Banco Yin Yang

Good Bank vs Bad BankNão havendo muito mais a acrescentar em termos de opiniões do caso BES e/ou GES arrisco-me a aventurar por caminhos alternativos de pensamento. Faço-o porque não acredito na separação plena do bem e do mal, o equilíbrio dá-se na harmoniosa convivência de ambos. Além de que não basta separar donos, marcas, activos e passivos.

No seio do BES continuarão empregadas muitas pessoas envolvidas nas decisões ou na sua execução. Pessoas que terão tido contacto directo com o refogado, que podiam ter ligado ao 112 para alguém desligar o lume antes que se desse a queima do repasto e mesmo o estragar do tacho. Se a sua mentalidade e obediência se mantiver a recorrência é possível e provável.

Olhando para o balanço consolidado do BES vê-se que realmente o rombo dos milhares de milhões de euros falados arrebenta com todos os rácios de solvabilidade só que isso não invalida que esteja ainda ali muito dinheiro, mais de 36 mil milhões em depósitos, mais de 45 mil milhões de créditos a clientes e pelo outro lado mais de 16 mil milhões de dívida a credores.

Dodd-Frank Falls Short on ‘Too Big to Fail’ BailoutsQuando falam em “too big to fail” vêm-me à cabeça os perto de 10 mil milhões de euros acumulados que o estado utilizou para tapar os buracos BPN, BPP e agora BES. Esses 10 mil milhões não seriam suficientes para remendar as rupturas que pudessem surgir? Num cenário de queda de um banco como o BES seria natural que os penalizados directos fossem os seus accionistas e investidores, os depósitos deveriam ser salvaguardos na integridade pois é essa a natureza de um instrumento financeiro de poupança com baixa rentabilidade, aos credores caberia a divisão dos despojos remanescentes. Ou seja, a queda de um banco só deveria provocar prejuízos em quem tem com ele uma relação com risco associado. É quem nele investe e quem lhe dá crédito que deve exigir boa gestão, avaliação e regulação independente. Já aos clientes de crédito sairia um género de jackpot pois na prática a entidade credora deixaria de existir. E com isto o verdadeiro prejuízo ficava ao nível das baleias da alta finança. Na economia teríamos até uma injecção de capital indirecta pois todos aqueles que deixavam de cumprir com as suas obrigações de crédito passavam a dispôr do valor dessas prestações para investir e consumir. O dinheiro continuaria a fluir mas de outra forma.

Fala-se na fraca regulação estatal, ou de entidades centrais, que deixam passar estes casos complexos sendo que essa displacência, apesar de criticada, acaba por ser aceite de ânimo leve porque os credores do banco que quase cai são tendencialmente protegidos. Os planos de revitalização de um banco em dificuldades são feitos sobretudo para que este consiga cumprir com as suas obrigações de endividamento e não propriamente para salvaguardar interesses dos seus clientes ou accionistas.

Não me parece que seja penalizando a concorrência nacional do seu sector de actividade que a coisa fica melhor composta. A melhor forma de apertar as malhas e recursos dedicados à fiscalização e regularização é precisamente deixar que as consequências subam as cascatas de capital, como um salmão que vai desovar um caviar pútrido na bandeja dos lambões dos juros sobre empréstimos de alto volume.

Na minha óptica o cerne do problema é precisamente o estancar do propagar das consequências, pelo que a melhor forma de rapidamente reformular toda a monitorização e regulação dos mercados financeiros seria com medidas como:

  • “Even giants may fail” – na queda de um banco todos os depósitos seriam garantidos, os créditos a clientes seriam dado como fundo perdido (total ou parcial em função do montante ainda em dívida vs montante inicial), os credores dividiram activos remanescentes, accionistas e investidores assumiriam por inteiro o risco e a má gestão. Desta maneira iriam surgir organicamente muito mais condicionantes ao surgimento dos gigantes bem como mecanismos de supervisão sobre a sua gestão;
  • “Offshore? Of course!” – toda e qualquer entidade que utilize mecanismos offshore para suavizar as suas contas teria de pagar um imposto especial de prevenção à fraude económica. Uma tributação significativa e variável em função do número de empresas e offshores por si constituídas vs volume de negócio da entidade. A intenção não será propriamente o seu fim mas proporcionar meios para que o que nelas se passa seja muito mais transparente;
  • Maior responsabilidade a gestores de 2ª linha e executores de planos de gestão fraudulenta – incomodar os cabecilhas não basta, é preciso que também os seus crentes e fiéis executantes, que tenham um nível de know-how sufiente para perceber no que estão envolvidos, sejam indiciados como membros activos da concretização da gestão danosa. Eles devem ser a primeira linha da garantia de consciência e rectidão de gestão;
  • Recompensa indexada ao valor da fraude – criar mecanismos que permitam a denúncia com protecção de anonimato e que recompense os denunciantes com um valor monetário indexado ao volume da fraude. Para compensar a honestidade e também para que os possíveis ganhos com o envolvimento no esquema de fraude tenham concorrência forte para os mais susceptíveis ao untar de mãos para pautar a sua acção e consciência;

Este seria um novo ambiente que não seria presunçoso ao ponto de se achar capaz de dizer qual é/será o banco bom e o banco mau do momento. Um sistema onde todos os bancos são Yin Yang, capazes do melhor e do pior, alternadamente, em perfeito equilíbrio e auto-correcção.

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About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Agosto 7, 2014, in Ideias para o País and tagged , , . Bookmark the permalink. 7 comentários.

  1. Isso interessaria à sociedade mas não ao sistema financeiro.., Eu também não percebo como é que em poucos dias se separam os activos e passivos em bons e maus, quando a contabilidade estava toda engatada e as imparidades por calcular. Mas é que genuinamente isso não interessa ao mercado de capitais. Deixar os créditos caírem??? Isso é blasfemo. Se o Ulrich lê isto dá-lhe três fanecas… O Salgado rir-se-ia… A questão dos offshores é boa ideia, mas lá está…Deixaram que eles existissem e agora são um monstro. O nervo da questão é que o mercado de capitais é dominado por grandes grupos económicos e os Governos não têm mão neles. A própria regulação não faz rigorosamente nada mesmo tendo informação para isso, só mediante queixa, como aconteceu no BPN e agora. Por isso, ficamos sem saber o que se passará pelo BCP… e noutros bancos. Por outro lado, a influência legislativa que os privados têm é imensa… Os grupos financeiros têm elevada representatividade executiva e parlamentar nas altas instâncias europeias. A única maneira de acabar com isto de forma controlada era uma legislação tributária global em que penalizasse a fuga de capitais. De resto creio que os técnicos estarão a ser ouvidos pelo DIAP depois dos directores negarem o conhecimento da situação. Nas salas de mercado é tudo gravado mas os directores não estão lá. Matéria para incriminar só aos técnicos. Dos directores aposto que nem um email. Dos técnicos falta de coragem para pedir por escrito. Mas de facto, a denuncia deveria ser recompensada, é a única forma de se saber.

    • Os governos certamente que serão desorientados pela armadilhada teia financeira e chorrilho de estudos e projecções com cenários catastróficos. Muitas vezes uma mudança global é acelerada por um acontecimento local pelo que talvez um dia um governo poderá vir a ter a coragem de deixar cair, gerindo a queda, e não esgotar-se em cuidados paliativos a todo o custo. Provavelmente vai doer mas o que arde cura!

      • Gonçalo Moura da Silva

        Desorientados? Desorientados andam os eleitores, entretidos com fogos de artifício e programas de entretenimento eufemisticamente designados por informação. Um exemplo: ontem o telejornal da sic apresentou “sondagens”. A primeira sobre a decisão tomada no caso Bes. Números – 50% concorda, 30% discorda. Giro. Ficha técnica? Nada! Nem dimensão da amostra, intervalo de confiança, nada, zero. A lei diz que tem de o fazer… talvez quando a ordem vem do bce, a propaganda se sobreponha à lei. Governo? Qual?

    • Gonçalo Moura da Silva

      Não sabemos? Sabemos pois! Todos os bancos “fabricam” dinheiro. Usam o tempo. Modelo Carlo Ponzi.

  2. Bem… O jogo Ponzi é crime… Mas eles também são todos uns criminosos rebarbados. O Madoff era exactamente isso que fazia e é impressionante como enganou tanta gente e meteu tantos a perder tantos milhões com uma coisa que toda a gente conhece. Aqui não sei se será ponzi game, mas creio que poderá ser mais complexo do que isso. O BPN era um bando de criminosos que criaram um banco para se encherem, o BES é diferente. É certamente gestão danosa, informação encoberta… Mas do meu ponto de vista é que o problema do BES põe a descoberto o problema dos bancos, da banca e do mercado de capitais. Podem chamar uma crença, porque na verdade não possuo informação detalhada, mas o BES é um grupo financeiro com estrutura e possivelmente gestão próxima do que é mais comum na banca. E denuncia a promiscuidade com o banco central e regulador, BP e CMVM. Possivelmente uma série de acontecimentos e situações fez isto cair. Mas será que os outros são diferentes? Para mim o BPN podia ser diferente, o BES é o comum dos bancos, ou pior, é (ou era) um banco sólido em que as pessoas confiam.

    Eu também vi a sondagem e acho-a despropositada. Eu se fizesse parte da amostra não podia responder. Eram perguntas técnicas e de avaliação de desempenho. Eu sei lá se o tipo do BP esteve bem ou mal, eu não sei quais as condições em que actuou, a informação que dispunha ou não. O que eu tenho quase a certeza é que os Bancos Centrais não têm margem de actuação. E o que nós sabemos também é que a confiança nos bancos, se existia, depois disto, esfumou-se. Cada vez que me lembro que o BES caiu até me arrepio. Durante este processo todo eu acreditei que isto se ia compor, jamais imaginei um desfecho destes. E eu sou contra a banca, mas confesso-me estúpida perante isto! Eu acho genuinamente que há um antes e um depois disto. Para mim, é claro.

    • Gonçalo Moura da Silva

      Confiança e a falta dela, eis a diferença entre o sucesso e a ruína. Madoff, D.Branca ou Caldeira, todos diferentes entre si, mas iguais na essência. Observo os bancos da mesma forma. São instituições extrativas. Com maior ou menor sofisticação, flutuam sobre bolhas. Todo o sistema é uma enorme bolha.
      O termo “especulativo” é, quanto a mim, um adjectivo enganador. Uns são menos “robustos” que outros ao teste do tempo. Tal como as teorias económicas. Os “sacrosantos” mercados nunca tenderam para a estabilidade, mas sim para as bolhas. O “económico” como ciência exacta é absolutamente estúpido. Primeiro porque assume que os recursos naturais são infinitos, depois porque todos os agentes que operam nos mercados influenciam a realidade do dia seguinte. As circunstâncias mudam, essa é a única lei fundamental.
      A analogia entre Newton e Smith é absurda. Nada do que qualquer um de nós faça influencia as leis do movimento, já nos mercados… veja-se o que aconteceu às ações do bes.
      Esquema Ponzi é crime? Tudo uma questão de referencial e circunstância. Aristóteles classificou o juro como usura, mas ignorava o trabalho. Circunstancia? A escravatura. Ricardo valorizou o trabalho, mas a circunstância (relação entre demografia e alimentos disponíveis) levou-o à lei de ferro… o que por sua vez “abriu a porta” a Marx.
      Até Keynes “inventou” a macroeconomia para sobreviver à circunstancia: na mais liberal economia do mundo, tudo que seja intervenção do estado é rejeitado à partida (com excepção da defesa). Problema: os agentes económicos que operam na microeconomia sabem anticipadamente quer normas, quer objectivos macroeconômicos, pelo que podem perverter ambos se tal lhes for conveniente.
      Tudo isto para voltar ao início: tempo e confiança. Porquê? Porque a economia somos nós! Como somos falíveis, todas as nossas criações também o são. A economia como um fim em si mesmo é estúpido. A aceitação generalizada de frases feitas como “criar valor” é um fenômeno de normalização que me preocupa. Valor de troca, ou valor de uso? Pois… 😉
      Não sou contra os bancos, sou contra a mistificação da finança.

  1. Pingback: Matrioskas Reguladoras | ao Leme

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