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Os Ciclopes ao piano: uma mão-cheia de inovação
Escrito por: Gonçalo Moura da Silva
Venho falar-vos de música, 4 minutos de música. Descreve gigantes mitológicos a trabalhar na forja, martelando ritmicamente, a transformação pelo fogo. Um cenário rude e fabril, mas que, em rigor, precede a Revolução Industrial. É música! Barroca na forma, romântica no conteúdo. Chega-nos graças à acção isolada, mas involuntariamente concertada, de 5 notáveis.
O primeiro? Inglês, séc. XVII, Sir Isaac Newton. Sem o saber, foi o grande maestro que orquestrou tudo através da sua Lei da Gravidade. Inovou porque esclareceu.
O segundo? Italiano, então cidadão da cidade-estado de Florença, séc. XVIII, Bartolomeo Cristofori, deu corpo ao som do cravo e inventou o piano. No cravo, o som nasce pelo beliscar das cordas por um plectro, o que cria um som seco e brilhante, de textura metálica, mas cru, sem grande ressonância; as notas são vivas, mas breves. Um cravo nunca soa como uma orquestra. Cristofori inovou: criou o mecanismo de martelos que permite controlar a intensidade do som, algo que o cravo ignorava. Piano, em italiano, significa suave, leve; daí o nome completo pianoforte, instrumento que permite variar a intensidade sonora entre o mais suave e o mais forte.
O terceiro? Um engenheiro francês, séc. XIX, Sébastien Érard. Inovou ao criar o motor que faltava ao piano de Cristofori: a dupla repetição — permite ao martelo escapar à rigidez do mecanismo actuador, com ajuda da gravidade, oferecendo maior velocidade e controlo mais fino; de um modo simples, não é necessário esperar que a tecla regresse à posição original.
Aí vão 3. Quem é o 4.º? Também francês, contemporâneo do inventor do piano, séc. XVIII, foi um teórico da música que estabeleceu as leis que regem os acordes quando escreveu o seu Tratado da Harmonia. Falo-vos de Jean-Philippe Rameau, compositor que nunca escreveu para piano. É ele o autor da obra que hoje vos convido a conhecer ou recordar.
E quem a toca? Dos 5, é o único que ainda está entre nós, o virtuosíssimo pianista russo Grigory Sokolov. Qual a inovação? Bom, ele trouxe para a riqueza harmónica do piano uma obra pensada para o áspero cravo, que não só é mecanicamente mais rápido, como tem dois teclados que facilitam os cruzamentos de mãos.
O desafio? O piano de concerto é uma máquina pesada; as suas teclas, por comparação, são mais lentas na acção. Embora Sokolov não tenha sido pioneiro na adaptação de composições barrocas para o piano, foi o intérprete que as elevou para um novo patamar. A sua mestria reside na combinação aparentemente impossível entre uma precisão mecânica e uma graciosidade rara que, em conjunto, nos revelam o romantismo escondido nos frenéticos ritmos de Rameau. Graças a esta mão-cheia de inovadores, o piano soa tão ágil e preciso como o cravo e, simultaneamente, como uma orquestra.
Antes de vos dizer qual a obra, quais os maravilhosos 4 minutos que vos desafio a ouvir (e a ver), um alerta: não tentem isto em casa! Aquilo que vão ver e ouvir parece fácil, tal a mestria do intérprete, mas não é; é dificílimo. Não questiono o vosso talento ao piano: tudo está relacionado com o equipamento! Sim, mesmo a minoria que entre nós foi agraciada pela lotaria da vida e tem em casa um piano, muito provavelmente não dispõe do equipamento necessário.
Porquê? Porque, como o metro quadrado está pela hora da morte, os pianos domésticos são normalmente pianos verticais. Ora, é aqui que Newton volta a ser chamado: a acção da gravidade desempenha um papel fundamental no mecanismo de Érard. No piano vertical, as cordas estão “em pé”, o que obriga a substituir a gravidade pela acção de molas para que o martelo recue. Esta complexidade extra é contrária ao próprio conceito do piano vertical, que privilegia a simplicidade e a economia de espaço, resultando frequentemente na ausência da dupla repetição. Sem a física a favor, nem o maior virtuosismo do mundo vos salvará de “atropelar” as notas desta peça.
Resta-me revelar a peça: “Les Cyclopes”, da Nouvelles Suites de pièces de clavecin (1728), de Jean-Philippe Rameau, na interpretação ao piano de Grigory Sokolov. Espero que gostem; a mim, lava-me a alma de toda a mágoa e enche-me de alegria.
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