou que grande parte dos donativos para vítimas de Pedrogão Grande se encontram empilhados em armazéns da câmara sendo desviados para amigos e familiares dos autarcas.

Como a maior parte dos telespectadores senti um certo incêndio interior, num misto de raiva, ódio, para com mais um caso de corrupção assente no aproveitamento da boa-vontade a larga escala.

Respirei fundo, acalmei-me, foquei-me na parte positiva. Os autarcas não estão a reter os donativos, estão a distribui-los por familiares e amigos, o que é de louvar pois poderiam apenas usá-los para benefício próprio! Talvez o problema não esteja no comportamento dos autarcas mas sim em quem se queixa de nada ter recebido. Se nada recebeu é porque não é amig@ do Presidente, ora o sentimento de amizade incondicional pelo próximo é bonito e deveria ser trabalhado para ser atingido. Porque não são as vítimas amigas do Presidente? Que bloqueios terão nas suas vidas, presentes ou passadas, que impedem essa possibilidade? Antes de atirarem pedras deveriam meditar para identificar, reconhecer e trabalhar as suas próprias falhas. Essas pessoas, mais do que de receber apoios, precisam de cultivar amizade genuína pelos outros, incluindo pelo Sr. Presidente que está disponível para todos os que a demonstrem, ao menos num amistoso boletim de voto.

Deveriam ter pensado nisso durante este ano e meio que passou, ao invés de se concentrarem no vosso luto, dor, recuperação e reconstrução sem apoio autárquico. O Sr. Presidente esteve, está e estará sempre à espera de um gesto de boa vontade da vossa parte.

Namaste, vítimas de Pedrogão, Namaste.

Fenómenos Ambientais à Portuguesa

Que refrescante ver a nossa juventude a mobilizar-se para exigir que o governo faça mais pela prevenção/reversão das alterações climáticas.

Portugal está mesmo a precisar de alguma orientação neste sentido. Recentemente tivemos a novela da prospecção de petróleo finda por um movimento cívico. Um ministro vem a público preconizar o fim do diesel, o que parece ser uma boa notícia não fosse o facto de o futuro eléctrico necessitar de muuuuito lítio, que, por acaso do destino, é um mineral em que Portugal é riquíssimo! Claro que a mineração de lítio implica severa destruição ambiental mas alguém tem de pagar o preço ambiental para receber o melhor retorno económico e contribuir para um mundo mais verde, pelo menos até à era da mineração de asteróides ou outros astros.

Talvez nos pudessemos inspirar na China para a abertura de horizontes futuros. Com pragmatismo medidas assentes em estudos científicos impulsionam uma drástica mudança dos hábitos alimentares dos seus habitantes, para o seu bem e o do ambiente. Inclusive criam leis que penalizam a indústria agro-pecuária identificada como uma das principais causas de poluição.

E é aqui que vemos que o nosso Governo não dorme, mais uma vez analisando esta situação age aproveitando a oportunidade. Como? Simples, tornando-se uma enorme fábrica de produção de carne do mercado chinês. Serão mais de meio milhão de suínos a juntar-se às centenas de milhares de animais de outras espécie que se exportam anualmente. Passemos à frente do tema crueldade animal, do que passam esses animais portugueses nas viagens, do que os espera nos países de destino, o foco aqui é o tema ambiental e mais uma vez estamos disponíveis para emitir o CO2 que os outros não querem ou não podem emitir, esgotar os nossos recursos hídricos, desolar os nossos solos e poluir os nossos aquíferos para obter retorno capitalista ou crescimento de dois dígitos na exportação. Somos tão prestáveis que até assobiamos para o lado enquanto esvaziam a nossa biodiversidade desde que para um bom parceiro económico, para corte nos custos de produção agrícola ou para deleite gastronómico local.

Estes temas infelizmente não se estudam, não estão nos cardápios da nossa restauração, é preciso escavar, dedicar-lhe algum tempo para perceber que além das demandas aos organismos governamentais também existem transformações do foro pessoal que podem acelerar todo o processo de melhoria ambiental pois a chave de tudo é o consumo, quiçá, nos dias de hoje, com um poder de transformação global ainda maior do que o do voto.

Aguardo com serenidade a vossa força e sapiência jovens, que não seja mais uma trend, hype, flashmob, para preencher umas insta-stories à maneira porque Portugal, a Terra, precisam de uma mudança consistente e não apenas de mais um dia viral que o Governo e feed das redes sociais consigam rapidamente dissipar.

Sejamos o acelerador da mudança que exigimos aos governantes!

Selfie Solidária

Está para fazer quase três anos que Portugal escancarou as suas portas aos mais necessitados. Estávamos dispostos a receber 10 mil refugiados! O dobro do pedido pela União Europeia.

Feitas as contas foram recebidos perto de 1 500 mais de metade dos quais não quiseram permanecer no nosso território.

Quer isto dizer que continuamos com mais de 9 mil vagas para receber refugiados, acenando uma bonita e sentida bandeira de oferta solidária que nos deixa muito bem na fotografia, mesmo que não usufruída.

A outras latitudes outras fotografias demonstram que talvez pudessemos disponibilizar estas oportunidades a outros povos, igualmente massacrados e desesperados. 

Será melhor fazê-lo o quanto antes porque uma selfie internacional tem muito mais impacto do que uma selfie nacional, e existe o perigo efectivo de alguém fazer contas e perceber que as 5 000 vagas a mais disponibilizadas seriam suficientes para dar resposta aos menos sexy cidadãos nacionais em situação de sem abrigo. 

Lembrei-me disto porque o Natal é a altura perfeita para ajustar a distribuição dos presentes, deixando de os dar a quem não os valoriza, reforçando a dádiva a quem mais precise.

E assim enfeitar as nossas walls com uma tremenda selfie solidária.

A Feira dos Coletes

Há uma semana que França se encontra ao rubro com a moda dos coletes amarelos, símbolos da luta de rua pela anulação das políticas que conduzem ao perder do poder de compra. Haverá luso-descendentes entre eles?

 No Mediterrâneo, apesar de ter deixado de ser preocupação mediática continua a predominância da moda dos coletes laranja que mantêm à tona algumas esperanças de vida.

Já em Portugal o foco esteve na discussão da moda do colete encarnado,  foi o próprio Parlamento que resolveu a afronta recente, espezinhando-a como merecia. Os progressistas não entendem que as lides do Touro são o futebol de Verão dos provincianos. As gentes do campo e das lezírias são muito perigosas, munidas de forquilhas, habituadas a labutar horas a fio, fortalecidas pelas agruras das jornas, sabe-se lá que lhes daria para fazer se de repente se lhes acabasse a festa! Sacrifiquem-se os touros em prole do bem comum, que farpem, sangrem, ridicularizem e matem o bicho à vontade, desviando a atenção do que fazem os seus autarcas quando não organizam esta bela festa.  Uma mão lava a outra. É tradição.

Mesmo assim já se vê o emergir de alguns coletes amarelos em Portugal, que, apesar de parcos, conseguem paralisar a dinâmica de exportações nacional! Estão a ver o perigo? Não seria melhor serem adeptos fervorosos dos coletes encarnados!?

É muito complexa a moda dos coletes. Enquanto Portugal se mantiver fiel ao encarnado tudo vai bem. É rezar para que não se dê a chegada do laranja, o que estragaria a bonita selfie do nosso Allgarve, e se consiga conter o real perigo da contaminação do amarelo, o que daria muito pouco jeito em ano de eleições.

 

Alojamento vs Aluxamento vs Axulamento Universitário

Entrada para a Universidade, um marco na trajectória de vida de qualquer ser humano que tenha felicidade de o poder alcançar. Uma descida aos infernos para todos os que têm de se deslocalizar e procurar alojamento, que na capital chega facilmente aos 5 400 € anuais o que somado a aproximadamente 1 000 € de propinas totaliza uns simpáticos 6 400 € anuais apenas para alojamento e matrícula faltando somar gastos com comida, viagens, e outras necessidades do dia-a-dia. Falamos de mais de metade do rendimento anual médio de um trabalhador Português, um enorme rombo numa família já a cargos com despesas de crédito habitação, casa e dia-a-dia.

A culpa, dizem, é da pressão do alojamento turístico, da escassa oferta de alojamento para este tipo de aluguer prolongado, enfim, do mercado a funcionar. Lisboa talvez pondere resolver este problema com a definição de quotas mas até lá felizmente podemos contar com benevolentes e atentos empresários que procuram ajudar a resolver o problema criando alojamento universitário de luxo que podem resolver as preocupações, pelo menos as dos mais abonados.

E assim temos alunos universitários a ser explorados, pagando excessivamente pelas condições que lhes são fornecidas, com pressão acrescida por serem foco de enorme despesa para a sua família, que começam já nesta fase precoce da sua vida a entrar no estado de espírito do sobrevivente socioeconómico. Aprendem de forma inconsciente que é esta a forma de viver daqui para a frente, espremidos, condicionados, explorados em conformidade com os demais porque, afinal, se ninguém for tratado com justiça ninguém é prejudicado.

Ao mesmo tempo temos espalhados pelo país, também pela capital, idosos em solidão e depressão, com parcas reformas, casas vazias, que muito poderiam beneficiar da partilha de espaço com gerações vindouras. Talvez haja aqui uma oportunidade para uma política social que aproxime extremos etários, reforce os rendimentos dos reformados, reduza factura de alojamento a quem precisa de conforto e estabilidade durante três ou quatro anos.

Até lá alguém que resolva a confusão fonética causado pelo actual Alojamento/Aluxamento/Axulamento Universitário!

 

Um sucesso arrepiante

Ainda ardia Monchique conduzia eu rumo a Viseu, agulhado pelo Mondego, ladeado de encostas áridas de tons alaranjados onde sobejam altos finos troncos calcinados e rebentos de eucaliptos militarmente alinhados numa formação que denuncia a mão humana que os ampara.

Pelo segundo ano consecutivo as chamas devoram a densa monocultura florestal humanamente desgovernada. Entre elas habitações, lugarejos, animais selvagens e animais domésticos aprisionados não libertos por aqueles que são forçados a abandonar os seus lares pelas forças de segurança.

27 mil hectares de floresta ardida, zero vidas humanas perdidas, um sucesso dizem eles.

Os especialistas em biodiversidade, as forças de prevenção e combate a fogos, o povo local, todos clamam aos governantes por mudanças na ordenação florestal do território. Estes fingem ouvir, garantem que algo será feito para melhor, mas é notório ao longo de décadas que não são as questões ambientais, logísticas e sociais os principais influenciadores nesta matéria.

Pelo que tentarei descer ao seu nível, entrar no economiquês do tema, talvez me faça sentir mais confortado com a aparente inevitabilidade do advir destas calamidades. Ao que encontrei por aqui parece que o potencial de riqueza da floresta portuguesa é de cerca de mil e trezentos milhões de euros por ano, dos quais 41% (533 milhões de euros) será relativa à parcela relacionada com uso da madeira e seus derivados (muito eucalipto nesta fatia).

O prejuízo médio anual relacionado com incêndios é da ordem dos 360 milhões de euros, no entanto nos últimos dois anos temos Pedrogão com prejuízos avaliados em mais de 500 milhões de euros e agora Monchique que se estima ser um valor muito superior. Com a agravante de que a recuperação das áreas ardidas demora anos, nos quais não existe produção nem rentabilidade e de que não são contabilizados os custos indirectos no turismo local, com a fuga dos visitantes, e no tecido laboral, inerente à ausência prolongada forçada por parte de bombeiros e população afectada.

Adicionando a isto o custo social, ambiental e ecológico chegamos praticamente a um ganho zero na manutenção deste atentado à nossa biodiversidade, deste risco constante de incêndios incontroláveis que arrasam comunidades locais.

Em análise económica e financeira o que se faz quando nos deparamos com uma actividade pouco rentável com demasiado risco associado?

Talvez seja chegada a hora de arrepiar caminho florestal, voltando ao básico, reaprendendo a apreciar e rentabilizar o que é verdadeiramente nosso.

eucaliptos

 

Sê como a água do Rio, meu amigo

Um novo combatente político assume o seu canto do ringue trazendo consigo uma retórica renovada e uma fama ética. No outro canto permanece a quimera geringonçacional, ainda viciada em devolver o seu a seu dono sempre que lhe são apontadas críticas e/ou imputadas responsabilidades sobre o estado da nação.

O novo pretendente não assumiu ainda uma forma concreta, não desfere golpes violentos nem demasiado assertivos, que definam concretamente a clivagem existente entre ambos os lados do ringue. O seu jogo de pés é estonteante conseguindo bailar por toda a zona de combate, por vezes o faz até de mãos dadas com um dos elementos quiméricos enquanto soca ou pontapeia outro no estômago.

As casas de apostas parecem acreditar nesta ação líquida que se infiltra em todas as brechas. Apesar de ainda só se terem testemunhado pequenos curtos-circuitos a probabilidade de um colapso integral da máquina governativa parece estar a aumentar.

Hashtugas

Num período manchado por um pico de sinais evidentes de corrupção ao mais alto nível, por actos de destruição ambiental, por Pedrogão e seus bastidores, por novo aumento galopante do preço dos combustíveis, pelo contínuo fragilizar do nosso sistema de saúde, as grandes mobilizações chegam-nos em forma de greves orquestradas pelos sindicatos sectoriais. Por onde anda a unidade nacional que conduza a um basta generalizado? Estaremos assim tão confortáveis com o estado da nação?

Nós os portugueses, grandes pioneiros, early adopters, evangelizadores de todo o tipo de novas tecnologias, fomos de tal forma digitalizados que acreditamos que é o meio de comunicação digital a nova meca da indignação e activismo político-social. A nossa luta faz-se agora num palco virtual de volumetria imponente em termos de camaradas e reações emojionais. Apoiamos e lutamos incondicionalmente a favor de causas merecedoras desde que isso não implique uma manifestação física, uma confrontação direta com oposição frontal aos que pensam de outra forma, ou pior com as forças policiais mandatadas pelo governo contestado. Mais, ainda ridicularizamos quem ouse fazê-lo, transformando-nos em pouco mais do que trolls digitais.

Lá fora poderão não ser tão ávidos e aptos na exploração de novas tecnologias, o que faz com que, através da sua maior primitividade, acabem por utilizar os novos meios de comunicação para marcar a diferença, para forçar a mudança ou, pasme-se, mesmo para juntar grandes aglomerados de cidadãos dispostos a dar a cara, a fazer ouvir a sua voz, por algo em que acreditam.

Ao longo dos anos surgiram espontaneamente pelo mundo fora hashtags como #MeToo, #BlackLivesMatter, #WomensMarch, #MarchForOurLifes#ArabSpring, #ElectricYerevan, #Vemprarua, etc, que efectivamente se traduziram em manifestações de milhares nas ruas, forçando o debate e mudanças na sociedade civil.

Por cá as hahstags têm até hoje sido sobretudo utilizadas para fins de entretenimento e marketing corporativo, sem grande expressão ao nível de um activismo que se traduza na manifestação de milhares de Portugueses nas ruas ou na força de colocar em cima da mesa temas que o governo e media varrem para baixo do tapete. Muita sorte teve Timor por há 10 anos atrás não existir o nível de adopção das redes sociais de hoje.

Será que a passividade actual se deve à falta de situações que  justifiquem manifestações de rua? Ou teremos personalizado a hashtag ao ponto de esta se tornar mero adereço decorativo?

 

Morrer feliz

Por agora o assunto morreu sendo seguro que voltará à baila, espero que em condições. Algures no tempo tenho ideia de ter tido muito mais certeza sobre a minha posição quanto ao direito a morrer. No entanto as coisas mudam, conhecemos pessoas, ouvimos hisrias, analisamos factos, lidamos com a  luta e/ou morte de pessoas próximas, decidimos matar seres próximos (como animais de companhia), refletimos sobre a conexão holística e cármica, e de repente a base sobre a qual assentam os nossos fundamentos passa do concreto armado à areia movediça que nos obriga a movimentar cautelosamente em busca de terreno sólido onde firmar pé novamente.

Eutanásia advém do grego euthanasia que significa morte fácil, morte feliz. A componente fácil diremos que poderá estar relacionado com a comodidade, rapidez e ausência de sofrimento físico. Terá sido aqui que se focou a tradução da palavra para o mundo contemporâneo, deixando cair por completo a componente da felicidade. Julgo que não terá sido por acaso pois para garantir uma morte feliz esta terá de ser precedida por uma vida feliz, por uma vivência comunitária e familiar que construa significância. Não será complicado matar alguém de forma instântanea e indolor mas garantir que parta em paz? Com satisfação pela sua passagem por este mundo? Com orgulho do seu legado imaterial? Isso não se garante apenas com uma boa morte.

Em vez de termos a sociedade divida numa luta focada na morte deveríamos ser capazes de uma união em torno da vida. Ao invés do deslumbramento para com as histórias humanas, de sucesso e esperança futura no tratamento de doenças terminais, deveríamos perseguir as causas endémicas que levam à cada vez maior incidência de doenças física ou psíquicamente dolorosas, sofríveis, incapacitantes, fatais, procurando alterar os hábitos e comportamentos que a isso conduzem. A classe médica, que tanto se foca no tratamento do ser humano para que este se adeque e sofra o menos possível com o estilo de vida vingente, deveria dar um passo atrás, olhando para o panorama geral, tentando perceber se a sua ação não seria mais útil em intervenções na sociedade que vão muito além do que se passa dentro das instalações médicas, tendo a coragem de integrar no seu conhecimento científico os ensinamentos oferecidos pelas visões orientais sobre a saúde humana (física, psíquica, espiritual e energética).

Nos dias de hoje quem pode cuidar devidamente dos seus e de si? Quem pode manter os enfermos envolvidos e acompanhados no seu círculo social e familiar? Sem perder o emprego? Sem prejudicar a escolaridade dos filhos? Sem se desdobrar em habilidades logísticas e financeiras para conseguir cumprir com todos os compromissos assumidos? Não há pior sentimento para um acamado do que o ter a certeza absoluta de que sim, está a ser um fardo para os seus, para as suas rotinas, para o seu tempo de lazer, onde deveriam recuperar do esgotamento físico e psíquico imposto pelo nosso estilo de vida, porque, infelizmente, o enfermo deixou muitas vezes de fazer parte dessas rotinas, desse lazer. A fragmentação geográfica das famílias e comunidades ocorrida nas últimas gerações reforçou-se ainda mais com o advir das redes sociais e afins. Estamos todos tão perto uns dos outros quando tudo corre bem! Quando estamos mal? Estamos simplesmente offline, inexistindo até ao próximo post de vaidade galhofeira. Um país sem estrutura de suporte à vida digna não deve criar uma via de alternativa fácil aos que são quebrados e derrotados, como que dando o sinal de que deixará de ser relevante o impacto a longo prazo das opções governamentais e/ou individuais. Se acabarmos por destruir o nosso corpo e/ou mente não há preocupação, teremos garantido o fim do nosso sofrimento de forma fácil e limpa. Querem melhor reforço da inconsciência actual que degenera em crescentes taxas de incidência de cancros, demências e afins? A este ritmo a eutanásia poderá rapidamente tornar-se num varrer de problemas para debaixo do tapete. Se as pessoas em agonia desaparecerem não maçam, não dão despesa e não levam à formulação de porquês…

Continuo assim com a certeza de que devemos ter o direito à recusa do prolongar artificial da nossa vida, à recusa do sermos alvo de actos médicos com os quais não concordamos, agora se temos o direito a pedir que nos matem? Talvez, caso não o consigamos fazer pelas nossas próprias mãos, coisa que é passível de acontecer simplesmente pela recusa em ingerir líquidos ou alimentos como fazem alguns animais em desgosto profundo. Teremos algo a aprender com eles? Sejamos francos, 99% de nós não precisa de uma morte assistida, se o desejo fôr efetivamente morrer as possibilidades são imensas. Acredito que para o restante 1% se consigam soluções criativas se realmente necessário.

Por fim suspeito que tenhamos de reaprender a lidar com a morte aceitando-a seja lá como nos venha a ser entregue. Quando temos um moribundo diante de nós ambos temos a sagacidade de perceber que a morte se aproxima. Deveríamos ter a coragem de aguardar juntos, cabendo aos viventes o zelar e acompanhar da transição, partilhando os momentos finais que tanto impacto terão em todos os participantes mesmo que envolvidos em silêncio, toques e olhares serão suficientes. Porque por vezes me parece que o conceito de eutanásia, morte fácil, é um instrumento sobretudo facilitador para os prestadores dos cuidados de saúde, que libertarão uma vaga e reduzirão custos, e para os que ficam poderem retomar as suas vidas que parecem interrompidas por esta ‘anormalidade‘ que é o definhar de encontro à morte.