O Valor das ‘Não Coisas’

Hoje as pessoas não têm tempo para nada.  Nem para conversar.

Se não é o trânsito…

O Valor das 'Não Coisas'

 

 

 

 

 

 

O amigo que vendia férias

O Agostinho foi o maior felizardo que conheci; tive até inveja dele. Sabe porquê? É que o Agostinho, que não vejo faz tempo – Olá Agostinho!; vendia férias. Ólarilas!… o Agostinho tinha tempo livre para vender, e mais, era um tempo que se desmultiplicava ao ponto de poder ser sempre dividido! Olé!…

Veja o que as pessoas conseguem para ganhar a vida.

A empresa dele chamava-se, veja só, “Não Faça Nada – Time-Sharing, Lda.”

O “não faça nada” está-se mesmo a ver, eram as férias, o “time-sharing” era a tal desmultiplicação da coisa (ou multiplicação… dependendo do “ponto de fuga”) e; a cereja no bolo era o “lda.”; porque, ele, de limitado não tinha nada. Vendia tempo livre desmultiplicado a toda a gente e toda a gente lho comprava. Havia tempo para todos! Ai ninas!…

Há qualquer coisa no “fare niente” muito “dolce” para que toda a gente o queira, não é?

Olha!… já anda a bicha… talvez ainda cheguemos a tempo.

(eh eh eh!; cá em cima chamamos bichas às filas… você sabia?)

Hortas de carros

Quando era catraio (sim!, já fui catraio também…) ouvia os velhotes dizerem que um bocadito de terreno, era a fartura das famílias. Qualquer bocadito de chão dava para plantar couves e novidades e ainda se arranjava um cantito para o esgravatar da criação.

Agora, olhe ali!… vê?, num retalho entre muros medra uma plantação de carros em segunda mão, brilhantes como em primeira.

Em cada esquina, em vez de couves, nabiças, alhos, feijão verde, etc., galinhas, patos, perus, coelhos e afins, temos; carros em segunda mão a brilharem de novos.

Porque será que as pessoas se desfazem assim dos haveres, ainda tão novos? Já pensou?

Vá lá… já seguimos de novo. Até estou a gostar do viscoso do trânsito; dá para a cavaqueira, que já tinha saudades.

As lojas do “compro ouro”

Ali no último cruzamento, você não reparou; estava uma loja da moda. Se olhar para trás ainda vê… vê?, isso mesmo!

Toda a gente dizia mal dos chineses (cala-te boca, que nos cortam a luz…) que estavam em todo o lado, em qualquer esquina; enfim… Agora são as lojas do ouro. Que se compra ouro cobrindo qualquer oferta. É forte hã… cobrindo qualquer oferta!

A aflição das pessoas… Levam ali os anéis para ficarem com os dedos é o que é.

Nunca vi tantas lojas destas; deve ser muita a desgraça e precisão.

Já viu bem que se abrem lojas e vendem franchisingues alimentados a desgraça?

Montemos o negócio

– Diga? Não; estava aqui a pensar, não era propriamente a falar consigo agora, mas mais com os meus botões.

Pode ouvir… pode até; olhe… pode até ser meu sócio caso queira e tenha tempo.

O negócio é o seguinte; uma loja de tempo. Isso mesmo!, comercialização e distribuição de tempo. Vai chamar-se Tempo & Bom Senso, SA.

Porquê bom senso? Ó criatura! Porque já não há nem se fabrica.

Ponha lá uma moedinha no parcómetro que isso ainda é um negócio onde nos havemos de meter; vender espaço consoante o tempo!

À Vossa atenção:

Este texto foi publicado a 11 de Jan. de 2012 na página “Ao Leme – Grupo Aberto”, no n/vosso conhecido facebook.

Ao tempo floriam como cogumelos as “lojas ouro”, onde já tinham sido bancos, onde já tinham sido cafés, onde agora se instalam “lojas do cigarro electrónico”, onde amanhã, espero, estejam cafés novamente.

E digo, novamente, não, outra vez. Porque espero que nos tragam, outra vez, algo de novo.

Grato por lerem. Convido a um cimbalino, ali, na habitual mesa da montra, onde passa a vida.

Obrigadinho.

 

sobre a figura:  Apanhada no trânsito da WEB, sem paternidade registada.

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About José Bessa

Que dizer, quando não há caminho? E nós não somos senão caminho; tudo o resto é plágio. Pede-se, compreendo… uma nota biográfica. É algo de mim que não tenho. Refiro-me ao que daqui me vêm. Sou isto mesmo, nada mais que uma palavra antes, outra depois, escrevendo de ouvido porque analfabeto. Peço que entendam quando me emociono, que me protejam quando enraiveço, que me ajudem quando esmoreço. E se me lerem; agradeço. Já pensei em escrever, é verdade, e, por pudor, imaginei até um outro nome para que não me soubésseis assim, directamente. Seria “jacente”.

Posted on Junho 7, 2014, in Geração "à rasca", Ideias para o País, Mentalidade Tuga and tagged , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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