Category Archives: Escárnio e mal-dizer

Cidadão Meditante

Como bom português, deixei para o último dia a renovação do meu cartão de cidadão. Levantei-me tarde e avancei determinado a cumprir a missão que atribuí a mim próprio para o primeiro dia de férias. Ao chegar tirei a centésima trigésima quinta senha. Eram 11h25. Àquela hora apenas 27 pessoas tinham já sido atendidas. Decidi não me preocupar, pois é este o preço a pagar pelo planeamento in extremis. Perante a obvia demora, optei por um passeio pedestre nesta nova cidade de Lisboa tão amiga do peão como do ciclista. Foi giro, mas pouco mais de uma hora depois, preocupado, inverti a marcha e rumei novamente à Conservatória do Registo Civil. O avanço fora escasso. Acabavam de chamar o quadragésimo quarto freguês do dia. Optimista, constatei que teria tempo para almoçar. Assim fiz. Regressei sem pressa, preparado para esperar. Eram então 14h00, momento do quinquagésimo freguês. Encontrei uma cadeira e aguardei enquanto lentamente o atendimento avançava.

Eram já 16h00 quando uma diligente funcionária, parecendo apelar à debandada, explica que os serviços estão sem sistema. Nesse instante senti ter recuado no tempo, ao ano 1983 quando pela primeira vez na vida, na companhia de Sr. meu Pai, fui tratar do meu primeiro Bilhete de Identidade: Centenas e centenas de pessoas com selos e fotografias na mão, em infindáveis filas, desesperando horas a fio.

Mais de três décadas volvidas, pouco mudou neste nosso Portugal. Haja paciência. Eu tive. Quando finalmente chegou a minha vez, tudo se passou rapidamente, nem 10 minutos, paguei e fugi. Eram 18h10. Ao sair fui abordado por uma simpática repórter do jornal Publico que me fez perguntas sobre a penosa aventura. Uma delas ecoou na consciência até agora: “o que fez enquanto esperou?” Respondi sem pensar, mas creio que não fugi à verdade: meditei.

 

Minuetto dei Ciechi

Outrora obcecada com as prementes questões financeiras da nação, a nossa comunicação social divergiu o foco para o mais mundano e sazonal tema da combustão. O panorama político em tempos de geringonça assemelha-se a um quadro de naturezas mortas. Qual “Peru Morto” de Francisco Goya, a técnica é meticulosa, as cores são quentes, mas a sua mais pura essência é triste. Talvez por isso, talvez por previsivelmente nada de significativo mudará tão cedo, a comunicação social enveredou pela busca de emoções, estejam elas onde estiverem. Agitam-se as águas. Na ausência de verdadeira oposição, a comunicação social assume-lhe o papel. Porém incendiar, noticiar rumores não confirmados tem o seu custo e se numa primeira fase pode até não se reflectir nas receitas, os danos reputacionais limitam severamente a credibilidade para exercer este salutar papel de contra poder.

silly season não augura melhorias a este já de si enfadonho panorama, antes pelo contrário, o quadro pode até ficar bastante mais escuro.

Bem, se a analogia com as artes plásticas não resulta animadora, talvez a ironia musical nos traga alguma, eventualmente patética, alegria. Lembrei-me da encantadora obra de Luigi Boccherini, compositor e violoncelista italiano radicado em Espanha, que tal como Goya teve como patrono o infante Luís António de Borbón. Diria que todos sem excepção conhecemos pelo menos uma peça de Boccherini, quanto mais não seja porque algures no tempo aguardámos pacientemente numa qualquer fila de espera telefónica, mas julgo que a peça que melhor sintetiza a nossa actualidade é sem dúvida a “Musica notturna delle strade di Madrid”, obra apenas publicada após a morte do compositor, pois este acreditava que nunca “uma audiência fora de Espanha poderá alguma vez aspirar compreender a sua essência”. Como estava profundamente enganado! Particularmente em relação ao 3º movimento – Minuetto dei Ciechi, o minuete dos pedintes cegos…

Olhos nos olhos

Antes de mais devo dizer que vejo cada vez menos televisão. Noticiários para ser mais específico. No entanto não quer dizer que não seja bombardeado com “informação” através doutros meios de comunicação. Vivemos a era em que a informação é tão abundante que se torna a era de desinformação, se não tivermos o cuidado de a filtrar.

Nos breves minutos de “zapping” há algum tempo que sentia a falta de Medina Carreira na TV. Julguei que tivesse sido afastado como muitos outros, pois na realidade o seu “pessimismo”, pelo qual era conhecido, não o tornava popular. Li um dia alguém a referir-se a Medina como um “senhor que só dizia mal de tudo”.
Devo dizer, que eu próprio quando via a rubrica “olhos nos olhos” com a Judite Sousa, no fim só me apetecia “cortar os pulsos”. E este sentimento devia-se à forma como Medina Carreira falava com números e gráficos, que não deixava espaço para o “ah ele está a inventar”. Duma forma despreocupada, quer colocasse em cheque o Governo, o partido “A” ou “B”.
Poderão alguns apontar que Medina era um dos representantes do sistema bicéfalo que governa Portugal, por já ter sido Ministro das Finanças, ainda antes de eu ter nascido. Mas tal pode ser visto, não como uma cruz que carrega, mas pelo conhecimento que obteve dos meandros da política nacional. Além disso desde há muito tempo que estava afastado de qualquer interesse politico actual ou futuro, o que lhe permitia dizer o que entendesse, agradasse ou não o espectador.
E é precisamente o contrário disto que se vive hoje na gestão de informação dos órgãos de comunicação. Cada entidade (partido, clube de futebol, associação de qualquer tipo), duma forma mais complexa ou simples, gere a informação que quer que chegue às massas. A importância deste departamento invisível, da sua forma de actuação, por vezes pouco ética, é crucial para o sucesso destas entidades.
Colocam-se pessoas a “mastigar” informação, como comentadores “independentes” ou em debates,  conduzindo o espectador a formar uma opinião com pouco esforço cerebral. As suas motivações são organizativas e pessoais, por esta ordem de valor. Mesmo que quisessem ser independentes não conseguiriam, pois provavelmente acabariam por não ter aquele tempo de antena.
O lobby ainda compensa em demasia em Portugal.
Até podemos tentar compreender a abundância do lobismo com base na exploração a que o português foi sujeito, desde os tempos mais remotos da história do nosso país. Mas não podemos aceitar que tenhamos de pertencer a uma organização para nos sentirmos protegidos nos nossos direitos e disso tirarmos benefícios. Quando cada lobby puxa para o seu lado e os governos movem-se conforme os seus próprios lobbys, perde o país, perde o cidadão comum.
Lamento o desaparecimento de Medina Carreira pois são raros aqueles que como ele opinam, não alinhados com o modo vigente do pro ou contra, sem um objectivo pessoal. Ouvi-lo era credibilizar um pouco a informação.
Sim, talvez para alguns pudesse parecer um louco revoltado, mas para mim via bem melhor com um olho fechado e outro semicerrado do que a maioria das pessoas com os dois bem abertos.

Silly Reason

Meus amigos, temo que a perdida tradição da “silly season” venha progressivamente a ser substituída por uma nova época, a da “silly reason”.

Cada vez mais os acontecimentos sucedem-se sem tréguas, talvez desregulados pela indefinição climática que desconstrói a outrora estável e acolhedora estação do Verão. Inesperadamente, na preparação ou mesmo em plenas férias, há situações graves a acontecer a todo o momento, a concentrar atenções do público, a exigir prontas reacções de governo, entidades e oposição. E quem paga por isto? A razão. A pressa de justificar, relativizar, retirar do radar mediático, leva ao atropelo da razão absoluta por manadas de razões desorientadas, vindas dos atalhos por onde deambulam fragmentadas, espantadas por precários caçadores de meias-verdades.

Também eu gostaria muito de encontrar A razão de cada acontecimento. Para contribuir na sua busca deixo algumas questões pisteiras. Haja faro e bom-senso!

O que tem maior validade? Uma análise demorada, científica, detalhada, do alto volume de informação recolhida, ou uma conclusão de uma investigação policial apressada, sob pressão mediática, ainda durante o decorrer do acontecimento? Poderia a segunda conclusão ser garantida sem a prévia consideração da primeira?

O que surgiu primeiro? A necessidade de guardar armamento ou a tecnologia dos sistemas de vídeo-vigilância?

Uma esquerda que consente cativações, sem exigir o seu detalhe, pode agora descartar-se de responsabilidades? Quando se assina um acordo vinculativo não é costume a definição detalhada de limites e condições a fim de evitar passar cheques em branco?

Numa época em que se batem todos os recordes (menor défice, maior tributação fiscal per capita, maior volume de cativações orçamentais) será desta que veremos uma descida acentuada da dívida pública?

Apesar da reversão de cortes salariais directos, o bater do recorde da colecta fiscal será indicação de que estaremos realmente a ser alvo de uma austeridade encapotada? Tal como afirma o maior especialista nacional do tema? Se quem quis ir além da Troika agora reclama que este governo corta em demasia quererá isto dizer que já estamos além do além da Troika?

Quando motivos éticos não justificam demissões na hora de ministros e secretários de estado, que depois obtém essa justificação tardia por via judicial, será chegado o momento de redefinição da ética em si? Ou bastaria acelerar a justiça?

Por ventura foram alargados os deveres do Presidente da República obrigando-o a ser o relações públicas do governo em funções? Deverá neste mandato ser ele a principal face de todos os acontecimentos? Cabe-lhe agora fazer as primeiras, as intermédias, as últimas declarações? Sempre apaziguadoras ao estilo “Não passa nada”, “Está tudo sob controlo”, “Vamos apurar responsabilidades e melhorar”?

O estranho é que algumas destas questões parecem responder-se a elas próprias, não deixando de ser curioso existirem tantas confusões para chegar à razão evidente. Estaremos a ser governados por tolos que se deixam enganar por razões tontas? Ou por sábios que nos tomam por tolos?

 

Lamento mas não doo

O ciclo repete-se, cenário de tragédia potencial, tragédia efectiva, solidariedade catártica, reconstrução do cenário inicial.

Lamento mas desta vez não doo. À custa da minha reputação social tentarei quebrar o ciclo. Farei-me de sonso. Fingirei acreditar no sistema e nas comunicações oficiais. Confrontarei o sistema com a sua própria ilusão, exigirei dele o que é esperado.

Creio assim que a previsão meteorológica identificou o potencial problema atempadamente tendo sido executados todos os protocolos de prevenção para o que seria uma “tempestade perfeita”.

Confio plenamente que as forças no terreno estavam devidamente articuladas, dotadas de todos os meios de comunicação necessários à evacuação de populações em risco através de rotas seguras.

Fico descansado com o facto das populações em zona de alto risco receberem formação sazonal sobre o que fazer em caso de emergência catastrófica, apesar da hipótese remota desta eventualidade tendo em conta a gestão florestal preventiva e adequada.

Atribuo à ira dos deuses o infortúnio de tantas mortes num curto espaço de tempo, julgo que segundos de profanidade divina, recusando a possibilidade de que estas tenham ocorrido ao longo de horas, espaço temporal suficientemente lato para que mesmo meros humanos, capacitados e organizados, conseguissem retomar grande parte das rédeas do seu destino.

Jubilo com as garantias dadas por protecção civil e governo de que foi feito tudo o que devia ser feito, bem como de que não faltaram meios para o combate ao fogo nem faltará o apoio de todo o tipo às vítimas e lesados, recorrendo-se aos fundos de emergência nacionais e internacionais existentes para esse efeito.

Confio totalmente na retaguarda logística que deve apoiar as forças no terreno garantindo a todo o momento o fornecimento autónomo de mantimentos, bebidas e outros consumíveis de alto consumo nesta altura.

Agradeço a objectividade honesta, assertiva, transparente, do jornalismo, da comunicação das entidades oficiais, direccionadas a uma população formada num sistema educacional de excelência que a torna intelectual e emocionalmente capaz de lidar com a realidade.

E toda esta organização, todo este conhecimento técnico, todo este profissionalismo, garantido pelo simples cumprir das minhas obrigações fiscais!

Que pena tenho daqueles países que dependem exclusivamente da boa vontade, da solidariedade local e nacional. Onde os bravos se deslocam para o terreno sem saber se terão o que comer, o que beber, onde dormir durante a sua deslocação, onde não existe apoio logístico de armazenagem de raiz nem para guardar picos de donativos caóticos caso a população decida responder aos apelos sofridos. Pobres países onde grandes empresas, delapidadas por uma gestão baseada em boa vontade, esventradas de milhares de milhões de euros que acabam escorridos do orçamento do Estado, abrem apesar de tudo simpáticas contas solidárias para colar a sua marca à boa vontade do bom povo contribuidor, onde as linhas de valor acrescentado solidárias continuam a gerar valor acrescentado para terceiros, onde associações de solidariedade correm o risco de colocar em causa as sua poupanças milionárias, os seus avultados investimentos financeiros, se forem chamadas à participação de larga escala em acções beneméritas. Afectuosos países onde até a comunicação social, as entidades oficiais, baseiam o seu discurso numa condescendência branqueadora de falhas porque não se pode correr o risco de causar a revolta nas boas gentes, nas boas vontades, sobretudo quando ainda agora começou a guerra que de tanta carne para canhão vai precisar.

Felizmente estou no meu idílico Portugal. Onde o Estado, contribuintes, jornalistas cumprem o seu papel. Sei que foi difícil chegar aqui. A dado momento foi preciso o mais complicado dos tipos de afecto. O dizer não a um recorrente estender de mão. Forçando os traquinas a perceber que não podem mais depender, nem dispor, da vida, da vontade dos outros, fazê-los perceber que detêm nas suas mãos todo o poder para a mudança e definição das coisas, tal como foram mandatados em lotadas eleições. Não há construção de carácter como o choque frontal com a responsabilidade própria, com as consequências directas dos próprios actos. E pensar que tudo começou com um angustiante colectivo  “Lamento mas não doo”.

 

Harry Potter

Um caso de incomparável sucesso na passagem da literatura à 7ª arte, o clássico do cinema de hoje teve, ao que se diz, influência lusa. A autora, a escritora J.K. viveu entre nós, inspirou-se em figurões e paisagens da nossa terra. O êxito comercial do primeiro livro teve continuidade nos subsequentes. Um feito raro na literatura juvenil, a saga facturou a uma escala sem precedentes na era digital. A chegada ao cinema foi por isso natural.

Nesta saga, um jovem bruxo, Harry Potter de seu nome, descobre que vive no mundo das pessoas comuns, dos chamados trouxas. A fim de aprender mais feitiços, o nosso herói entra no mundo da magia, ingressa na melhor escola lá do sitio, o caro e exclusivo colégio de Hogwarts. São estes anos de internato, de vida dura e austera  que os filmes retratam com mestria, dando corpo à fantasia de um mundo incrível, povoado por terríveis monstros, magos, bruxos e bruxas, feitiços e maldições. Ao jovem aprendiz a banalidade não lhe serve, muito embora possa ser útil, pois quanto mais trouxas melhor, mais fácilmente cria valor ao accionista: A energia não é cara, os trouxas é que vivem em barracas!

Chegado à idade adulta, faz-se pagar bem por cada truque de magia, eficaz como poucos, soma triunfos e lucros para a companhia. Nenhum accionista ficou por enfeitiçar, não faltaram prémios de gestão, mas qual grande líder, ficámos hoje a saber que afinal partilha o mérito. Garante que não houve decisão que não tenha sido colegial…

Expo Défice

Parece que foi ontem, mas a inauguração da Exposição Mundial – Expo 98 aconteceu hoje, há precisamente 19 anos. Vivíamos então dias de modernização e confiança, de cultura e diversidade, uma festa patrocinada pelo infinito el dorado que se avizinhava! Reinava então o optimismo, a euforia e a crença num futuro risonho. O país dava mostras de dinamismo ao mundo, e este compareceu em peso na renovada zona oriental da velhinha cidade de Lisboa. Foi giro, foi diferente. Depois voltámos às nossas rotinas, ao ancestral lamento e revolta inconsequente. Mas, felizmente apenas meia dúzia de anos depois, outro grande evento, desta feita desportivo. Era a receita de Porter. Estivemos perto, mas não fizemos a festa, na verdade vimo-nos gregos, quer no inicio quer no fim. Ficaram os estádios, e a conta claro! Meia dúzia de anos depois, íamos de pac em pac. Já não foi nada giro, e pior ficou quando nos foi aplicado o castigo. Chamaram-lhe ajustamento. Único e inevitável remédio, para o qual não houve alternativa. Não fomos piegas, e qual óleo de fígado de bacalhau, tomamos o frasco todo.

Já acostumados à terapia, foram chegando as boas noticias, as euforias! O deslumbramento propriamente dito começou com a conquista do campeonato da Europa de futebol. Deslumbrados desde então, vitimas de optimismo irritante, não parámos! Celebramos por menos e sobretudo, gastando menos, mas já voltamos à festa. Depois do crescimento recorde, dos juros negativos, a boa noticia de hoje é o anuncio da recomendação da comissão europeia para por fim ao procedimento por défice excessivo, logo hoje, no dia do nascimento de compositor da Cavalgada das Valquírias, Richard Wagner, o que por certo não será uma mera coincidência.

Lançamento do Martelo

As olimpíadas estão para uma legislatura como os jogos olímpicos estão para as eleições legislativas. Tal como a legislatura é o período de tempo entre cada ida a votos, a olimpíada é o período de quatro anos entre a realização de dois jogos olímpicos. São ambas temporadas de preparação para o momento decisivo, fases de treino ao longo das quais se ensaiam diferentes estratégias e metodologias de treino. É pois com grande espírito de sacrifício que os políticos, quais atletas de alta competição, procuram afincadamente atingir os chamados mínimos olímpicos, a marca que os conduza a nova eleição.

A glória de uma medalha de ouro encontra paralelo na política na tomada de posse como ministro e consigo traz prestígio eterno a quem a conquista. O mundo é feito de vencedores e no desporto, tal como na politica, são os eleitos que ficam para a história. Um medalhado apenas cai em desgraça quando apanhado nas malhas do doping. A batota, tal como o consumo de substancias proibidas, pode por vezes ajudar o atleta menos dotado a obter marcas de excelência, mas nem sempre.

Por vezes, o atleta precipita-se, dá passos maior que a perna e cai em desgraça. O público, tal como os eleitores, não perdoa o uso de estimulantes, narcóticos ou anabolizantes, mas há sempre atletas e políticos dispostos a correr o risco da desonra em troca da esperança de vitória. Alguns, perdidos na melancolia dos dias de glória, quando a aritmética lhes falha, na sua sede de pódio, desesperam…

Napoleão IV

Os filhos da pátria foram às urnas no passado dia 23 de Abril e tal como esperado, lá voltarão no próximo dia 7 de Maio. A abstenção foi baixa, pouco mais de 20%. O candidato mais votado, Emmanuel Macron obteve menos de 24% dos votos, ou seja, menos de 20% do número total de votantes (24% dos 80% de eleitores que votaram). Da mesma forma, a candidata que com ele vai disputar a presidência francesa, Marine Le Pen, obteve o voto de menos de 17% do total de inscritos. Primeiro e segunda representam pouco mais de um terço do total de eleitores.

Ele, é e será aquilo que o eleitor quiser que ele seja, um liberal de esquerda como lhe chamam os jornais. Em Marcha, o partido que criou, resulta da implosão do centrão gaulês, uma espécie de união daquilo que restou. Alberga o status quo disfarçado de mudança. Curiosamente, o radicalismo anda há já uns anos disfarçado de status quo, excepto no que à União Europeia diz respeito, Marine Le Pen protagoniza um nacionalismo light, soft quanto baste. De forma simplista: de um lado, mais do mesmo, com logótipo novo; do outro a ilusão de mudança, alicerçada na retórica contra a União Europeia.

Todas as previsões e sondagens apontam para a vitória de Macron, mas creio que um dado importante está mais uma vez a ser negligenciado. Tal como nas presidenciais americanas ou no Brexit, as previsões apontaram sempre para o desfecho menos disruptivo, contudo os resultados foram outros. Os eleitores não sabem o que querem, mas sabem que querem mudar! Suspeito por isso que a “união de todos contra Le Pen” a possa favorecer e reservar a Macron o lugar do derradeiro Napoleão, o IV.

Livres de perigo periférico

O mundo anda estranho.

No Reino Unido os grandes centros urbanos votam contra o Brexit perdendo a votação para o resto do país que decidiu estar farto do deboche Europeu.

Nos Estados Unidos da América Trump perde a votação nos grandes centros urbanos obtendo a eleição presidencial muito alicerçada em votos do mundo rural e ‘pequenas’ cidades.

Na Turquia Erdogan pede ao povo mais poder e condições para poder prolongar o seu domínio por mais umas décadas, as grandes metrópoles batem-lhe o pé agora partido pela vergasta vencedora do resto do país.

Em França o movimento embrionário da Frente Nacional de Le Pen germinou timidamente nas periferias mostrando agora uma força capaz de arrebatar o país.

Todas estas são demonstrações contemporâneas de como periferias densamente povoadas podem desequilibrar os pratos da balança forçando rumos imprevistos aos abençoados habitantes da centralidade urbana.

Pelo que talvez tanto eu como o Sr. Presidente nos devêssemos preocupar menos com questões relacionadas com periferias sub-desenvolvidas e despovoadas. Poderá ser um mal que vem por bem garantido que em Portugal não há cá desses volte-faces políticos. Ufa!