Category Archives: Programas de Televisão

Olhos nos olhos

Antes de mais devo dizer que vejo cada vez menos televisão. Noticiários para ser mais específico. No entanto não quer dizer que não seja bombardeado com “informação” através doutros meios de comunicação. Vivemos a era em que a informação é tão abundante que se torna a era de desinformação, se não tivermos o cuidado de a filtrar.

Nos breves minutos de “zapping” há algum tempo que sentia a falta de Medina Carreira na TV. Julguei que tivesse sido afastado como muitos outros, pois na realidade o seu “pessimismo”, pelo qual era conhecido, não o tornava popular. Li um dia alguém a referir-se a Medina como um “senhor que só dizia mal de tudo”.
Devo dizer, que eu próprio quando via a rubrica “olhos nos olhos” com a Judite Sousa, no fim só me apetecia “cortar os pulsos”. E este sentimento devia-se à forma como Medina Carreira falava com números e gráficos, que não deixava espaço para o “ah ele está a inventar”. Duma forma despreocupada, quer colocasse em cheque o Governo, o partido “A” ou “B”.
Poderão alguns apontar que Medina era um dos representantes do sistema bicéfalo que governa Portugal, por já ter sido Ministro das Finanças, ainda antes de eu ter nascido. Mas tal pode ser visto, não como uma cruz que carrega, mas pelo conhecimento que obteve dos meandros da política nacional. Além disso desde há muito tempo que estava afastado de qualquer interesse politico actual ou futuro, o que lhe permitia dizer o que entendesse, agradasse ou não o espectador.
E é precisamente o contrário disto que se vive hoje na gestão de informação dos órgãos de comunicação. Cada entidade (partido, clube de futebol, associação de qualquer tipo), duma forma mais complexa ou simples, gere a informação que quer que chegue às massas. A importância deste departamento invisível, da sua forma de actuação, por vezes pouco ética, é crucial para o sucesso destas entidades.
Colocam-se pessoas a “mastigar” informação, como comentadores “independentes” ou em debates,  conduzindo o espectador a formar uma opinião com pouco esforço cerebral. As suas motivações são organizativas e pessoais, por esta ordem de valor. Mesmo que quisessem ser independentes não conseguiriam, pois provavelmente acabariam por não ter aquele tempo de antena.
O lobby ainda compensa em demasia em Portugal.
Até podemos tentar compreender a abundância do lobismo com base na exploração a que o português foi sujeito, desde os tempos mais remotos da história do nosso país. Mas não podemos aceitar que tenhamos de pertencer a uma organização para nos sentirmos protegidos nos nossos direitos e disso tirarmos benefícios. Quando cada lobby puxa para o seu lado e os governos movem-se conforme os seus próprios lobbys, perde o país, perde o cidadão comum.
Lamento o desaparecimento de Medina Carreira pois são raros aqueles que como ele opinam, não alinhados com o modo vigente do pro ou contra, sem um objectivo pessoal. Ouvi-lo era credibilizar um pouco a informação.
Sim, talvez para alguns pudesse parecer um louco revoltado, mas para mim via bem melhor com um olho fechado e outro semicerrado do que a maioria das pessoas com os dois bem abertos.

Revelações de Milhões

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Enormes, desmesuradamente grandes e avultados fluxos de capital, vulgo dinheiro, são semanalmente anunciados na rubrica televisiva protagonizada pelo virtuoso piloto das massas que dá pelo nome de Mclaren Mentes. Rápido na previsão, pouco preciso na trajectória, raramente acerta mas nunca é confrontado com as previsões por concretizar. Estranho? Não! O formato de entrevista a fingir ajuda, o jornalista não exerce, faz de ponto numa conversa que muitas vezes parece ser (provavelmente é) ensaiada. Lá na estação há, que eu sei, um especialista em verificação de factos, mas por qualquer motivo esse talento na acareação é dispensado.

Compreende-se, não se ataca o próprio produto! Muito embora o grupo tenha no passado dado provas de grande independência editorial, atacando severamente o patrão quando este foi primeiro-ministro, esses tempos de liberdade terminaram. Hoje prevalecem as razões comerciais. O próprio semanário refere Mclaren Mentes como fonte, o que confirma o bom desempenho comercial do rapidíssimo piloto. Há procura para esta oferta. Há, contudo, uma dúvida que me assalta e prende-se com as fontes nunca citadas. Não! Não as quero reveladas, não tenho quanto a isso a menor curiosidade. O que me fascina, o que me deixa perplexo é Mclaren Mentes saber sempre de tudo, sobre todos, invariavelmente antes dos demais, mas sobre si, sobre as suas acções ou negócios, não se lembra, desconhece, nada, nada, nada

Das duas, uma: ou faz da inconfidência sistemática modo de vida, e como tal não se compreende como ainda não secaram as fontes, ou então simplesmente transmite recados.

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Última Hora: Indesmentível e factual

Uma importante investigação jornalística acabou de ser divulgada, gerando grande polémica e espanto entre todos os telespectadores. Os factos são indesmentíveis e foram finalmente divulgados pelos meios de comunicação. As novas tecnologias tiveram um papel preponderante na condução da ciosa investigação, tendo permitido obter provas irrefutáveis dos factos apurados e confirmados pelas fontes anónimas, as quais permitem hoje afirmar com total certeza e convicção que a última hora terminou exactamente sessenta minutos após o seu início.

Eis o exemplo de conteúdo bem-sucedido nas redes sociais. Nem sequer precisa de ser mentira, basta dizer “Última Hora”, ser ilustrado com um rosto conhecido ou polémico, conter ambiguidade quanto baste e claro, repleto de suspeição e mistério. No fim, pode até não dizer nada. A mera ilusão de que algo de grave será revelado é suficiente para despertar a curiosidade do internauta, seja ele ou ela, perspicaz ou denso de processo cognitivo. Somos uma espécie fácil de pescar online, com a agravante do isco ser abundante e por isso acessível a todos.

Nos últimos tempos têm-nos tentado convencer que o problema reside nas chamadas notícias falsas, mentiras torpes que ameaçam um mundo paradisíaco e que nunca até aqui tinha sido palco de qualquer forma de manipulação. Revelam-nos até milagrosos planos de prevenção e combate a esta terrível ameaça ao equilíbrio do planeta. Devemos desconfiar desta nova embalagem da (julgada) extinta censura? Talvez, mas antes de aderir à teoria da conspiração, uma singela, quiçá inocente, pergunta: O problema está nos emissores ou nos receptores?

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Cozinho para o Povo

Estreia esta semana a nova grelha de programação do canal que está a revolucionar a televisão portuguesa. Esta transformação, lenta mas profunda, nota-se particularmente nos serviços informativos. Outrora aborrecidos, sem emoção ou espectáculo, os noticiários são hoje pródigos em sensações fortes. O Canal, o tal revolucionário, é especialista em crime e derivados. Obrigou todos os concorrentes a inovar o alinhamento noticioso, fornecendo-nos (até que enfim!) boas e intensas reportagens de tragédia, violência e miséria moral. Ah, portugalidade esquecida e ostracizada que finalmente é exposta ao escrutínio de toda a população. Agora sim, a televisão como espelho de nós próprios, tal e qual aquilo que somos. Não há psicopata cuja barbárie não seja uma enorme, chocante e totalmente inesperada surpresa para todos os vizinhos e convivas. São pacatos e amigos do seu amigo, adeptos de boa, tradicional e bem condimentada cozinha portuguesa. Paninhos quentes e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…

Esta massa (a)crítica a que vulgarmente se chama “Classe Média”, clama e agradece todos os programas de comentário e análise. Haja quem explique a culinária! Lá estará o Canal, o tal, a liderar a mudança. Novas causas, novo Menu. Depois da lavoura, da defesa do contribuinte e demais receitas, o irrevogável Chef cedeu o lugar à nova protagonista – Cozinheira de mão cheia, perita de reconhecido mérito em preparados “Redon“, lança-se agora na desinteressada ajuda a todos os telespectadores do Tal Canal, na sua nova rubrica de gastronomia com restos denominada “Cozinho para o Povo“. Pulverizar-nos-á com muita, imensa paprika!

 

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Wirtschaftsnachrichten

O canal televisivo SAT.1 acaba de anunciar a contratação de um dos maiores especialistas económicos nacionais, quiçá o mais valioso activo (“asset” em “economês”) da comunicação nacional, José Gomes Ferreira, aceitou o convite da estação privada alemã para liderar uma rubrica de comentário e notícias de negócios. As extraordinárias competências do nosso concidadão não passaram despercebidas aos germânicos e nem a barreira linguística parece ter demovido os responsáveis. A convicção com que apresenta números e multiplicadores é tal que a linguagem corporal valerá por si. A direcção de programas da estação explica num sucinto comunicado que os dotes argumentativos e o domínio dos modelos matemáticos por parte do nosso Zé, muito embora ponderados, não foram os factores decisivos para a escolha, mas sim a sua prestação na explicação à população nacional portuguesa sobre a robustez do extinto BES. Está também prevista a edição de um inédito e despretensioso livro intitulado “mein Regierungsprogramm“…

Os rumores sobre as dificuldades do Deutsche Bank terão igualmente contribuído para justificar as alterações ao critério editorial da estação, nomeadamente a necessidade de preparar as mentes não só dos contribuintes germânicos, mas igualmente dos futuros lesados do Deutsche, tarefa para a qual o perfil do nosso compatriota constituiu garantia para uma resposta de excelência.

Tal como cá, a guerra pelas audiências é implacável, e ao que consta a estação rival, a RTL já terá sondado um tal de Camilo Lourenço para responder à altura. Muito embora até ao momento não se conheçam quaisquer desenvolvimentos, diz-se que não será piegas.

wirtschaftsnachrichten

Yabba-Dabba-Do

Os pré-históricos Flintstones foram hoje à periferia da capital lusitana, mais concretamente à cidade da Amadora, inaugurar a nova estação de metropolitano da Reboleira. Vieram no seu automóvel, a conhecida Geringonça de tracção pedonal pelos ocupantes, veículo ecoeficiente e 100% reciclável. Salvem o planeta, reciclem! Nunca é cedo demais para mudar o que está mal, o que está errado. Culturalmente estamos conversados, o desporto vai pelo mesmo caminho e na defesa a coisa está negra, mas adiante que nem Willian Hanna nem Joseph Barbera tiveram imaginação que chegue para isto. Ninguém ousaria a tanto em tão pouco tempo. Avancemos que a agenda está cheia.

O evento correu bem, os convidados compareceram, os protagonistas também. Houve discursos e bons concelhos, animação em geral e muita alegria em particular. Como se quer. Todos os bancos eram bons, excepto para quem viajou de pé. Ora, foi disto que nos falou Fred. Avisou. Eis chegado o momento de mudar, de transformar principescos hábitos em altruístas virtudes. Mais do que não abastecer em Espanha, mais do que não poluir, é saúde. Isso! Fred a Pé anunciou a imediata extinção dos nefastos automóveis das cidades nacionais.

Andar a pé faz bem, eu cá pratico e gosto, mas será que todos podem? Quantos moram perto do trabalho? Não muitos, não é verdade? Esta ideia de a todos enfiar no Metro é coisa de quem nele não passeia há muito. Com a euforia do dia confundiu a abertura de mais uma estação com uma verdadeira rede de transportes públicos, que na realidade não temos.
Fred-a-pe

Sandokan Costa

Finda a sua carreira na marinha mercante, o escritor Emilio Salgari criou várias personagens inspiradas nas suas viagens pela costa asiática. Um destes heróis navais, foi o famosíssimo Sandokan, o pirata do século XIX. Na realidade o “Tigre da Malásia” nasceu em Verona. Foi um verdadeiro precursor do género Western Spaghetti. Entre nós, celebrizou-se na década de 70 do século passado, quando a televisão estatal passou a produção da sua congénere transalpina. A geração à qual pertenço recordar-se-á facilmente da musica desta série, mais provavelmente da versão em português, infantil e algo brejeira, de rima fácil em torno de roupa interior de senhora…

O saudosismo é um dos negócios dos nossos dias. Hoje, qualquer sucesso do passado tem direito a um novo começo. Seja detergente, filme, série televisiva ou modelo automóvel. Basta a embalagem ser parecida. Resulta! Há quem compre!

Assistimos há já alguns meses às novas aventuras do pirata António Sandokan Costa. Comanda o navio sem nome, a que alguns chamaram “Gerigonça”. Negoceia, manobra no fio da navalha entre a bonança e a tempestade. A primeira lição da navegação à vela é sobre uma singela palavra, a paciência. Até aqui tudo bem, ou pelo menos, menos mal, mas eis senão quando começam as garantias. Sensação déjà vu! São este tipo de certezas que têm precedido as inevitabilidades, os novos bancos e as soluções in extremis que prejudicam apenas e sempre os mesmos, nós, os contribuintes. Sabemos que a declaração de indubitável solidez do sistema antecede a sua falha, geralmente catastrófica.

Sandokan-Costa

Sempre-em-pé

Aconteceu ontem, no País dos Brinquedos, a reeleição quase unânime. Sem Sonso ou Mafarrico a baralhar as contas, o processo foi claro, inócuo, mas simples. É assim que os brinquedos gostam. Abram Alas! A seu tempo trataremos do Noddy, o ingénuo mas muito leal e justo protagonista destas aventuras, mas para já vou adiar.  Compreendam, tenho um trauma musical. Há temas assim, marcam pela violência como invadiram os nossos lares.

Como pai, sei que não estou só nesta minha profunda aversão à banda sonora, comum a muitos cuja prole ronda hoje os 15/16 anos de idade. Reconheço, é uma empatia impossível de explicar a quem não partilhou a vivência, por isso avanço para o herói do dia, o mestre dos não assuntos. Diz sempre o que não é, é o que não diz ser, e coerentemente fez sempre o contrário daquilo que prometera fazer. Refiro-me, obviamente ao Sr. Sempre-em-pé. Disse, e foi peremptório, não ser um sempre-em-pé, ou seja, é. Julgo ser esta a regra de desencriptação das suas mensagens. Como sempre, é à excepção que compete confirmar a regra.

Neste caso a excepção manifestou-se na incompreendida declaração da passada sexta-feira. Foi sincero, partilhou o seu entendimento sobre a ética aplicável aos ex-governantes. Disse que não podem ser uma “espécie de eunucos”. A forma mais simples de explicar esta frase obrigar-me-ia a recorrer ao vernáculo, o que recuso, por isso opto por uma explicação menos instantânea: O Sr. Sempre-em-pé entende que depois de mandatado para a prática do coito continuado, deve a população aceitar que o ex-governante mantenha intacto o privilégio de cópula após ter cessado funções.

O símbolo desse privilégio é o pin na lapela…

 

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Balanço das Presidenciais

Passado uns dias sobre as eleições presidenciais e assentado a poeira das vitórias e derrotas, vale a pena fazer um balanço mais frio.

Ao contrário de muitas opiniões penso que foi uma boa campanha e que a participação de 10 candidatos mostra uma certa vitalidade da democracia e de uma vontade de mais pessoas intervirem e mudarem os destinos da nação. Sem surpresa, infelizmente, se regista uma acentuada abstenção (50%) e a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa.

Todavia denotam-se duas questões essenciais:

  1. A promoção pessoal através da campanha eleitoral, como o caso dos candidatos Tino de Rãs, Jorge Sequeira e Cândido Ferreira;
  2. Falta de debate de ideias concretas da esmagadora maioria dos candidatos: os únicos candidatos interessados no debate de ideias e em fazerem passar ideias concretas foram Henrique Neto e Edgar Silva.

Assinala-se também o assassinato político de Maria de Belém depois de uma irritada e desesperada campanha para vencer Costa e Sampaio da Nóvoa. Maria de Belém fez uma campanha vazia, justificada numa carreira de 40 anos que gostaria que terminasse em chave de ouro, como Presidente. Mostrou-se incapaz de lidar com as criticas de Henrique Neto e Paulo Morais, respondendo irritada e justificando-se repetidamente na absoluta legalidade das suas acções. Como se a legalidade fosse justificação! Desde que seja legal está tudo bem… na lei a tourada é legal no entanto ela é uma actividade absolutamente imoral. Na lei já esteve a escravatura, a pena de morte… Na lei está a possibilidade de deputados acumularem funções com o privado, no caso da Maria de Belém, consultora no BES, ao mesmo tempo que presidia a comissão da saúde. Maria de Belém pura e simplesmente não conseguiu ultrapassar a questão, explicar o que fez no BES… aliás nem no BES nem em outro lado qualquer. Maria de Belém exaltou os cargos por onde passou mas não enumerou obra.

Todavia o golpe baixo veio de Marisa Matias, que depois de a enfrentar amigavelmente frente a frente, é num debate a 9, na sua ausência, que se lança contra as já extintas subvenções vitalícias, desesperada por um populismo que lhe rendeu votos.

Marisa Matias fez uma boa campanha, baseada em sentimentos e pensamentos em vez de ideias. Apagou mentiras, como a dada a Edgar Silva sobre a Líbia, chorou, abraçou a mãe, uma campanha baseada em pensamentos e não em ideias. O Bloco sabe que o país está carente, as pessoas estão desalentadas, então elaboraram duas campanhas em que exploram de forma extraordinária isso. Marisa e o Bloco falam da União Europeia mas não falam de como a mudar, falam do mal da economia mas não como a alterar, falam da banca mas não de como a travar. O Bloco fala da constatação dos factos, fala da necessidade de mudança mas não de transformação. Isto metido num discurso com sentimentos, lágrimas e emoções as pessoas papam. A forma pouco séria de fazer política fá-los falar e abarbatar-se a projectos lei que não são seus, a mentir desavergonhadamente em debates… É literalmente um fast food da esquerda… ainda tive esperança que com a saída da Ana Drago o eurocomunismo tivesse sido finalmente superados no Bloco, mas definitivamente que não!

O aparecimento de Sampaio da Nóvoa foi uma verdadeira lufada de ar fresco na política em Portugal, com um tipo de discurso novo, sem a concretização de grandes ideias, mas com uma visível esperança nas suas palavras e uma vontade de agregar a sociedade para a transformação. Pessoa idónea e verdadeiramente livre, é um homem independente e não um político. A sua derrota é também o fim desta nova esperança. Todavia não foi além dos consensos, do tempo novo, não conseguiu concretizar ideias.

A campanha do candidato Edgar Silva, simpática escolha do PCP, prometia mais do que aquilo que rendeu em votos. Edgar colheu a simpatia de muitos e tantos que nunca se reviram no PCP mas que se reviram naquele humanista e comunista que baseou a campanha na defesa e no cumprimento da constituição. Foi o único que defendeu a soberania nacional contra as ingerências europeias, à parte de umas pinceladas dadas por Nóvoa sobre o mesmo tema. Sabe-se no entanto que as presidenciais não são uma aposta central do PCP, marcando no entanto sempre presença com um candidato próprio.

Esta campanha foi marcada por uma maioria de candidatos de esquerda. De assinalar que Sampaio da Nóvoa serve as medidas do espectro político do Bloco de Esquerda e de forças progressistas em Portugal. Logo aqui então temos três candidatos: Edgar, Marisa e Nóvoa. Nóvoa representava então a aliança que sustenta este executivo.

Henrique Neto foi uma boa surpresa e fez uma campanha tentando debater ideias para o futuro do país. Embora nem sempre concordando com ele, reconheço-lhe o valor e a mais valia para esta campanha. A par de Edgar, foi o único que se atreveu a tal… mas isso não rende votos.

Paulo Morais realizou uma campanha à base da análises das estruturas de poder que facilitam a corrupção. Apesar de talvez ter sido mono temático, é um grande tema e constitui um desafio das democracias modernas. Só pela discussão que nos trouxe já valeu a pena esta candidatura. Foi, sem duvida nenhuma, bastante inconveniente para muitos, que ancorados nas estruturas de poder dependem das promiscuidades entre público e privado. O próprio Bloco de Esquerda sentiu-se incomodado, não fosse Paulo Morais lhes tirar os vótinhos de protesto. No debate a 9, Paulo Morais foi outro dos visados pelo populismo de Marisa Matias, que não conseguiu distinguir entre falar sobre corrupção sem ter de necessariamente lançar nomes e julgar em praça pública.

Marcelo Rebelo de Sousa, vencedor desta corrida, fez uma campanha de silêncio. Vaidoso, no final estava desesperado e até velhinhas penteou.  Todavia com Sampaio da Nóvoa mostrou o seu carácter… ou a falta dele. Não reconheceu o direito a um cidadão comum, sem filiação nem passado político, de concorrer ao mais alto cargo da nação, passando segundo palavras suas “de soldado raso a general”. Ele sente-se agora o General de toda esta Nação! Elegemos um TV Man Show.

Estafeta presidencial

As eleições presidenciais a ocorrer já neste mês têm 10 candidatos, porém Marcelo Rebelo de Sousa parece ser o já eleito ao cargo.
Estafeta-Presidencial
Depois de 10 anos de sofrimento com Cavaco Silva, vejamos o que poderá vir aí. Pela espada do Dom Afonso Henriques que isto não augura nada de bom!

Marcelo Rebelo de Sousa, exímio comentador televisivo, fazedor de opiniões há larguíssimos anos, é assim das pessoas mais influentes e por isso, também, das mais poderosas do país. Já é um clássico que em qualquer café ou tasco na segunda feira que se debite as opiniões e julgamentos por ele proferidos no domingo. Sai assim do seu emprego de comentador para o mais alto cargo da nação.

Tem assim um capital muito superior a qualquer político. Ele próprio é o juiz de todos os políticos. Aliás, ele é o juiz de tudo. Fala barato por excelência, até de espirros fala se for preciso. E não, não estou a brincar. Eis que hoje me cai em mão um livro sobre… espirros lá está, e com prefácio de quem? Do Marcelo!

Marcelo, fala barato por natureza, é um homem muito bem relacionado. Professor, de profissão e de nome (o que até dá uma certa autoridade no saber, que o povo é muito ignorante), homem do PDS, bom nadador, juiz na causa de todos, é homem próximos das mais altas esferas do poder. É o eleito pela comunicação social, que tomou partido de si antes mesmo de ser candidato. Gasta menos na campanha por isso, não precisa simplesmente de gastar nada, até capa de jornais tem em plena campanha eleitoral. Aliás, a comunicação social em Portugal tem mostrado tudo aquilo que não é: séria, isenta e honesta! Talvez por isso se mantenham jornais que não dão 1 tostão de lucro durante anos! Serve inteiramente os interesses do capital. A comunicação social é um investimento que o capital sempre teve, e agora domina sem se quer ter interesse em dissimular, estando por isso disposto a assumir as perdas, que mais não são do que investimentos com elevados retornos privados. Nem a RTP faz um serviço público, canal pago com os impostos de todos nós! Ainda ontem, fiquei abismada com a prestação do José Eduardo dos Santos perante o debate entre Edgar e Sampaio da Nóvoa. Mas depois da sua falta de profissionalismo e de isenção na famosa entrevista ao Sócrates, nada me deveria pasmar.

Não há por isso como ter confiança na informação que nos é dada. Se a comunicação social, que devia ter como objectivo informar em vez de manipular a informação, não informa, os cidadãos e os eleitores não poderão tomar decisões de forma informada e ponderada. Esta é uma das grandes questões das democracias modernas, e da nossa em particular.
As regras do jogo são assim injustas, e quem paga são os cidadãos. As elites têm o candidato que lhes serve os interesses e lhes garantirá o poder económico e assim a sua influência política. É por isso que tantos se sentem alienados e desiludidos. Porque no fundo, quem elege é, mais uma vez, o poder económico, os banqueiros e a comunidade empresarial. Como se essa já não tivessem bem servidos pelas suas sociedades de advogados, as quais por sua vez têm deputados eleitos, e assim legislam segundo os interesses da oligarquia económica. Os interesses dos cidadãos, daqueles que trabalham, dos que infelizmente não têm trabalho, dos que já trabalharam, dos mais pobres, o interesse desses que é o interesse da maioria, do povo, do país, esse ficará mais uma vez subjugado aos interesses da minoria. Até porque haverá uma maioria, silenciosa, alienada e desiludida que não irá votar. Os custos de oportunidade de ir votar, de forma devidamente informada são demasiado elevados para aqueles que se sentem esquecidos.

Vejamos, vejamos alguns exemplo representativos de Marcelo:
– Marcelo, homem de direita e comprometido com o antigo regime, filho de um homem do regime e afilhado de Marcelo Caetano;

– Marcelo que se diz defensor do Estado Social, votou contra a lei de bases do Serviço Nacional de Saúde. Ou seja, Marcelo, foi contra a saúde universal e gratuita para todos os cidadãos;

– Marcelo é um homem próximo do poder económico, alias tão próximo mas tão próximo, que é amigo intimo de Salgado, em casa do qual passava férias no Brasil.

Marcelo é um homem do sistema. Não há por isso esperança que a mudança seja feita por alguém que é um dos interessados no actual estado de coisas.