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Syriza in your dreams
A Grécia chegou ao ponto em que para os eleitores o medo do conhecido suplanta o medo do desconhecido. São os novos descobrimentos, o desbravar de novas vias políticas e sociais mesmo que sob ameça das terríveis e mitológicas consequências que habitam nessas paragens.
Oh, que povo esse, capaz de se lançar ao sabor dos ventos, preparado para lutar e dobrar o austero cabo das tormentas! Haverá, ou terá alguma vez havido, no mundo, outro povo assim? Há quem diga que sim. Pessoalmente creio que não. Não passam de lendas, nada mais do que lendas.
Desde os tempos de Esparta que não se via tamanha valentia e fibra guerreira no povo Grego, que se revela maioritariamente Charlie, protegendo a sua democracia da melhor forma possível, penalizando aqueles que os conduziram ao seu presente estado de desgraça.
Tiro-lhes o chapéu. Hoje os grandes jokers Europeus engolem em seco perante tamanho ás de trunfo. Agendem-se as calendas pois inevitavelmente a Grécia torna-se hoje um imenso cavalo de Troia que forçará a negociação de um novo cenário que agrade a Gregos e a Troikanos.
Onde Está Wally?
Foi em 1987 que Martin Handford publicou o primeiro livro da colecção “Onde está Wally?”. O enorme sucesso junto de graúdos e miúdos não evitou que na América do Norte lhe mudassem o nome para Waldo, mas não foi só por lá que lhe mudaram o nome…

A genialidade está no entretenimento que estes livros nos proporcionam. São uma excelente forma de nos alienarmos de problemas ou preocupações. Os desenhos são de tal forma ricos em pormenores, que encontrar o herói é uma tarefa que requer um nível de concentração elevado. Mudar a perspectiva de observação, por vezes ajuda.
A Wenda, o Sábio de Barbas ou qualquer um dos membros do grupo de fãs partilha cores, texturas e padrões com o nosso herói. Torna ainda mais difícil a tarefa de identificar cada um deles. A verdade nem sempre é aquilo que parece.
TAPada de luva branca
Uma greve anunciada para um período de pico de actividade culmina com uma requisição civil imposta pelo governo a fim de impossibilitar a sua ocorrência. Pelo meio vejo uma entrevista a um sindicalista da TAP onde o jornalista lhe atira de forma agressiva “Acha moralmente ético os sindicados agendarem a greve para esta altura do ano provocando prejuízos de milhões de euros, dando má imagem ao país e afectando o Natal e Ano Novo de milhares de famílias portuguesas?”
A resposta foi pronta, denunciadora de que a falta de moral e ética tem estado na gestão da TAP, apontando as negociatas concretas em que a TAP foi utilizada como peã de negócios ruinosos. Perante a resposta imediata e esclarecedora que fez o jornalista? Explorou essas acusações? Não, isso seria pedir demais, limita-se a repetir a sua pergunta uma e outra vez como se não fosse importante o que levou a tão grande demonstração de intransigência por parte dos trabalhadores da TAP.
Voltando ao desfecho, a requisição civil, pergunto-me se ela também ocorreria caso a TAP fosse já uma empresa privada. Porque no fundo o que se passou foi um patrão ‘especial’ a utilizar os seus super-poderes para contornar uma situação delicada naquela que é a sua especialidade, os limites da constitucionalidade. No fundo estão a negar aos trabalhadores o seu direito à manifestação justificando que permitir-lhes a concretização da greve teria resultados catastróficos para a empresa e para o país.
A meu ver os trabalhadores estão a ser tratados como um bando de egoístas, imaturos e inconscientes que, focados no seu benefício pessoal, não pensam nem protegem o interesse corporativo e nacional. O que só vem realçar a debilidade da nossa democracia. Uma democracia em que permitimos, toleramos com excessivo poder de encaixe, que uma mão cheia de gestores e políticos arruinem bancos, atirem ao tapete a maior empresa de telecomunicações nacional da qual dependem várias infra-estruturas tecnológicas nacionais, contraiam contratos de PPPs ruinosos com vinculação de décadas, desperdicem milhões de fundos europeus distribuídos de forma corrupta, etc, tudo isto com impacto de milhares de milhões de euros na economia portuguesa.
Faltará algum mecanismo similar à requisição civil para obrigar estes gestores e políticos a executarem as suas funções sem colocarem em greve uma série de competências, valores éticos e morais cuja ausência atenta claramente aos interesses das suas empresas e nacionais?
Se as elites podem tomar decisões ruinosas para o país porque não poderá hipoteticamente a classe trabalhadora de uma empresa cometer um acto lesivo para a mesma? Aos sindicatos devem ser fornecidas pelas administrações as informações que permitam aferir da saúde e estado da gestão das suas empresas. Em posse dessa informação caberá a si decidir como agir. Porque não há-de ser possível a um sindicato decidir cometer um acto lesivo a uma empresa? Será um privilégio apenas reservado ao topo da pirâmide? A que propósito?
Vivemos um tempo conturbado em que os trabalhadores esperam que no mínimo os seus sacríficios se reflictam em respeito pelos mesmos e na condução de uma gestão exemplar. Se a greve é o expoente máximo da indignação, da insatisfação, não é uma requisição civil que vai contribuir de todo para a apaziguação. Vem apenas confirmar que para este governo mais do que sermos um povo capaz de suportar a austeridade mantendo produtividade e empenho há que parecê-lo a qualquer custo, mesmo que o de mais uma lasca da nossa democracia.
RTP – Rádio e Televisão, Pá
Primeiro era para vender tudo. Depois era para vender só um canal. Afinal nada venderam. Que fazer pensou então aquele cuja força anímica já escasseava. Inovou. Foi pioneiro, foi recrutar ao sector das cervejas e refrigerantes. E assim ficou. Contrato de concessão do serviço público e tudo. Porreiro, sem pá, porque a expressão completa já teve melhores dias. Entretanto a força anímica esgotou-se. Pediu substituição, casou e retemperou no Brasil. Fez bem. A nova administração ficou.
E depois? Foi melhor, foi muito melhor. A vantagem mais evidente à época foi o percurso académico do substituto. Porreiro. Tomou pose. Que fazer? Uma vez que não se pode vender, porque o irrevogável não deixa, vamos despolitizar a concessionária. Excelente. Quando se tem estudos é outra coisa! Conselho Geral, assim se chamou, mas pelo sim pelo não, não fossem os menos instruídos questionar, acrescentaram “Independente”. Um pouco de redundância não assusta os académicos. Porreiro, sempre sem pá. Convidem-se as pessoas e a alta autoridade que se prenuncie. Chega a ser comovente ver as instituições a funcionar regularmente.
Qual a missão do dito CGI? Claro e conciso: “supervisionar e fiscalizar a acção do Conselho de Administração”. Outra importante tarefa deste despolitizado Conselho é o de emitir pareceres sobre “a criação de novos serviços de programas (…) ou alterações significativas aos serviços de programas já existentes”. Cheira a lápis azul. Avancemos.
A administração administrou, o Conselho avaliou. Pago por quem? Esquece, é independente. Não vês no nome? Porreiro, vá de retro o pá. Mas avaliou o quê? O Plano Estratégico da administração da concessionária. Chumbou. Não passou no crivo. Problema? A concessionária entrou num leilão onde uma concorrente privada tinha licitado 40% menos. Oh diabo! Se a independência é para isto, acabe-se com ela. Estão a perverter o mercado. Um pecado! Mas porquê? O investimento é irresponsável? Sem a menor perspectiva de retorno? O Plano estratégico diz que o investimento tem retorno porque potencia a venda de publicidade. Será que não respeita os termos do contracto de concessão? Negativo, respeita na integra. Mau…
Que diz o académico? Diz que nada tem a dizer. O Modelo de gestão é independente (não leste o nome, estúpido?) e como tal, nada tem a dizer. Muito bem. Coerente! Espera. Não vimos já este filme no verão? Creio que lhe chamaram Resolução. O executivo criou legislação, participou e palpitou, mas no fim a decisão é exclusivamente de outros. Porreiro. Deu tão bons resultados que o processo se generalizou. Criam-se Conselhos para decidir em silencio e com a devida reserva aquilo que é da esfera de competência do executivo. É óptimo. “Respeitar a independência do conselho geral” é uma excelente resposta. Mantém-se a pose de estado e em simultâneo a postura de democrata e respeitador. Fica bem. Afinal o problema é mesmo só com a constituição.
E o Conselho que diz? Ataca as perspectivas de retorno do investimento? Não. Aponta não-conformidades com o contrato de concessão? Também não. Diz que foi quebrada a lealdade. Porreiro, mas desta feita estou mesmo tentado à adenda do “pá”. Paro e pergunto: Quem é o dono dessa concorrente privada à concessionária? Alguém conhecido? Alguém que também esteja na corrida para a época final dos saldos que se avizinha? Claro que não. O conselho é geral e é independente… Os factos falam por si, Pá!
Camarate
Hoje, pela hora do jantar, contarei aos mais novos lá de casa, como a queda de um pequeno avião bimotor deu origem ao maior mistério da nossa história recente.
“Apenas” 34 anos depois, ainda não sabemos o que se passou. Sabemos que o pequeno Cessna 421 caiu em Camarate após descolagem. Sabemos a matricula – YV-314P. Sabemos quem nele embarcou, sabemos que dele ninguém saiu vivo. Sabemos tudo isto graças ao dedicado esforço de todos quantos investigaram este indecifrável mistério. Conclusões? Acidente? Atentado? Nada. Centenas de pares de mãos cheias de nada.
Então? Cada qual escolhe por si? Seja. Subscrevo a tese do atentado. Sim, digo-o de forma clara: É um atentado! É, porque ainda está a ser. Múltiplas investigações e perícias, uma dezena de comissões de inquérito e pelo menos outras tantas teorias da conspiração transformaram o sucedido num eterno enigma. Inequivocamente encobrimento. Repito, é um atentado. Um atentado à inteligência de todos os portugueses!
Placebo
Placebo é um fármaco, tratamento ou procedimento cirúrgico dissimulado, inerte, sem principio activo. Trata todo o tipo enfermidade e baseia-se na reacção psicossomática dos pacientes. Pode de facto promover um efeito benéfico real e físico.
Não consultei nenhum simpósio terapêutico, não sei se a doença existe, mas suspeito que vivemos um surto de grave défice de cidadania. Eis as questões de teste e diagnóstico:
- Quem é que quer saber da venda da TAP quando há tanta e tão relevante informação em Évora?
- Quem quer saber do Orçamento de Estado para 2015 quando há teorias da conspiração para denunciar ou subscrever?
- Quem quer saber da reposição das subvenções vitalícias (não contributivas) quando há apostas a fazer sobre quem será o próximo a ser detido?
A resposta a qualquer uma das questões é: ninguém! Ninguém quer saber. Porquê? Bem, na verdade, é muito simples. É o efeito placebo. Mais uma teoria da conspiração? Negativo, é apenas o egoísmo colectivo a funcionar. Eis como:
Sem subscrever a teoria do bode expiatório, constato o reflexo da detenção preventiva nos Sistemas Límbicos dos telespectadores. Continuamos sem nada saber sobre a acusação, mas tal pouco importa. Cada um de nós tem a sua própria acusação! Eu, por exemplo, guardo com carinho um velho rancor. Remonta, imaginem, a 2011. Fatídico ano em que uma medida de excepção ao orçamento de estado desse ano me atribuiu um corte seis vezes superior ao previsto. Pequeno contratempo que está aliás na génese deste blog. É este abrangente e democrático critério que explica a euforia, a alegria que vivemos. É irrelevante a causa, cada qual escolhe a que quer. Importante é saber que há um castigo. Preventivo que seja, estamos perante a cura de muito descontentamento e revolta.
E os crentes, aqueles que acreditam na inocência do detido? Bom, para esses o placebo tem o mesmo efeito terapêutico, uma vez que toda a sua atenção está igualmente desviada. Ora testem lá as perguntas de diagnóstico novamente.
Quem gera mais postos de trabalho?
Em tenra idade injustiçado, foi discriminado entre laranjas. Alegadamente, o jovem não respeitara a bicha para a casa de banho da discoteca. O cavaquistão era então demasiado sombrio para quem tinha tanta ambição. Alistou-se como O Independente na trincheira contra tudo – Contra quem nunca se engana e raramente teve dúvidas, contra a Europa e não menos vezes contra a verdade. A mentira deu então alguma cor à indústria do entretimento nacional, dita imprensa. Foi giro.
Certo dia, apanhou boleia num táxi. Conduzia o Monteiro enquanto o jovem estudava itinerários alternativos (ainda não havia GPS). Eram do contra. Trocaram de eufemismo: o Centrismo deu lugar ao Populismo. Também foi giro. Contudo, não chegaram ao destino. A culpa? Do motorista. Despedido o condutor, avançou o timoneiro. Deixaram terra e fizeram-se ao mar. O jovem líder deu então largas à simpatia e à ternura. Partiu do Caldas e visitou todas as feiras, sem nunca esquecer a lavoura. O arraial foi tal, que nem demos conta que já não era do contra. Viva a Europa! Para melhor muda-se sempre, não é verdade?
Quem espera sempre alcança, e a oportunidade surgiu quando quem não sabia fazer contas fugiu do pântano. Fomos então brindados com quem não estava preparado para aquilo. O Jovem estreou-se então no sentido de Estado. Coube-lhe a pasta da Defesa Nacional. Comprou os Submarinos certos, da forma errada. Ter-se-á esquecido da manutenção. Como o país estava de tanga, poupa-se onde se pode, menos nas fotocopias. Chamado para outros voos, o primeiro de então é substituído pela vedeta que estava no banco. Ouviram-se depois os concertos para violino de Chopin. O Cenoura não gostou e pôs fim à festa. Ainda houve tempo para mais uma prova de apreço à lavoura – Lá se foram os sobreiros. Eram tempos da Santa dinastia. O jovem, que entretanto já não era, nem jovem, nem do contra, foi dar aulas. Enquanto esteve na terra dos bravos e na casa dos livres, deixou o Ribeiro ao Leme do bote até à mudança da maré.
Regressou na preia-mar e deu ao Ribeiro o destino do Monteiro, o esquecimento. À doutrina da lavoura acrescentou a protecção dos reformados e transformou o Caldas no ultimo bastião do contribuinte. Com convicções não se brinca! Esteve na primeira linha de todas as batalhas contra os desprotegidos. Cinéfilo confesso, fez os seus filmes com relativo sucesso. Vivíamos então acima das nossas possibilidades. Venha a ajuda. Chegada a dita, regressou coligado ao sentido de Estado. Abraçou a diplomacia económica, tarefa que justificou a ausência da ribalta domestica. Apesar do amor à lavoura, não partilhou o protagonismo tauromáquico. Acabada a faena do matador de touros, fez birra. Irrevogavelmente demissionário, foi promovido a vice e já desse posto anunciou a salvação da nação – a venda dourada de vistos. Tem jeito para publicidade.
Chegado o verão de 2014, enquanto outros foram de férias para o sotavento algarvio, ficou ao Leme do executivo. Tão obstinado estava com o bem-estar das populações, que em época de hipertensão a ministra das finanças não o conseguiu contactar. Evitou bem os danos colaterais. Consta que tem horror a seringas, pelo que também nada sabe sobre a injecção. Moral vertical mas ágil de convicções. Uma inteligência viva, um exímio gestor de crises. Foge como ninguém. Tem no dom da palavra uma arma justamente temida pelos adversários, sejam eles parceiros de coligação ou não. É brilhante!
Ontem, precisamente às 18h38, deu-nos um excelente ensinamento sobre como responder a uma questão desconfortável. Como é feio responder a uma pergunta com outra pergunta, responde com duas:
Quem gera mais postos de trabalho? A Remar ou a Bolsa de Excedentários?
Baile de Máscaras
Em 1788, Gustav, o terceiro da Suécia não era particularmente adorado pelo seu povo. O soberano sofria de tédio. Talvez por isso se tenha empenhado tanto na promoção das artes plásticas e cénicas. Ia com frequência à Ópera. Afinal fora ele que a mandara construir – Os Despotas Esclarecidos tinham destas coisas. Chegado lá, lembrou-se de encomendar uns quantos uniformes do exercito russo da Imperatriz Yekaterina, a segunda. O pedido do soberano da Suécia não levantou suspeitas. Algum baile de mascaras, terão pensado as costureiras da Ópera Real. E foi mesmo…
Glória? O rei Gustav III queria a sua, mas estava constitucionalmente impedido de declarar guerra ofensiva. Podia apenas ordenar a mobilização militar defensiva. Talvez daí o enfado. Gustav III sonhava, cobiçava a Noruega, então parte da Dinamarca. Tentou um negócio com a Imperatriz Russa, mas esta recusou trair a sua aliança com a Dinamarca.
A beligerância era inevitável. Gustav decidiu tirar partido da oportunidade que a guerra entre o Império Russo e o Império Otomano lhe ofereceu. Nasceu o gabinete de gestão da divida externa. Estando os russos “entretidos” mais a sul, ordenou um ataque simulado a um posto fronteiriço na província de Puumala, na fronteira da Rússia com a Finlândia, então parte integrante da Suécia. Foi assim que suecos mascarados de russos atacaram suecos sem máscara. O baile, permitiu ao soberano sueco avançar contra o Império Russo. O resultado desta guerra não foi particularmente vantajoso para nenhuma das partes, tendo apenas retido recursos que outra forma teriam sido úteis noutros cenários. Assim se perderam 2 anos.
Assinada a paz com a Rússia, Gustav III celebrou o seu ultimo baile de mascaras na Ópera Real, a 16 de Março de 1792. Foi assassinado nessa noite às mãos dos seus súditos.
A aventura da Escócia
Na década de noventa do século passado, era eu miúdo, fui à Escócia. Deambulei pelo campo entre cidades. Não fui piegas. Em vez da praia no Algarve, procurei trabalho na apanha da fruta. Empreendedor, parti à descoberta de oportunidades. Não fui sozinho. Ao meu lado, dois irmãos que a vida me deu a escolher, i.e., amigos daqueles cuja empatia, cumplicidade e afecto se mantém até aos dias de hoje. Um longe nos fiordes, o outro perto, connosco a bordo da nau Portugal. Um abraço aos dois!
Falava-vos da Escócia rural, de aventuras que vivi e que nunca esqueci. Por lá apreciam a audácia, talvez por isso nos tenham acolhido com curiosidade e consideração. Recém-chegados a Blairgowrie, fomos desafiados a tentar um salto (supostamente muito perigoso) sobre as águas do rio Ericht. Fomos. Chegados ao local, o lendário Donald Cargill’s Leap, saltámos. Pareceu-me banal, mas no regresso percebi que todos os escoceses que saltaram depois de nós o tinham feito pela primeira vez. Até esse dia, o salto era um exclusivo do mentor da iniciativa, o bom do John-Paul. Naquela tarde, o clube exclusivo acolheu novos membros e tornou-se Luso Escocês. Na verdade, senti-me em casa.
Como nós, os escoceses são competitivos. Especialmente no desporto. Lembro-me de um aceso debate com um jovem amplamente tatuado que gritava “I’m a real Scott from Dundee”. Era uma ameaça. Debatíamos um lance de futebol, onde alegadamente eu lhe teria pontapeado a canela. Se lhe toquei foi sem querer, mas foi marcada falta. O resto do jogo foi durinho, mas leal. Marquei o único golo da minha fugaz carreira de jogador de futebol de 11. Safei-me sem mazelas. Ainda hoje acredito que o salto no Cargill’s Leap abonou a meu favor. Ah, o jovem escocês era um tudo nada menos jovem que eu, e também bastante menos pequeno. Este meu “amigo” rebelde tinha um comportamento curioso. Reparei que ele, tal como a maioria dos escoceses que comigo colhiam framboesa nos campos, curvava-se numa respeitosa vénia sempre que um determinado helicóptero nos sobrevoava a baixa altitude. A chefe da quinta, a maternal mas exigente Leena, explicou-nos que se tratava de nada mais nada menos que o helicóptero de sua majestade a Rainha Isabel segunda. Espantoso, pensei, têm a alma dividida. Como sabem que ela vai lá dentro, perguntei. A resposta foi esclarecedora: “Não sabemos”.
De Inverness a Edinburgh constatei a contradição entre o orgulho nacionalista e a veneração à Rainha. Connosco partilham os paradoxos das velhas nações – Orgulhosos mas resignados. Somos mesmo parecidos. Divergem e muito na expectativa que têm sobre a gestão dos dinheiros públicos. O bom do John-Paul deu-me sobre este tema uma lição que à data não percebi o alcance. Certa manhã, após partirmos da quinta em que trabalhávamos (propriedade de uma simpatiquíssima e nobre senhora inglesa, cujo nome e titulo nobiliárquico não me recordo), seguíamos de autocarro por uma estrada local, estreita e tortuosa, que não obstante não tinha um único buraco. Parecia uma pista! Comentávamos isto entre nós, em português. O espanto com que o fazíamos atraiu a atenção do nosso maior cúmplice local. Após tradução, a naturalidade e convicção com que John-Paul nos respondeu foi marcante. Peremptório disse “claro que não há buracos. Como pode haver buracos quando pagamos impostos para a manutenção das estradas?” Disse-nos tanto em tão poucas palavras. Na sua simplicidade rural, na sua resignada mas orgulhosa cidadania disse-nos o obvio. Após tantos anos, constato que por cá continuamos sem compreender algo tão simples: Pagamos IVA sobre imposto automóvel (dupla tributação); aproximadamente metade do que pagamos por cada litro de combustível é imposto; pagamos portagens ao atravessar pontes; pagamos portagens para circular em auto-estradas; pagamos imposto único de circulação (único!!); pagamos o estacionamento na via publica nas grandes cidades, e em breve pagaremos também portagem para nelas entrar. Sim, pagamos múltiplas (demasiadas) vezes para o mesmo fim, mas mesmo assim, não faltam buracos nas nossas estradas! Só me atormenta a nossa resignação perante tal contra-senso.
Na Escócia hoje, qualquer que seja o resultado do referendo, o orgulho e alma dos escoceses vão sair reforçados do processo. O resultado ditará a independência ou maior autonomia, nunca menos. O consenso é virtude britânica. O velho império sempre fez da hipocrisia uma arte. Em Londres, a tradição imperial não morre. Nota-se quando comparamos as criticas que tece à União Europeia com os argumentos que apresenta em prol da manutenção da Grã-Bretanha. Estou pela independência, quero que o mundo mude, mas se a Grã-Bretanha ainda existir amanhã, os Escoceses serão garantidamente mais autónomos.
Observemos os níveis de abstenção.
Com-Fisco ou Sem-Fisco?
Abro o jornal, e ouço falar do BES, do BPN, do BPP.
Mudo de canal e leio… BES, BPN, BPP.
Ligo o rádio (ou telefonia… enfim… ) e o que vejo? BES, BPN, BPP.
No porta moedas apalpo (!) 10.000.000.000. Dez Mil Milhões?!
Começo a ficar baralhado… a sentir… coisas; pronto…
Bom dia também para si. Será bom dia? Dia?
Também anda a morrer gente que eu gosto. Frequentemente.
PS-A imagem imposta aqui, é de contribuição anónima.













