Author Archives: Nuno Faria

O estreitar do poder

Numa jogada magistral eis que a invasão de Ceuta exponencia a fricção pública entre esquerdistas e direitistas, alimentando o ódio mútuo que cada vez mais alarga o fosso que os separa. Cada facção empodera-se a si própria com o reforço crescente da sua razão incontestável. Na realidade ambos são ludibriados pela sua inteligência, de espectro reduzido, deixando-se manipular devido à sua ignorância sobre o mais abrangente. Inteligência é útil mas está longe de equivaler à sabedoria. O que se passou em Ceuta não foi nada do que qualquer um dos lados alega mas sim algo muito mais complexo que é aflorado neste vídeo. Se tens a certeza de que foi um simples caso de crise humanitária, onde o que deve ser debatido é a abertura para os receber ou não, por favor permite-te exposição a enredos geo-políticos de alto nível.

Mais do que chover no molhado, opinando sobre o que já está mais do que abordado sob múltiplos pontos de vista, irei neste post destacar o que tem acontecido nos últimos tempos e que pode muito bem estar correlacionado.

  • 2014: Rússia invade Crimeia passando a deter controlo do estreito de Kerch, foi a semente para a situação de guerra hoje vivida.
  • 2025: USA exigem o fim da influência chinesa no canal do Panamá e maior controlo sobre a actividade marítima nessa rota.
  • 2026.02: USA atacam Irão e tentam assumir o controlo do estreito de Ormuz, ensaindo várias estratégias para o seu financiamento por parte dos utentes dessa rota marítima. Ao mesmo tempo causam enorme disrupção, ou mesmo adiamento, do projecto chinês de estabelecimento de uma nova rota da seda, independente do transporte marítimo.
  • 2026.06: USA reforçam influência sobre gestão do estreito de Malaca ao firmar parceria com Indonésia. (que se junta às já existentes com Tailândia, Singapura e Malásia)
  • 2026.07: Marrocos usa a fachada de uma vaga migrante para exercer pressão de encontro à recuperação de território ocupado por Espanha (Ceuta e Melilla), duas cidades do Norte de África (não no continente Europeu) fundamentais para o controlo do estreito de Gibraltar. Marrocos é um aliado preferencial de USA e Israel.
  • 2026.08: Trump afirma que até ao final do mandato a gestão da Gronolândia será tranferida para os USA. Curiosamente dentro da esfera de influência da Gronolândia está o importante estreito da Dinamarca.

Como se pode ver, apesar das narrativas de promoção de direitos humanos, democracia, travar o comunismo, etc, o que se efectiva é uma tentativa de domínio absoluto dos principais pontos de navegação marítima. Se executado como planeado significa o enorme alavancar na influência geo-política, impacto nas economias de transporte e negociações comerciais.

Isto é o que verdadeiramente se está a passar. A tentativa de um poder dominante prolongar a sua hegemonia, causando forte disrupção em todos os concorrentes, doa quem doer. Servindo-se de peões inocentes, criando ignorantes úteis em ambos os pólos para que se desgastem infantilmente numa luta fraterna, ao invés de como os graúdos que são, investirem o seu tempo e energia para perceber e tentar travar as nefastas transformações que estão a ser impostas ao mundo.

Não faço a mínima ideia de como se travam acontecimentos desta magnitude mas comecemos pelo básico, abramos os olhos e encontremo-nos no caminho do meio.

Crowd of protesters holding signs for and against migration separated by police near harbor with naval ships

Da resistência ao terrorismo basta um título de jornal

Façamos um exercício de conexão para com o impacto local destas iniciativas de interesse nacional, a nível de transformação da paisagem, extracção, uso e abuso de recursos naturais, impacto no quotidiano diário das populações dentro da esfera de influência das novas instalações e actividades.

  1. O novo data center de Sines irá consumir o equivalente a 20% da electricidade em Portugal e criará milhares de postos de trabalho directos e indirectos.
  2. A Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) irá expandir com projetos de hidrogénio verde, amónia verde, energia solar e produção de baterias de lítio, originando o abate de milhares de árvores. Ao mesmo tempo irá reforçar-se a distribuição da rede energética de e para este ponto de alta actividade industrial, com mais um milhar de árvores a abater.
  3. Logo ali ao lado também a região de Santiago do Cacém se junta ao novo festim energético com implantação de parques solares a ocupar mais de mil hectares obrigando ao abate de mais de um milhão de árvores.
  4. Pondo de lado o necessário sacrifício de fauna e flora, com mais de 500 animais selvagens de grande porte chacinados a tiro, também orgulhosamente se impõe a ecológica instalação solar da Torre Bela que descaracterizou completamente uma tapada de 1000 hectares onde 400 foram entregues aos painéis.
  5. O sucesso é tal que aceleram as iniciativas para agilizar a instalação de mais uns milhares de hectares de parques solares e eólicos, através de consulta pública para “aprovação silenciosa” de eligibilidade de mais terras para estes fins.
  6. Mais a norte outro tipo de progresso está em curso, depois da prospecção agressiva para estudo. está confirmada a viabilidade e riqueza de lítio em Boticas, Covas do Barroso, são 20 milhões de toneladas de minério a extrair, 500 postos de trabalho durante 14 anos de vida útil.
  7. (tantas outras podiam ser listadas, peço-vos ajuda a completarem nos comentários com as que vos provocam dor na alma)

Quando necessário servidões administrativas e expropriações permitiram o atropelo de proprietários, em prol do desenvolvimento do país. As máquinas e trabalham avançam de forma imparável e legalmente blindadas. Imaginemos estar no meio ou orla destes acontecimentos. O que sentíriamos, o que defenderíamos o que teríamos ganas de fazer?

O processo será sempre muito similar, primeiro a incredulidade para com o que se está a desencadear, a primeira reacção dentro da esfera legal com a abertura de providências cautelares que travem a catástrofe, a tentativa de mobilização da sociedade local e nacional, depois chega a frustração gerada por de pareceres jurídicos ou decisões governamentais que anulam o efeito imediato das providências, a constatação de que a força digital em pouco ou nada se manifesta na realidade local, por fim chega o desalento de não ter os meios e tempo necessário para um combate judicial significativo e com resultados práticos.

Há os que por fadiga desistem, abandonando causa e local, há os que por condicionantes se conformam, adaptando-se à nova realidade local, e outros passa a processar uma contínua amargura e raiva, tentando evitar desencadear acções das quais se possam arrepender. Pois agir neste contexto, mais do que resistir em defesa do que consideram justo e precioso, será interpretado, aos olhos da lei, com um hediondo acto terrorista e criminoso. O termo “terrorismo” foi definido de forma suficientemente abrangente para poder ser aplicado independentemente do contexto, causa e consequência, derivando para várias nuances, existindo a particular do ecoterrorista, alguém que ousa aplicar a equidade no uso da força em defesa de ecologia e ambiente.

Curiosamente olhando para a definição do termo podemos facilmente afirmar que existe terrorismo subjacente

  • à forma como canetas em gabinetes fechados, situados na malha urbana, emitem despachos para a destruição de largas porções de território, começando aqui um terrorismo psicológico via decretos que irão mudar substancialmente partes do território e seus modos de vida geracionais;
  • ao uso de grupos de segurança privados e grandes máquinas para entrar dentro de terrenos privados destruindo muros, árvores e tudo o mais que esteja no caminho;
  • aos grandes incêndios que coincidentemente assolam as áreas a desflorestar algum tempo antes do início dos trabalhos;
  • ao ignorar dos alertas e apelos de autarcas e populações locais sobre os efeitos nefastos dos projectos planeados/executados;
  • à ausência ou descaso de estudos de impacto ambiental pormenorizados que demonstrem os efeitos negativos dos projectos sobre os ecossistemas afectados;
  • ao vender da nossa beleza e património natural a interesses económicos de curto a médio prazo de forma praticamente irremediável;

Neste contexto não existem mecanismos legais para acusar o estado de terrorismo na manipulação da população com fins políticos, económicos ou ideológicos, estando este legitimado para exercício da violência física ao nosso território sob pretexto de progresso e desenvolvimento.

Em momentos como estes resta-nos buscar a inspiração de eventos passados. Onde acima dos artifícios legais e retórica moral, vinga o senso comum e a lei natural de direito ao bem-estar. Neste modelo acção com reacção se responde, empoderados pela justiça, bem comum e amor ao seu lar. Em união, em resiliênca, em consequência.

1989, Vale do Lila, centenas de pessoas uniram-se e DESTRUIRAM 200 hectares de plantação de eucalipto. Mesmo face a 200 agentes da GNR, não vacilaram. Expulsaram a Soporcel que decidiu não valer a pena a luta. Hoje estão rodeados de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho.

Se resistentes ou ecoterroristas os artigos mediáticos que os cataloguem em função da sua agenda, pois à vista desarmada simplesmente foram um povo a em legitima defesa dos seus interesses. A sabedoria, coragem e força para a imposição da fronteira do aceitável é algo que só descobrimos ter ou não ter quando o destino nos coloca face a face com uma situação desta gravidade e magnitude. Que a lucidez nos conduza à salvação e ao travar da expansão desenfreada em detrimento da (re)florestação.

Solar panel array beside a highway with construction site in foreground

Literacia tecnocrata em fase de transição

Curioso momento este que atravessamos, em que a igreja se vê na obrigação de redigir uma extensa CARTA ENCÍCLICA MAGNIFICA HUMANITAS DO SANTO PADRE LEÃO XIV SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL onde ressalva num extenso documento, todas as suas preocupações para com o impacto moral, espiritual, social e económico da inteligência artificial (IA) sobre a humanidade.

É inegável que a sociedade está a ser impactada rapidamente de forma silencionsa. Nos últimos anos a dinâmica online transformou-se significativamente. Hoje em dia pelo menos 50% dos novos conteúdos online são gerados por IA e quanto ao consumo de conteúdos existe mais actividade por parte de agentes autónomos inteligentes do que por humanos. Os conteúdos capturam a atenção humana, influenciando a sua percepção e opinião sobre variados temas. Pelo que claramente caminhamos de encontro à distópica teoria da internet morta.

A nível de empregos curiosamente ocorre uma primeira onda de despedimentos massivo de programadores, já que estas ferramentas vieram aumentar a produtividade de quem as domina. O mundo do IT já não oferece as oportunidades de outrora e é comum haver profissionais desta área há meses à procura de emprego, algo impensável há uns anos atrás. Outros sectores estão com maior latência na dimensão mas a vaga de novas oportunidades de trabalho remoto, para reforço do treino multi-disciplinar de modelos de IA, é clara no caminho que está a ser feito para alargar a eficácia e fiabilidade destes modelos de inteligência.

Ao mesmo tempo grandes avanços estão a ser feitos na robótica. Várias empresas contam produzir milhões de robots na próxima década, os quais serão veículos perfeitos para IA generalista ou especializada. Vemos hoje a construção desenfreada de infra-estrutura energética e para centros de dados (computação) que visam sobretudo possibilitar a expansão de serviços digitais e físicos baseados em IA. A própria revolução militar nas novas guerras o está a impulsionar.

Tudo isto parece apenas mais uma etapa evolutiva da nossa civilização, tal como os motores a combustão vieram transformar fábricas e campos, como a electricidade mudou cidades e serviços, como os computadores revolucionaram as tarefas contabílisticas e administrativas, etc. Contudo existem factores tecnológicos, humanos e sociais que irão fazer com que desta vez tudo seja diferente.

Ao contrário das anteriores revoluções, onde infra-estruturas ou equipamentos tinham de ser produzidos e instalados, requerendo primeiro instaladores e depois operadores a tempo inteiro, as novas capacidades dos serviços digitais estarão disponíveis de um dia para o outro, acessíveis a todos num curto espaço de tempo. A latência desta vez está no tempo de evolução das funcionalidades, não na sua distribuição e adopção abrangentes. Assim que uma nova funcionalidade esteja disponível, as empresas poderão transformar-se em semanas ou meses, gerando ondas de despedimentos de pessoas com as mesmas competências a uma velocidade muito maior do que a capacidade de absorção pelo mercado de trabalho. A pressão sobre a segurança social será enorme, ao nível da frustração humana por esta rápida substituição.

Certamente não será totalmente pacífica. Imaginem por exemplo todo um sector de camionistas, taxistas e condutores de uber a ficarem sem actividade num curto prazo porque a condução autónoma é finalmente aprovada. Parece exagero? Veja-se uma simples empresa que todos conhecemos, a Amazon, a planear substituir 75% dos seus empregados, mais de meio milhão, por robots que tratarão de quase toda a logística em armazens. E isto nos próximos 10 anos.

Amadurece cada vez mais a ideia de um rendimento básico universal. que no fundo distribuiria a riqueza, gerada pela automação, por toda a população de forma equitativa. No entanto isto geraria uma profunda alteração da dinâmica social, com uma população a ter de aprender a gerir ócio e lazer a tempo inteiro. Num extremo teríamos a dedicação a aspectos filosóficos e ideológicos, no outro o poder entregar-se em pleno aos pequenos “prazeres” da vida num hedonismo contínuo. Teremos maturidade suficiente para aproveitar o tempo para desenvolvimento pessoal e/ou trabalho colectivo voluntário em prol do bem comum? Ou entraremos em conflito e atrito constantes, originando novos focos de tensão e fragmentação da sociedade?

Neste cenário um sistema de crédito social é inevitável, assim como mecanismos de controlo de acesso e consumo. Haverá que penalizar quem desrespeite as novas normas, terá de se impedir a lotação esgotada de espaços apetecíveis, garantindo que todos os possam aceder periodicamente, terá de evitar-se o açambarcamento e o consumo excessivo de certos produtos, pois apesar de aparente infinito poder económico, existe finitude na produção e nos recursos disponíveis no planeta.

A imersão digital numa realidade virtual será também um meio de atenuar o aparecimento de problemas. Se todos estiverem a maior parte do tempo felizes e contidos espacialmente fica muito mais fácil de gerir a nova humanidade. Até porque convém que não se apercebam do atentado ecológico em seu redor, que garante a energia, computação e produção, basilares para a admirável nova tecnocracia. Pelo que talvez devamos passar a olhar agradecidos para a quantidade de gente que não desgruda dos ecrãs. É um sinal de que o futuro está a ser devidamente preparado para uma pacífica existência civilizada.

Futuristic city with illuminated skyscrapers, flying drones, and smart technology displays

Sensações e controlo climático

Um evento climático extremo é um fenómeno meteorológico ou climático, que se afasta significativamente da média histórica e atinge limites extremos na distribuição estatística (frequentemente ocorrendo apenas em 5% ou menos do tempo).

Cientificamente é uma anormalidade normal. Mediaticamente é o culminar da acção do homem, a consolidação do aquecimento global em curso, perigo extremo, causa de mortandande.

Para quem acompanhe notícias generalistas o tema do Super El Niño, com efeitos como os que estamos agora a sentir, já era debatido o ano passado. Super El Niños são fenómenos raros, com apenas uma mão cheia de ocorrências devidamente documentadas, e tipicamente conduzem ao quebrar de máximos de temperaturas registadas.

É relevante ter em conta que o registo científico de temperaturas no território continental é relativamente recente, veja-se abaixo um quadro de artigo no Público em 2022, onde se demonstra que a data mais baixa de início de registo contínuo de temperaturas é 1941 (em Coimbra e Beja), sendo que a maior parte teve início a partir dos anos 80. Num planeta com milhões de anos, numa nação com mais de 800 anos de história, temos apenas décadas de informação científica fiável para servir de base de comparação.

Nas TVs reina novamente o alarmismo puro, o não saia de casa a não ser que seja mesmo preciso, o fecho preventivo de espaços de lazer, a anulação de eventos ao ar livre, configurando-se uma suave indução ao confinamento climático com hábil narrativa de salvaguarda do bem-estar geral. Como gostam de nos ter em casa sossegados entregues às vicissitudes multimedia numa bela, dócil e crente egrégora.

Usa-se infografia trabalhada para, sem mentir, manipular a percepção geral de que a Europa está a arder e a roçar limites da inabitabilidade. Passam-se imagens e partilhas do que se vive nos pontos críticos, extrapolando-o como se fosse o vívido em todo o território.

E para climax final usa-se o número das mortes excessivas atribuídas ao calor. Diz-se que talvez vinte mil óbitos causados pela onda de calor na Europa. Ora estes números normalmente são calculados também através de desvios ocorridos no período, face à média dos anos passados. O que quer dizer que realmente algo terá acontecido para que a população seja mais afectada por anomalias climáticas, correlação não é causalidade. Pergunto-me se não existirá a possibilidade de que algo tenha degradado os naturais mecanismos de defesa e regulação do corpo humano, ao ponto de já não aguentar lidar com estas flutuações temporárias e simplesmente colapsar. Um estudo sério deveria ser feito sobre os óbitos para agrupamento de mortes em grupos similares de condições de saúdee hábitos de vida, a fim de verificar o que se passa e melhor prevenir futuras situações.

A nível político preparam-se os programas e investimentos para mitigar futuras ondas de calor. Será uma alavanca importante para canalizar fundos e mundos para novos sectores industriais e infra-estruturas com total aceitação das populações afectadas e desorientadas pelo impacto. Tal é a importância de informar as pessoas que instituições internacionais como o World Economic Forum investem forte na difusão de toda esta preocupação e resolução. É importante que todos reconheçam o problema e soluções apresentadas por si.

Apagada a TV, largado o computador, resta o mundo real. Lides que precisam ser feitas, com ou sem suor. Depois de se sentir o bafo o corpo ajusta-se, ajudado por uma mente forte e resoluta. Vivo no mundo rural, vejo e converso com agricultores de 80 anos que passaram uma vida inteira a labutar de sol a sol, ainda o fazendo hoje, mesmo nestes dias de calor “extremo”. Partilham histórias da sua juventude, de dias esporádicos ainda piores em termos de calor, de como mesmo no Verão faziam fogueiras no chão para cozinhar quando embrenhados em herdades a tirar cortiça ou lidar com o gado. O controlo e cuidado com o fogo era senso comum e sem burocracias iam-se limpando terrenos. Não têm memória de haver tantos fogos como nos últimos tempos. Não têm receio do que o dia oferece, adaptam-se, sendo sábios em resguardar-se e proteger o que é seu e de todos.

A principal diferença? Regem-se pelos elementos, pela sua experiência, intuição e observação. Ouvem mas retrucam e ignoram o que não joga a bota com a perdigota. E com isso vivem felizes e contentes, inspirando quem com eles se cruza a não se deixar condicionar por imposição de interpretações externas da realidade observada.

Resumindo este vai ser um ano fora dos padrões climatéricos normais a nível mundial, com agravamento no resto do ano, não estando a existir honestidade na narrativa mediática sobre a causa dos efeitos sentidos. Estejamos atentos para exageros e abusos de autoridade no controlo da percepção pública e condicionamento de comportamentos e movimentos. Prescindamos da falsa condescedência e exijamos honestidade intelectual por parte dos meios de comunicação e governantes.

Family of four sitting in a cozy living room with a large window showing farmers working in a green field

Reflexão pedagógica sobre as Marchas Populares de Lisboa

Calhou de assistir na TV ao arranque do desfile na Avenida da Liberdade das marchas populares deste ano. Antes do começo do evento os anfitriões gabavam-se do alto nível do espectáculo, do seu impacto positivo e capacidade de atracção de turismo. As primeiras exibições foram de escolas primárias e secundárias, depois vieram algumas marchas em competição e fiquei consternado com o que vi inicialmente.

Nada a apontar ao coração do evento, as várias marchas em competição onde adultos e adolescentes polidos, preparados, ensaiados, cumpriram com aquelas que são as expectativas para o evento. Pode gostar-se ou desgostar-se do estilo mas penso que não desiludiu o formato, no seu conjunto de estética, coreografia sonoridade, cumpriu o seu papel de manter viva, popular e turística esta tradição.

Mas o que me fez muita comichão foram as marchas escolares que abriram o desfile com baixíssimo nível, como se a exibição fosse uma simples ordem de soltura e seja o que for que aconteça estará sempre maravilhoso e propenso a elogios incondicionais. Falta de sincronia, falta de afinação, ausência de magia e talento. Apesar de alguma vergonha alheia está tudo bem, são crianças, é um momento simbólico, e o popular tem conotação com expressões artísticas pouco polidas, mais baseadas em sentimento e atmosfera do que perfeição artística. No entanto, para quem tenha contacto com eventos similares realizados por outras culturas, nota-se uma enorme diferença no empenho e desempenho das novas gerações, mais focadas, briosas, em executar performances perto da perfeição. Interpreto isto como um sinal dos valores que passamos aos mais novos, de que apesar de momento tão marcante, com alta visibilidade e representatividade de uma cultura, não são precisos preocupação nem trabalho para uma entrega inesquecível à altura do evento. O suficiente menos é maquilhado na comunicação social e institucional para um muito bom, baixando os critérios e apreciação da verdadeira excelência. E isso é receita certa para a atrofia do desenvolvimento do potencial existente em cada criança e jovem, por arrasto do futuro de Portugal.

A culpa não é das crianças e jovens mas de quem tem a responsabilidade de os preparar e incutir-lhes uma mentalidade de entrega e superação. Por cá aparentemente ainda existem alguns temas a resolver na equidade da acessibilidade ao ensino superior mas lá fora existem grandes preocupações emergentes com a degradação nas capacidades de leitura e realização de cálculos matemáticos. A origem do problema é a mesma, o facilitismo, seja por diminuir critérios de exigência/avaliação para diminuir “traumas” e custos de reprovações, seja por estimular o uso das poderosas ferramentas digitais hoje existentes transferindo a aprendizagem do conteúdo para a aprendizagem do uso de ferramentas de apoio que produzem os resultados expectáveis e sujeitos à avaliação.

Parecem situações desconexas, uma simples curta prestação nas marchas de Lisboa e o longo caminho escolar para a maioridade e integração do mercado laboral. Infelizmente interpreto-o como um sinal de que a banalidade está tão aceite e instalada que já nem é barrada à exposição massiva, antes pelo contrário, sendo assumida e transmutada em algo distinto e virtuoso por via do politicamente correcto.

Oxalá esteja errado e em simples exagero de reacção.

Children in traditional Portuguese costumes walking in a festive street parade with onlookers cheering

O domíno do medo e coragem

Apesar do medo de nascer, nascemos, num caos de dor, lágrimas, suor e sangue.

Apesar do medo do desconhecido, crescemos, experimentando todas a sensações sensoriais e emocionais.

Por medo de ficarmos sozinhos, encarneiramos ideologias ou mantemos relações que em nada nos beneficiam.

Por medo de não encontrar um emprego melhor, desgastamo-nos em drenos diários de corpo e alma.

Por medo de consequências pessoais, não nos envolvemos em injustiças globais ou alheias.

Por medo de uma doença conhecida, entregamo-nos a curas desconhecidas.

Por medo de um hipotético confronto de igual para igual, tomamos a iniciativa de combate preventivo a adversários ainda débeis.

Apesar do medo de morrer, morreremos, sabe-se lá como.

A vida empurra-nos incodicionalmente para a coragem nos ritos de passagem obrigatória (ou quase), que nos são impostos por massivas externalidades. O parto, a locomoção motora, o ficar só, o enfrentar do mar, o iniciar do ciclo de ensino, o óbito de quem nos é próximo, acidentes graves, condições crónicas, o aproximar da própria morte. Nestes momentos existe uma grande clareza: ou surge a coragem de seguir em frente ou a atrofia é garantida. Mesmo na morte convém partirmos fortes e em paz, mais não seja para facilitar a vida aos vivos.

Fora deste espectro de acontecimentos a batalha entre o medo e a coragem torna-se mais feroz. O medo é aliciante, oferece o conforto, inevitabalidade e aceitação do status quo. A coragem desassossega, comicha a acção emergente do âmago do nosso ser que procura exprimir-se e agir. O medo preserva o espaço, a coragem salta para o vazio por repulsa a esse mesmo espaço.

Curiosamente a acção resultante do medo é projectada no mundo real, normalmente levando ao reforço das condições que o geram. O medo dominante tanto pode conduzir à apatia como se pode servir da coragem para agir de forma irracional e impulsiva, com consequências imprevisíveis. Já na coragem o que primeiro muda é pessoal, a atitude, a consciência, o pensamento, sendo o principal intuito o sair da zona de influência do medo. A coragem não procura destruir a origem mas sim o medo em si, o resto advirá por si mesmo numa acção tranquila e assertiva.

Num mundo que promove o medo institivo para manipular a construção e direcção da coragem, é importante erguermos defesas informadas, a fim de manifestar uma coragem moralmente firme e impoluta.

A golden-armored warrior with a flaming sword and shield fights a dark skeletal monster with glowing purple eyes on icy terrain.

O bom, o mau e vilão

Depois da noite passada de entrega de Óscares julgo que se pode de imediato antecipar o vencedor incontestável da edição do próximo ano. Está em exibição internacional uma insuperável longa metragem, repleta de complexidade, humor, terror, drama, animação por IA, fantasia e surrealismo, que irá certamente arrebatar todas as categorias de prémios. Correndo o risco de ser spoiler deixo aqui o resumo e crónica do seu argumento.

Era uma vez um vilão que conspirava para ter os meios necessários para a destruição de uma nação vizinha. Essa nação, de grande poderio militar e excepcionais serviços de inteligência, fez queixinhas ao seu mais querido aliado, seduzindo-o para um ataque preventivo que impedisse o vilão de se empoderar para níveis ameaçadores.

O aliado mostrou-se surpreso, afinal há menos de um ano tinham anuido a semelhante acção, tendo pomposamente anunciado ao mundo que 12 dias foram suficientes para obliterar as infra-estruturas necessárias para execução dos maléficos planos do vilão. Além da surpresa mostrou renitência, afinal estavam a decorrer negociações com o vilão que na última sessão demonstrou abertura a abandonar parte dos seus planos e repensar a sua atitude.

Contudo, a nação com forte sentimento de ameaça iminente mostrou-se intrasigente, exigindo nova acção militar que lhe permitisse voltar a sentir-se segura. O aliado respirou fundo e, talvez por um pacto de sangue ou por simples amarração de amor, pôs a máquina de guerra a trabalhar num traiçoeiro “Shock and awe”.

O vilão encaixou. O seu líder martirizou e galvanizou. A estrutura remanescente retaliou. Na resposta atacou bases e interesses do aliado em 15 países diferentes e ainda visou a nação temerosa como esta nunca tinha sido atingida. Pior, exerceu a sua soberania territorial para proibir a circulação no estreito comercial energético mais movimentado do mundo. Para cada ataque sofrido, retaliação à medida ,visando o mesmo tipo de alvos demonstrando que tem poderio e capacidade para fazer o que quer quando quer. O vilão não está a escalar a guerra mas sim a responder à escalada a que é submetido. Isso deixa a nação virtuosa e seu aliado numa alhada porque cabe-lhes a eles o complicar ou facilitar desta guerra. Cada sua jogada define a próxima de forma bastante previsível.

Felizmente o aliado tinha-se precavido, apenas umas semanas antes reconstruira amizade com uma outra nação próxima, que facilmente lhe providencia o necessário abastecimento energético. Os efeitos colaterais apenas se sentem no resto do mundo, sendo que, na sua óptica, todos concordam que uma guerra virtuosa justifica uma vivência sofrida e penosa. Irritantemente descobriu que a sua visão não é corroborada pelos parceiros de longa data que se recusam a participar na cruzada por si iniciada. Fica assim orgulhosamente só de mão dada com a sua nação amada, para o que der e vier.

Esta história permite tirar três ilacções. Uma é a de que o vilão sempre teve poderio suficiente para obliterar quem quer que fosse na sua região, nunca o tendo exercido, o que demonstra que talvez seja mais pacífico do que aquilo que nos querem fazer transparecer. A segunda é a de que a nação, de pronome “santa”, não hesitou em destabilizar e arruinar toda a região estando preparada e quiçá ansiosa por ter um motivo para personificar Sansão. A última é o facto do poderoso aliado mostrar a sua face de total subserviência às vontades e caprichos da “frágil” nação, talvez também por forte necessidade de desvio de atenção.

Certamente haverá anjos e demónios nesta história dominada por duas correntes teológicas, o mais complicado é descortinar como estão distribuídos já que a dissimulação propagandista é forte em ambos os lados. Uma coisa é clara, o objectivo principal, ou mesmo secundário, não é a vontade de despoletar uma mudança de regime ou libertação de opressão no país vilão. Coisa só possível por vontade e mobilização orgânica da maioria de uma população de 90 milhões de habitantes.

O mais importante a reter é que todo o dominó que se seguiu ao início da guerra é facilmente simulado e previstos em jogos de guerra e de estratégia geo-política. Não há nada a acontecer que não fosse esperado, logo está a ser executado de acordo com plano de reformulação da relação de poderes na região e mundial. Provavelmente os atacantes não esperariam que o vilão fosse tão hábil praticante de judo, sendo capaz de suportar as idas ao tapete e de imediato controlar e redirecionar o movimento dos adversários.

Oportunidade para tira teimas às narrativas sobre imigração

O balanço ainda não foi finalizado e os números relativos ao prejuízos são já abismais. Além da disponibilidade de liquidez, será necessária disponibilidade de mão de obra para execução dos serviços e trabalhos necessários à reconstrução e revitalização das zonas afectas.

Desde o primeiro momento os nossos governantes prontificaram-se a facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros. A ala do Chega imediatamente demonstra o seu incómodo insinuando que a resposta poderia ser dada com trabalhadores nacionais se as condições de trabalho fossem atractivas.

Observo, pondero e parece-me oportuno testar ambas as narrativas pensando um pouco fora da caixa. Teremos já cerca de 1.000 trabalhadores em layoff, recebendo dois treços do salário, garantido pelas empresas com participação temporária do estado. Mais certamente se seguirão, sendo que vários poderão ir directo para a situação de desemprego. Só o Distrito de Leiria tem anualmente uma média 9 a 10 mil pessoas em situação de desemprego. Podemos então considerar para este exercício que só na zona mais afectada existem milhares de trabalhadores potencialmente válidos para ingressar os grupos de trabalho a serem criados.

Proponho então o seguinte: que excepcionalmente quem esteja em layoff, ou situação de desemprego, possa acumular o seu salário parcial ou subsídios, com o salário que receberia ao ingressar nas equipas de reconstrução das áreas afectadas. Isto significa que iriam auferir um salário substancialmente acima do que normalmente é pago na área da construção civíl (e outras necessárias como por exemplo na agricultura), esclarecendo se a baixa propensão dos portugueses em fazer este tipo de trabalho tem realmente a ver com a baixa compensação ou com um estigma ou aversão para com trabalhos em obras ou no sector primário.

Em termos técnicos é exactamente o mesmo, tenho experiência directa com empreiteiros que se queixam de não existir mão de obra qualificada para obras, nem nacional nem estrangeira, pelo que a formação e entropia inicial é uma fase necessária em qualquer dos cenários.

Em termos humanos teríamos também um grande trabalho psicológico e social, pois nada melhor para a saúde mental e realização pessoal do que recuperar as nossas habitações e os espaços comunitários directamente, com as nossas próprias mãos e suor.

Logisticamente falamos de aproveitar o capital humano já existente e instalada na região, sem complicações acrescidas de encontrar alojamento e condições dignas para os trabalhadores.Se necessário, para os que estão sem tecto, alugue-se na íntegra os vários hotéis e alojamentos locais na região até que a situação seja resolvida.

Nada contra a vinda de imigrantes, não deixando de achar rídicula a intervenção imediata do Presidente da República que parecia mais lesto em acelerar esta agenda do que em avaliar com ponderação o cenário e amparar a população afectada, mas gostaria de perceber realmente se não conseguimos proporcionar as condições que em teoria permitam reconstruir com a prata da casa.

Provavelmente a solução será um bom mix dos dois, tenhamos a coragem de tomar medidas excepcionais para situações excepcionais.

O boicote é livre

Os poderes governativos julgam estarmos reféns de aspectos legais e constitucionais. Primeiro-ministo e presidente da república em funções, têm o poder de despoletar os mecanismos legais que permitem um adiamento eleitoral. Optaram conscientemente por não o fazer, alargando o leque de erros cometidos na antecipação e reacção às calamidades ocorridas um pouco por todo o país.

Neste momento temos pessoas desalojadas, ou em condições precárias, agravamento no FDS das condições metereológicas e de crise para grande parte do território, pessoas deslocando-se dos seus concelhos de residência para acudir a família/amigos ou defender propriedades que tenham em zonas de risco, sendo certo o reforço do justificado trauma colectivo que assola o nosso país. Muitos não sabem o que será o dia seguinte e certamente as eleições estão no fundo da sua lista de prioridades.

Um dos candidatos teve a audácia de sugerir o adiamento das eleições e isso tornou-se um momento marcante na definição do estilo de presidência que cada um pode oferecer. Ventura, goste-se ou desgoste-se, teve um acto de bom senso e respeito para com os portugueses afectados. Seguro revelou-se aquilo de que Ventura o acusa. De ser um político táctico, preso aos limites de jogo definidos pelo sistema, remetendo para os árbitros a decisão de adiar, apresentando atabalhoadas soluções de eleições por etapas à medida que os concelhos vão tendo condições para exercicío do direito de voto, caindo no rídiculo de insinuar que pode perder a eleição se esta não acontecer no Domingo, com adesão em massa, e que se isso acontecesse seria um golpe sujo que defraudaria a nação.

Independentemente dos jogos políticos, de forma fria, vejo um candidato supostamente sem hipóteses de ganhar a optar por manifestar empatia e mostrar-se disposto a moldar as regras do jogo para melhor servir a população, outro de vitória garantida a optar por manter-nos dentro dos limites definidos, apelando ao esforço e sacrifício para combater um terrível “inimigo” comum. Seguro perdeu o chão, a cara e a imagem sem que Ventura tenha necessariamente feito a sua conquista para si.

Em 2021 tivemos um pico de 60% de taxa de abstenção nas presidenciais. O nível de abstenção não anula umas eleições mas coloca mais ou menos legitimidade no seu resultado. Uma grande demonstração da vontade e força do povo seria neste momento a desvalorização das eleições através do seu boicote. Essa é uma linguagem política clara que fragiliza quem quer que seja que vença as próximas eleições. Se a data das eleições se mantém inadiável, terei todo o gosto em demonstrar o meu descontentamento à desvalorização dada ao momento que o país atravessa, através de uma clara abstenção solidária.

Há momentos em que para estarmos seguros é necessária uma clara definição de prioridades. Este FDS votar em nada contribui para isso. Relembro que sermos ingovernáveis no momento certo é meio caminho andado para a construção de uma governação justa, competente e de bom-senso.

Para quando a necessária tempestade política?

É impossível ficar indiferente ao nível de destruição e provação a que está neste momento sujeita uma grande parte da nossa população. Portugal não está habituado a tempestades deste nível, o que infelizmente potenciou o impacto. Todos vemos nas notícias o resultado dos ventos ciclónicos. Alguns, como eu, terão tido um contacto mais directo, apesar de distante, com moradores das zonas afectadas e é muito triste sentir o desalento e desorientação em que foram mergulhados.

O trauma humano

Muitas pessoas passaram pela ruína das suas habitações, outras viram-se no meio de um cenário de guerra, onde imediatamente foi sentida a falta de serviços básicos como água, luz, comunicações e abastecimento de combustível e alimentos. Pior do que não saber o que se passa fora da “bolha” física e local que lhes foi imposta, é sentir que nada chega do exterior, como se estivessem ao abandono e esquecimento.

Obviamente a magnitude do evento não permite a resposta global, mas essa racionalidade não é suficiente para fazer esquecer esse sentimento e a constatação de que há momentos em que só podemos contar connosco e com os que estão em nosso redor.

Ao imediatismo da necessidade de sobrevivência, junta-se o fantasma da incerteza quanto ao fim da provação (já que as chuvas torrenciais não param) e ao futuro financeiro e laboral, pelo que é preciso também zelar pela saúde mental nas áreas afectadas, criando as medidas necessárias para o proporcionar.

O real impacto económico

Apesar de as TVs focarem o que se passa na cidade de Coimbra, o território severamente afectado alarga-se no mínimo à maioria dos distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e parte de Castelo Branco (havendo outros distritos afectados consideravelmente).

Falando apenas nos três primeiros estes representam 12% a 15% do PIB nacional, com cerca de 1,3 milhões de habitantes e 750.000 trabalhadores. É indiscutível que o foco deve ser a recuperação e regenaração de comunidades e economia, custe o que custar. Mas vai fazer mossa nos anos vindouros.

Onde estão os planos de prevenção e acção?

No tema das campanhas de sensibilização relativamente a “alterações climáticas” e eventos extremos que irão assolar Portugal a bota não bate com a perdigota. Campanhas mediáticas justicam-nos enormes investimentos para preparar Portugal para o combater e prevenir, mas quando somos alvo de um real evento extremo percebemos que pode ser apenas propaganda.

Falha nas comunicações

Temos um sistema de telecomunicações para emergência e socorro baseado em antenas e fornecimento de energia que pelos vistos está altamente vulnerável, perdendo o pio exactamente nos momentos em que é necessário. Pior, a população perdeu todas as comunicações, a única viabilidade foi sintonizar sinais de rádio, o que foi feito por muita gente. No entanto isso só gerou indignação porque, esperando orientações e actualização sobre o que se passa no terreno, a fórmula era a mesma de sempre: música, entretenimento, notícias generalistas e futebol. Pelos vistos as ferramentas de alienação não têm o mesmo efeito quando foi activado o modo de sobrevivência. O que a população esperava era articulação de acções, ajuntamentos, mensagens de esperança, demonstração de progresso no terreno, o que teve foi uma desvalorização total da sua desgraça e ocupação da única ferramenta de comunicação com conteúdos totalmente inúteis e desenquadrados.

Existem soluções de recurso, por exemplo redes de walkie talkies prontas a distribuir e usar, que permitam ligar as populações próximas e agilizar a sua entre-ajuda evitando deslocações complicadas. Não faz sentido não haver prontidão local para casos de blackout de comunicações e SIRESP.

É preciso desenhar um circuito de informações centralizada que permita comunicar o que se passa dentro das zonas afectadas para o exterior e vice-versa. Para tranquilizar familiares e evitar deslocações em massa por impulso que podem ainda prejudicar mais a situação ao criar pressão acrescida numa zona sem condições.

Falha nas infrastruturas

É compreensível que partes da rede eléctrica, com décadas, estejam assentes em estruturas não preparadas para resistir às forças a que foram submetidas, inclusive há que reconhecer o bom trabalho no restabelecimento desta infraestrutura básica (61 postes de alta tensão foram derrubados). No entanto, há que questionar com muita veemência como é possível instalar telhados e estruturas industriais não preparadas para o que nos dizem vir a ser o cenário futuro do clima em Portugal.

Pior, os recentemente subsidiados painéis solares não resisitaram aos efeitos daquilo para o qual supostamente são uma medida preventiva. Um só exemplo, no parque industrial de Gaia, na Figueira da Foz, a empresa United Resins teve 800 painéis solares completamente destruídos. Em Ferreira do Zêzere, onde 85% das casas sofreram danos, estima-se que centenas de sistemas solares domésticos foram arrancados ou danificados por detritos projectados pelo vento. Posto isto será o solar a solução tendo em conta a sua vulnerabilidade para este tipo de eventos!? Significando que o dia seguinte é blackout garantido?

Falha na preparação

Obviamente as autoridades competentes deveriam estar preparadas para este tipo de cenários. Garantir comunicação a fluir para toda a população, ordenar fluxos de movimentação, organizar grupos de trabalho, etc. No entanto, também cada um de nós deve estar ciente que há momentos em que nos cabe a nós (re)agir. Saber o que fazer, ter mantimentos e combustível armazenados para x dias, estar preparado mentalmente para um cenário de blackout em que temos de nos relacionar e interajudar com a comunidade local. Essa preparação para a adversidade ou a catástrofe faz parte dos países normalmente alvo delas. Por cá os preppers são muitas vezes vistos como pessoas desequilibradas ou pessimistas mas talvez tenhamos de repensar os nossos programas escolares para introduzir tópicos de sobrevivência, resiliência e trabalho de grupo em condições extremas. Muitos vão ter essa aprendizagem agora, pela via mais dura, mas que nos sirva como reflexão para futuro pois é essencial para tornar estes momentos mais serenos.

A lentidão na decisão

Parece que tivemos um ministro lesto em fazer uma produção para as redes sociais, onde transparecia a sua dedicação e esforço, a partir de uma sala de crise constantemente ao telefone, vá lá que no terreno poucos lhe tiveram acesso por falta de electricidade ou comunicações, talvez por isso se tenha safo de um linchamento público, também compreensível nestes momentos.

Na TV assistimos a exaspero e desabafos dos que estão naquela penitência, nas redes sociais isso é ainda mais exarcebado com múltiplos posts de pessoas a partilhar a sua experiência, angústias e consternação. Na política assistimos à tacticidade do costume. Avaliação de estragos, definição de timings, polimento das declarações políticas, patati patata.

Não sei o que precisam para perceber que precisamos de decisões políticas de rajada, de preferência à mesma velocidade dos ventos que nos assolaram. Até ver o governo

  • Activou rede de apoios de emergência com bens de primeira necessidade, alojamento e cuidados de saúde;
  • Acelerou financiamento para recuperação urgente de infrastruturas;
  • Vai providenciar indemnizações às famílias de vítimas mortais ou com lesões incapacitantes;
  • Criou linhas de poio financeiro para recuperação de habitações, parques industriais e agrícolas;

O que é a resposta padrão a quaisquer eventos de calamidade, no entanto, tendo em conta a dimensão dos estragos, diria que o ideal seria

  • Dar condições para quem o desejasse, vivendo nas zonas afectadas ou sendo familiar directo de quem aí habite, pudesse simplesmente pausar a sua actividade laboral, sem perda de emprego, para dedicação total à reconstrução da zona e comunidade. Com custas pagas pelo estado ou suspensão de responsabilidades relacionadas com empréstimos. Dar tempo e espaço ao refazer das vidas.
  • Garantir a resposta necessária a todos os trabalhos de reconstrução que vão ser precisos. Será preciso deslocar empreiteiros? Usar a população local para fazer esses trabalhos? O sector da construção já é por natureza lento na resposta à procura, pelo que algo é necessário para acelerar.
  • Ser implacável com quem comete pilhagens e roubos, seja directamente no terreno ou online com falsas campanhas de angariação de fundos.
  • Até plena regularização de comunicações utilizar os canais de comunicação activos para maioritariamente comunicar sobre o que se passa no terreno, inclusive tempos de espera em bombas e supermercados disponíveis.

Isto foi o que me saiu a quente, aquele território precisa de tempo, foco e tranquilidade, certamente quem está a viver a situação terá bem mais e melhores sugestões do que quem está a ver de fora. Fica aqui o convite para o deixarem patente nos comentários.

Eleições quê?

Finalmente deixo um último pensamento. Se esta situação não estiver resolvida no prazo de uma semana que sentido faz haver umas eleições presidenciais que neste momento foram inclusive relegadas para segundo plano? Além desta população poder correr risco de não poder votar devido às circunstâncias, certamente na sua cabeça a eleição para a presidência é neste momento uma minudência. Respeitando o momento talvez estas devessem ser adiadas. Em último caso, se as entidades oficiais não tiverem essa sensibilidade, porque não uma abstenção solidária para que não se corra o risco de uma parte significativa do país não ter condições para expressar o seu voto?