Syriza in your dreams
A Grécia chegou ao ponto em que para os eleitores o medo do conhecido suplanta o medo do desconhecido. São os novos descobrimentos, o desbravar de novas vias políticas e sociais mesmo que sob ameça das terríveis e mitológicas consequências que habitam nessas paragens.
Oh, que povo esse, capaz de se lançar ao sabor dos ventos, preparado para lutar e dobrar o austero cabo das tormentas! Haverá, ou terá alguma vez havido, no mundo, outro povo assim? Há quem diga que sim. Pessoalmente creio que não. Não passam de lendas, nada mais do que lendas.
Desde os tempos de Esparta que não se via tamanha valentia e fibra guerreira no povo Grego, que se revela maioritariamente Charlie, protegendo a sua democracia da melhor forma possível, penalizando aqueles que os conduziram ao seu presente estado de desgraça.
Tiro-lhes o chapéu. Hoje os grandes jokers Europeus engolem em seco perante tamanho ás de trunfo. Agendem-se as calendas pois inevitavelmente a Grécia torna-se hoje um imenso cavalo de Troia que forçará a negociação de um novo cenário que agrade a Gregos e a Troikanos.
Pedagogia dos Pequeninos
O “novo” ministro da economia é um mestre da dicção. Não há quem lhe peça explicações do tipo “como se eu tivesse 3 anos”. A redundância intimida. Será?
Haja coerência, se o (des)governo tem ideais liberais, não pode, não deve (jamais!), interferir nos negócios. Sejam quais forem. É por isso que nenhum membro do executivo se manifestou sobre a venda da PT. É bonito. O facto de apenas existir uma proposta, o facto de todas as outras terem sido preteridas nada nos diz sobre as declarações do ministro da economia. Afirmar que a PT “merece ter accionistas que a valorizem e lhe dêem estabilidade” é apenas um estimulo à boa gestão. Está correcto o português. É em francês que surgem duvidas. Afirmar “Je suis Altice” pode não ser muito prudente. Então? Foi apenas mais um pequeno incidente de tradução. Compreende-se. Sensacionalismos gauleses… Já entre nós, a seriedade na imprensa é obvia. Basta observar o relato da Assembleia Geral da PT SGPS: Presente 44% do capital, 97,8% votou favoravelmente à venda, ou seja, um pouco menos de metade do capital da empresa, mas ainda assim é possível produzir títulos como “Decisão quase unânime“.
Perante isto, concluo: A dicção do ministro, (afinal) está correcta.

Deambulações à Esquerda
A Comissão dinamizadora do Movimento Juntos Podemos retirou-se e parece que a coisa não acabou nada bem. O colectivo da revista Rubra seguiu-lhes as pisadas e bateu com a porta. Confesso que não fui às reuniões posteriores à assembleia e não acompanhei o desenrolar de toda uma racha que se voltou a abrir entre os movimentos sociais em Portugal. O certo é que a coisa foi tão boa ou tão má, que a polémica tem feito bater os teclados nos blogues… E eu depois de umas gargalhadas cá venho humildemente, aqui que ninguém nos lê, rabiscar umas coisas.
Tal não é coisa que se estranhe. A Comissão Dinamizadora acusa o MAS (Movimento de Alternativa Socialista) de querer dominar o movimento. O MAS e o João Labrincha (da Academia Cidadã) acusam o PCP de boicotar o Juntos Podemos. Enfim… não se percebe patavina. Entendo que não fique bem haver partidos dentro de um partido (mas o Juntos Podemos já era partido e ninguém avisou?), mas não creio que isso fosse razão de cisão. O MAS não teve grande expressão nas últimas eleições, e não vejo como de tão pequeno tenha aspirações gigantes. E também não percebo o que raio impede pessoas de um partido ajudarem à criação de um movimento. Se formos por aí, todos os movimentos socias têm partido de militantes de partidos políticos. A questão é que o MAS se precipitou a tornar pública a sua integração num movimento que agora surge. Foi ingenuidade. E creio que o MAS é constituído por pessoas que querem mesmo mudar isto, e que se enquanto partido não o conseguem fazer sozinho, juntam-se a quem quer participar dessa mudança. Já as acusações ao PCP não as entendo…

Mas talvez a quem criou o Movimento Juntos Podemos, com intenções claramente eleitorais, não ficasse bem ficar ligado a um anão político como o MAS, que faz barulho nas manifestações, que é mal comportado, mas que não tem medo de assumir o que pensa, como prisão para quem roubou e endividou o país, o regresso da moeda nacional etc… Não fica bem ficar ligado a um partido que não cede aos jogos políticos, que é pequeno e que tem tanta coisa ainda para maturar. Mas que tem uma coisa, vontade de mudar, sangue na guelra, amor para transformar e raiva para lutar. E é o que no fundo todos têm. O que eles não têm é medo da explosão e da falta de controlo. E falta-lhes alguns traços característicos dos esquerdistas. Talvez essa seja a real questão: não nasce das fileiras intelectuais, não é snob o suficiente para debater filosofia politica, não está ligado directamente ao meio académico, não participa nos blogues “bem” da esquerda, e isso torna-o menor aos olhos das corujas da esquerda.
A questão talvez seja o protagonismo e o sentimento de posse por parte de quem cria os movimentos e que os deseja controlar. O sentimento de altruísmo e desapego é importante. A tolerância (que é escassa) é essencial… e não é à mínima coisa que se começa aos berros, em acusações e insultos. E outra coisa, a esquerda em Portugal ainda tem traços de hereditariedade. Ainda fica bem e dá estatuto ser filho de comunistas perseguidos, de sindicalistas assassinados, de anarquistas resistentes e inspiradores. Muitos ainda se legitimam nessa herança de família, na cultura desde o berço da esquerda, da ditadura que não viveram mas ouviram contar na primeira pessoa. Isso é interessante, valoriza o próprio, mas não legitima os propósitos! E assim se vai limitando a orientação dos movimentos sociais, porque as pessoas que os dirigem pertencem a uma elite criada no pós 25 de Abril, e ainda que arreigada a ideais hoje assaltados, mantém-se numa posição de conforto na situação actual.
E a questão é que se tem sido muito tímido em questões de se deixar levar os movimentos sociais avante. O QSLT era altamente fechado e secreto, não se abria a novos membros e só por convite expresso é que se poderia participar nas reuniões. Quando aquilo esteve a morrer com a debandada de muitos elementos decidiram fazer umas reuniões mais abertas, mas muito a medo… Tinham por único objectivo fazer Grandes Manifestações. Nada mais. Foram bons nisso. Mas poderiam ter sido muito mais audazes, mas a audácia eles negaram quando isso lhes poderia retirar a participação popular nas ruas ou o comprometimento em determinadas questões. Senão fossem os devisionismos e os assombros da falta de controlo teríamos hoje um outro tipo de movimentos sociais, mais maduros, com mais gente, a atraírem mais pessoas e com um outro tipo de actuação. Em vez disso, a Troika não se lixou, foi-se embora pelo próprio pé e os mesmos que criaram o QSLT mudaram-se para o POT. Há sempre qualquer coisa que impede que se arrisque e se avance, então nunca se sai da zona de conforto. É confortável para muitos andarmos na eterna guerrilha entre esquerdas, divisionismos, acusações baratas… E assim tudo isto mantém a ordem actual das coisas e enquanto se discute o que divide a esquerda (que todos já estamos fartos de saber) não se discute aquilo que a une.
E sempre que os problemas dos esquerdismos aparecem eu recordo o momento em que percebi o Álvaro Cunhal:
“No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.”
Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.
E é impossível não concordar com Cunhal nisto. E verdade seja dita já vi pessoas ligadas ao BE a tentarem dominar e conduzir acções (até na defesa dos direitos dos animais) mas nunca vi nenhum comunista impor o seu ponto de vista.
Todavia e agora sem Joana Amaral Dias para fazer “vistassa” aos olhos de homens mais vulneráveis aos encantos femininos, o Movimentos Juntos Podemos irá continuar. Parece-me que mais do que nunca avançará determinado à luta eleitoral. Foi hoje, na Ler Devagar, a reunião de preparação para a assembleia cidadã no Porto. Não estive presente e apesar de não pretender alterar as minhas intenções de voto, mas admitindo que há uma larga maioria que não se sente representada, e dado que o movimento avançará, convido todos a estarem atentos.
Espero sinceramente que mais do que um partido, não deixem morrer um movimento que pode colher a simpatia e a mobilização social para a transformação social urgente em Portugal. Porque há muito a fazer, famílias a serem despejadas, desempregados sem esperança, trabalhadores que não se conseguem sustentar com o salário que ganham, o SNS a colapsar, a TAP a ser vendida, a PT que já foi vendida e está agora à vista o resultado da privatização, a justiça inoperante, o ensino a ser precarizado, teatros a fecharem, conservatórios sem terem como abrir no dia seguinte, os transportes a ser literalmente gozados pelo governo, a RTP idem idem… E isto em parte porque temos permitido!

‘O sole mio
Ouço ao longe os acordes da canção napolitana, mas as palavras são outras. Nem literais sobre o astro, nem figurativas sobre uma mulher. Não é esperança nem desejo, é um plano, uma estratégia com cabeça tronco e membros (ou não!). Eis como encaixam as notas desta melodia.
Começou pelo plano pedonal. A impermeabilidade dos solos foi a primeira pista sobre o futuro. Depois as polemicas declarações sobre a inevitabilidade das cheias em dias de borrasca. Ontem, o centro da cidade de Lisboa foi interditado ao transito de automóveis “menos recentes” (anteriores ao ano 2000). Porquê? Bom, tal como a figura ilustra, a flutuabilidade destes veículos deixa muito a desejar. Constituem uma perigosa ameaça à navegabilidade das ruas desta nossa cidade-museu, qual Veneza atlântica para turista ver. Low cost, claro.
E o País? A Europa? Calma, ainda não é este o momento, mas é obvio que o gondoleiro do Rossio tem justas ambições internacionais. Como dizia o poeta, “Pelo Tejo Vai-se para o Mundo”!
As palavras que ouço são na língua de Shakespeare, mas com pronuncia do Mississípi. A melodia é a de sempre. O Costa canta “It’s Now or Never“…
Onde Está Wally?
Foi em 1987 que Martin Handford publicou o primeiro livro da colecção “Onde está Wally?”. O enorme sucesso junto de graúdos e miúdos não evitou que na América do Norte lhe mudassem o nome para Waldo, mas não foi só por lá que lhe mudaram o nome…

A genialidade está no entretenimento que estes livros nos proporcionam. São uma excelente forma de nos alienarmos de problemas ou preocupações. Os desenhos são de tal forma ricos em pormenores, que encontrar o herói é uma tarefa que requer um nível de concentração elevado. Mudar a perspectiva de observação, por vezes ajuda.
A Wenda, o Sábio de Barbas ou qualquer um dos membros do grupo de fãs partilha cores, texturas e padrões com o nosso herói. Torna ainda mais difícil a tarefa de identificar cada um deles. A verdade nem sempre é aquilo que parece.
Somos todos burros
Um atentado terrorista contra um jornal satírico e de repente somos todos Charlies, defensores inquestionáveis da liberdade de expressão da sociedade ocidental. A análise é pronta. Cartoonistas a exercerem a sua liberdade de expressão, fanáticos religiosos islamitas a realizarem uma execução sumária por pura barbárie.
Aos Charlies gostaria de perguntar:
Quem foi Maomé e o que representa para o Islão?
Têm noção do nível de ofensa das representações satíricas para um islamita?
Qual a linha editorial tomada conscientemente pelo jornal ao longo dos últimos anos?
Tristemente a maioria dos Charlies não saberia responder a estas questões. Pior do que isso, não quer sequer saber a resposta a tal questões. Não interessa. Falamos simplesmente de desenhos e/ou palavras que tiveram como resposta execuções sumárias! Com a agravante do atentado ter sido perpetado por cidadãos franceses, denunciando que existe actualmente na Europa uma falange de extremistas radicais capazes de passar da simples e tolerada indignação à visceral e brutal violência! Manifestemo-nos já contra este terrorismo condicionador da nossa liberdade de expressão!
O que fica exposto é que a liberdade de expressão vigente é apenas uma liberdade de expressão ideológica. A passagem à prática dessa liberdade de expressão acarreta consequências positivas ou negativas em função do contexto social e/ou político bem como do nível de conhecimento e inteligência do seu executor. É preciso saber do que falamos, onde falamos, para quem falamos e como falamos caso queiramos realmente fazer parte de um processo construtivo de desconstrução das ideologias que consideramos estarem erradas. E estarmos receptivos à desconstrução das nossas. Caso contrário partamos simplesmente para a liberdade de expressão ofensiva sem qualquer outro objectivo que não o chocar e o inflamar dos ânimos. O incendiar de uma fronteira entre duas facções cegas e surdas na relação uma com a outra. Estando prontos para lidar com todas as consequências que isso acarreta.
Ainda a quente,
após os atentados em França, reagimos como uma enorme manada de burros. Dizemos o que nos dizem para dizer, fazemos o que nos dizem para fazer, sem questionar ou pensar sobre o contexto, o historial e a motivação do mesmo. Zurramos em reconfortante uníssono.
A base de tudo isto são dois alicerces primordiais: a ignorância e a intolerância
Ignorância porque somos educados desde tenra idade com uma visão muito fechada do mundo e da sociedade. A visão vingente que nos querem impôr para que, nesse modelo, sejamos os cidadãos exemplares de amanhã.
Intolerância porque ao contrário da liberdade de expressão existe uma real opressão à expressão de toda e qualquer ideologia e forma de estar que não esteja em conformidade com a única visão que nos é instruída.
E é este binómio de ignorância e intolerância que nos torna uma manada dócil e fácil de conduzir, sem capacidade de raciocinar para além do óbvio mediatizado.
Se existir real interesse em lutar pela liberdade de expressão então teremos de reformular o processo de educação cívica dos cidadãos de amanhã. A escola deverá assumir o seu papel de formadora ao invés de simplesmente formatadora. As nossas crianças, os nossos jovens, devem obrigatoriamente ter contacto com as principais religiões, modelos de sociedade e filosofias de vida existentes no mundo. Os nossos adolescentes deveriam saber o que é o Catolocismo, o que é o Islão, o que é o Budismo, o que é o Hinduísmo, o que é a democracia, o que é o comunismo, o que é uma ditadura, etc. A diminuição da liberdade de expressão começa exactamente pelo encurtar do leque de opções para a tomada de decisões importantes sobre a forma de olhar e compreender o mundo. Deter este tipo de conhecimento seria também a maior e melhor ponte para o diálogo e respeito pelas crenças e opções de vida dos outros.
Mais, se estão agora preocupados com o controlo da imigração e seu potencial papel nefasto no infiltrar de agentes extremistas radicais capazes de actos terroristas, deveriam então criar um teste de admissão para entrada no território Europeu similar ao que acontece para obter a cidadania americana. Com uma diferença, a bateria de questões abrangeria exactamente o conhecimento sobre as principais religiões, filosofias de vida e modelos de sociedade. A demonstração deste tipo de conhecimento daria alguma garantia de que a pessoa em questão se debruçou por estes temas, tem o conhecimento básico que lhe permita compreender e tolerar o ponto de vista dos outros, com grande probabilidade de ser menos burro, mais Charlie.
Além do que é afinal a liberdade de expressão que devemos defender a todo o custo? Todos devemos ter o direito de dizer/fazer tudo o que nos apeteça sem que existam barreiras nem risco de retaliações intempestivas? É que nesse caso talvez devessemos começar por demolir alguns condicionantes legais que impedem ou dificultam a passagem à prática da nossa liberdade de expressão ideológica. Por exemplo:
- Alguém que opte por ser Vegan, defensor dos direitos dos animais, não pode libertar animais alvos de maus tratos numa unidade de exploração intensiva pois corre o risco de ser preso uma vez que existem impedimentos legais para esse tipo de acção mesmo que éticamente justificável.
- Há quem considere que determinadas personalidades da nossa vida política são palhaços mas não o possa gritar a plenos pulmões, em canais de comunicação ou presencialmente, pois corre o risco de receber um processo penal.
- Posso optar por uma filosofia de vida holística, comprar uma herdade no Alentejo, no entanto vou ter uma dor de cabeça enorme para conseguir garantir que esta seja uma zona livre de caça.
- Uma mulher muçulmana pode optar por uso de Burka, no entanto não pode vesti-la no espaço público de vários países Europeus.
- O jornalismo livre está condicionado por uma linha editorial bem definida que apenas deixa vir a público aquilo que não esbarre com interesses de accionistas, parceiros e/ou patrocinadores.
E tudo isto são formas de abate, não de vidas humanas, mas directamente da liberdade de expressão. Os anti-Charlies mais perigosos não surgem a espaços nem metralham com Kalashinkovs. Estão omnipresentes e servem-se das mesmas armas que os Charlies, palavras, através de notícias, leis e regulamentos que desenham um cenário de liberdade de expressão ilusória com fronteiras devidamente delineadas.
Os Charlies indignam-se com a morte à lei da bala sendo completamente indiferentes à morte silenciosa dos ideais pelos quais se batem, anuindo muitas vezes a serem cúmplices nesse assassinato. Porque, neste grande estábulo instituído, ao contrário da vida de burro, a vida de um verdadeiro Charlie não é pêra doce.
Je ne suis pas…
Não, não sou Charlie Hebdo. Desconheço até o conteúdo da publicação, dita informativa. Independentemente do seu conteúdo, julgo que não devem existir quaisquer limites à forma de expressão. Verdadeira liberdade é a escolha pessoal. Cada um de nós terá o seu limite, a sua fronteira sobre o que é ou não alvo legitimo de sátira ou de ridicularização humorística.
Conheço França francamente mal. Não visito Paris desde o século passado, mas já então era perceptível que as opções urbanísticas estavam a promover uma verdadeira bomba-relógio social. Os tumultos de 2009 não me surpreenderam de todo. Vi, e vivi, a atitude de um certo xenofobismo gaulês, mas também vi, e vivi a atitude de desafio e desprezo pelas normas por parte dos ditos magrebinos. Senti, que se por um lado são excluídos, por outro, eles próprios fazem gala dessa exclusão. São estrangeiros no local de nascença, bem como nos países de origem das suas famílias. Muitos chegaram à idade adulta sem nunca terem vivido o sentimento de pertença. Perante uma causa que os acolhe e valoriza, terão então finalmente um propósito. O objectivo não foi a “vingança do profeta” em si, mas sim o impacto que o “feito” tem junto de quem os acolheu. Tal como nós, não compreendem quando são instrumentalizados. Meras ferramentas de objectivos maiores, que na verdade poderão ser contrários à moral abraçada. Duvido que algum seja capturado com vida. O seu eterno silêncio interessa a todas as partes, principalmente aos promotores do seu treino militar.
Dizem-nos que é terrorismo, mas parece-me guerra. Haverá diferença? Bem, barbárie é barbárie, seja qual for o rotulo que lhe colocarmos. Então porquê o preciosismo com o rotulo a aplicar ao que se está a passar em França? É uma questão de comunicação – A guerra é mais difícil de explicar a um ocidental, enquanto o terrorismo é algo que se auto-explica: São fanáticos, são loucos e basta. A diferença, a intolerância, o desprezo pela nossa liberdade são alguns dos adornos e adendas ao conceito de extremismo, ele próprio generoso na abrangência, mas por isso mesmo desprovido de precisão. Dá para tudo, mas nunca para qualificar nenhuma das acções ocidentais no mundo, recentes ou antigas. Extremismo é sobretudo uma questão de perspectiva.
E nós, os livres, tolerantes e equilibrados ocidentais? Não será estranha a leviandade com que abraçamos as causas digitais? Não será incómoda a facilidade com que aceitamos as explicações que nos são vendidas?
Na minha opinião, foi uma operação de guerra, idêntica às que ocorrem como rotina na Síria, Ucrânia, Colômbia ou em qualquer outro local do mundo. Com a agravante de na verdade não sabermos quem nos atacou. Qualquer objectivo de retaliação será por isso desprositado.
TAPada de luva branca
Uma greve anunciada para um período de pico de actividade culmina com uma requisição civil imposta pelo governo a fim de impossibilitar a sua ocorrência. Pelo meio vejo uma entrevista a um sindicalista da TAP onde o jornalista lhe atira de forma agressiva “Acha moralmente ético os sindicados agendarem a greve para esta altura do ano provocando prejuízos de milhões de euros, dando má imagem ao país e afectando o Natal e Ano Novo de milhares de famílias portuguesas?”
A resposta foi pronta, denunciadora de que a falta de moral e ética tem estado na gestão da TAP, apontando as negociatas concretas em que a TAP foi utilizada como peã de negócios ruinosos. Perante a resposta imediata e esclarecedora que fez o jornalista? Explorou essas acusações? Não, isso seria pedir demais, limita-se a repetir a sua pergunta uma e outra vez como se não fosse importante o que levou a tão grande demonstração de intransigência por parte dos trabalhadores da TAP.
Voltando ao desfecho, a requisição civil, pergunto-me se ela também ocorreria caso a TAP fosse já uma empresa privada. Porque no fundo o que se passou foi um patrão ‘especial’ a utilizar os seus super-poderes para contornar uma situação delicada naquela que é a sua especialidade, os limites da constitucionalidade. No fundo estão a negar aos trabalhadores o seu direito à manifestação justificando que permitir-lhes a concretização da greve teria resultados catastróficos para a empresa e para o país.
A meu ver os trabalhadores estão a ser tratados como um bando de egoístas, imaturos e inconscientes que, focados no seu benefício pessoal, não pensam nem protegem o interesse corporativo e nacional. O que só vem realçar a debilidade da nossa democracia. Uma democracia em que permitimos, toleramos com excessivo poder de encaixe, que uma mão cheia de gestores e políticos arruinem bancos, atirem ao tapete a maior empresa de telecomunicações nacional da qual dependem várias infra-estruturas tecnológicas nacionais, contraiam contratos de PPPs ruinosos com vinculação de décadas, desperdicem milhões de fundos europeus distribuídos de forma corrupta, etc, tudo isto com impacto de milhares de milhões de euros na economia portuguesa.
Faltará algum mecanismo similar à requisição civil para obrigar estes gestores e políticos a executarem as suas funções sem colocarem em greve uma série de competências, valores éticos e morais cuja ausência atenta claramente aos interesses das suas empresas e nacionais?
Se as elites podem tomar decisões ruinosas para o país porque não poderá hipoteticamente a classe trabalhadora de uma empresa cometer um acto lesivo para a mesma? Aos sindicatos devem ser fornecidas pelas administrações as informações que permitam aferir da saúde e estado da gestão das suas empresas. Em posse dessa informação caberá a si decidir como agir. Porque não há-de ser possível a um sindicato decidir cometer um acto lesivo a uma empresa? Será um privilégio apenas reservado ao topo da pirâmide? A que propósito?
Vivemos um tempo conturbado em que os trabalhadores esperam que no mínimo os seus sacríficios se reflictam em respeito pelos mesmos e na condução de uma gestão exemplar. Se a greve é o expoente máximo da indignação, da insatisfação, não é uma requisição civil que vai contribuir de todo para a apaziguação. Vem apenas confirmar que para este governo mais do que sermos um povo capaz de suportar a austeridade mantendo produtividade e empenho há que parecê-lo a qualquer custo, mesmo que o de mais uma lasca da nossa democracia.
TAP – Take Another Plane
De um lado o (des)governo, do outro os trabalhadores da companhia aérea de bandeira. Curiosa, ou talvez não, é a coincidência de argumentos. As partes, ditas contrárias, apresentam as mesmas razões. Tudo se resume a “porque sim”. O executivo privatiza porque sim. Os sindicatos fazem greve porque sim. Extraordinário! Interesse nacional? Interesse da própria empresa? Nada disso é relevante para os protagonistas. Comove-me o empenho de ambas as partes em fazer jus à alcunha que a companhia (infelizmente) tem: TAP – Take Another Plane.
Confesso que não sei o que será mais estúpido, a privatização ou a greve suicida nesta altura do campeonato. Será assim tão difícil compreender que a greve fragiliza a posição dos funcionários da TAP. Será difícil entender que é mais fácil reunir apoio de todos nós se não morderem o isco da greve?

Juntos Podemos
Decorreu neste fim-de-semana a Assembleia Cidadã da qual saiu o movimento JUNTOS PODEMOS, por onde passaram talvez umas duzentas e tal- trezentas pessoas e onde se debateram muitas ideias, algumas repetidas mas muitas novas reflexões sobre as quais deixo aqui algumas notas:

– Ao longo do fim-de-semana foram muitos os que se dirigiram ao ISPA para darem o seu contributo ou simplesmente para ouvirem, algumas pessoas com intervenções passadas ou presentes em outros movimentos sociais, com histórico partidário e cultura política avançada, outros que certamente vinham pela primeira vez e isso é importante, e que constituíram uma assembleia heterogénea em termos de idades;
– Houve vários assuntos e grupos de trabalho com vertentes até aqui novas neste tipo de movimentos e fundamentais para dar várias dimensões ao activismo social, como a corrupção, a habitação, o TTIP (que é a porcaria do Tratado Transatlântico que basicamente e muito resumidamente se for aprovado isto vai ser uma m**da) com o compromisso de virem a ser tratados para futuro debate e desenvolvimento de actividade. Mas não só, a economia, o mercado de trabalho, as privatizações, o serviço público não foram esquecidos e relembrados como transversais a todo o movimento. Adicionalmente foi aprovado uma actuação no sentido de defesa da TAP como empresa fundamental e estratégica para o país, e o compromisso de todos nos solidarizarmos com os funcionários que neste momento travam a dura batalha não só de manter o seu emprego como manter a empresa sob alçada do Estado.
– Das intervenções dos convidados destaco a presença dos companheiros espanhóis do Podemos, que vieram enriquecer-nos com a sua experiência, principalmente a Carolina Bescansa, e que nos permitiram não só ver semelhanças e diferenças sobre a realidade portuguesa e espanhola como nos ajudaram a pensar um pouco o nosso país. Destaco também os convidados nacionais, o José Bateira que trouxe o debate sobre a economia e deu alguns contributos para uma ideia da qual me tenho vindo cada vez mais a aproximar e que há uns anos atrás eu acharia idiota, que é a questão das nossas possibilidades dentro do Euro e fora dele, e que apesar de não ser uma questão vinculativa não é um debate que deva estar fora não só da agenda de futuras assembleias como até do debate nacional. Assinalo também a intervenção da Raquel Varela, dentro do seu estilo muito próprio mas que elevou o debate para questões fundamentais como a dignidade no trabalho e do trabalho, o pensamento critico sobre o modelo económico em que vivemos e as possibilidades que podemos vislumbrar; assinalo também a intervenção da Paula Gil e do seu contributo para algo importante, que é a questão do papel fundamental de uma cidadania mais interventiva para uma mudança efectiva!
– Da votação final da Assembleia, saiu a data de uma nova assembleia, dia 24 de Janeiro de 2015 e a possibilidade do movimento evoluir para um partido, começando desde já a recolha de assinaturas para a eventualidade de ser essa uma das formas que o Juntos Podemos poderá assumir.
– Por último alguns pensamentos:
a) Parabenizar quem organizou durante meses esta assembleia e conseguiu trazer elementos do Podemos para que connosco estivessem;
b) Não sendo eu apologista da tomada enquanto partido, admito as vantagens e os inconvenientes que daí resultam. Por um lado a formação enquanto partido deveria ser uma decisão madura e só e apenas se a disputa pelo poder e eventual tomada se revelasse essencial e última alternativa para a defesa dos direitos. Mas como sempre os tempos são diferentes, não há tempo para maturar, não há tempo a perder, e o tempo eleitoral está a decorrer e com ele a esperança de mudança ou o medo da não-mudança. Todavia mais importante do que termos mais um partido, porque partidos interessados em defender o denominador comum que ali juntou tanta gente existem, o que não existe são as bases sociais de uma cidadania que defenda de forma dinâmica este mesmo denominador comum. Por isso creio que as energias se deverão concentrar na mobilização de todos aqueles que se queiram juntar para defender aquilo que nos poderá unir num movimento: a habitação, a escola pública, a água. Por outro lado existe uma maioria que não se sente representada e que anseia essa representação. Urge igualmente fazer tremer os partidos do arco da governação e evitar danos maiores, e aí a formação do partido é um acto de desespero. Mas esse desespero não deverá nunca ser aproveitado para a exaltação de alguns egos, que em política e em poder sempre aparecem. Apesar de não se ter tratado de uma participação de massas, podem ser construídas pontes de entendimento e enriquecimento mútuo entre o BE e o PCP, afinal alguns dos que ali participaram neles militam e outros tantos por lá passaram;
c) Por último um apelo a todos os que se queiram juntar ao Juntos Podemos que o façam. Será criada uma plataforma na web, de acesso livre e com toda a informação, havendo agora apenas a página no facebook, e os contactos reunidos na assembleia passada. Este será um movimento que vive para e da participação dos cidadãos na construção de um Portugal melhor, porque Juntos Podemos muito mais do que aquilo que imaginamos!









