Jota Kafka

(depois do almoço), ainda com partes do jejum.

 

05-Jota Kafka-02

Boas tardes então, e desculpe, nunca gostei lá muito da expressão “repasto”. É incisivo demais para a variedade das ementas oferecidas, mas enfim, foi para não dizer assim, de chofre, mastigado o comer… Não leve a mal.

Já está almoçado, que bem se vê, mas isto aqui ainda vai uma açorda. Nem queira saber.

Está o J. de regresso, guarda-chuva a tiracolo, castelo bem axilado e olho em riste procurando assento. Olhe!, lá vem ele… sentou-se; ainda bem. A espera desespera, vamos ver se alcança.

Provavelmente já se perguntou, mas que raio é aquilo do castelo que, uma vez se sovaca e outra se axila? Tem razão, eu mesmo já me tinha feito a mesma pergunta e, merece uma explicação. Explicação que, lamentavelmente, não tenho processo de dar.

Também me causa espécie o facto do guarda-chuva em dia de Sol, e não me vê aqui de patas ao ar numa metamorfose ridícula a tentar descobrir. Para mais não temos nada com isso.

É ou não é?

J. olhou em volta e era um conhecido no meio de conhecidos. Não conhecia ninguém mas não havia cara que lhe escapasse desde que tinha saído para ver se chovia. O que não acontecia.

Sentou-se na beirinha dum vaso baixinho e desfolhou o livro. Nessa altura eram onze e meia na espera e vinte e duas e quarenta e cinco no livro e, Kapa continuava a tentar espreitar Klamm sentado no colo de Barnabás, que se tinha escondido da estalajadeira com medo de ser visto a dar cobertura ao desaforo que era espreitar Frieda uma vez que, todos sabiam, esta tinha sido amante dum kapa e era, agora, noiva de outro. Sim, dois kapas. Um para Kapa, que, para evitarmos confusões doravante escreveremos K com ponto e Klamm, que, como inicial tem, também, K, mas sem ponto. E, para que não pense que era má vontade desvendar-lhe o que era “o castelo”, fique sabendo que só o descobri porque perguntei ao sr. Aníbal, acabadinho de pagar o dízimo que lhe tinha custado uma vigésima. Pelo menos assim lhe pareceu e me disse. E, quanto a doravante escreverem apenas K., isto é, Kapa ponto, não sei como isso será possível, uma vez que só um escreve, que sou eu, e não escreverá mais nada sobre K. ou qualquer outra coisa sobre o referido livro. Não se aplica portanto, nem o plural, nem o lembrete.

Nestas e noutras deambulações foi passando o tempo, ouvindo Dlim-Dlams e zum-zums até às doze e trinta, a hora do almoço, onde, o seu papel acetinado devia ser assinado com a competência do alguém para que outrem, ao regressar, soubesse que se tinha estado em fila de espera, de manhã, até às doze e trinta. A senhora afónica tinha já saído para tomar uma gemada, e eu tenho estado a falar de J..

NOTA: – (pequena nota: – esta nota não fica nada bem num texto que não se pretende panfletário, e é utilizada apenas porque não há outra forma de notar o que se segue na nota). Mantém-se a designação “manhã” embora fossem doze e trinta. Ora, como sabe, a hora convencionada para se passar a designar tarde é o meio-dia, isto é, as doze horas (12:00 em alguns relógios). Aqui, nesta nota, tenta explicar-se que, também a hora do almoço, que não tem hora, pode separar a manhã da tarde. No caso vertente, nem se tratava duma coisa nem doutra mas sim, a hora determinada pela administração central para os seus funcionários irem almoçar e que, ultrapassada essa e o respectivo tempo em minutos necessário à refeição, fosse considerada após publicação, a parte da tarde, logo, depois do almoço. Fim da NOTA.

Perguntar-me-á muito pertinentemente, «Mas como sabia J. que eram doze e trinta se não havia relógio na espera?»

Dir-lhe-ei que «Foi muito bem observado, sim senhor!», uma vez que, não conhecendo o recinto e não lho tendo sido alguma vez descrito qualquer tic-tac ou pantalha digital, podia realmente existir. Mas não, não existia.

O processo foi o do chamamento histriónico de quem tem fome e mastiga apetites de saída imediata, e, da seguinte forma «senhores utentes, por ordem, façam o favor de se dirigirem a mim para autenticar as vossas fichas de presença, sem a qual não serão reconhecidas após o almoço. Obrigada.»

Veja, meu fiel, a eficiência da administração central (tão desprestigiantemente chamada de, função pública), sim, que isto não é só dizer mal. Veja, o quanto se desvendou em duas linhas de oratória. Certifique-se, de uma vez por todas que, não é necessário ser-se, como dizer, tonitruante, para que uma pessoa se faça entender. Decomponhamos; raciocine comigo.

Acabaram as indefinições quanto à pessoa. Nunca mais confusões como, contribuintes, obrigados, retribuidores, nem o que mais quiser pensar. Utentes. E a senhora aí da fila dos émes tenha lá mais respeitinho que não é só quem o tem que tem obrigações, está bem?

Quem não o tem que se arranje, que vá trabalhar, porque quando for chamado a ter, será utente como qualquer um de nós!, essa agora… Ou será tenente?

E por ordem, muito bem, não queremos cá autenticar o trinta antes do vinte-e-sete, nem o quarenta depois do quarenta-e-nove; que ao J. ninguém passa à frente!

Autenticar, vê!, quem sabe, sabe; era a palavra que me faltava ao meio da manhã para lhe explicar o que significava a assinatura rubricada no papel acetinado. É que não basta a máquina cuspir um papelinho acetinado com uma letrinha e um numerozinho. Nada! A coisa só é autêntica quando autenticada. Não sei onde residia a sua dúvida. Que era nossa.

E mais, caso não siga escrupulosamente todo o procedimento, que são vários, não haverá lugar a reconhecimento em posterior atendimento após o tal repasto. Disse o alguém.

Para finalizar, porque é importantíssimo, não deixarei de salientar que finalmente, sabemos quem é alguém. Alguém é uma senhora de meia-idade, seja lá o que isso for, com saia abaixo do joelho, casaco de fazenda, meias de nylon lá de cima até uns sapatos azuis a condizer. Por dentro uma blusa algo vaporosa com uma flor de bom gosto presa ao peito esquerdo com reluzente alfinete. Mãos cuidadas e unhas com perfeição de gel alegremente pintadas. Não são feitas referências à cor do cabelo e respectivo penteado uma vez que as senhoras o alteram com mais rapidez que uma mudança de roupa. Eis alguém.

Quanto á obrigatoriedade de almoçar, uma vez que não tem senha para autenticar nem número que o identifique, pode saltá-lo. Obrigada na mesma. Subentendeu-se.

Pare, escute, olhe e aperceba-se da fiabilidade da máquina administrativa e quão árduo é o trabalho de sequenciação da população, mesmo na mais pequena escala duma repartição. Na senda da optimização, que não pode descurar o ínfimo pormenor, uma vez que, hei!, hei!, mas onde é que o sr. vai?! já foi autenticado? Ai não?! De tarde não se queixe que não for atendido, que isto com franqueza, não se pode confiar em ninguém, em tudo a adm. central pensa, em tudo a adm. central tem que pensar, uma vez que o utente; nem tenente.

Apesar de cansado, que sei que está, queria só lembrar-lhe que, nós, sim, nós, ainda não fomos almoçar, e esta, talvez seja a única oportunidade de o fazer, uma vez que alguém já saiu na companhia de todos os outros alguéns, utentes e tenentes também e até o J., que se levantou esbaforido ao saber que só tem noventa minutos para ir a casa, aquecer a sopa e o conduto, comer este e depois aquele e, regressar. Regressar a tempo de nova conferência, que sabe, e nova espera, que adivinha. Por isso até depois, agora sim, do almoço. Eu fico por cá, não vá o diabo tecê-las e a chamada começar mais cedo.

(continua)

sobre a figura:       da WEB, sem paternidade registada.

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About José Bessa

Que dizer, quando não há caminho? E nós não somos senão caminho; tudo o resto é plágio. Pede-se, compreendo… uma nota biográfica. É algo de mim que não tenho. Refiro-me ao que daqui me vêm. Sou isto mesmo, nada mais que uma palavra antes, outra depois, escrevendo de ouvido porque analfabeto. Peço que entendam quando me emociono, que me protejam quando enraiveço, que me ajudem quando esmoreço. E se me lerem; agradeço. Já pensei em escrever, é verdade, e, por pudor, imaginei até um outro nome para que não me soubésseis assim, directamente. Seria “jacente”.

Posted on Junho 21, 2014, in Geração "à rasca", Mentalidade Tuga and tagged , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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