Category Archives: Ideias para o País

Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!

Lições Confinadas

Os telejornais voltam a dar prime time aos crimes, ao futebol, aos escândalos popularuchos, é um bom sinal, de retoma da anormalidade pré-pandémica.

Foram largos dias de isolamento social, propícios ao cultivar de pensamentos por aqueles que conseguem escapar aos grilhões dos media e sua fábrica de realidade desejada.

No decorrer desse processo passei por estas estações de raciocínio.

Dissonância Imunitária

Os maiores grupos de risco padecem de más condições de saúde, associadas a continuados maus hábitos de vida ao longo de décadas. Estima-se que milhões de Portugueses compõem estes grupos de risco.

A solução não tem passado por promoção da correcção de hábitos de vida, sobretudo alimentares, mas sim por uma promessa de vacina que possibilitará que tudo volte ao normal, o retomar de uma voracidade egocêntrica que mina corpo e planeta. Estão dispostos a sequestrar Portugal até que a vacina obrigatória seja aplicada a nível mundial. Revelam-se autênticas bestas mediáticas no domínio das redes sociais

Na ponta oposta existe população Portuguesa, consciente do seu impacto no mundo e do que é cuidar do seu corpo, de forma natural e saudável. São pessoas estranhas que não entram em histeria colectiva, confiam no seu sistema imunitário e não temem as circunstâncias da vida. Acham ridículo que o medo de um inimigo invisível se sobreponha à alegria de um mundo palpável. Desligaram TV, cumprem ao mínimo as medidas impostas, apenas para não alarmar em demasia os demais. Não se dá por eles a não ser talvez no bronze, sorriso despreocupado e brilho nos olhos.

Estes dois grupos chocaram em conversas informais, a nível social ou familiar, podendo muito bem ter-se definido um novo tema fracturante muito mais poderoso do que a discussão de futebol, religião ou política.

O Despertar da Animália

A maioria de nós fará vida num raio de dezenas de kilómetros, percorridos de viatura própria ou transportes. Neste momento a maioria passou semanas no seu reduto de poucos m2. A neura está instalada. Anseia-se por esticar as pernas, sol, ar, liberdade.

Ao mesmo tempo que animais silvestres invadiram espaços urbanos, fazendo uso da oportunidade proporcionada pelo confinamento humano, outros animais “selvagens” continuam confinados nos zoos urbanos. Animais que no seu habitat natural percorrem centenas ou milhares de km pelos seus próprios meios, em espaços amplos e serenos.

Será esta uma oportunidade para que o animal humano sinta empatia para com os animais que aprisiona? Far-se-á um click de conexão sempre que passe a observar um animal enclausurado para divertimento ou exploração humana? Ou continuará a considerar que a liberdade é um direito reservado à divina espécie humana?

Anti-Especialíssimos

Para um leitor atento, que se sirva várias fontes de informação, que tenha acompanhado a situação nacional e internacional, é claro que a governação e comunidade científica patinaram em muitos aspectos, focando-se em fazer algo rápido e vistoso em detrimento de entendimento detalhado da situação e tomada de decisões ponderadas.

Existem prémios nobel a favor e contra o confinamento e reclusão social, existem países que fecharam a economia, países que não fecharam e países ainda perdidos no meio, estatísticas a serem interpretadas e comunicadas pelo prisma que mais corrobore as opções tomadas.

O motor de todas as decisões são especialistas, parece que cada governo tem os seus e que podem ter conclusões muito distintas, algo estranho para exercício de ciência.

O mundo não pode estar na mão de um punhado de “especialistas” nomeados, o mundo deve aproveitar o oceano de especialistas existente, fornecer-lhes a informação necessária, promover discussão e deliberação como uma consciência colectiva. Não pode haver um, dez ou vinte, haverão centenas ou milhares só em Portugal, gente de laboratório, gente académica e gente de terreno. Será um desafio para o futuro auscultar este saber distribuído e não confiar meramente em especialíssimos especialistas.

Isto não quer necessariamente dizer que se chegue a consenso e definição de uma única rota, que bom seria ter um mapa de múltiplas rotas, cada uma das quais indicada como a mais curta, a mais rápida, a mais económica, etc.

Desmascarar

Tendo em conta o atabalhoamento e pressa não posso deixar de sentir que o uso coercivo de máscaras e desinfectantes made in portugal são uma forma elegante de compensar um pouco a economia, se consumirmos muito esses consumíveis pode ser que aqueles que se adaptaram consigam prosperar e manter empregos até isto se ajeitar.

Quando os analistas de fundo fizerem o seu trabalho, reavaliarem taxa de mortalidade e perigosidade do vírus, desempenho dos países que confinaram vs os que mantiveram actividade, custos económicos e de vidas das opções tomadas, veremos se caiem as máscaras aos nossos especialistas e a todos os que cegamente seguiram as directrizes do terror.

Manifestis Probatum

A data é festiva, a Nação Valente e Imortal celebra hoje o seu octingentésimo quadragésimo aniversário. Muitos Parabéns! O tempo deixou a sua marca, mas não envelheceu mal. Mantém boa figura, nem aparenta a idade que tem. Como todas as grandes divas, suscita dúvidas quanto à verdadeira idade. Muito embora o mundo, qual legião de fãs, celebre hoje o seu aniversário, a data de nascimento está envolto em polémica. Nem de outra forma poderia ser! Consideremos apenas algumas das hipóteses:

Tudo começou com a revolta de “o Conquistador” contra a sua progenitora. Talvez os pais da Nação não tenham sido tão egrégios quanto os avós, mas certo é que a vitória lhes sorriu nos campos de São Mamede, a 24 de Junho de 1128. Eis a primeira das datas a considerar. Completaríamos, daqui a apenas 32 dias, a bonita idade de 891 anos.

A hipótese seguinte, a 25 de Julho de 1139, data em que Rex Portugallensis se autoproclamou após a vitória na batalha de Ourique. Neste caso a festa dos 880 anos seria daqui a 63 dias. Confesso a minha simpatia para com personalidades resolutas, talvez por isso prefira esta data. Gosto da ideia de soberania sem pedir licença a ninguém.

Por último, a data de assinatura do Tratado de Zamora, a 5 de Outubro de 1143, momento em que o Reino de Leão reconhece a independência do Reino de Portugal. Deliciosa coincidência esta, onde somente 767 anos separam monarquia e republica. Neste caso o bolo teria 876 velas e a festa seria daqui a 135 dias.

Polémicas à parte, a data oficial é a de hoje, 840 anos após a Bula papal “Manifestis Probatum” outorgada a 23 de Maio de 1179 pelo Papa Alexandre III. Celebremos!

Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestou inúmeros serviços à Santa Igreja, com destreza militar superou intrepidamente as dificuldades, exterminou infiéis e propagou diligentemente a fé cristã, deixando assim nome digno de memória e um exemplo merecedor de imitação às futuras gerações.

A Sé Apostólica deve amar com sincero afecto e esforçar-se para atender eficientemente, em suas justas exigências, àqueles escolhidos pela divina Providência para o governo e salvação do povo.

Nós, portanto, por causa de suas qualidades de prudência, justiça e dignidade do governo, levá-lo sob a protecção de São Pedro, e conceder e confirmar pela autoridade apostólica para o seu excelente domínio, o reino de Portugal, honras completas do reino e a dignidade que corresponde aos reis, bem como todos os lugares que, com a ajuda da graça celestial, arrancou das mãos dos sarracenos e sobre os quais os seus príncipes cristãos vizinhos não podem reclamar nenhum direito.

E para que sua devoção e serviço a São Pedro, príncipe dos Apóstolos, e à Santa Igreja Romana possam crescer, decidimos estender essa mesma concessão a seus herdeiros e, com a ajuda de Deus, defendê-los por eles. No que diz respeito à nossa magistratura apostólica.

Filho de peixe sabe nadar?

Ou a ineficácia do (des)controlo parental… Dezenas de familiares de governantes encontram-se empregados pelo próprio governo numa teia de nomeações cruzadas. A pergunta que se coloca é: são tão ou mais competentes do que @s restantes candidat@s ao lugar que ocupam?

Caso o sejam, nada a dizer, caso não o sejam então o que estará completamente errado é o sistema de recrutamento/nomeação que deveria proteger o Estado deste tipo de exploração dinástica.

Os laços de sangue em nada são indicadores das capacidades individuais pelo que aquilo que deve ser decisor na sua seleção ou demissão é nada mais do que o comprovativo dos resultados apresentados pelo seu trabalho.

Que poderá dizer disto um país em que metade do seu tecido empresarial é composto por empresas familiares e em que grandes grupos empresariais têm também uma gestão familiar?

Tal como se sucede com médicos, músicos, futebolistas, etc, o filho de um grande político poderá ser um político ainda melhor. Legislar no sentido que lhe seja dificultada a colocação poderá ser injusto e danoso para os interesses do país.

Pelo que o problema não são propriamente as ligações familiares mas sim os nós cegos do processo de selecção/nomeação. Querem legislar? Criem regras bem definidas e tragam transparência a esses processos acabando com o conceito de “cargo de confiança política”. Há posições que são cargos de pura assessoria/gestão/coordenação, que deveriam ser apolíticas no sentido de exclusivamente defender interesses do Estado através do exercício de competência sem preocupações partidárias.

Isso sim, seria garantir oportunidades idênticas para todos, colocando debaixo do escrutínio de avaliação regular de desempenho todos estes distribuidores de jogo político, que na sua maioria não passam de gordura de Estado, defensores prioritários das cores do seu partido e dos seus interesses pessoais.

Fenómenos Ambientais à Portuguesa

Que refrescante ver a nossa juventude a mobilizar-se para exigir que o governo faça mais pela prevenção/reversão das alterações climáticas.

Portugal está mesmo a precisar de alguma orientação neste sentido. Recentemente tivemos a novela da prospecção de petróleo finda por um movimento cívico. Um ministro vem a público preconizar o fim do diesel, o que parece ser uma boa notícia não fosse o facto de o futuro eléctrico necessitar de muuuuito lítio, que, por acaso do destino, é um mineral em que Portugal é riquíssimo! Claro que a mineração de lítio implica severa destruição ambiental mas alguém tem de pagar o preço ambiental para receber o melhor retorno económico e contribuir para um mundo mais verde, pelo menos até à era da mineração de asteróides ou outros astros.

Talvez nos pudessemos inspirar na China para a abertura de horizontes futuros. Com pragmatismo medidas assentes em estudos científicos impulsionam uma drástica mudança dos hábitos alimentares dos seus habitantes, para o seu bem e o do ambiente. Inclusive criam leis que penalizam a indústria agro-pecuária identificada como uma das principais causas de poluição.

E é aqui que vemos que o nosso Governo não dorme, mais uma vez analisando esta situação age aproveitando a oportunidade. Como? Simples, tornando-se uma enorme fábrica de produção de carne do mercado chinês. Serão mais de meio milhão de suínos a juntar-se às centenas de milhares de animais de outras espécie que se exportam anualmente. Passemos à frente do tema crueldade animal, do que passam esses animais portugueses nas viagens, do que os espera nos países de destino, o foco aqui é o tema ambiental e mais uma vez estamos disponíveis para emitir o CO2 que os outros não querem ou não podem emitir, esgotar os nossos recursos hídricos, desolar os nossos solos e poluir os nossos aquíferos para obter retorno capitalista ou crescimento de dois dígitos na exportação. Somos tão prestáveis que até assobiamos para o lado enquanto esvaziam a nossa biodiversidade desde que para um bom parceiro económico, para corte nos custos de produção agrícola ou para deleite gastronómico local.

Estes temas infelizmente não se estudam, não estão nos cardápios da nossa restauração, é preciso escavar, dedicar-lhe algum tempo para perceber que além das demandas aos organismos governamentais também existem transformações do foro pessoal que podem acelerar todo o processo de melhoria ambiental pois a chave de tudo é o consumo, quiçá, nos dias de hoje, com um poder de transformação global ainda maior do que o do voto.

Aguardo com serenidade a vossa força e sapiência jovens, que não seja mais uma trend, hype, flashmob, para preencher umas insta-stories à maneira porque Portugal, a Terra, precisam de uma mudança consistente e não apenas de mais um dia viral que o Governo e feed das redes sociais consigam rapidamente dissipar.

Sejamos o acelerador da mudança que exigimos aos governantes!

Selfie Solidária

Está para fazer quase três anos que Portugal escancarou as suas portas aos mais necessitados. Estávamos dispostos a receber 10 mil refugiados! O dobro do pedido pela União Europeia.

Feitas as contas foram recebidos perto de 1 500 mais de metade dos quais não quiseram permanecer no nosso território.

Quer isto dizer que continuamos com mais de 9 mil vagas para receber refugiados, acenando uma bonita e sentida bandeira de oferta solidária que nos deixa muito bem na fotografia, mesmo que não usufruída.

A outras latitudes outras fotografias demonstram que talvez pudessemos disponibilizar estas oportunidades a outros povos, igualmente massacrados e desesperados. 

Será melhor fazê-lo o quanto antes porque uma selfie internacional tem muito mais impacto do que uma selfie nacional, e existe o perigo efectivo de alguém fazer contas e perceber que as 5 000 vagas a mais disponibilizadas seriam suficientes para dar resposta aos menos sexy cidadãos nacionais em situação de sem abrigo. 

Lembrei-me disto porque o Natal é a altura perfeita para ajustar a distribuição dos presentes, deixando de os dar a quem não os valoriza, reforçando a dádiva a quem mais precise.

E assim enfeitar as nossas walls com uma tremenda selfie solidária.

And Now For Something Completely Different: OE2019

O que levará alguém a abdicar de uma vida normal e abraçar a vida circense? É sabido que o mundo é das crianças e talvez por isso se diga que os palhaços são as estrelas da companhia, mas nem só de gargalhada se faz o espectáculo. Outros artistas brilham, tais como acrobatas, contorcionistas, domadores de feras ou ilusionistas, mas tal como o estado precisa de orçamento, o circo carece de malabaristas. Sendo um número já visto, a destreza exigida ao artista é competência rara e se o talento por um lado ajuda, por outro só a prática permite atingir a perfeição.

O público é implacável e não perdoa erros – Quando a cascata falha e a bola cai ao chão, a vaia é garantidamente estrondosa. Coisas da democracia, aproximam-se as Eleições Legislativas e muito embora metade do público não participe, todos tecerão a sua crítica, ou porque é eleitoralista ou porque não é suficientemente generoso e redistributivo. Provavelmente todos terão a sua razão, mas o seu a seu dono, o malabarista continua sem deixar cair nenhuma bola.

O verdadeiro artista é assim, sabe gerir a expectativa do seu público, sabe que não pode falhar, mas também sabe que nada supera o impacto de uma correcção in extremis, vulgo cativação. Orçamenta-se, mas não se gasta. Em finanças públicas, tal como no circo, usam-se estas técnicas antigas, gastas, mas eternamente actuais. É caso para dizer… e agora algo completamente diferente: absolutamente nada. Desmonta-se a tenda e parte-se rumo ao próximo destino. São nómadas!

Alojamento vs Aluxamento vs Axulamento Universitário

Entrada para a Universidade, um marco na trajectória de vida de qualquer ser humano que tenha felicidade de o poder alcançar. Uma descida aos infernos para todos os que têm de se deslocalizar e procurar alojamento, que na capital chega facilmente aos 5 400 € anuais o que somado a aproximadamente 1 000 € de propinas totaliza uns simpáticos 6 400 € anuais apenas para alojamento e matrícula faltando somar gastos com comida, viagens, e outras necessidades do dia-a-dia. Falamos de mais de metade do rendimento anual médio de um trabalhador Português, um enorme rombo numa família já a cargos com despesas de crédito habitação, casa e dia-a-dia.

A culpa, dizem, é da pressão do alojamento turístico, da escassa oferta de alojamento para este tipo de aluguer prolongado, enfim, do mercado a funcionar. Lisboa talvez pondere resolver este problema com a definição de quotas mas até lá felizmente podemos contar com benevolentes e atentos empresários que procuram ajudar a resolver o problema criando alojamento universitário de luxo que podem resolver as preocupações, pelo menos as dos mais abonados.

E assim temos alunos universitários a ser explorados, pagando excessivamente pelas condições que lhes são fornecidas, com pressão acrescida por serem foco de enorme despesa para a sua família, que começam já nesta fase precoce da sua vida a entrar no estado de espírito do sobrevivente socioeconómico. Aprendem de forma inconsciente que é esta a forma de viver daqui para a frente, espremidos, condicionados, explorados em conformidade com os demais porque, afinal, se ninguém for tratado com justiça ninguém é prejudicado.

Ao mesmo tempo temos espalhados pelo país, também pela capital, idosos em solidão e depressão, com parcas reformas, casas vazias, que muito poderiam beneficiar da partilha de espaço com gerações vindouras. Talvez haja aqui uma oportunidade para uma política social que aproxime extremos etários, reforce os rendimentos dos reformados, reduza factura de alojamento a quem precisa de conforto e estabilidade durante três ou quatro anos.

Até lá alguém que resolva a confusão fonética causado pelo actual Alojamento/Aluxamento/Axulamento Universitário!

 

Afiança

Pluralidade é para mim sinónimo de qualidade democrática. A diversidade pode até ser a solução contra a abstenção. Mais cores, mesmo recicladas, alargarão a palete de escolhas do eleitor português. Daltonismo nunca mais! Se o nascimento de uma nova força politica mobilizar pelo menos um abstencionista, então para mim já terá valido a pena.

Mobilizai-vos ò empreendedores do meu país, abraçai as vossas causas e avancem! Se causas vos faltarem, não faz mal, declarem princípios. Contraditórios ou não, a mera iniciativa colherá o meu aplauso. Não serei picuinhas, muito menos exigente. Cada vez mais me convenço que a democracia é um “negócio” de volume e como tal a riqueza emerge do somatório de pequeníssimos ganhos. A verdadeira cidadania é pragmática! Haja massa critica, a qualidade cedo ou tarde surgirá. Será o caso com esta nova força que Afiança o tacho a quem dele tenha recentemente sido privado? Não sei, duvido muito, mas nem por isso hesito na convicção das virtudes da diversidade. Venham mais, seja à Direita ou à Esquerda.

E como estão elas, a Direita e a Esquerda? A Direita digere com estóico silêncio a cisão na família, enquanto a Esquerda exulta sem alarido a chegada da nova força politica. A rentrée política foi assim antecipada pela concretização da ameaça há muito velada. Consta que do Largo do Rato à Rua da Palma, passando pela Rua Soeiro Pereira Gomes, muitos se preparam para contribuir na recolha de assinaturas. Eventualmente mobilizados pelo princípio que o inimigo do meu inimigo, meu amigo é…

Um sucesso arrepiante

Ainda ardia Monchique conduzia eu rumo a Viseu, agulhado pelo Mondego, ladeado de encostas áridas de tons alaranjados onde sobejam altos finos troncos calcinados e rebentos de eucaliptos militarmente alinhados numa formação que denuncia a mão humana que os ampara.

Pelo segundo ano consecutivo as chamas devoram a densa monocultura florestal humanamente desgovernada. Entre elas habitações, lugarejos, animais selvagens e animais domésticos aprisionados não libertos por aqueles que são forçados a abandonar os seus lares pelas forças de segurança.

27 mil hectares de floresta ardida, zero vidas humanas perdidas, um sucesso dizem eles.

Os especialistas em biodiversidade, as forças de prevenção e combate a fogos, o povo local, todos clamam aos governantes por mudanças na ordenação florestal do território. Estes fingem ouvir, garantem que algo será feito para melhor, mas é notório ao longo de décadas que não são as questões ambientais, logísticas e sociais os principais influenciadores nesta matéria.

Pelo que tentarei descer ao seu nível, entrar no economiquês do tema, talvez me faça sentir mais confortado com a aparente inevitabilidade do advir destas calamidades. Ao que encontrei por aqui parece que o potencial de riqueza da floresta portuguesa é de cerca de mil e trezentos milhões de euros por ano, dos quais 41% (533 milhões de euros) será relativa à parcela relacionada com uso da madeira e seus derivados (muito eucalipto nesta fatia).

O prejuízo médio anual relacionado com incêndios é da ordem dos 360 milhões de euros, no entanto nos últimos dois anos temos Pedrogão com prejuízos avaliados em mais de 500 milhões de euros e agora Monchique que se estima ser um valor muito superior. Com a agravante de que a recuperação das áreas ardidas demora anos, nos quais não existe produção nem rentabilidade e de que não são contabilizados os custos indirectos no turismo local, com a fuga dos visitantes, e no tecido laboral, inerente à ausência prolongada forçada por parte de bombeiros e população afectada.

Adicionando a isto o custo social, ambiental e ecológico chegamos praticamente a um ganho zero na manutenção deste atentado à nossa biodiversidade, deste risco constante de incêndios incontroláveis que arrasam comunidades locais.

Em análise económica e financeira o que se faz quando nos deparamos com uma actividade pouco rentável com demasiado risco associado?

Talvez seja chegada a hora de arrepiar caminho florestal, voltando ao básico, reaprendendo a apreciar e rentabilizar o que é verdadeiramente nosso.

eucaliptos

 

Financiamento Democrático

Está feito! A partir de agora o céu é o limite para o financiamento dos partidos nacionais! Que boa nova para algumas máquinas partidárias, que má notícia para a saúde democrática.

Mais financiamento significa mais investimento em meios de comunicação (marketing e propaganda), o que naturalmente irá beneficiar os partidos que têm feito parte do arco do poder pois foram eles que estabeleceram as bases para instalação e perpetuação do sistema vigente, cujos principais beneficiários farão questão de proteger  via simpáticos donativos.

Não existem soluções mágicas mas será mesmo este o caminho? Dar condições para que o resultado de umas eleições possa ser ‘comprado’ através de maior investimento publicitário e volume de acções de campanha no terreno? Uma democracia não se deveria antes preocupar em permitir que diferentes correntes ideológicas se confrontem em pé de igualdade?

Claro que é complicado fazê-lo quando existem mais de 20 partidos políticos inscritos no Tribunal Constitucional, pelo que pela saúde da nossa democracia talvez se devesse ponderar algo mais radical. Ao invés de dar condições para a desigualdade na exposição e comunicação porque não ir pelo caminho inverso? Nivelar todos os partidos pelo mesmo volume de exposição mediática, o mesmo número de outdoors, o mesmo número de minutos de entrevista em rádio e TV, o mesmo número de eventos em instalações públicas, focar os eleitores na qualidade do conteúdo e não programá-los de forma subliminar por enorme quantidade de exposição mediática/publicitária.

Para tal seria necessário reduzir o número de partidos relevantes para metade ou menos, talvez introduzir uma regra que extinga automaticamente partidos que atravessam duas ou três eleições legislativas sem eleger um deputado, limpar o panorama político de ruído inconsequente, abrindo vagas para novos movimentos.

O financiamento continuaria a ser necessário, não para  o ‘ataque’ às eleições mas sim para o período intermédio por forma a permitir aos partidos manterem-se activos e relevantes no preparar do próximo combate eleitoral que poderá efectivamente ser o seu último.