Morrer feliz

Por agora o assunto morreu sendo seguro que voltará à baila, espero que em condições. Algures no tempo tenho ideia de ter tido muito mais certeza sobre a minha posição quanto ao direito a morrer. No entanto as coisas mudam, conhecemos pessoas, ouvimos hisrias, analisamos factos, lidamos com a  luta e/ou morte de pessoas próximas, decidimos matar seres próximos (como animais de companhia), refletimos sobre a conexão holística e cármica, e de repente a base sobre a qual assentam os nossos fundamentos passa do concreto armado à areia movediça que nos obriga a movimentar cautelosamente em busca de terreno sólido onde firmar pé novamente.

Eutanásia advém do grego euthanasia que significa morte fácil, morte feliz. A componente fácil diremos que poderá estar relacionado com a comodidade, rapidez e ausência de sofrimento físico. Terá sido aqui que se focou a tradução da palavra para o mundo contemporâneo, deixando cair por completo a componente da felicidade. Julgo que não terá sido por acaso pois para garantir uma morte feliz esta terá de ser precedida por uma vida feliz, por uma vivência comunitária e familiar que construa significância. Não será complicado matar alguém de forma instântanea e indolor mas garantir que parta em paz? Com satisfação pela sua passagem por este mundo? Com orgulho do seu legado imaterial? Isso não se garante apenas com uma boa morte.

Em vez de termos a sociedade divida numa luta focada na morte deveríamos ser capazes de uma união em torno da vida. Ao invés do deslumbramento para com as histórias humanas, de sucesso e esperança futura no tratamento de doenças terminais, deveríamos perseguir as causas endémicas que levam à cada vez maior incidência de doenças física ou psíquicamente dolorosas, sofríveis, incapacitantes, fatais, procurando alterar os hábitos e comportamentos que a isso conduzem. A classe médica, que tanto se foca no tratamento do ser humano para que este se adeque e sofra o menos possível com o estilo de vida vingente, deveria dar um passo atrás, olhando para o panorama geral, tentando perceber se a sua ação não seria mais útil em intervenções na sociedade que vão muito além do que se passa dentro das instalações médicas, tendo a coragem de integrar no seu conhecimento científico os ensinamentos oferecidos pelas visões orientais sobre a saúde humana (física, psíquica, espiritual e energética).

Nos dias de hoje quem pode cuidar devidamente dos seus e de si? Quem pode manter os enfermos envolvidos e acompanhados no seu círculo social e familiar? Sem perder o emprego? Sem prejudicar a escolaridade dos filhos? Sem se desdobrar em habilidades logísticas e financeiras para conseguir cumprir com todos os compromissos assumidos? Não há pior sentimento para um acamado do que o ter a certeza absoluta de que sim, está a ser um fardo para os seus, para as suas rotinas, para o seu tempo de lazer, onde deveriam recuperar do esgotamento físico e psíquico imposto pelo nosso estilo de vida, porque, infelizmente, o enfermo deixou muitas vezes de fazer parte dessas rotinas, desse lazer. A fragmentação geográfica das famílias e comunidades ocorrida nas últimas gerações reforçou-se ainda mais com o advir das redes sociais e afins. Estamos todos tão perto uns dos outros quando tudo corre bem! Quando estamos mal? Estamos simplesmente offline, inexistindo até ao próximo post de vaidade galhofeira. Um país sem estrutura de suporte à vida digna não deve criar uma via de alternativa fácil aos que são quebrados e derrotados, como que dando o sinal de que deixará de ser relevante o impacto a longo prazo das opções governamentais e/ou individuais. Se acabarmos por destruir o nosso corpo e/ou mente não há preocupação, teremos garantido o fim do nosso sofrimento de forma fácil e limpa. Querem melhor reforço da inconsciência actual que degenera em crescentes taxas de incidência de cancros, demências e afins? A este ritmo a eutanásia poderá rapidamente tornar-se num varrer de problemas para debaixo do tapete. Se as pessoas em agonia desaparecerem não maçam, não dão despesa e não levam à formulação de porquês…

Continuo assim com a certeza de que devemos ter o direito à recusa do prolongar artificial da nossa vida, à recusa do sermos alvo de actos médicos com os quais não concordamos, agora se temos o direito a pedir que nos matem? Talvez, caso não o consigamos fazer pelas nossas próprias mãos, coisa que é passível de acontecer simplesmente pela recusa em ingerir líquidos ou alimentos como fazem alguns animais em desgosto profundo. Teremos algo a aprender com eles? Sejamos francos, 99% de nós não precisa de uma morte assistida, se o desejo fôr efetivamente morrer as possibilidades são imensas. Acredito que para o restante 1% se consigam soluções criativas se realmente necessário.

Por fim suspeito que tenhamos de reaprender a lidar com a morte aceitando-a seja lá como nos venha a ser entregue. Quando temos um moribundo diante de nós ambos temos a sagacidade de perceber que a morte se aproxima. Deveríamos ter a coragem de aguardar juntos, cabendo aos viventes o zelar e acompanhar da transição, partilhando os momentos finais que tanto impacto terão em todos os participantes mesmo que envolvidos em silêncio, toques e olhares serão suficientes. Porque por vezes me parece que o conceito de eutanásia, morte fácil, é um instrumento sobretudo facilitador para os prestadores dos cuidados de saúde, que libertarão uma vaga e reduzirão custos, e para os que ficam poderem retomar as suas vidas que parecem interrompidas por esta ‘anormalidade‘ que é o definhar de encontro à morte.

 

About Nuno Faria

Nascido em 1977, vegetariano desde 1997 (por convicção própria), com licenciatura de Sistemas de Informação na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1995-1999. Desde 2000 que estou envolvido em projectos de ambiente web, sites, portais e aplicações residentes em Intranets. Em 2003 integrei a equipa da Imoportal.com, hoje absorvida pela Caixatec - Tecnologias de Comunicação SA, onde dei o meu contributo para transformar um site com 30 a 40 mil visitas mensais numa rede de sites que atinge o milhão de visitas mensais. A Internet faz parte da minha vida profissional mas sou também um seu utente. E como tal interessam-me particularmente os mecanismos e dinâmicas capazes de aliciar, convencer e fidelizar visitantes. Preocupo-me em pensar, escrever e criar variados conteúdos que disponibilizo online, como forma de contribuição para o contínuo crescimento da web, não me limitando a ser apenas um seu consumidor.

Posted on Junho 4, 2018, in Deriva and tagged , , . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. Excelente texto sobre uma matéria cheia de dúvidas e pouca certezas ….Portugal é um país pequeno, pobre e com uma trágica tendência p se comportar como um país rico. Uma vocação maluca para conduzir carros de alta celindrada em pequenos troços poirentos de província, perigosos e sem rumo definido. Julgo n existir um único país com esta matéria já regulamentada q n tenha um padrão de vida sustentável p a generalidade de quem lá vive.. Aqui fazemos ao contrário pomos na lei e depois logo se vê…..

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