Category Archives: Ideias para o País
Por mais absurda a ideia acreditamos nela e no País!
Apocalipse Now
Talvez seja apenas poeira levantada pelos pontapés de vento de uma tempestade de areia, talvez em breve se dissipe e depois de umas varridelas a normalidade volte a aziar a nação. Por agora, estranheza. Os tempos recentes têm sido estranhos em termos do desenrolar de imbróglios económicos, fiscais e judiciais.
A implosão consentida do Grupo Espírito Santo, a pressão fiscal sobre os colossos da energia Galp e REN, a frieza com que se lida com o caso PT colocando um resgate/nacionalização de parte, o desenrolar dos Vistos Gold, a detenção de José Sócrates, a condenação de Duarte Lima, tudo são sinais de que há fios da teia que se quebraram.
Independentemente da cor política é inegável que há um suceder de acontecimentos que espontaneamente nos desenham um sorriso de regozijo. Em alguns casos até um surpreendente reconhecer que neste ponto o governo/estado foi corajoso e esteve bem.
O que me deixa a pensar se Pedro Passos Coelho terá visão que lhe permita fazer a leitura de que esta pode ser a fórmula para a sua revitalização. O de ir às gavetas mofadas, que constituem o arsenal judiciário e mediático da guerra política suja, para delas lançar para a praça pública todos os processos duvidosos perpetuados por antigos governos.
Transformar-se-ia assim num paladino, defensor obstinado da rectidão, capaz de sacrificar cabecilhas de qualquer cor política, incluindo da sua e da do seu parceiro de coligação. Se o fizer é certo que, mesmo mantendo este nível de austeridade, obterá o reconhecimento do povo como um líder forte capaz de executar a tão almejada limpeza da República. E na minha opinião só essa faceta seria suficiente para, numa reviravolta inesperada, conceder-lhe o direito a mais um mandato.
Passos Coelho está na posição ideal para o fazer. Os objectivos contabilísticos do governo em vias de serem atingidos, o ser praticamente orfão de apoios de barões, a força do parceiro de coligação que pode ser submergida devido a danos colaterais, uma oposição às aranhas com um único caso que poderá ser destroçada por muitos outros ocorridos nas últimas legislaturas, o aproximar de um final de mandato em que o caos judicial e político, gerado por uma acção de limpeza desta magnitude, manteria nas sombras muitos daqueles que preferem navegar mares menos tempestuosos. O que é uma vinculação à Tecnoforma comparada com o que se encontra no valioso acervo de casos de gestão pública danosa, conflitos de interesses e corrupção?
Diz a bíblia que o apocalipse será o juízo final, em que todos serão julgados, os culpados condenados, os justos poupados e mesmo ressuscitados. Provavelmente muitas cabeças teriam de rolar até que se desse o milagre da ressureição de Pedro Passos Coelho. Há que ter fé, acreditar na eventualidade de um mundo melhor. Afinal um milagre é algo passível de acontecer a qualquer momento. Assim o queira Deus e um homem, corajoso, sem nada a perder, o faça num esforço épico. Por mais absurdo que isto pareça a verdade é que desde o início dos tempos que a história se escreve por linhas tortas. Faço desde já aqui uma jura, não uma promessa, uma JURA, que se tudo isto acontecer, se Portugal castigar quem de si abusou e fôr ressarcido de parte dos danos, doa a quem doer, o meu voto será consagrado a este menino sagrado/profano.
Basta mudares PPP!
Seara que canta para o Mundo
Hoje, e após meses de enxurradas de escândalos e sapos que não conseguem mais estar debaixo do tapete, eis uma boa noticia: O Cante Alentejano é Património da Humanidade! Na verdade isto nem tem assim tanta importância, tem mais importância para nós e no dever de conservarmos esta parte da nossa cultura e do nosso património. Para além disso dá-nos mais uns pózitos de visibilidade lá fora e mais uma razão da exploração do turismo no Alentejo.
Isto é parte daquilo que somos, raiz de muitos portugueses, é o cante do povo, de um povo cuja história foi dura, vida de agruras e muito trabalho e exploração. Curiosamente o Cante Alentejano é elevado a Património Imaterial da Humanidade um dia depois dos 39 anos do 25 de Novembro de 1975, data que marca o fim do PREC… Quem comemorou Abril chorou Novembro, quem comemora Novembro chorou Abril… Passados 39 anos, quem construiu Novembro continua a governar-nos. Por isso, a todos os alentejanos que choram Novembro, esta é uma prenda merecida.
O Cante Alentejano é o cante da classe trabalhadora agrícola, cujo único bem que possuía era a força do seu trabalho aplicado nos latifúndios. Trabalho duro, quase escravo, em troca do insuficiente para viver. O Cante Alentejano que às vezes é um lamento outras vezes uma brincadeira, às vezes é de amor, outras de saudade de quem partia para a guerra. É também o canto entoado pelos trabalhadores enquanto ceifavam, animando-se debaixo do escaldante sol alentejano. É o canto dos trabalhadores que se animam e descobrem que é na união que está a sua força. É o canto de quem foi explorado, de quem teve a coragem de gritar “A Terra é de quem a Trabalha”.

Hoje, passados décadas da Reforma Agrária, e do PREC ser tantas vezes desmentido e outras tantas demonizado, depois da devolução dos latifúndios aos seus originais proprietários, e depois do processo de desruralização do país por via do natural progresso tecnológico, o Alentejo é diferente daquele que é cantado nas canções. Hoje existem terras abandonas e um claro desinvestimento na agricultura que obrigou muitos alentejanos ao êxodo. Os trabalhadores agrícolas que laboram nos belos campos alentejanos são cada vez mais estrangeiros que aceitem salários baixos e condições de trabalho algumas tão precárias como há 60 anos, como por exemplo trabalhar à jorna. Não é possível negar: perderam-se algumas batalhas e esperam-se dias melhores. Urge entretanto conservar a cultura destas gentes, que encontra neste canto a ligação entre si e entre cada um deles e as suas origens.
Que a esperança, a capacidade de resistência e a coragem do Alentejo saiam hoje revigoradas e inspirem o mundo. Porque hoje o Cante Alentejano deixou de ser de Portugal e passou a ser da Humanidade.
Placebo
Placebo é um fármaco, tratamento ou procedimento cirúrgico dissimulado, inerte, sem principio activo. Trata todo o tipo enfermidade e baseia-se na reacção psicossomática dos pacientes. Pode de facto promover um efeito benéfico real e físico.
Não consultei nenhum simpósio terapêutico, não sei se a doença existe, mas suspeito que vivemos um surto de grave défice de cidadania. Eis as questões de teste e diagnóstico:
- Quem é que quer saber da venda da TAP quando há tanta e tão relevante informação em Évora?
- Quem quer saber do Orçamento de Estado para 2015 quando há teorias da conspiração para denunciar ou subscrever?
- Quem quer saber da reposição das subvenções vitalícias (não contributivas) quando há apostas a fazer sobre quem será o próximo a ser detido?
A resposta a qualquer uma das questões é: ninguém! Ninguém quer saber. Porquê? Bem, na verdade, é muito simples. É o efeito placebo. Mais uma teoria da conspiração? Negativo, é apenas o egoísmo colectivo a funcionar. Eis como:
Sem subscrever a teoria do bode expiatório, constato o reflexo da detenção preventiva nos Sistemas Límbicos dos telespectadores. Continuamos sem nada saber sobre a acusação, mas tal pouco importa. Cada um de nós tem a sua própria acusação! Eu, por exemplo, guardo com carinho um velho rancor. Remonta, imaginem, a 2011. Fatídico ano em que uma medida de excepção ao orçamento de estado desse ano me atribuiu um corte seis vezes superior ao previsto. Pequeno contratempo que está aliás na génese deste blog. É este abrangente e democrático critério que explica a euforia, a alegria que vivemos. É irrelevante a causa, cada qual escolhe a que quer. Importante é saber que há um castigo. Preventivo que seja, estamos perante a cura de muito descontentamento e revolta.
E os crentes, aqueles que acreditam na inocência do detido? Bom, para esses o placebo tem o mesmo efeito terapêutico, uma vez que toda a sua atenção está igualmente desviada. Ora testem lá as perguntas de diagnóstico novamente.
Die Zauberflöte

Mas que bela opereta esta. Já sabemos tudo, mas sempre com prefixo: Alegadamente. O Libretto está escrito há algum tempo. Diz-se que é obra maçónica. Teorias da conspiração não faltam, mas concreto, nada. O público vibra com emoção. Uns indignados outros em êxtase. A transformação dos estados de espírito é mágica. Será que ouvimos a Flauta Mágica?
Tamino e Papageno cumprem o ritual iniciático, o silêncio. Para uns o detido é Monostatos, para outros é Sarastro. Tenho dúvidas. E se a obra for outra? E se é ópera bufa? Nada sabemos.
Não estou certo que seja este o caminho da virtude, mas confesso que gostava de estar enganado. Temo precoce toda esta celebração da mudança. Tantos outros que vimos passar esta fase e que hoje se passeiam alegremente, impunes.
Entre nós, a Rainha da Noite vence sempre. Aguardemos pelo concreto.
Isto só vistos!
Os acontecimentos eclodem em catadupa! Portugal suspenso em suspense com a justiceira bola demolidora a ricochetear nos labirínticos alicerces da República, ora à esquerda, ora à direita, qual das fundações se desmoronará em primeiro lugar?
Por agora vou-me focar na situação dos vistos dourados, segundo as regras estipuladas atribuídos a estrangeiros oriundos de fora da União Europeia que criem dez ou mais postos de trabalho em Portugal, comprem imóveis de valor igual ou superior a 500 mil euros ou façam transferências de capitais de montante igual ou superior a um milhão de euros. O primeiro visto tem a duração de um ano, podendo ter duas renovações subsequentes com o período de 2 anos, ao fim de 6 anos a Nacionalidade Portuguesa é adquirida. Para ser válido os seus detentores necessitam de residir em Portugal pelo menos 7 dias por ano. É verdade, muitos dos nossos novos emigrantes podem corroborar isto, actualmente bastam viver 7 dias por ano em Portugal para que no final da nossa ausência de 358 dias bata cá uma saudade! 8 dias sucessivos da nova realidade Portuguesa seriam demais, estragaria o encanto e só ao fim de 716 dias seria sentida a tão lusa saudade.
É inegável que o Visto Gold é um processo rápido que pode ser visto como interesseiro, por de forma mais ou menos encapotada vender autorização de residência e livre circulação europeia, ou como um sistema de recompensa a quem investe de forma responsável em Portugal.
Ora se o processo é ágil, com regras claras, como raio poderia surgir corrupção na sua envolvência? Nada que o engenho Português não resolva e rapidamente se montou um esquema de angariação de potenciais clientes a imobiliárias que tentavam escoar os seus imóveis, a preços inflacionados por forma a entrar no segmento necessário. O jogo seria a gestão dessa fatia entre o preço justo e o preço que permitia a venda do imóvel a milionários ávidos do desenvolvimento pessoal inerente ao germinar da sua alma lusa. Aaah, que melhor começo do ser Português do que ser vítima de um esquema como este? Ou melhor ainda, ser parceiro no esquema, caso o interesse fosse pagar um valor um cadito mais baixo pelo seu imóvel.
Independentemente de tudo o que ocorreu e do carácter duvidoso de alguns dos (re)vistados julgo que esta pode realmente ser uma medida salutar com alguns ajustamentos. Mantendo os seus objectivos principais: recompensar quem gera valor e preservar postos de trabalho. Como? Mudando as regras e deixando de realizar uma venda directa dos nossos valioso vistos. Passo a sugerir novos mecanismos simplificados para atribuição de Vistos Gold.
Quem é elegível?
- Importadores, não europeus, consumidores de produtos ou serviços nacionais no valor de mais de 500 000 €
- Exportadores, não europeus, de bens e serviços consumidos em Portugal no valor de mais de 500 000 €
- Investidores em imobiliário nacional no valor de mais de 1 000 000 €
- Investidores em mobiliário nacional no valor de mais de 1 000 000 €
- Investidores em indústria ou serviços geradores de mais de 50 novos postos de trabalho com salário superior em 25% ao salário mínimo e com vínculo laboral de pelo menos um ano.
Regras de Atribuição?
- Aos investidores em imobiliário e mobiliário nacional 1x Visto Gold com duração de um ano;
- Aos restantes:
- 3x Vistos Gold com duração de um ano que ficam afectos directamente a 3x pessoas devidamente identificadas.
- 10x Vistos Gold com duração de um mês que podem ser requisitados com um mês de antecedência.
Vantagens deste Formato?
- Serão recompensados aqueles que efectivamente geram valor para Portugal em termos de dinâmica comercial, manutenção e criação de emprego;
- Não existe um privilégio específico a uma determinada área de actividade económica, tornando mais difícil o montar de esquemas e evitando o deturpar do mercado com inflacção artificial de nichos específicos;
- Os 3x Vistos Gold com duração de um ano permitirão mobilidade acrescida aos decisores dos importadores/exportadores/investidores permitindo-lhes estadias de negócio ou lazer alargadas. Benéfico tanto do ponto de vista comercial como turístico;
- Os 10x Vistos Gold com duração de um mês dão a flexibilidade ao importador/exportador/investidor de realizar acções comerciais não previstas ou simples acções de recompensa/cortesia cedendo-os por exemplo aos melhores clientes e/ou melhores gestores. Para Portugal seria benéfico pelo menos do ponto de vista turístico.
Isto sim, seria recompensar quem claramente investe na relação com Portugal independentemente da forma como o faz.
Por fim, em tom de provocação proponho um novo tipo de Visto, o Visto de Liberdade Incondicional, um género de carta da sorte para sair imediatamente da cadeia que pode ser usado sempre que o seu detentor, por infortúnio de uma justiça Portuguesa cada vez mais audaz e funcional, vá parar à cadeia. Não sei bem que condições de atribuição lhe poria estando apenas certo que por este andar poderia vir a ser uma das maiores fontes de rendimento do Estado Português.
E com estas fórmulas está dada a minha contribuição para que cada vez mais Portugal seja o nosso verdadeiro e singular lar doce lar.
Verde Brutus
A fiscalidade verde chega-nos agora vendida como um instrumento benéfico essencial ao fomentar da mudança de hábitos e comportamentos para que dêmos o passo em frente rumo a uma sociedade mais sustentável e eco-responsável.
Não discuto que teoricamente seja um instrumento válido e justo, no entanto, a forma como este tipo de medidas são tomadas, tendo em conta o histórico da aplicação destas taxas ‘transformadoras’ no passado, só vem realçar dois pontos que acho particularmente interessantes.
O primeiro é forma pautada e predatória como sucessivos governos caçam tostões nos bolsos dos seus cidadãos. Por exemplo, durante décadas foi criada uma horda de fumadores, dando mais relevância aos benefícios de empregos e receita gerada do que a estudos clínicos sobre perigos do tabagismo. Até que um dia, ao aproximar-se o ponto da curva em que as despesas derivadas de doenças tabágicas seriam maiores do que a receita de consumo, foi necessária a aplicação de taxas sucessivas sobre o tabaco, incutindo a diminuição do consumo de forma equilibrada que permitisse o manter de níveis de receita interessantes. Recentemente permitiu-se surgir no mercado os chamados cigarros electrónicos que começaram a ser adotados como alternativa barata e hipoteticamente menos perigosa para a saúde. Agora é-lhes aplicada uma taxa simpática que talvez sirva para alertar os consumidores de que não serão assim tão seguros?
O segundo ponto interessante é a mentalidade vingente, de defesa cega e vigorosa de vícios e hábitos pessoais versus abertura para a adequada informação e ponderação sobre o que implicam para si, para os que se encontram em seu redor e para o meio ambiente. Por exemplo os fumadores conquistavam os espaços públicos desconsiderando quem se sentia incomodado porque afinal quem está mal muda-se. No entanto a aguerrida forma como se batiam nestas pequenas querelas sociais foi completamente desmantelada com aplicações legais de condicionamento de espaços de fumo e agravamento do custo do tabaco. Dois atentados à sua liberdade pessoal que, por serem lei, foram acatados sem distúrbios. Ironicamente a força da razão sobrepõe-se à razão da força pela aplicação da força bruta.
Temos tido sucessivos governos que não informam os cidadãos do real impacto dos seus hábitos de consumo, cidadãos que não procuram sabê-lo, ambos capazes de olhar de lado e vilipendiar os ‘maluquinhos’ que quebram esses hábitos porque se informam e não querem fazer parte do circuito nocivo instituído. Os próprios governos incutem e protegem alguns destes hábitos, exploram o seu filão, até ao momento em que decidem ter chegado o momento de mudar o status quo geral. Fazem-no não através de uma campanha informativa e pedagógica, inerentemente de médio a longo prazo, mas sim com a aplicação a curto prazo de medidas duras que visam penalizar os ‘ignorantes’ por si criados levando-os, em reacção, a adoptar os novos métodos e hábitos classificados como o novo circuito a seguir, o novo filão a explorar.
Com uma agravante que torna todas estas taxas uma grande farsa. O facto das receitas obtidas não serem totalmente aplicadas para exactamente criar condições que acelerem as transições necessárias. As receitas com impostos são enormes, sobre o tabaco tem andado na ordem dos 1 000 milhões de euros anuais, sobre os combustíveis tem sido na ordem dos 2 000 milhões de euros anuais (mesmo 3 000 M€ antes dos anos de crise). Onde foram aplicadas estas receitas? Se a sua coleta é relativamente estável só é demonstrativo que os níveis de consumo de produtos supostamente nocivos se mantém a um nível altíssimo e/ou que têm falhado hipotéticas medidas aceleradoras da mudança necessária. Se estas taxas são criadas com um objectivo específico as suas receitas deveriam ser canalizadas praticamente na sua totalidade para o atingir. Não ser desviadas como tapa buracos para outras zonas dos sucessivos orçamentos de estado.
Depois do tabaco temos agora os sacos de plástico, o abandono de combustíveis fósseis na transição para veículos eléctricos e em breve começarão a ocorrer medidas similares até nas opções de alimentação. Dizem que somos um povo de brandos costumes, talvez até seja verdade, pois em termos de condução das mudanças dos nossos hábitos e comportamentos só o fazemos quando nos taxam à bruta completamente indiferentes ao porquê e à escolha do momento. Aparentemente somos meros brutos consumidores que ficam vermelhos de raiva pela aplicação de impostos verdes.
De entre o nosso cascalho brotará a verde esperança do futuro que já deveria ser o nosso presente há décadas, assim o quisessem realmente os governos, assim se importassem realmente os portugueses.
O Gênio da Lâmpada
Tranquilo e confortável na sua lâmpada, o Gênio da finança viveu para criar valor para o accionista. Foi esse o seu desígnio. Sempre. Por isso ganhou prémios, louvores e condecorações. Reconhecimento entre nós é coisa rara. Quer dizer, exclusiva. É a “portugalidade”.
Detentor de um vasto vocabulário empresarial, brilha em qualquer fórum. Após uma audição em sede de comissão de inquérito parlamentar, terá alegadamente motivado a inscrição de alguns deputados da Assembleia da Republica em cursos de iniciação ao idioma de Shakespeare. Dizem que a forma mais sincera de elogio é a imitação.
Sempre atento aos ventos da mudança, o Gênio observou o avisado conselho do êxodo. À época, cheguei a pensar que finalmente alguém levara a sério as ideias para o pais deste blog, concretamente o meu apelo ao altruísmo. Lamentavelmente, tudo ruiu passadas menos de metade das 1001 noites expectáveis. Estoirou. Querem agora crucificar o Gênio. Acusam-no de destruir todo o valor do accionista. Uma injustiça, uma enorme injustiça, digo-vos! Mero dano colateral de um outro acidente.
A culpa é do malfadado Acordo Ortográfico. Passo a explicar: A definição de “Accionista” era “aquele que detêm uma participação numa sociedade anónima”, contudo, e desde 2009, que “accionista” se escreve “acionista”, isto é, aquele que aciona. Ou seja, “Criar valor para o acionista” significa – entregar o valor àquele que aciona a lâmpada, friccionando-a.
Foi apenas isso que aconteceu, o Génio concedeu uns desejos a quem tinha a lâmpada na mão (consta que não foi o Aladino). Deviam conceder-lhe o grau de Gênio Honoris Causa. No mínimo!
A Fuga
Tudo se quer no seu ambiente natural.
A “fuga para a frente”, embora “anti-instintiva” pode ser, e é-o muitas vezes, uma manobra de salvação.
Perante a queda eminente, perdidas todas as forças que nos sustentam, que nos seguram à vida, contra-naturalmente, damos a mão ao abismo caindo de nariz, fundo, mais fundo, sempre mais fundo, até atingirmos a velocidade de ressuscitação. Assim se recupera da perda aerodinâmica.
A “fuga para trás”; seria a desgraça e a morte.

Foto; de céu desconhecido
Baile de Máscaras
Em 1788, Gustav, o terceiro da Suécia não era particularmente adorado pelo seu povo. O soberano sofria de tédio. Talvez por isso se tenha empenhado tanto na promoção das artes plásticas e cénicas. Ia com frequência à Ópera. Afinal fora ele que a mandara construir – Os Despotas Esclarecidos tinham destas coisas. Chegado lá, lembrou-se de encomendar uns quantos uniformes do exercito russo da Imperatriz Yekaterina, a segunda. O pedido do soberano da Suécia não levantou suspeitas. Algum baile de mascaras, terão pensado as costureiras da Ópera Real. E foi mesmo…
Glória? O rei Gustav III queria a sua, mas estava constitucionalmente impedido de declarar guerra ofensiva. Podia apenas ordenar a mobilização militar defensiva. Talvez daí o enfado. Gustav III sonhava, cobiçava a Noruega, então parte da Dinamarca. Tentou um negócio com a Imperatriz Russa, mas esta recusou trair a sua aliança com a Dinamarca.
A beligerância era inevitável. Gustav decidiu tirar partido da oportunidade que a guerra entre o Império Russo e o Império Otomano lhe ofereceu. Nasceu o gabinete de gestão da divida externa. Estando os russos “entretidos” mais a sul, ordenou um ataque simulado a um posto fronteiriço na província de Puumala, na fronteira da Rússia com a Finlândia, então parte integrante da Suécia. Foi assim que suecos mascarados de russos atacaram suecos sem máscara. O baile, permitiu ao soberano sueco avançar contra o Império Russo. O resultado desta guerra não foi particularmente vantajoso para nenhuma das partes, tendo apenas retido recursos que outra forma teriam sido úteis noutros cenários. Assim se perderam 2 anos.
Assinada a paz com a Rússia, Gustav III celebrou o seu ultimo baile de mascaras na Ópera Real, a 16 de Março de 1792. Foi assassinado nessa noite às mãos dos seus súditos.
Regresso às Aulas
Hoje foi a abertura oficial do ano lectivo. E como neste último ano algumas coisas me têm levado a pensar e a questionar o nosso sistema de ensino, decidi escrever sobre ele hoje. A crise do país, este sentimento de inevitabilidade, esta sensação de impotência, esta sensação de ser levado na corrente e depois esta vontade do não querer saber, do não querer ouvir mais, este esgotamento de uma situação que parece não ser ultrapassada… Que futuro existe para um país onde os jovens não encontram futuro? Às vezes ponho-me a pensar o que, dadas as circunstâncias, a crise no ensino e as duras batalhas dos professores, terão eles a dizerem aos alunos? Que futuro mostrarão os professores aos seus alunos? Que futuro verá um professor nos alunos se tiver em casa um filho licenciado que não consegue encontrar trabalho? Ou se tiver o cônjuge desempregado? Que esperança transmitirá um professor se ele mesmo apenas conseguir sobreviver com o seu salário, sem saber se para o ano será colocado?

Pus-me a pensar nisto tudo e noutras coisas. Pensei em algumas conversas que tive com professores que conheço. Um dizia-me que o ensino actualmente é castrado de ferramentas do pensamento e da transformação. A história política é passada para segundo plano, e isto é corroborado por outro professor que conheço. O programa de história, dizem ambos, não tem interesse. O primeiro luta contra o que diz ser um determinado tipo de programas e afirma querer ensinar os seus alunos a pensar, a questionar, quer dar-lhes ferramentas de análise, transmitir-lhes as linhas do pensamento e das diferentes ideologias que tantas vezes estão escondidas e por desvendar. É professor de filosofia. O segundo diz que o programa de história não tem interesse, que o ensino da história cada vez perde mais importância e que os conteúdos são cada vez mais práticos e pouco contam sobre os períodos quentes de transformação política (que é o que ele mais gosta), mas cada vez falam mais de transformações tecnológicas. É, como será fácil de perceber, professor de história. A sua visão para o país é desesperançosa, seremos sempre um país de tolos diz, e transmite aos seus alunos que o futuro estará lá fora, pensa que na Ásia se ganha bem e será um bom destino para os alunos, ou quiçá para o filho que frequenta o 2º ciclo. O primeiro, o professor de filosofia, quer ao contrário, acreditar num futuro melhor, mas a sua situação laboral é difícil, o ensino público está em processo de destruição, vive e sofre com o desrespeito pela sua classe que perde autoridade em frente dos alunos. Com as turmas maiores sobram professores, e o desgaste dos anos já ele o sente na pele, e afirma quase resignado, que o ensino já não tem lugar para ele. Perdeu o encanto pela sua profissão. Cansado de lutar contra os programas e de ensinar tanto para lá deles, sentindo muitas vezes represálias por isso, e agora esmagado pelas condições sociais, sente-se vencido! Mas sei que no fundo do seu coração existe aquela chama de esperança na transformação social, e sei que, por mais triste e esgotado da luta por um ensino que forme acima de tudo cidadãos, nunca mas nunca deixará de passar aos seus alunos a certeza da mudança na sociedade.

E a propósito destes dois exemplos, lembrei-me do poema da Natália Correia, Queixa das Almas Jovens Censuradas, que na voz do José Mário Branco marcou uma geração e é o lamento dos jovens a quem é cerceada a liberdade e representa uma critica ao ensino no tempo do Salazar. O que até vem a propósito, uma vez que tenho ouvido aqui e ali, do Durão Barroso, do Crato e de outros membros do governo, afirmações de que o ensino no tempo do Estado Novo era mais eficiente e servia melhor as necessidades do país, ou que o ensino dual é o que melhor responde às necessidades do mercado de trabalho e da economia. O tipo de ensino dual que a democracia veio quebrar, servia de facto melhor algumas necessidades, não certamente a dos estudantes nem as do país, mas as de uma classe que dominava a economia. Reprodutor social, canalizava para a escola comercial os filhos das pessoas ligadas ao comércio, e para a escola industrial os filhos das classes ligadas à industria. Apenas uma taxa muito pequena chegaria à universidade, a maioria seguindo as pisadas dos familiares. Ou seja, os filhos seguiam as pisadas dos pais, que normalmente lhes arranjavam trabalho. É o que existe na Alemanha! Reprodutor das classes e das desigualdades, praticamente congelou a ascensão social. Ao contrário, a democratização do ensino possibilitou uma promoção social nunca antes pensada, filhos de operários que se tornavam em doutores, filhos de comerciantes que viraram médicos… Uma verdadeira transformação social. Uns dirão que isto é um país de doutores, mas a mesma legitimidade teríamos para dizer que isto seria um país de analfabetos em 2001, aquando dos censos (página 14), cuja percentagem de população com um diploma académico era similar à população analfabeta. É uma espécie de inveja social, até porque a realidade é que em termos de escolaridade ainda continuamos atrasados, apesar do rápido desenvolvimento que a democracia trouxe. Mas temos que ver que partimos de uma base extremamente baixa.
É incrível como a educação varia em função da ideologia. Num período de democratização, o ensino expandiu-se para todos. Muitos dirão que esta expansão teve como custo a diminuição da exigência, mas isso não é um fenómeno só português. Na verdade a questão da exigência vista de perto pode parecer grave, mas se nos distanciarmos perde importância. Mas é um custo, mas baixo quando está em causa a expansão para a inclusão de mais pessoas, e a educação para todos é algo que não tem preço! Com a democracia instituiu-se o direito ao conhecimento! Vivemos hoje sob o paradigma mundial do “life long learning”, por isso desinvestir na educação é não querer que as pessoas estejam dentro do paradigma, é chutá-las para a margem, é dizer que elas não têm lugar naquilo que é tido como pensamento dominante. Por isso, quando governantes põe em questão o desenvolvimento do nosso sistema de educação que foi e ainda é um dos melhores, é dizer que esta inclusão foi mal feita, foi ilegítima. Dizer que o sistema de ensino não serve as necessidades da economia, significa tão somente que a economia e os empresários não acompanharam os tempos e que continuamos numa economia atrasada com elevadas necessidades de mão-de-obra não qualificada. E isto só pode ser explicado por uma realidade, é que os empresários portugueses são muito pouco qualificados e descapitalizados. E é dizer que os colossais fundos estruturais que deveriam ter consolidado de uma vez por todas a nossa Industrialização (mais do que atrasada) mais não fizeram do que adiá-la definitivamente para um depois de uma terciarização já consolidada, mas cuja riqueza criada fica muito aquém das nossas reais possibilidades e necessidades. Isto não significa que o ensino não possa ser reformado, mas para melhor, não deixando para segundo plano umas áreas do conhecimento e determinado tipo de temas para passarem à frente de outros. A matemática é fundamental, mas a filosofia também… ambas são fontes de raciocínio. O inglês é importante mas a história também. Conhecer a Revolução Cientifica é importante mas saber da Revolução Francesa é fundamental!
E é por isto que este saudosismo do ensino dual fez-me pensar no actual ensino e no quanto ainda falta para ele se cumprir e no papel fundamental dos professores numa sociedade. Porra pá, estão a tentar destruir aquilo que ainda não se efectivou! Já parece a nossa Industrialização! O ensino deve dar ferramentas de pensamento, de reinvenção, de transformação. Eu frequentei uma escola cujo lema era “formar bons cristãos e virtuosos cidadãos”, e o lema de ensino deve ser efectivamente formar virtuosos cidadãos (vamos deixar cair os cristãos, que o ensino é laico e muito bem)! E o que é um virtuoso cidadão? Virtuoso cidadão vai para além de votar, vai até ao transformar. Mas para transformar é preciso sonhar! E há que saber que não só é permitido sonhar como que é possível transformar sonhos em realidade. É possível transformar! E mesmo que o sonho não se concretize por completo, o que for feito para a sua concretização já é transformação! E é preciso que saibam que isso não só não é pouco, como é muito, muitíssimo, e que vale sempre a pena! É preciso saber acima de tudo aquilo que se quer da sociedade. Transformar é trabalhar todos os dias para uma sociedade melhor, no trabalho, na família, nos amigos, no café, no super-mercado. É espalhar uma ideia! Mas é mais do que isso! É mais do que fazer! É acreditar! É negar as inevitabilidades! Na sociedade elas não existem! Não existem inevitabilidades! Não existem! Isto não é um fado a que estamos condenados! Mas isto que vivemos também não é uma fraude! É um caminho que se escolheu. Mas por alguém um dia ter escolhido este caminho não significa que por aqui continuemos a caminhar! Nem se quer tem que significar que o caminho estava errado, pode simplesmente querer dizer que este caminho já nada tem para nos oferecer! E podemos sempre escolher outros caminhos, e trilhar novos rumos e novos caminhos. E é nesta crença no futuro, nesta negação das fatalidades, nesta certeza de que podemos sonhar e trabalhar por um amanhã com um futuro que vale a pena que os professores são fundamentais. Os miúdos não se podem sentar nos bancos da escola a pensar que o seu país os educa para emigrarem, que aqui não haverá trabalho, que aqui não há lugar para serem felizes! Não há lugar nenhum onde valha mais a pena trabalharmos e sermos felizes do que no país em que nascemos, a nossa terra! Não se podem sentar crianças na escola a pensarem que o seu futuro será viver longe de tudo o que no presente os rodeia. Se o futuro lhes reservar a emigração como destino, que seja por opção e jamais por não terem opção! Porque aqui existem opções! Existem! E senão existirem nada melhor do que as criarmos!
“Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.”
Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957
Queixa das Almas Jovens Censuradas foi escrita num tempo de ditadura e de censura, e é o que vos trago para pensarmos no nosso sistema de ensino e no que ele não nos trouxe para o momento actual. Este é o lamento de toda uma geração que, mais do que a minha, foi obrigada a receber (daí a repetição ao longo do poema do “dão-nos”) uma educação (ir à escola) destinada a produzir bonecos (“manequins”, de “corda”) sem alma (“nossa ausência”, “vazios”), sem ideias próprias (“penteiam-nos os crânios com as cabeleiras dos avós”), sem identidade (“onde não vem a nossa idade”), sem nada! Uma educação que procurava fazer dos jovens cadáveres adiados (” a nossa dimensão, /não é a Vida nem a Morte”).
A antítese “lírio/canivete”, na primeira estrofe, anuncia duas ideias que estão em permanente tensão no poema: vida e morte. Tensão reflectida também no título por “almas jovens censuradas”: a juventude é já por si revolucionária; enquanto a censura esgotava os seus paradigmas num terreno infértil. A liberdade revela-se cerceada no poema: “e uma alma para ir à escola”. Se a alma é sinónimo de desprendimento, a escola tem o significado de educação, pedagogia, uma espécie de condicionamento da alma.
A repetição ao longo do poema “dão-nos” é aquilo que a censura dava aos jovens. Dava-lhes uma educação que os formatava para serem obedientes (uma contradição face à inerente rebeldia da juventude), retirando-lhes assim a garra, e não lhes davam as ferramentas para mudarem o seu futuro: “Mas não nos dão o animal que espeta os cornos no destino”. Os esquartejamento das parte dos corpo (“Dão-nos um cravo preso à cabeça / E uma cabeça presa à cintura” “Penteiam-nos os crânios ermos / Com as cabeleiras dos avós / Para jamais nos parecermos / Connosco quando estamos sós.”) é a deformação que a censura provoca nos jovens.
No final, a dimensão do eu revela-se outra: nem a vida, nem a morte, mas numa condição exilada “com carimbo no passaporte”. Continua perfeitamente actual… Toda uma geração que se vê condicionada na sua liberdade, só que desta vez não é a censura enquanto instituição que cerceia, são as condições de vida e os direitos roubados, utilizando a democracia como meio de concretização desse roubo, e a dívida como justificação. Vivemos numa liberdade aparente, institucionalizada mas que continua por sentir, por se materializar. A liberdade que a democracia nos trouxe devia ter sido acompanhada por um ensino cada vez mais voltado para a transformação, para a reflexão social! Porque a democracia e a liberdade necessitam de ferramentas para lidar com essa democracia e com essa liberdade, para o efectivo exercício de ambas. É uma questão de escolha de conteúdos. Formar virtuosos cidadãos é dar-lhes ferramentas para enfrentarem o futuro, as adversidades, para verem e criarem as alternativas. Isso é ensinar e dar a liberdade. Mas ainda assim, e ao contrário de ontem, hoje temos mais ferramentas, mais meios, e mais conhecimento para mudarmos o nosso destino, ainda que nos queiram impingir a ideia de uma fatalidade. Temos essa vantagem e essa possibilidade! E por isso e ainda mais intensamente, se mantém viva a esperança no “letreiro” que se ganha com a promessa que ele se metamorfoseará em uma flôr: “raízes, hastes e corola”.







