Jota Kafka
(depois do almoço), e você já a pensar no lanche.
É para que saiba o que custa uma espera, para mais, sabendo que enquanto espera, alguém está refastelado a almoçar ou a degustar qualquer outra coisa comezinha enquanto nós estamos aqui, na ignorância dum atendimento adequado hoje, se hoje, e se hoje, se será loquaz, paciente e explicativo. Nós sim senhor!, que eu também estou cá! Como você.
Estas azias não são de nada que tenha comido, muito menos pela sua presença, companhia que aprecio e agradeço, mas do adiantado da hora que já se verifica, uma vez que, da esquerda não vem viva alma nem da direita vivalma e já passaram as treze e cinquenta e cinco. Essa é que é essa! Peço desculpas pelo você; você merece-me realmente outro trato só pelo facto de estar atento à narrativa e pelo lanche que foi a brincar, pelas minhas origens anglófonas. Refiro-me ao sub-título e não ao texto que agora se inicia. Mantenho porém, o depois do almoço, porque é do que se trata finalmente, embora não tenha almoçado, conforme prometido e a referência ao lanche tem a ver com a palavra derivativa de “lunch”, e quanto ao eventual evento está desde já convidado.
Abre-se a porta dos sustos mais uma vez «até que enfim», e, qual não é o nosso espanto quando, quem a abre é alguém. Bem podia ser um daqueles automatismos modernos que evitam mais um salário e, por isso, menos uma despesa, mas não, era mesmo alguém que abria a porta e, como não tinha sido vista vindo do lado das vivas almas nem do lado das vivalmas, só poderia ter vindo do lado dos sustos e, agora percebemos tudo, não a vimos porque a porta que se abria agora para a população, vulgo utentes como descrito na parte da manhã antes do almoço, estava fechada.
Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… com licença, com licença, com licença e, nem queira saber o que vi na pantalha, que, só soube nos final da manhã que era um plasma e que muito enfadou J. uma vez que se sentiu enganado desta a sua chegada. «Pantalha é pantalha, plasma é plasma!, não se brinca assim com uma pessoa!», disse-o do alto do seu aborrecimento e com muita razão. Embora ecrã para nós fosse suficiente. É ou não é?
Com a minha ascendência na Cornualha preferiria “screen”, mas não faço questão nem alarido. Perdeu J. a conta dos Dlim-Dlams que ouviu até ter conseguido entrar no corredor de espera. Era a sua vez na mesa cinco, a mesma, e única, que tinha estado ocupada durante toda a manhã, era seu alguém, a senhora do chamamento detalhadamente descrita pelas doze e trinta para que não fosse confundida o que criava à partida um problema, talvez até, um grande problema.
Apelo ao melhor discernimento e sentido de crítica do meu querido companheiro de leitura para a seguinte falha na organização da adm. central anteriormente elogiada, e seus executores: – quem é alguém, nunca poderá ser outrem, e muito menos, e simplesmente, funcionária, como foi adiantado aí pelas dez e trinta da manhã. Não é obvio que J. tenha dado pela falha, mas, há ainda um detalhe a ter em conta que nos pode até, levar a uma certa omnipresença preocupante se levada à letra a expressão utilizada nas famosas “duas linhas” de oratória com um «… façam o favor de se dirigirem a mim…». Será um premonitório “vinde a mim” pensado na alta adm. central no sentido de arrebanhar a grei, na sua totalidade à repartição em causa. Deus nos livre e guarde e J. nem sonhe. Já nos basta que seja omnipotente para alguns. Seria o cabo dos trabalhos.
De seguida convido-o a não interromper o que penso ser o final dos trabalhos em curso, uma vez que vai dar início o tão esperado encontro entre quem precisa e quem tem. Peço-lhe, além do maior silêncio, a maior atenção também. Sei que é capaz.
«Boa tarde», «Boa tarde», «faça favor de sentar», «Obrigado», «Qual é o seu número, se faz favor?», «A49», «Pode mostrar-me a ficha de presença?», «Com certeza, aqui está.», «Olá… temos aqui um problema…», «Problema?…», «Sim, a sua ficha é a A49.», «É», «Não é E, mas sim A.», «Sim, disse é com o sentido de ser, como se dissesse é a á quarenta e nove.», «O sr…», «J.», «O sr. Jota Ponto…», «Só J.», «Hum… o sr. Jota está a tentar colocar entraves à adm. pública na pessoa dum seu funcionário?», «Não!, eu…», «O sr. Jota pensa que eu não sou ninguém?», «Não!… Tenho a certeza que a senhora é alguém!», «Ainda bem», «O sr. Jota quando entrou nesta repartição estava a ser atendida a ficha de presença A15, certo?», «Certo», «E o sr. Jota disse, os nossos serviços bem ouviram, que só faltavam 33, certo?», «Hum… não me lembro bem…», «Mas se fosse uma pessoa responsável devia lembrar. Faça o favor de me seguir na aritmética, quinze mais trinta e três perfaz… perfaz… 48 e não, 49!, certo?», «Certíssimo.», «Então, se me faz o favor, e para que não tenhamos que prosseguir para instâncias superiores, levante-se e, aguarde a sua vez.», «Mas… nem sei… talvez tenha feito mal as contas, talvez estivesse a pensar nos A16, aquele casal que esteve nesta mesa a manhã toda…», «O sr. Jota só está a piorar a sua situação!», «Como assim?», «O casal A16 não esteve nesta mesa a manhã toda, o casal A16 esteve nesta mesa a tratar dum problema complicadíssimo para ele e para os nossos serviços, durante a manhã toda, o que é bem diferente!», «Pois sim, não digo que não, mas, a repartição está quase a fechar, eu sou o último utente, mesmo que saia, não tem mais ninguém a seguir…», «O sr. Jota além de estar a ser inconveniente, está a tentar defraudar o normal funcionamento do serviço e, mais grave ainda, a tentar adulterar a honestidade da ordem de chamada!», «Não é minha intenção, não é minha intenção, eu é que, eu estou aqui desde as dez da manhã, este assunto tenho de o ter resolvido hoje, da parte da tarde não veio ninguém…», «Como é que o sr. Jota pode afirmar, e logo cabalmente, que da parte de tarde não veio ninguém se a chamada foi feita, completa e pela ordem autenticada no final do turno da manhã?», «Minha senhora…», «Não me trate por minha senhora!, eu sou alguém!», «Claro! É o meu sistema nervoso, peço desculpa, mas acontece que eu estava ali à porta, quase não fui almoçar e vi toda a gente a entrar e», « O sr. Jota não se cansa de fazer falsas declarações. Nós sabemos muito bem que almoçou. Quem pensa que são os nossos serviços? Sopa e conduto!, ouviu?, sopa e conduto, é o que diz a nota interna dos nossos serviços!», «Pois… certo, foi tão rápido para não perder a vez, mas o que eu queria dizer é que, da parte da manhã para a parte da tarde, depois do atendimento da A16, e depois de muitos Dlim-Dlams sem qualquer presença foi o meu Dlim- Dlam, o Dlim-Dlam do A49 que foi chamado, por conseguinte…», «Mas o que é que o sr. Jota tem a ver com as ausências verificadas no turno da tarde. Provavelmente as pessoas não quiseram aguardar aqui até às doze e trinta para serem autenticadas ou não quiseram voltar de tarde, provavelmente não tiveram tempo de ir e voltar e desistiram a meio do caminho, provavelmente estão a aproveitar o tempo das três senhas de tolerância, provavelmente até, não era assim tão urgente e voltarão, que é o que costumam fazer as pessoas com coisas urgentes a tratar e não têm paciência para esperar!», «Acredito, acredito, sei que a vossa função não é fácil e, ainda bem que há alguém que disponibilize a sua vida para atender aos problemas do cidadão, mas, veja bem, são quinze e trinta e cinco, a repartição fecha às dezasseis horas, eu sou o único utente, será que…», «Se a adm. central se tivesse que preocupar com serás, e outros elementos do existencialismo, do ente humano, da pessoa física e moral no seu conjunto, do ser como um todo, era o cabo dos trabalhos sr. Jota. A nossa função é o rigor, o exemplo e a execução. O resto sr. Jota, o resto são filosofias!», «Então, resta-me, sair, e, aguardar a minha vez que penso ser esta», «Exacto!», «E, se me permite a pergunta… se não for chamado até às dezasseis horas?, «Terá de voltar amanhã, mais cedo, que era o que devia ter feito hoje!», «Então repete-se o sistema da autentic», «Era o que havia de faltar!, já agora!, amanhã começa do zero! Vocês não queriam mais nada!».
Respiremos agora um pouco. Bem precisamos. Mas só o suficiente para ver o nosso J. muito conformado, a reentrar na sala de espera que era mais um corredor, agora vazio, e aguardar a sua chamada, ou a chegada do chefe da repartição, que até aí, assoberbado nas suas tarefas se tinha mantido invisível, para mandar todos os cidadãos abandonarem o atendimento. E J., creia meu ilustre, ao ver a porta dos sustos fechar-se atrás dele como que protegendo-o dos sobressaltos da existência, abandonou-se caminho fora sabendo, sem qualquer dúvida agora, que era cidadão. A incerteza era se amanhã, na volta, seria considerado pessoa.
Para mim, e porque merece, será sempre o nosso J. e, nunca mais, só, Jota kafka.
FIM! Finalmente (quem sabe até, do Mundo).
sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.
Jota Kafka
(depois do almoço), ainda com partes do jejum.
Boas tardes então, e desculpe, nunca gostei lá muito da expressão “repasto”. É incisivo demais para a variedade das ementas oferecidas, mas enfim, foi para não dizer assim, de chofre, mastigado o comer… Não leve a mal.
Já está almoçado, que bem se vê, mas isto aqui ainda vai uma açorda. Nem queira saber.
Está o J. de regresso, guarda-chuva a tiracolo, castelo bem axilado e olho em riste procurando assento. Olhe!, lá vem ele… sentou-se; ainda bem. A espera desespera, vamos ver se alcança.
Provavelmente já se perguntou, mas que raio é aquilo do castelo que, uma vez se sovaca e outra se axila? Tem razão, eu mesmo já me tinha feito a mesma pergunta e, merece uma explicação. Explicação que, lamentavelmente, não tenho processo de dar.
Também me causa espécie o facto do guarda-chuva em dia de Sol, e não me vê aqui de patas ao ar numa metamorfose ridícula a tentar descobrir. Para mais não temos nada com isso.
É ou não é?
J. olhou em volta e era um conhecido no meio de conhecidos. Não conhecia ninguém mas não havia cara que lhe escapasse desde que tinha saído para ver se chovia. O que não acontecia.
Sentou-se na beirinha dum vaso baixinho e desfolhou o livro. Nessa altura eram onze e meia na espera e vinte e duas e quarenta e cinco no livro e, Kapa continuava a tentar espreitar Klamm sentado no colo de Barnabás, que se tinha escondido da estalajadeira com medo de ser visto a dar cobertura ao desaforo que era espreitar Frieda uma vez que, todos sabiam, esta tinha sido amante dum kapa e era, agora, noiva de outro. Sim, dois kapas. Um para Kapa, que, para evitarmos confusões doravante escreveremos K com ponto e Klamm, que, como inicial tem, também, K, mas sem ponto. E, para que não pense que era má vontade desvendar-lhe o que era “o castelo”, fique sabendo que só o descobri porque perguntei ao sr. Aníbal, acabadinho de pagar o dízimo que lhe tinha custado uma vigésima. Pelo menos assim lhe pareceu e me disse. E, quanto a doravante escreverem apenas K., isto é, Kapa ponto, não sei como isso será possível, uma vez que só um escreve, que sou eu, e não escreverá mais nada sobre K. ou qualquer outra coisa sobre o referido livro. Não se aplica portanto, nem o plural, nem o lembrete.
Nestas e noutras deambulações foi passando o tempo, ouvindo Dlim-Dlams e zum-zums até às doze e trinta, a hora do almoço, onde, o seu papel acetinado devia ser assinado com a competência do alguém para que outrem, ao regressar, soubesse que se tinha estado em fila de espera, de manhã, até às doze e trinta. A senhora afónica tinha já saído para tomar uma gemada, e eu tenho estado a falar de J..
NOTA: – (pequena nota: – esta nota não fica nada bem num texto que não se pretende panfletário, e é utilizada apenas porque não há outra forma de notar o que se segue na nota). Mantém-se a designação “manhã” embora fossem doze e trinta. Ora, como sabe, a hora convencionada para se passar a designar tarde é o meio-dia, isto é, as doze horas (12:00 em alguns relógios). Aqui, nesta nota, tenta explicar-se que, também a hora do almoço, que não tem hora, pode separar a manhã da tarde. No caso vertente, nem se tratava duma coisa nem doutra mas sim, a hora determinada pela administração central para os seus funcionários irem almoçar e que, ultrapassada essa e o respectivo tempo em minutos necessário à refeição, fosse considerada após publicação, a parte da tarde, logo, depois do almoço. Fim da NOTA.
Perguntar-me-á muito pertinentemente, «Mas como sabia J. que eram doze e trinta se não havia relógio na espera?»
Dir-lhe-ei que «Foi muito bem observado, sim senhor!», uma vez que, não conhecendo o recinto e não lho tendo sido alguma vez descrito qualquer tic-tac ou pantalha digital, podia realmente existir. Mas não, não existia.
O processo foi o do chamamento histriónico de quem tem fome e mastiga apetites de saída imediata, e, da seguinte forma «senhores utentes, por ordem, façam o favor de se dirigirem a mim para autenticar as vossas fichas de presença, sem a qual não serão reconhecidas após o almoço. Obrigada.»
Veja, meu fiel, a eficiência da administração central (tão desprestigiantemente chamada de, função pública), sim, que isto não é só dizer mal. Veja, o quanto se desvendou em duas linhas de oratória. Certifique-se, de uma vez por todas que, não é necessário ser-se, como dizer, tonitruante, para que uma pessoa se faça entender. Decomponhamos; raciocine comigo.
Acabaram as indefinições quanto à pessoa. Nunca mais confusões como, contribuintes, obrigados, retribuidores, nem o que mais quiser pensar. Utentes. E a senhora aí da fila dos émes tenha lá mais respeitinho que não é só quem o tem que tem obrigações, está bem?
Quem não o tem que se arranje, que vá trabalhar, porque quando for chamado a ter, será utente como qualquer um de nós!, essa agora… Ou será tenente?
E por ordem, muito bem, não queremos cá autenticar o trinta antes do vinte-e-sete, nem o quarenta depois do quarenta-e-nove; que ao J. ninguém passa à frente!
Autenticar, vê!, quem sabe, sabe; era a palavra que me faltava ao meio da manhã para lhe explicar o que significava a assinatura rubricada no papel acetinado. É que não basta a máquina cuspir um papelinho acetinado com uma letrinha e um numerozinho. Nada! A coisa só é autêntica quando autenticada. Não sei onde residia a sua dúvida. Que era nossa.
E mais, caso não siga escrupulosamente todo o procedimento, que são vários, não haverá lugar a reconhecimento em posterior atendimento após o tal repasto. Disse o alguém.
Para finalizar, porque é importantíssimo, não deixarei de salientar que finalmente, sabemos quem é alguém. Alguém é uma senhora de meia-idade, seja lá o que isso for, com saia abaixo do joelho, casaco de fazenda, meias de nylon lá de cima até uns sapatos azuis a condizer. Por dentro uma blusa algo vaporosa com uma flor de bom gosto presa ao peito esquerdo com reluzente alfinete. Mãos cuidadas e unhas com perfeição de gel alegremente pintadas. Não são feitas referências à cor do cabelo e respectivo penteado uma vez que as senhoras o alteram com mais rapidez que uma mudança de roupa. Eis alguém.
Quanto á obrigatoriedade de almoçar, uma vez que não tem senha para autenticar nem número que o identifique, pode saltá-lo. Obrigada na mesma. Subentendeu-se.
Pare, escute, olhe e aperceba-se da fiabilidade da máquina administrativa e quão árduo é o trabalho de sequenciação da população, mesmo na mais pequena escala duma repartição. Na senda da optimização, que não pode descurar o ínfimo pormenor, uma vez que, hei!, hei!, mas onde é que o sr. vai?! já foi autenticado? Ai não?! De tarde não se queixe que não for atendido, que isto com franqueza, não se pode confiar em ninguém, em tudo a adm. central pensa, em tudo a adm. central tem que pensar, uma vez que o utente; nem tenente.
Apesar de cansado, que sei que está, queria só lembrar-lhe que, nós, sim, nós, ainda não fomos almoçar, e esta, talvez seja a única oportunidade de o fazer, uma vez que alguém já saiu na companhia de todos os outros alguéns, utentes e tenentes também e até o J., que se levantou esbaforido ao saber que só tem noventa minutos para ir a casa, aquecer a sopa e o conduto, comer este e depois aquele e, regressar. Regressar a tempo de nova conferência, que sabe, e nova espera, que adivinha. Por isso até depois, agora sim, do almoço. Eu fico por cá, não vá o diabo tecê-las e a chamada começar mais cedo.
(continua)
sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.
Jota Kafka
(antes do almoço), portanto, de manhã.
A porta dos sustos estava ali mesmo em frente, escancarada, directa para a rua; e dela escoava um rum-rum, era mais um zum-zum, de muita gente que mastigava ondes quandos e porquês.
Embora muitos lessem só o jornal grátis, e em silêncio.
Entrou, procurou indicações, leu letreiros, colantes, avisos e dirigiu-se à máquina das presenças. O aparelho cuspiu um A49 em papel acetinado, seguido de quarenta e nove, e «Ah!» disse ele quando na pantalha mural viu o A15, actual piscante. São dez horas, já foram atendidos quinze, faltam 33. Ora, se numa hora foram 15, vai ser rápido. Dlim-Dlam… «vês!», disse se si para com ele, já chamam o dezasseis…
Apertou o Castelo no sovaco, enrolou o guarda-chuva, procurou assento e exalou um «Aguardemos» resignado.
O corredor de espera, porque não se tratava duma sala, estava apinhado de contribuintes, talvez um cento, quem sabe, não sei, não quero contribuir para o confundir ainda mais, não a ele, a si, meu leitor; nem impor um número para pintar a cena. E apinhada, é uma maneira de falar porque, o entrançado de pessoas era tal que mais parecia um enramado; enfim é o que sói dizer-se quando já não cabe mais uma sardinha na lata, que era o que parecia o ambiente, tal a quantidade de alumínio e aço inoxidável nas paredes. E mesmo contribuintes, meu querido, não sei não, ninguém estava ali com vontade de contribuir com coisinha nenhuma, que isto de impostos, são mesmo o que a palavra quer dizer, uma imposição, portanto, olhe, infligidos?, obrigados?, obrigados também talvez não, pois induz a uma retribuição, olhe!, talvez seja isso mesmo; re,tri,bu,i,do,res. Embora ninguém lhes tenha dado nada para devolução posterior.
Sentou-se, desfolhou, «esta agora, onde tenho os óculos?» ouviu-se. E saiu. Todos o olharam. As conversas não pararam, nem mesmo aquela senhora afónica que contava os motivos da vinda e nunca mais se ia; todos olharam. Deve ser o tédio da espera, quando alguém sai da postura, altera o cromatismo do ambiente e chama a atenção, e daí as pessoas olham, curiosas, olha aquele, agora ficou a espera descomposta, borrou a pintura, estava ali tão bem sentado e, olhe, ó senhor?, que lhes hei-de fazer, irra, cuscos!, vou só ali ao carro buscar os óculos!, as letras são pequeninas! Nada!, estou a brincar consigo, então acha que aquela mole de gente se havia de importar com mais um que abandonava? Ficavam era todos contentes por ser menos um no estorvo. Tudo continuou na mesma com a diferença de ter perdido o lugar sentado, para nunca mais. Pelo menos pensa-se que sim.
Já agora, quero deixar bem esclarecido que, quando o tratei por ‘querido’, não o fiz por excesso de confiança mas sim por amizade à paciência que normalmente manifesta em ler o que lhe conto de viva voz. Aliás, aquela senhora ali ao fundo é que poderia ficar ofendida uma vez que, não gosta que lhe troquem o género. Grato por compreender.
Voltou, conferiu a posição e, «Ah!» interjeitou, «ainda no A16?» Que se teria passado? Que estranho avanço desenvolveria o Dlim-Dlam da máquina, se aquilo não avançava? Foi verificar. Constatou que, como há quinze minutos atrás, a mesa 5 estava com o mesmo casal e a mesma funcionária e, as mesas 1, 2, 3 e 4 permaneciam vazias de funcionários e clientes.
Voltou ao corredor de espera e; não, ninguém olhou desta vez. A senhora afónica continuava na sua voz de flanela eriçada a despejar o gasganete. Procurou a pantalha e, o que viu!, os tempos de espera de Portugal inteiro estavam a ser apresentados em pequenas barras verticais a lembrar termómetros, mas, sem tempos. Não sei se me faço entender. Espreite aqui, está a ver aquele grupo de barras verticais que lembram uma flauta de pan? Ora na pontinha devia estar o tempo que demora o atendimento em Portalegre, em Castelo Branco, em Freixo de Espada à Cinta, e por-aí-fora; mas não, não sabemos quantos minutos (ou horas!) demora atender cada cliente. Não sabemos até, se será hoje!
Procurou um balcão de informações. Aí sim, toda a gente olhou outra vez. Reolharam pronto, que isto é mesmo assim, quando uma pessoa começa a buliçar numa fila de atendimento, não há quem resista a botar os olhinhos.
Nos entretantos, lá do fundo, ora veja, lá do fundo, vem um senhor simpático, o sr. Aníbal Alfaiate, muito prazer, que, na tentativa de ajudar, diz ao nosso Jota que não se pode fazer contas às médias aritméticas do tempo despendido por cada cliente a ser atendido porque há casos mais demorados que outros, outros mais complicados ainda, o que demora ainda mais tempo, e, por isso, temos de ter paciência. De ter não; que ter!
«Muito obrigado», sibilou o nosso Jota. «É que sou novo nestas coisas», resibilou. «O sr. é que como alfaiate deve estar habituado a atender muita gente e com medidas diferentes, mas eu…». Ao que o sr. Aníbal respondeu, «eu sou mecânico de automóveis e sou a seguir para pagar a décima; felicidades, que lhe corra tudo bem.»
Está bom de ver que aquele companheiro de espera veio exasperar bastante o nosso herói. Pois se a coisa nem andava nem desandava, como poderia correr? E que nem bem nem mal, mas enfim. «Assim, como assim, já que tenho a manhã perdida vou ler a informação importante espalhada pelas paredes até ser atendido.» disse o nosso herói.
Sei que já reparou que tenho tratado o público em geral por clientes (sem ofensa) e o nosso Jota por herói. Porque é disso que se trata, dum herói!
Quanto a Jota, que abreviarei para Jponto, é o nome de baptismo, sendo o Kafka de família, pela parte das circunstâncias e narrativas bizarras, e, como todos nós, J., é “um homem e a sua circunstância”, e nisto, talvez se salvem as mulheres e crianças.
Saberá o amável leitor que tudo tem limites e, quando J. viu agrafado na parede um nota informativa em papel A4 dizendo que quem tivesse papeis acetinados ‘E’ podia não ser atendido no mesmo dia da chegada, caiu de joelhos. Calma… calma… é metafórico; até porque J. tinha papel acetinado ‘A’. Já não se lembrava? Pois é, mas agora imagine que ia, como qualquer Português que se preze, pagar a sua colecta, mesmo que fosse derrama, no último dia do prazo hã?, que fazia hã?, claro que também caía de joelhos ao ler semelhante.
No caso de J. o caso é mais simples mas, mais insólito. Insólito talvez não seja bem a palavra uma vez que o que lhe contarei acontece frequentemente, no entanto, não deixa de ser estranho. J. estava preso. Sabia que não ia mais ser atendido durante a manhã, nem tinha a certeza de ser atendido de tarde, só que, e este só é para não nos alongarmos, estava escrito noutra folha A4 que os ‘A’ teriam de aguardar até às doze e trinta, para que um funcionário viesse validar o número em sorte para que pudesse ser reconhecido de tarde, às catorze horas. E como, tanto podia ser um funcionário como podia ser uma funcionária, vou deixar aqui escrito, sem medo a criticas que seria, alguém.
De maneira que, embora tenhamos já falado muito e acontecido outro tanto, são ainda, e só, dez horas e trinta minutos, e, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, o número da pantalha mantém-se firme há meia hora no ‘A16’ e, nem o pai morre nem a gente almoça.
«Mas porque carga de água não posso sair para almoçar agora, e voltar de tarde?»
«Já agora, como tenho tempo, vou lá fora ver o tempo. Há bocado não chovia.»
Nem preciso de lhe dizer que as anteriores duas (2) afirmações são no nosso J., sendo que uma é uma interrogação e a restante uma afirmação com uma dúvida no fim.
Agora nós, eu para vós.
E, uma vez que este fandango vai demorar, e nós não queremos fazer sofrer o alheio (o J. também concordará) vá, se faz o favor, almoçar que cá nos encontraremos no pós-repasto.
Bom apetite!
E, esqueça agora o sub-título, que não há nada como uma barriguinha cheia para resolver
esses imbróglios.
(continua)
sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.
O Valor das ‘Não Coisas’
Hoje as pessoas não têm tempo para nada. Nem para conversar.
Se não é o trânsito…
O amigo que vendia férias
O Agostinho foi o maior felizardo que conheci; tive até inveja dele. Sabe porquê? É que o Agostinho, que não vejo faz tempo – Olá Agostinho!; vendia férias. Ólarilas!… o Agostinho tinha tempo livre para vender, e mais, era um tempo que se desmultiplicava ao ponto de poder ser sempre dividido! Olé!…
Veja o que as pessoas conseguem para ganhar a vida.
A empresa dele chamava-se, veja só, “Não Faça Nada – Time-Sharing, Lda.”
O “não faça nada” está-se mesmo a ver, eram as férias, o “time-sharing” era a tal desmultiplicação da coisa (ou multiplicação… dependendo do “ponto de fuga”) e; a cereja no bolo era o “lda.”; porque, ele, de limitado não tinha nada. Vendia tempo livre desmultiplicado a toda a gente e toda a gente lho comprava. Havia tempo para todos! Ai ninas!…
Há qualquer coisa no “fare niente” muito “dolce” para que toda a gente o queira, não é?
Olha!… já anda a bicha… talvez ainda cheguemos a tempo.
(eh eh eh!; cá em cima chamamos bichas às filas… você sabia?)
Hortas de carros
Quando era catraio (sim!, já fui catraio também…) ouvia os velhotes dizerem que um bocadito de terreno, era a fartura das famílias. Qualquer bocadito de chão dava para plantar couves e novidades e ainda se arranjava um cantito para o esgravatar da criação.
Agora, olhe ali!… vê?, num retalho entre muros medra uma plantação de carros em segunda mão, brilhantes como em primeira.
Em cada esquina, em vez de couves, nabiças, alhos, feijão verde, etc., galinhas, patos, perus, coelhos e afins, temos; carros em segunda mão a brilharem de novos.
Porque será que as pessoas se desfazem assim dos haveres, ainda tão novos? Já pensou?
Vá lá… já seguimos de novo. Até estou a gostar do viscoso do trânsito; dá para a cavaqueira, que já tinha saudades.
As lojas do “compro ouro”
Ali no último cruzamento, você não reparou; estava uma loja da moda. Se olhar para trás ainda vê… vê?, isso mesmo!
Toda a gente dizia mal dos chineses (cala-te boca, que nos cortam a luz…) que estavam em todo o lado, em qualquer esquina; enfim… Agora são as lojas do ouro. Que se compra ouro cobrindo qualquer oferta. É forte hã… cobrindo qualquer oferta!
A aflição das pessoas… Levam ali os anéis para ficarem com os dedos é o que é.
Nunca vi tantas lojas destas; deve ser muita a desgraça e precisão.
Já viu bem que se abrem lojas e vendem franchisingues alimentados a desgraça?
Montemos o negócio
– Diga? Não; estava aqui a pensar, não era propriamente a falar consigo agora, mas mais com os meus botões.
Pode ouvir… pode até; olhe… pode até ser meu sócio caso queira e tenha tempo.
O negócio é o seguinte; uma loja de tempo. Isso mesmo!, comercialização e distribuição de tempo. Vai chamar-se Tempo & Bom Senso, SA.
Porquê bom senso? Ó criatura! Porque já não há nem se fabrica.
Ponha lá uma moedinha no parcómetro que isso ainda é um negócio onde nos havemos de meter; vender espaço consoante o tempo!
À Vossa atenção:
Este texto foi publicado a 11 de Jan. de 2012 na página “Ao Leme – Grupo Aberto”, no n/vosso conhecido facebook.
Ao tempo floriam como cogumelos as “lojas ouro”, onde já tinham sido bancos, onde já tinham sido cafés, onde agora se instalam “lojas do cigarro electrónico”, onde amanhã, espero, estejam cafés novamente.
E digo, novamente, não, outra vez. Porque espero que nos tragam, outra vez, algo de novo.
Grato por lerem. Convido a um cimbalino, ali, na habitual mesa da montra, onde passa a vida.
Obrigadinho.
sobre a figura: Apanhada no trânsito da WEB, sem paternidade registada.
As Europeias
Agora que já lá vai mais de uma semana e que o PS está em polvorosa, para gaudio do PSD e do CDS – que se fossem inteligentes apanhavam a boleia do chumbo do Tribunal Constitucional e demitiam-se, provocando eleições antecipadas e deixando o PS num caos – acho que é tempo para se fazer uma análise, ainda que breve, dos resultados da Eleições Europeias.
Estas eleições apresentam, essencialmente, um sinal dominante: a Europa caminha, a passos largos, para a sua própria implosão.
Hoje em dia, ultrapassadas as duas dezenas de milhões de pobres no espaço europeu, o ideal original da União Europeia está deitado por terra: uma sociedade solidária, desenvolvida, geradora de riqueza e bem-estar parece, cada vez, mais afastada. Na verdade isso não é completamente de estranhar. O ideário da construção da União Europeia – ainda quando Comunidade Económica Europeia – era um ideário de raiz democrata-cristã e social-democrata. A evolução dos últimos vinte e cinco anos – essencialmente depois do fim do bloco comunista – apontou para um ideário neo-liberal. E essa diferença é toda. Na verdade, a Europa abdicou das pessoas para apostar nos grupos económicos dominantes do sistema internacional sem compreender que sem pessoas não existe, de facto, progresso. E sem compreender que uma democracia em que as pessoas se sentem afastadas tende, a prazo, para o autoritarismo. A história mostra-nos isto vezes sem conta: nenhum sistema consegue sobreviver contra as pessoas.
Se recuarmos uns anos – eventualmente bastantes – percebemos isso perfeitamente. A Revolução Francesa de 1789 foi o resultado do ultrapassar de todos os limites que a sociedade da época permitia. A vida miserável de milhões de pessoas em França, que conviviam com um número mínimo de gente rica, lançaram as bases da República moderna e da Democracia. No entanto, a falha do novo regime em satisfazer as necessidades do Povo levou aos excessos ditatoriais que se seguiram à revolução e que se perpetuaram até Napoleão III.
A Liberal Inglaterra, democracia onde apenas uns quantos votavam e onde uma parcela larga da população vivia na mais abjecta miséria, teve que se reformar mais ou menos à força.
Os Estados Unidos, hoje a pátria do neo-liberalismo, foi em tempos a pátria da jornada das 8h, depois de uma luta dura com os operários.
Na Europa Continental as reformas, infelizmente, passaram sempre pelo recurso à força. E a incapacidade em compreender, aceitar e tentar realizar os anseios do povo levaram, por regra, às ditaduras e à guerra. A Alemanha do primeiro terço do Séc. XX é um claro exemplo disso. Como o é a corrupta Itália democrática que deu origem ao messianismo de Mussolini com as consequências que todos sabemos que teve.
Olhando para a história e para a Europa de hoje só podemos concluír pela ignorância boçal dos dirigentes europeus. Aqueles que falam sistemáticamente dos mercados sem nunca referir que os Mercados não passam de pessoas, como todos nós, que se distinguem pelas quantidades ofensivas de dinheiro que controlam e que se acham no direito de tornar reféns Estados e comunidades inteiras apenas para fazerem mais e mais dinheiro.
As eleições europeias mostraram que uma grande parte da população da Europa está tão desiludida com o projecto europeu que já nem se dá ao trabalho de votar. E que os que se dão ao trabalho de votar vão para as franjas à procura de uma salvação que não percebem não existirá aí. Isto porque as franjas, a prazo, se transformam no pior: no apagar da liberdade e das escolhas, no fechar das comunidades aos outros, na regressão económica porque o proteccionismo tem sempre como resultado o proteccionismo dos outros, tornando o mundo uma coisa menor.
E pergunto-me: o acontecerá a Portugal se o sonho europeu morrer? O que nos acontecerá se perdermos esse mercado grande que absorve a maior parte do que produzimos?
O fim da Europa de hoje significará, para nós, não apenas o incómodo de ter que voltar a andar com um passaporte no bolso e cambiarmos a nossa moeda por outra qualquer. O fim da Europa significa para nós o afundar de uma economia que não tem dimensão nem valor. Não tenhamos ilusões: numa Europa de novo com fronteiras não poderemos competir com os outros nas tecnologias porque os outros terão as deles e não deixarão entrar as nossas. Não poderemos competir com os outros na inovação porque eles terão a deles e não deixarão entrar a nossa. Não poderemos competir em quase nada porque as fronteiras deles nos estarão fechadas. Regressaremos ao país sem recursos e de solos pobres onde apenas prosperam o vinho e o azeite. Voltaremos, em grande parte, ao Portugal do Séc. XIX.
Era sobre isto que convinha pensarmos, em vez de andarmos por aí a assobiar para o lado fazendo de conta que a História não está a acontecer.
VOLTA-FACE! STOP.
Cedário
Escreveu aquilo com um calor de segredo.
Como nos mercados, nunca saberemos se a precedência se passou com a oferta se com a procura; o certo é que o mancebo se deitava com o cabrão e se levantava com a cabra, ocupando o quarto de hora académico com as poucas orações que sabia e o puxar de orelhas à cama rebuliçada desde que o badalo repicara a derradeira.
Era olhado como um valdevinos na Academia, visto até como femeeiro! Veja o que são as más línguas.
O facto de emparelhar com aquele velho sargento-mor conhecedor da vida real, de amiudar nas melhores casas da Rua Direita, ligeira tergiversação do curso a que o propuseram, e de ter horários inconsonantes com os restantes, tinha-lhe até melhorado o vocabulário, do serrano para o universitário como se leu finalmente em ‘B’. Conhecem-se hoje até, e pretende-se demonstrativo da aplicação do académico ao falar Coimbrão, algumas propostas à inclusão na Gíria dos Estudantes, de expressões vertidas no calor dum momento, numa refrega dialética ou outro raciocínio metódico, sendo importante referir para o bom andamento do que aqui se leva em conta que, muito do que foi dito, o foi também graças à companhia do Alfredo, desde a Pampilhosa, e à abertura de espírito que davam os tintos servidos para amparo do coração quando ouvido um fado mais apelativo do sentimento. É também inegável, e por isso se confessa, que muito do que aprendeu o deve a reputadas presenças femininas de arejados pensamentos e fazeres, que alternavam entre a costura e os trabalhos domésticos.
Ora adeus!… e o resto são maldades…
Mas regressemos a Chaves e aos preparativos da quadra que se avizinha, que de ruindades está o Mundo cheio e o que nós precisamos é de paz e harmonia. É ou não é?
Os cuidados da Maria do Amparo, já se podiam sentir nos arranjos da casa. Enquanto a Senhora Dona Maria do Carmo bordava uma toalha de consoada carregada de azevinhos, prendinhas, laçarotes e meninos Jesus, ela arejava o quarto do estudante, trocava as naftalinas, escovava colarinhos, mudava cortinados, encerava o soalho e esperava ansiosamente que o seu menino, porque também o era, regressasse de tão longe para o aconchego do lar «o meu Bastiãozinho, quase doutor, vejam lá», lacrimejava a Maria do Amparo ao limpar o pó do “passepartout” de prata que lhe tinha oferecido pela comunhão solene.
O capitão, esse, bufava aos quatro ventos a impaciência da espera por um telegrama urgente «estes serviços públicos!…» precedente de Coimbra com destino ao Posto dos Correios de Chaves remetido por Sebastião Júnior para Sua Excelência Sr. Capitão Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção.
Mandava balanço! Um filho assim, quase doutor a tratar o pai com aquela pompa… assim sim, valia a pena a despesa da alta mesada, os cuidados num reforçozinho quinzenal, sim, que um homem tem as suas necessidades… e outros mimos a que não se furtava de enviar ao cuidado do Malaquias, agora sargento-mor no Aquartelamento de Sant’ana. Um camarada!
Chegada a missiva «finalmente, pôxa!…», sentou-se nos bancos fronteiriços ao posto e «ora vamos lá ver… deve ser o dia e hora da chegada», desembainhando a unha mindinha para abrir o sobrescrito, ó Sr. Capitão!, então! foi derrubado com uma frase, que o tombou redondo para cima duma senhora sentada ao seu lado que soltou um gritinho de aflição ao ver esbardalhada a corpulência castrense do Sr. Capitão. Ai Jesus!; disse. Perdeu os sentidos; viu-se.
Imediatamente se chamaram uns recoveiros que, como era perto, o pegaram em charola e processionalmente o levaram ao repouso do quarto. Que maçada; o senhor doutor já vai a caminho.
A Sra. Dona Maria do Carmo atarantada com o acontecimento segurando numa mão o copo com água açucarada e na outra um papelito orientava a Maria do Amparo que submetia aos lombos do Sr. Capitão uma almofadinha bem pensada «por môr de lhe amparar as cruzes, Sr. Capitão».
Quando o oficial veio a si, pediu recato e disse à esposa que «não se faz!, tantos cuidados desde catraio, a melhor escola, os melhores cortes no alfaiate, Coimbra… para agora, valha-me Deus, para agora me faltar ao respeito com uma só frase… não se faz…» fizesse a fineza de ler o desaforo e falta de respeito no imperativo duma frase que lhe mandava seu filho.
Dona Maria do Carmo numa solidão materna que só as progenitoras têm e só elas entendem, leu pausadamente, e sentou-se; tirou da manga o lencinho bordado onde fungou, e «coitadinho do meu menino, sempre tão precisado, quanta ternura e respeito em escrever em maiúsculas o nome do Capitão. Até no endereço, quanta consideração. Que lhe terá acontecido para estar tão desprevenido, coitadinho. Uma frase que não é um pedido mas sim, um lamento de desespero de alguém que se antevê na penúria. Ai faz-me tanta pena…»; erguendo-se a custo, requereu:
– Então quando lhe vai valer nesta aflição Sr. Capitão?
Na credência, jazia envergonhado um telegrama amarrotado, onde espreitava uma singela frase, três palavrinhas apenas, o mais que a aflição pôde gastar numa mensagem:
PAI! Mande-me dinheiro. STOP
FIN(almente)
Da figura: de Celestino Alves André (zona do Arco da Almedina – entrada do “Quebra Costas”) evocativa do fado [ou canção] de Coimbra. Tributo da J. de Freg. de Almedina à cidade de Coimbra. Inaugurada no dia 18 de Julho de 2013. As foto(s), que agradeço, são de Pedro Coimbra, subtraída(s) do http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/
Nota: A apreciada guitarra não pertence aos acontecimentos nem à sua data; que se desconhece.
Europeias 2014
Que celebração, que vitória! A maior força politica nacional, a abstenção, mostrou a sua raça. Esmagadora. Não se trata de rejeição, nem preguiça. É pior. É convicção! Cada um olha pelo seu umbigo e salve-se quem poder. Não é bonito, mas é verdade. Não escolhem mas elegem. Serão 21 deputados. Um deles foi eleito com menos de 240.000 votos. Quem é ele? Um empreendedor, está bom de ver: Qual Manuel Sérgio dos dias de hoje, fez aquilo que ninguém faz, observou os números. Compreendeu algo muito simples: Se a maioria não vota, cada voto vale o triplo. Nem necessitou de grande orçamento para campanha. Mal de nós se em vez de representar quem o elegeu, optar como os demais, por se representar a si próprio.

Os verdadeiros resultados da europeias 2014
Fonte: http://www.europeias2014.mai.gov.pt/
Os “vencedores” de ontem obtiveram o voto de 10% dos inscritos, e os “derrotados mas pouco”, 9%. Fascinante não é? Os partidos do regime, representarão um quinto dos eleitores (20%). Claro que juntos elegeram mais de metade dos deputados ao parlamento Europeu. Não é bom? É óptimo… Talvez seja o início do fim da hipocrisia, da diferença fingida, da alternância sem mudança. Os apelos de sua excelência, el Rey de Boliqueime serão finalmente ouvidos. Pacto de regime, união entre todos, pois de outra forma não existirão maiorias absolutas nas próximas legislativas. Clarificador. Eu por mim, mantenho o apelo à “dictadura”.
O que dizer das mais de 250.000 pessoas que se deslocaram às respectivas assembleias de voto para anularem o dito, ou o entregarem em branco? Agradeço o seu gesto, simbólico mas pleno de significado. Foram lá. Graças à lei eleitoral, também eles engrossaram as fileiras da força oculta, dessa vontade não expressa que é a abstenção, imponente que sem ambiguidade disse: está tudo bem, façam como entenderem. Eles agradecem. Assim farão.
Adeus Troika! Olá Mercados! Olá Eleições!
Já é oficial: A Troika foi-se embora! O programa chegou ao final e o Governo optou por não querer um programa cautelar. Ou seja, a Troika foi-se, pelo menos oficialmente, embora! Vamos lá ver quem é que aterra amanhã na Portela depois da noite de hoje…
Devemos muito à Troika! Graças a ela o Sócrates foi-se embora e nós pudemos matar saudades de ver o Portas outra vez ministro: qual peru engalanado rumo ao seu sempre sonhado Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas mais, o Paulinho das Feiras, pôde inaugurar o novo cargo da República, Vice-Primeiro Ministro. E com ele todos nós vibrámos, por termos mais de menos, que dará sempre mais. Ao lado do famoso líder da JSD, Pedro Passos Coelho, formaram uma dupla que ficará nos anais da história.
Graças a estes senhores, aprendemos muito sobre nós. Impossibilitados de reflectirmos sobre nós próprios e o nosso passado recente, Passos Coelho fê-lo por nós, fez-nos ver a nossa real dimensão: país pobre, corrupto, improdutivo, com vícios insuportáveis de pagar, com direitos impensáveis, com um Estado Social que não poderíamos nem merecíamos ter. Famílias endividadas souberam que não se podiam ter endividado e que teriam que pagar não só as suas dívidas (o luxo de se comprar casa e ter um carro… como se almejassem ter um nível de vida comparável aos dos restantes cidadãos europeus) como as dívidas que elas não contraíram.
Os trabalhadores viram com os seus salários diminuídos porque não eram produtivos o suficiente, e por isso passaram a trabalhar feriados e a ganhar menos pelas horas extras, em contrapartida pagariam mais IRS, para não acusarem o governo de diminuir tudo (e para não falar nos outros direitos laborais completamente varridos por este governo em sede de desconcertação social). É que os rácios do trabalho sobre o capital teriam de se aproximar dos níveis da Alemanha (o famoso modelo alemão, que anda aí fazer correr tinta em papers académicos e jornais da especialidade), todavia ninguém se lembrou que os nossos níveis de capital são muito inferiores e o nosso modelo produtivo também, logo a nossa capacidade de acumulação de capital também o é. Todavia eis que o custo marginal do trabalho (e aqui já se lembraram da nossa estrutura económica) não se deveria aproximar à Alemanha, mas antes aos países com os quais competimos a nível internacional: o sudoeste asiático.
Desempregados dependentes da segurança social ficaram também a saber que afinal não tinham direito aos apoios para os quais descontaram, que é para não termos dúvidas: a Segurança Social não é a Santa Casa da Misericórdia. E para terem direito ao subsídio para o qual descontaram passaram a ter que fazer apresentações periódicas e frequentarem cursos de formação, durante os quais deixam de fazer parte da taxa de desemprego, contribuindo assim para o melhoramento das estatísticas nacionais.
Os jovens desempregados também levam da Troika uma lição de vida: se estão desempregados é porque não são empreendedores. Neste país, os jovens ou emigram ou criam empresas, que este país não investiu tanto na educação para agora os jovens estarem em casa no facebook (já diz a Isabelucha Jonet e com toda a razão).
Ficámos também a saber que somos responsáveis também pelo endividamento dos bancos portugueses. Os mesmos emprestaram dinheiro a famílias pouco conscienciosas (não se fala no endividamento das empresas nem da cultura empresarial deste país, porque isso fica-lhes mal…então coitadinhas, criam postos de trabalho…os créditos são para pagar os chorudos salários de trabalhadores mandriões). Por isso, nada mais justo do que usar o dinheiro do resgate do FMI para injectar nos bancos, afinal o dinheiro é de um Fundo Monetário Internacional…Nada mais apropriado. Afinal a dívida dos bancos não pertence aos bancos, mas a todos nós!
Mas aprendemos mais: aprendemos que os direitos não são direitos, mas regalias. Que afinal o trabalho não é um direito, mas um privilégio. Que isso do direito à saúde, educação, habitação, segurança social são lirismos próprios de um povo saudosista… Só faltava cantarmos todos “a paz o pão habitação, saúde, educação”… paroles paroles.
Mas mais, e esta é uma lição a ter em conta: O Estado não é para ter empresas. Por isso, e para corrigir esses desequilíbrios antigos, privatizou-se a EDP (vendeu-se ao Partido Comunista Chinês….e não, não foi o PCP, foi o PSD) e aumentou-se as PPP na saúde. Chegou-se à conclusão que afinal as PPP’s não são um saco sem fundo para o qual escorre o dinheiro do Estado, mas alternativas à gestão pública que se revelou danosa.
E com tudo isto, e passado este período de intervenção externa, de ocupação estrangeira, voltámos aos mercados para nos refinanciarmos para podermos pagar a nossa dívida e…os juros voltaram a subir!
Mas mais do que juros, mais do que mercados, mais do que dívida… a suposta saída limpa deve-se ao grandioso dia de hoje: as eleições europeias! Como todos sabemos, as agendas políticas e os interesses partidários não podem ser ameaçados. Apesar de todos sabermos que o PSD chumbou o PEC4 do Sócrates porque os portugueses não aguentavam mais austeridade, num oportunismo muito politiqueiro, também agora o PSD bateu o pé e quis uma saída limpa, sem Troikas, sem cautelares, sem manchas para o seu partido, e levando para a campanha eleitoral a vitória da expulsão da Troika que eles mesmos obrigaram a chamar. Nesta semana, e em plena campanha eleitoral, eu fiquei muito descansada pelo conhecimento e pela verdade expressas pelos candidatos do PS e da Aliança Portugal à cerca do que é para cada um deles a crise do país. Para o PS e para Francisco Assis, a crise começou com o chumbo do PEC4 pelo PSD, ou seja, para o PS tudo reside na queda do Sócrates, cujas políticas estavam a fazer Portugal prosperar. Para o PSD o que nos levou à crise foram as “políticas socialistas” do PS. Ou seja, para Paulo Rangel, privatizações, reformas profundas nas leis laborais, desregulações económicas etc são políticas socialistas. Por um lado, Francisco Assis com uma memória que não vai além dos 3 anos, e o Paulo Rangel sem saber o que é o socialismo, e que o socialismo no PS terminou no dia em que o Mário Soares o decidiu colocar definitivamente na gaveta.
Terminado o período eleitoral cujo resultado hoje se saberá, e terminada mais uma campanha eleitoral europeia onde se fala de tudo mas muito pouco da incomoda Europa, saberemos finalmente que tipo de saída limpa efectivamente temos. Uma coisa é certa, o vencedor destas eleições será, em toda a Europa, a abstenção… Sendo a prova de que uma Europa construída nas costas dos cidadãos tem como resposta em eleições, as costas dos mesmos.
VOLTA-FACE! STOP.
B
(continuando-A)
O hábito que faz o monge, é um costume asseado.
Ao Sebastião(zinho) Júnior, acabados os estudos com assiduidade no Liceu Nacional de Chaves e pintando-se-lhe já o buço, fora dada a rara oportunidade de estudar em Coimbra; essa Lusa-Atenas onde tantos moços cursaram e donde tantos ilustres saíram enobrecendo Portugal. Frequentaria direito, sabida matéria que patrocina as rectidões necessárias ao Mundo conhecido, e tão privadas ao Mundo sentido.
Percebeu-se um bruaá… pelos lugares circundantes, não que duvidassem das capacidades financeiras do casal, nada disso!, e fora um bruaá… recatado, mas Coimbra… para onde era tão raro ir um conterrâneo, mesmo fidalgo. Tinham portanto razão para que se abrissem as bocas, mormente as mais desdentadas e titilassem as línguas. Era acontecimento para foguetório.
Que não, que era muito longe, muitas horas de caminho, que não aguentaria o latim, não tinha saúde, que queria fazer versos, que…
– Sebas-tião! Que… coisa nenhuma! Está decidido! Filho meu será doutor ou honrará as linhagens da família com uma carreira de armas. Passa pelo Albino a quem já lhe encomendei um traje nas melhores fazendas e te espera para tirar as medidas.
– Mas ó meu pai…
O capitão, lançando-lhe um dedo cominatório, comandou:
– Bastião! Sentido! Ou capa e batina, ou rancho e caserna!
– Pronto meu pai, se vossemecê assim quer… está bem, vou-me a Coimbra…
– Assim é que é Bastião! Descan-sar!…
Dona Maria do Carmo, presa a uma vida de compromissos e rendas, tremia de inquietude e já saudade. Era ao seu filho único, ao seu menino, que traçavam ali o destino e ao vê-lo assim, tão aflito e sem poder opinar, também chorou; chorou e tentou uma intercedência:
– Meu esposo, não leve a mal mas, se o Bastiãozinho não quer ir quem sabe…
– Senhora Dona Maria do Carmo; já fiz as minhas démarches. O futuro do mancebo está decidido.
Ficou-se então a Senhora Dona Maria do Carmo, humedecendo um lenço do enxoval sem sonhar que o capitão, homem avisado em deambulações de tropas e entendendo a mocidade ociosa, pedira já a um seu camarada de caserna que o apresentasse aos rapazes grados de Coimbra por forma a desvia-lo da tentação das tabernas e das sopeiras, fontes sabidas de complicações.
Assim o manda a mais antiga usança em se encontrando amigo a quem não se tolheram os cios nem, no caso, os bolores da caserna adulteraram o conhecimento das ruas circundantes. E a mãe que não se apoquentasse, pois o seu menino não assentaria praça em nenhuma república, abrenúncio!, esse regime de vícios e pouca-vergonha em que os rapazolas se faziam homens e logo regrediam, não! Estava já falado para pensão da Ermelinda, mulher de reputação e asseio conhecidos.
Idas as despedidas, os soluços da partida e passada a Pampilhosa, o estômago borboletava-lhe agora com uma saudade intensa, uma inquietação ignorada que o levava quase ao vómito «é este bambolear cadenciado que me tonteia», dizia à sacola da merenda enquanto rebuscava uns bolinhos de bacalhau que a Maria do Amparo lhe aprimorara para vencer o caminho.
A viagem, em vez de lhe alargar os horizontes não, fechava-lhe o futuro ao irredutível.
Um suspiro mais sonoro, e o cheiro das frituras, alertaram os sentidos dum camarada risonho, sabe-se hoje que do Porto, levando-o às falas e a uma espreitadela ao bornal. Fez-se amizade, repartiu-se o farnel, trocaram-se informações e; ficou Sebastiãozinho a saber que tinha ao seu lado um vizinho de quarto na Pensão e que, precisando de ajuda e explicações estaria ali ao dispor «com três anos de primeiro semestre sei as matérias de fio a pavio, meu menino…».
O conforto da companhia e o esvaziar da sacola aceleraram a viagem e fizerem voar as preocupações a tal ponto que, quando deu por si estava já no quarto, derreado pela subida exterior e interior para o quinto andar do nº_ _ das Escadas do Quebra- Costas. Pousou a mala e sentou-se olhando os telhados que desciam, até se deixar dormir.
Alfredo bateu à porta com energia no momento em que a Ermelinda chamava para o jantar. Conhecido da casa, o Portuense fazia de cicerone apontando as portas dos cómodos e segredando incontáveis que por pudor e recato não se revelam.
A sala de jantar sendo modesta, era familiar «então boas noites…» e o colega prometeu um amanhã cansativo que passaria num salto.
Obliteram-se ao sucedido dois meses de calendário, contados corridos em dias úteis e inúteis, e não serão enumerados os ah!s… caramba!s… céu!s… uis!… puxas!… shh!s…, alto lá!s… arre!s… e irra!s… Senhor me perdoe!s e outras interjeições e locuções que se foram proferindo por essa Coimbra fora e n’algumas passagens por cadeiras leccionadas. Pede-se compreensão, pela abstinência em comentários detalhados que é, em prol do bom nome de presentes e familiares, vivos ou memórias. Respeite-se a Academia e poupe-se o leitor (V.a Exa.); que estão de paciência esgotada.
E o desabotoado não era ostentação! mas sim falta jeito para pregar botões, ora essa!…
Há dois meses tropeçado na Lex Duodecim Tabularum e jamais visto à Porta Férrea, arguiram-lhe uma inadimplência e chamam-no de contumaz, coisa que o pasmou por pouco saber em latins. O apodo dera-lho um lente, que o ameaçara, mos maiorum, com a expulsão da Academia. Credo!…
Tudo na vida é um equivoco, um mal entendido; e este, era da cor do traje. Que apresentar como alegação?
Sem resposta para os telegramas hebdominários do pai, nem notas para apresentar, restavam-lhe as moedas para um pedido.
Mais a acrescentar? Sim, aproximava-se o Natal. Esse era o busílis in diebus illis.
Continua para “Cedário” e, Fim.
(da figura: In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829)
Pensar em grande, votar em pequenos
Aqui há dois dias fui surpreendido pela compreensão choque de que as eleições europeias são já este Domingo! Uma campanha que não se sente na rua, que não tem expressão nos media, praticamente inexistente. Claro que o ciclo se renova e agora o PS pede um castigo dos partidos no poder, coisa que as sondagens prevêm acontecer qb. Tal como muitos não tenho ainda firmado onde recairá o meu voto e chego a recorrer à bruxa para encontrar o caminho.
Um lugar no parlamento europeu, para além da suposta representatividade dos interesses de Portugal, representa uma vida cómoda do ponto de vista financeiro. Em adenda quando se dê a saída do parlamento europeu existe um subsídio de apoio à reintegração na vida activa ao estilo de subsídio de desemprego igualmente chorudo. Tal como no parlamento português existe uma panóplia de famílias políticas com a união de esquerdas, união de centristas, união de direitas, etc. E tal como nele existe uma tendencial flutuação entre uma maior representatividade do centro-esquerda e uma maior representatividade do centro-direita, existindo depois outras facções mais marginais.
Pus-me a matutar em acções de ‘terrorismo’ eleitoral que pudessem dar uma pedrada no charco e vim parar ao facto da abstenção nas eleições europeias (>60%) ser bem mais alta do que a abstenção nas eleições nacionais (>40%). O que só beneficia os candidatos dos maiores partidos pois a proporção de votos dos seus fiéis e crentes eleitores aumenta em muito o seu peso face ao diminuído universo de votantes.
Contudo estes 20% de diferencial na abstenção dão-me esperança para a possibilidade de usar estas eleições como real arma política. Se apenas estes 20% decidirem votar podem ter grande influência na configuração da representação portuguesa!
Compreendo que nas eleições nacionais exista um maior receio de delegar o voto, que não se quer dar aos ‘grandes’ do costume, num pequeno partido. O refúgio acaba por ser um voto nulo, em branco ou mesmo a abstenção. Acabando mais uma vez por só fortalecer o peso dos chamados ‘grandes’.
Para evitar essa rasteira auto-infligida, faço aqui uma proposta criativa para a tentativa de geração de uma onda de manifestação de insatisfação para com os aparelhos partidários responsáveis pela nossa situação: o voto válido num pequeno partido!
E de que forma votar num pequeno partido nestas eleições europeias pode ajudar a mudar algo? Provavelmente não mudará nada no imediato mas serviria de um grande sinal de alerta e sobretudo de meio de preparação de melhores políticos. Se a predominância dos votos nas europeias fosse distribuída pelos pequenos partidos estaríamos a:
- Levar para o parlamento europeu ideias e argumentos alternativos aliados à tenacidade destes novos agentes do nosso tecido político. Mostraríamos assim que nós, Portugueses, estamos saturados de ser manipulados pelos amigos ?do alheio? do costume, estando a atingir o ponto de ruptura para com o status quo instalado sem receio do desconhecido;
- Dar aos políticos emergentes, com menos holofotes e presença em palco, uma experiência internacional permitindo-lhes contacto com formas de trabalho e correntes de pensamento díspares para que retornem mais fortes e mais capazes;
- Permitir aos pequenos peixes nutrir-se do fitoplâncton europeu passando a um regime de dieta os actuais tubarões e baleias do nosso panorama político. Por outras palavras os deputados europeus destes pequenos partidos poderão amealhar uma quantia simpática que podem colocar ao serviço dos seus partidos para maior financiamento autónomo de campanhas em futuras eleições nacionais;
- Assustar realmente os partidos nacionais tradicionalmente mais votados com esta demonstração de desbloqueio mental no acto do voto, criando assim um cenário imprevísivel para o resultado das próximas eleições para a Assembleia da República;
O mais importante seria ganhar a coragem de votar num pequeno partido sem provas dadas, com ideias inovadoras e fracturantes, com o qual apenas simpatizamos mas ainda não confiamos plenamente. Chamem-lhe um salto de fé ou um benefício da dúvida. Durante um ano poderíamos avaliar o seu desempenho no Parlamento Europeu e a sua evolução. Mesmo que não tenhamos a coragem de lhes atribuir voto nas eleições em 2015 teríamos mais 3 anos de levedação e a partir de 2018 saberíamos se valeu ou não a pena o investimento.
Corro o risco de estar a pensar demais, isto seria uma coisa em grande, sendo o meu único consolo o facto de apesar de tudo ainda ter a capacidade de sonhar. E vocês?
> Saber mais sobre 5 Pequenos Partidos a Considerar nestas Eleições <






