Da resistência ao terrorismo basta um título de jornal
Façamos um exercício de conexão para com o impacto local destas iniciativas de interesse nacional, a nível de transformação da paisagem, extracção, uso e abuso de recursos naturais, impacto no quotidiano diário das populações dentro da esfera de influência das novas instalações e actividades.
- O novo data center de Sines irá consumir o equivalente a 20% da electricidade em Portugal e criará milhares de postos de trabalho directos e indirectos.
- A Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) irá expandir com projetos de hidrogénio verde, amónia verde, energia solar e produção de baterias de lítio, originando o abate de milhares de árvores. Ao mesmo tempo irá reforçar-se a distribuição da rede energética de e para este ponto de alta actividade industrial, com mais um milhar de árvores a abater.
- Logo ali ao lado também a região de Santiago do Cacém se junta ao novo festim energético com implantação de parques solares a ocupar mais de mil hectares obrigando ao abate de mais de um milhão de árvores.
- Pondo de lado o necessário sacrifício de fauna e flora, com mais de 500 animais selvagens de grande porte chacinados a tiro, também orgulhosamente se impõe a ecológica instalação solar da Torre Bela que descaracterizou completamente uma tapada de 1000 hectares onde 400 foram entregues aos painéis.
- O sucesso é tal que aceleram as iniciativas para agilizar a instalação de mais uns milhares de hectares de parques solares e eólicos, através de consulta pública para “aprovação silenciosa” de eligibilidade de mais terras para estes fins.
- Mais a norte outro tipo de progresso está em curso, depois da prospecção agressiva para estudo. está confirmada a viabilidade e riqueza de lítio em Boticas, Covas do Barroso, são 20 milhões de toneladas de minério a extrair, 500 postos de trabalho durante 14 anos de vida útil.
- (tantas outras podiam ser listadas, peço-vos ajuda a completarem nos comentários com as que vos provocam dor na alma)
Quando necessário servidões administrativas e expropriações permitiram o atropelo de proprietários, em prol do desenvolvimento do país. As máquinas e trabalham avançam de forma imparável e legalmente blindadas. Imaginemos estar no meio ou orla destes acontecimentos. O que sentíriamos, o que defenderíamos o que teríamos ganas de fazer?
O processo será sempre muito similar, primeiro a incredulidade para com o que se está a desencadear, a primeira reacção dentro da esfera legal com a abertura de providências cautelares que travem a catástrofe, a tentativa de mobilização da sociedade local e nacional, depois chega a frustração gerada por de pareceres jurídicos ou decisões governamentais que anulam o efeito imediato das providências, a constatação de que a força digital em pouco ou nada se manifesta na realidade local, por fim chega o desalento de não ter os meios e tempo necessário para um combate judicial significativo e com resultados práticos.
Há os que por fadiga desistem, abandonando causa e local, há os que por condicionantes se conformam, adaptando-se à nova realidade local, e outros passa a processar uma contínua amargura e raiva, tentando evitar desencadear acções das quais se possam arrepender. Pois agir neste contexto, mais do que resistir em defesa do que consideram justo e precioso, será interpretado, aos olhos da lei, com um hediondo acto terrorista e criminoso. O termo “terrorismo” foi definido de forma suficientemente abrangente para poder ser aplicado independentemente do contexto, causa e consequência, derivando para várias nuances, existindo a particular do ecoterrorista, alguém que ousa aplicar a equidade no uso da força em defesa de ecologia e ambiente.

Curiosamente olhando para a definição do termo podemos facilmente afirmar que existe terrorismo subjacente
- à forma como canetas em gabinetes fechados, situados na malha urbana, emitem despachos para a destruição de largas porções de território, começando aqui um terrorismo psicológico via decretos que irão mudar substancialmente partes do território e seus modos de vida geracionais;
- ao uso de grupos de segurança privados e grandes máquinas para entrar dentro de terrenos privados destruindo muros, árvores e tudo o mais que esteja no caminho;
- aos grandes incêndios que coincidentemente assolam as áreas a desflorestar algum tempo antes do início dos trabalhos;
- ao ignorar dos alertas e apelos de autarcas e populações locais sobre os efeitos nefastos dos projectos planeados/executados;
- à ausência ou descaso de estudos de impacto ambiental pormenorizados que demonstrem os efeitos negativos dos projectos sobre os ecossistemas afectados;
- ao vender da nossa beleza e património natural a interesses económicos de curto a médio prazo de forma praticamente irremediável;
Neste contexto não existem mecanismos legais para acusar o estado de terrorismo na manipulação da população com fins políticos, económicos ou ideológicos, estando este legitimado para exercício da violência física ao nosso território sob pretexto de progresso e desenvolvimento.
Em momentos como estes resta-nos buscar a inspiração de eventos passados. Onde acima dos artifícios legais e retórica moral, vinga o senso comum e a lei natural de direito ao bem-estar. Neste modelo acção com reacção se responde, empoderados pela justiça, bem comum e amor ao seu lar. Em união, em resiliênca, em consequência.
1989, Vale do Lila, centenas de pessoas uniram-se e DESTRUIRAM 200 hectares de plantação de eucalipto. Mesmo face a 200 agentes da GNR, não vacilaram. Expulsaram a Soporcel que decidiu não valer a pena a luta. Hoje estão rodeados de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho.
Se resistentes ou ecoterroristas os artigos mediáticos que os cataloguem em função da sua agenda, pois à vista desarmada simplesmente foram um povo a em legitima defesa dos seus interesses. A sabedoria, coragem e força para a imposição da fronteira do aceitável é algo que só descobrimos ter ou não ter quando o destino nos coloca face a face com uma situação desta gravidade e magnitude. Que a lucidez nos conduza à salvação e ao travar da expansão desenfreada em detrimento da (re)florestação.
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Posted on Julho 27, 2026, in Ancora and tagged Ecologia, Economia. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.


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