Monthly Archives: Maio 2026

O domíno do medo e coragem

Apesar do medo de nascer, nascemos, num caos de dor, lágrimas, suor e sangue.

Apesar do medo do desconhecido, crescemos, experimentando todas a sensações sensoriais e emocionais.

Por medo de ficarmos sozinhos, encarneiramos ideologias ou mantemos relações que em nada nos beneficiam.

Por medo de não encontrar um emprego melhor, desgastamo-nos em drenos diários de corpo e alma.

Por medo de consequências pessoais, não nos envolvemos em injustiças globais ou alheias.

Por medo de uma doença conhecida, entregamo-nos a curas desconhecidas.

Por medo de um hipotético confronto de igual para igual, tomamos a iniciativa de combate preventivo a adversários ainda débeis.

Apesar do medo de morrer, morreremos, sabe-se lá como.

A vida empurra-nos incodicionalmente para a coragem nos ritos de passagem obrigatória (ou quase), que nos são impostos por massivas externalidades. O parto, a locomoção motora, o ficar só, o enfrentar do mar, o iniciar do ciclo de ensino, o óbito de quem nos é próximo, acidentes graves, condições crónicas, o aproximar da própria morte. Nestes momentos existe uma grande clareza: ou surge a coragem de seguir em frente ou a atrofia é garantida. Mesmo na morte convém partirmos fortes e em paz, mais não seja para facilitar a vida aos vivos.

Fora deste espectro de acontecimentos a batalha entre o medo e a coragem torna-se mais feroz. O medo é aliciante, oferece o conforto, inevitabalidade e aceitação do status quo. A coragem desassossega, comicha a acção emergente do âmago do nosso ser que procura exprimir-se e agir. O medo preserva o espaço, a coragem salta para o vazio por repulsa a esse mesmo espaço.

Curiosamente a acção resultante do medo é projectada no mundo real, normalmente levando ao reforço das condições que o geram. O medo dominante tanto pode conduzir à apatia como se pode servir da coragem para agir de forma irracional e impulsiva, com consequências imprevisíveis. Já na coragem o que primeiro muda é pessoal, a atitude, a consciência, o pensamento, sendo o principal intuito o sair da zona de influência do medo. A coragem não procura destruir a origem mas sim o medo em si, o resto advirá por si mesmo numa acção tranquila e assertiva.

Num mundo que promove o medo institivo para manipular a construção e direcção da coragem, é importante erguermos defesas informadas, a fim de manifestar uma coragem moralmente firme e impoluta.

A golden-armored warrior with a flaming sword and shield fights a dark skeletal monster with glowing purple eyes on icy terrain.

Os Ciclopes ao piano: uma mão-cheia de inovação

Venho falar-vos de música, 4 minutos de música. Descreve gigantes mitológicos a trabalhar na forja, martelando ritmicamente, a transformação pelo fogo. Um cenário rude e fabril, mas que, em rigor, precede a Revolução Industrial. É música! Barroca na forma, romântica no conteúdo. Chega-nos graças à acção isolada, mas involuntariamente concertada, de 5 notáveis.

O primeiro? Inglês, séc. XVII, Sir Isaac Newton. Sem o saber, foi o grande maestro que orquestrou tudo através da sua Lei da Gravidade. Inovou porque esclareceu.

O segundo? Italiano, então cidadão da cidade-estado de Florença, séc. XVIII, Bartolomeo Cristofori, deu corpo ao som do cravo e inventou o piano. No cravo, o som nasce pelo beliscar das cordas por um plectro, o que cria um som seco e brilhante, de textura metálica, mas cru, sem grande ressonância; as notas são vivas, mas breves. Um cravo nunca soa como uma orquestra. Cristofori inovou: criou o mecanismo de martelos que permite controlar a intensidade do som, algo que o cravo ignorava. Piano, em italiano, significa suave, leve; daí o nome completo pianoforte, instrumento que permite variar a intensidade sonora entre o mais suave e o mais forte.

O terceiro? Um engenheiro francês, séc. XIX, Sébastien Érard. Inovou ao criar o motor que faltava ao piano de Cristofori: a dupla repetição — permite ao martelo escapar à rigidez do mecanismo actuador, com ajuda da gravidade, oferecendo maior velocidade e controlo mais fino; de um modo simples, não é necessário esperar que a tecla regresse à posição original.

Aí vão 3. Quem é o 4.º? Também francês, contemporâneo do inventor do piano, séc. XVIII, foi um teórico da música que estabeleceu as leis que regem os acordes quando escreveu o seu Tratado da Harmonia. Falo-vos de Jean-Philippe Rameau, compositor que nunca escreveu para piano. É ele o autor da obra que hoje vos convido a conhecer ou recordar.

E quem a toca? Dos 5, é o único que ainda está entre nós, o virtuosíssimo pianista russo Grigory Sokolov. Qual a inovação? Bom, ele trouxe para a riqueza harmónica do piano uma obra pensada para o áspero cravo, que não só é mecanicamente mais rápido, como tem dois teclados que facilitam os cruzamentos de mãos.

O desafio? O piano de concerto é uma máquina pesada; as suas teclas, por comparação, são mais lentas na acção. Embora Sokolov não tenha sido pioneiro na adaptação de composições barrocas para o piano, foi o intérprete que as elevou para um novo patamar. A sua mestria reside na combinação aparentemente impossível entre uma precisão mecânica e uma graciosidade rara que, em conjunto, nos revelam o romantismo escondido nos frenéticos ritmos de Rameau. Graças a esta mão-cheia de inovadores, o piano soa tão ágil e preciso como o cravo e, simultaneamente, como uma orquestra.

Antes de vos dizer qual a obra, quais os maravilhosos 4 minutos que vos desafio a ouvir (e a ver), um alerta: não tentem isto em casa! Aquilo que vão ver e ouvir parece fácil, tal a mestria do intérprete, mas não é; é dificílimo. Não questiono o vosso talento ao piano: tudo está relacionado com o equipamento! Sim, mesmo a minoria que entre nós foi agraciada pela lotaria da vida e tem em casa um piano, muito provavelmente não dispõe do equipamento necessário.

Porquê? Porque, como o metro quadrado está pela hora da morte, os pianos domésticos são normalmente pianos verticais. Ora, é aqui que Newton volta a ser chamado: a acção da gravidade desempenha um papel fundamental no mecanismo de Érard. No piano vertical, as cordas estão “em pé”, o que obriga a substituir a gravidade pela acção de molas para que o martelo recue. Esta complexidade extra é contrária ao próprio conceito do piano vertical, que privilegia a simplicidade e a economia de espaço, resultando frequentemente na ausência da dupla repetição. Sem a física a favor, nem o maior virtuosismo do mundo vos salvará de “atropelar” as notas desta peça.

Resta-me revelar a peça: “Les Cyclopes”, da Nouvelles Suites de pièces de clavecin (1728), de Jean-Philippe Rameau, na interpretação ao piano de Grigory Sokolov. Espero que gostem; a mim, lava-me a alma de toda a mágoa e enche-me de alegria.

(Para ver e ouvir, clique na imagem)