Category Archives: Escárnio e mal-dizer

Hashtugas

Num período manchado por um pico de sinais evidentes de corrupção ao mais alto nível, por actos de destruição ambiental, por Pedrogão e seus bastidores, por novo aumento galopante do preço dos combustíveis, pelo contínuo fragilizar do nosso sistema de saúde, as grandes mobilizações chegam-nos em forma de greves orquestradas pelos sindicatos sectoriais. Por onde anda a unidade nacional que conduza a um basta generalizado? Estaremos assim tão confortáveis com o estado da nação?

Nós os portugueses, grandes pioneiros, early adopters, evangelizadores de todo o tipo de novas tecnologias, fomos de tal forma digitalizados que acreditamos que é o meio de comunicação digital a nova meca da indignação e activismo político-social. A nossa luta faz-se agora num palco virtual de volumetria imponente em termos de camaradas e reações emojionais. Apoiamos e lutamos incondicionalmente a favor de causas merecedoras desde que isso não implique uma manifestação física, uma confrontação direta com oposição frontal aos que pensam de outra forma, ou pior com as forças policiais mandatadas pelo governo contestado. Mais, ainda ridicularizamos quem ouse fazê-lo, transformando-nos em pouco mais do que trolls digitais.

Lá fora poderão não ser tão ávidos e aptos na exploração de novas tecnologias, o que faz com que, através da sua maior primitividade, acabem por utilizar os novos meios de comunicação para marcar a diferença, para forçar a mudança ou, pasme-se, mesmo para juntar grandes aglomerados de cidadãos dispostos a dar a cara, a fazer ouvir a sua voz, por algo em que acreditam.

Ao longo dos anos surgiram espontaneamente pelo mundo fora hashtags como #MeToo, #BlackLivesMatter, #WomensMarch, #MarchForOurLifes#ArabSpring, #ElectricYerevan, #Vemprarua, etc, que efectivamente se traduziram em manifestações de milhares nas ruas, forçando o debate e mudanças na sociedade civil.

Por cá as hahstags têm até hoje sido sobretudo utilizadas para fins de entretenimento e marketing corporativo, sem grande expressão ao nível de um activismo que se traduza na manifestação de milhares de Portugueses nas ruas ou na força de colocar em cima da mesa temas que o governo e media varrem para baixo do tapete. Muita sorte teve Timor por há 10 anos atrás não existir o nível de adopção das redes sociais de hoje.

Será que a passividade actual se deve à falta de situações que  justifiquem manifestações de rua? Ou teremos personalizado a hashtag ao ponto de esta se tornar mero adereço decorativo?

 

Make China Great Again

A grandeza prometida pelo slogan de campanha tornou Trump refém da sua própria fanfarronice. Resta-lhe a fuga em frente, feita de sensacionalismo inconsequente numa vertigem mediática cujo alcance é curto. Aos aliados exige subserviência, mas não obstante, impõem tarifas comerciais. Declarou assim guerra comercial aos parceiros de sempre. Fê-lo sacrificando a realidade dos números à popularidade entre quem o apoia. A opinião doméstica ignora que a balança comercial entre os EUA e a UE é francamente favorável, pois mesmo sendo deficitária na importação de bens transaccionáveis, o repatriamento de lucros dos gigantes tecnológicos americanos geram um excedente significativamente vantajoso. A guerra de tarifas com a Europa não trará vantagem alguma, muito menos grandeza.

Intimida, faz da bravata ferramenta negocial. A vantagem que julga alcançar é precisamente a teia em que se deixa enredar, especialmente na Ásia. O superávite na balança comercial face à UE não se verifica face à China, é até bastante deficitário. Contudo, Trump acreditou que o presidente da China, Xi Jinping era apenas um modesto jogador de Mahjong. Não percebeu estar perante um sagaz jogador de Xadrez, um verdadeiro mestre na Arte da Guerra. Para Donald, Sun Tzu é fake news. Os factos, esses, sabemos que são preferencialmente alternativos. A candidatura a Nobel da Paz por exemplo. O pretexto da cimeira com o líder da Coreia do Norte foi apresentado aos americanos como uma demonstração de competência. De tal forma parecia comprovar a estratégia da retórica beligerante que o entusiasmo transbordou. Perante a possibilidade da cimeira não se concretizar, ficou sem troféu mediático. Coitado, não percebeu com quem verdadeiramente negociava. Acreditou ser com Kim Jong-un, quando na realidade foi sempre com Xi Jinping. Perdeu. Foi obrigado a suspender as tarifas comerciais sobre as importações Chinesas…

Bem-vindos, Bienvenue, Welcome, Wilkommen, أهلا بك, 欢迎

Recentemente o nosso primeiro ministro afirmou que os nossos problemas demográficos apenas podem ser resolvidos recorrendo à imigração. Faz algum sentido. Escusamos de tentar resolver a todo o gás as causas que levam os Portugueses a ter poucos ou nenhuns filhos ou mesmo a emigrar.

Certamente que algures no mundo existirá população para quem este Portugal será uma grande melhoria do seu nível de vida. Pessoas habituadas ao trabalho incerto, capazes de receber o salário mínimo nacional e mesmo assim enviar uma grande quantidade de remessas para o seu país de origem, habituadas a viver na periferia, confortáveis com a circulação em meios de transporte à pinha, para quem a simples existência de um sistema de educação e de um sistema de saúde é benesse suficiente independentemente das suas condições, pessoas para quem a corrupção ao mais alto nível seja a tal ponto familiar que nem se apoquentem com isso, concentrando-se em (sobre)viver as suas existências, dando graças a uma qualquer entidade divina por neste território escaparem à exploração, miséria ou morte que os assolaria no seu país.

Deveria ser fácil mas aparentemente está complicado trabalhar a retenção e a conquista de população imigrante que depois de contacto com a nossa realidade rapidamente emigra para outro país.

Querem ver que estamos mesmo mal!? Se não conseguirmos reter a classe trabalhadora teremos de optar por ceder o melhor de Portugal para convencer gente abastada de fora a instalar-se confortavelmente com vista para o mar? Sim, porque colocá-los no interior florestal poderá ser demasiado perigoso, é um ambiente ardente com que apenas os locais saberão lidar em condições.

Se ceder o melhor que temos é o que é preciso assim o faremos com todo o gosto, pois mais importante que os Portugueses são os indicadores deste ‘nosso’ Portugal à beira-mar plantado.

El País de Papel

El País de Papel é uma série portuguesa do gênero de filmes de assalto. A série estreou em 2005 tendo sido relativamente incompreendida pelo grande público até final de 2014, altura em que atingiu picos de audiência nunca antes vistos em Portugal sendo ainda hoje uma das mais vistas em prime time.

Um homem misterioso que atende pelo nome de El Pobre Provinciano, planeja o maior assalto do século. A fim de realizar o ambicioso plano ele recruta pessoas com certas habilidades que não têm nada de seu a perder. O objectivo é a infiltração no País da Moeda, de modo a que possam volatilizar  milhares de milhões de euros. Para o fazer precisam de centenas de dias de governação, durante os quais vão ter que lidar com dez milhões de reféns e as forças dos reguladores de elite, com cenas de muita pompa, fanfarra, elegância amnésica em grande latosa e planos brilhantes de El Pobre Provinciano, que depois um processo de transformação na cidade de luz, de onde regressa El Marquês, acaba por ser detido no seu regresso em momento de vulnerável saudade.

É este o ponto em que estamos, o séquito d’ El Marquês, convenientemente mestre de Tortura em Democracia, digladia-se publicamente com os defensores da lei procurando reconquistar a liberdade plena, a opinião pública e a vaidade egocêntrica que define os praticantes do seu ofício.

Não perca os próximos capítulo pois por agora a única certeza é o prejuízo acumulado que desfalca El País de Papel.

UnBrexit

As relações bilaterais do Reino Unido com a Rússia remontam ao século XVI, mais precisamente a 1555, ano em que através da “Companhia Russa” foi institucionalizado o monopólio de todo o comércio anglo-russo. Reinavam Maria I do lado britânico e o Czar Ivan IV do lado russo. A monarca britânica, primogénita do segundo dos Tudor e primeiro dos protestantes – o mulherengo Henrique VIII, ficou entre os seus súbitos conhecida como Bloody Mary em virtude da sua vã, mas sangrenta, tentativa de reverter a reforma protestante iniciada pelo pai. Já o Czar de todas as Rússias, Ivan IV ficou para a história conhecido como O Terrível, cuja sagaz mas intempestiva personalidade conduziu, num momento de ira, ao assassinato do seu filho e herdeiro. Enquanto Bloody Mary governou contra o legado de seu pai, foi o próprio Ivan O Terrível que negou o legado ao seu primogénito.

Desde então, Rússia e Reino Unido têm sido tanto inimigos como aliados, conforme circunstâncias e oportunidades. Os contrastes e simetrias mantêm-se: O Reino Unido, uma democracia parlamentar cujo poder executivo é hoje liderado por uma senhora, que tal como Bloody Mary, tenta em vão remar contra a corrente, leia-se Brexit. Enfrenta enormes desafios, quer no plano doméstico, quer no plano internacional; A Rússia, uma democracia autocrática, tem hoje um novo tipo de Czar, tão sagaz como Ivan o Terrível, mas que ao contrário deste não manifesta qualquer tendência para a impulsividade. Frio e implacável como o “General Inverno”, suportado pela oligarquia da energia, tem assumido um papel cada vez mais consolidado como protagonista global.

Eis como a circunstância pode constituir uma oportunidade. Tudo quanto o Reino Unido tem em comum com a União Europeia não foi suficiente para evitar o resultado do referendo ao Brexit. Reverte-lo obrigará a uma mudança de fundo. Nada como um inimigo comum! Se o que somos não nos une, então talvez aquilo que não queremos ser o consiga!

Rangel de dentes

Não me choca que um ou dois magistrados se revelem corruptíveis ao ponto de influenciar sentenças judiciais a troco de largas somas de dinheiro.

O que me choca é o facto do sistema não estar minimamente preparado para a prevenção e detecção deste tipo de situações. Falamos de um largo período em que, pretensamente, um par de juizes frequentemente beneficiou infractores em prejuízo do Estado e Ministério Público. Magistrados que, por não serem apanhados em flagrante, não podem sequer ser detidos nem ver o seu raio de acção e influência devidamente delimitados durante a investigação.

Este caso é revelador de um código penal o suficientemente dúbio para permitir que a mera diferença do juiz atribuído ao julgamento possa alterar radicalmente o seu desfecho. Ao mesmo tempo aparenta não existir qualquer controlo de qualidade sobre o desempenho de um juiz de topo em termos da equilibrada aplicação lei, algo que seria realmente impossível caso a ambiguidade antes referida seja uma realidade. Aliás, recordando um caso não muito distante, parece começar cedo esta dificuldade da avaliação do carácter e capacidade de um juiz. Na dúvida, na ausência de mecanismos de avaliação contínua, prevalece a confiança absoluta sem se falar mais nisso para evitar ferir tão prestigiada classe. Encontrar um erro de casting seria sem dúvida algo raríssimo, nem valerá a pena o esforço de confrontar e investigar uma sentença escandalosamente duvidosa.

Seja como for, durante mais de uma década, foi hipoteticamente possível a esta parelha colocar os seus serviços à disposição de potencial clientela como Duarte Lima, Álvaro Sobrinho, José Veiga, Luís Filipe Vieira, José Sócrates, etc.

São frequentes os casos de lobos com pele de cordeiro mas este é um caso muito peculiar. Neste caso temos lobos com pele de pastor, responsáveis pelo zelo do rebanho nacional. Uma situação muito mais difícil de detectar pois estes lobos reagem naturalmente de igual forma aquilo que fazem os pastores genuínos sempre que colocados em causa os seus privilégios e discernimentos. Com um soberbo e magistral rosnar e ranger de dentes.

Le Service National Universel

Na Europa dos impérios, os primeiros anos do século XX caracterizaram-se por grandes contrastes de percepção, sobretudo no que à guerra dizia respeito. As populações, esquecidas dos horrores da guerra, deslumbradas pelo progresso tecnológico, viviam confiantes e tranquilas, seguras da paz. Já os governos não. Os mais avisados, que não o nosso, lançaram-se numa corrida às armas que para história ficou conhecido como o período da Paz Armada. A Europa nada temia senão a si própria. O centro do poder económico e militar do planeta era Europeu. O resto do mundo pouco contava, a China dormia, os Estados Unidos da América firmes e convictos nas virtudes do isolacionismo e o Japão dava os primeiros passos na era moderna após a revolução Meiji. Surgido o pretexto, tudo se precipitou tal e qual a explosão sucede ao atear do rastilho. Superficial e sucinto, foi este o contexto que precedeu o primeiro conflito mecanizado da história. Mesmo quando para as populações se tornou evidente a iminência da guerra, prevaleceu a ilusão que a modernidade precipitaria um rápido desfecho, que o tumulto seria violento mas breve. Como sabemos, a realidade foi bem diferente. Tudo mudou, a Europa deixou de ser o centro político do mundo. O conflito entre os poderosos da Europa revelou-se fratricida. Todos perderam.

Pouco mais de um século volvido, eis-nos novamente confrontados com o mesmo tipo de ameaças. Populações convictas da paz assistem passivas a um novo período de paz armada patrocinado pelos seus governos. A França de Macron deu hoje um sinal claro, anunciou o regresso do serviço militar obrigatório.

A Ordenha Postal

Depois do alvoroço por encerramento de agências bancárias no ano passado, o novo  ano começa com alvoroço pelo encerramento de postos dos correios em várias localidades. O motivo é igual em ambos os casos, o ratio de rentabilidade, a optimização da rede.

A vida começa a ficar complicada para aqueles que vivem em localidades não rentáveis,  sem apetência ou aptidão para abraçar as maravilhas das tecnologias digitais. Parece que o estar online é a nova competência exigida a todos os cidadãos. Cabendo-lhe o ónus financeiro da sua formação, contratação dos serviços e aquisição dos equipamentos tecnológicos que lhe permitam ajustar-se à nova normalidade.

Ainda pensei que fosse um sinal dos tempos, o impacto do digital no envio de correio físico, só que ao dar uma vista de olhos na actividade operacional a coisa não é tão evidente. Há uma baixa progressiva dos serviços de pagamento e dos envios de cariz publicitário ou de comunicação empresarial, no entanto o volume de correio expresso e de encomendas até cresceu. Ao mesmo tempo continuam consolidadas as subscrições de poupanças e seguros tendo ainda o ano passado sido lançado um novo serviço bancário que pode crescer muito, alicerçado na relação de proximidade com a população.

Em termos de futuro cada vez trocaremos menos cartas físicas mas faremos muito mais compras online, será uma questão de saber gerir a transição não permitindo que outros players se apropriem da distribuição de encomendas. Em termos publicitários o físico terá sempre um papel importante, todos aprenderão a configurar filtros anti-spam em e-mail e notificações de telemóvel, pelo que não reduzirá além de um certo ponto.

Posto isto, apesar da necessidade de ajustamento, seria assim tão crítico dar no imediato este sinal de retracção de uma das mais míticas redes nacionais, neste momento uma âncora essencial à população mais idosa e/ou com iliteracia digital?

Deparei-me então com este artigo de opinião e seus comentários através dos quais percebo que provavelmente a culpa de tudo isto é a árdua dedicação necessária para cumprir a difícil entrega de uma encomenda privada, muito especial, o leitinho que tem de chegar ainda fresco ao Sr. Accionista.

ctt-2017

O empresário perfeito – título póstumo

Imaginemos um grande empresário português que tem a visão de construir o primeiro hipermercado em Portugal, confirmando-se a aposta certeira em termos de investimento. Rapidamente se multiplicam o número de hipermercados surgindo depois centros comerciais de grandes dimensões. Este novo paradigma revoluciona os hábitos de consumo dos Portugueses. Num curto espaço de tempo as ruas das cidades perdem grande parte do seu movimento pedonal, a maior parte do pequeno comércio local, várias praças e mercados municipais, são forçados a encerrar pois não conseguem competir com os baixos preços e concentração da oferta oferecida por estes novos espaços.

Para os consumidores era um maravilhoso novo mundo, nunca se comprou tanto com tão pouco!

Nos bastidores sofriam os fornecedores, esmagados por uma enorme pressão comercial que lhes permitisse ter acesso às, agora únicas, grandes montras de exposição e escoamento dos seus produtos. Alguns cedem, outros ficam condenados à falência, sem nunca faltarem produtos nas prateleiras. O consumidor compra o que houver, isso é garantido.

Nos centros comerciais a estratégia foi outra. Concentrar os mais variados tipos de lojas, provavelmente pagando uma renda justa, com uma pequena contrapartida, ter acesso aos principais indicadores de negócio de cada uma das lojas, porque obviamente essa informação é de vital importância para a gestão sustentável do empreendimento. E assim, durante alguns anos, comerciantes abençoados puderam servir de cobaias num tubo de ensaio que permitiu definir quais os tipos de lojas mais rentáveis naquele novo ecossistema comercial. Uma vez feita a prova de conceito criava-se uma marca própria que substituía as pequenas lojas, num investimento mais do que garantido. E assim os grandes centros comerciais deixaram cada vez mais de ter pequenos comerciantes, concentrando sobretudo marcas próprias e outras grandes marcas, âncoras, contra as quais não valia a pena competir.

Uma vez seca a competição este empresário pôde concentrar-se em desenhar formas de potenciar o consumo, através de contínuas e desorientadoras acções promocionais. Preços em constante flutuação, uns para baixo, outros para cima, numa matemática manhosa cujo resultado para o consumidor só pode ser devidamente percepcionado se olharmos para a curva de evolução dos lucros como uma curva de evolução dos gastos e a compararmos com a curva de evolução dos rendimentos das famílias ao longo dos anos.

Este empresário criou assim um império milionário, tornando-se num exemplo virtuoso. Não só dinamizou a economia através da construção dos seus espaços comerciais, do incentivo ao consumo, do aumento do crédito ao consumo, como garantiu no processo a criação de largos milhares de empregos, conseguindo a concentração da circulação de consumidores e dos agentes que compõem o tecido económico no sector do retalho nacional.

É por toda esta criação de riqueza, simplificação de processos, entretenimento das hostes, que, justamente, a classe política lhe presta a devida homenagem. Já aos fornecedores, trabalhadores e consumidores passa-lhes um pouco ao lado de tão alheados que estão, seja na labuta para garantir produção e sustento, seja no desfrutar do grandioso ecossistema comercial que lhes foi oferecido por este homem. Mais uma prova do sucesso da sua visão estratégica de se tornar num dos pilares de uma sociedade cega e inconscientemente consumista.

A Misericórdia Político-Corporativa

Se Pedro Santana Lopes voltar à ribalta a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa torna-se uma nova incubadora/reabilitadora de líderes políticos. A aura de beneficiência e benfeitoria por si concedida será um bálsamo rejuvenescedor para um político gravemente ferido.

A SCML é uma instituição secular, robusta, dona de um dos maiores patrimónios imobiliários do país, a maioria proveniente de doação após morte, sendo este património gerador de receitas milionárias canalizadas para reinvestir em obras de beneficiação, aquisição de novo património, além da sua utilização na actividade de apoio social.

Anualmente a SCML gere as receitas de mais de 2 750 milhões de euros provenientes do jogo. Depois de distribuídos prémios e pagas despesas associadas sobram 200 milhões de euros para a SCML e mais de 180 milhões de euros para os cofres do Estado. Posteriormente a SCML distribui todos os anos mais de 100 milhões de euros em forma de apoio social, tendo ainda uma despesa similar a nível de custos de pessoal num volume superior a 100 milhões de euros para remuneração dos seus mais de 5 000 trabalhadores.

Tal é a sua dimensão que a SCML é especialista reconhecida na gestão dos Jogos Santa Casa, de património imobiliário, de unidades de saúde, de unidades de apoio à inserção social, de creches, de jardins de infâncias, de ATLs, de unidades de formação de competência, de centros de reabilitação, etc.

A SCML é uma organização sem fins lucrativos que em 2016 teve um ‘balanço positivo’ de mais de 21 milhões de euros apresentando activos milionários, dos quais só depósitos bancários são quase 200 milhões de euros.

É compreensivo este acumular de riqueza e de peso no nosso espaço social e económico, afinal a SCML está a atingir os 520 anos de existência. Que seria de nós sem ela, outras SCMs e similares? É caso para especular algo infernal pois mesmo com a sua existência o retrado português da pobreza é assustador, há quem diga que está até substimado aos dias de hoje, sendo pelo menos certo que há 5 000 pessoas em situação de sem-abrigo a precisar de maior amparo. Apesar do óbvio crescimento deste tipo de organizações, em termos de áreas de actuação e volume de actividade social, aquele que deveria ser o principal indicador do seu sucesso, a regressão do número de pobres, não se verifica, mantendo-se constante nas últimas décadas.

Com tantos recursos à disposição, tantas áreas de actuação, faltará certamente um ingrediente secreto capaz de transformar a fórmula do atenuar da pobreza numa fórmula de resolução da pobreza. Sem dúvida que passará por uma interligação com o Estado, já que serão as políticas económicas deste que em muito influem na geração de pobreza. Por um lado temos organizações especializada no combate à pobreza existente, por outro temos um Estado que, pagando -lhes para isso,  espera destas organizações o atenuar dos efeitos colaterais menos agradáveis da sua governação.

Não sei se o governo de Pedro Passos Coelho percebeu que a manutenção da separação entre estado e acção social poderá ser impraticável num futuro não muito distante ou se simplesmente precisou de fazer uma cosmética orçamental, seja como for, tomou iniciativas subtis de integração a nível orçamental e na área da saúde. Curiosamente foi nesta altura conturbada que surge a nomeação de Pedro Santana Lopes como provedor da SCML.

O que seria destas organizações sem pobreza em Portugal? O que seria do Estado social sem estas organizações? Julgo que no cruzamento da resposta a ambas estas questões se encontre a fórmula revolucionária que abordará a pobreza em todo o seu espectro, desde a origem à sua erradicação, passando é claro pelo atenuar da sua manifestação.

Tenho as minhas dúvidas que a resposta venha a ser encontrada por um paladino misericordioso, habituado a prestar confortável vassalagem sempre que isso lhe augure um bom futuro. Apostaria mais num insurgente nortenho ávido de atingir a total independência de terceiros na resolução dos mais prementes problemas da nação.