Arquivos de sites

O domíno do medo e coragem

Apesar do medo de nascer, nascemos, num caos de dor, lágrimas, suor e sangue.

Apesar do medo do desconhecido, crescemos, experimentando todas a sensações sensoriais e emocionais.

Por medo de ficarmos sozinhos, encarneiramos ideologias ou mantemos relações que em nada nos beneficiam.

Por medo de não encontrar um emprego melhor, desgastamo-nos em drenos diários de corpo e alma.

Por medo de consequências pessoais, não nos envolvemos em injustiças globais ou alheias.

Por medo de uma doença conhecida, entregamo-nos a curas desconhecidas.

Por medo de um hipotético confronto de igual para igual, tomamos a iniciativa de combate preventivo a adversários ainda débeis.

Apesar do medo de morrer, morreremos, sabe-se lá como.

A vida empurra-nos incodicionalmente para a coragem nos ritos de passagem obrigatória (ou quase), que nos são impostos por massivas externalidades. O parto, a locomoção motora, o ficar só, o enfrentar do mar, o iniciar do ciclo de ensino, o óbito de quem nos é próximo, acidentes graves, condições crónicas, o aproximar da própria morte. Nestes momentos existe uma grande clareza: ou surge a coragem de seguir em frente ou a atrofia é garantida. Mesmo na morte convém partirmos fortes e em paz, mais não seja para facilitar a vida aos vivos.

Fora deste espectro de acontecimentos a batalha entre o medo e a coragem torna-se mais feroz. O medo é aliciante, oferece o conforto, inevitabalidade e aceitação do status quo. A coragem desassossega, comicha a acção emergente do âmago do nosso ser que procura exprimir-se e agir. O medo preserva o espaço, a coragem salta para o vazio por repulsa a esse mesmo espaço.

Curiosamente a acção resultante do medo é projectada no mundo real, normalmente levando ao reforço das condições que o geram. O medo dominante tanto pode conduzir à apatia como se pode servir da coragem para agir de forma irracional e impulsiva, com consequências imprevisíveis. Já na coragem o que primeiro muda é pessoal, a atitude, a consciência, o pensamento, sendo o principal intuito o sair da zona de influência do medo. A coragem não procura destruir a origem mas sim o medo em si, o resto advirá por si mesmo numa acção tranquila e assertiva.

Num mundo que promove o medo institivo para manipular a construção e direcção da coragem, é importante erguermos defesas informadas, a fim de manifestar uma coragem moralmente firme e impoluta.

A golden-armored warrior with a flaming sword and shield fights a dark skeletal monster with glowing purple eyes on icy terrain.

Minuetto dei Ciechi

Outrora obcecada com as prementes questões financeiras da nação, a nossa comunicação social divergiu o foco para o mais mundano e sazonal tema da combustão. O panorama político em tempos de geringonça assemelha-se a um quadro de naturezas mortas. Qual “Peru Morto” de Francisco Goya, a técnica é meticulosa, as cores são quentes, mas a sua mais pura essência é triste. Talvez por isso, talvez por previsivelmente nada de significativo mudará tão cedo, a comunicação social enveredou pela busca de emoções, estejam elas onde estiverem. Agitam-se as águas. Na ausência de verdadeira oposição, a comunicação social assume-lhe o papel. Porém incendiar, noticiar rumores não confirmados tem o seu custo e se numa primeira fase pode até não se reflectir nas receitas, os danos reputacionais limitam severamente a credibilidade para exercer este salutar papel de contra poder.

silly season não augura melhorias a este já de si enfadonho panorama, antes pelo contrário, o quadro pode até ficar bastante mais escuro.

Bem, se a analogia com as artes plásticas não resulta animadora, talvez a ironia musical nos traga alguma, eventualmente patética, alegria. Lembrei-me da encantadora obra de Luigi Boccherini, compositor e violoncelista italiano radicado em Espanha, que tal como Goya teve como patrono o infante Luís António de Borbón. Diria que todos sem excepção conhecemos pelo menos uma peça de Boccherini, quanto mais não seja porque algures no tempo aguardámos pacientemente numa qualquer fila de espera telefónica, mas julgo que a peça que melhor sintetiza a nossa actualidade é sem dúvida a “Musica notturna delle strade di Madrid”, obra apenas publicada após a morte do compositor, pois este acreditava que nunca “uma audiência fora de Espanha poderá alguma vez aspirar compreender a sua essência”. Como estava profundamente enganado! Particularmente em relação ao 3º movimento – Minuetto dei Ciechi, o minuete dos pedintes cegos…