Melodia Carnavalesca

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Os meninos do coro começaram por cancelar o Carnaval. Não podia, não devia, a finança não queria. Assim foi na letra, mas a musica é bem diferente. Nunca o Entrudo foi tão celebrado entre nós. Foi até antecipado. Tudo começou pelo lançamento do um livro sobre o quotidiano de um bobo durante a sua estadia na corte. Rigoletto que em português se diz Vítor, mas não Hugo, brindou a Pedro com uma melodia de fazer inveja a Verdi. Opera buffa, é certo, mas teve o seu lugar na agenda mediática. Surpresa, não se ouviu pateada. Dá que pensar.

Ao primeiro andamento, seguiu-se um triunfal cortejo de carnaval. Andante ma non troppo: Na falta de um sambódromo, decorreu na Rua das Portas de Santo Antão. Comovente na espontaneidade, nem pareceu coreografado. No coliseu, o comentador e homónimo de presidente do conselho sobe à tribuna. Enverga a camisola de candidato. É uma mascara que não resulta, está gasta, mas os comentados aplaudem a Serenata. Enfim, peripécias típicas de época. Eis que surge o grande líder, mascarado de primeiro violino. Já o bobo lhe reconhecera grandes qualidades cénicas para a condução da charanga no aquecimento, mas nada fazia prever o Adagio sostenuto: brindou a audiência com o anúncio do ousado regresso de sua eminência da equivalência, a imaculada consciência.  Voltou, pleno de força anímica e muito samba no pé. Largo ou Grave? Não se ouve. O silêncio também conta. Ainda hoje não ardeu.

Presto: a escola de samba rival responde, anunciando o regresso do coelhinho da pascoa. Digam lá que não estamos sempre em festa? Prestissimo, alguém declama “Só este modo de comunicar em 101 tweets já é todo um programa”. Viral? Ninguém os viu. Será censura? Negativo, há liberdade de expressão.

Vivace: “Não pagamos!”. Fala quem pode, os demais nem piam. Pausa.

Rondó: O dueto para o consenso. Vem aí mais ajuda, pois claro! Adagio: Não obstante as divergências insanáveis entre irmãos, a maestria demonstra afecto. Brinda a orquestra com a sua performance. Toca a oitava sonata para piano do seu conterrâneo, Op. 13, a “Patetica”. Adagio cantabileApoiar-nos-á, seja qual for a decisão que sobre nós vier a tomar. Andantino: Após as eleições europeias, o baile de carnaval prosseguirá der Klang der Walzer.

 

A Cultura Geral morreu. Vivam os Cursos Técnicos Superiores profissionais de curta duração

Numa entrevista de emprego:

– A menina tem formação em que área?
– Em nada de especial mas em tudo no geral.
– Pode especificar?
– É difícil especificar mais do que isto, sabe. Tive um ano com uma componente geral muito forte e no segundo ano bastou-me aparecer na sala de aula para me encaminharem para este estágio na sua empresa”.

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Ainda na semana passada, os Politécnicos anunciaram que não estavam disponíveis para lecionar os cursos técnicos superiores profissionais. Hoje já podem e vão fazê-lo!

Ora, com os Cursos à Bolonhesa, a coisa já ficou pobre. Cursos de três anos não chegavam para adquirir as competências e conhecimentos inerentes a cada área. Passou a ser obrigatório juntar um Mestrado à Licenciatura (não é bem obrigatório, mas é). Tanto zum-zum em torno das Licenciaturas de três anos e a coisa acalmou com a dica da promoção da mobilidade e empregabilidade dos diplomados do ensino superior no espaço europeu.

Heis que surgem, menos de uma década depois, cursos de dois anos com o objectivo de dar formação no geral. Assim um lamiré da coisa. Mas conferem algum grau académico? Não! Antes chamavam-lhe cultura geral. A partir de hoje, chamam-lhe Curso Superior Profissional.

O objectivo é, e passo a citar o comunicado do Conselho de Ministros, “alargar e diversificar o espetro da oferta do ensino superior em Portugal e, por essa via, aumentar o número de cidadãos com qualificações superiores necessárias ao país”. Boa, vamos lá consolidar o nosso 4.º lugar na UE com a maior taxa de desemprego jovem.

A boa notícia é que, como estes mini-cursos terminam com um estágio, os anúncios de estágios curriculares vão começar a desaparecer. Na verdade, são o par perfeito.

Portugal, país más grande que qualquer outro

Portugal, país más grande que qualquer outro
hoje e sempre será a mais altíssima e mais viçosa folha de Outono
Seus terrenos pantanosos, pretensamente estéreis
são na verdade mui férteis, neles germinando multi-variados tributos onerosos
Tão necessários à sobrevivência da mais alta finesse
A única capaz de garantir a navegação na maionese

Foi-se o tempo em que, fracos, caíamos como Tordos
Agora voamos! Emigramos mais ou menos tortos
Trocámos o mandar da toalha ao chão pelo bilhete de avião
Operamos a mudança com vuuuuuuuuuuuuuuuum em vez de PUM PUM PUM!

Fiéis à raiz da nossa democracia ainda cravamos
Notas, moedas d’oiro e cobre, muitos centavos cascalhos
Ser bom português não implica cantar um fado
Ser bom português é não dar despesa ao estado

Hoje poucos sabem o que é ter o prazer de viver até morrer
Talvez por isso vos foda a cabeça em tons de escárnio e mal-dizer

Essa cambada de filhos da tuta e meia
Vendem Portugal ao desbarato como quem bons ventos semeia

Quem nos governa?
É merda

Repito

QUEM NOS GOVERNA?
É MERDA!

Merda, merda, MERDA

Sem um pingo de carácter nem espinha dorsal
Merda desnutrida que não alimenta mosca nem besouro
Só capaz de montar um privado arraial
em torno do real e público tesouro

Gaspar a mascote que cá esteve ronronar e vai agora FMIar, é sério, não é trote
Relvas o homem só que nenhum cão quer ver sobre o seu cócó
Manchete o malade de la tête perdido nalguma secreta enquête
Poiares Maduro o literário que nada vale sem o seu fundo comunitário
Aguiar Branco o das forças armadas que busca estaleiro capaz de blindar decisões às forças amadas
Crato o educador de aço, utilizador de balas educadas, revestidas a amianto, na prática do tiro ao prato, não sabendo o que fazer com os cacos do seu estilhaço
Portas e seus mercados, mestre da distribuição de recados
Passos Coelho o unificador, está para a boa esperança como o famigerado Adamastor
Cavaco em agonia, o erradicador do cheiro a sovaco, saudosista da sua própria antagonia

N outras cousas ao estilo BPN
Alto! Banqueiros não! Assim reza a prescrição

Quem nos desgoverna?
Profissionais da política
Arautos da chama Olímpica
Executores de pancadas paralíticas
Gente semítica, raquítica, Excel analítica

Portugal, país más grande que qualquer outro
Queira o seu povo matar o polvo
Coragem ou viagem
vuuuuuuuuuuuuuuuuuuum

 

PJ e o seu novo brinquedo

Como grande apreciadora da vida e conduta policial, vibro com novidades fresquinhas sobre os Sô’s Agentes da Autoridade que de autoritários têm muito e de respeitáveis pouco se lhes advinha.

80 mil metros quadrados. Um heliodromo que garatem não vai ficar parado. Tecnologia de ponta. A NASA foi eleita como exemplo tecnológico (os computadores que aqui temos são é Toshiba’s dos anos 90). Advinha-se uma Policia Judiciária discípula de um FBI. Os agentes, de bigodes fartos e barrigas de cevada são os mesmos. As munições são novas e até brilham mas os gatilhos estão engatados. Não há problema. Resolve-se com o cacetete. Resolve-se? Depende. Os populares, aqueles que lhe tão caridosamente lhes oferecem o corpinho ao manifesto à porta da Assembleia da República, esses sim. Vão sentir o poder da nova Sede da PJ. Pumba, pumba, toma lá que já almoçaste. Ai subiste um degrau? Não podes! Pumba! Ai puseste um jornal a arder? Pumba! Que é para aprenderes a reciclar. Ai arrancaste um caixote do lixo? Pumba, pumba, pumba, pumba e pumba e pumba e pumba. Foram mais pumbas porque vieram mais três colegas de profissão ajudar ao pumba, pumba. (“Colegas de profissão” – percebem?)

Mas, atenção ao mas. Mas se forem colegas que se manifestam em frente à Assembleia da República, tenham calma. Vamos dar os braços e fazer um cordão. Somos todos amigos. As armas não funcionam de qualquer das formas e os cacetetes ficaram na esquadra. Isto é uma manifestação que não pode correr mal.

Voltanto ao espectacular edifício da nova Sede da PJ. É lindo. Não é propriamente um edifício verde. Daqueles com preocupações ambientais e tal. Temos Sol 250 dias por ano mas não há cá paneis solares nem coisa que o valha. 80 mil metros quadrados. Uau. Estou de boca aberta com tanto espaço. Compraram baralhos de cartas para toda a gente?

Sede PJ

Segundo a Agenda Cultural de Lisboa, “(…) Houve a preocupação de criar uma fachada principal que se integrasse na zona envolvente […] de modo a minimizar o impacto da sua presença (…)”. É verdade! Mal se dá pelo edifício. É como o policiamento das ruas. Também mal se dá por eles. Eles estão lá. Estão é ocupados com outras coisas. Não os perturbem.

Pombos sem Asas

Logotipo_CML_fonteDIN_vert_1_corEsperámos pacientemente, aguardámos mais de dois mil e duzentos anos, mas valeu a pena. O “Plano de Acessibilidade Pedonal” da capital gerou mais uma conveniente polémica. Não se debate o plano, apenas os pavimentos. Compreende-se, é coisa nossa. Os corvos que adornam o Brasão de Armas de Lisboa assumem posições. Dividida, a tripulação da Barca Negra debate a calçada. Só os debates inconsequentes nos despertam tamanha paixão. Na proa os críticos, na popa os apoiantes. Estão ao Leme, pelo que o rumo está traçado. Nem a coerência cromática com a bandeira de São Vicente salvará a arte-do-calcário-e-basalto. Será progressivo, levará o seu tempo. Três anos. Não é muito. Aguentamos. Já diz a flâmula: “Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa”

Pt-lsb1Como sempre, os estudos demonstram tudo. Afinal, a pedra está cara, e pior, a estatística demonstra-a perigosa, escorregadia e traiçoeira. Um perigo! Nada de novo. São más práticas antigas, do tempo em que os habitantes desta cidade estavam isentos do pagamento de impostos. É verdade, foi em 200 a.C. Estavam então os Romanos ao leme da Barca Negra. Chamavam-lhe “Olisippo”. Imagine-se que se lembraram de usar pedra para pavimentar estradas e caminhos. Até construíram impérios, mas convém aqui lembrar que a esperança média de vida era então inferior aos 50 anos. A tradição nunca foi o que é, e a palavra “isenção” não é hoje conjugável com a palavra “cidadão”.

Enquanto esperamos pelos resultados dos estudos relativos aos perigos nas zonas verdes, congratulamo-nos com a decisão tomada por unanimidade. Aqui há negócio, acusam os mais cépticos. Jura? Mais uma clara demonstração de representatividade. Abundam na “democracia self-service após eleição”, que convenhamos, já cansa. Por mais nobre o princípio, por mais inclusiva e benemérita a iniciativa, desconfiamos. Em casa sem pão, todos ralham, porque todos têm razão. E o que é que isto interessa ao caso? Nada! Nada? Então siga! Sim, SIGA – Sistema de Informação Geográfica para Gestão da Acessibilidade. Haja modernidade. Avancemos para outra teoria da conspiração.

Não terá a iniciativa camarária um objectivo oculto? Talvez mais obvio, mais simples e mundano? Governar é prever, está bom de ver, antever: Não vá a próxima “ajuda” externa exaltar o munícipe, ou não vá um futuro governo “mais amigo” dos contribuintes, os decepcione logo após tomar posse. Não estará a Câmara Municipal de Lisboa a tentar desactivar tanta e tão disponível munição? Julgo que sim! Por este motivo, e apenas por este, lanço o meu apelo: Salvem os Pombos sem Asas!

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Portugal: analogia de um crime

No final de Janeiro assaltaram-me a casa. Foi evento de estreia.
Como não há muito a fazer acabo por digerir a coisa fazendo um exercício de analogia entre o sucedido e o cenário em Portugal.

Os sinais eram evidentes. Assaltos a casas em redor durante semanas. Apesar de tudo nunca coloquei em causa também eu ser um alvo possível. Até porque tenho três cães de guarda. Tinha algum dinheiro em casa que estava na primeira gaveta da cómoda do quarto sem qualquer tipo de camuflagem.

Os ladrões aproveitaram um dia de intempérie, com muita turbulência e chuva torrencial, para executarem o roubo. Dominaram os cães à pedrada e com spray atordoante. Tentaram arrombar a porta até que rapidamente detectaram uma janela com trinco avariado, entraram, foram directos ao quarto, encontraram o dinheiro e sairam sem mais demora. Um trabalho limpo e rápido sem grandes desarrumos.

Ao chegar a casa tinha vizinhos / testemunhas que viram tudo quando a chuva amainou. Estavam três no meu terreno, dois no carro de apoio à fuga, aparentemente ciganos. Um vizinho que por eles passou lado a lado disse-me que eram assim escuros, com um ar de deliquentes, pensou serem amigos meus que estaria a receber em casa.

Chamei a polícia, na minha zona sou servido pela GNR, e chega um grupo de agentes que posteriormente chama a brigada de investigação pois haviam indícios que podiam ajudar numa investigação em curso. Quando dei por mim tinha 5 polícias em mini-comício no corredor discutindo o roubo das suas condições feito pelo estado e a necessidade de agir com manifestações de larga escala.

Posteriormente os investigadores foram falar com todos os vizinhos / testemunhas e qual não é o meu espanto quando quase todos os relatos minuciosos sobre a forma de agir e aspecto dos ladrões se reduzem a uns “não vi muito bem porque estava ao longe”, por vezes com testemunhos precedidos de um “não me envolva no processo que não quero ter nada a ver com isso! Não quero perder tempo nem gastar dinheiro para ir a tribunal!”. Um dos vizinhos que tinha passado pelo carro dos ladrões disse que não podia deslocar-se ao posto da GNR no dia seguinte para olhar para umas viaturas porque era desempregado e não podia suportar a deslocação.

No relatório da GNR, que fui assinar no FDS seguinte, relatavam que tinha sido assaltado por dois indíviduos segundo relato de vizinha que não pôde ser identificada. Quando coloquei em causa o relato, uma vez que eram cinco e que só não identificaram quem não quiseram, lembraram-se que tinha lá estado a brigada de investigação logo não fazia mal a discrepância. Eles só têm de relatar as coisas mais ou menos como aconteceram. Os investigadores é que são os especialistas. Além do mais se forem apanhados, e seguirem para tribunal, são soltos antes sequer do agente acabar de preencher a papelada protocular.

O que tem isto a ver com Portugal?

Este relato transpira o tradicional ser Português. A vida corre-nos bem porque raio nos devemos preocupar com os sinais de degradação do ‘ecossistema’ que ocorrem em nosso redor? Tal como aconteceu na era de bonança em que o crescendo generalizado das condições de vida nos cegou para a hecatombe que haveria de vir.

As nossas mais valias são por vezes desbaratadas estando à mão de semear daqueles que as cobiçam secretamente, aguardando a oportunidade ideal para as tomar facilmente. Ao estilo das recentes privatizações. Aparentemente a culpa é dos políticos e decisores locais, no entanto os beneficiários são organizações mundiais organizadas peritas em pilhagem legal.

Em teoria as nossas forças armadas estão de prontidão preparados para o que der e vier. No entanto há o real risco de o equipamento ser inadequado, desiludindo quando posto à prova por uma situação real.

Tal como nós, os com pele mais ‘tonificada’, os políticos são todos iguais, todos a mesma escumalha. E desta forma preferimos não participar em actos eleitorais, ao invés de arriscar dar oportunidade a ideias menos usuais defendidas por outros políticos. Ironicamente com o voto em branco ou abstenção acabam por dar ainda mais força aos partidos históricos da nossa democracia.

“Não me pagam para isto!” Um clássico para justificar o laxismo e a incúria. Entra-se em pescada de rabo na boca. No imediato não se trabalha o que se deve porque não nos pagam o que é justo, no longo prazo dá-se o vice-versa e a razão perdeu-se pelo meio. Até nas manifestações há filhos e enteados e aparentemente a indignação de uns suplanta-se à de outros.

Os portugueses são lestos a exigir justiça ao mesmo tempo que vemos, toleramos e compactuamos com injustiças. Todos prestamos e usufruimos dos nossos pequenos compadrios, sem ponderar que independentemente do valor do favor estamos a minar os alicerces da imparcialidade e igualdade.  Aparentemente a justiça dá demasiado trabalho, demasiadas dores de cabeça, tendo muito pouco retorno. Pelo que nos damos por contentes em ladrar e rosnar enquanto o saque trespassa.

Nós olhamos mas não vemos, temos os dados todos ao nosso dispôr mas não pensamos nem planeamos. Fiamo-nos nos especialistas internacionais que disso se ocupam a tempo inteiro. Homens zelosos pela manutenção da democracia e soberania em cada estado membro, desde que os números o permitam.

Dá para concluir alguma coisa desta confusão?

A solução para ambas as situações começa a caminhar para o sujar de mãos. Se queremos tirar os bandidos do poleiro talvez a solução seja um tiro certeiro. Diferentes pessoas de diferentes meios e diferentes classes sociais cada vez mais expressam o seu desabafo em forma de

“Isto só lá vai quando alguns gatunos aparecerem esticados no meio da rua…”

O que quer dizer que o sistema poderá voltar-se contra ele próprio. Apesar de artilhado para desencorajar os mais audazes ele começa a fraquejar. Se as forças de protecção têm meios cada vez mais inadequados, se todos embrutecemos iguais, se as testemunhas caminham para cegas, surdas e mudas desinteressadas, se não vale a pena planear o futuro martirizando-nos com a austeridade presente, em breve surgirá alguém, anónimo, invisível, sem nada a perder que num acesso espontâneo de loucura, transfigurada de clareza iluminada, deixe um ou dois estendidos no meio da rua.

E talvez aí todos vejamos o quão estamos errados.

alienation & revolution

Gira-gira giro Portugal

20 de Janeiro e nada. 20 dias de 2014 em que praticamente só se falou de intempéries, de morte e consagração no futebol. Eis que quando as nuvens se dissipavam,  parecendo haver abertura para voltar a anunciar e discutir as medidas políticas em curso, sai da cartola um referendo que volta a armar a tenda do circo mediático. Os spin doctors têm tido uma vida tranquila, com os eventos ‘cortina de fumo’ a eclodirem naturalmente, bastando agora atirar esta granada co-adoptada para queimar mais uns dias preciosos.

Ponderei abordar o tema do asqueroso pantanão nacional acabando por preferir cingir-me ao espremer de algumas das notícias mais levezinhas de 2014.

Arnaut na Goldman Sachs e Gaspar no FMI, é de certa forma assustador porque os ratos só abandonam o navio quando este deixa de ter provisões ou quando o naufrágio está iminente. Não me preocupa tanto que tenham passado para o covil dos vilões da crise, alerta-me para provavelmente não existirem mais jóais da coroa que mereçam a cobiça dos grandes players mundiais e que justifiquem a permanência de testas de ferro para grandes operações financeiras infiltradas.

Reduzir escolaridade obrigatória para o 9º ano vs 4 em cada 10 jovens sem dinheiro para estudar, a Juventude Popular podia ser a esperança de melhores políticos e assume-se como mais do mesmo ou pior. Acredito que para a despesa do estado retirar 3 anos de ensino obrigatório seria um corte simpático, por opção própria de jovens inconscientes, quiçá mesmo encorajados para tal porque o desemprego está repleto de diplomados. O ensino superior tornou-se inacessível para muitos e se não se pode nivelar por cima nivela-se por baixo, certo? Imagino que para os novos patrões, de vários sectores em Portugal, nove anos de escolaridade seja um indíce bastante satisfatório tendo em conta a média de escolaridade no seu território.

Temo que existam visionários a fazer contas, afinal já exportámos grande parte da mão de obra qualificada, outra parte significativa está desempregada e o mercado não terá capacidade da sua absorção tão cedo. Logo não se perde nada se as próximas gerações forem menos qualificadas. Alguém para quem um baixo salário seja uma benção, que saiba sobretudo consumir sem temores, sem consciência nem capacidade aritmética, uma nova manada ainda mais fácil de domesticar mediante futebol e lixo televisivo. Uma legião de clientes perfeitos para a nova economia emergente.

Miró’s quadros bónitos! Pela módica quantia de 35 M leve estas obras no valor de 150 M! Que este governo não quer saber da cultura já não é novidade sendo que aqui é simplesmente escandaloso aceitar tal desvalorização nos activos aceites para resolução do caso BPN.  O povo está-se cagando, até parece que os quadros valem a estátua do Eusébio, cujo corpo o governo sabiamente anuiu em transladar para o panteão nacional ASAP. Ao estilo popularucho.

Por fim até os escândalos amorosos de chefes de estado de outros países ocupam grande parte dos nossos media. Ainda por cima de um país tão liberal no que toca ao amour. Talvez faça sentido se considerarmos que a austeridade, tão em voga, foi sobretudo explorada e desenvolvida em França pelo Marquês de Sade. O que me apoquenta neste caso é que não me lembro na democracia Portuguesa de escândalos amorosos envolvendo governantes em funções. Será isso mais uma demonstração da fraqueza da nossa democracia e sociedade? Ou serão eles tão desinteressantes e obscenos ao ponto de nem surgirem candidatas a amantes reais ou interesseiras deslumbradas pelo poder? Outra hipótese plausível é que desde sempre os nossos políticos mal-interpretem a resposta “isso são brincadeiras de crianças“, que é dada pelos representantes de outros estados quando por eles questionados em privado “Isto de governar no vosso país dá para engatar gajas?”

E assim vai girando o nosso país nas mãos dos garotos.

C.E.P – 2013

A pedido da tripulação, estou de quarto à ponte. Prestes a entrar no novo ano reflicto sobre a rota percorrida ao longo dos últimos 12 meses. Verifico que a estabilidade é total! Prevalece o faz-de-conta. A Nau não tem estai nem mezena, deriva empurrada pela borrasca. Os arautos da verdade de outrora, são hoje os pantomineiros de serviço. Estão ao Leme com um desígnio: salvar o possível do status quo. Não são marinheiros, nem tão pouco líderes, são pastores. Conduzem o rebanho em círculos, para chegar a lado nenhum. Mas há propósito. Não podíamos, não queiramos ser os carrascos do Euro. Não fomos, nem seremos. Se morrer a culpa não será nossa. Cumprimos, sem cumprir, mas já não vivemos acima das possibilidades. Amem.

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milhoes1[1]Honra a quem contribuiu. Nenhum voluntário é certo, mas ninguém passou por Tancos. Talvez por isso não seja relatado nenhum milagre na recruta. Somos o C.E.P – o Corpo Expiatório Português. Não fomos para as trincheiras da Flandres, mas é de lá que vêm as ordens. A guerra mudou, é mais civilizada, é económica. Os pergaminhos castrenses são contudo observados com rigor germânico. Erich von Ludendorff é amiúde citado.  Eis-nos novamente confrontados com este General. A doutrina é simples: Der Totale Krieg! A paz é apenas o breve período entre as guerras.

200px-Distintivo_CEP.svg[1]A nós, Milhais que valemos por milhões, não está reservado nenhum premio nem louvor. Continuaremos pobres, mas ricos de espírito. Tal como há quase um século, a gloria será de outros, cabe-nos de novo a sapa. Felizmente que ainda ninguém nos metralhou por desobediência.

Assim foi 2013, fomos o C.E.P. do século XXI.

Carta de Natal de Pedro Passos Coelho

Estamos praticamente no dia da consoada de Natal. Tendo em conta as circunstâncias até me sinto um pouco culpado por estar hoje de férias numa altura em que o país precisa de muito trabalho. Certamente que o nosso primeiro ministro nem tempo teve para escrever a cartinha ao Pai Natal, correndo sérios riscos de não ter prenda no sapatinho. À boleia do espírito de Natal decidi à última da hora escrever uma carta em seu nome e proporcionar-lhe, amanhã, uma inesperada surpresa.

Querido Pai Natal, para começar peço desculpa por tratar-te por esta má tradução do teu nome, Santa Claus, espero que compreendas, foi para não dar uma carga negativa ao teu nome, uma vez que nós portugueses consideramos que não há cláusulas santas no mundo. Nem as da constituição!

O meu nome é Pedro Passos Coelho, não te deixes enganar pelo apelido porque nada tenho a ver com o coelhinho da Páscoa nem com a distribuição de pães ázimos. Para ser sincero por minha causa há muita gente a comer o pão que o diabo amassou…

À primeira vista sei que pareço um menino que só faz más acções, mas estou seguro que tu saberás discernir a qualidade dos frutos do meu trabalho que serão colhidos no futuro. Afinal o estrume é parte essencial da agricultura e alguém tem que arregaçar as mangas e baixar as calças para o produzir!

Quero também avisar-te que, por aqui, este ano alguns dos meninos não comeram a sopa porque não havia, pelo que evita penalizá-los por isso. Talvez não dar prendas a meninos que não bebam um copo de água?

Posto isto vamos ao que interessa. Passo a fazer a encomenda das prendas que muito me aprazeria encontrar no sapatinho com a tua assinatura. Sei que não me podes dar todas, pelo que te digo porque preciso de cada uma delas, confio na tua sapiência, sei que vais decidir bem quais devo receber este ano.

  • Conjunto de Gazuas – porque constantemente estou a deparar-me com portas cerradas que obrigam a grande desgaste negocial para abrir. Com um instrumento especializado poderei arrombá-las sem pudor, poupando tempo e esforço.
  • Tribunal Constitucional da Playmobil – sou um coleccionador inveterado e é a única coisa que me falta colocar no baú! Já lá tenho os polícias, os bombeiros, os médicos, os enfermeiros, os funcionários públicos e até mesmo os raríssimos engenheiros de construção naval já estão a caminho!
  • Amolador de Lâminas – encontrei uma machete no sotão, do tempo do meu avô, e às primeiras golpadas percebi que a dita está completamente cega. Em vez de desferir golpes certeiros só dá quicadas. Ainda tenho esperança de a recuperar mas preciso de instrumentos especializados. Por agora está a marinar num alguidar de coca-cola para retirar a ferrugem.
  • Globo Mapa Mundo – pois é… por incrível que pareça de momento não tenho um globo à mão! O que causa enorme transtorno uma vez que ando a receber cartas insultuosas de todos os cantos do mundo. Gosto de lhes chamar os conselhos da diáspora Portuguesa! Adoraria marcar no globo de onde são enviadas as cartas, só que o globo que tinha foi despedaçado pelo meu MNE e Vice que o disputavam ao planear o seu roteiro de viagens de diplomacia internacional. Apesar do alarido dá gosto ver estas ganas de querer fazer!
  • Dicionário da Língua dos Pês – às vezes, quando me querem ensinar o meu trabalho, a gentalha da oposição e da contestação social mete-se a gozar comigo PPPs isto, PPPs aquilo, FDP para aqui, FDP para ali, e não percebo um boi do que falam. Faz parte das minhas funções descer ao seu nível, responder-lhes na mesma linguagem, e reconheço que preciso de ajuda para tal.
  • Um Bom Tacho – comecei por fazer um refogado em lume brando que a meio, por falta de pachorra da minha parte, decidi transitar para uma panela de pressão. Agora está tudo alarmado a apitar e temo que possa mesmo explodir antes de estar no ponto que pretendo. Precavendo-me contra o facto pedia-te, se possível, um bom tacho onde possa continuar a fazer os meus temperos gourmet. O Ângelo, meu mentor de caldinhos do passado, parece já não ter equipamento que me possa dispensar. 😦

E pronto! Não quero abusar! Espero que consigas pelo menos um ou dois destes presentes para o meu sapatinho. Ia ser tão bom para mim… Se não conseguires nada disto na tua fábrica aconselho-te a troca de fornecedor chinês para alemão. Diz que vais da minha parte sff.

Por fim um pequeno aviso. Não tentes fazer swaps dessas prendas com outra coisa qualquer. Isso vai dar porcaria, fala a voz da experiência.

Tudo de bom para ti. Espero que tenhas uma boa noite. Podes vir com as renas todas que aquela história de só puderes ter duas foi uma brincadeira de mau gosto.

Abraço deste teu crente

Pedro Passos Coelho

PS – onde estás a ser tributado a nível de impostos? Já ouviste falar do Golden Residence Permit? Fala comigo!

E com este post desejo um feliz e divertido Natal para todos! HO HO HO

Um Gesto Estrondoso

Por mais obvia a evidência, por mais clarividente a prova, duvidamos sempre da virtude Lusitana. Subestimamos, inexplicavelmente, as qualidades e envergadura moral de todos os nossos compatriotas, especialmente dos altos dignitários da nação. Incompreensível! Esta constatação autocrítica exulta o dever patriótico do exorcismo, por isso, reincido na denúncia deste complexo de inferioridade.

CavacoMandela

Interpelo todos os Compatriotas, simpatizantes, turistas e amigos da Lusofonia: Nunca duvidem da influência da nação Lusitana no mundo. Os factos permitem-me poupar nas palavras. Passemos aos exemplos: Desenvolvendo a sua prestigiada magistratura de influência, el Rey “considera a morte de Mandela o acontecimento mais marcante de sempre“. Alguns, nitidamente mal-intencionados, precipitaram-se ao concluir: Se a morte foi o momento mais marcante, a vida e obra não interessam ao supremo tecnocrata. Discordo desta interpretação. É tendenciosa e antí-dinástica. Ignoremos.

A coerência, a verticalidade, o elevado sentido de missão deste nosso estadista de eleição é prova inequívoca da sua virtude, mas dado o ancestral cepticismo, avanço mais um irrefutável exemplo: A cerimónia de homenagem a Nelson Mandela foi ensombrada pela polémica em torno da prestação do interprete de linguagem gestual, de seu nome Thamsanga Jantjie. O interprete diz-se qualificado, mas subitamente afectado por um enfermidade do foro psicológico.

Surdos de todo o mundo manifestaram a sua revolta, pois não compreenderam nenhuma das intervenções, com uma única excepção:

Qual primus inter pares, o nosso monarca foi o único líder mundial a quem o interprete gestual não se atreveu a boicotar o discurso. Gesticulou com precisão milimétrica, a mensagem passou na integra. Foi um gesto estrondoso!