Author Archives: Gonçalo Moura da Silva

Pedagogia dos Pequeninos

O “novo” ministro da economia é um mestre da dicção. Não há quem lhe peça explicações do tipo “como se eu tivesse 3 anos”. A redundância intimida. Será?

Haja coerência, se o (des)governo tem ideais liberais, não pode, não deve (jamais!), interferir nos negócios. Sejam quais forem. É por isso que nenhum membro do executivo se manifestou sobre a venda da PT. É bonito. O facto de apenas existir uma proposta, o facto de todas as outras terem sido preteridas nada nos diz sobre as declarações do ministro da economia. Afirmar que a PT “merece ter accionistas que a valorizem e lhe dêem estabilidade” é apenas um estimulo à boa gestão. Está correcto o português. É em francês que surgem duvidas. Afirmar “Je suis Altice” pode não ser muito prudente. Então? Foi apenas mais um pequeno incidente de tradução. Compreende-se. Sensacionalismos gauleses… Já entre nós, a seriedade na imprensa é obvia. Basta observar o relato da Assembleia Geral da PT SGPS: Presente 44% do capital, 97,8% votou favoravelmente à venda, ou seja, um pouco menos de metade do capital da empresa, mas ainda assim é possível produzir títulos como “Decisão quase unânime“.

Perante isto, concluo: A dicção do ministro, (afinal) está correcta.

Portugal dos Pequeninos

 

‘O sole mio

António Costa

Ouço ao longe os acordes da canção napolitana, mas as palavras são outras. Nem literais sobre o astro, nem figurativas sobre uma mulher. Não é esperança nem desejo, é um plano, uma estratégia com cabeça tronco e membros (ou não!). Eis como encaixam as notas desta melodia.

lisboa_cheias_2014Começou pelo plano pedonal. A impermeabilidade dos solos foi a primeira pista sobre o futuro. Depois as polemicas declarações sobre a inevitabilidade das cheias em dias de borrasca. Ontem, o centro da cidade de Lisboa foi interditado ao transito de automóveis “menos recentes” (anteriores ao ano 2000). Porquê? Bom, tal como a figura ilustra, a flutuabilidade destes veículos deixa muito a desejar. Constituem uma perigosa ameaça à navegabilidade das ruas desta nossa cidade-museu, qual Veneza atlântica para turista ver. Low cost, claro.

E o País? A Europa? Calma, ainda não é este o momento, mas é obvio que o gondoleiro do Rossio tem justas ambições internacionais. Como dizia o poeta, “Pelo Tejo Vai-se para o Mundo”!

As palavras que ouço são na língua de Shakespeare, mas com pronuncia do Mississípi. A melodia é a de sempre. O Costa canta “It’s Now or Never“…

Onde Está Wally?

topo

Foi em 1987 que Martin Handford publicou o primeiro livro da colecção “Onde está Wally?”. O enorme sucesso junto de graúdos e miúdos não evitou que na América do Norte lhe mudassem o nome para Waldo, mas não foi só por lá que lhe mudaram o nome…

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A genialidade está no entretenimento que estes livros nos proporcionam. São uma excelente forma de nos alienarmos de problemas ou preocupações. Os desenhos são de tal forma ricos em pormenores, que encontrar o herói é uma tarefa que requer um nível de concentração elevado. Mudar a perspectiva de observação, por vezes ajuda.

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A Wenda, o Sábio de Barbas ou qualquer um dos membros do grupo de fãs partilha cores, texturas e padrões com o nosso herói. Torna ainda mais difícil a tarefa de identificar cada um deles. A verdade nem sempre é aquilo que parece.

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Je ne suis pas…

Não, não sou Charlie Hebdo. Desconheço até o conteúdo da publicação, dita informativa. Independentemente do seu conteúdo, julgo que não devem existir quaisquer limites à forma de expressão. Verdadeira liberdade é a escolha pessoal. Cada um de nós terá o seu limite, a sua fronteira sobre o que é ou não alvo legitimo de sátira ou de ridicularização humorística.

Conheço França francamente mal. Não visito Paris desde o século passado, mas já então era perceptível que as opções urbanísticas estavam a promover uma verdadeira bomba-relógio social. Os tumultos de 2009 não me surpreenderam de todo. Vi, e vivi, a atitude de um certo xenofobismo gaulês, mas também vi, e vivi a atitude de desafio e desprezo pelas normas por parte dos ditos magrebinos. Senti, que se por um lado são excluídos, por outro, eles próprios fazem gala dessa exclusão. São estrangeiros no local de nascença, bem como nos países de origem das suas famílias. Muitos chegaram à idade adulta sem nunca terem vivido o sentimento de pertença. Perante uma causa que os acolhe e valoriza, terão então finalmente um propósito. O objectivo não foi a “vingança do profeta” em si, mas sim o impacto que o “feito” tem junto de quem os acolheu. Tal como nós, não compreendem quando são instrumentalizados. Meras ferramentas de objectivos maiores, que na verdade poderão ser contrários à moral abraçada. Duvido que algum seja capturado com vida. O seu eterno silêncio interessa a todas as partes, principalmente aos promotores do seu treino militar.

Dizem-nos que é terrorismo, mas parece-me guerra. Haverá diferença? Bem, barbárie é barbárie, seja qual for o rotulo que lhe colocarmos. Então porquê o preciosismo com o rotulo a aplicar ao que se está a passar em França? É uma questão de comunicação – A guerra é mais difícil de explicar a um ocidental, enquanto o terrorismo é algo que se auto-explica: São fanáticos, são loucos e basta. A diferença, a intolerância, o desprezo pela nossa liberdade são alguns dos adornos e adendas ao conceito de extremismo, ele próprio generoso na abrangência, mas por isso mesmo desprovido de precisão. Dá para tudo, mas nunca para qualificar nenhuma das acções ocidentais no mundo, recentes ou antigas. Extremismo é sobretudo uma questão de perspectiva.

E nós, os livres, tolerantes e equilibrados ocidentais? Não será estranha a leviandade com que abraçamos as causas digitais? Não será incómoda a facilidade com que aceitamos as explicações que nos são vendidas?

Na minha opinião, foi uma operação de guerra, idêntica às que ocorrem como rotina na Síria, Ucrânia, Colômbia ou em qualquer outro local do mundo. Com a agravante de na verdade não sabermos quem nos atacou. Qualquer objectivo de retaliação será por isso desprositado.

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TAP – Take Another Plane

De um lado o (des)governo, do outro os trabalhadores da companhia aérea de bandeira. Curiosa, ou talvez não, é a coincidência de argumentos. As partes, ditas contrárias, apresentam as mesmas razões. Tudo se resume a “porque sim”. O executivo privatiza porque sim. Os sindicatos fazem greve porque sim. Extraordinário! Interesse nacional? Interesse da própria empresa? Nada disso é relevante para os protagonistas. Comove-me o empenho de ambas as partes em fazer jus à alcunha que a companhia (infelizmente) tem: TAP – Take Another Plane.

Confesso que não sei o que será mais estúpido, a privatização ou a greve suicida nesta altura do campeonato. Será assim tão difícil compreender que a greve fragiliza a posição dos funcionários da TAP. Será difícil entender que é mais fácil reunir apoio de todos nós se não morderem o isco da greve?

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Número Primo

primos

Quando factos são infâmias, quando tantos são poucos para tamanha responsabilidade, constatamos que afinal qualquer um de nós poderia tomar posse como administrador bancário. Parece que no fundo ninguém sabe de nada. Há até quem afirme que entra mudo e sai calado. Aposto que assinou presenças e actas.

Nem a densa nomenclatura financeira permite disfarçar o nanismo do regulador. Não é por certo a quantificação anglo-saxónica que o faz pequeno! Já a divulgação de documentação a conta-gotas (e em função das necessidades) demonstra quão defensiva tem sido a postura. Compreende-se, é como regular bolhas de sabão.

Mais uma que rebentou. Uns queixam-se da falta de tempo, outros acusam quem se queixa. Será criptografia baseada na Teoria dos Números? Será a chave assimétrica? Existirá chave publica? Não. Felizmente que não. É bem mais simples. Desta feita a comissão parlamentar vai mesmo esclarecer tudo devidamente. Todos ficaremos abundantemente esclarecidos. Como então? Bom, tal como Euclides demonstrou há mais de mil anos, estamos perante um Número Primo. Tão só e apenas. Sem ele, a bolha não teria rebentado. É que tempo é dinheiro…

O Comenta dos numeros primos

 

RTP – Rádio e Televisão, Pá

logoPrimeiro era para vender tudo. Depois era para vender só um canal. Afinal nada venderam. Que fazer pensou então aquele cuja força anímica já escasseava. Inovou. Foi pioneiro, foi recrutar ao sector das cervejas e refrigerantes. E assim ficou. Contrato de concessão do serviço público e tudo. Porreiro, sem pá, porque a expressão completa já teve melhores dias. Entretanto a força anímica esgotou-se. Pediu substituição, casou e retemperou no Brasil. Fez bem. A nova administração ficou.

E depois? Foi melhor, foi muito melhor. A vantagem mais evidente à época foi o percurso académico do substituto. Porreiro. Tomou pose. Que fazer? Uma vez que não se pode vender, porque o irrevogável não deixa, vamos despolitizar a concessionária. Excelente. Quando se tem estudos é outra coisa! Conselho Geral, assim se chamou, mas pelo sim pelo não, não fossem os menos instruídos questionar, acrescentaram “Independente”. Um pouco de redundância não assusta os académicos. Porreiro, sempre sem pá. Convidem-se as pessoas e a alta autoridade que se prenuncie. Chega a ser comovente ver as instituições a funcionar regularmente.
Qual a missão do dito CGI? Claro e conciso: “supervisionar e fiscalizar a acção do Conselho de Administração”. Outra importante tarefa deste despolitizado Conselho é o de emitir pareceres sobre “a criação de novos serviços de programas (…) ou alterações significativas aos serviços de programas já existentes”. Cheira a lápis azul. Avancemos.

A administração administrou, o Conselho avaliou. Pago por quem? Esquece, é independente. Não vês no nome? Porreiro, vá de retro o pá. Mas avaliou o quê? O Plano Estratégico da administração da concessionária. Chumbou. Não passou no crivo. Problema? A concessionária entrou num leilão onde uma concorrente privada tinha licitado 40% menos. Oh diabo! Se a independência é para isto, acabe-se com ela. Estão a perverter o mercado. Um pecado! Mas porquê? O investimento é irresponsável? Sem a menor perspectiva de retorno? O Plano estratégico diz que o investimento tem retorno porque potencia a venda de publicidade. Será que não respeita os termos do contracto de concessão? Negativo, respeita na integra. Mau…

Que diz o académico? Diz que nada tem a dizer. O Modelo de gestão é independente (não leste o nome, estúpido?) e como tal, nada tem a dizer. Muito bem. Coerente! Espera. Não vimos já este filme no verão? Creio que lhe chamaram Resolução. O executivo criou legislação, participou e palpitou, mas no fim a decisão é exclusivamente de outros. Porreiro. Deu tão bons resultados que o processo se generalizou. Criam-se Conselhos para decidir em silencio e com a devida reserva aquilo que é da esfera de competência do executivo. É óptimo. “Respeitar a independência do conselho geral” é uma excelente resposta. Mantém-se a pose de estado e em simultâneo a postura de democrata e respeitador. Fica bem. Afinal o problema é mesmo só com a constituição.

E o Conselho que diz? Ataca as perspectivas de retorno do investimento? Não. Aponta não-conformidades com o contrato de concessão? Também não. Diz que foi quebrada a lealdade. Porreiro, mas desta feita estou mesmo tentado à adenda do “pá”. Paro e pergunto: Quem é o dono dessa concorrente privada à concessionária? Alguém conhecido? Alguém que também esteja na corrida para a época final dos saldos que se avizinha? Claro que não. O conselho é geral e é independente… Os factos falam por si, Pá!

miratecnica

Camarate

Hoje, pela hora do jantar, contarei aos mais novos lá de casa, como a queda de um pequeno avião bimotor deu origem ao maior mistério da nossa história recente.

“Apenas” 34 anos depois, ainda não sabemos o que se passou. Sabemos que o pequeno Cessna 421 caiu em Camarate após descolagem. Sabemos a matricula – YV-314P. Sabemos quem nele embarcou, sabemos que dele ninguém saiu vivo. Sabemos tudo isto graças ao dedicado esforço de todos quantos investigaram este indecifrável mistério. Conclusões? Acidente? Atentado? Nada. Centenas de pares de mãos cheias de nada.

Então? Cada qual escolhe por si? Seja. Subscrevo a tese do atentado. Sim, digo-o de forma clara: É um atentado! É, porque ainda está a ser. Múltiplas investigações e perícias, uma dezena de comissões de inquérito e pelo menos outras tantas teorias da conspiração transformaram o sucedido num eterno enigma. Inequivocamente encobrimento. Repito, é um atentado. Um atentado à inteligência de todos os portugueses!

YV-314P

Placebo

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Placebo é um fármaco, tratamento ou procedimento cirúrgico dissimulado, inerte, sem principio activo. Trata todo o tipo enfermidade e baseia-se na reacção psicossomática dos pacientes. Pode de facto promover um efeito benéfico real e físico.

Não consultei nenhum simpósio terapêutico, não sei se a doença existe, mas suspeito que vivemos um surto de grave défice de cidadania. Eis as questões de teste e diagnóstico:

  • Quem é que quer saber da venda da TAP quando há tanta e tão relevante informação em Évora?
  • Quem quer saber do Orçamento de Estado para 2015 quando há teorias da conspiração para denunciar ou subscrever?
  • Quem quer saber da reposição das subvenções vitalícias (não contributivas) quando há apostas a fazer sobre quem será o próximo a ser detido?

A resposta a qualquer uma das questões é: ninguém! Ninguém quer saber. Porquê? Bem, na verdade, é muito simples. É o efeito placebo. Mais uma teoria da conspiração? Negativo, é apenas o egoísmo colectivo a funcionar. Eis como:

Sem subscrever a teoria do bode expiatório, constato o reflexo da detenção preventiva nos Sistemas Límbicos dos telespectadores. Continuamos sem nada saber sobre a acusação, mas tal pouco importa. Cada um de nós tem a sua própria acusação! Eu, por exemplo, guardo com carinho um velho rancor. Remonta, imaginem, a 2011. Fatídico ano em que uma medida de excepção ao orçamento de estado desse ano me atribuiu um corte seis vezes superior ao previsto. Pequeno contratempo que está aliás na génese deste blog. É este abrangente e democrático critério que explica a euforia, a alegria que vivemos. É irrelevante a causa, cada qual escolhe a que quer. Importante é saber que há um castigo. Preventivo que seja, estamos perante a cura de muito descontentamento e revolta.

E os crentes, aqueles que acreditam na inocência do detido? Bom, para esses o placebo tem o mesmo efeito terapêutico, uma vez que toda a sua atenção está igualmente desviada. Ora testem lá as perguntas de diagnóstico novamente.

 

 

Die Zauberflöte

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Mas que bela opereta esta. Já sabemos tudo, mas sempre com prefixo: Alegadamente. O Libretto está escrito há algum tempo. Diz-se que é obra maçónica. Teorias da conspiração não faltam, mas concreto, nada. O público vibra com emoção. Uns indignados outros em êxtase. A transformação dos estados de espírito é mágica. Será que ouvimos a Flauta Mágica?

Tamino e Papageno cumprem o ritual iniciático, o silêncio. Para uns o detido é Monostatos, para outros é Sarastro. Tenho dúvidas. E se a obra for outra? E se é ópera bufa? Nada sabemos.

Não estou certo que seja este o caminho da virtude, mas confesso que gostava de estar enganado. Temo precoce toda esta celebração da mudança. Tantos outros que vimos passar esta fase e que hoje se passeiam alegremente, impunes.

Entre nós, a Rainha da Noite vence sempre. Aguardemos pelo concreto.