Monthly Archives: Agosto 2026

Desconexão forçada

A Meta, empresa gestora de Facebook, WhatsApp e Instagram, foi pressionada a introduzir mecanismos automáticos para moderação da utilização por parte de adolescentes. Resumidamente vão introduzir limites diários de utilização, bloqueio de serviço entre a meia noite e as seis da manhã, inibição de notificações durante o horário escolar, e alteração dos algoritmos que promovem comportamento aditivo de scroll infinito.

Sendo positivo, não é de todo uma solução à prova de bala pois existem milhentas alternativas onde este tipo de medidas ainda não são aplicadas. Desde a geração Z, iniciada com os nascidos em 1997, que passamos a ter adolescentes “nativos digitais”, crescendo num mundo de intensa distracção que compete pelo seu foco e influencia o seu desenvolvimento.

Está mais do que provado que a exposição precoce e contínua ao mundo digital provoca atrasos no desenvolvimento físico, cognitivo, linguístico e social de crianças e adolescentes. Antes dos estudos era fácil constatá-lo empiricamente, mesmo assim muitos pais preferiam entregar as suas crianças aos ecrãs mantendo-as calmas, controladas, dentro da segurança e conforto do lar ao invés de as deixar deambular pela incerteza do mundo exterior e das provações psíquicas, emocionais e sociais oferecidas pelas interacções cara a cara, olhos nos olhos. O cúmulo do resultado disto é constatarmos que grupos de amigos ou namorados expressam a sua relação simplesmente pelo facto de estarem conectados à mesma wi-fi, chegando a mesmo presentes na mesma sala comunicar via mensagens e shares. Ou em alternativa juntarem-se online, cada um na sua casa, usando avatares em jogos ou plataformas de mundos virtuais, ondem podem ser e dizer o que quiserem sem grandes danos já que todos assumem que ali é território sem limites dos seus alter-egos, que melhor se desenvolvem de forma fantasiosa do que o seu ego conectado ao mundo real.

Há muito que existem mecanismos de controlo da utilização de ecrãs digitais e acesso a sites, se não foram utilizados isso só demonstra a impreparação parental para a sua aplicação. Pelo que estas medidas parecem-me enquadrar-se mais como correctivos de parentalidade do que propriamente correctivos de comportamentos de adolescentes. Suspeito que em breve terão de ser alargadas para que exista um controlo institucional dos smartphones atribuídos a menores de idade, a fim de garantir que todas as crianças e adolescentes são limitadas na duração e tipo de conteúdos a que são expostos. Se o problema começa aos meses de idades, onde pais cansados e inconscientes, se demitem da obrigação de foco e disciplina no criar da sua prole, “enganando-os” triunfalmente com tablets a passar os desenhos animados preferidos enquanto lhes enfiam colheres de comida pela boca, que sentido faz criar um travão moderador apenas quando chegam a adolescentes?

As limitações de acesso ao digital, que inclui serviços de streaming e TV, deveriam ser impostas desde tenra idade, pelos pais, não pelo estado mas neste caso parece-me que faria sentido estabelecer regras nacionais que normalizem o patamar mínimo de segurança e estímulo ao desenvolvimento. Tal como temos a proibição de venda de alcoól e tabaco a menores.

Provavelmente a situação que vivemos resultou da falta de informação pedagógica, ou pior, terá havido no passado estímulo à exposição precoce como suposto acelerador do desenvolvimento. A informação e exemplos existiam e eram conhecidos por quem a procurasse. Seja como for a realidade é que temos agora algumas gerações destabilizadas por esta exposição excessiva, as que serão pais das próximas, pelo que será no mínimo desafiante corrigir a trajectória. Curiosamente poderá ser a IA quem virá abanar e conduzir as gerações mais jovens à reflexão sobre os limites digitais. Caso isso não suceda, no pior dos cenários, as próximas gerações serão criadas por agentes inteligentes criados à medida pelos seus brilhantes pais, servindo de ponte entre humanos desconexos que são incapazes de estabelecer relações profundas e lidar com as ralações que daí advém.

Family members gathered in a living room, talking and using digital devices

O estreitar do poder

Numa jogada magistral eis que a invasão de Ceuta exponencia a fricção pública entre esquerdistas e direitistas, alimentando o ódio mútuo que cada vez mais alarga o fosso que os separa. Cada facção empodera-se a si própria com o reforço crescente da sua razão incontestável. Na realidade ambos são ludibriados pela sua inteligência, de espectro reduzido, deixando-se manipular devido à sua ignorância sobre o mais abrangente. Inteligência é útil mas está longe de equivaler à sabedoria. O que se passou em Ceuta não foi nada do que qualquer um dos lados alega mas sim algo muito mais complexo que é aflorado neste vídeo. Se tens a certeza de que foi um simples caso de crise humanitária, onde o que deve ser debatido é a abertura para os receber ou não, por favor permite-te exposição a enredos geo-políticos de alto nível.

Mais do que chover no molhado, opinando sobre o que já está mais do que abordado sob múltiplos pontos de vista, irei neste post destacar o que tem acontecido nos últimos tempos e que pode muito bem estar correlacionado.

  • 2014: Rússia invade Crimeia passando a deter controlo do estreito de Kerch, foi a semente para a situação de guerra hoje vivida.
  • 2025: USA exigem o fim da influência chinesa no canal do Panamá e maior controlo sobre a actividade marítima nessa rota.
  • 2026.02: USA atacam Irão e tentam assumir o controlo do estreito de Ormuz, ensaindo várias estratégias para o seu financiamento por parte dos utentes dessa rota marítima. Ao mesmo tempo causam enorme disrupção, ou mesmo adiamento, do projecto chinês de estabelecimento de uma nova rota da seda, independente do transporte marítimo.
  • 2026.06: USA reforçam influência sobre gestão do estreito de Malaca ao firmar parceria com Indonésia. (que se junta às já existentes com Tailândia, Singapura e Malásia)
  • 2026.07: Marrocos usa a fachada de uma vaga migrante para exercer pressão de encontro à recuperação de território ocupado por Espanha (Ceuta e Melilla), duas cidades do Norte de África (não no continente Europeu) fundamentais para o controlo do estreito de Gibraltar. Marrocos é um aliado preferencial de USA e Israel.
  • 2026.08: Trump afirma que até ao final do mandato a gestão da Gronolândia será tranferida para os USA. Curiosamente dentro da esfera de influência da Gronolândia está o importante estreito da Dinamarca.

Como se pode ver, apesar das narrativas de promoção de direitos humanos, democracia, travar o comunismo, etc, o que se efectiva é uma tentativa de domínio absoluto dos principais pontos de navegação marítima. Se executado como planeado significa o enorme alavancar na influência geo-política, impacto nas economias de transporte e negociações comerciais.

Isto é o que verdadeiramente se está a passar. A tentativa de um poder dominante prolongar a sua hegemonia, causando forte disrupção em todos os concorrentes, doa quem doer. Servindo-se de peões inocentes, criando ignorantes úteis em ambos os pólos para que se desgastem infantilmente numa luta fraterna, ao invés de como os graúdos que são, investirem o seu tempo e energia para perceber e tentar travar as nefastas transformações que estão a ser impostas ao mundo.

Não faço a mínima ideia de como se travam acontecimentos desta magnitude mas comecemos pelo básico, abramos os olhos e encontremo-nos no caminho do meio.

Crowd of protesters holding signs for and against migration separated by police near harbor with naval ships