Author Archives: Nuno Faria

O empresário perfeito – título póstumo

Imaginemos um grande empresário português que tem a visão de construir o primeiro hipermercado em Portugal, confirmando-se a aposta certeira em termos de investimento. Rapidamente se multiplicam o número de hipermercados surgindo depois centros comerciais de grandes dimensões. Este novo paradigma revoluciona os hábitos de consumo dos Portugueses. Num curto espaço de tempo as ruas das cidades perdem grande parte do seu movimento pedonal, a maior parte do pequeno comércio local, várias praças e mercados municipais, são forçados a encerrar pois não conseguem competir com os baixos preços e concentração da oferta oferecida por estes novos espaços.

Para os consumidores era um maravilhoso novo mundo, nunca se comprou tanto com tão pouco!

Nos bastidores sofriam os fornecedores, esmagados por uma enorme pressão comercial que lhes permitisse ter acesso às, agora únicas, grandes montras de exposição e escoamento dos seus produtos. Alguns cedem, outros ficam condenados à falência, sem nunca faltarem produtos nas prateleiras. O consumidor compra o que houver, isso é garantido.

Nos centros comerciais a estratégia foi outra. Concentrar os mais variados tipos de lojas, provavelmente pagando uma renda justa, com uma pequena contrapartida, ter acesso aos principais indicadores de negócio de cada uma das lojas, porque obviamente essa informação é de vital importância para a gestão sustentável do empreendimento. E assim, durante alguns anos, comerciantes abençoados puderam servir de cobaias num tubo de ensaio que permitiu definir quais os tipos de lojas mais rentáveis naquele novo ecossistema comercial. Uma vez feita a prova de conceito criava-se uma marca própria que substituía as pequenas lojas, num investimento mais do que garantido. E assim os grandes centros comerciais deixaram cada vez mais de ter pequenos comerciantes, concentrando sobretudo marcas próprias e outras grandes marcas, âncoras, contra as quais não valia a pena competir.

Uma vez seca a competição este empresário pôde concentrar-se em desenhar formas de potenciar o consumo, através de contínuas e desorientadoras acções promocionais. Preços em constante flutuação, uns para baixo, outros para cima, numa matemática manhosa cujo resultado para o consumidor só pode ser devidamente percepcionado se olharmos para a curva de evolução dos lucros como uma curva de evolução dos gastos e a compararmos com a curva de evolução dos rendimentos das famílias ao longo dos anos.

Este empresário criou assim um império milionário, tornando-se num exemplo virtuoso. Não só dinamizou a economia através da construção dos seus espaços comerciais, do incentivo ao consumo, do aumento do crédito ao consumo, como garantiu no processo a criação de largos milhares de empregos, conseguindo a concentração da circulação de consumidores e dos agentes que compõem o tecido económico no sector do retalho nacional.

É por toda esta criação de riqueza, simplificação de processos, entretenimento das hostes, que, justamente, a classe política lhe presta a devida homenagem. Já aos fornecedores, trabalhadores e consumidores passa-lhes um pouco ao lado de tão alheados que estão, seja na labuta para garantir produção e sustento, seja no desfrutar do grandioso ecossistema comercial que lhes foi oferecido por este homem. Mais uma prova do sucesso da sua visão estratégica de se tornar num dos pilares de uma sociedade cega e inconscientemente consumista.

Anúncios

Efeitos de gases de estucha

Nos longínquos anos Socráticos a gloriosa, luxuosa, dispendiosa governação acalorou a vida dos Portugueses de tal maneira que tornou irreversíveis os efeitos de um prolongado aquecimento orçamental.

Culminou com a chegada de uma era glaciar que provocou o congelamento das calotas orçamentais. Durante esse período a humanidade portuguesa sofreu diversas tribulações, sendo posta à prova a sua resiliência no ajustamento ao desvio colossal face ao anterior rumo, tudo isto sob um tormentoso silêncio sepulcral.

5 anos depois surgem as primeiras rachas nas grandes barreiras de gelo. De forma engenhosa é inventada uma milagrosa geringonça que apesar dos receios iniciais se mostrou eficiente no atenuar dos efeitos sentidos pela catástrofe que assolou Portugal.  Logo no primeiro ano as parcelas orçamentais foram reconfiguradas, novo desvio foi aplicado sobre o anterior, recuperou-se alento e sustento, tudo temperado com um insólito afecto.

Depois chegou o segundo ano. Com eleições que deixaram claras as diferenças entre ser carenagem descartável ou motor essencial da geringonça,  com incêndios mortíferos devastadores que colocaram a nu carências na protecção civil, com insurgentes reivindicações nas áreas da educação, saúde, forças policiais e militares, tudo isto resultando numa avassaladora emissão de gases de estucha.

Estes gases de estucha são perigosíssimos pois conduzem ao descongelamento descontrolado, provocando um diluvio de proporções bíblicas no território orçamental, o que certamente criaria um cenário em tudo similar ao que se passou no período Socrático. Na altura dizia-se que a dívida não é para se pagar mas sim para se gerir, hoje parece ter-se substituído dívida por expectativa, seja como for no final as contas terão de ser seladas.

Preparemo-nos para um complexo e decisivo terceiro ano que irá esclarecer de uma vez por todas qual o verdadeiro ciclo em que nos encontramos.

A Misericórdia Político-Corporativa

Se Pedro Santana Lopes voltar à ribalta a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa torna-se uma nova incubadora/reabilitadora de líderes políticos. A aura de beneficiência e benfeitoria por si concedida será um bálsamo rejuvenescedor para um político gravemente ferido.

A SCML é uma instituição secular, robusta, dona de um dos maiores patrimónios imobiliários do país, a maioria proveniente de doação após morte, sendo este património gerador de receitas milionárias canalizadas para reinvestir em obras de beneficiação, aquisição de novo património, além da sua utilização na actividade de apoio social.

Anualmente a SCML gere as receitas de mais de 2 750 milhões de euros provenientes do jogo. Depois de distribuídos prémios e pagas despesas associadas sobram 200 milhões de euros para a SCML e mais de 180 milhões de euros para os cofres do Estado. Posteriormente a SCML distribui todos os anos mais de 100 milhões de euros em forma de apoio social, tendo ainda uma despesa similar a nível de custos de pessoal num volume superior a 100 milhões de euros para remuneração dos seus mais de 5 000 trabalhadores.

Tal é a sua dimensão que a SCML é especialista reconhecida na gestão dos Jogos Santa Casa, de património imobiliário, de unidades de saúde, de unidades de apoio à inserção social, de creches, de jardins de infâncias, de ATLs, de unidades de formação de competência, de centros de reabilitação, etc.

A SCML é uma organização sem fins lucrativos que em 2016 teve um ‘balanço positivo’ de mais de 21 milhões de euros apresentando activos milionários, dos quais só depósitos bancários são quase 200 milhões de euros.

É compreensivo este acumular de riqueza e de peso no nosso espaço social e económico, afinal a SCML está a atingir os 520 anos de existência. Que seria de nós sem ela, outras SCMs e similares? É caso para especular algo infernal pois mesmo com a sua existência o retrado português da pobreza é assustador, há quem diga que está até substimado aos dias de hoje, sendo pelo menos certo que há 5 000 pessoas em situação de sem-abrigo a precisar de maior amparo. Apesar do óbvio crescimento deste tipo de organizações, em termos de áreas de actuação e volume de actividade social, aquele que deveria ser o principal indicador do seu sucesso, a regressão do número de pobres, não se verifica, mantendo-se constante nas últimas décadas.

Com tantos recursos à disposição, tantas áreas de actuação, faltará certamente um ingrediente secreto capaz de transformar a fórmula do atenuar da pobreza numa fórmula de resolução da pobreza. Sem dúvida que passará por uma interligação com o Estado, já que serão as políticas económicas deste que em muito influem na geração de pobreza. Por um lado temos organizações especializada no combate à pobreza existente, por outro temos um Estado que, pagando -lhes para isso,  espera destas organizações o atenuar dos efeitos colaterais menos agradáveis da sua governação.

Não sei se o governo de Pedro Passos Coelho percebeu que a manutenção da separação entre estado e acção social poderá ser impraticável num futuro não muito distante ou se simplesmente precisou de fazer uma cosmética orçamental, seja como for, tomou iniciativas subtis de integração a nível orçamental e na área da saúde. Curiosamente foi nesta altura conturbada que surge a nomeação de Pedro Santana Lopes como provedor da SCML.

O que seria destas organizações sem pobreza em Portugal? O que seria do Estado social sem estas organizações? Julgo que no cruzamento da resposta a ambas estas questões se encontre a fórmula revolucionária que abordará a pobreza em todo o seu espectro, desde a origem à sua erradicação, passando é claro pelo atenuar da sua manifestação.

Tenho as minhas dúvidas que a resposta venha a ser encontrada por um paladino misericordioso, habituado a prestar confortável vassalagem sempre que isso lhe augure um bom futuro. Apostaria mais num insurgente nortenho ávido de atingir a total independência de terceiros na resolução dos mais prementes problemas da nação.

Não me demito. Câmbio.

15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.

Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o  Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.

Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.

Câmbio

O impacto da escolha dos carris

Portugal está há muitos meses política, social e jornalisticamente encravado. Engolido  por um furacão temático que o contém, supostamente a salvo, no seu pacífico olho, obrigando-o a dançar ao sabor dos ventos que o circundam, impedindo-lhe o vislumbre do horizonte. Nesses ventos são reciclonados caoticamente os mesmos temas  que perigam à vez o país: incêndios, Tancos, taxa de desemprego, crescimento económico, turismo, greves, dinâmica da geringonça, Marcelo em todas, crise no PSD, We Brand, negociações sindicais, operação Marquês, décimas do deficit, etc, apimentados com umas Trumpalhadas, alarmismos e terrorismos internacionais.

Devido ao toldar de visão este furacão cria uma perigosa ilusão, a de que são estas as questões de fundo essenciais ao futuro do país e do mundo. Estranhamente deixou de se falar da crise dos refugiados, da guerra da Síria, anteriormente tão absorventes, estarão resolvidas? Alguém se lembra da discussão do impacto do CETA/TTIP para Europa e Portugal? Ou é para ser assumido como um facto consumado com que ninguém tem de se preocupar? Será relevante evidenciar que atravessamos um período de seca gravíssimo e que o país precisa de repensar toda a sua gestão de recursos naturais?

Para lá desta barreira temática existem povos, aparentemente não condicionados, que vislumbram bem mais além, ousando tomar medidas disruptoras focadas na construção de um futuro melhor, não necessariamente do ponto de vista económico.

Seria muito bom que Portugal e os portugueses acompanhassem estes movimentos que vão redefinir o mundo a médio-prazo. Claro que para isso teríamos de ter uma população formada e informada, que colocasse o orgulho no seu estilo de vida, no seu impacto positivo no mundo, acima do orgulho desportivo, do comodismo do seu umbigo, uma população que da mesma forma que rejeitaria a nomeação de corruptos comprovados para tesoureiros do seu dinheiro não os elegesse para mandatos políticos renovados, uma população que colocasse o interesse comum acima do seu mesquinho interesse pessoal.

Estou certo que um dia aí chegaremos. Até lá continuaremos a desfrutar da relativa tranquilidade do olho do furacão, fortalecendo-nos num presente que em breve será um passado muito diferente do futuro que se avizinha. Quando terminar a tontura deste constante rodopiar constataremos que talvez devêssemos ter aproveitado todo o esforço despendido não a reentrar nos eixos de que saíramos mas sim a encarrilar em novos rumos, mesmo que economicamente menos favoráveis a curto prazo.

Combustível Eleitoral

Para que servem eleições?

Os incêndios devastadores deste Verão demonstraram que nem todos se batem devidamente pelo bem comum, sendo responsáveis directos por más decisões, más regulações, más fiscalizações. Quer a a nível local quer a nível estatal. Para além dos cenários macabros evidentes em cobertura jornalística, um estudo da Quercus veio demonstrar que um quarto dos municípios de Portugal Continental não cumpre as suas obrigações no âmbito da Legislação de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Há 72 municípios do Continente que não têm sequer em vigor o “Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios” obrigatório por Lei!

Por curiosidade fiz um levantamento das taxas de abstenção, somadas aos votos nulos e brancos, dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 2017, evidenciando-se que muita da população (40% a 50%) dos concelhos de risco não está minimamente preocupada com entrega das chaves do poder. E assim contribui para o estado da sua autarquia, da nação. A fim de entenderem a gravidade da sua ausência no processo decisório, quem não se preocupa com a nomeação dos seus cuidadores talvez também não devesse esperar cuidados de terceiros quando os que ajuda a eleger por omissão falham nas suas funções.

Voltarei a este exercício no dia 2 de Outubro para perceber se nestas autárquicas o choque das chamas descontroladas, com muita culpa do poder local, terá despertado um sentimento de revolta nos cúmplices abstencionistas que os leve a revidar com a queima de quem de direito.

Afinal, a primeira coisa para que servem umas eleições é para votar.

% Abstenção + % Votos Nulos + % Votos Brancos
CONCELHO AUTÁRQUICAS 2013 LEGISLATIVAS 2015
Alijó 42% 53%
Anadia 52% 51%
Águeda 52% 49%
Arcos de Valdevez 55% 62%
Arouca 38% 45%
Caminha 39% 50%
Castanheira de Pera 35% 44%
Castelo Branco 56% 45%
Figueiró dos Vinhos 36% 44%
Funchal 55% 53%
Góis 36% 44%
Pampilhosa da Serra 38% 48%
Pedrógão Grande 42% 48%
Penela 42% 48%
Sertã 43% 43%
Vale de Cambra 43% 45%
Viana do Castelo 55% 49%
Vila de Rei 34% 35%

O fim do opinar classista

As questões laborais voltam a estar na ordem do dia. As notícias apontam para o aumento de abusos e precariedade, a eminência de novas greves em sectores públicos, o mediático caso Autoeuropa. O problema basilar continua a ser a delicada  relação entre remuneração vs produtividade vs horários que já abordei no passado remoto.

Sendo uma discussão recorrente existe agora um alto nível de opinar nas redes sociais que só vem demonstrar a fragmentação existente entre as várias classes laborais. Quem exerce actividade no sector debaixo de ataque normalmente tem uma opinião muito distinta daqueles que não entendem os detalhes sectoriais. Para piorar as coisas grandes chavões são utilizados para cavalgar a precariedade e desconhecimento, conduzindo uma forte reprovação social generalizada contra a ‘escandalosa’ luta por melhores condições e direitos. Mais uma vez a aplicação da velha máxima “dividir para reinar”, a uma grande escala, jogando as maioritárias classes espectadoras contra as poucas classes reivindicativas.

Uma vez que será utópico esperar que num curto-prazo o discernimento isento abranja a maior parte da população só vejo uma forma de trazer paz social e justiça laboral a este tipo de negociações, a criação de sindicatos ou ordens sectoriais apartidárias que, em conjunção com governo e patronato, definam as condições basilares de trabalho e remuneração para cada classe de trabalhador e sector económico.

Isto implicaria que cada sector de actividade, coercivamente todos os seus trabalhadores, estariam abrangidos pela área de influência e jurisdição de uma única destas entidades reguladoras, cada uma delas especializada na sua área de actuação. Em consequência seriam extintos múltiplos sindicatos, que actualmente se sobrepõem, bem como deixaria de existir um salário mínimo nacional, existindo antes vários, um por cada classe e sector de actividade.

Com transparência estariam disponíveis para consulta pública os detalhes dos pilares de cada actividade, em termos de formação necessária, direitos e condições de trabalho, progressão na carreira, estatísticas de comparação com outros países, etc. Apesar de transversais ao sector poderiam sempre existir negociações particulares em casos especiais e temporários como o da Autoeuropa.

Desta forma eliminaríamos as hordas de trabalhadores explorados que, após uma análise básica alicerçada na comparação cega de salário bruto e carga horária semanal, se indignam com as exigências de trabalhadores ‘claramente’ em muito melhores condições do que as suas. Passaríamos sim a ter trabalhadores tranquilos, protegidos por grandes estruturas credíveis que, ao entender as particularidades de cada profissão, conseguem proporcionar-lhes um ambiente estável e equilibrado de trabalho, bem como o espaço e tempo adequados ao desfrutar da sua vida pessoal.

Isto não é nada de novo nem inovador. Faz-se nos USA, Suécia, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suiça entre outros.

A mudança de paradigma é simples. Ao invés de termos uma maioria descontente a pretender que os outros sejam nivelados pelo que é a sua referência, baixos ou nenhuns salários, alta carga horária, abusos patronais, teríamos sim um puxar para cima de todos os que se encontram abaixo do nível mínimo de dignidade e respeito.

Seria assim posto fim aos tiros nos pés daqueles que opinam sobre actividades que desconhecem. Que ao fragilizar a posição de quem exige melhor recompensa pela sua dedicação acabam por contribuir para o fortalecer e perpetuar das condições precárias em que eles próprios se encontram.

Até lá patronato e governo agradecem a continuidade desta luta de classes invejosas.

O emprego turístico

Ao olhar para uma taxa de desemprego no nível mais baixo desde Fevereiro de 2009 não sei se fique semi-alegre se fique semi-triste. Isto porque ainda me lembro da inesperada crise económica que se seguiu em 2010-2014 fazendo disparar o desemprego.

Alguns alertam que esta descida da taxa de desemprego é sazonal, relacionada com a necessidade de resposta à época alta do turismo. Assim o parece ser, com este sector ainda não saciado a procurar mais cinco mil trabalhadores só no Algarve.

Seria um orgulho para todos nós que o agora fulcral sector do turismo fosse exemplar nas suas práticas laborais e não um predador das presas fáceis condicionadas ao habitat da precariedade. Infelizmente o contentamento nacional satisfaz-se com o despregar da bandeira do crescimento. É verdade que em 2016 o turismo algarvio proporcionou  um extra-ordinário crescimento de 20% dos lucros, num bolo total perto dos mil milhões de euros! Em contrapartida aumentam os contratos a termo com baixa remuneração.

Bem sei que ainda não há muito tempo existia uma grande crise, até no turismo, o que nos deveria levar a valorizar o ter emprego como uma grande melhoria face à sua recente inexistência. É uma ideia que tem a sua força, até falarmos presencialmente com algarvios, tristonhos, desapontados, derrotados, que apontam este trabalho sazonal, pesado física e psicologicamente, com carga horária exigente, mal pago, como sendo o grilhão que os mantém numa vida perto da simples subsistência, sem margem financeira para meras saídas sociais quanto mais para eles próprios praticarem o turismo noutras zonas de Portugal. São rodas de um perpétuo movimento circular, trabalhar arduamente uns meses, receber um parco subsídio de desemprego nos restantes, sem qualquer estabilidade, sendo ruminados ao sabor dos empregadores.

Aproveitando a saúde e importância do sector o Governo deveria focar-se na empregabilidade do turismo, promovendo a justiça social nas remunerações e condições de trabalho. Imediatamente pôr fim a estágios não remunerados, definir ratios de contratos com e sem termo, promover a criação de salários de base fixa com componente variável indexada à facturação mensal ou à época (baixa/média/alta), criar outras medidas que incentivem e garantam a qualidade dos serviços através de uma maior taxa de retenção, motivação e contínua formação dos profissionais do turismo (a cargo dos empregadores e não dos centros de emprego). O Governo deveria proteger o sector da sua própria ganância já que a desqualificação e desmotivação dos seus colaboradores tem impacto directo na qualidade de um serviço que tanto depende de uma atenciosa relação com o público.

Como português fico bastante incomodado sempre que sou servido por pessoas sem qualquer qualificação para o atendimento ao público ou quando o sou por pessoas qualificadas visivelmente esgotadas a trabalhar nos limites. Fico-o porque sei que podemos dar mais e melhor serviço desde que Gestão de RH signifique Gestão de Recursos Humanos e não Gestão de Resíduos Humanos.

O sector do turismo tem muita margem de melhoria para demonstrar que as pessoas não devem ser o meio para uma economia saudável mas sim que a economia é o meio para o melhorar das condições de vida, bem estar e felicidade das pessoas. Todas as pessoas, não apenas clientes e patronato.

Deveria ser mais do que suficiente que os lucros crescessem apenas 10%, ou mesmo 5%, até que fosse atingida a justiça laboral, sem que os trabalhadores do turismo continuassem a ser também turistas do emprego.

woman-wheel

Portugal eco-friendly ou eco-fucker?

Um estudo recente  aponta para um futuro de secas extremas na península ibérica, que poderá conduzir à fricção na gestão de recursos hídricos partilhados por Portugal e Espanha. Será antecipado o catastrófico cenário de conflitos geopolíticos por disputa de recursos vitais como a água? O passado recente não tem sido abonatório para Portugal, com Espanha a colocar os seus interesses muito à frente dos nossos.

O que pode fazer Portugal? O que está ao seu alcance. Ser ética e ecologicamente exemplar para que não tenha telhados de vidro na altura de ‘atacar’ diplomaticamente a inaceitável posição do país vizinho. Se é a água um recurso partilhado sem o qual não poderemos viver, se o cenário projectado não é promissor, faz todo o sentido que ataquemos o problema analisando como gastamos água, acelerando a inevitável alteração dos hábitos de produção e de consumo rumo a um país inatacável em matéria de eco-sustentabilidade.

Portugal deve ponderar se a longo prazo será vantajoso promover actividades lúdicas sugadoras vorazes de recursos hídricos, se é inteligente manter uma gestão florestal indiferente aos volumes de consumos de água directo e indirecto (via combate a incêndios), se deve continuar a tolerar altos níveis de poluição, se faz sentido manter em marcha lenta a evolução do nível de eficiência energética nacional, bem como se não chegou a altura de redefinir a política de (des)incentivos à produção agrícola procurando promover a produção sustentável de alimentos saudáveis.

Para demonstrar ao mundo o seu empenho no combate à emissão de CO2, principal motor das alterações climáticas, Portugal deveria também acelerar a sua transição para uma economia o mais verde e circular possível. Até porque além da seca outro dos efeitos das alterações climáticas será a subida considerável do nível do mar. Situação que afectará Portugal em toda a sua costa, no que será uma enorme machadada no tão importante turismo.

E aqui surgem eventos contraditórios. Não há muito tempo foi travada, e bem, uma aventura petrolífera Algarvia, do nada surge agora uma acelerada aventura Alentejana. Ambas são ameaça ambiental idêntica em zona geográfica distinta, apenas com rentabilidade garantida para corporações, com vantagens duvidosas para a nação. O anular de apenas uma delas levanta a questão se o motivo terá realmente sido a defesa dos interesses de Portugal ou simplesmente o facto de ter execução entregue a corporações que não estão nas boas graças da governação.

Seja como fôr estamos num momento decisivo. A posição que Portugal assumir neste momento definirá não só o seu retrato ambiental como também a sua margem diplomática para negociações sobre recursos naturais partilhados. Portugal terá de escolher se se quer assumir como um admirável percursor de novas estratégias de eco-desenvolvimento, disposto a dar o tudo por tudo para arrepiar caminho, adiar ao máximo a chegada de grandes tormentas, ou se quer, de forma camuflada, limitar-se a reagir aos problemas vindouros, explorando ao máximo o sistema económico vigente, esgotando de forma predatória os seus próprios recursos naturais a qualquer custo, impulsionando uma economia extractiva global altamente poluidora, apenas para garantir um presente política, social e economicamente confortável.

Até ver parecemos caminhar rumo ao segundo cenário, enrolados numa emaranhada teia político-corporativa pouco preocupada com os sacrifícios e hipotecas irrecuperáveis a realizar para garantir lucros chorudos.

Espero que ainda vamos a tempo de acordar para estes temas, que venhamos a ser tão vigorosos a expressar a revolta face a este rumo como o fazem muitos dos estrangeiros radicados em terras Algarvias e Alentejanas. Parece que mesmo não sendo de cá sabem melhor do que nós compreender a projectada finitude dos nossos delicados tesouros naturais.

nao-petroleo

Silly Reason

Meus amigos, temo que a perdida tradição da “silly season” venha progressivamente a ser substituída por uma nova época, a da “silly reason”.

Cada vez mais os acontecimentos sucedem-se sem tréguas, talvez desregulados pela indefinição climática que desconstrói a outrora estável e acolhedora estação do Verão. Inesperadamente, na preparação ou mesmo em plenas férias, há situações graves a acontecer a todo o momento, a concentrar atenções do público, a exigir prontas reacções de governo, entidades e oposição. E quem paga por isto? A razão. A pressa de justificar, relativizar, retirar do radar mediático, leva ao atropelo da razão absoluta por manadas de razões desorientadas, vindas dos atalhos por onde deambulam fragmentadas, espantadas por precários caçadores de meias-verdades.

Também eu gostaria muito de encontrar A razão de cada acontecimento. Para contribuir na sua busca deixo algumas questões pisteiras. Haja faro e bom-senso!

O que tem maior validade? Uma análise demorada, científica, detalhada, do alto volume de informação recolhida, ou uma conclusão de uma investigação policial apressada, sob pressão mediática, ainda durante o decorrer do acontecimento? Poderia a segunda conclusão ser garantida sem a prévia consideração da primeira?

O que surgiu primeiro? A necessidade de guardar armamento ou a tecnologia dos sistemas de vídeo-vigilância?

Uma esquerda que consente cativações, sem exigir o seu detalhe, pode agora descartar-se de responsabilidades? Quando se assina um acordo vinculativo não é costume a definição detalhada de limites e condições a fim de evitar passar cheques em branco?

Numa época em que se batem todos os recordes (menor défice, maior tributação fiscal per capita, maior volume de cativações orçamentais) será desta que veremos uma descida acentuada da dívida pública?

Apesar da reversão de cortes salariais directos, o bater do recorde da colecta fiscal será indicação de que estaremos realmente a ser alvo de uma austeridade encapotada? Tal como afirma o maior especialista nacional do tema? Se quem quis ir além da Troika agora reclama que este governo corta em demasia quererá isto dizer que já estamos além do além da Troika?

Quando motivos éticos não justificam demissões na hora de ministros e secretários de estado, que depois obtém essa justificação tardia por via judicial, será chegado o momento de redefinição da ética em si? Ou bastaria acelerar a justiça?

Por ventura foram alargados os deveres do Presidente da República obrigando-o a ser o relações públicas do governo em funções? Deverá neste mandato ser ele a principal face de todos os acontecimentos? Cabe-lhe agora fazer as primeiras, as intermédias, as últimas declarações? Sempre apaziguadoras ao estilo “Não passa nada”, “Está tudo sob controlo”, “Vamos apurar responsabilidades e melhorar”?

O estranho é que algumas destas questões parecem responder-se a elas próprias, não deixando de ser curioso existirem tantas confusões para chegar à razão evidente. Estaremos a ser governados por tolos que se deixam enganar por razões tontas? Ou por sábios que nos tomam por tolos?