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Portugal eco-friendly ou eco-fucker?

Um estudo recente  aponta para um futuro de secas extremas na península ibérica, que poderá conduzir à fricção na gestão de recursos hídricos partilhados por Portugal e Espanha. Será antecipado o catastrófico cenário de conflitos geopolíticos por disputa de recursos vitais como a água? O passado recente não tem sido abonatório para Portugal, com Espanha a colocar os seus interesses muito à frente dos nossos.

O que pode fazer Portugal? O que está ao seu alcance. Ser ética e ecologicamente exemplar para que não tenha telhados de vidro na altura de ‘atacar’ diplomaticamente a inaceitável posição do país vizinho. Se é a água um recurso partilhado sem o qual não poderemos viver, se o cenário projectado não é promissor, faz todo o sentido que ataquemos o problema analisando como gastamos água, acelerando a inevitável alteração dos hábitos de produção e de consumo rumo a um país inatacável em matéria de eco-sustentabilidade.

Portugal deve ponderar se a longo prazo será vantajoso promover actividades lúdicas sugadoras vorazes de recursos hídricos, se é inteligente manter uma gestão florestal indiferente aos volumes de consumos de água directo e indirecto (via combate a incêndios), se deve continuar a tolerar altos níveis de poluição, se faz sentido manter em marcha lenta a evolução do nível de eficiência energética nacional, bem como se não chegou a altura de redefinir a política de (des)incentivos à produção agrícola procurando promover a produção sustentável de alimentos saudáveis.

Para demonstrar ao mundo o seu empenho no combate à emissão de CO2, principal motor das alterações climáticas, Portugal deveria também acelerar a sua transição para uma economia o mais verde e circular possível. Até porque além da seca outro dos efeitos das alterações climáticas será a subida considerável do nível do mar. Situação que afectará Portugal em toda a sua costa, no que será uma enorme machadada no tão importante turismo.

E aqui surgem eventos contraditórios. Não há muito tempo foi travada, e bem, uma aventura petrolífera Algarvia, do nada surge agora uma acelerada aventura Alentejana. Ambas são ameaça ambiental idêntica em zona geográfica distinta, apenas com rentabilidade garantida para corporações, com vantagens duvidosas para a nação. O anular de apenas uma delas levanta a questão se o motivo terá realmente sido a defesa dos interesses de Portugal ou simplesmente o facto de ter execução entregue a corporações que não estão nas boas graças da governação.

Seja como fôr estamos num momento decisivo. A posição que Portugal assumir neste momento definirá não só o seu retrato ambiental como também a sua margem diplomática para negociações sobre recursos naturais partilhados. Portugal terá de escolher se se quer assumir como um admirável percursor de novas estratégias de eco-desenvolvimento, disposto a dar o tudo por tudo para arrepiar caminho, adiar ao máximo a chegada de grandes tormentas, ou se quer, de forma camuflada, limitar-se a reagir aos problemas vindouros, explorando ao máximo o sistema económico vigente, esgotando de forma predatória os seus próprios recursos naturais a qualquer custo, impulsionando uma economia extractiva global altamente poluidora, apenas para garantir um presente política, social e economicamente confortável.

Até ver parecemos caminhar rumo ao segundo cenário, enrolados numa emaranhada teia político-corporativa pouco preocupada com os sacrifícios e hipotecas irrecuperáveis a realizar para garantir lucros chorudos.

Espero que ainda vamos a tempo de acordar para estes temas, que venhamos a ser tão vigorosos a expressar a revolta face a este rumo como o fazem muitos dos estrangeiros radicados em terras Algarvias e Alentejanas. Parece que mesmo não sendo de cá sabem melhor do que nós compreender a projectada finitude dos nossos delicados tesouros naturais.

nao-petroleo