Adeus Troika! Olá Mercados! Olá Eleições!

Já é oficial: A Troika foi-se embora! O programa chegou ao final e o Governo optou por não querer um programa cautelar. Ou seja, a Troika foi-se, pelo menos oficialmente, embora! Vamos lá ver quem é que aterra amanhã na Portela depois da noite de hoje…

Devemos muito à Troika! Graças a ela o Sócrates foi-se embora e nós pudemos matar saudades de ver o Portas outra vez ministro: qual peru engalanado rumo ao seu sempre sonhado Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas mais, o Paulinho das Feiras, pôde inaugurar o novo cargo da República, Vice-Primeiro Ministro. E com ele todos nós vibrámos, por termos mais de menos, que dará sempre mais. Ao lado do famoso líder da JSD, Pedro Passos Coelho, formaram uma dupla que ficará nos anais da história.

Graças a estes senhores, aprendemos muito sobre nós. Impossibilitados de reflectirmos sobre nós próprios e o nosso passado recente, Passos Coelho fê-lo por nós, fez-nos ver a nossa real dimensão: país pobre, corrupto, improdutivo, com vícios insuportáveis de pagar, com direitos impensáveis, com um Estado Social que não poderíamos nem merecíamos ter. Famílias endividadas souberam que não se podiam ter endividado e que teriam que pagar não só as suas dívidas (o luxo de se comprar casa e ter um carro… como se almejassem ter um nível de vida comparável aos dos restantes cidadãos europeus) como as dívidas que elas não contraíram.

Os trabalhadores viram com os seus salários diminuídos porque não eram produtivos o suficiente, e por isso passaram a trabalhar feriados e a ganhar menos pelas horas extras, em contrapartida pagariam mais IRS, para não acusarem o governo de diminuir tudo (e para não falar nos outros direitos laborais completamente varridos por este governo em sede de desconcertação social). É que os rácios do trabalho sobre o capital teriam de se aproximar dos níveis da Alemanha (o famoso modelo alemão, que anda aí fazer correr tinta em papers académicos e jornais da especialidade), todavia ninguém se lembrou que os nossos níveis de capital são muito inferiores e o nosso modelo produtivo também, logo a nossa capacidade de acumulação de capital também o é. Todavia eis que o custo marginal do trabalho (e aqui já se lembraram da nossa estrutura económica) não se deveria aproximar à Alemanha, mas antes aos países com os quais competimos a nível internacional: o sudoeste asiático.

Desempregados dependentes da segurança social ficaram também a saber que afinal não tinham direito aos apoios para os quais descontaram, que é para não termos dúvidas: a Segurança Social não é a Santa Casa da Misericórdia. E para terem direito ao subsídio para o qual descontaram passaram a ter que fazer apresentações periódicas e frequentarem cursos de formação, durante os quais deixam de fazer parte da taxa de desemprego, contribuindo assim para o melhoramento das estatísticas nacionais.

Os jovens desempregados também levam da Troika uma lição de vida: se estão desempregados é porque não são empreendedores. Neste país, os jovens ou emigram ou criam empresas, que este país não investiu tanto na educação para agora os jovens estarem em casa no facebook (já diz a Isabelucha Jonet e com toda a razão).

Ficámos também a saber que somos responsáveis também pelo endividamento dos bancos portugueses. Os mesmos emprestaram dinheiro a famílias pouco conscienciosas (não se fala no endividamento das empresas nem da cultura empresarial deste país, porque isso fica-lhes mal…então coitadinhas, criam postos de trabalho…os créditos são para pagar os chorudos salários de trabalhadores mandriões). Por isso, nada mais justo do que usar o dinheiro do resgate do FMI para injectar nos bancos, afinal o dinheiro é de um Fundo Monetário Internacional…Nada mais apropriado. Afinal a dívida dos bancos não pertence aos bancos, mas a todos nós!

Mas aprendemos mais: aprendemos que os direitos não são direitos, mas regalias. Que afinal o trabalho não é um direito, mas um privilégio. Que isso do direito à saúde, educação, habitação, segurança social são lirismos próprios de um povo saudosista… Só faltava cantarmos todos “a paz o pão habitação, saúde, educação”… paroles paroles.

Mas mais, e esta é uma lição a ter em conta: O Estado não é para ter empresas. Por isso, e para corrigir esses desequilíbrios antigos, privatizou-se a EDP (vendeu-se ao Partido Comunista Chinês….e não, não foi o PCP, foi o PSD) e aumentou-se as PPP na saúde. Chegou-se à conclusão que afinal as PPP’s não são um saco sem fundo para o qual escorre o dinheiro do Estado, mas alternativas à gestão pública que se revelou danosa.

E com tudo isto, e passado este período de intervenção externa, de ocupação estrangeira, voltámos aos mercados para nos refinanciarmos para podermos pagar a nossa dívida e…os juros voltaram a subir!

Mas mais do que juros, mais do que mercados, mais do que dívida… a suposta saída limpa deve-se ao grandioso dia de hoje: as eleições europeias! Como todos sabemos, as agendas políticas e os interesses partidários não podem ser ameaçados. Apesar de todos sabermos que o PSD chumbou o PEC4 do Sócrates porque os portugueses não aguentavam mais austeridade, num oportunismo muito politiqueiro, também agora o PSD bateu o pé e quis uma saída limpa, sem Troikas, sem cautelares, sem manchas para o seu partido, e levando para a campanha eleitoral a vitória da expulsão da Troika que eles mesmos obrigaram a chamar. Nesta semana, e em plena campanha eleitoral, eu fiquei muito descansada pelo conhecimento e pela verdade expressas pelos candidatos do PS e da Aliança Portugal à cerca do que é para cada um deles a crise do país. Para o PS e para Francisco Assis, a crise começou com o chumbo do PEC4 pelo PSD, ou seja, para o PS tudo reside na queda do Sócrates, cujas políticas estavam a fazer Portugal prosperar. Para o PSD o que nos levou à crise foram as “políticas socialistas” do PS. Ou seja, para Paulo Rangel, privatizações, reformas profundas nas leis laborais, desregulações económicas etc são políticas socialistas.  Por um lado, Francisco Assis com uma memória que não vai além dos 3 anos, e o Paulo Rangel sem saber o que é o socialismo, e que o socialismo no PS terminou no dia em que o Mário Soares o decidiu colocar definitivamente na gaveta.

Terminado o período eleitoral cujo resultado hoje se saberá, e terminada mais uma campanha eleitoral europeia onde se fala de tudo mas muito pouco da incomoda Europa, saberemos finalmente que tipo de saída limpa efectivamente temos. Uma coisa é certa, o vencedor destas eleições será, em toda a Europa, a abstenção… Sendo a prova de que uma Europa construída nas costas dos cidadãos tem como resposta em eleições, as costas dos mesmos.

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About Mafalda Dias

Exerço o contraditório... Estudei economia quando o mundo estava contra a economia, optei pela sociologia quando a economia optou por se virar contra a sociedade. Gosto de provocar, de tocar no nervo, de testar o limite e a paciência dos que comigo convivem, assim sei até onde eles conseguem ir. Sou do contra, não por opção, mas porque vejo tudo do avesso, ou estarei eu do avesso. Desarrumo para voltar a arrumar. Não passei ainda a fase dos porquês e gosto de escarafunchar no porquê das coisas. Questiono, ponho tudo em causa, porque nada deve estar protegido de se questionar e reflectir, nem que seja para chegarmos à conclusão que como está é que está bem. Não sou só contras, também tenho causas, a minha causa é a causa animal, e por mais causas que acolha de modo temporário ou permanente, é dela que nunca me afasto e que sempre retorno após outras frentes. Por isso, se tiverem paciência leiam-me, se quiserem pensem comigo e partilhem as vossas ideias, debatam-nas e trilhem este caminho comigo.

Posted on Maio 25, 2014, in Ideias para o País. Bookmark the permalink. 7 comentários.

  1. Muito bom! Na “mosca”. Bem vinda a bordo!
    2/3 dos eleitores “viram as costas” no momento em que deviam mostrar o peito. Triste facto este.

    • Obrigado…
      2/3 optaram por não votar… a politica e os actores políticos despertam nos cidadãos uma reacção de repugnância. Para se dar o peito teriam que ver alternativa, e não creio que esses 2/3 a vejam. O certo é que se abstenção prejudicasse os partidos com acento parlamentar o voto seria obrigatório.

      • Sem dúvida que o garante do situacionismo é a abstenção. Nenhuma regra ou lei eleitoral mudará se não favorecer o status quo.

        Urge perverter tudo isto, votando!

        O empreendedorismo do Marinho e Pinto foi premiado, eleito com o voto de apenas 2,4% dos eleitores inscritos. Representar-se-á ou a quem nele votou?

        Pode abrir caminho a novos “empreendedores” se representar quem o elegeu, mas se se representar a si próprio, matará qualquer novo empreendimento. Qual Manuel Sérgio ou Hermínio Martinho do sec. XXI.

        Alea iacta est

      • O Marinho Pinho conseguiu votos para ele, não para o partido. É um homem polémico, e que se tem feito o papel de denunciador de uma serie de vícios do sistema, por isso, creio que o voto nele é um voto contra a corrupção e as falhas no sistema político. Não obstante do perigo deste tipo de votos, e não obstante das muitas polémicas em que se meteu, é um homem de esquerda, que se diz democrático… Agora se irá fazer-se representar como polémico e denunciador da oligarquia que tomou conta da Europa e que é contrária às Nações e às populações, isso só o tempo o dirá.

  2. Excelente texto. Parabéns.
    Talvez agora (quem sabe…) que tanta gente ficou em casa, o povo perceba que abstenção e absentismo não são sinónimos.
    Talvez agora (não acredito…) a classe política [toda] tenha vergonha do desempenho.
    Creio que só um descrédito generalizado em quem nos representa (e que em nós manda!) resulta numa abstenção tão elevada. Haja alguém que lhes diga isto, porque eles sabem.
    Por três vezes vi o povo levantar-se num todo, uma inesperadamente, outra solidariamente e ainda outra, desportivamente (25 de Abril/Timor-Leste/Euro 2004).
    Lideres são os que conseguem levantar braços caídos. Onde andam eles?

    • Eu concordo inteiramente… Não vale a pena apelarmos às interpretações da abstenção por parte da classe política. Os regimes não se mudam apelando à moral dos que detém o poder. Só mesmo quando o povo se levantar e disser basta. Nos últimos 3 anos tivemos alguns ameaças dessa vontade, mas faltou liderança ou o momento exacto que fizesse isso despoletar. Mas carecemos muito de lideres e de um caminho alternativo, que não está feito e que terá que ser trilhado.

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