Category Archives: Ideias para o País

Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!

Financiamento Democrático

Está feito! A partir de agora o céu é o limite para o financiamento dos partidos nacionais! Que boa nova para algumas máquinas partidárias, que má notícia para a saúde democrática.

Mais financiamento significa mais investimento em meios de comunicação (marketing e propaganda), o que naturalmente irá beneficiar os partidos que têm feito parte do arco do poder pois foram eles que estabeleceram as bases para instalação e perpetuação do sistema vigente, cujos principais beneficiários farão questão de proteger  via simpáticos donativos.

Não existem soluções mágicas mas será mesmo este o caminho? Dar condições para que o resultado de umas eleições possa ser ‘comprado’ através de maior investimento publicitário e volume de acções de campanha no terreno? Uma democracia não se deveria antes preocupar em permitir que diferentes correntes ideológicas se confrontem em pé de igualdade?

Claro que é complicado fazê-lo quando existem mais de 20 partidos políticos inscritos no Tribunal Constitucional, pelo que pela saúde da nossa democracia talvez se devesse ponderar algo mais radical. Ao invés de dar condições para a desigualdade na exposição e comunicação porque não ir pelo caminho inverso? Nivelar todos os partidos pelo mesmo volume de exposição mediática, o mesmo número de outdoors, o mesmo número de minutos de entrevista em rádio e TV, o mesmo número de eventos em instalações públicas, focar os eleitores na qualidade do conteúdo e não programá-los de forma subliminar por enorme quantidade de exposição mediática/publicitária.

Para tal seria necessário reduzir o número de partidos relevantes para metade ou menos, talvez introduzir uma regra que extinga automaticamente partidos que atravessam duas ou três eleições legislativas sem eleger um deputado, limpar o panorama político de ruído inconsequente, abrindo vagas para novos movimentos.

O financiamento continuaria a ser necessário, não para  o ‘ataque’ às eleições mas sim para o período intermédio por forma a permitir aos partidos manterem-se activos e relevantes no preparar do próximo combate eleitoral que poderá efectivamente ser o seu último.

IT Hub: Um Oásis envenenado?

Depois da travessia no deserto Portugal aparenta estar em processo de transformação rumo à conversão num oásis tecnológico. As condições são propícias à instalação de gigantes tecnológicos. Boa localização geográfica, infra-estruturas de excelência, baixo custo de vida, salários muito abaixo dos praticados noutras paragens europeias e provavelmente benefícios fiscais ainda por revelar.

Não há muito tempo a ordem era de desmobilização geral, com muita da nossa mão-de-obra qualificada a emigrar para outras paragens. Agora surgem as oportunidades, vagas e vagas de posições altamente qualificadas por preencher, sem resposta imediata à altura. Provavelmente os salários a praticar não serão suficientemente altos para atrair aqueles que sairam do país encontrando remunerações muito acima das praticadas em Portugal, pelo que só existem dois caminhos possíveis, ou atrair os profissionais insatisfeitos em PMEs e grandes empresas nacionais ou atrair imigrantes de outras paragens para quem os ‘baixos’ salários portugueses sejam vistos como ‘altos’ salários face à sua realidade.

Em termos de emprego, economia e fiscalidade nacional sem dúvida que, a prazo, os ganhos serão muitos a todos os níveis. Poderemos também assistir a uma transformação do ambiente de trabalho das tecnologias de informação para um panorama ainda mais multi-étnico e multi-cultural, o que até casa bem com a nossa portugalidade. No entanto, poderá ser prejudicada a capacidade das nossas empresas. Além do recrutamento agressivo por parte de consultoras, que secando o mercado de talento criam oportunidades para si, as empresas terão agora de competir com gigantes de alto poder de atracção de talento. Existe o perigo real de que percam os melhores profissionais do sector de IT, fragilizando a sua operacionalidade e consequentemente os seus resultados.

Esperemos que, tal como o fizemos na nossa floresta,  não estejamos inadvertidamente a minar este precioso oásis com o plantar de gigantescos e ávidos eucaliptos.

 

Leite malparado

Portugueses e portuguesas, tenhamos calma, não faz qualquer sentido clamar pelo exorcismo leiteiro! Abracemos com euforia a era da informação disponível para todos a qualquer momento, onde aqueles que ousam colocar em causa a grande muralha da propaganda oficial têm a capacidade de nela abrir brechas fatais, pelo simples alterar dos seus hábitos de consumo individuais para no mínimo experimentar as estranhas teorias alternativas que dizem que o parar de consumir lacticínios é a melhor opção para o planeta, para a saúde humana e para os animais.

O desconforto gerado não é pela alteração de hábitos de consumo mas sim pelo facto de esta ser orgânica, não ‘guiada’ por agentes políticos ou económicos. Isto significa que em termos económicos irão ocorrer transferências significativas de fluxos de capital, de volume de empregos, tendo apanhado de surpresa quem mais devia estar ao corrente desta tendência, já com alguns anos de existência. Ao contrário do que afirma o nosso solícito Presidente não estamos perante uma ameaça a um sector primário da economia mas sim perante uma oportunidade/necessidade de evolução para conquistar um novo nicho de mercado de crescimento imparável a nível mundial.

Ao invés das medidas proteccionistas do passado abram-se linhas de investimento para conversão das linhas de produção de leite animal e incentivo à criação de uma nova indústria de leite vegetal em Portugal.

Um aviso de simpatizante Sr. Marcelo, antes de tomar partido nesta luta, faça o devido enquadramento sobre o que se passa a nível mundial e escolha muito bem qual a sua posição. Pense em algo mais do que na economia,  na preservação artificial de um sector que terá de se adaptar à realidade emergente. Use a sua faceta reikiana escondida, pense no que significa esta substituição alimentar. Saiba de antemão de que poderá ter do lado dos produtores de leite as reacções passionais mais mediáticas mas que do outro lado da barricada terá muita compaixão alicerçada em estudos recentes, conhecimento e muita vivência empírica dos que foram pioneiros nesta mudança por uma questão de ética e consciência.

Espero que opte por ser progressista numa questão fulcral para as gerações futuras, mesmo que à custa de alguns pontos de popularidade.

Vulgaríssimas

Na terra das fundações sem fundo, isto é, sem fundos, cabe ao hospedeiro, leia-se o Estado, garantir a sobrevivência das bem-intencionadas instituições de beneficência e solidariedade social. Uma relação previsivelmente simbiótica, ou seja, benéfica para ambas as partes, oferece o apoio possível àqueles que carenciados de algum tipo de ajuda justificam a existência da instituição benemérita, enquanto não raras vezes, por ausência de verdadeiro espírito cívico, proporciona confortáveis posições sociais e económicas a uma ínfima parcela de indivíduos que as dirige. O escrúpulo, ou a falta dele, é característica presente em todos os sectores de actividade, mas quando o objectivo é o auxílio ao próximo, a sua ausência é absolutamente intolerável.

Contudo, entre nós, há mais do que condescendência para com o abuso, mesmo nas instituições cujo propósito é apoiar quem precisa. Aparentemente, nem sequer chega a ser necessário obra feita para gozar de salvo-conduto quando se usurpa os meios que lhes são confiados. A aparência basta. Juntam-se assim dois factores: a nobre causa e a notoriedade do empreendedor de obra social. Será regra? Quero acreditar que não, quero manter a convicção que há e continuará a haver quem procure fazer a diferença sem visar a vantagem pessoal, seja ela social, económica ou até do ego, mas sei, e não é de hoje, que mesmo as causas mais nobres são frequentemente contaminadas por parasitas. O que mais me choca não é tanto a existência deste tipo de praga, mas sim a complacência com que todos nós, contribuintes e cidadãos deste país a encaramos. Temo que o “escândalo” do momento, ao invés de contribuir para a consciencialização, tenha de facto um efeito anestésico semelhante à picada de muitos parasitas. Face à impossibilidade de por magia por fim às desigualdades, mais nefasto que a indiferença será a descrença na solidariedade. Não nos deixemos contagiar pelo frenesim mediático, tão volátil como sensacionalista, e procuremos analisar além do imediatismo.

Sejamos pragmáticos. Nem todos os desafios se compadecem com o voluntarismo e o trabalho pro bono. Causas há que carecem de pessoas capazes e empenhadas, a tempo inteiro, obviamente remuneradas. Por outro lado, quando a missão solidária visa apoiar um grupo muito restrito de pessoas, que consequentemente proporcionam um baixo retorno político, os poucos votos que directamente mobilizam obrigam à sensibilização e influência. O chamado lobby acarreta obviamente custos, financeiros e outros, os favores. Não sejamos hipócritas, há fins que justificam os meios. Por estranho e paradoxal que possa parecer, estas necessidades de contexto, sendo uma realidade prática, constituem muitas vezes a justificação que encobre o abuso perpetrado por uma espécie vampiresca, a vulgaríssima carraça. Não nos iludamos, erradicar a praga é uma luta tão urgente como eterna, pois nunca hesitarão em matar o hospedeiro.

Efeitos de gases de estucha

Nos longínquos anos Socráticos a gloriosa, luxuosa, dispendiosa governação acalorou a vida dos Portugueses de tal maneira que tornou irreversíveis os efeitos de um prolongado aquecimento orçamental.

Culminou com a chegada de uma era glaciar que provocou o congelamento das calotas orçamentais. Durante esse período a humanidade portuguesa sofreu diversas tribulações, sendo posta à prova a sua resiliência no ajustamento ao desvio colossal face ao anterior rumo, tudo isto sob um tormentoso silêncio sepulcral.

5 anos depois surgem as primeiras rachas nas grandes barreiras de gelo. De forma engenhosa é inventada uma milagrosa geringonça que apesar dos receios iniciais se mostrou eficiente no atenuar dos efeitos sentidos pela catástrofe que assolou Portugal.  Logo no primeiro ano as parcelas orçamentais foram reconfiguradas, novo desvio foi aplicado sobre o anterior, recuperou-se alento e sustento, tudo temperado com um insólito afecto.

Depois chegou o segundo ano. Com eleições que deixaram claras as diferenças entre ser carenagem descartável ou motor essencial da geringonça,  com incêndios mortíferos devastadores que colocaram a nu carências na protecção civil, com insurgentes reivindicações nas áreas da educação, saúde, forças policiais e militares, tudo isto resultando numa avassaladora emissão de gases de estucha.

Estes gases de estucha são perigosíssimos pois conduzem ao descongelamento descontrolado, provocando um diluvio de proporções bíblicas no território orçamental, o que certamente criaria um cenário em tudo similar ao que se passou no período Socrático. Na altura dizia-se que a dívida não é para se pagar mas sim para se gerir, hoje parece ter-se substituído dívida por expectativa, seja como for no final as contas terão de ser seladas.

Preparemo-nos para um complexo e decisivo terceiro ano que irá esclarecer de uma vez por todas qual o verdadeiro ciclo em que nos encontramos.

Rede Neuronal

Termina hoje em Lisboa a auto-intitulada “melhor conferência tecnológica do planeta”. A velha capital acolheu nos últimos 3 dias o chamado “mundo tecnológico”. Nada me move contra o evento, muito pelo contrário. Que venham, que usufruam, que gastem e que partam com desejo de regressar. Quantos mais melhor e desta feita foram mesmo muitos. Sem ironia ou sarcasmo, o evento proporcionará no mínimo um retorno auspicioso. Um impacto inequivocamente positivo.

Face à extensa lista de oradores e à diversidade de temas, a cobertura jornalística nunca seria fácil. Nem tão pouco é suposto a comunicação social relatar tudo quando por lá se passou, pois o evento é para quem pagou e nele participou, mas haveria sempre a necessidade de encontrar uma ideia forte para propagar. Desta feita, a escolha recaiu sobre a “Inteligência Artificial” e teve num casal de robots humanóides os protagonistas: Ela, repetente no evento mas pioneira na cidadania (é cidadã saudita imagine-se…). Ele, um clone do criador da Teoria da Relatividade. O diálogo entre ambos espantou os presentes e maravilhou a media que se apressou a anunciar uma nova era. Subitamente, da notícia ao comentário, o tema da Inteligência Artificial proliferou qual apoteótica novidade.

Apesar da rápida expansão da aplicabilidade comercial, a Inteligência Artificial está longe de ser novidade. Nem tão pouco recente! Tudo começou há muitos anos, mais concretamente em 1943, quando dois improváveis amigos, Walter Harry Pitts e Warren Sturgis McCulloch, apresentaram a primeira teoria mecanicista da mente. Hoje sabemos, também graças ao trabalho do português António Damásio, que falharam na sua intenção de explicar o funcionamento mecânico da mente humana, mas estabeleceram com o seu trabalho a primeira abordagem computacional da neurociência, o design lógico de computadores modernos e os pilares da Inteligência Artificial – o modelo McCulloch-Pitts.

Não obstante os contornos sensacionalistas de hoje, a Inteligência Artificial é septuagenária e para além disso, há muito que máquinas “estúpidas” têm vindo a assumir tarefas outrora apenas confiadas a humanos. Então, porquê a “novidade”? Bom, a ideia lançada é simples e óbvia na sua relação causa/efeito: os robots estão a ficar tão “inteligentes” que em breve nos tornaremos obsoletos e dispensáveis para o mercado laboral. Mais que debate, a ideia gera medo, o temor de em breve não ser só a baixa qualificação profissional a ser preterida. Será? Será que esse futuro é já amanhã, ou será que ao invés de as nossas máquinas serem cada vez mais “espertas”, nós é que estamos a ficar cada vez mais estúpidos, ávidos por comprar tudo que nos queiram vender?

A Misericórdia Político-Corporativa

Se Pedro Santana Lopes voltar à ribalta a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa torna-se uma nova incubadora/reabilitadora de líderes políticos. A aura de beneficiência e benfeitoria por si concedida será um bálsamo rejuvenescedor para um político gravemente ferido.

A SCML é uma instituição secular, robusta, dona de um dos maiores patrimónios imobiliários do país, a maioria proveniente de doação após morte, sendo este património gerador de receitas milionárias canalizadas para reinvestir em obras de beneficiação, aquisição de novo património, além da sua utilização na actividade de apoio social.

Anualmente a SCML gere as receitas de mais de 2 750 milhões de euros provenientes do jogo. Depois de distribuídos prémios e pagas despesas associadas sobram 200 milhões de euros para a SCML e mais de 180 milhões de euros para os cofres do Estado. Posteriormente a SCML distribui todos os anos mais de 100 milhões de euros em forma de apoio social, tendo ainda uma despesa similar a nível de custos de pessoal num volume superior a 100 milhões de euros para remuneração dos seus mais de 5 000 trabalhadores.

Tal é a sua dimensão que a SCML é especialista reconhecida na gestão dos Jogos Santa Casa, de património imobiliário, de unidades de saúde, de unidades de apoio à inserção social, de creches, de jardins de infâncias, de ATLs, de unidades de formação de competência, de centros de reabilitação, etc.

A SCML é uma organização sem fins lucrativos que em 2016 teve um ‘balanço positivo’ de mais de 21 milhões de euros apresentando activos milionários, dos quais só depósitos bancários são quase 200 milhões de euros.

É compreensivo este acumular de riqueza e de peso no nosso espaço social e económico, afinal a SCML está a atingir os 520 anos de existência. Que seria de nós sem ela, outras SCMs e similares? É caso para especular algo infernal pois mesmo com a sua existência o retrado português da pobreza é assustador, há quem diga que está até substimado aos dias de hoje, sendo pelo menos certo que há 5 000 pessoas em situação de sem-abrigo a precisar de maior amparo. Apesar do óbvio crescimento deste tipo de organizações, em termos de áreas de actuação e volume de actividade social, aquele que deveria ser o principal indicador do seu sucesso, a regressão do número de pobres, não se verifica, mantendo-se constante nas últimas décadas.

Com tantos recursos à disposição, tantas áreas de actuação, faltará certamente um ingrediente secreto capaz de transformar a fórmula do atenuar da pobreza numa fórmula de resolução da pobreza. Sem dúvida que passará por uma interligação com o Estado, já que serão as políticas económicas deste que em muito influem na geração de pobreza. Por um lado temos organizações especializada no combate à pobreza existente, por outro temos um Estado que, pagando -lhes para isso,  espera destas organizações o atenuar dos efeitos colaterais menos agradáveis da sua governação.

Não sei se o governo de Pedro Passos Coelho percebeu que a manutenção da separação entre estado e acção social poderá ser impraticável num futuro não muito distante ou se simplesmente precisou de fazer uma cosmética orçamental, seja como for, tomou iniciativas subtis de integração a nível orçamental e na área da saúde. Curiosamente foi nesta altura conturbada que surge a nomeação de Pedro Santana Lopes como provedor da SCML.

O que seria destas organizações sem pobreza em Portugal? O que seria do Estado social sem estas organizações? Julgo que no cruzamento da resposta a ambas estas questões se encontre a fórmula revolucionária que abordará a pobreza em todo o seu espectro, desde a origem à sua erradicação, passando é claro pelo atenuar da sua manifestação.

Tenho as minhas dúvidas que a resposta venha a ser encontrada por um paladino misericordioso, habituado a prestar confortável vassalagem sempre que isso lhe augure um bom futuro. Apostaria mais num insurgente nortenho ávido de atingir a total independência de terceiros na resolução dos mais prementes problemas da nação.

Rusalka

Ninfa da água, historicamente associada ao bem, às chuvas e à fertilidade, esta mitológica figura eslava perdeu o seu estatuto de espírito benigno. A sua bondade perdeu-se no tempo. Outrora desejada, passou a ser temida, qual deslumbrante Sereia do Mar Negro, perigosa sedutora que com a sua incompreensível mas encantadora voz consegue arrebatar os incautos marinheiros.

Rusalka dá nome à mais famosa Ópera de Antonín Dvořák, uma das suas obras-primas. Seduz-nos logo no primeiro acto com uma das mais belas canções de sempre, a “Canção à Lua”, na qual Rusalka apela à Lua altaneira que lhe revele o paradeiro do seu amor perdido, que o abrace, que lhe recorde a importância do sonho e que lhe lembre que é esperado. Face à dualidade da figura, o famoso compositor checo optou pela faceta mais doce, com sentimento. Interpretações brilhantes deste tema, felizmente, não faltam, mas  aquela que de imediato associo ao canto de uma sereia é a da eslovaca Lucia Poppová. Uma interpretação simplesmente arrebatadora.

Outras há, contudo, menos cativantes. A líder conservadora e católica, faz uso do seu rosto de traços eslavos e com rasgados sorrisos procura seduzir o eleitorado tradicional do aliado de sempre. Entusiasmada com o sentido de oportunidade que lhe proporcionou a vitória por falta de comparência na capital, prossegue deslumbrada na crista da onda. Esperta, preenche o espaço deixado vago pela inércia e pelo parco talento de uma liderança esgotada, mas repete o erro e ao invés de desunir, oferece novo propósito à geringonça. Não só não deu voz à indignação, pois todos lhe reconheceram o oportunismo, como pior, perdeu na (co)moção de censura. As águas voltarão a ser turvas e a corrente favorável na comunicação social perderá força porque o objectivo regenerador está cumprido – as eleições para a liderança do Partido Social Democrata já estão marcadas.

 

Não me demito. Câmbio.

15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.

Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o  Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.

Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.

Câmbio

O impacto da escolha dos carris

Portugal está há muitos meses política, social e jornalisticamente encravado. Engolido  por um furacão temático que o contém, supostamente a salvo, no seu pacífico olho, obrigando-o a dançar ao sabor dos ventos que o circundam, impedindo-lhe o vislumbre do horizonte. Nesses ventos são reciclonados caoticamente os mesmos temas  que perigam à vez o país: incêndios, Tancos, taxa de desemprego, crescimento económico, turismo, greves, dinâmica da geringonça, Marcelo em todas, crise no PSD, We Brand, negociações sindicais, operação Marquês, décimas do deficit, etc, apimentados com umas Trumpalhadas, alarmismos e terrorismos internacionais.

Devido ao toldar de visão este furacão cria uma perigosa ilusão, a de que são estas as questões de fundo essenciais ao futuro do país e do mundo. Estranhamente deixou de se falar da crise dos refugiados, da guerra da Síria, anteriormente tão absorventes, estarão resolvidas? Alguém se lembra da discussão do impacto do CETA/TTIP para Europa e Portugal? Ou é para ser assumido como um facto consumado com que ninguém tem de se preocupar? Será relevante evidenciar que atravessamos um período de seca gravíssimo e que o país precisa de repensar toda a sua gestão de recursos naturais?

Para lá desta barreira temática existem povos, aparentemente não condicionados, que vislumbram bem mais além, ousando tomar medidas disruptoras focadas na construção de um futuro melhor, não necessariamente do ponto de vista económico.

Seria muito bom que Portugal e os portugueses acompanhassem estes movimentos que vão redefinir o mundo a médio-prazo. Claro que para isso teríamos de ter uma população formada e informada, que colocasse o orgulho no seu estilo de vida, no seu impacto positivo no mundo, acima do orgulho desportivo, do comodismo do seu umbigo, uma população que da mesma forma que rejeitaria a nomeação de corruptos comprovados para tesoureiros do seu dinheiro não os elegesse para mandatos políticos renovados, uma população que colocasse o interesse comum acima do seu mesquinho interesse pessoal.

Estou certo que um dia aí chegaremos. Até lá continuaremos a desfrutar da relativa tranquilidade do olho do furacão, fortalecendo-nos num presente que em breve será um passado muito diferente do futuro que se avizinha. Quando terminar a tontura deste constante rodopiar constataremos que talvez devêssemos ter aproveitado todo o esforço despendido não a reentrar nos eixos de que saíramos mas sim a encarrilar em novos rumos, mesmo que economicamente menos favoráveis a curto prazo.