Category Archives: Escárnio e mal-dizer

Nada como uma boa troça visando quem o merece. Por vezes hipérboles, alegorias e metáforas conduzem a um certo enfabulamento mas muitas vezes a acutilância mordaz mais não faz do que realçar o ridículo da realidade.

Celebridade Instantânea

 

andy-warhols-portuguese-soupsFoi durante a época do idealismo e da inocência do século passado, a década de sessenta, que o controverso rei da Pop Art vaticinou que o futuro nos reservava a fama Instantânea. Disse então que a todos nós estariam um dia reservados quinze minutos de fama. Hoje parece uma verdade de La Palice, uma evidência tão estupidamente óbvia que nem parece digna de nota, sobretudo para aqueles que já cresceram com a internet como um “bem de primeira necessidade”. Para todos os outros, para aqueles que como eu a infância foi vivida sem internet ou telemóveis, a ousadia da visão de Andy Warhol permanece sólida.

Esse futuro de então é o nosso presente, mas será uma dádiva? Tenho dúvidas: A exposição e visibilidade pública oferecida pelas redes sociais, qual sopa instantânea, é alimento parco para o intelecto. A forma como é experienciada, especialmente pelos mais novos, revela que o meio é um fim. Os critérios de sucesso são igualmente fúteis. Tipicamente o objectivo de primeira instancia é facilmente explicado pelos protagonistas, singelamente procuram mais “gostos”, mais fãs. Quando questionados sobre qual o retorno desse sucesso, a convicção de resposta esmorece, não sendo raro o silêncio. Descobri que entendem que o propósito da fama se explica por si só, é um bem em si mesmo e que por isso a dúvida não lhes assalta do espírito. Parecer é mais relevante que fazer, e embora Warhol não tenha previsto isso na sua profecia, o seu penteado permanece na moda. Ao mais alto nível…emplastro-em-berlim

Bad Hombres

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Ao contrário da generalidade dos políticos após eleição, o novo inquilino da Casa Branca tem vindo a concretizar as suas promessas eleitorais. Tomar posse e fazer (mesmo!) aquilo que disse em campanha pode ser estranho! É até suspeito! Os eleitores são tolerantes com as contundências do combate eleitoral, relativizam as promessas mais radicais, mais definitivas. Quando, para espanto, o absurdo dá origem ao decreto, o eleitor perde-se entre o pasmo e a estupefacção. Incrédulo, poderá até sentir-se traído. Não era suposto passar de uma promessa vã.

Eis como a mais pura idiotice passa a realidade com o beneplácito dos eleitores. Uns apoiam, estão radiantes, partilham as convicções do eleito. Os outros, coitados, validaram a excentricidade porque tinha piada, avalizaram o espalhafatoso porque não lhes parecia provável e agora perante o rigor e a verdade, recuam, desculpam-se, dizem que não levaram as ameaças a sério. Inocentes, pensaram que era só campanha. Enganaram-se! Alguns queriam vingar-se dos politicos, vulgo “trama-los”, eleger alguém à margem do politicamente correcto para os penalizar pelas promessas não compridas, mas agora, a cada dia parece mais claro que o eleitor castigador é o verdadeiro castigado. A esta causa, a do castigo, aderiram também os abstencionistas, essa massa convicta na revolta do amuo.

Era campanha… Era? Não creio! Tudo aponta para que seja todo um mandato em campanha eleitoral, desta feita global. A digressão vai começar pelo vizinho a sul, o populoso México. Entre a ajuda e a ameaça, a cavalaria avança em perseguição dos homens maus.

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Kamikaze

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O momento era grave, a situação difícil mas foi da surpresa que oportunidade surgiu. O inimigo navegava à vista, crente e confiante na vitória apesar das diferenças de opinião a bordo. A guarnição da geringonça acreditou que podia discordar, unida nos seus antagonismos, mas enganou-se. Pronto para o supremo sacrifício, lá estava Pedro, o Kamikaze Coelho. Não hesitou. No afã de sempre servir o supremo interesse da nação atacou destemido o invasor, a frota do aumento do ordenado mínimo, esses usurpadores!

Fê-lo sem olhar para trás, porque da coerência não reza a história e a dita, como sabemos, é escrita pelos vencedores. Queria ganhar, repelir aqueles que têm revertido a sua obra. Apostou no tudo ao nada, ignorando as consequências, concentrou energias nos danos causados ao inimigo. Preparou-se para partir, tomou o Saquê e proferiu o grito de guerra – Vou salvar a concertação social, em especial as confederações patronais, pobres reféns do governo. O objectivo era nobre, a vontade férrea e o instinto de autopreservação nulo. Determinado, voou picado no seu Zero.

Porém, após o severo impacto, sobretudo mediático, a geringonça reagiu. Lambeu as feridas, reparou os danos e manteve-se à tona. O choque do primeiro embate ao invés de acicatar as diferenças, gerou consensos, refez amizades, restabeleceu afectos. O guerreiro Kamikaze inspirou os seus, mas a geringonça arrumou as hostes graças à violência do ataque. O efeito surpresa fez despertar as consciências na frota de esquerda, a todos relembrou sobre o mal que os une, o ódio a Pedro.

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Reformado na Argentina

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O revivalismo dá provas de não ser moda passageira. Seja filme, produto, utensílio ou traje do passado, todos têm hoje uma nova oportunidade para brilhar, para atrair milhões de consumidores. O mesmo se passa com as teorias da conspiração. De quando em quando, lá surge como novidade uma conspiração antiga. Reciclada ou com novos indícios, emerge acima da linha de água mediática e ali fica a boiar uns tempos. Depois afunda. Vão alternando, para não fartar. O consumidor é exigente!

São como os boatos, são um produto, uma multiplicação com dois factores: o interesse e a ambiguidade. Quando um deles é zero, o boato anula-se. Ora, a boa teoria da conspiração tem sempre muito interesse e ambiguidade quanto baste para que nada se consiga provar. No fim, tudo se resume à crença de cada um. Uma questão de opinião, de palpite (os anglo-saxónicos chamam-lhe “feeling”) ou até mesmo de fé. Importante é começar por promover bem através do anúncio prévio, tal qual feito nos Panamá Papers…

Não obstante o ocasional fiasco, recebi com entusiasmo o anúncio de regresso da velha teoria conspirativa sobre o austríaco, portador da Cruz de Ferro e líder do nacional-socialismo germânico: não se terá suicidado no bunker da Chancelaria em Berlim, fugiu e viveu tranquilamente até à sua morte na América do Sul.

Não querendo com detalhes estragar a surpresa da próxima semana, devo apenas confirmar que gostava de passear em Buenos Aires e nunca faltava a um jogo da selecção Argentina. Era um fervoroso adepto.

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Operação Opereta

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A Central Nuclear espanhola de Almaraz fica na margem esquerda do rio Tejo, a cerca de 100 quilómetros da fronteira com Portugal. Construída durante a década de setenta do século passado, começou a funcionar no início da década seguinte. A longevidade inicialmente prevista foi já superada, sendo que a intenção de construir um armazém de resíduos nucleares nas suas imediações denuncia a vontade de mais uma vez estender no tempo a operacionalidade da central, hoje prevista até 2020.

O nosso país, nação não nuclear (com excepção do concelho de Loures), sempre atento, preocupado e intransigente em questões ambientais, manifestou de forma (mais ou menos) atempada a sua preocupação. Face ao processo de decisão unilateral do país vizinho, a nossa máquina diplomática diligenciou com celeridade, manifestando o nosso desagrado. Contudo, tais missivas não produziram qualquer resultado, pelo que de pronto se instalou a polémica. Recordei-me a este propósito de um outro diferendo entre dois países sobre questões deste género, no final do século passado. O diferendo, foi definitivamente resolvido no dia 7 de Junho de 1981, quando o mais pequeno desses países destruiu o reactor nuclear que estava no centro dessa disputa. Esta ousada acção militar ficou conhecida como Operação Ópera, onde aviões F16 voaram baixinho e no limite da sua autonomia bombardearam o alvo.

Por cá, após conversa entre soberanos, o titular da pasta do ambiente foi destemido a Madrid. Viajou de F16 e no regresso até sobrevoou a central, mas a única bomba que largou foi a queixinha. Foi a Operação Opereta… Bufa!

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Tiro ao Boneco

Pérfido e vil traidor à pátria, ingrato e rancoroso, mesquinho e malfadado, eis o perfil que convém ao vilão do momento mediático. Na hora de glória do filho mais pródigo da nação, na falta de melhor notícia, nada como uma parangona sobre traição à nação e aos seus símbolos, sobretudo aos de carne e osso. Compreende-se. No momento de idolatrar o melhor do mundo, uma vez esgotada a notícia da vitória, nada como o contraste entre a virtude e a ignomínia, uma notícia para execrar outra personagem. Bem, pelo menos à primeira vista porque após leitura tudo se relativiza. O protagonismo coube a um velho desafortunado da nossa história desportiva, ex-seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz. Parece que entre os seleccionadores com direito a voto na eleição dos melhores, não favoreceu os compatriotas a concurso.

Terá mesmo votado contra? Em rigor, não! Não, porque não lhe coube a decisão sobre o sentido de voto. Foi mandatado. Se em Roma, sê romano, em Teerão sê iraniano. Parece que entre os persas, tal como nas grandes e liberais democracias do mundo, a lógica de um voto por cada homem cede o lugar ao colégio eleitoral, composto por super-eleitores, treinadores da Iran Pro League, que entre si decidiram o voto do treinador português, seleccionador do Irão e injustiçado vilão de mais esta desventura. O caso não é de todo aquilo que aparenta, mas à maioria pouco importarão os factos. Perante a notícia manipuladora, avançará o pelotão de fuzilamento. Vamos ter tiro ao boneco.

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Nacionalize-se o Banco

Foi na passada quarta-feira, que o primo do anterior dono disto tudo foi ao antigo armazém de bananas para fazer a sua comunicação ao país, isto é, dar uma entrevista ao macaquinho de serviço. Começou por manifestar orgulho na família e no seu negócio secular, não obstante a última década, período que reconheceu não ter corrido assim tão bem. Feita a pequena introdução, avançou para o essencial da mensagem e sem rodeios, como é seu hábito, disse o que lhe vai na alma de banqueiro. Quando a ética profissional lhe limitou a frontalidade, lá esteve o interlocutor para complementar e dizer o que não deve ser dito. Útil, eis a vantagem do entrevistador, ser o ponto.

O projecto não mudou muito, é o de sempre. Sonha liderar a instituição fundada pela família há mais de 100 anos, aquela que hoje está à venda. É esse o seu propósito. Uma vez traído na sua intenção pelos novos donos do antigo BESI, pediu a demissão. Confesso a minha simpatia para com esta determinação e foco. Está obstinado e comprometido com o desígnio de recuperar o ancestral negócio familiar. É bonito.

E agora? Bem, gorado o negócio da China, e como dinheiro que chegue não tem, achou por bem denunciar essa prática imunda da comprar, retalhar e vender. Opõe-se ainda a qualquer venda que obrigue a quaisquer garantias ou contra-garantias do estado. Quer ganhar tempo! Demonstrou assim manter intacta a capacidade de compromisso táctico e estratégico. Implacável e pragmático, qual Czar-Vermelho, afirmou peremptório: Nacionalize-se.

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Última Hora: Indesmentível e factual

Uma importante investigação jornalística acabou de ser divulgada, gerando grande polémica e espanto entre todos os telespectadores. Os factos são indesmentíveis e foram finalmente divulgados pelos meios de comunicação. As novas tecnologias tiveram um papel preponderante na condução da ciosa investigação, tendo permitido obter provas irrefutáveis dos factos apurados e confirmados pelas fontes anónimas, as quais permitem hoje afirmar com total certeza e convicção que a última hora terminou exactamente sessenta minutos após o seu início.

Eis o exemplo de conteúdo bem-sucedido nas redes sociais. Nem sequer precisa de ser mentira, basta dizer “Última Hora”, ser ilustrado com um rosto conhecido ou polémico, conter ambiguidade quanto baste e claro, repleto de suspeição e mistério. No fim, pode até não dizer nada. A mera ilusão de que algo de grave será revelado é suficiente para despertar a curiosidade do internauta, seja ele ou ela, perspicaz ou denso de processo cognitivo. Somos uma espécie fácil de pescar online, com a agravante do isco ser abundante e por isso acessível a todos.

Nos últimos tempos têm-nos tentado convencer que o problema reside nas chamadas notícias falsas, mentiras torpes que ameaçam um mundo paradisíaco e que nunca até aqui tinha sido palco de qualquer forma de manipulação. Revelam-nos até milagrosos planos de prevenção e combate a esta terrível ameaça ao equilíbrio do planeta. Devemos desconfiar desta nova embalagem da (julgada) extinta censura? Talvez, mas antes de aderir à teoria da conspiração, uma singela, quiçá inocente, pergunta: O problema está nos emissores ou nos receptores?

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Qui? Moi?

O Cour de Justice de la République – CJR, é um tribunal especial da república francesa sem congénere nacional, uma vez que apenas avalia a conduta dos ministros da república. É portanto um tribunal de governantes, que julga os casos de má conduta durante o exercício de funções. Uma nobre função, uma organização de grande importância para o regular funcionamento das instituições, mas cuja existência se deve cingir a nações com orçamentos desafogados, ou que (pelo menos) os juros da dívida soberana não façam parte das rotinas noticiosas.

Hoje que falta uma dúzia de dias para acabar o ano, o CJR condenou a actual Directora-Geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, por negligência enquanto exerceu funções como ministra da economia da república francesa. O caso envolve um polémico empresário, um fabricante de calçado alemão e um banco francês. O empresário, ele próprio ex-ministro das cidades de França no tempo do malogrado ami Mitterrand, Bernard Tapie é uma espécie de José Sócrates gaulês, mas à devida proporção. Durante uma década, esteve em todas. Dessa feita, à época falido, vendeu a sua participação na Adidas ao banco francês Crédit Lyonnais, que por curiosa coincidência também faliu. Esta venda, culminou em litígio entre o vendedor e o comprador. O desfecho desta disputa foi favorável ao empresário e foi precisamente por não ter recorrido desta decisão que Lagarde foi hoje condenada por negligência. Qual a pena? Nenhuma! É por isso que prescindimos deste tipo de tribunal especial. Seria um custo incomportável para uma função inconsequente.

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Nobel da Nota

Vivemos dias de exacerbado orgulho nacional, de repetida celebração dos protagonistas do momento, por isso resolvi relembrar um notável de outros tempos, o primeiro português galardoado com um prémio Nobel. Nascido a 29 de Novembro de 1874 em Estarreja, Aveiro, o Professor Doutor António Egas Moniz não herdou o apelido de seu pai, mas foi por influência do irmão deste que foi baptizado. A família paterna descendia directamente de Egas Moniz de Riba Douro, o Aio, um distinto indivíduo a quem o nobre Conde D. Henrique de Borgonha confiou a educação do seu primogénito, aquele que pela força criou um reino e se fez rei, Afonso I de Portugal.

Hoje, no sexagésimo primeiro aniversário da morte do Professor, invoco a exuberância dos seus órgãos vestibulococleares (vulgo orelhas) característica que o deprimia, mas é sobretudo com muita saudade que lembro a nota criada em sua homenagem, a nota de dez mil escudos, esse símbolo da soberania monetária de outrora, livre no seu perpétuo movimento de desvalorização, mas ainda assim com maior poder aquisitivo que os actuais 50 euros.

Estranha esta saudade, não é? Logo agora que não só não existe inflação como nunca a diversidade de escolha foi tão vasta. Antigamente, quando os preços subiam constantemente, ao invés de milhares de produtos e marcas diferentes, coitados, éramos forçados a consumir os clássicos como a pasta medicinal Couto, o restaurador Olex ou as doces Fantasias de Natal, aquelas em cujo anúncio o Coelhinho ia com o Pai Natal e o Palhaço no comboio ao circo…

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