Category Archives: Memórias e Sonhos

Sonhos que as memórias despertam, porque nós sabemos e sonhamos, mas não esquecemos.

A teoria do big bang-bang

Numa única visita o bobo bully americano foi peremptório e esclarecedor. Depois de um lucrativo armar das arábias, lamentar-se num muro tão diferente do que quer construir,  seguiu para estarrecer o Papa, para por fim avisar os seus aliados de que devem pagar mais pela garantia da sua defesa, avisando-os também que terá de repensar  a adesão ao acordo de Paris sobre o clima. Foi de tal forma que nem os experientes líderes europeus conseguiram esconder a sua estupefacção perante os actos e os ditos deste novo líder supremo.

Em resposta Merkel alerta que a Europa deverá deixar de olhar para os Estados Unidos como um amigo do peito em quem se ponde confiar, de quem se pode depender, serão agora mais como um velho conhecido simpático do qual esperamos que não ajude nem atrapalhe. Em arrasto inclui o Reino Unido neste reajuste relacional. Caso isto se traduza em medidas reais falamos de uma potencial revolução da militarização europeia.

Trump é um empreendedor nato, com uma forte mentalidade comercial, o seu discurso passado e presente indicia que por si os custos de intervenções militares americanas, supostamente para defender interesses internacionais ou de terceiros, devem ser partilhados por todos os beneficiados. Desta forma a agenda americana seria executada com muito menor peso na factura orçamental. Uma transição do papel de ‘polícia benevolente’ para ‘mercenário benevolente’.

Por outro lado na Europa existem dezenas de milhares de militares americanos espalhados por centenas de bases. Qualquer tipo de retaliação à nova orientação americana passaria por diminuir radicalmente a manutenção da sua presença militar em solo europeu. Desta forma seria relançada a agenda da constituição de um exército europeu unificado, de uma modernização do armamento europeu, que permitisse a independência plena não só na defesa territorial como na intervenção internacional.

A nível mundial continua o reforço de armamento por parte das grandes potências, como que se preparando para cenários de braço de ferro em que o poder de fogo das suas Forças Armadas será músculo essencial.

Mais uma vez a força parece ser a única via conhecida pelos camelos que percorrem o deserto de ideias sem nunca se cruzar com o lendário oásis verdejante que uns loucos decidiram desmilitarizar.

E assim se eterniza a guerra psicológica, a roçar o terrorista, de imposição da paz pela força das armas ao invés de inviabilizar a guerra pela ausência de armas.

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O Novo Império Português

“There is something about Portugal” é esta a sensação internacional para com o nosso pequeno país. Um território diminuto, um aparente caos assente no desenrasca, tanta coisa por melhorar, uma população modesta com uma tenaz capacidade de arriscar, sofrer, inovar, brilhar.

Apesar de estarmos a léguas do domínio territorial e riqueza do 5º Império reaparecemos novamente na vanguarda da influência mundial, desta vez num aspecto mais importante, a um nível inspiracional.

A nível político inventou-se uma geringonça, uma união política nunca antes vista, que quebrou o seguir à letra a receita imposta por Bruxelas. Substituindo-se uns ingredientes, alterando o peso de algumas medidas lá se conseguiu, contra o vaticínio de orgãos europeus e mercados internacionais, apresentar aquilo que pretendiam por meios mais agressivos, um bolo de indicadores económicos satisfatórios. Neste momento tornou-se um case study internacional com partidos em todo o mundo a equacionar configurações semelhantes para ultrapassar bloqueios e atravessar tempos difíceis.

A nível da cooperação internacional um português consegue conquistar a unanimidade na nomeação para o mais alto cargo da ONU com a sua eloquência na exposição e abordagem de resolução dos graves problemas mundiais que afectam os direito humanos.

A nível desportivo não foram poucas as conquistas dos últimos tempos, com realce para as conseguidas por atletas de alta competição que recuperaram de graves lesões, bem como a mediática conquista do Europeu de Futebol por uma equipa a milhas de distância da promissora geração de ouro. Mais uma vez o factor de tenacidade e crença a conseguir milagres, com a particularidade futebolística da substituição forçada do astro galáctico e entrada em campo de um patinho feio que se transformou num cisne. Mais um desenrasca de fazer milagres com a prata da casa, alicerçado em muito esforço e capacidade por detrás da ilusão de magia. Uma demonstração de que é possível vencer contra todas as adversidades, de que a superação contínua é uma obrigação quando os nossos melhores deram o tudo por tudo e são forçados a abandono precoce. Tal como no passado, o aprender de mais uma lição grega.

A nível artístico tivemos sábado passado uma avassaladora demonstração da alma lusa. Um raio de densa, complexa, melancólica e fascinante escuridão a eclipsar o fogo de artifício do pop globalizado em que se transformou o Eurofestival da Canção. O esmagar do entretenimento pelo sentimento desnorteou o mundo, relembrando-o do fascínio que é a forma de expressão própria de cada povo. A cereja no topo do bolo foi o discurso de um Salvadorable despretensioso, desejoso de transformar o mundo musical em algo melhor. Um Salvador frágil, capaz de uma performance e influência poderosas, tal como o seu país.

Portugal tem estado na boca, olhos e ouvidos do mundo, influenciando, inspirando milhões. Que este novo tipo de império seja longo e próspero, impulsionando a evolução pessoal necessária para que um dia a excelência de alguns se torne o padrão da maioria e possamos um dia vir a ser também uma referência mundial a nível social.

Alegoria da Caserna

Imaginemos fronteiras bem definidas separando o mundo externo e uma caserna. Na caserna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caserna permanecem seres humanos, que nasceram fora dela e foram trazidos até ali. Ali perderam independência e reforçaram interdependência.

Na caserna o todos fundiu-se em uno apesar de nas camaratas existirem beliches de 3x ou mais níveis. Ali permanecem dispostos de costas para a entrada, acorrentados com austeridade, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além fronteiras, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os internos, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas.

Desse modo, os internos julgam que essas sombras sejam a realidade. Imagine que um dos internos seja libertado e, aos poucos, se vá movendo e avance na direcção da fronteira e a recorte, separando-se do todo, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caserna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles. Descobriu também que as meras “projecções” não definiam a verdadeira forma das coisas que eram agora acompanhados de cores, formas e luz assim como a natureza. Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram correrá sérios riscos, desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras.

Para os internos a morte do aventureiro incauto será mais conveniente e apaziguadora do que, ao longo das suas visitas frequentes, constatar a sua saúde, vitalidade e verdadeira realidade.

A Alegoria da Caverna

PS – esta é uma derivação do texto original disponível em artigo na Wikipedia

Syriza in your dreams

A Grécia chegou ao ponto em que para os eleitores o medo do conhecido suplanta o medo do desconhecido. São os novos descobrimentos, o desbravar de novas vias políticas e sociais mesmo que sob ameça das terríveis e mitológicas consequências que habitam nessas paragens.

Oh, que povo esse, capaz de se lançar ao sabor dos ventos, preparado para lutar e dobrar o austero cabo das tormentas! Haverá, ou terá alguma vez havido, no mundo, outro povo assim? Há quem diga que sim. Pessoalmente creio que não. Não passam de lendas, nada mais do que lendas.

Desde os tempos de Esparta que não se via tamanha valentia e fibra guerreira no povo Grego, que se revela maioritariamente Charlie, protegendo a sua democracia da melhor forma possível, penalizando aqueles que os conduziram ao seu presente estado de desgraça.

Tiro-lhes o chapéu. Hoje os grandes jokers Europeus engolem em seco perante tamanho ás de trunfo. Agendem-se as calendas pois inevitavelmente a Grécia torna-se hoje um imenso cavalo de Troia que forçará a negociação de um novo cenário que agrade a Gregos e a Troikanos.

Keith Thompson Art - Trojan Horse

Lisboa Menina e Moça que os meus olhos te vêm tão pobre

Lisboa está na moda! Em rota de contra-ciclo com a economia portuguesa, o turismo da capital tem ganho um novo fulgor. De repente, as sete colinas, a luz e o pitoresco das ruas atraem a atenção dos jornalistas da especialidade.

Para mim, nada mais óbvio. Sempre que visitei o estrangeiro e as outras capitais europeias, e por mais belas e monumentais que fossem, sempre achei que lhes faltava a claridade e a proximidade do rio que Lisboa possui.

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O turismo é encarado como algo positivo em Portugal, e ai de quem disser o contrário, afinal mexe com os interesses de muitos e o trabalho de tantos. Contudo o país virar-se para o turismo como aposta é errado e não se coaduna com um país que se quer desenvolvido. Nós portugueses, nunca fomos mesmo bons nesta coisa de se pensar no que se quer do país. Nós só pensamos o país de repente, quando a coisa corre para o torto, e de repente todos sabíamos que isto ia dar mau resultado, mas também de repente paramos de pensar…

A aposta no turismo como modelo económico de determinadas zona do país como o Algarve e a Madeira, para além de descaracterizarem as religiões (o Algarve todos o vêm como zona balnear, com casas vazias e hotéis que se enchem no verão, e todos desconhecem o Algarve das gentes rurais, de povoamentos isolados, das gentes pobres que caminhavam quilómetros e quilómetros sob o sol que queima para chegar ao médico, à biblioteca, à farmácia). Essa aposta leva a que essas zonas para além de dependerem de uma actividade sazonal (no caso do Algarve cujo pico de turismo é no verão) expõe-o às flutuações das condições económicas (veja-se aquando do início da crise de 2008 o sufoco que foi no Algarve e também na Madeira devido à queda da procura generalizada). Para além de que para estas duas zonas, o turismo não tem sido uma boa arma para fixar a população jovem, sendo zonas de grande êxodo.

O Douro, que já está em rampa de lançamento acelerado para o turismo, corre um certo risco de descaracterização, embora menor do que aquele a que o Algarve esteve e está exposto, mas depende da vontade de quem domina esse turismo, e lembre-mo-nos que as grandes propriedades vinícolas do Douro estão nas mãos de estrangeiros. Neste processo de descaracterização que o turismo provoca, é cultura que se perde. E a cultura é aquilo que nos une enquanto povo.

O turismo tem ainda outro risco, é que ele é apenas um serviço, e não cria riqueza. Talvez por isso, o turismo em Portugal tem sido gerador de postos de trabalho precários, empregando muita mão-de-obra pouco qualificada e com taxas de sindicalização muito baixas, o que reduz ainda mais os salários, não pingando para a sociedade os recursos adquiridos com a actividade. O comércio criado ao serviço deste turismo também não cria postos de trabalho seguros. A giríssima marca “LisbonLovers” é acusada de contratar os seus trabalhadores a recibos verdes. 

Quando o turismo é uma aposta em anos de empobrecimento e de acentuação profunda das desigualdades, e quando é um sector que nesses anos cresce sem que haja condições do fomento da procura interna mas o enfoque na atracção da procura externa, é só mais um sinal de empobrecimento e um veículo de aprofundamento das desigualdades. Isto acontece em Portugal e nós não temos desculpa, porque sabemos muito bem o que é o turismo. Tornar o país num destino turístico sem que haja uma visão estratégica para o país, sem que o turismo seja enquadrado como apenas mais uma dimensão, mas em vez disso como oportunidade e recurso de criação de riqueza a curto prazo, é uma mentalidade terceiro mundista, própria de países pobres e atrasados que não têm mais nada para oferecer.

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Atenção, eu não estou contra o turismo. Ele cria postos de trabalho e acima de tudo promove a requalificação urbana da cidade. Mas não nego que me causa a sensação de soco no estômago quando na minha hora de almoço, diariamente, dia após dia, vejo a pobreza que vai nas ruas da capital. Os sem-abrigos são em número nunca visto, os portugueses passam nas ruas de olhos tristes, após 8 horas, 9 horas, 10 horas ou até mais de trabalho, sem conseguirem fazer face às despesas,  com familiares em casa desempregados e crianças para cuidar, na incerteza de um futuro que não se quer ver, ou os portugueses que já nem trabalho têm nem a esperança de um dia o voltar a ter e que caminham vencidos neste país, que em vez de os apoiar os engole.

Diariamente, várias vezes ao dia, passo pelos mesmos pedintes, pelos mesmos rostos, alguns já idosos, outros mais jovens, uns alcoólicos que desistiram já deste mundo, uns que aparecem num dia e no outro já não os vejo, outros que um dia apareceram e desde aí todos os dias os vejo, outros ainda que terão casa e tecto mas simplesmente o rendimentos não lhes basta para o dia-a-dia. Alguns é certo, conheço-os há anos demais e não posso culpar a crise: há um senhor que vende fotografias e relógios de sol e tem dois cães, chegou a ter 11 samoiedos, conheço-o desde miúda, creio que é da América do Sul e gosto dele.  Existe ainda a famosa D.Maria que canta o fado à porta da Lord, ou o grupo de freaks que na rua do Carmo pedem dinheiro para cerveja e charros. Mas e os outros todos? E o velhote que está todas as manhãs à saída do parque Camões e pede repetidamente “uma moedinha”? E a velhota que em vários pontos da cidade ao passarem por ela no passeio grita que está cega e pede 10euros para pagar a renda?  E as duas senhoras que vendem poemas entre o Carmo e a Rua Garret? Em torno do Teatro D. Maria uma fila de sem-abrigos dormem lado a lado. Pela Avenida da Liberdade outros não sei quantos fazem daquela calçada sua cama. O Sofitel recentemente colocou ferros para evitar que os sem abrigo se deitem ali. A loja da Gant há vários anos que partilha o seu tapete da rua com um sem abrigo, jovem, toxicodependente. Ao lado do São Luís 3 homens dormem, pelo menos 1 está lá sempre. Tem um cartaz a pedir respeito e para não o incomodarem. Sempre existiram sem abrigos, mas não neste número. Os Restauradores, ao cair da noite, transforma-se num dos dormitórios de Lisboa. Santa Apolónia assiste ao engrossamento do seu exército de hóspedes há anos. O número de sem-abrigos cresceu silenciosamente, o perfil do sem-abrigo mudou. Há famílias a viveram na rua, em carros, em dormitórios incertos. Arriscam manchar o turismo da cidade.

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Na cidade onde ainda aqueles que trabalham (mas não conseguem já aqui morar, porque muitos foram empurrados para procurar casa longe da sua cidade natal), ou na cidade daqueles que ainda aqui moram, nesta cidade abrem hotéis atrás de hotéis, transformam-se terraços em restaurantes de luxo e bares finos, nos quais a maioria dos lisboetas não poderá jamais jantar ou beber uma imperial. As ruas desta cidade desenhada por colinas, onde abrem esplanadas no mesmo sítio onde antes brincaram os lisboetas, são de facto lindas. Os turistas são bem vindos, os lisboetas certamente ficam felizes por verem Lisboa reconhecida por aquilo que eles sempre souberam: é a mais bela cidade do mundo. Mas os lisboetas desta cidade da moda agonizam, e com eles agoniza também a cidade. Porque onde abre um hotel foi antes a casa de alguém ou os escritórios de uma importante empresa, onde abre um restaurante de um qualquer chef, foi uma loja habitual de muitos lisboetas, ou o seu ponto de encontro. E uma após outra loja foram fechando e vão fechando, cedendo ao low cost, às lojas dos chineses, às lojas dos indianos, aos hotéis, aos restaurantes… Livrarias, alfarrabistas, ourivesarias, capelistas, lojas de roupa, pastelarias, tascas… E uma e outra, vão morrendo, e com elas morre também uma parte de Lisboa.

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O Turismo é bom. Mas este turismo que ameaça a memória da cidade, que destrói postos de trabalho, e que é feito ao lado da miséria de tantos e que exclui os lisboetas e os portugueses, este turismo destrói!

Um Dia o Sol Foi Meu

AVISO:

1º Um dia o sol foi meu! Que não haja dúvida!

2º O Sol que vos ilumina só é astro rei para os sub-lunares. Que sois vós.

3º O sol que aqui trataremos foi rei um dia e sê-lo-á sempre. Coisa impossível para outros sóis. Até as estrelas morrem; fazem puf…

4º O que aqui será dito é inteiramente verdade, factualmente e cronologicamente. Salvo aquilo que se entende, e pretende, como criação.

5º À criação tudo é permitido. Até mesmo colocar o Sol em movimento rotativo, como já aconteceu.

6º Para quem tem a tendência, porque os há, de por tudo em causa; mesmo aquilo que

d-escrevo; fica-lhes aqui a orientação remetida para o ponto 1º deste aviso.

 

SOL para-'Um Dia o Sol Foi Meu'

Fiat Lux!

 

Com a chegada das andorinhas partiam os compinchas. Os afazeres domésticos agendados, alguns, desde as últimas férias grandes, tornavam os meus amigos mais atarefados que em tempo de aulas. Estávamos em férias grandes. Era uma freima.

Naquele ano, não sei porquê, os meus dois compinchas habituais estavam mais ausentes ainda. Ajudaram-me a levar o papel à farrapeira, algumas coboiadas, alguns pontapés na bola, umas idas à bouça e, murchou. O Mário parece que tinha ido visitar os seus familiares Galegos e o Júlio… o Júlio, olhem nem sei; mas que faltava à chamada habitual assobiada de cima do muro, faltava. Agora fiquei intrigado, porque faltou nesse ano?… Hei-de perguntar…

Tenho mesmo de saber porque nesse ano nem me ajudaram a arrumar a garagem.

Por isso andei por ali… não tinha irmãos, os meus primos já olhavam prá sombra das raparigas, e para elas mesmo parece-me, mas isso são outras conversas; a garagem estava ali… para ser arrumada… mas, também dali não saía… pintei as grades da varanda do jardim, lubrifiquei os estores com massa consistente, fiz uns recados, mas… Como se diria hoje, uma baita duma seca.

As únicas saídas que tinha, ali por perto, eram alguma entrega leve a uma cliente ou uma ida à farmácia. Sempre rápido, ia numa sandália e vinha noutra.

Foi numa ida à farmácia, mais precisamente numa vinda, que tudo mudou ao ser interrompido pelo meu tio Jerónimo de saída para não tenho nada com isso, Olá Zé, Olá tio, Está tudo bem lá em casa? Muito obrigado está sim senhor, E a tia como tem passado? Bem, para onde vais?

Vou agora mesmo para casa que venho da farmácia e… A avó está doente? Não senhor está tudo bem, Então vamos os dois, que eu quero falar com a tua mãe.

Com-a-mi-nha-mãe? Qé que eu fiz?

Olá Fernanda, Olá Jerónimo, Então tudo bem? (duas vezes), eu vinha cá convidar o zézito, se você deixar, para ir almoçar lá a casa, pode ser? Pode, quando? Agora, daqui a bocado. Então Zé agrada-te a ideia? Pode ser, obrigado. Ó Fernanda, levo então mais uma laranjada para o rapaz e ele assim vai já comigo.

Porta-te bem!

As mães, de todo o Mundo, deviam saber que os filhos só se portam mal em casa, em frente delas e dos respectivos maridos. Na casa dos outros são uns “anjinhos”, toda a gente sabe disso! Mas nunca resistem a envergonhar as crianças, que se sabem portar lindamente, com o inevitável; “porta-te bem”…

Tipo… ai… mete-me uns nervos…

Apresento-vos o casal, antes do almoço, senão vocês não percebem patavina do que estou para aqui a dizer. Se tiverem dúvidas perguntem. E não se façam convidados.

O meu tio Jerónimo era casado com a minha tia Laurinda, alguns de vocês conheceram, mas os mais novos não sabem como eram simpáticos e simples esses nossos tios (falo para vocês primos). Se há casais que deixam saudades pelas suas meiguices ao longo da vida este foi um deles, é por isso que, embora fossem também vossos tios, os trato assim, possessivamente.

A nossa família pode falar assim, possessivamente, de muitos tios. Conheci muitos e sei do que falo. Daremos tios de posse também, tenho a certeza.

Nem me lembro do conduto, o que se tratou no “almoço de trabalho” foi aeronáutica, e falemos disso. Vocês sabem como eu gosto de ser aéreo…

Ó tia, prometo que vos vou dedicar um tempinho, que bem merecem, para que esta meninada saiba quem foram, mas agora tratamos de engenharias, de construções, de elevações aos céus, de viagens e outros voos. Depois tia; está prometido.

Ó tio então e onde arranjo canas? Na Quinta da Pícua? Papel de seda tenho o da escola, goma-arábica arranjo na loja, fio peço à tia Alice, Não dá? Fio do Norte? Ó… isso só na drogaria; vou ao mealheiro. Rabo? Qé isso? Ah… para dar estabilidade… e o tamanho? Não! O rabo já sei. O tamanho do sol? Metro e meio? Mas… metro e meio é mais que minha altura!…

Vou arranjar as coisas e depois venho cá, domingo já devo ter as canas; depois venho cá.

Até me esqueci das despedidas, saltei as escadas, degraus dois em dois, olá prima Lurdes, até logo primo Albano e isto é segredo meu, construção clandestina Los Alamos de Águas-Santas, aeronáutica experimental em construção amadora, Alto! E o fio do norte, mas como é que vou arranjar dinheiro para comprar dois rolos de fio de norte?…

Na tarde combinada, estando os materiais devidamente aprovisionados e conferidos em quantidade e qualidade, iniciaram-se os trabalhos no hangar a que também se dava serventia de cozinha.

A simetria dos raios, seu comprimento e furação, a amarração central com precisão de bobinagem e a fixação das pontas das canas (da Índia por exigência), fizeram o conjunto aeronáutico duma limpeza que, ficamos certos, ao voar, o escoamento laminar perfeito impediria a perda imediata de sustentação. Nascia um aerodino.

Continuamos na célula. A fuselagem é tão importante quanto a estrutura.

A colagem dos gomos foi feita com um cuidado meticuloso de puzzle sendo o pincel muitas vezes introduzido de viés aperfeiçoando uma união já consolidada. As pontas das canas sendo boleadas exigiram um remate especial. As cores do papel de seda, em alternância, davam ao conjunto, um garrido que se assemelhava à alegria dos construtores de aeronaves.

Que bonito…

Antes de nós um construtor de aeronaves a sério tinha dito: – Se for bonito, voará bem!

Era o caso. Voará bem…

E eu, ainda de mãos pegajosas de goma-arábica e dedos golpeados da caça às canas tinha sido parte da aventura, era quase, é bom que se saiba para que me olhem com conveniência, engenheiro aeronáutico.

Na verdade fui mais assistente de engenharia, mais dá-cá-isso, de vez em quando chegamisso e finalmente chega-rebos, uma vez que no fim do rabo estava projectada e recebeu competente instalação, um saco com uma pedra que, poderia variar a massa em função das necessidades aerodinâmicas. Mas quem escolheu a massa fui eu!

Um Primor! Uma construção Mimosa!

Era a hora do lanche. Leite com torradas que até me está a crescer água na boca…

Ó tio, podíamos ir agora!

Não, vamos deixar secar e amanhã se estiver Sol vamos lançar o sol para a Caverneira.

Esteve Sol!

As operações não se resumiam a uns meros 10, 9, 8… e por aí fora até ao lift off…

Nada disso! Muito mais complicado, muito mais saber, muito mais engenho.

Estávamos na Caverneira! Isso de Canaverais é para amadores.

Briefing ao equipamento:

SOL – Ok,

RABO – OK (massa colocada e bloqueada),

AMARRAÇÃO – verificada e centrada,

FIO – livre e pronto a esticar,

VENTO – de frente, firme e estável,

MOTORES…

(não sei se os que me lêem sabem como se descola um sol. Se não sabem perguntem aos mais velhos e deixem de ser engraçadinhos OK?)

– Firmes!

A pista foi escolhida tendo em conta a orientação do vento e as condições do terreno, exigências técnicas que presentearam os aeronautas com uma vista lindíssima sobre o Mundo; que nos observava.

(quem conhece sabe que a vista da bouça (que ainda existe como tal) mesmo ao lado da Associação Recreativa os Restauradores do Brás-Oleiro é das mais bonitas do Mundo.)

O vento barlava suave de Setentrião, lado do bom tempo… corre!… corre mais… Mais!

Ergueu-se o aparelho em vida colorida, serpenteava o rabo em danças de dragão asiático, bamboleava a pedra ameaçando quem se intrometesse. Que beleza!…

A pilotagem era feita de coração ao pulos, como a alegria, rodopiou algumas vezes o astro mas sempre firme no seu querer de subir, que galhardia.

Durou que tempo? Minutos? Segundos? Horas não, mas o que é o tempo? Que importância é que isso tem! Ainda dura.

Até que soprou o Zéfiro regressado dos seus trabalhos equídeos. E regressou forte. Não foi cisalhamento mas uma faca que surgiu. O enfiamento perfeito, a subida firme, a postura airosa antes desta rajada, resultaram numa vrille descontrolada até às copas mais altas dos eucaliptos.

O que faz um piloto quando a sua aeronave cai?

Eu caí de joelhos. Chorei. Chorei olhando o arco-íris que o sol fazia entre a mais alta copa da bouça e os meus olhos. Nunca mais esqueci aquela luz. Passando lá, mesmo à noite, ainda a vejo.

A luz dum sonho que se eterniza.

 

(imagem retirada de http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/591638.html)