Rusalka
Ninfa da água, historicamente associada ao bem, às chuvas e à fertilidade, esta mitológica figura eslava perdeu o seu estatuto de espírito benigno. A sua bondade perdeu-se no tempo. Outrora desejada, passou a ser temida, qual deslumbrante Sereia do Mar Negro, perigosa sedutora que com a sua incompreensível mas encantadora voz consegue arrebatar os incautos marinheiros.
Rusalka dá nome à mais famosa Ópera de Antonín Dvořák, uma das suas obras-primas. Seduz-nos logo no primeiro acto com uma das mais belas canções de sempre, a “Canção à Lua”, na qual Rusalka apela à Lua altaneira que lhe revele o paradeiro do seu amor perdido, que o abrace, que lhe recorde a importância do sonho e que lhe lembre que é esperado. Face à dualidade da figura, o famoso compositor checo optou pela faceta mais doce, com sentimento. Interpretações brilhantes deste tema, felizmente, não faltam, mas aquela que de imediato associo ao canto de uma sereia é a da eslovaca Lucia Poppová. Uma interpretação simplesmente arrebatadora.
Outras há, contudo, menos cativantes. A líder conservadora e católica, faz uso do seu rosto de traços eslavos e com rasgados sorrisos procura seduzir o eleitorado tradicional do aliado de sempre. Entusiasmada com o sentido de oportunidade que lhe proporcionou a vitória por falta de comparência na capital, prossegue deslumbrada na crista da onda. Esperta, preenche o espaço deixado vago pela inércia e pelo parco talento de uma liderança esgotada, mas repete o erro e ao invés de desunir, oferece novo propósito à geringonça. Não só não deu voz à indignação, pois todos lhe reconheceram o oportunismo, como pior, perdeu na (co)moção de censura. As águas voltarão a ser turvas e a corrente favorável na comunicação social perderá força porque o objectivo regenerador está cumprido – as eleições para a liderança do Partido Social Democrata já estão marcadas.
Uma teoria como outra qualquer
A chuva extinguiu as chamas, mas não apagou os incêndios. Concretizada a adiada demissão, antes que a oposição pudesse (re)apontar a mira para a área da defesa, surgem boas novas à continuidade do respectivo ministro. Pelo menos assim aparenta. Bom timing ou mera coincidência? Não sabemos. As denúncias anónimas têm destas coisas, eternizam as dúvidas sobre os propósitos que lhes estão na origem. Continuamos sem saber se foi roubo, extravio ou ajuste ao inventário, mas o desfecho afigura-se apaziguador dos espíritos mais susceptíveis. Ou talvez não, talvez a ausência de um rigoroso e detalhado relato da ocorrência faça perdurar o sentimento de insegurança na sociedade lusitana. Haja por isso uma narrativa, eventualmente absurda, mas todavia tranquilizadora. Ei-la:
Certa noite de Verão, um grupo indeterminado de indivíduos de má índole deambulavam por uma das freguesias do Concelho de Vila Nova da Barquinha quando esbarraram com um rombo numa antiga e descuidada vedação. Curiosos, penetraram no perímetro e indagaram que oportunidades nele se lhes ofereciam. Alguns edifícios remotos sobressaíram no terreno e quando constataram que a porta estava trancada, concluíram ser ali que o seu prémio se escondia. Arrombada a porta e abertas algumas caixas, muito embora não reconhecendo utilidade prática ao conteúdo, decidiram levar algumas. Depois se veria que destino lhes dariam. Assim foi, a coberto da noite, motivados pelo perverso gozo do furto, optaram por a braço transportar algumas centenas de quilos. Caminharam sem rumo, ao longo de meses e aquilo que começou por ser uma aventura excitante, transformou-se numa desgastante e aborrecida rotina. O sinuoso trajecto percorrido mais não fora que um passeio em círculo. Foi então que o grupo decide pôr fim à desventura e após acesso debate, decide abandonar ali mesmo o seu fardo. Movidos pela inveja, decidem-se pela denúncia anónima, um derradeiro e soez gesto que apenas visou impedir que outros turistas colhessem o fruto do seu “trabalho”…
Não me demito. Câmbio.
15 de Outubro o pior dia de incêndios do ano. Mesmo depois de tudo o que se passou no Verão parece que é possível piorar. Como? Talvez o período de campanha para as autárquicas tenha toldado o discernimento de todos invertendo-se as prioridades nas preocupações, mesmo contra indicações de especialistas que alertaram para o facto das condições climatéricas abrasadoras deverem obrigar à manutenção de um estado de prontidão e alerta máximo. O foco autárquico na manutenção das privadas Repúblicas das Bananas poderá ter tido influência na proliferação de remodeladas Repúblicas das Bananas Assadas.
Parece-me que aos decisores é um pouco indiferente a transição entre Charlie, Delta, Bravo, Alfa, Echo. O que realmente lhes é importante é o Câmbio, termo no qual se especializaram para colocar pontos finais nas conversas. Tragédia? Câmbio em transtorno. Testemunhos no terreno? Câmbio em afirmações a quente de pessoas em estado de choque ou com stress pós-traumático. Perdas humanas e materiais? Câmbio em fundos de donativos estruturais. Prevenção? Câmbio em inevitabilidade. Responsabilidade? Câmbio em inimputabilidade.
Agora consultam-se especialistas para estudar o que correu mal ao invés de serem previamente chamados a dar o seu devido contributo no planeamento e fiscalização periódica do estado de prontidão do sistema. Finalmente temos conclusões, com indiciação de culpas a nível autárquico e de organismos envolvidos na protecção civil, pelo que aguardemos a chuva de demissões voluntárias ou coercivas. Não acontecendo só pode ser macacada o que até faria sentido pois macacos gostam de banana, mesmo que esturricada.
Câmbio
Método Socrático
O método socrático é uma técnica de investigação criminal que consiste na condução do processo pelo diálogo, no qual o investigador coloca perguntas ora ingénuas, ora irónicas, convidando os arguidos a reflectir sobre os seus próprios valores, actos e contradições. Não se tratou de filosofia, muito menos de tortura. Pelo menos foi o que ouvimos nas gravações. Os diálogos assim estabelecidos ofereceram conteúdos de qualidade rara, material de excelência para primeiras páginas e notícias de abertura, as quais por sua vez despoletaram dinâmicas de êxtase e frenesim nas mais variadas redes sociais. A dialéctica assim gerada foi bastante pródiga em tiradas conclusivas, por vezes vernáculo, e por estranho que pareça, no unanimismo em torno de uma só ideia – é uma vergonha!
Fosse eu pessoa dada às expressões simples e directas, ter-me-ia limitado a escrever “bandalheira”, mas se é freguês habitual sabe que a máxima da casa é “se não puderes ajudar, atrapalha, importante é participares”. Assim fiz há apenas 1053 dias, quando a propósito deste processo, então recém-nascido, escrevi uma analogia entre o espalhafatosa detenção e uma das minhas paixões, a Ópera. Questionava então se seria bufa. À entrada do último acto, continuo sem saber se o é, bufa. Hoje pouco posso adiantar além do óbvio. Não obstante as pouco verosímeis manifestações de generosidade do mercenário que tudo pagou, o discípulo Xenofonte para com o seu mestre Sócrates, é certo que o fim está longe e desfecho incerto. Haja ou não culpa, a dúvida que subsiste é a mesma de há quase 3 anos: Far-se-á justiça?
Fazedor de Independentistas
Face ao elevado e infelizmente habitual nível de abstenção nacional, ao invés de me debruçar sobre as nossas eleições autárquicas de ontem, opto pelo referendo Catalão. Ilegítimo ou unilateral, conforme as hostes e simpatias, o acto decorreu da pior forma possível. Enquanto os catalães se colocam à mercê dos cassetetes para votar, por cá nem à bastonada acordamos. O contraste só não é engraçado porque em ambos os casos os impactos são dramáticos. Choca-me a indiferença de cá, país com mais de oito séculos, no qual, apesar de recente, a democracia é altamente subvalorizada por quase metade dos eleitores. Como Estado-Nação, nem nos damos conta daquilo que somos!
A Catalunha, Nação secular, subjugada desde o reinado de Isabel a Católica, unificada nesse Estado de várias nações que se chama Espanha, manteve acesa a chama da sua cultura, da sua língua e das suas tradições. Independentemente de quaisquer interesses ocultos, eventualmente pouco justos ou até mesmo discriminatórios e sobranceiros para com as outras nações espanholas, é impossível não sentir alguma simpatia pela luta independentista dos catalães. Se por um lado o coração dita empatia, por outro a razão dita reservas. Assim é, assim será sempre que a ordem estabelecida dá sinais de mudança. Todos teremos, tal como os catalães, uma perspectiva egoísta – Será bom para nós?
Na dúvida, geralmente preferimos manter tudo como está. Talvez por isso, o governo espanhol optou por abordar o tema pela via legal, em detrimento da via politica. Com esta postura, Mariano Rajoy ao invés de guardião da indivisibilidade do estado espanhol, transformou-se no maior fazedor de independentistas. Não percebeu que os melhores e mais importantes aliados da sua causa são os catalães que não querem deixar de ser espanhóis. A estes, não só aos outros, negou o direito de tranquilamente, sem qualquer tipo de ameaça, manifestar em urna a sua vontade. Ontem despertaram muitos independentistas. Nunca a soberania foi outra coisa senão uma questão politica.
Combustível Eleitoral
Para que servem eleições?
Os incêndios devastadores deste Verão demonstraram que nem todos se batem devidamente pelo bem comum, sendo responsáveis directos por más decisões, más regulações, más fiscalizações. Quer a a nível local quer a nível estatal. Para além dos cenários macabros evidentes em cobertura jornalística, um estudo da Quercus veio demonstrar que um quarto dos municípios de Portugal Continental não cumpre as suas obrigações no âmbito da Legislação de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Há 72 municípios do Continente que não têm sequer em vigor o “Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios” obrigatório por Lei!
Por curiosidade fiz um levantamento das taxas de abstenção, somadas aos votos nulos e brancos, dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 2017, evidenciando-se que muita da população (40% a 50%) dos concelhos de risco não está minimamente preocupada com entrega das chaves do poder. E assim contribui para o estado da sua autarquia, da nação. A fim de entenderem a gravidade da sua ausência no processo decisório, quem não se preocupa com a nomeação dos seus cuidadores talvez também não devesse esperar cuidados de terceiros quando os que ajuda a eleger por omissão falham nas suas funções.
Voltarei a este exercício no dia 2 de Outubro para perceber se nestas autárquicas o choque das chamas descontroladas, com muita culpa do poder local, terá despertado um sentimento de revolta nos cúmplices abstencionistas que os leve a revidar com a queima de quem de direito.
Afinal, a primeira coisa para que servem umas eleições é para votar.
| % Abstenção + % Votos Nulos + % Votos Brancos | ||
| CONCELHO | AUTÁRQUICAS 2013 | LEGISLATIVAS 2015 |
| Alijó | 42% | 53% |
| Anadia | 52% | 51% |
| Águeda | 52% | 49% |
| Arcos de Valdevez | 55% | 62% |
| Arouca | 38% | 45% |
| Caminha | 39% | 50% |
| Castanheira de Pera | 35% | 44% |
| Castelo Branco | 56% | 45% |
| Figueiró dos Vinhos | 36% | 44% |
| Funchal | 55% | 53% |
| Góis | 36% | 44% |
| Pampilhosa da Serra | 38% | 48% |
| Pedrógão Grande | 42% | 48% |
| Penela | 42% | 48% |
| Sertã | 43% | 43% |
| Vale de Cambra | 43% | 45% |
| Viana do Castelo | 55% | 49% |
| Vila de Rei | 34% | 35% |
Içados do Lixo
Meia dúzia de anos volvidos, eis-nos subtraídos ao entulho, içados do lixo pela majestática e impoluta instituição de notação financeira. A agência em causa, que tal como as demais, jamais foi contaminada pela falha, equívoco ou erro, proferiu o seu magnânimo e positivo parecer. Celebremos! A festança será obviamente manchada pelo já habitual debate reivindicativo do mérito entre o actual e o anterior governo da República. Esta disputa tem um, e um só, ponto de convergência entre as partes em contenda. Ambas enaltecem os heróis do feito, nomeados voluntários à força para esta causa, os contribuintes portugueses. Pessoalmente dispenso o gesto de reconhecimento, pois não só é manifestamente hipócrita, como é um atestado de infantilidade que a todos nos passam. Se assim não fosse, os protagonistas não disputariam entre si louros ou glória pela ascensão no nível do aterro das dívidas soberanas.
Insultam-nos com os seus elogios fúteis e a sua descarada falsa modéstia. Falsa quer por falta de humildade dos actores, quer por ausência de fundamento. Os riscos mantêm-se e, como sempre, os avisos repetem-se. Estamos no domínio do menos mau, entusiasmados com pouco. Habituados ao nada, nem questionamos a “dádiva”. Gratos, congratulamo-nos, resignados ao incontornável poder dos mercados e dos seus agentes, não democráticos e por isso ditos idóneos. A economia de mercado de outrora confunde-se hoje com a ditadura da finança. Acabaram os estados soberanos, daí o desinteresse e a abstenção crescente. No fundo, mesmo quando não reflectimos sobre onde reside o verdadeiro poder, sabemos sempre quem manda. É triste que tudo isto se tenha tornado banal.
O fim do opinar classista
As questões laborais voltam a estar na ordem do dia. As notícias apontam para o aumento de abusos e precariedade, a eminência de novas greves em sectores públicos, o mediático caso Autoeuropa. O problema basilar continua a ser a delicada relação entre remuneração vs produtividade vs horários que já abordei no passado remoto.
Sendo uma discussão recorrente existe agora um alto nível de opinar nas redes sociais que só vem demonstrar a fragmentação existente entre as várias classes laborais. Quem exerce actividade no sector debaixo de ataque normalmente tem uma opinião muito distinta daqueles que não entendem os detalhes sectoriais. Para piorar as coisas grandes chavões são utilizados para cavalgar a precariedade e desconhecimento, conduzindo uma forte reprovação social generalizada contra a ‘escandalosa’ luta por melhores condições e direitos. Mais uma vez a aplicação da velha máxima “dividir para reinar”, a uma grande escala, jogando as maioritárias classes espectadoras contra as poucas classes reivindicativas.
Uma vez que será utópico esperar que num curto-prazo o discernimento isento abranja a maior parte da população só vejo uma forma de trazer paz social e justiça laboral a este tipo de negociações, a criação de sindicatos ou ordens sectoriais apartidárias que, em conjunção com governo e patronato, definam as condições basilares de trabalho e remuneração para cada classe de trabalhador e sector económico.
Isto implicaria que cada sector de actividade, coercivamente todos os seus trabalhadores, estariam abrangidos pela área de influência e jurisdição de uma única destas entidades reguladoras, cada uma delas especializada na sua área de actuação. Em consequência seriam extintos múltiplos sindicatos, que actualmente se sobrepõem, bem como deixaria de existir um salário mínimo nacional, existindo antes vários, um por cada classe e sector de actividade.
Com transparência estariam disponíveis para consulta pública os detalhes dos pilares de cada actividade, em termos de formação necessária, direitos e condições de trabalho, progressão na carreira, estatísticas de comparação com outros países, etc. Apesar de transversais ao sector poderiam sempre existir negociações particulares em casos especiais e temporários como o da Autoeuropa.
Desta forma eliminaríamos as hordas de trabalhadores explorados que, após uma análise básica alicerçada na comparação cega de salário bruto e carga horária semanal, se indignam com as exigências de trabalhadores ‘claramente’ em muito melhores condições do que as suas. Passaríamos sim a ter trabalhadores tranquilos, protegidos por grandes estruturas credíveis que, ao entender as particularidades de cada profissão, conseguem proporcionar-lhes um ambiente estável e equilibrado de trabalho, bem como o espaço e tempo adequados ao desfrutar da sua vida pessoal.
Isto não é nada de novo nem inovador. Faz-se nos USA, Suécia, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suiça entre outros.
A mudança de paradigma é simples. Ao invés de termos uma maioria descontente a pretender que os outros sejam nivelados pelo que é a sua referência, baixos ou nenhuns salários, alta carga horária, abusos patronais, teríamos sim um puxar para cima de todos os que se encontram abaixo do nível mínimo de dignidade e respeito.
Seria assim posto fim aos tiros nos pés daqueles que opinam sobre actividades que desconhecem. Que ao fragilizar a posição de quem exige melhor recompensa pela sua dedicação acabam por contribuir para o fortalecer e perpetuar das condições precárias em que eles próprios se encontram.
Até lá patronato e governo agradecem a continuidade desta luta de classes invejosas.










