Category Archives: Ideias para o País

Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!

Não me demito. Câmbio.

15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.

Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o  Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.

Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.

Câmbio

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O impacto da escolha dos carris

Portugal está há muitos meses política, social e jornalisticamente encravado. Engolido  por um furacão temático que o contém, supostamente a salvo, no seu pacífico olho, obrigando-o a dançar ao sabor dos ventos que o circundam, impedindo-lhe o vislumbre do horizonte. Nesses ventos são reciclonados caoticamente os mesmos temas  que perigam à vez o país: incêndios, Tancos, taxa de desemprego, crescimento económico, turismo, greves, dinâmica da geringonça, Marcelo em todas, crise no PSD, We Brand, negociações sindicais, operação Marquês, décimas do deficit, etc, apimentados com umas Trumpalhadas, alarmismos e terrorismos internacionais.

Devido ao toldar de visão este furacão cria uma perigosa ilusão, a de que são estas as questões de fundo essenciais ao futuro do país e do mundo. Estranhamente deixou de se falar da crise dos refugiados, da guerra da Síria, anteriormente tão absorventes, estarão resolvidas? Alguém se lembra da discussão do impacto do CETA/TTIP para Europa e Portugal? Ou é para ser assumido como um facto consumado com que ninguém tem de se preocupar? Será relevante evidenciar que atravessamos um período de seca gravíssimo e que o país precisa de repensar toda a sua gestão de recursos naturais?

Para lá desta barreira temática existem povos, aparentemente não condicionados, que vislumbram bem mais além, ousando tomar medidas disruptoras focadas na construção de um futuro melhor, não necessariamente do ponto de vista económico.

Seria muito bom que Portugal e os portugueses acompanhassem estes movimentos que vão redefinir o mundo a médio-prazo. Claro que para isso teríamos de ter uma população formada e informada, que colocasse o orgulho no seu estilo de vida, no seu impacto positivo no mundo, acima do orgulho desportivo, do comodismo do seu umbigo, uma população que da mesma forma que rejeitaria a nomeação de corruptos comprovados para tesoureiros do seu dinheiro não os elegesse para mandatos políticos renovados, uma população que colocasse o interesse comum acima do seu mesquinho interesse pessoal.

Estou certo que um dia aí chegaremos. Até lá continuaremos a desfrutar da relativa tranquilidade do olho do furacão, fortalecendo-nos num presente que em breve será um passado muito diferente do futuro que se avizinha. Quando terminar a tontura deste constante rodopiar constataremos que talvez devêssemos ter aproveitado todo o esforço despendido não a reentrar nos eixos de que saíramos mas sim a encarrilar em novos rumos, mesmo que economicamente menos favoráveis a curto prazo.

O fim do opinar classista

As questões laborais voltam a estar na ordem do dia. As notícias apontam para o aumento de abusos e precariedade, a eminência de novas greves em sectores públicos, o mediático caso Autoeuropa. O problema basilar continua a ser a delicada  relação entre remuneração vs produtividade vs horários que já abordei no passado remoto.

Sendo uma discussão recorrente existe agora um alto nível de opinar nas redes sociais que só vem demonstrar a fragmentação existente entre as várias classes laborais. Quem exerce actividade no sector debaixo de ataque normalmente tem uma opinião muito distinta daqueles que não entendem os detalhes sectoriais. Para piorar as coisas grandes chavões são utilizados para cavalgar a precariedade e desconhecimento, conduzindo uma forte reprovação social generalizada contra a ‘escandalosa’ luta por melhores condições e direitos. Mais uma vez a aplicação da velha máxima “dividir para reinar”, a uma grande escala, jogando as maioritárias classes espectadoras contra as poucas classes reivindicativas.

Uma vez que será utópico esperar que num curto-prazo o discernimento isento abranja a maior parte da população só vejo uma forma de trazer paz social e justiça laboral a este tipo de negociações, a criação de sindicatos ou ordens sectoriais apartidárias que, em conjunção com governo e patronato, definam as condições basilares de trabalho e remuneração para cada classe de trabalhador e sector económico.

Isto implicaria que cada sector de actividade, coercivamente todos os seus trabalhadores, estariam abrangidos pela área de influência e jurisdição de uma única destas entidades reguladoras, cada uma delas especializada na sua área de actuação. Em consequência seriam extintos múltiplos sindicatos, que actualmente se sobrepõem, bem como deixaria de existir um salário mínimo nacional, existindo antes vários, um por cada classe e sector de actividade.

Com transparência estariam disponíveis para consulta pública os detalhes dos pilares de cada actividade, em termos de formação necessária, direitos e condições de trabalho, progressão na carreira, estatísticas de comparação com outros países, etc. Apesar de transversais ao sector poderiam sempre existir negociações particulares em casos especiais e temporários como o da Autoeuropa.

Desta forma eliminaríamos as hordas de trabalhadores explorados que, após uma análise básica alicerçada na comparação cega de salário bruto e carga horária semanal, se indignam com as exigências de trabalhadores ‘claramente’ em muito melhores condições do que as suas. Passaríamos sim a ter trabalhadores tranquilos, protegidos por grandes estruturas credíveis que, ao entender as particularidades de cada profissão, conseguem proporcionar-lhes um ambiente estável e equilibrado de trabalho, bem como o espaço e tempo adequados ao desfrutar da sua vida pessoal.

Isto não é nada de novo nem inovador. Faz-se nos USA, Suécia, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suiça entre outros.

A mudança de paradigma é simples. Ao invés de termos uma maioria descontente a pretender que os outros sejam nivelados pelo que é a sua referência, baixos ou nenhuns salários, alta carga horária, abusos patronais, teríamos sim um puxar para cima de todos os que se encontram abaixo do nível mínimo de dignidade e respeito.

Seria assim posto fim aos tiros nos pés daqueles que opinam sobre actividades que desconhecem. Que ao fragilizar a posição de quem exige melhor recompensa pela sua dedicação acabam por contribuir para o fortalecer e perpetuar das condições precárias em que eles próprios se encontram.

Até lá patronato e governo agradecem a continuidade desta luta de classes invejosas.

O emprego turístico

Ao olhar para uma taxa de desemprego no nível mais baixo desde Fevereiro de 2009 não sei se fique semi-alegre se fique semi-triste. Isto porque ainda me lembro da inesperada crise económica que se seguiu em 2010-2014 fazendo disparar o desemprego.

Alguns alertam que esta descida da taxa de desemprego é sazonal, relacionada com a necessidade de resposta à época alta do turismo. Assim o parece ser, com este sector ainda não saciado a procurar mais cinco mil trabalhadores só no Algarve.

Seria um orgulho para todos nós que o agora fulcral sector do turismo fosse exemplar nas suas práticas laborais e não um predador das presas fáceis condicionadas ao habitat da precariedade. Infelizmente o contentamento nacional satisfaz-se com o despregar da bandeira do crescimento. É verdade que em 2016 o turismo algarvio proporcionou  um extra-ordinário crescimento de 20% dos lucros, num bolo total perto dos mil milhões de euros! Em contrapartida aumentam os contratos a termo com baixa remuneração.

Bem sei que ainda não há muito tempo existia uma grande crise, até no turismo, o que nos deveria levar a valorizar o ter emprego como uma grande melhoria face à sua recente inexistência. É uma ideia que tem a sua força, até falarmos presencialmente com algarvios, tristonhos, desapontados, derrotados, que apontam este trabalho sazonal, pesado física e psicologicamente, com carga horária exigente, mal pago, como sendo o grilhão que os mantém numa vida perto da simples subsistência, sem margem financeira para meras saídas sociais quanto mais para eles próprios praticarem o turismo noutras zonas de Portugal. São rodas de um perpétuo movimento circular, trabalhar arduamente uns meses, receber um parco subsídio de desemprego nos restantes, sem qualquer estabilidade, sendo ruminados ao sabor dos empregadores.

Aproveitando a saúde e importância do sector o Governo deveria focar-se na empregabilidade do turismo, promovendo a justiça social nas remunerações e condições de trabalho. Imediatamente pôr fim a estágios não remunerados, definir ratios de contratos com e sem termo, promover a criação de salários de base fixa com componente variável indexada à facturação mensal ou à época (baixa/média/alta), criar outras medidas que incentivem e garantam a qualidade dos serviços através de uma maior taxa de retenção, motivação e contínua formação dos profissionais do turismo (a cargo dos empregadores e não dos centros de emprego). O Governo deveria proteger o sector da sua própria ganância já que a desqualificação e desmotivação dos seus colaboradores tem impacto directo na qualidade de um serviço que tanto depende de uma atenciosa relação com o público.

Como português fico bastante incomodado sempre que sou servido por pessoas sem qualquer qualificação para o atendimento ao público ou quando o sou por pessoas qualificadas visivelmente esgotadas a trabalhar nos limites. Fico-o porque sei que podemos dar mais e melhor serviço desde que Gestão de RH signifique Gestão de Recursos Humanos e não Gestão de Resíduos Humanos.

O sector do turismo tem muita margem de melhoria para demonstrar que as pessoas não devem ser o meio para uma economia saudável mas sim que a economia é o meio para o melhorar das condições de vida, bem estar e felicidade das pessoas. Todas as pessoas, não apenas clientes e patronato.

Deveria ser mais do que suficiente que os lucros crescessem apenas 10%, ou mesmo 5%, até que fosse atingida a justiça laboral, sem que os trabalhadores do turismo continuassem a ser também turistas do emprego.

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Portugal eco-friendly ou eco-fucker?

Um estudo recente  aponta para um futuro de secas extremas na península ibérica, que poderá conduzir à fricção na gestão de recursos hídricos partilhados por Portugal e Espanha. Será antecipado o catastrófico cenário de conflitos geopolíticos por disputa de recursos vitais como a água? O passado recente não tem sido abonatório para Portugal, com Espanha a colocar os seus interesses muito à frente dos nossos.

O que pode fazer Portugal? O que está ao seu alcance. Ser ética e ecologicamente exemplar para que não tenha telhados de vidro na altura de ‘atacar’ diplomaticamente a inaceitável posição do país vizinho. Se é a água um recurso partilhado sem o qual não poderemos viver, se o cenário projectado não é promissor, faz todo o sentido que ataquemos o problema analisando como gastamos água, acelerando a inevitável alteração dos hábitos de produção e de consumo rumo a um país inatacável em matéria de eco-sustentabilidade.

Portugal deve ponderar se a longo prazo será vantajoso promover actividades lúdicas sugadoras vorazes de recursos hídricos, se é inteligente manter uma gestão florestal indiferente aos volumes de consumos de água directo e indirecto (via combate a incêndios), se deve continuar a tolerar altos níveis de poluição, se faz sentido manter em marcha lenta a evolução do nível de eficiência energética nacional, bem como se não chegou a altura de redefinir a política de (des)incentivos à produção agrícola procurando promover a produção sustentável de alimentos saudáveis.

Para demonstrar ao mundo o seu empenho no combate à emissão de CO2, principal motor das alterações climáticas, Portugal deveria também acelerar a sua transição para uma economia o mais verde e circular possível. Até porque além da seca outro dos efeitos das alterações climáticas será a subida considerável do nível do mar. Situação que afectará Portugal em toda a sua costa, no que será uma enorme machadada no tão importante turismo.

E aqui surgem eventos contraditórios. Não há muito tempo foi travada, e bem, uma aventura petrolífera Algarvia, do nada surge agora uma acelerada aventura Alentejana. Ambas são ameaça ambiental idêntica em zona geográfica distinta, apenas com rentabilidade garantida para corporações, com vantagens duvidosas para a nação. O anular de apenas uma delas levanta a questão se o motivo terá realmente sido a defesa dos interesses de Portugal ou simplesmente o facto de ter execução entregue a corporações que não estão nas boas graças da governação.

Seja como fôr estamos num momento decisivo. A posição que Portugal assumir neste momento definirá não só o seu retrato ambiental como também a sua margem diplomática para negociações sobre recursos naturais partilhados. Portugal terá de escolher se se quer assumir como um admirável percursor de novas estratégias de eco-desenvolvimento, disposto a dar o tudo por tudo para arrepiar caminho, adiar ao máximo a chegada de grandes tormentas, ou se quer, de forma camuflada, limitar-se a reagir aos problemas vindouros, explorando ao máximo o sistema económico vigente, esgotando de forma predatória os seus próprios recursos naturais a qualquer custo, impulsionando uma economia extractiva global altamente poluidora, apenas para garantir um presente política, social e economicamente confortável.

Até ver parecemos caminhar rumo ao segundo cenário, enrolados numa emaranhada teia político-corporativa pouco preocupada com os sacrifícios e hipotecas irrecuperáveis a realizar para garantir lucros chorudos.

Espero que ainda vamos a tempo de acordar para estes temas, que venhamos a ser tão vigorosos a expressar a revolta face a este rumo como o fazem muitos dos estrangeiros radicados em terras Algarvias e Alentejanas. Parece que mesmo não sendo de cá sabem melhor do que nós compreender a projectada finitude dos nossos delicados tesouros naturais.

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Cerco à Sardinha

Celebrados os feriados dedicados aos Santos Populares, finda a festividade e cumprida a tradição, eis a mais recente demonstração de subjugação da nação. Por cá andamos há mais de 8 séculos, mas aparentemente não nos sabemos governar nem precaver. Felizmente, há quem olhe por nós, há quem nos coloque na linha. Desta feita a sapiência provém de Copenhaga, na Dinamarca, sede do International Council for the Exploration of the Sea (ICES), entidade que aconselha a soberana Comissão Europeia em matérias de pescaria. Segundo o mais recente parecer, parece que estamos a dizimar a espécie cientificamente designada por Sardina pilchardus, vulgo Sardinha. Tal atentado à biodiversidade é perpetrado pela frota portuguesa de pesca de cerco, arte de captura realizada por cerca de 130 pequenas embarcações. Estas terríveis fábricas de destruição, realizam viagens diárias para pescar na vizinhança dos seus portos de origem, fazendo-o até 180 dias por ano, descansando pelo menos 2 dias por semana. Uma inexorável máquina de extermínio.

A indefesa Sardinha, impotente contra a implacável sofisticação destes “navios não-fábrica”, está condenada à extinção. Ao invés de embalado e congelado, imagine-se, o pescado chega a terra fresco! É de uma crueldade atroz. Conclusão? Quinze anos de interdição de pesca! Os ditos cientistas, suportam a sua recomendação em modelos matemáticos e probabilidades. Tudo muito científico…

Contudo, é a própria comunidade científica que reconhece desconhecer as razões para as variações extremas na abundância das pequenas espécies como a Sardinha. Classificado como fenómeno, a variação extrema na abundância destas espécies é uma certeza, mas está por explicar. As relações entre as condições atmosféricas e oceânicas não são claras, nem os mecanismos associados estão identificados, mas há no entanto quem não hesite em invocar a infalibilidade do modelo matemático. Só não é estranho porque é tristemente previsível. Entre nós, a pesca da Sardinha gera perto de 30 milhões de euros por ano, sendo rentável, quer-se extinta. Há muito produto de aquicultura e ultracongelado por importar!

 

Olhos nos olhos

Antes de mais devo dizer que vejo cada vez menos televisão. Noticiários para ser mais específico. No entanto não quer dizer que não seja bombardeado com “informação” através doutros meios de comunicação. Vivemos a era em que a informação é tão abundante que se torna a era de desinformação, se não tivermos o cuidado de a filtrar.

Nos breves minutos de “zapping” há algum tempo que sentia a falta de Medina Carreira na TV. Julguei que tivesse sido afastado como muitos outros, pois na realidade o seu “pessimismo”, pelo qual era conhecido, não o tornava popular. Li um dia alguém a referir-se a Medina como um “senhor que só dizia mal de tudo”.
Devo dizer, que eu próprio quando via a rubrica “olhos nos olhos” com a Judite Sousa, no fim só me apetecia “cortar os pulsos”. E este sentimento devia-se à forma como Medina Carreira falava com números e gráficos, que não deixava espaço para o “ah ele está a inventar”. Duma forma despreocupada, quer colocasse em cheque o Governo, o partido “A” ou “B”.
Poderão alguns apontar que Medina era um dos representantes do sistema bicéfalo que governa Portugal, por já ter sido Ministro das Finanças, ainda antes de eu ter nascido. Mas tal pode ser visto, não como uma cruz que carrega, mas pelo conhecimento que obteve dos meandros da política nacional. Além disso desde há muito tempo que estava afastado de qualquer interesse politico actual ou futuro, o que lhe permitia dizer o que entendesse, agradasse ou não o espectador.
E é precisamente o contrário disto que se vive hoje na gestão de informação dos órgãos de comunicação. Cada entidade (partido, clube de futebol, associação de qualquer tipo), duma forma mais complexa ou simples, gere a informação que quer que chegue às massas. A importância deste departamento invisível, da sua forma de actuação, por vezes pouco ética, é crucial para o sucesso destas entidades.
Colocam-se pessoas a “mastigar” informação, como comentadores “independentes” ou em debates,  conduzindo o espectador a formar uma opinião com pouco esforço cerebral. As suas motivações são organizativas e pessoais, por esta ordem de valor. Mesmo que quisessem ser independentes não conseguiriam, pois provavelmente acabariam por não ter aquele tempo de antena.
O lobby ainda compensa em demasia em Portugal.
Até podemos tentar compreender a abundância do lobismo com base na exploração a que o português foi sujeito, desde os tempos mais remotos da história do nosso país. Mas não podemos aceitar que tenhamos de pertencer a uma organização para nos sentirmos protegidos nos nossos direitos e disso tirarmos benefícios. Quando cada lobby puxa para o seu lado e os governos movem-se conforme os seus próprios lobbys, perde o país, perde o cidadão comum.
Lamento o desaparecimento de Medina Carreira pois são raros aqueles que como ele opinam, não alinhados com o modo vigente do pro ou contra, sem um objectivo pessoal. Ouvi-lo era credibilizar um pouco a informação.
Sim, talvez para alguns pudesse parecer um louco revoltado, mas para mim via bem melhor com um olho fechado e outro semicerrado do que a maioria das pessoas com os dois bem abertos.

Lamento mas não doo

O ciclo repete-se, cenário de tragédia potencial, tragédia efectiva, solidariedade catártica, reconstrução do cenário inicial.

Lamento mas desta vez não doo. À custa da minha reputação social tentarei quebrar o ciclo. Farei-me de sonso. Fingirei acreditar no sistema e nas comunicações oficiais. Confrontarei o sistema com a sua própria ilusão, exigirei dele o que é esperado.

Creio assim que a previsão meteorológica identificou o potencial problema atempadamente tendo sido executados todos os protocolos de prevenção para o que seria uma “tempestade perfeita”.

Confio plenamente que as forças no terreno estavam devidamente articuladas, dotadas de todos os meios de comunicação necessários à evacuação de populações em risco através de rotas seguras.

Fico descansado com o facto das populações em zona de alto risco receberem formação sazonal sobre o que fazer em caso de emergência catastrófica, apesar da hipótese remota desta eventualidade tendo em conta a gestão florestal preventiva e adequada.

Atribuo à ira dos deuses o infortúnio de tantas mortes num curto espaço de tempo, julgo que segundos de profanidade divina, recusando a possibilidade de que estas tenham ocorrido ao longo de horas, espaço temporal suficientemente lato para que mesmo meros humanos, capacitados e organizados, conseguissem retomar grande parte das rédeas do seu destino.

Jubilo com as garantias dadas por protecção civil e governo de que foi feito tudo o que devia ser feito, bem como de que não faltaram meios para o combate ao fogo nem faltará o apoio de todo o tipo às vítimas e lesados, recorrendo-se aos fundos de emergência nacionais e internacionais existentes para esse efeito.

Confio totalmente na retaguarda logística que deve apoiar as forças no terreno garantindo a todo o momento o fornecimento autónomo de mantimentos, bebidas e outros consumíveis de alto consumo nesta altura.

Agradeço a objectividade honesta, assertiva, transparente, do jornalismo, da comunicação das entidades oficiais, direccionadas a uma população formada num sistema educacional de excelência que a torna intelectual e emocionalmente capaz de lidar com a realidade.

E toda esta organização, todo este conhecimento técnico, todo este profissionalismo, garantido pelo simples cumprir das minhas obrigações fiscais!

Que pena tenho daqueles países que dependem exclusivamente da boa vontade, da solidariedade local e nacional. Onde os bravos se deslocam para o terreno sem saber se terão o que comer, o que beber, onde dormir durante a sua deslocação, onde não existe apoio logístico de armazenagem de raiz nem para guardar picos de donativos caóticos caso a população decida responder aos apelos sofridos. Pobres países onde grandes empresas, delapidadas por uma gestão baseada em boa vontade, esventradas de milhares de milhões de euros que acabam escorridos do orçamento do Estado, abrem apesar de tudo simpáticas contas solidárias para colar a sua marca à boa vontade do bom povo contribuidor, onde as linhas de valor acrescentado solidárias continuam a gerar valor acrescentado para terceiros, onde associações de solidariedade correm o risco de colocar em causa as sua poupanças milionárias, os seus avultados investimentos financeiros, se forem chamadas à participação de larga escala em acções beneméritas. Afectuosos países onde até a comunicação social, as entidades oficiais, baseiam o seu discurso numa condescendência branqueadora de falhas porque não se pode correr o risco de causar a revolta nas boas gentes, nas boas vontades, sobretudo quando ainda agora começou a guerra que de tanta carne para canhão vai precisar.

Felizmente estou no meu idílico Portugal. Onde o Estado, contribuintes, jornalistas cumprem o seu papel. Sei que foi difícil chegar aqui. A dado momento foi preciso o mais complicado dos tipos de afecto. O dizer não a um recorrente estender de mão. Forçando os traquinas a perceber que não podem mais depender, nem dispor, da vida, da vontade dos outros, fazê-los perceber que detêm nas suas mãos todo o poder para a mudança e definição das coisas, tal como foram mandatados em lotadas eleições. Não há construção de carácter como o choque frontal com a responsabilidade própria, com as consequências directas dos próprios actos. E pensar que tudo começou com um angustiante colectivo  “Lamento mas não doo”.

 

Harry Potter

Um caso de incomparável sucesso na passagem da literatura à 7ª arte, o clássico do cinema de hoje teve, ao que se diz, influência lusa. A autora, a escritora J.K. viveu entre nós, inspirou-se em figurões e paisagens da nossa terra. O êxito comercial do primeiro livro teve continuidade nos subsequentes. Um feito raro na literatura juvenil, a saga facturou a uma escala sem precedentes na era digital. A chegada ao cinema foi por isso natural.

Nesta saga, um jovem bruxo, Harry Potter de seu nome, descobre que vive no mundo das pessoas comuns, dos chamados trouxas. A fim de aprender mais feitiços, o nosso herói entra no mundo da magia, ingressa na melhor escola lá do sitio, o caro e exclusivo colégio de Hogwarts. São estes anos de internato, de vida dura e austera  que os filmes retratam com mestria, dando corpo à fantasia de um mundo incrível, povoado por terríveis monstros, magos, bruxos e bruxas, feitiços e maldições. Ao jovem aprendiz a banalidade não lhe serve, muito embora possa ser útil, pois quanto mais trouxas melhor, mais fácilmente cria valor ao accionista: A energia não é cara, os trouxas é que vivem em barracas!

Chegado à idade adulta, faz-se pagar bem por cada truque de magia, eficaz como poucos, soma triunfos e lucros para a companhia. Nenhum accionista ficou por enfeitiçar, não faltaram prémios de gestão, mas qual grande líder, ficámos hoje a saber que afinal partilha o mérito. Garante que não houve decisão que não tenha sido colegial…

Expo Défice

Parece que foi ontem, mas a inauguração da Exposição Mundial – Expo 98 aconteceu hoje, há precisamente 19 anos. Vivíamos então dias de modernização e confiança, de cultura e diversidade, uma festa patrocinada pelo infinito el dorado que se avizinhava! Reinava então o optimismo, a euforia e a crença num futuro risonho. O país dava mostras de dinamismo ao mundo, e este compareceu em peso na renovada zona oriental da velhinha cidade de Lisboa. Foi giro, foi diferente. Depois voltámos às nossas rotinas, ao ancestral lamento e revolta inconsequente. Mas, felizmente apenas meia dúzia de anos depois, outro grande evento, desta feita desportivo. Era a receita de Porter. Estivemos perto, mas não fizemos a festa, na verdade vimo-nos gregos, quer no inicio quer no fim. Ficaram os estádios, e a conta claro! Meia dúzia de anos depois, íamos de pac em pac. Já não foi nada giro, e pior ficou quando nos foi aplicado o castigo. Chamaram-lhe ajustamento. Único e inevitável remédio, para o qual não houve alternativa. Não fomos piegas, e qual óleo de fígado de bacalhau, tomamos o frasco todo.

Já acostumados à terapia, foram chegando as boas noticias, as euforias! O deslumbramento propriamente dito começou com a conquista do campeonato da Europa de futebol. Deslumbrados desde então, vitimas de optimismo irritante, não parámos! Celebramos por menos e sobretudo, gastando menos, mas já voltamos à festa. Depois do crescimento recorde, dos juros negativos, a boa noticia de hoje é o anuncio da recomendação da comissão europeia para por fim ao procedimento por défice excessivo, logo hoje, no dia do nascimento de compositor da Cavalgada das Valquírias, Richard Wagner, o que por certo não será uma mera coincidência.