Pensar em grande, votar em pequenos
Aqui há dois dias fui surpreendido pela compreensão choque de que as eleições europeias são já este Domingo! Uma campanha que não se sente na rua, que não tem expressão nos media, praticamente inexistente. Claro que o ciclo se renova e agora o PS pede um castigo dos partidos no poder, coisa que as sondagens prevêm acontecer qb. Tal como muitos não tenho ainda firmado onde recairá o meu voto e chego a recorrer à bruxa para encontrar o caminho.
Um lugar no parlamento europeu, para além da suposta representatividade dos interesses de Portugal, representa uma vida cómoda do ponto de vista financeiro. Em adenda quando se dê a saída do parlamento europeu existe um subsídio de apoio à reintegração na vida activa ao estilo de subsídio de desemprego igualmente chorudo. Tal como no parlamento português existe uma panóplia de famílias políticas com a união de esquerdas, união de centristas, união de direitas, etc. E tal como nele existe uma tendencial flutuação entre uma maior representatividade do centro-esquerda e uma maior representatividade do centro-direita, existindo depois outras facções mais marginais.
Pus-me a matutar em acções de ‘terrorismo’ eleitoral que pudessem dar uma pedrada no charco e vim parar ao facto da abstenção nas eleições europeias (>60%) ser bem mais alta do que a abstenção nas eleições nacionais (>40%). O que só beneficia os candidatos dos maiores partidos pois a proporção de votos dos seus fiéis e crentes eleitores aumenta em muito o seu peso face ao diminuído universo de votantes.
Contudo estes 20% de diferencial na abstenção dão-me esperança para a possibilidade de usar estas eleições como real arma política. Se apenas estes 20% decidirem votar podem ter grande influência na configuração da representação portuguesa!
Compreendo que nas eleições nacionais exista um maior receio de delegar o voto, que não se quer dar aos ‘grandes’ do costume, num pequeno partido. O refúgio acaba por ser um voto nulo, em branco ou mesmo a abstenção. Acabando mais uma vez por só fortalecer o peso dos chamados ‘grandes’.
Para evitar essa rasteira auto-infligida, faço aqui uma proposta criativa para a tentativa de geração de uma onda de manifestação de insatisfação para com os aparelhos partidários responsáveis pela nossa situação: o voto válido num pequeno partido!
E de que forma votar num pequeno partido nestas eleições europeias pode ajudar a mudar algo? Provavelmente não mudará nada no imediato mas serviria de um grande sinal de alerta e sobretudo de meio de preparação de melhores políticos. Se a predominância dos votos nas europeias fosse distribuída pelos pequenos partidos estaríamos a:
- Levar para o parlamento europeu ideias e argumentos alternativos aliados à tenacidade destes novos agentes do nosso tecido político. Mostraríamos assim que nós, Portugueses, estamos saturados de ser manipulados pelos amigos ?do alheio? do costume, estando a atingir o ponto de ruptura para com o status quo instalado sem receio do desconhecido;
- Dar aos políticos emergentes, com menos holofotes e presença em palco, uma experiência internacional permitindo-lhes contacto com formas de trabalho e correntes de pensamento díspares para que retornem mais fortes e mais capazes;
- Permitir aos pequenos peixes nutrir-se do fitoplâncton europeu passando a um regime de dieta os actuais tubarões e baleias do nosso panorama político. Por outras palavras os deputados europeus destes pequenos partidos poderão amealhar uma quantia simpática que podem colocar ao serviço dos seus partidos para maior financiamento autónomo de campanhas em futuras eleições nacionais;
- Assustar realmente os partidos nacionais tradicionalmente mais votados com esta demonstração de desbloqueio mental no acto do voto, criando assim um cenário imprevísivel para o resultado das próximas eleições para a Assembleia da República;
O mais importante seria ganhar a coragem de votar num pequeno partido sem provas dadas, com ideias inovadoras e fracturantes, com o qual apenas simpatizamos mas ainda não confiamos plenamente. Chamem-lhe um salto de fé ou um benefício da dúvida. Durante um ano poderíamos avaliar o seu desempenho no Parlamento Europeu e a sua evolução. Mesmo que não tenhamos a coragem de lhes atribuir voto nas eleições em 2015 teríamos mais 3 anos de levedação e a partir de 2018 saberíamos se valeu ou não a pena o investimento.
Corro o risco de estar a pensar demais, isto seria uma coisa em grande, sendo o meu único consolo o facto de apesar de tudo ainda ter a capacidade de sonhar. E vocês?
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VOLTA-FACE! STOP.
A
Bravuras que um povo olvida.
Quando o capitão chegava trepidante ao cimo do morro era como um clangor e o Zêi, como lhe chamava, parava a freima da pastorícia e antes que ele posicionasse a mão Napoleónica no colete já corria desbarretando-se «às ordens do Sr. Capitão».
Imobilizada a montada «aííí…», duma mansidão que o seu ventre dilatado aceitava sem grandes ondulações, o castrense tonitroava comandando:
– Bom dia Zêi! Então não me alinhaste as ovelhas?
Era assim Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção, terratenente, capitão de cavalaria graduado e colocado em reserva antecipada pelo regimento de Cavalaria de Estremoz, mas no activo, e nas suas quintas. Da sua esposa, melhor dizendo, que o capitão era de antiga e mui nobre família de armas, servidora do reino na Guerra Fantástica e por isso, detentora de lustrosas salvas de prata e ornamentada com vasta medalhagem (embora patinada, como adiante se assestará para registo), mas sem terras conhecidas como suas, além da Pátria.
– Não senhor, senhor capitão, são umas desordenadas!… Mesmo assobiando aos rafeiros um toque a reunir elas não alinham, não senhor…
O ardor de comando e da ordem-unida estava-lhe no sangue e vinha-lhe de seu tetravô (investiga-se ainda, por indeterminação segura de datas, se pentavô); um façanhudo alferes de infantaria que se dera, por razões de entendimento nas diversas movimentações de tropas, com um oficial vindo das Índias Orientais, um tal Robert McNamara, que, olhe, quem sabe… isto das coincidências históricas são realidades tão antigas como hoje estarmos aqui e termos tantos compatriotas de olho azul. Bem, tamanho foi o entendimento que, ao que se sabe, não foi disparado um tiro, alinhada uma alabarda nem arreado um cavalo para que a guerra efectivamente se efectivasse. Razão pela qual se pensa o seu nome não constar nos anais heroicos de tão importante conflito, mas o do estrangeiro sim!, que nós, para os nossos somos uns desagradecidos mas para os de fora são as ondas que se têm visto.
No entanto e ressalve-se, ambos combateram, se assim se pode dizer, na Guerra Fantástica, desenrolada (é o termo certo) em mais de metade do ano de Mil Setecentos e Sessenta e Dois, e bem se lhe pode chamar “fantástica”, pois só em dois casos dois, que se saiba, o povo Português ganhou uma guerra sem que se disparasse um tiro. Duzentos e doze anos depois, secundava-se a façanha.
Seria injusto e incompleto se não se elogiasse aqui também a sua metade, que o era, não só de cara mas de alma e corpo inteiro; Senhora Dona Maria do Carmo Bentes, essa santa de famílias gradas, verdadeiro refrigério dos humores e impulsos do capitão que, ao contrário do que possa parecer pelo que se disse ou dirá, tinha um coração onde cabia o Mundo e sobejava espaço.
Pois a Senhora Dona Maria do Carmo era dos “Bentes” (você deve conhecer…) de Boticas, ali para os lados de Chaves, seu tetravô, os nossos respeitos, servira em infantaria e na mesma guerra que o avô de seu sogro (ou bisavô, é o tal alvitre), ambos participando nas movimentações Alentejanas, durante as quais, após assertivos posicionamentos e, temendo acusações de bastardia, acabou casando com a sua irmã mais nova, uma solteirona até à data. (irmã do futuro cunhado, entenda-se).
Fora um gesto bonito, e, veja como são as coisas; são portanto primos a Senhora Dona Maria do Carmo e o Sr. Capitão de Azinheiro Carvalho e Assumpção.
Era vê-lo galhardo, montado naquele cavalo inteiro dum ruço cardão, «comandando um pelotão de infantaria marchando de Chaves para a Torre de Moncorvo», lia-se na chapinha dum quadro que descansava as telas fendidas ao lado da cristaleira à mão direita quem entra na ampla sala de jantar e onde se via um outro, mais rendado e pequeno, num alinhamento que punha a jeito uma moça airosa, acenando adeuses com um lenço de saudades. Era sua tetravó, Deus haja, que se despedia.
Que quadros, que figuras, que história, quanta memória vertida aos vindouros que saberão, é uma certeza, enaltecê-la, quem sabe em versos, dando-nos o merecido épico pelos acontecimentos decorridos. Oxalá…
É nesses vindouros que uma família confia e nesta, estava depositada em Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção Júnior, primogénito, e até ver, único do casal de quem se fala, a esperança no que se espera.
Continua para “B” (com a licença de vosselência)
(sobre a figura: Moncorvo e a guerra Fantástica de 1762
In Cartografia Histórica Portuguesa – Catálogo de Manuscritos (Siglos XVII-XVIII)
Real Academia de la Historia Madrid)
Vai ficar tudo bem.

Vai ficar tudo bem. Todos prometem não aumentar mais os impostos.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem não haver mais despedimentos na função pública.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem reduzir na despesa pública.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem aumentar o salário mínimo.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem o crescimento da Economia.
Vai ficar tudo bem. Só nos faltam políticos honestos. Alto e parou o baile!
O Mundo num Porta-Chaves
No princípio dos tempos (porque já foi há muito tempo) saiu-me num “fura” de cinco tostões, um porta-chaves. Um porta-chaves que era nada mais que… O Mundo!
Vejam a minha sorte. Por um nada (o que eram cinco centavos?…) deram-me o Mundo.
Venderam-mo, é certo, mas pelo valor que foi… entendi-o oferecido.
Guardei-o no bolso da camisa, local que no momento me pareceu mais seguro, mesmo do lado esquerdo, ao lado do coração. Segui saindo, continuando o passeio daquela tarde, já merendado e com o Mundo no bolso. Segui vivendo mil vidas e outros tantos caminhos sem nunca mais me lembrar dele, do Mundo.
Encontrei-o há uns meses, repousando numa gaveta de velharias e recordações, no meio de tudo quanto é quinquilharia e “outros mundos”, que o são, ainda, as recordações de outras deambulações.
Peguei-o, limpei-lhe o pó, poli-o, curiosamente na camisa, do lado do coração, e meti-o no bolso das calças para lhe encontrar uso corrente. Aquele Mundo ia encontrar umas chaves que abririam portas, ia encontrar utilidade, era a “sua hora”.
Sabendo que o leitor não está familiarizado com estes objectos, irá permitir que lhos descreva.
O Mundo, este, um porta-chaves singular, é composto de duas partes, sendo, o Hemisfério Sul e o Hemisfério Norte unidos num macho/fêmea de pouca tenacidade (o que me levou, e espero não leve a mal, a cola-los de forma a que nunca mais se separem); como, chamemos-lhes “elementos de utilidade”, tem uma corrente solidamente atarraxada no Hemisfério Norte (por perfuração do Pólo) e, nos antípodas, um moitão onde se aprisionarão as chaves.
Não querendo subalternizar o Mundo, será certo que a importância do conjunto será depositada nas chaves que abrirão as portas e não o que significa a esfera na outra extremidade, e nem mesmo a corrente que com engenho a aprisiona. Com efeito, mesmo as chaves, embora segredos em si mesmas, serão doravante também arrastadas para a figura de meras gazuas uma vez que o importante é “o local” que abrirão, e mesmo este, numa escala de valores materialista, será apenas o espaço que contem “a coisa” de valor.
A “coisa”, o que são as coisas… será portanto o actor principal desta história a que eu, “pomposamente” chamarei vida, uma vez que é, a razão de ser.
O leitor não se apercebeu, mas entre a linha anterior e esta, fui lá fora pensar (e quanto um homem se põem a pensar…). Não é “pomposamente”! A vida é a razão de existir e, a razão de existir embora não saibamos muito bem qual é, tem pompa. E tem circunstância. Por isso, desculpe as aspas, que se manterão por honestidade de quem lhe escreve, e para que não diga que dou o dito por não dito.
Concluamos que, a razão de existir do meu porta-chaves (no seu todo) é manter a vida, o Ser. Melhor dizendo, dispor da vida, uma vez que a abre e fecha quando quer, a mostra e a oculta a seu “bel-prazer”, a oferece ou sonega como bem entende… pomposamente.
(aqui, neste pomposamente, é que talvez ficassem bem as aspas, porque sem “as mãos” não passará dum mero destroço. Mas deixemos as mãos para mais tarde.)
O motivo de o incomodar com esta leitura, e certamente pedir-lhe ajuda é, nem mais nem menos, a confusão que se alojou no meu discernimento quanto ao relacionamento, direi até, interacção, entre Mundo e vida, corrijo, Mundo e Vida.
Sendo habitante do civilizado Hemisfério Norte, e contemplando o meu porta-chaves encontro logo algo que me entristece. É que à medida que o Mundo vai rodando, a corrente que o aprisiona vai-lhe desgastando os desenhos e até, amachucando a superfície; por isso, o Hemisfério que habito está necessitando duma pintura urgente e quem sabe até, dumas marteladas para o desempenar. Enfim coisas que deixarei para alguém especializado, porque nisto de endireitar o Mundo e pinta-lo reluzente não há falta de candidatos.
Perdoe-me o desabafo; não é isso que aqui nos traz.
Continuando com a analogia, e antes que vá embora, gostava de lhe dizer para que servem as chaves. Uma vez que já subentendeu que a corrente e respectivo moitão existem apenas para que o Mundo não se separe delas, nunca. Está agarrado!
Uma abre as portas do cofre, que faz os homens ricos,
Outra abre a do conhecimento, que faz os homens sábios,
Outra a da humildade, que faz os homens Grandes.
Sabemos ambos que a vida não é só estas três coisitas, mas, de momento são as chaves que temos (como vê, até as partilho consigo) para tentarmos viver com mais agrado.
Não me obrigue a dissertar sobre a felicidade pois não se sabe ainda o que significa e, na tentativa costumeira dos Portugueses em explicar o inexplicável, resultaria na sua infelicidade imediata, coisa que, pelo respeito que me merece, nunca farei.
Dizia eu que… temos três chaves apenas e, com elas poderemos ser, ricos sábios e grandes.
Continuo a utilizar o plural sendo minha intenção partilhar (ou compartilhar, como queira) o resultado da minha/nossa acção.
Está nas nossas mãos o equilíbrio, para que não fiquemos:
– Ricos, mas estúpidos e pequenos,
– Sábios, mas inanes e nada, ou
– Grandes, mas ignorantes disso e mais uma vez, delapidados.
E é precisamente aqui que eu peço a sua ajuda. Conto consigo?
Pontuação dos valores de Abril
A Troika, deveras admirada pelo meigo apego demonstrado pelos Portugueses, perguntou a Passos Coelho quantos zeros à esquerda possuem os tão falados valores de Abril.
Passos, indignado, responde que à esquerda não existem quaisquer zeros que sejam um valor Seguro, o futuro está nos zeros à direita!
No acumular de pequenas fracções irrisórias que geram milhares de milhões de euros em receitas. O segredo está na gestão da revelação da soma adicional de cada uma destas parcelas por forma a que a balança, cega, não dê pelo ultrapassar do limite de excesso de carga.
E sobretudo ter o cuidado de não fazer com que o povo deixe de virgular e passe a pontuar. Tal como na conveniente interpretação da legislação a continuidade do poder e governação alicerça-se na ínfima e grandiosa vírgula. Há que eliminar do raciocínio do povo a capacidade de exprimir qualquer pontuação.
O ponto de exclamação é o mais fácil. Basta ao melhor estilo Português lançar sucessivos boatos incendiários e/ou de corte e costura pelos canais oficiais não oficiais. Uns diz que disse, uns exageros, umas hipóteses no cimo da mesa, algo escandaloso como “cada Português terá de contribuir com um lingote de ouro no porão para lastrar o país” Algo que possa ser prontamente rebatido com contra-informação correctiva que introduza medidas retrácteis como “cada Português terá de contribuir com 1/100 de um lingote de ouro no porão para lastrar o país” Que mesmo sendo muito duras são uma grande melhoria vs o inferno que seria o primeiramente anunciado. Com o passar do tempo esse 1/100 poderá caminhar para 1/10 ou mesmo 1/1 sem que exista manifestação de espanto e repúdio devido à saturação com os enredos da novela governativa.
O ponto de interrogação exige mais coragem. Demonstração de uma firmeza rudimentar, de um quero posso e mando, em que um “Porque sim” ou “Sou o único capaz de indicar o caminho pois só eu detenho o conhecimento total sobre todo o cenário” são as respostas a todas e quaisquer questões pertinentes ou impertinentes. Esta é a forma de melhor instalar o “Não quero saber” ou “Não vale a pena” permitindo a tão desejada indiferença e desinteresse para com as decisões governativas. Perguntar para quê se a resposta é a cassete do costume?
O ponto final é o mais perigoso. Felizmente só pode ocorrer de 4 em 4 anos pelo que pode ser o foco total da atenção no último ano da garantia eleitoral, até porque obriga à anulação das medidas acima tomadas. Apesar de aparentemente antagónico, para evitar o ponto final, há que recuperar os níveis mínimos de pontos de exclamação e interrogação. A arte está em recuperar apenas aqueles que dão jeito! Para que então sejam ouvidos, compreendidos e aceites. Como efeitos colaterais podem surgir exclamações e interrogações relativas à escandalosa redescoberta da audição, compreensão e aceitação da voz do povo. A tentação para aplicar a receita, mais atrás prescrita, para a sua extinção será muito grande e deve ser evitada a todo o custo. A manutenção do virgular exige contenção nesta fase. Se tudo correr bem é evitado o ponto final e uma nova vírgula abre um novo e longo capítulo onde se pode respirar tranquilamente o renovado período de garantia governativa com a receita do costume.
No fundo, apesar dos cortes na área da Cultura, o nosso governo sabe que a boa vida é como a fusão de uma longa à la Manoel de Oliveira com um guião escrito ao estilo de José Saramago,
Um Dia o Sol Foi Meu
AVISO:
1º Um dia o sol foi meu! Que não haja dúvida!
2º O Sol que vos ilumina só é astro rei para os sub-lunares. Que sois vós.
3º O sol que aqui trataremos foi rei um dia e sê-lo-á sempre. Coisa impossível para outros sóis. Até as estrelas morrem; fazem puf…
4º O que aqui será dito é inteiramente verdade, factualmente e cronologicamente. Salvo aquilo que se entende, e pretende, como criação.
5º À criação tudo é permitido. Até mesmo colocar o Sol em movimento rotativo, como já aconteceu.
6º Para quem tem a tendência, porque os há, de por tudo em causa; mesmo aquilo que
d-escrevo; fica-lhes aqui a orientação remetida para o ponto 1º deste aviso.

Fiat Lux!
Com a chegada das andorinhas partiam os compinchas. Os afazeres domésticos agendados, alguns, desde as últimas férias grandes, tornavam os meus amigos mais atarefados que em tempo de aulas. Estávamos em férias grandes. Era uma freima.
Naquele ano, não sei porquê, os meus dois compinchas habituais estavam mais ausentes ainda. Ajudaram-me a levar o papel à farrapeira, algumas coboiadas, alguns pontapés na bola, umas idas à bouça e, murchou. O Mário parece que tinha ido visitar os seus familiares Galegos e o Júlio… o Júlio, olhem nem sei; mas que faltava à chamada habitual assobiada de cima do muro, faltava. Agora fiquei intrigado, porque faltou nesse ano?… Hei-de perguntar…
Tenho mesmo de saber porque nesse ano nem me ajudaram a arrumar a garagem.
Por isso andei por ali… não tinha irmãos, os meus primos já olhavam prá sombra das raparigas, e para elas mesmo parece-me, mas isso são outras conversas; a garagem estava ali… para ser arrumada… mas, também dali não saía… pintei as grades da varanda do jardim, lubrifiquei os estores com massa consistente, fiz uns recados, mas… Como se diria hoje, uma baita duma seca.
As únicas saídas que tinha, ali por perto, eram alguma entrega leve a uma cliente ou uma ida à farmácia. Sempre rápido, ia numa sandália e vinha noutra.
Foi numa ida à farmácia, mais precisamente numa vinda, que tudo mudou ao ser interrompido pelo meu tio Jerónimo de saída para não tenho nada com isso, Olá Zé, Olá tio, Está tudo bem lá em casa? Muito obrigado está sim senhor, E a tia como tem passado? Bem, para onde vais?
Vou agora mesmo para casa que venho da farmácia e… A avó está doente? Não senhor está tudo bem, Então vamos os dois, que eu quero falar com a tua mãe.
Com-a-mi-nha-mãe? Qé que eu fiz?
Olá Fernanda, Olá Jerónimo, Então tudo bem? (duas vezes), eu vinha cá convidar o zézito, se você deixar, para ir almoçar lá a casa, pode ser? Pode, quando? Agora, daqui a bocado. Então Zé agrada-te a ideia? Pode ser, obrigado. Ó Fernanda, levo então mais uma laranjada para o rapaz e ele assim vai já comigo.
Porta-te bem!
As mães, de todo o Mundo, deviam saber que os filhos só se portam mal em casa, em frente delas e dos respectivos maridos. Na casa dos outros são uns “anjinhos”, toda a gente sabe disso! Mas nunca resistem a envergonhar as crianças, que se sabem portar lindamente, com o inevitável; “porta-te bem”…
Tipo… ai… mete-me uns nervos…
Apresento-vos o casal, antes do almoço, senão vocês não percebem patavina do que estou para aqui a dizer. Se tiverem dúvidas perguntem. E não se façam convidados.
O meu tio Jerónimo era casado com a minha tia Laurinda, alguns de vocês conheceram, mas os mais novos não sabem como eram simpáticos e simples esses nossos tios (falo para vocês primos). Se há casais que deixam saudades pelas suas meiguices ao longo da vida este foi um deles, é por isso que, embora fossem também vossos tios, os trato assim, possessivamente.
A nossa família pode falar assim, possessivamente, de muitos tios. Conheci muitos e sei do que falo. Daremos tios de posse também, tenho a certeza.
Nem me lembro do conduto, o que se tratou no “almoço de trabalho” foi aeronáutica, e falemos disso. Vocês sabem como eu gosto de ser aéreo…
Ó tia, prometo que vos vou dedicar um tempinho, que bem merecem, para que esta meninada saiba quem foram, mas agora tratamos de engenharias, de construções, de elevações aos céus, de viagens e outros voos. Depois tia; está prometido.
Ó tio então e onde arranjo canas? Na Quinta da Pícua? Papel de seda tenho o da escola, goma-arábica arranjo na loja, fio peço à tia Alice, Não dá? Fio do Norte? Ó… isso só na drogaria; vou ao mealheiro. Rabo? Qé isso? Ah… para dar estabilidade… e o tamanho? Não! O rabo já sei. O tamanho do sol? Metro e meio? Mas… metro e meio é mais que minha altura!…
Vou arranjar as coisas e depois venho cá, domingo já devo ter as canas; depois venho cá.
Até me esqueci das despedidas, saltei as escadas, degraus dois em dois, olá prima Lurdes, até logo primo Albano e isto é segredo meu, construção clandestina Los Alamos de Águas-Santas, aeronáutica experimental em construção amadora, Alto! E o fio do norte, mas como é que vou arranjar dinheiro para comprar dois rolos de fio de norte?…
Na tarde combinada, estando os materiais devidamente aprovisionados e conferidos em quantidade e qualidade, iniciaram-se os trabalhos no hangar a que também se dava serventia de cozinha.
A simetria dos raios, seu comprimento e furação, a amarração central com precisão de bobinagem e a fixação das pontas das canas (da Índia por exigência), fizeram o conjunto aeronáutico duma limpeza que, ficamos certos, ao voar, o escoamento laminar perfeito impediria a perda imediata de sustentação. Nascia um aerodino.
Continuamos na célula. A fuselagem é tão importante quanto a estrutura.
A colagem dos gomos foi feita com um cuidado meticuloso de puzzle sendo o pincel muitas vezes introduzido de viés aperfeiçoando uma união já consolidada. As pontas das canas sendo boleadas exigiram um remate especial. As cores do papel de seda, em alternância, davam ao conjunto, um garrido que se assemelhava à alegria dos construtores de aeronaves.
Que bonito…
Antes de nós um construtor de aeronaves a sério tinha dito: – Se for bonito, voará bem!
Era o caso. Voará bem…
E eu, ainda de mãos pegajosas de goma-arábica e dedos golpeados da caça às canas tinha sido parte da aventura, era quase, é bom que se saiba para que me olhem com conveniência, engenheiro aeronáutico.
Na verdade fui mais assistente de engenharia, mais dá-cá-isso, de vez em quando chegamisso e finalmente chega-rebos, uma vez que no fim do rabo estava projectada e recebeu competente instalação, um saco com uma pedra que, poderia variar a massa em função das necessidades aerodinâmicas. Mas quem escolheu a massa fui eu!
Um Primor! Uma construção Mimosa!
Era a hora do lanche. Leite com torradas que até me está a crescer água na boca…
Ó tio, podíamos ir agora!
Não, vamos deixar secar e amanhã se estiver Sol vamos lançar o sol para a Caverneira.
Esteve Sol!
As operações não se resumiam a uns meros 10, 9, 8… e por aí fora até ao lift off…
Nada disso! Muito mais complicado, muito mais saber, muito mais engenho.
Estávamos na Caverneira! Isso de Canaverais é para amadores.
Briefing ao equipamento:
SOL – Ok,
RABO – OK (massa colocada e bloqueada),
AMARRAÇÃO – verificada e centrada,
FIO – livre e pronto a esticar,
VENTO – de frente, firme e estável,
MOTORES…
(não sei se os que me lêem sabem como se descola um sol. Se não sabem perguntem aos mais velhos e deixem de ser engraçadinhos OK?)
– Firmes!
A pista foi escolhida tendo em conta a orientação do vento e as condições do terreno, exigências técnicas que presentearam os aeronautas com uma vista lindíssima sobre o Mundo; que nos observava.
(quem conhece sabe que a vista da bouça (que ainda existe como tal) mesmo ao lado da Associação Recreativa os Restauradores do Brás-Oleiro é das mais bonitas do Mundo.)
O vento barlava suave de Setentrião, lado do bom tempo… corre!… corre mais… Mais!
Ergueu-se o aparelho em vida colorida, serpenteava o rabo em danças de dragão asiático, bamboleava a pedra ameaçando quem se intrometesse. Que beleza!…
A pilotagem era feita de coração ao pulos, como a alegria, rodopiou algumas vezes o astro mas sempre firme no seu querer de subir, que galhardia.
Durou que tempo? Minutos? Segundos? Horas não, mas o que é o tempo? Que importância é que isso tem! Ainda dura.
Até que soprou o Zéfiro regressado dos seus trabalhos equídeos. E regressou forte. Não foi cisalhamento mas uma faca que surgiu. O enfiamento perfeito, a subida firme, a postura airosa antes desta rajada, resultaram numa vrille descontrolada até às copas mais altas dos eucaliptos.
O que faz um piloto quando a sua aeronave cai?
Eu caí de joelhos. Chorei. Chorei olhando o arco-íris que o sol fazia entre a mais alta copa da bouça e os meus olhos. Nunca mais esqueci aquela luz. Passando lá, mesmo à noite, ainda a vejo.
A luz dum sonho que se eterniza.
(imagem retirada de http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/591638.html)
Revolução para um Novo Estado Corporativo
Nos 40 anos de 25 de Abril indiscutivelmente poderemos celebrar a liberdade e a democracia. Esta última existindo como uma ferramenta que não é culpada do uso inadequado que lhe é dado pelos executores da governação. Quanto a justiça e igualdade há ainda muito a fazer.
O sistema actual evidentemente está em colapso demonstrando cada vez mais ser uma fachada de interesses que procuram extrair a maior riqueza possível da sociedade e do planeta. Fizeram-no durante décadas, sem preocupação com danos colaterais, atigindo-se agora o limite do suportável em termos de sustentabilidade e tolerância. No passado a grande maioria dos estados já foram fortemente corporativos, característica comum a sistemas pouco democráticos onde ocorria a nacionalização monopolista da maioria da economia, tendo transitado para um liberalismo económico que procurava a distribuição da actividade económica sobre o maior número de indíviduos possível.
Décadas depois parece que em alguns sectores essenciais o mercantilismo está de volta. Seja no mundo, seja em Portugal. Sectores básicos da economia são dominados por empresas corporativas (nacionais ou multi-nacionais) que exploram um filão de consumidores garantidos. Todas as pessoas no mundo têm necessidade de água, energia, comer, cuidados de saúde, transportes, comunicar e ferramentas de gestão financeira. Estes são bens ou serviços essenciais à vida que devem ter um fornecimento e custo justo garantido.
Actualmente vemos o Estado a privatizar completamente vários sectores essenciais argumentando que o seu principal papel deve ser o de regulador e não de agente económico. A experiência de regulação no passado demonstra que é muito mais reactiva do preventiva tendo ocorrido sucessivos abusos em vários sectores como a banca, os combustíveis, etc, fazendo-nos por vezes passar por uma República das Bananas.
Ironicamente, com o passar do tempo, verifica-se uma concentração do peso da economia nacional num pequeno número de grupos económicos, alguns detidos por famílias poderosas. Em alguns sectores o liberalismo deu lugar a um novo mercantilismo, com dois ou três grandes players a disputar um mercado de milhões de consumidores garantidos e milhares de milhões de euros, que pode ser considerado ‘legítimo’ pois a nova posição de poder foi conquistada a pulso. Felizmente alguns deram-se ao trabalho de escavar acabando por traçar o desenho da maior parte do nosso ecossistema político-económico evidenciando a sua falta de diluição em termos de principais agentes e decisores económicos.
O que me leva a perguntar para que queremos um Estado regulador incompentente se podemos ter um Estado regulador interveniente? Nada regula melhor o mercado do que um concorrente que proporcione serviços básicos a custo justo. Esse concorrente será sempre o patamar mínimo da qualidade de serviço que só poderá ser vencido por oferta de serviço de melhor qualidade ou pelo mesmo nível de serviço a menor custo.
O Estado pode e deve ser um agente económico activo nos sectores essenciais à vida e à sociedade. Deve ter capacidade de gestão de empresas estatais, geridas como empresas privadas, não deve ter pudor em beneficiar de lucros que obtenha dessa actividade que pode aplicar em investimento ou canalizar para suprimir a despesa do Estado. Existindo uma gestão adequada, e não politizada, é quase impossível o prejuízo em sectores com consumo garantido. Para um Estado Corporativo com preocupações sociais ter empresas que não gerem lucro, ou mesmo que tenham prejuízos ligeiros, podem ser comportáveis e justificáveis, desde que devidamente compensadas com outras mais lucrativas. A sustentabilidade não deve ser vista por empresa mas sim pelo Estado Corporativo global. Alguns exemplos de bens e serviços em que o Estado deveria estar ou manter-se presente e porquê:
- Alimentação e Distribuição – pelo menos a nível da Agricultura o Estado deveria estar envolvido na dinamização e comercialização da produção nacional. Depois de aniquilados os pequenos mercados e praças locais temos hoje as grandes superfícies a praticar preços proibitivos nos chamados ‘frescos’. Pelo menos criar uma rede de atalhos locais entre produtores e consumidores iria dinamizar produção e trazer justiça à sua comercialização. Hoje as grandes superfícies são a única grande solução para escoar produtos e a não existência massiva dessa oferta noutros locais concorrenciais só ajudam a reforçar ainda mais essa realidade.
- Eléctricas – é a fonte de energia mais utilizada, é obtida a partir da exploração de recursos naturais e é um bem essencial que deveria ser garantido a quem não tenha rendimento para garantir o funcionamento de 1 TV, 1 Frigorífico e iluminação nocturna desde o pôr-do-sol às 00h;
- Petrolíferas – ainda a maior fonte energética utilizada para alimentar a locomoção de meios de transporte;
- Águas – essencial à agricultura e à vida, elemento fundamental de acções de saneamento e limpeza, obtida a partir da exploração de recursos naturais e é um bem essencial que deveria ser garantido a quem não tenha rendimento para garantir cozinhados e higiene mínima aceitável;
- Banca – ter um NIB é elemento essencial a muitas acções do quotidiano, desde a procura de emprego, pagamento ou recebimento de contas ou impostos e deveria ser garantida a existência de uma conta a custo zero a cada cidadão e sem comissões pelo menos para cidadãos com rendimento abaixo de determinado valor;
- Educação – um sistema de ensino público deve continuar a existir com a maior abragência e qualidade possível com taxas de gratuitas a um valor justo em função dos rendimentos;
- Saúde – o SNS deve continuar a existir com a maior abragência e qualidade possível com taxas de gratuitas a um valor justo em função dos rendimentos;
- Transportes – deveria existir uma rede de transportes públicos (não interessa se rodoviária, ferroviária, marítima, aérea ou mista) a garantir a ligação da maior parte possível do território com preços gratuitos a um valor justo em função dos rendimentos;
- Comunicações – garantir serviço mínimo de distribuição postal, TV, internet e telefone. O envio de correspondência, 4 canais, largura de banda de 2 Mbits e possuir telefone fixo deveriam ser uma base gratuita para os portugueses sem rendimentos e daí para frente ter custos e níveis de serviço justos. Não existe operadora que dê resposta a quem queira apenas os canais portugueses e/ou internet por exemplo. A base mínima de serviço triple pay anda sensivelmente nos 40 € / mês após período promocional da adesão. Os clientes são hoje obrigados a um tudo ou nada conformando-se com a falta de opções.
E assim teríamos um Estado regulador através da concorrência saudável que garantiria os serviços mínimos com custo justo a quem com eles se satisfaça. Uma acção de regulação passaria não por fiscalização e sugestão mas por real política comercial mais ou menos agressiva em função da tendência de preços e relação com consumidores vigente em determinado sector. Um combate aos cartéis utilizando a sua linguagem e as suas armas.
Garantido o essencial para ter uma sociedade mais justa e equalitária deixemos aos empreendedores o complementar dos serviços básicos com o criar e fornecer outros bens e serviços inovadores ou especializados. Ao longo do tempo podem ser encerradas e criadas novas empresas estatais à medida que desaparecem e surgem bens e serviços considerados essenciais.
O Estado Corporativo estaria então omnipresente na economia de primeira necessidade sem ser monopolista nem um concorrente agressivo em busca de conquista de maior fatia de mercado. Tudo isto com plena separação de poderes entre a acção governativa e a gestão empresarial destas empresas.
Um desafio para uma revolução futura?
Et pour cause …
Liguei a televisão e não conseguia acreditar no que via: milhares de pessoas, gritando, saltando, ocupando as ruas de Lisboa, num frenesim sem par.
A primeira coisa que me ocorreu foi que a Revolução estava na rua. Finalmente, ao fim de anos a aguentar uma classe política corrupta e incompetente, a aguentar a chegada dos jotinhas ao poder, a aguentar o desmando daqueles que nunca tinham feito nada na vida, finalmente as pessoas tinham saído à rua.
Não hesitei. Corri para o quarto para trocar de roupa. Para vestir a minha roupa revolucionária. A roupa que tenho guarda para usar no dia em que, finalmente, saírmos à rua para mudar as coisas.
Cinco minutos. Não demorei mais de cinco minutos e estava pronto. A adrenalina percorria-me o corpo e só pensava em encontrar as chaves do carro para me fazer à estrada e chegar à capital. Não mais de 20 minutos. Não mais de vinte minutos para ajudar a fazer história.
Durante todo esse tempo pensei no meu ordenado reposto, recuperado dos 40% de cortes que sofri nos últimos anos. Pensei no bom que seria não ter que continuar a fazer contas ao cêntimo para a comida chegar ao fim do mês. No bom que seria ter mais uns cobres para a gasolina de forma a poder estar mais vezes com a minha filha. E pensei nas centenas de milhar de pessoas que vivem com um ordenado mínimo que mais não é do que uma pensão de miséria para não se morrer à fome. Pensei nas crianças que não necessitariam mais de ir à escola durante o período de férias para poderem ter uma refeição quente – apenas uma refeição quente. Pensei nos nossos velhos que teriam, agora sim, dinheiro para comprar os medicamentos de que precisam, dos hospitais a funcionar normalmente, das escolas com obras feitas, e por aí fora.
Emocionei-me. Emocionei-me a pensar que seria desta que algumas empresas passariam a pagar os impostos devidos e não apenas impostos sobre uma percentagem dos lucros enormes que têm, pensei que finalmente se pegaria nos mais de 10.000 institutos e fundações públicas e que se encerrariam aqueles que servem apenas para dar empregos às cliques partidárias, aqueles que têm mais administradores do que trabalhadores, que acabaria a palhaçada da entrada na administração pública de milhares – repito, de milhares – de meninos dos partidos, com contractos obscenos enquanto se pretende ‘dispensar’ uns milhares de funcionários que entraram por concurso público, com provas feitas.
Pensei, na realidade, que o povo tinha saído à rua para cumprir Abril, ou seja, para finalmente criar um país justo e solidário, um país onde todos têm lugar numa lógica de respeito e solidariedade, onde quem tem mais ajuda quem tem menos e quem tem menos se dedica afincadamente a criar uma vida em que possa vir a ter mais.
Finalmente encontrei as chaves do carro. Em cima de uns livros numa estante carregada de mais livros, essas coisas que vão caíndo fora de moda e que nos dão a ilusão tão importante que é o sonho.
E foi então que ouvi, vindo da televisão que me tinha esquecido de desligar, os gritos cadenciados: “Campeões, Campeões, nós somos Campeões”.
Estaquei, estarrecido. Um frio percorreu-me de alto a baixo enquanto me aproximava do maldito aparelho, esperando que aquilo não tivesse sido mais do que um sussurro perdido, uma ilusão.
Não era.
O Povo saíra à rua, sim, mas não para lutar por uma vida melhor, não para lutar por um país melhor, não para lutar por um futuro melhor, mas sim para celebrar o futebol. Para celebrar a vitória de meia dúzia de broncos, incapazes de criar uma frase com princípio, meio e fim, que ganham, tantos deles, em dois meses ou três, aquilo que alguém não ganha numa vida inteira de trabalho. O Povo saíra à rua para gritar hossanas a quem, com fortunas assim, paga impostos reduzidos, a quem se reformará aos trinta e poucos e não precisará nunca de ter uma vida útil.
Comecei a tirar a roupa da Revolução. Larguei as chaves do carro em cima dos mesmos livros de antes e não pude deixar de pensar que pena é existir um país assim.
Tachada inqualificavelmente típica
tacho (origem obscura)
substantivo masculino
Utensílio de cozinha, geralmente metálico, pouco fundo e com asas, usado para cozinhar ao lume.
[Informal] Emprego rendoso; colocação que dá regalias e bom salário. = CONEZIA, MAMA, PREBENDA, SINECURA, TETA,
“tacho”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
Hoje é dia de dar largas à imaginação na cozinha. Decidi fazer uma pratada tradicional portuguesa como uma boa desculpa para juntar 10 milhões de pessoas à mesa e servir um tacho.
Ingredientes:
- 1 Cebola grande
- 2 Tomates maduros
- 4 Dentes de alho
- 1 Batata média;
- 2 Molhos de espigos
- 2 Colheres de sopa de mostarda
- 1 Coelho
- 1 Cravinho
- 1 Copo de vinho tinto
Preparação:
- Picar a cebola bem picadinha até estar em prantos;
- Cobrir de azeite o fundo de um tacho (com tampa), juntar a cebola picada e deixar refogar;
- Não cortar os tomates. Guardá-los para uma próxima manifestação em frente à Assembleia. Podem vir a ser úteis;
- Usar o alho para afugentar os maus espíritos;
- Lavar bem os espigos e cortá-los em pedaços;
- Juntar os espigos, envolver bem e deixar suar;
- Colocar a batata em água a ferver. Quando estiver quente… passar ao próximo;
- Cortar o putativo líder em pedaços pequenos e adicionar mostarda até lhe subir ao nariz;
- Deixar cozinhar 4 anos com tampa em lume médio.

Et voilá! Sirva um prato inqualificavelmente típico, cheio de portugalidade. Sirva com um cravinho de 40 anos e um copo de vinho de tinto.
E se começasse a funcionar o Povocíonio… o verdadeiro!
E se um dia as coisas fossem mesmo assim…
Mais uma vez vem a cena a obrigatoriedade de voto, curioso ou não á porta de mais umas eleições, parece que o modelo está até a ganhar adeptos, ou pelo menos a reavivar-lhes a memória.
A ideia não é descabida de todo, tanto não o é, que existem países a aplicar esta prática.
Pode até ser uma ideia mirabolante, mas se acompanhada de normativos transparentes da gestão partidária seria benéfica, caso contrário estarão novamente com meiguice a circundar o problema sem ir ao cerne da questão.
Para a generalidade, possivelmente uma alteração proveitosa e não tão estranha como ao início possa parecer. Certamente que uma grande maioria dos recenseados são pais e como tal já se habituaram a uma nomenclatura similar que é o Paitrocínio, largamente aplicado numa infinidade de pequenos clubes e colectividades em que os seus petizes praticam desporto.
O paitrocína os treinos porque custam dinheiro, os equipamentos porque são caros, pagando assim para fazer publicidade, as deslocações porque são onerosas e por aí fora…. Almejando que um dia os catraios tendo jeito, se apaixonem pela modalidade e quem sabe mais tarde ter a sorte de terem sucesso e serem miseravelmente compensados por engrandecer o nome da nação cá dentro e lá fora, sim porque os Ronaldos são uma ínfima percentagem dos desportistas. Tempos houvera que não era assim provavelmente nos tais, que agora nos dizem, “Vivíamos acima das nossas possibilidades”.
Ora quem equaciona a obrigatoriedade de voto, quase sempre “á margem” de qualquer coisa, fá-lo também pela rama da coisa, dizendo que “… pelo menos nas legislativas”, evitando comentários opositores. Realmente o que se pretende é que com isso se aumentem as receitas directas aos partidos, porque cada voto vale dinheiro.
Morreriam assim as subvenções partidárias e as suas veementes oposições, digamos que desta forma era tudo mais simples, “voto obrigatório, dinheiro em caixa”!
Sobejamente sabido é que todos os actos eleitorais estão intrinsecamente relacionados com as forças politicas, assim sendo, demagogias á parte podem mesmo ser obrigatórios os votantes em todas as idas às urnas.
Cada cidadão quando lhe é dado o título de eleitor, passaria também desde de que empregado, voluntariamente e ser obrigado a filiar-se partidariamente, porém sem direito a período de fidelização. Pagaria uma cota mensalmente de 1 euro, imaginem só o dinheirão que não é 1 euro mensal por cada eleitor, sendo que para o próprio é pouco mais que uma bica. Assim fosse e a melhoria seria significativa, a preocupação primária seria levar os níveis de desemprego a mínimos históricos…
Em números actuais seriam bem mais de 500 mil euros em receitas mensais!
A obrigatória promiscuidade de muitos deixaria de fazer sentido acabando o medo das represálias, ficaria sabedor da cor do chefe ou do vizinho sem preconceitos. Liberdade total dispondo da mesma facilidade de quem ele elege. Todos passariam a parafrasear a velha máxima até agora exclusiva desses círculos, “O que ontem era verdade, hoje deixou de o ser”… Mudei!
Seria até um brio exibir o recibo de salário aos amigos dizendo, tás a ver aqui abaixo do desconto para o sindicato… Este mês patrocinei o meu partido!
O eleitor faltoso, ficaria voluntariamente obrigado e pagar uma coima em caso de falta injustificada. Como ninguém gosta da faltar ao acto sabendo que este até já custou uns cobres, lá iriam firmes e hirtos. Os aparelhos partidários passariam finalmente a ser possuidores da tão pedida transparência, oferecendo os serviços por um valor fixo e como na maioria dos restantes casos.








