Engraxador de Xi

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Sempre que alguém importante visita a ilha Terceira, o mundo muda. O arquipélago dos Açores é palco de grandes e decisivos instantes. Mercados, ultimatos, mentiras e guerra.

Servir é uma arte, tem o seu mérito. Merece reconhecimento e remuneração à altura. Engraxar não é por certo execpção. Quem não se lembra daquela tarde de 16 de Março de 2003? Curiosidade: Apenas o anfitrião se mantêm no activo. Todos os outros já estão na reforma. Enfim, haja quem possa.

Desta feita a cimeira foi singela. Vindo do Chile, Xi não trazia nitratos, nem viajou num Flying P-Liner. Para o receber, Graxa e tapete vermelho.

Chegou, visitou, conversou e poucas horas depois, partiu. Deixou licenças de navegação a mais de 30 Caravelas Portuguesas. Aparentemente, e desta feita, o mundo não mudou muito. Os sapatos de Xi brilhavam tanto como a testa do engraxador.

Xi Jinping visita a ilha Terceira

Isolofobia: Orgulhosamente juntos

How to Be DifferentHá dois dias ouvi uma comunicação do nosso primeiro ministro, relativa à adesão da Guiné Equatorial à CPLP, que me transtornou bastante pois representa bem a génese de uma certa forma de estar portuguesa: a isolofobia

Nem vou aqui discutir se a Guiné Equatorial deve ou não deve aceder à CPLP, se lá estivemos uns séculos  provavelmente fizemos estragos suficientes para que nos mereçam essa consideração, até porque a bem dizer já temos na caderneta uns quantos cromos raros de oligarquias e ditaduras mais ou menos disfarçadas. É um género de Karma e por outro lado acredito que os bons valores se passam pela convivência condicionada e não pela ostracização. Desde que seja a democracia a contaminar a ditadura e não o contrário parece-me bem.

Voltando ao ponto de partida, que trauma será este que demonstramos continuamente, o de não querermos ficar só e isolados mesmo que em defesa de valores legítimos e íntegros? Desde empresários, banqueiros e investidores que embarcam juntos em esquemas obscuros de alta rentabilidade para não ficarem sozinhos com os instrumentos financeiros de média e baixa rentabilidade, políticos que se anulam para manter a paz e o grupo unido evitando uma liderança isolada, no mundo laboral e autárquico proliferam nomeações para criar um ambiente de trabalho mais coeso e acolhedor afastando a solidão, e por fim até os comuns cidadãos que compactuam com pequenas trafulhices, não porque concordem com a sua justiça mas sim porque todos os outros o fazem e não o fazer é ser estúpido, sozinho.

Oliveira e Costa promete revelações no ParlamentoIronicamente na ponta oposta temos homens capazes de assumir as culpas sozinhos, mesmo que existam muitos outros culpados com quem andaram de mãos dadas. Julgo que este mecanismo de convicção própria, plena, independente e sobretudo pessoal e intransmissível  só é despoletada por um complexo processo que conduz ao “tenho quase tudo perdido… resta-me apenas lucrar com o evitar da perdição de outros, assumindo as culpas integralmente e só”.

Num passado não muito distante o “orgulhosamente sós” foi um lema de regime mas também uma forma de estar de muitos portugueses que de forma quase isolada enfrentavam o regime em pequenas insurgências pessoais, que cumpriam solitária por sozinhos desafiarem o sistema, que tomavam a decisão de contra tudo e contra todos desertar de guerras ultra-marinas que não lhes faziam sentido. Apesar da conotação negativa que foi dada a essa expressão, pelo seu uso em discurso de Salazar, a verdade é que estar orgulhosamente só é uma característica essencial para despoletar grandes mudanças de forma eticamente admirável.

SPREAD THE WORD ABOUT THE TIANANMEN SQUARE MASSACRE!

Como seu expoente máximo temos Ghandi e Mandela que a partir da sua recusa pessoal, em aceitar o sistema vingente, geraram movimentos de multidões imparáveis. E tem uma tal força que a sua demonstração pública sem pudor, mesmo que a fundo perdido, é capaz de inspirar gerações futuras a lutar pelos seus ideais de justiça.

Ontem Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho poderão ter caído numa armadilha diplomática, quando Obiang irrompeu pela sala como membro efectivo da CPLP antes de qualquer discussão e votação que o oficializasse, ficarão nessa fotografia incomóda cuja imagem é indelével. Só lhes ficaria bem compensar a situação erguendo a sua voz, a voz de Portugal, contra toda e qualquer situação de violação da democracia dos direitos humanos por parte do novo e de qualquer dos membros da CPLP.

Chamem-me fascista, chamem-me antiquado, mas admito preferir sentir fazer parte de um Portugal ostensivo de um incómodo “Orgulhosamente Sós!” do que de um resignado e submisso “…orgulhosamente…juntos…”

Aristides de Sousa Mendes

Sem título (mas com memória)

Não é do Aleixo

 

Sempre que falam em PPP’s, eu, que sou do Norte, digo «PQP, estou farto disto!» e ocorre-me sempre uma pergunta; e uma história.

A pergunta é «quando é que esta M acaba?», e a história, é a do ladrão (realmente) que vai às uvas e do companheiro que fica à espreita (escondidamente).

A jurisprudência chama-lhe cúmplice, não é?

Mas, será que quem, elaborando contratos leoninos transformando futuros incertos em rendimentos crescentes e garantidos, tem nome? Você sabe? Alguém sabe? Não é para lhes dar os parabéns pelo douto profissionalismo. Não!

Embora mereçam…

É para ver se circulam envergonhados pelas ruas (!) ou, se estão para aí acantonados n’algum cargo público (quem sabe até a dar aulas e ensinando), e, também para estar prevenido caso sejam (nunca se sabe…) um dia, escolhidos para ministros (salvo seja!).

 

PS – Não confundir a história com “a raposa do Esopo”, porque essa, coitada, seguiu caminho com a barriga vazia.

http://www.tvi24.iol.pt/programa/4407/134

http://visao.sapo.pt/conheca-os-responsaveis-das-ppp=f689608

Notas: A figura, não é do Aleixo, e o PS, é de Post-Scriptum.

MH 666

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Desde o inicio da legislatura que os membros do governo e dos órgãos de soberania foram condenados a voar em turística. Duríssimas medidas! Mas esses dias acabaram, essa desprestigiante prática chegou ao fim. Não, o orçamento nem tem folga! É o mercado! Apesar de Adam Smith nunca ter visto um avião, uma vez mais se confirma a valência premonitória deste autor. Brilhante!

Dizia eu “é o mercado”: Pois bem, após o encorajador exemplo da FPF – Federação Portuguesa de Futebol , ao decidir preterir dos serviços da TAP,  a lei da oferta e procura ditou novas regras. A Companhia aérea Malaysia Airlines promoveu uma acção comercial junto da Lusofonia. Parece que a fraca procura permitiu uma tarifa absolutamente excepcional em classe executiva. Mais barato que a mais barata das lowcost. Prova provada que deixados a si próprios, os mercados funcionam às mil maravilhas.

Observe-se o exemplo da X Conferência de Chefes de Estado e de Governo (CCEG) da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Os líderes de todos os países membros voaram até a paradisíaca Ilha de Timor leste ao abrigo do acordo da companhia aérea malaia com a Lusofonia. Todos os países marcam presença ao mais alto nível, com excepção de Angola e do Brasil, cujos presidentes recusaram o catering de Kuala Lumpur. Ou então, qual desculpa “Alberto João Jardim“, apenas não querem estar presentes no momento do alargamento desta comunidade, pois não apreciam a língua castelhana. Manias…

Todos os nossos governantes regressarão via Damasco, no voo MH666.

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*** PROGRAMA DA TROIKA ***

*** BEM-VINDO À INSTALAÇÃO DO PROGRAMA DA TROIKA ***
–
Antes de mais queira saber que lamentamos ter chegado ao ponto de ser necessária a nossa intervenção para recuperar a operacionalidade total dos seus recursos disponíveis. Provavelmente terá descurado a administração de sistemas ou sofrido da infecção por viroses que desviam e absorvem toda a energia produtiva via sugadouros obscuros.
–
Felizmente tomou a decisão acertada ao recorrer ao nosso programa para correcção de erros e recuperação de danos causados pela sua desleixada gestão autónoma. Beneficie de décadas de experiência acumulada onde temos crescido com os nossos próprios erros.
–
Contudo devemos preveni-lo que trabalhamos em baixo nível, usando um low profile de sistema e executando mudanças estruturais muito para além do ponto de restauro de segurança. Existem riscos e eventos inesperados que podem levar este programa a danificar o seu sistema.
–
Tem a certeza que quer instalar este programa?
> Sim_
–
Detectamos a execução de firewalls e antivirus. Para evitar falsos alertas o Programa da Troika terá de desligar todo o tipo de programas de regulação, monitorização e protecção contra ameças externas. Deseja continuar a instalação?
> Sim_
–
Desinstalando todo o tipo de Firewalls e Antí-Virus existentes no sistema……. OK
–
A Troika está a analisar os seus recursos………. !!! ………. ??? ………. €€€ …….
–
Detectamos uma série de pastas escondidas que ocupam um grande número de recursos disponíveis. Pretende
[1] tornar essas pastas visíveis para análise e histórico do desperdício em termos de volume e autores do seu consumo
[2] remover pastas sem manutenção de histórico impossibilitando apuramento de acontecimentos e responsabilidades
> 2_
Removendo pastas invisíveis……………….. OK
A Troika está a analisar os seus recursos…………………… recursos insuficientes para a instalação!
–
Para garantir o sucesso da instalação será necessária a remoção de parte ou da totalidade dos seus ficheiro pessoais e essenciais sem garantias de backup. Deseja continuar a instalação?
> Sim_
–
Obrigado pela solícita autorização expressa para a instalação do Programa da Troika!
Por precaução e para evitar a contaminação do novo sistema procederemos a uma formatação total do sistema actual.
–
Formatando………. OK
Alocando recursos necessários para execução do sistema operativo….. OK
Estabelecendo novas políticas e regras de funcionamento….. OK
Instalando agentes necessários para monitorização…….. OK
–
Parabens! O seu novo sistema operativo está devidamente instalado! Para garantir o seu correcto funcionamento não terá permissões para instalar qualquer outro tipo de programa.
> abrir pasta pessoal_
ERRO: Pasta não existente!
> abrir rede social_
ERRO: Pasta não existente!
> criar pasta pessoal_
ERRO: não tem permissões para criar pastas pessoais
> criar pasta qualquer_
ERRO: não tem permissões para criar pastas quaisquer
> help_
ERRO: comando não reconhecido
> uninstall_
Confirma que pretende a saída do Programa da Troika?
> Sim_
–
Removendo ficheiros do programa da Troika………OK
Preparando sistema para facilitar futura instalação do programa da Troika……OK
O programa da Troika terminou a sua saída limpa.
Após o reiniciar proceda à instalação de novo sistema operativo.
–
Loading…………
ERRO: não existe um sistema operativo instalado!
> D:\luzfundotunel\install.exe_
–
*** BEM-VINDO À INSTALAÇÃO DA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL ***
O sistema operativo Luz ao Fundo do Túnel é um software gratuito construído por todos para todos. Garantimos governação e operacionalidade sem custos externos nem desperdício de recursos.
–
Estamos a analisar os seus recursos……………………………………………………
ERRO: Insuficiência de recursos ou recursos existentes irremediavelmente danificados!
–
> D:\programatroika\reinstall.exe_

Perder a Cabeça

1Na terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, comemora-se hoje a Festa da Federação, feriado nacional que celebra a tomada da Bastilha. Uma data histórica, um marco civilizacional! Faz hoje 225 anos que os oprimidos assumiram o papel de opressores. Lembrei-me do destino daquela que um dia recomendou os brioches como sucedâneo do pão: Maria Antonia Josepha Johanna von Habsburg-Lothringen de baptismo, Marie-Antoinette ou simplesmente Maria Antónia, Arquiduquesa da Áustria, e por casamento Rainha de França. Inocente e pura, também brincava aos pobrezinhos. Pouco mais de 3 anos depois da tomada da Bastilha, foi a vez de os pobrezinhos brincarem aos monarcas. Usaram a invenção genialmente simples do doutor Zé-Inácio, a guilhotina. 2Foi uma festa! Gostaram tanto que mais tarde decidiram usa-la até entre eles. Os carrascos tiveram a oportunidade de testar pessoalmente o seu anterior instrumento de trabalho. Foi uma grande confusão, uma grande partida que o destino lhes pregou. Não terá sido a primeira, nem por certo a ultima vez que o destino fez das suas.

Muitos anos antes, em Viena de Áustria, era ainda Maria Antónia uma criança, senhora sua mãe recebeu a visita de Leopold e dos seus dois filhos pródigos, Maria Anna Walburga Ignatia e Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus. Este ultimo, excitado com a oportunuidade de maravilhar a realeza com a sua prestação artística, terá tropeçado e caído. Maria Antónia levantou-se da sua cadeira e ajudou-o a levantar-se. Grato, mas ousado e destemido retorquiu “é muito gentil, quando crescer casar-me-ei consigo”. Todos sorriram, para grande alivio do pai da criança que hoje conhecemos como Wolfgang Amadeus Mozart. Foi o destino.

Apesar de ter trabalhado arduamente deste a infância até às vésperas da sua morte, Wolfgang morreu pobre. Deixou inacabado o seu magistral Réquiem. Nunca o ouviu, pois o seu funeral foi simples. Como qualquer pobre, foi lançado numa vala comum, sem cerimónia. Parece que o destino nos está sempre a pregar partidas, mas não deixa de ser desconcertante imaginar quão mais doce a vida poderia ter sido para Wolfgang Amadeus e Maria Antónia, se esta tem aceite o impertinente convite de casamento. Wolfgang poderia ter vivido mais anos, mas poderia não ter composto de forma tão intensa como o fez e consequentemente o mundo seria hoje muito mais pobre. Maria Antónia, por sua vez, poderia ter partilhado o destino do proponente, as desventuras e a pobreza, mas nunca teria perdido a cabeça…

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Está bom de Sal?

O caldo reduz em lume brando. Ingredientes? Os tradicionais. Nutrição, eis a questão. O segredo do caldo está na forma como é servido. Da panela para a terrina nada se perde, mas da terrina para o prato e da colher até à boca, tudo pode acontecer. A uns, poucos, calham nutritivas porções, aos outros, água, ou mesmo nada. Com sorte, mata-se a sede.

caldo
Então e a nutrição? É a que temos. Metade dos comensais, ilustres eleitores e contribuintes, contribui mas não vota. Paga, mas não opina. Essa “coisa” da distribuição dos rendimentos não lhes diz respeito. Ciclos viciosos? Promiscuidade entre politica e economia? Sim, claro que sim, mas votar nem pensar. Afinal quem rebate a famosa frase “são todos iguais, querem é tacho”? Ninguém! Como pode uma população ser simultaneamente tão sábia na análise e tão burra na acção. Não vota, entrega o tacho. Assim sendo, os tais bem nutridos, comem, repetem e ainda contemplam a nossa busca por migalhas enquanto saboreiam a sobremesa. Salgado sai, bem nutrido, entrega o tacho. Mas isto insonso não fica. Entram os profissionais, os tecnocratas. Parece que o amadorismo dos que saem não lhe correu particularmente mal. Há rumores sobre reformas um tudo-nada acima da media. Teremos novos “Chefs” da panela-de-pressão. Dizem que assim se garante a solidez do banco. Isso! Um grupo é um grupo, um banco é um banco. Mesmo que o primeiro se sente no segundo, ou vice-versa. Semelhanças só nas cores e no nome. De resto, qual parvalorem, o mal para um lado, o bem para o outro. Onde é que já vimos isto? É uma questão privada, logicamente, decidem os accionistas. Está certo. Soberanos na sua decisão, optam por imitar os chineses. Escolhem alguém que tenha recusado oCALMA cargo de ministro das finanças, alguém sério e idóneo. Imparidades? Poucas, nada que os fundos públicos não possam cobrir, nem que seja pedindo emprestado.

E que outras  iguarias se preparam neste grande concurso de cozinha tradicional? Um pouco de tudo, desde votar contra o cozinhado italiano sobre o pacto orçamental, passando pela adorável disputa ao lugar de alcaide do castelo do rato, até à privatização da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Diz que dá lucro. Imagine-se a vergonha, uma empresa de capitais públicos que dá lucro! O que fazer? Vender! Que tal “a investidores institucionais”? Singelo eufemismo para “a quem mais nos convier”. Nada como agradar aos accionistas mesmo antes de estes o serem. Tudo legal, tudo legítimo, pois a posteriori saberão nomear as pessoas certas, os profissionais! Sal quanto baste para durar mais uma legislatura. Não votem, não atrapalhem os mestres da culinária.

Dança com Antónios

Antes de mais um mea culpa.

Não tenho cumprido com o meu dever de agitar das águas na tentativa de limpeza do convés.

Não sei que vos diga. São baldes de água fria a mais para dias de verão a menos.

Uma equipa de futebol que decide suar a camisola da selecção tanto como o trabalhador médio Português sua a camisola da sua empresa, um grande grupo económico que usa Angola como território ‘aceitável’ para execução de fraudes e tráfico de influências ‘inaceitáveis’, um governo sombra de si próprio num auto-eclipse que dura há meses e por fim uma luta fraternal pelo lugar de capitão da tripulação alternativa.

Parece não haver escapatória, nem moratória, mesmo reconhecendo-se ser o mais sensato.

Vamos pagar, vamos mirrar, vamos tolerar.

Mal ou bem continuaremos fiéis a esta forma de ser Portugal.

Mas foquemo-nos no bailarico. O PS assume-se como a melhor escola de dança do país. Se queres dançar e não tens par chama o António, se queres dançar e não tens pernas chama os Antónios. Os Antónios são assim tipo gémeos siameses separados ao sufrágio. Apesar de partilharem o mesmo útero suspeita-se que tenham paternidades diferentes, isto se tivermos por base apenas as suas tezes, porque geneticamente é difícil apontar-lhes diferenças. Um aguentou à tona a jangada socialista, o outro refugiou-se em terra firme e diz-se agora mais qualificado para abordagem ao galeão nacional. Os sábios corsários de outrora apoiam agora o homem vindo da Costa, estando o aprendiz de pirata dependente, mas Seguro, do apoio popular que optou por convocar.

E são estas primárias que me dão alguma esperança. A esperança de que surja alguém inesperado, alguém que seja globalmente vilipendiado, alguém que com aparente destrambelho, suba ao pulpito, discurse o não dito pelos adversários e, sem saber bem como, acabe por vencer desmontando o aparelho. Porque estes dois, estes dois são coelhos de uma mesma cartola, meros acessórios dos mesmos ilusionistas que criaram esta falácia estatal.

Estranhamente, apercebo-me que a solução para quebra de ciclo poderá passar por um género de fenómeno Cavaco Silva à socialista.

E agora vou vomitar.

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/delito-de-opiniao-6136475

 

Jota Kafka

(depois do almoço), e você já a pensar no lanche.

05-Jota Kafka-03É para que saiba o que custa uma espera, para mais, sabendo que enquanto espera, alguém está refastelado a almoçar ou a degustar qualquer outra coisa comezinha enquanto nós estamos aqui, na ignorância dum atendimento adequado hoje, se hoje, e se hoje, se será loquaz, paciente e explicativo. Nós sim senhor!, que eu também estou cá! Como você.

Estas azias não são de nada que tenha comido, muito menos pela sua presença, companhia que aprecio e agradeço, mas do adiantado da hora que já se verifica, uma vez que, da esquerda não vem viva alma nem da direita vivalma e já passaram as treze e cinquenta e cinco. Essa é que é essa! Peço desculpas pelo você; você merece-me realmente outro trato só pelo facto de estar atento à narrativa e pelo lanche que foi a brincar, pelas minhas origens anglófonas. Refiro-me ao sub-título e não ao texto que agora se inicia. Mantenho porém, o depois do almoço, porque é do que se trata finalmente, embora não tenha almoçado, conforme prometido e a referência ao lanche tem a ver com a palavra derivativa de “lunch”, e quanto ao eventual evento está desde já convidado.

Abre-se a porta dos sustos mais uma vez «até que enfim», e, qual não é o nosso espanto quando, quem a abre é alguém. Bem podia ser um daqueles automatismos modernos que evitam mais um salário e, por isso, menos uma despesa, mas não, era mesmo alguém que abria a porta e, como não tinha sido vista vindo do lado das vivas almas nem do lado das vivalmas, só poderia ter vindo do lado dos sustos e, agora percebemos tudo, não a vimos porque a porta que se abria agora para a população, vulgo utentes como descrito na parte da manhã antes do almoço, estava fechada.

Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… com licença, com licença, com licença e, nem queira saber o que vi na pantalha, que, só soube nos final da manhã que era um plasma e que muito enfadou J. uma vez que se sentiu enganado desta a sua chegada. «Pantalha é pantalha, plasma é plasma!, não se brinca assim com uma pessoa!», disse-o do alto do seu aborrecimento e com muita razão. Embora ecrã para nós fosse suficiente. É ou não é?

Com a minha ascendência na Cornualha preferiria “screen”, mas não faço questão nem alarido. Perdeu J. a conta dos Dlim-Dlams que ouviu até ter conseguido entrar no corredor de espera. Era a sua vez na mesa cinco, a mesma, e única, que tinha estado ocupada durante toda a manhã, era seu alguém, a senhora do chamamento detalhadamente descrita pelas doze e trinta para que não fosse confundida o que criava à partida um problema, talvez até, um grande problema.

Apelo ao melhor discernimento e sentido de crítica do meu querido companheiro de leitura para a seguinte falha na organização da adm. central anteriormente elogiada, e seus executores: – quem é alguém, nunca poderá ser outrem, e muito menos, e simplesmente, funcionária, como foi adiantado aí pelas dez e trinta da manhã. Não é obvio que J. tenha dado pela falha, mas, há ainda um detalhe a ter em conta que nos pode até, levar a uma certa omnipresença preocupante se levada à letra a expressão utilizada nas famosas “duas linhas” de oratória com um «… façam o favor de se dirigirem a mim…». Será um premonitório “vinde a mim” pensado na alta adm. central no sentido de arrebanhar a grei, na sua totalidade à repartição em causa. Deus nos livre e guarde e J. nem sonhe. Já nos basta que seja omnipotente para alguns. Seria o cabo dos trabalhos.

De seguida convido-o a não interromper o que penso ser o final dos trabalhos em curso, uma vez que vai dar início o tão esperado encontro entre quem precisa e quem tem. Peço-lhe, além do maior silêncio, a maior atenção também. Sei que é capaz.

«Boa tarde», «Boa tarde», «faça favor de sentar», «Obrigado», «Qual é o seu número, se faz favor?», «A49», «Pode mostrar-me a ficha de presença?», «Com certeza, aqui está.», «Olá… temos aqui um problema…», «Problema?…», «Sim, a sua ficha é a A49.», «É», «Não é E, mas sim A.», «Sim, disse é com o sentido de ser, como se dissesse é a á quarenta e nove.», «O sr…», «J.», «O sr. Jota Ponto…», «Só J.», «Hum… o sr. Jota está a tentar colocar entraves à adm. pública na pessoa dum seu funcionário?», «Não!, eu…», «O sr. Jota pensa que eu não sou ninguém?», «Não!… Tenho a certeza que a senhora é alguém!», «Ainda bem», «O sr. Jota quando entrou nesta repartição estava a ser atendida a ficha de presença A15, certo?», «Certo», «E o sr. Jota disse, os nossos serviços bem ouviram, que só faltavam 33, certo?», «Hum… não me lembro bem…», «Mas se fosse uma pessoa responsável devia lembrar. Faça o favor de me seguir na aritmética, quinze mais trinta e três perfaz… perfaz… 48 e não, 49!, certo?», «Certíssimo.», «Então, se me faz o favor, e para que não tenhamos que prosseguir para instâncias superiores, levante-se e, aguarde a sua vez.», «Mas… nem sei… talvez tenha feito mal as contas, talvez estivesse a pensar nos A16, aquele casal que esteve nesta mesa a manhã toda…», «O sr. Jota só está a piorar a sua situação!», «Como assim?», «O casal A16 não esteve nesta mesa a manhã toda, o casal A16 esteve nesta mesa a tratar dum problema complicadíssimo para ele e para os nossos serviços, durante a manhã toda, o que é bem diferente!», «Pois sim, não digo que não, mas, a repartição está quase a fechar, eu sou o último utente, mesmo que saia, não tem mais ninguém a seguir…», «O sr. Jota além de estar a ser inconveniente, está a tentar defraudar o normal funcionamento do serviço e, mais grave ainda, a tentar adulterar a honestidade da ordem de chamada!», «Não é minha intenção, não é minha intenção, eu é que, eu estou aqui desde as dez da manhã, este assunto tenho de o ter resolvido hoje, da parte da tarde não veio ninguém…», «Como é que o sr. Jota pode afirmar, e logo cabalmente, que da parte de tarde não veio ninguém se a chamada foi feita, completa e pela ordem autenticada no final do turno da manhã?», «Minha senhora…», «Não me trate por minha senhora!, eu sou alguém!», «Claro! É o meu sistema nervoso, peço desculpa, mas acontece que eu estava ali à porta, quase não fui almoçar e vi toda a gente a entrar e», « O sr. Jota não se cansa de fazer falsas declarações. Nós sabemos muito bem que almoçou. Quem pensa que são os nossos serviços? Sopa e conduto!, ouviu?, sopa e conduto, é o que diz a nota interna dos nossos serviços!», «Pois… certo, foi tão rápido para não perder a vez, mas o que eu queria dizer é que, da parte da manhã para a parte da tarde, depois do atendimento da A16, e depois de muitos Dlim-Dlams sem qualquer presença foi o meu Dlim- Dlam, o Dlim-Dlam do A49 que foi chamado, por conseguinte…», «Mas o que é que o sr. Jota tem a ver com as ausências verificadas no turno da tarde. Provavelmente as pessoas não quiseram aguardar aqui até às doze e trinta para serem autenticadas ou não quiseram voltar de tarde, provavelmente não tiveram tempo de ir e voltar e desistiram a meio do caminho, provavelmente estão a aproveitar o tempo das três senhas de tolerância, provavelmente até, não era assim tão urgente e voltarão, que é o que costumam fazer as pessoas com coisas urgentes a tratar e não têm paciência para esperar!», «Acredito, acredito, sei que a vossa função não é fácil e, ainda bem que há alguém que disponibilize a sua vida para atender aos problemas do cidadão, mas, veja bem, são quinze e trinta e cinco, a repartição fecha às dezasseis horas, eu sou o único utente, será que…», «Se a adm. central se tivesse que preocupar com serás, e outros elementos do existencialismo, do ente humano, da pessoa física e moral no seu conjunto, do ser como um todo, era o cabo dos trabalhos sr. Jota. A nossa função é o rigor, o exemplo e a execução. O resto sr. Jota, o resto são filosofias!», «Então, resta-me, sair, e, aguardar a minha vez que penso ser esta», «Exacto!», «E, se me permite a pergunta… se não for chamado até às dezasseis horas?, «Terá de voltar amanhã, mais cedo, que era o que devia ter feito hoje!», «Então repete-se o sistema da autentic», «Era o que havia de faltar!, já agora!, amanhã começa do zero! Vocês não queriam mais nada!».

Respiremos agora um pouco. Bem precisamos. Mas só o suficiente para ver o nosso J. muito conformado, a reentrar na sala de espera que era mais um corredor, agora vazio, e aguardar a sua chamada, ou a chegada do chefe da repartição, que até aí, assoberbado nas suas tarefas se tinha mantido invisível, para mandar todos os cidadãos abandonarem o atendimento. E J., creia meu ilustre, ao ver a porta dos sustos fechar-se atrás dele como que protegendo-o dos sobressaltos da existência, abandonou-se caminho fora sabendo, sem qualquer dúvida agora, que era cidadão. A incerteza era se amanhã, na volta, seria considerado pessoa.

Para mim, e porque merece, será sempre o nosso J. e, nunca mais, só, Jota kafka.

FIM! Finalmente (quem sabe até, do Mundo).

sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.

Jota Kafka

(depois do almoço), ainda com partes do jejum.

 

05-Jota Kafka-02

Boas tardes então, e desculpe, nunca gostei lá muito da expressão “repasto”. É incisivo demais para a variedade das ementas oferecidas, mas enfim, foi para não dizer assim, de chofre, mastigado o comer… Não leve a mal.

Já está almoçado, que bem se vê, mas isto aqui ainda vai uma açorda. Nem queira saber.

Está o J. de regresso, guarda-chuva a tiracolo, castelo bem axilado e olho em riste procurando assento. Olhe!, lá vem ele… sentou-se; ainda bem. A espera desespera, vamos ver se alcança.

Provavelmente já se perguntou, mas que raio é aquilo do castelo que, uma vez se sovaca e outra se axila? Tem razão, eu mesmo já me tinha feito a mesma pergunta e, merece uma explicação. Explicação que, lamentavelmente, não tenho processo de dar.

Também me causa espécie o facto do guarda-chuva em dia de Sol, e não me vê aqui de patas ao ar numa metamorfose ridícula a tentar descobrir. Para mais não temos nada com isso.

É ou não é?

J. olhou em volta e era um conhecido no meio de conhecidos. Não conhecia ninguém mas não havia cara que lhe escapasse desde que tinha saído para ver se chovia. O que não acontecia.

Sentou-se na beirinha dum vaso baixinho e desfolhou o livro. Nessa altura eram onze e meia na espera e vinte e duas e quarenta e cinco no livro e, Kapa continuava a tentar espreitar Klamm sentado no colo de Barnabás, que se tinha escondido da estalajadeira com medo de ser visto a dar cobertura ao desaforo que era espreitar Frieda uma vez que, todos sabiam, esta tinha sido amante dum kapa e era, agora, noiva de outro. Sim, dois kapas. Um para Kapa, que, para evitarmos confusões doravante escreveremos K com ponto e Klamm, que, como inicial tem, também, K, mas sem ponto. E, para que não pense que era má vontade desvendar-lhe o que era “o castelo”, fique sabendo que só o descobri porque perguntei ao sr. Aníbal, acabadinho de pagar o dízimo que lhe tinha custado uma vigésima. Pelo menos assim lhe pareceu e me disse. E, quanto a doravante escreverem apenas K., isto é, Kapa ponto, não sei como isso será possível, uma vez que só um escreve, que sou eu, e não escreverá mais nada sobre K. ou qualquer outra coisa sobre o referido livro. Não se aplica portanto, nem o plural, nem o lembrete.

Nestas e noutras deambulações foi passando o tempo, ouvindo Dlim-Dlams e zum-zums até às doze e trinta, a hora do almoço, onde, o seu papel acetinado devia ser assinado com a competência do alguém para que outrem, ao regressar, soubesse que se tinha estado em fila de espera, de manhã, até às doze e trinta. A senhora afónica tinha já saído para tomar uma gemada, e eu tenho estado a falar de J..

NOTA: – (pequena nota: – esta nota não fica nada bem num texto que não se pretende panfletário, e é utilizada apenas porque não há outra forma de notar o que se segue na nota). Mantém-se a designação “manhã” embora fossem doze e trinta. Ora, como sabe, a hora convencionada para se passar a designar tarde é o meio-dia, isto é, as doze horas (12:00 em alguns relógios). Aqui, nesta nota, tenta explicar-se que, também a hora do almoço, que não tem hora, pode separar a manhã da tarde. No caso vertente, nem se tratava duma coisa nem doutra mas sim, a hora determinada pela administração central para os seus funcionários irem almoçar e que, ultrapassada essa e o respectivo tempo em minutos necessário à refeição, fosse considerada após publicação, a parte da tarde, logo, depois do almoço. Fim da NOTA.

Perguntar-me-á muito pertinentemente, «Mas como sabia J. que eram doze e trinta se não havia relógio na espera?»

Dir-lhe-ei que «Foi muito bem observado, sim senhor!», uma vez que, não conhecendo o recinto e não lho tendo sido alguma vez descrito qualquer tic-tac ou pantalha digital, podia realmente existir. Mas não, não existia.

O processo foi o do chamamento histriónico de quem tem fome e mastiga apetites de saída imediata, e, da seguinte forma «senhores utentes, por ordem, façam o favor de se dirigirem a mim para autenticar as vossas fichas de presença, sem a qual não serão reconhecidas após o almoço. Obrigada.»

Veja, meu fiel, a eficiência da administração central (tão desprestigiantemente chamada de, função pública), sim, que isto não é só dizer mal. Veja, o quanto se desvendou em duas linhas de oratória. Certifique-se, de uma vez por todas que, não é necessário ser-se, como dizer, tonitruante, para que uma pessoa se faça entender. Decomponhamos; raciocine comigo.

Acabaram as indefinições quanto à pessoa. Nunca mais confusões como, contribuintes, obrigados, retribuidores, nem o que mais quiser pensar. Utentes. E a senhora aí da fila dos émes tenha lá mais respeitinho que não é só quem o tem que tem obrigações, está bem?

Quem não o tem que se arranje, que vá trabalhar, porque quando for chamado a ter, será utente como qualquer um de nós!, essa agora… Ou será tenente?

E por ordem, muito bem, não queremos cá autenticar o trinta antes do vinte-e-sete, nem o quarenta depois do quarenta-e-nove; que ao J. ninguém passa à frente!

Autenticar, vê!, quem sabe, sabe; era a palavra que me faltava ao meio da manhã para lhe explicar o que significava a assinatura rubricada no papel acetinado. É que não basta a máquina cuspir um papelinho acetinado com uma letrinha e um numerozinho. Nada! A coisa só é autêntica quando autenticada. Não sei onde residia a sua dúvida. Que era nossa.

E mais, caso não siga escrupulosamente todo o procedimento, que são vários, não haverá lugar a reconhecimento em posterior atendimento após o tal repasto. Disse o alguém.

Para finalizar, porque é importantíssimo, não deixarei de salientar que finalmente, sabemos quem é alguém. Alguém é uma senhora de meia-idade, seja lá o que isso for, com saia abaixo do joelho, casaco de fazenda, meias de nylon lá de cima até uns sapatos azuis a condizer. Por dentro uma blusa algo vaporosa com uma flor de bom gosto presa ao peito esquerdo com reluzente alfinete. Mãos cuidadas e unhas com perfeição de gel alegremente pintadas. Não são feitas referências à cor do cabelo e respectivo penteado uma vez que as senhoras o alteram com mais rapidez que uma mudança de roupa. Eis alguém.

Quanto á obrigatoriedade de almoçar, uma vez que não tem senha para autenticar nem número que o identifique, pode saltá-lo. Obrigada na mesma. Subentendeu-se.

Pare, escute, olhe e aperceba-se da fiabilidade da máquina administrativa e quão árduo é o trabalho de sequenciação da população, mesmo na mais pequena escala duma repartição. Na senda da optimização, que não pode descurar o ínfimo pormenor, uma vez que, hei!, hei!, mas onde é que o sr. vai?! já foi autenticado? Ai não?! De tarde não se queixe que não for atendido, que isto com franqueza, não se pode confiar em ninguém, em tudo a adm. central pensa, em tudo a adm. central tem que pensar, uma vez que o utente; nem tenente.

Apesar de cansado, que sei que está, queria só lembrar-lhe que, nós, sim, nós, ainda não fomos almoçar, e esta, talvez seja a única oportunidade de o fazer, uma vez que alguém já saiu na companhia de todos os outros alguéns, utentes e tenentes também e até o J., que se levantou esbaforido ao saber que só tem noventa minutos para ir a casa, aquecer a sopa e o conduto, comer este e depois aquele e, regressar. Regressar a tempo de nova conferência, que sabe, e nova espera, que adivinha. Por isso até depois, agora sim, do almoço. Eu fico por cá, não vá o diabo tecê-las e a chamada começar mais cedo.

(continua)

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