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El País de Papel

El País de Papel é uma série portuguesa do gênero de filmes de assalto. A série estreou em 2005 tendo sido relativamente incompreendida pelo grande público até final de 2014, altura em que atingiu picos de audiência nunca antes vistos em Portugal sendo ainda hoje uma das mais vistas em prime time.

Um homem misterioso que atende pelo nome de El Pobre Provinciano, planeja o maior assalto do século. A fim de realizar o ambicioso plano ele recruta pessoas com certas habilidades que não têm nada de seu a perder. O objectivo é a infiltração no País da Moeda, de modo a que possam volatilizar  milhares de milhões de euros. Para o fazer precisam de centenas de dias de governação, durante os quais vão ter que lidar com dez milhões de reféns e as forças dos reguladores de elite, com cenas de muita pompa, fanfarra, elegância amnésica em grande latosa e planos brilhantes de El Pobre Provinciano, que depois um processo de transformação na cidade de luz, de onde regressa El Marquês, acaba por ser detido no seu regresso em momento de vulnerável saudade.

É este o ponto em que estamos, o séquito d’ El Marquês, convenientemente mestre de Tortura em Democracia, digladia-se publicamente com os defensores da lei procurando reconquistar a liberdade plena, a opinião pública e a vaidade egocêntrica que define os praticantes do seu ofício.

Não perca os próximos capítulo pois por agora a única certeza é o prejuízo acumulado que desfalca El País de Papel.

Rangel de dentes

Não me choca que um ou dois magistrados se revelem corruptíveis ao ponto de influenciar sentenças judiciais a troco de largas somas de dinheiro.

O que me choca é o facto do sistema não estar minimamente preparado para a prevenção e detecção deste tipo de situações. Falamos de um largo período em que, pretensamente, um par de juizes frequentemente beneficiou infractores em prejuízo do Estado e Ministério Público. Magistrados que, por não serem apanhados em flagrante, não podem sequer ser detidos nem ver o seu raio de acção e influência devidamente delimitados durante a investigação.

Este caso é revelador de um código penal o suficientemente dúbio para permitir que a mera diferença do juiz atribuído ao julgamento possa alterar radicalmente o seu desfecho. Ao mesmo tempo aparenta não existir qualquer controlo de qualidade sobre o desempenho de um juiz de topo em termos da equilibrada aplicação lei, algo que seria realmente impossível caso a ambiguidade antes referida seja uma realidade. Aliás, recordando um caso não muito distante, parece começar cedo esta dificuldade da avaliação do carácter e capacidade de um juiz. Na dúvida, na ausência de mecanismos de avaliação contínua, prevalece a confiança absoluta sem se falar mais nisso para evitar ferir tão prestigiada classe. Encontrar um erro de casting seria sem dúvida algo raríssimo, nem valerá a pena o esforço de confrontar e investigar uma sentença escandalosamente duvidosa.

Seja como for, durante mais de uma década, foi hipoteticamente possível a esta parelha colocar os seus serviços à disposição de potencial clientela como Duarte Lima, Álvaro Sobrinho, José Veiga, Luís Filipe Vieira, José Sócrates, etc.

São frequentes os casos de lobos com pele de cordeiro mas este é um caso muito peculiar. Neste caso temos lobos com pele de pastor, responsáveis pelo zelo do rebanho nacional. Uma situação muito mais difícil de detectar pois estes lobos reagem naturalmente de igual forma aquilo que fazem os pastores genuínos sempre que colocados em causa os seus privilégios e discernimentos. Com um soberbo e magistral rosnar e ranger de dentes.

Incapacidade patológica e elitista

Após vários anos de constatação empírica é neste momento evidente que ambos o exercício governamental e a gestão de topo são actividades com grande potencial degenerativo daqueles que os exercem a longo prazo.

Basta assistir atentamente a sessões parlamentares, comissões de inquérito ou grandes entrevistas com perguntas incómodas, para rapidamente perceber os sintomas.  Poses estudadas para emanar uma franca certeza, olhos a revirar,  respostas lacónicas para perguntas complexas, certezas absolutas rapidamente contraditas pela análise dos factos, e em situações limite um simples “não tenho memória”.

Não falamos de casos esporádicos mas sim de dezenas de casos, todos eles de pessoas que exerceram posições de poder com enorme impacto sobre a economia portuguesa, subsequentemente sobre a vida dos portugueses.

Vivendo em bolhas de protecção privilegiada estas pessoas atingiram um tal estado de alienação, da vida dos demais comuns, que perdem a capacidade de perceber, não só a degeneração das suas próprias faculdades cognitivas e empáticas, como deixam de ter noção do impacto que as suas decisões têm sobre a vida de milhares ou mesmo milhões.

Claramente estamos perante uma patologia incapacitante que atinge um segmento muito concreto da nossa sociedade. Como tal não lhes tenho qualquer ódio, pelo contrário, sinto uma certa mágoa ao vê-los desorientados quando reduzidos à sua simples humanidade, quando confrontados com a magnitude dos danos causados pela imposição da sua fantasia egocêntrica e narcisista. Acusam mesmo um certo espanto, incrédulos da sua culpa, ao constatar que afinal não eram apenas balanços digitais, números em linhas de folhas de Excel, era a vida de uma população, o futuro de um país.

Para impedir que esta epidemia se propague só vejo um caminho, pouco ortodoxo mas seguramente eficaz, a extensão e adaptação das chamadas reformas douradas. Assim que um primeiro-ministro, ministro ou administrador, demonstrasse sinais de falha de memória, de não estar a par do que se passa ou passou debaixo da sua alçada, seria imediatamente reformado coercivamente, com uma dourada e preventiva pensão de invalidez que o extirpasse da vida activa. Por uma questão de saúde pública da nossa economia estancava-se a aplicação da tradicional solução da dança de cadeiras, evitando-se assim a contaminação de todo o ecossistema político e empresarial.

A nível orçamental acarretaria  o aumento de custo de uns milhões de euros. Uma bagatela se considerarmos os milhares de milhões que se esfumaram nos últimos anos por mantermos indeterminadamente em funções indivíduos claramente incapazes para o exercício do poder.