Jota Kafka
(antes do almoço), portanto, de manhã.
A porta dos sustos estava ali mesmo em frente, escancarada, directa para a rua; e dela escoava um rum-rum, era mais um zum-zum, de muita gente que mastigava ondes quandos e porquês.
Embora muitos lessem só o jornal grátis, e em silêncio.
Entrou, procurou indicações, leu letreiros, colantes, avisos e dirigiu-se à máquina das presenças. O aparelho cuspiu um A49 em papel acetinado, seguido de quarenta e nove, e «Ah!» disse ele quando na pantalha mural viu o A15, actual piscante. São dez horas, já foram atendidos quinze, faltam 33. Ora, se numa hora foram 15, vai ser rápido. Dlim-Dlam… «vês!», disse se si para com ele, já chamam o dezasseis…
Apertou o Castelo no sovaco, enrolou o guarda-chuva, procurou assento e exalou um «Aguardemos» resignado.
O corredor de espera, porque não se tratava duma sala, estava apinhado de contribuintes, talvez um cento, quem sabe, não sei, não quero contribuir para o confundir ainda mais, não a ele, a si, meu leitor; nem impor um número para pintar a cena. E apinhada, é uma maneira de falar porque, o entrançado de pessoas era tal que mais parecia um enramado; enfim é o que sói dizer-se quando já não cabe mais uma sardinha na lata, que era o que parecia o ambiente, tal a quantidade de alumínio e aço inoxidável nas paredes. E mesmo contribuintes, meu querido, não sei não, ninguém estava ali com vontade de contribuir com coisinha nenhuma, que isto de impostos, são mesmo o que a palavra quer dizer, uma imposição, portanto, olhe, infligidos?, obrigados?, obrigados também talvez não, pois induz a uma retribuição, olhe!, talvez seja isso mesmo; re,tri,bu,i,do,res. Embora ninguém lhes tenha dado nada para devolução posterior.
Sentou-se, desfolhou, «esta agora, onde tenho os óculos?» ouviu-se. E saiu. Todos o olharam. As conversas não pararam, nem mesmo aquela senhora afónica que contava os motivos da vinda e nunca mais se ia; todos olharam. Deve ser o tédio da espera, quando alguém sai da postura, altera o cromatismo do ambiente e chama a atenção, e daí as pessoas olham, curiosas, olha aquele, agora ficou a espera descomposta, borrou a pintura, estava ali tão bem sentado e, olhe, ó senhor?, que lhes hei-de fazer, irra, cuscos!, vou só ali ao carro buscar os óculos!, as letras são pequeninas! Nada!, estou a brincar consigo, então acha que aquela mole de gente se havia de importar com mais um que abandonava? Ficavam era todos contentes por ser menos um no estorvo. Tudo continuou na mesma com a diferença de ter perdido o lugar sentado, para nunca mais. Pelo menos pensa-se que sim.
Já agora, quero deixar bem esclarecido que, quando o tratei por ‘querido’, não o fiz por excesso de confiança mas sim por amizade à paciência que normalmente manifesta em ler o que lhe conto de viva voz. Aliás, aquela senhora ali ao fundo é que poderia ficar ofendida uma vez que, não gosta que lhe troquem o género. Grato por compreender.
Voltou, conferiu a posição e, «Ah!» interjeitou, «ainda no A16?» Que se teria passado? Que estranho avanço desenvolveria o Dlim-Dlam da máquina, se aquilo não avançava? Foi verificar. Constatou que, como há quinze minutos atrás, a mesa 5 estava com o mesmo casal e a mesma funcionária e, as mesas 1, 2, 3 e 4 permaneciam vazias de funcionários e clientes.
Voltou ao corredor de espera e; não, ninguém olhou desta vez. A senhora afónica continuava na sua voz de flanela eriçada a despejar o gasganete. Procurou a pantalha e, o que viu!, os tempos de espera de Portugal inteiro estavam a ser apresentados em pequenas barras verticais a lembrar termómetros, mas, sem tempos. Não sei se me faço entender. Espreite aqui, está a ver aquele grupo de barras verticais que lembram uma flauta de pan? Ora na pontinha devia estar o tempo que demora o atendimento em Portalegre, em Castelo Branco, em Freixo de Espada à Cinta, e por-aí-fora; mas não, não sabemos quantos minutos (ou horas!) demora atender cada cliente. Não sabemos até, se será hoje!
Procurou um balcão de informações. Aí sim, toda a gente olhou outra vez. Reolharam pronto, que isto é mesmo assim, quando uma pessoa começa a buliçar numa fila de atendimento, não há quem resista a botar os olhinhos.
Nos entretantos, lá do fundo, ora veja, lá do fundo, vem um senhor simpático, o sr. Aníbal Alfaiate, muito prazer, que, na tentativa de ajudar, diz ao nosso Jota que não se pode fazer contas às médias aritméticas do tempo despendido por cada cliente a ser atendido porque há casos mais demorados que outros, outros mais complicados ainda, o que demora ainda mais tempo, e, por isso, temos de ter paciência. De ter não; que ter!
«Muito obrigado», sibilou o nosso Jota. «É que sou novo nestas coisas», resibilou. «O sr. é que como alfaiate deve estar habituado a atender muita gente e com medidas diferentes, mas eu…». Ao que o sr. Aníbal respondeu, «eu sou mecânico de automóveis e sou a seguir para pagar a décima; felicidades, que lhe corra tudo bem.»
Está bom de ver que aquele companheiro de espera veio exasperar bastante o nosso herói. Pois se a coisa nem andava nem desandava, como poderia correr? E que nem bem nem mal, mas enfim. «Assim, como assim, já que tenho a manhã perdida vou ler a informação importante espalhada pelas paredes até ser atendido.» disse o nosso herói.
Sei que já reparou que tenho tratado o público em geral por clientes (sem ofensa) e o nosso Jota por herói. Porque é disso que se trata, dum herói!
Quanto a Jota, que abreviarei para Jponto, é o nome de baptismo, sendo o Kafka de família, pela parte das circunstâncias e narrativas bizarras, e, como todos nós, J., é “um homem e a sua circunstância”, e nisto, talvez se salvem as mulheres e crianças.
Saberá o amável leitor que tudo tem limites e, quando J. viu agrafado na parede um nota informativa em papel A4 dizendo que quem tivesse papeis acetinados ‘E’ podia não ser atendido no mesmo dia da chegada, caiu de joelhos. Calma… calma… é metafórico; até porque J. tinha papel acetinado ‘A’. Já não se lembrava? Pois é, mas agora imagine que ia, como qualquer Português que se preze, pagar a sua colecta, mesmo que fosse derrama, no último dia do prazo hã?, que fazia hã?, claro que também caía de joelhos ao ler semelhante.
No caso de J. o caso é mais simples mas, mais insólito. Insólito talvez não seja bem a palavra uma vez que o que lhe contarei acontece frequentemente, no entanto, não deixa de ser estranho. J. estava preso. Sabia que não ia mais ser atendido durante a manhã, nem tinha a certeza de ser atendido de tarde, só que, e este só é para não nos alongarmos, estava escrito noutra folha A4 que os ‘A’ teriam de aguardar até às doze e trinta, para que um funcionário viesse validar o número em sorte para que pudesse ser reconhecido de tarde, às catorze horas. E como, tanto podia ser um funcionário como podia ser uma funcionária, vou deixar aqui escrito, sem medo a criticas que seria, alguém.
De maneira que, embora tenhamos já falado muito e acontecido outro tanto, são ainda, e só, dez horas e trinta minutos, e, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, o número da pantalha mantém-se firme há meia hora no ‘A16’ e, nem o pai morre nem a gente almoça.
«Mas porque carga de água não posso sair para almoçar agora, e voltar de tarde?»
«Já agora, como tenho tempo, vou lá fora ver o tempo. Há bocado não chovia.»
Nem preciso de lhe dizer que as anteriores duas (2) afirmações são no nosso J., sendo que uma é uma interrogação e a restante uma afirmação com uma dúvida no fim.
Agora nós, eu para vós.
E, uma vez que este fandango vai demorar, e nós não queremos fazer sofrer o alheio (o J. também concordará) vá, se faz o favor, almoçar que cá nos encontraremos no pós-repasto.
Bom apetite!
E, esqueça agora o sub-título, que não há nada como uma barriguinha cheia para resolver
esses imbróglios.
(continua)
sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.
O Valor das ‘Não Coisas’
Hoje as pessoas não têm tempo para nada. Nem para conversar.
Se não é o trânsito…
O amigo que vendia férias
O Agostinho foi o maior felizardo que conheci; tive até inveja dele. Sabe porquê? É que o Agostinho, que não vejo faz tempo – Olá Agostinho!; vendia férias. Ólarilas!… o Agostinho tinha tempo livre para vender, e mais, era um tempo que se desmultiplicava ao ponto de poder ser sempre dividido! Olé!…
Veja o que as pessoas conseguem para ganhar a vida.
A empresa dele chamava-se, veja só, “Não Faça Nada – Time-Sharing, Lda.”
O “não faça nada” está-se mesmo a ver, eram as férias, o “time-sharing” era a tal desmultiplicação da coisa (ou multiplicação… dependendo do “ponto de fuga”) e; a cereja no bolo era o “lda.”; porque, ele, de limitado não tinha nada. Vendia tempo livre desmultiplicado a toda a gente e toda a gente lho comprava. Havia tempo para todos! Ai ninas!…
Há qualquer coisa no “fare niente” muito “dolce” para que toda a gente o queira, não é?
Olha!… já anda a bicha… talvez ainda cheguemos a tempo.
(eh eh eh!; cá em cima chamamos bichas às filas… você sabia?)
Hortas de carros
Quando era catraio (sim!, já fui catraio também…) ouvia os velhotes dizerem que um bocadito de terreno, era a fartura das famílias. Qualquer bocadito de chão dava para plantar couves e novidades e ainda se arranjava um cantito para o esgravatar da criação.
Agora, olhe ali!… vê?, num retalho entre muros medra uma plantação de carros em segunda mão, brilhantes como em primeira.
Em cada esquina, em vez de couves, nabiças, alhos, feijão verde, etc., galinhas, patos, perus, coelhos e afins, temos; carros em segunda mão a brilharem de novos.
Porque será que as pessoas se desfazem assim dos haveres, ainda tão novos? Já pensou?
Vá lá… já seguimos de novo. Até estou a gostar do viscoso do trânsito; dá para a cavaqueira, que já tinha saudades.
As lojas do “compro ouro”
Ali no último cruzamento, você não reparou; estava uma loja da moda. Se olhar para trás ainda vê… vê?, isso mesmo!
Toda a gente dizia mal dos chineses (cala-te boca, que nos cortam a luz…) que estavam em todo o lado, em qualquer esquina; enfim… Agora são as lojas do ouro. Que se compra ouro cobrindo qualquer oferta. É forte hã… cobrindo qualquer oferta!
A aflição das pessoas… Levam ali os anéis para ficarem com os dedos é o que é.
Nunca vi tantas lojas destas; deve ser muita a desgraça e precisão.
Já viu bem que se abrem lojas e vendem franchisingues alimentados a desgraça?
Montemos o negócio
– Diga? Não; estava aqui a pensar, não era propriamente a falar consigo agora, mas mais com os meus botões.
Pode ouvir… pode até; olhe… pode até ser meu sócio caso queira e tenha tempo.
O negócio é o seguinte; uma loja de tempo. Isso mesmo!, comercialização e distribuição de tempo. Vai chamar-se Tempo & Bom Senso, SA.
Porquê bom senso? Ó criatura! Porque já não há nem se fabrica.
Ponha lá uma moedinha no parcómetro que isso ainda é um negócio onde nos havemos de meter; vender espaço consoante o tempo!
À Vossa atenção:
Este texto foi publicado a 11 de Jan. de 2012 na página “Ao Leme – Grupo Aberto”, no n/vosso conhecido facebook.
Ao tempo floriam como cogumelos as “lojas ouro”, onde já tinham sido bancos, onde já tinham sido cafés, onde agora se instalam “lojas do cigarro electrónico”, onde amanhã, espero, estejam cafés novamente.
E digo, novamente, não, outra vez. Porque espero que nos tragam, outra vez, algo de novo.
Grato por lerem. Convido a um cimbalino, ali, na habitual mesa da montra, onde passa a vida.
Obrigadinho.
sobre a figura: Apanhada no trânsito da WEB, sem paternidade registada.
As Europeias
Agora que já lá vai mais de uma semana e que o PS está em polvorosa, para gaudio do PSD e do CDS – que se fossem inteligentes apanhavam a boleia do chumbo do Tribunal Constitucional e demitiam-se, provocando eleições antecipadas e deixando o PS num caos – acho que é tempo para se fazer uma análise, ainda que breve, dos resultados da Eleições Europeias.
Estas eleições apresentam, essencialmente, um sinal dominante: a Europa caminha, a passos largos, para a sua própria implosão.
Hoje em dia, ultrapassadas as duas dezenas de milhões de pobres no espaço europeu, o ideal original da União Europeia está deitado por terra: uma sociedade solidária, desenvolvida, geradora de riqueza e bem-estar parece, cada vez, mais afastada. Na verdade isso não é completamente de estranhar. O ideário da construção da União Europeia – ainda quando Comunidade Económica Europeia – era um ideário de raiz democrata-cristã e social-democrata. A evolução dos últimos vinte e cinco anos – essencialmente depois do fim do bloco comunista – apontou para um ideário neo-liberal. E essa diferença é toda. Na verdade, a Europa abdicou das pessoas para apostar nos grupos económicos dominantes do sistema internacional sem compreender que sem pessoas não existe, de facto, progresso. E sem compreender que uma democracia em que as pessoas se sentem afastadas tende, a prazo, para o autoritarismo. A história mostra-nos isto vezes sem conta: nenhum sistema consegue sobreviver contra as pessoas.
Se recuarmos uns anos – eventualmente bastantes – percebemos isso perfeitamente. A Revolução Francesa de 1789 foi o resultado do ultrapassar de todos os limites que a sociedade da época permitia. A vida miserável de milhões de pessoas em França, que conviviam com um número mínimo de gente rica, lançaram as bases da República moderna e da Democracia. No entanto, a falha do novo regime em satisfazer as necessidades do Povo levou aos excessos ditatoriais que se seguiram à revolução e que se perpetuaram até Napoleão III.
A Liberal Inglaterra, democracia onde apenas uns quantos votavam e onde uma parcela larga da população vivia na mais abjecta miséria, teve que se reformar mais ou menos à força.
Os Estados Unidos, hoje a pátria do neo-liberalismo, foi em tempos a pátria da jornada das 8h, depois de uma luta dura com os operários.
Na Europa Continental as reformas, infelizmente, passaram sempre pelo recurso à força. E a incapacidade em compreender, aceitar e tentar realizar os anseios do povo levaram, por regra, às ditaduras e à guerra. A Alemanha do primeiro terço do Séc. XX é um claro exemplo disso. Como o é a corrupta Itália democrática que deu origem ao messianismo de Mussolini com as consequências que todos sabemos que teve.
Olhando para a história e para a Europa de hoje só podemos concluír pela ignorância boçal dos dirigentes europeus. Aqueles que falam sistemáticamente dos mercados sem nunca referir que os Mercados não passam de pessoas, como todos nós, que se distinguem pelas quantidades ofensivas de dinheiro que controlam e que se acham no direito de tornar reféns Estados e comunidades inteiras apenas para fazerem mais e mais dinheiro.
As eleições europeias mostraram que uma grande parte da população da Europa está tão desiludida com o projecto europeu que já nem se dá ao trabalho de votar. E que os que se dão ao trabalho de votar vão para as franjas à procura de uma salvação que não percebem não existirá aí. Isto porque as franjas, a prazo, se transformam no pior: no apagar da liberdade e das escolhas, no fechar das comunidades aos outros, na regressão económica porque o proteccionismo tem sempre como resultado o proteccionismo dos outros, tornando o mundo uma coisa menor.
E pergunto-me: o acontecerá a Portugal se o sonho europeu morrer? O que nos acontecerá se perdermos esse mercado grande que absorve a maior parte do que produzimos?
O fim da Europa de hoje significará, para nós, não apenas o incómodo de ter que voltar a andar com um passaporte no bolso e cambiarmos a nossa moeda por outra qualquer. O fim da Europa significa para nós o afundar de uma economia que não tem dimensão nem valor. Não tenhamos ilusões: numa Europa de novo com fronteiras não poderemos competir com os outros nas tecnologias porque os outros terão as deles e não deixarão entrar as nossas. Não poderemos competir com os outros na inovação porque eles terão a deles e não deixarão entrar a nossa. Não poderemos competir em quase nada porque as fronteiras deles nos estarão fechadas. Regressaremos ao país sem recursos e de solos pobres onde apenas prosperam o vinho e o azeite. Voltaremos, em grande parte, ao Portugal do Séc. XIX.
Era sobre isto que convinha pensarmos, em vez de andarmos por aí a assobiar para o lado fazendo de conta que a História não está a acontecer.
VOLTA-FACE! STOP.
Cedário
Escreveu aquilo com um calor de segredo.
Como nos mercados, nunca saberemos se a precedência se passou com a oferta se com a procura; o certo é que o mancebo se deitava com o cabrão e se levantava com a cabra, ocupando o quarto de hora académico com as poucas orações que sabia e o puxar de orelhas à cama rebuliçada desde que o badalo repicara a derradeira.
Era olhado como um valdevinos na Academia, visto até como femeeiro! Veja o que são as más línguas.
O facto de emparelhar com aquele velho sargento-mor conhecedor da vida real, de amiudar nas melhores casas da Rua Direita, ligeira tergiversação do curso a que o propuseram, e de ter horários inconsonantes com os restantes, tinha-lhe até melhorado o vocabulário, do serrano para o universitário como se leu finalmente em ‘B’. Conhecem-se hoje até, e pretende-se demonstrativo da aplicação do académico ao falar Coimbrão, algumas propostas à inclusão na Gíria dos Estudantes, de expressões vertidas no calor dum momento, numa refrega dialética ou outro raciocínio metódico, sendo importante referir para o bom andamento do que aqui se leva em conta que, muito do que foi dito, o foi também graças à companhia do Alfredo, desde a Pampilhosa, e à abertura de espírito que davam os tintos servidos para amparo do coração quando ouvido um fado mais apelativo do sentimento. É também inegável, e por isso se confessa, que muito do que aprendeu o deve a reputadas presenças femininas de arejados pensamentos e fazeres, que alternavam entre a costura e os trabalhos domésticos.
Ora adeus!… e o resto são maldades…
Mas regressemos a Chaves e aos preparativos da quadra que se avizinha, que de ruindades está o Mundo cheio e o que nós precisamos é de paz e harmonia. É ou não é?
Os cuidados da Maria do Amparo, já se podiam sentir nos arranjos da casa. Enquanto a Senhora Dona Maria do Carmo bordava uma toalha de consoada carregada de azevinhos, prendinhas, laçarotes e meninos Jesus, ela arejava o quarto do estudante, trocava as naftalinas, escovava colarinhos, mudava cortinados, encerava o soalho e esperava ansiosamente que o seu menino, porque também o era, regressasse de tão longe para o aconchego do lar «o meu Bastiãozinho, quase doutor, vejam lá», lacrimejava a Maria do Amparo ao limpar o pó do “passepartout” de prata que lhe tinha oferecido pela comunhão solene.
O capitão, esse, bufava aos quatro ventos a impaciência da espera por um telegrama urgente «estes serviços públicos!…» precedente de Coimbra com destino ao Posto dos Correios de Chaves remetido por Sebastião Júnior para Sua Excelência Sr. Capitão Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção.
Mandava balanço! Um filho assim, quase doutor a tratar o pai com aquela pompa… assim sim, valia a pena a despesa da alta mesada, os cuidados num reforçozinho quinzenal, sim, que um homem tem as suas necessidades… e outros mimos a que não se furtava de enviar ao cuidado do Malaquias, agora sargento-mor no Aquartelamento de Sant’ana. Um camarada!
Chegada a missiva «finalmente, pôxa!…», sentou-se nos bancos fronteiriços ao posto e «ora vamos lá ver… deve ser o dia e hora da chegada», desembainhando a unha mindinha para abrir o sobrescrito, ó Sr. Capitão!, então! foi derrubado com uma frase, que o tombou redondo para cima duma senhora sentada ao seu lado que soltou um gritinho de aflição ao ver esbardalhada a corpulência castrense do Sr. Capitão. Ai Jesus!; disse. Perdeu os sentidos; viu-se.
Imediatamente se chamaram uns recoveiros que, como era perto, o pegaram em charola e processionalmente o levaram ao repouso do quarto. Que maçada; o senhor doutor já vai a caminho.
A Sra. Dona Maria do Carmo atarantada com o acontecimento segurando numa mão o copo com água açucarada e na outra um papelito orientava a Maria do Amparo que submetia aos lombos do Sr. Capitão uma almofadinha bem pensada «por môr de lhe amparar as cruzes, Sr. Capitão».
Quando o oficial veio a si, pediu recato e disse à esposa que «não se faz!, tantos cuidados desde catraio, a melhor escola, os melhores cortes no alfaiate, Coimbra… para agora, valha-me Deus, para agora me faltar ao respeito com uma só frase… não se faz…» fizesse a fineza de ler o desaforo e falta de respeito no imperativo duma frase que lhe mandava seu filho.
Dona Maria do Carmo numa solidão materna que só as progenitoras têm e só elas entendem, leu pausadamente, e sentou-se; tirou da manga o lencinho bordado onde fungou, e «coitadinho do meu menino, sempre tão precisado, quanta ternura e respeito em escrever em maiúsculas o nome do Capitão. Até no endereço, quanta consideração. Que lhe terá acontecido para estar tão desprevenido, coitadinho. Uma frase que não é um pedido mas sim, um lamento de desespero de alguém que se antevê na penúria. Ai faz-me tanta pena…»; erguendo-se a custo, requereu:
– Então quando lhe vai valer nesta aflição Sr. Capitão?
Na credência, jazia envergonhado um telegrama amarrotado, onde espreitava uma singela frase, três palavrinhas apenas, o mais que a aflição pôde gastar numa mensagem:
PAI! Mande-me dinheiro. STOP
FIN(almente)
Da figura: de Celestino Alves André (zona do Arco da Almedina – entrada do “Quebra Costas”) evocativa do fado [ou canção] de Coimbra. Tributo da J. de Freg. de Almedina à cidade de Coimbra. Inaugurada no dia 18 de Julho de 2013. As foto(s), que agradeço, são de Pedro Coimbra, subtraída(s) do http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/
Nota: A apreciada guitarra não pertence aos acontecimentos nem à sua data; que se desconhece.
Europeias 2014
Que celebração, que vitória! A maior força politica nacional, a abstenção, mostrou a sua raça. Esmagadora. Não se trata de rejeição, nem preguiça. É pior. É convicção! Cada um olha pelo seu umbigo e salve-se quem poder. Não é bonito, mas é verdade. Não escolhem mas elegem. Serão 21 deputados. Um deles foi eleito com menos de 240.000 votos. Quem é ele? Um empreendedor, está bom de ver: Qual Manuel Sérgio dos dias de hoje, fez aquilo que ninguém faz, observou os números. Compreendeu algo muito simples: Se a maioria não vota, cada voto vale o triplo. Nem necessitou de grande orçamento para campanha. Mal de nós se em vez de representar quem o elegeu, optar como os demais, por se representar a si próprio.

Os verdadeiros resultados da europeias 2014
Fonte: http://www.europeias2014.mai.gov.pt/
Os “vencedores” de ontem obtiveram o voto de 10% dos inscritos, e os “derrotados mas pouco”, 9%. Fascinante não é? Os partidos do regime, representarão um quinto dos eleitores (20%). Claro que juntos elegeram mais de metade dos deputados ao parlamento Europeu. Não é bom? É óptimo… Talvez seja o início do fim da hipocrisia, da diferença fingida, da alternância sem mudança. Os apelos de sua excelência, el Rey de Boliqueime serão finalmente ouvidos. Pacto de regime, união entre todos, pois de outra forma não existirão maiorias absolutas nas próximas legislativas. Clarificador. Eu por mim, mantenho o apelo à “dictadura”.
O que dizer das mais de 250.000 pessoas que se deslocaram às respectivas assembleias de voto para anularem o dito, ou o entregarem em branco? Agradeço o seu gesto, simbólico mas pleno de significado. Foram lá. Graças à lei eleitoral, também eles engrossaram as fileiras da força oculta, dessa vontade não expressa que é a abstenção, imponente que sem ambiguidade disse: está tudo bem, façam como entenderem. Eles agradecem. Assim farão.
Adeus Troika! Olá Mercados! Olá Eleições!
Já é oficial: A Troika foi-se embora! O programa chegou ao final e o Governo optou por não querer um programa cautelar. Ou seja, a Troika foi-se, pelo menos oficialmente, embora! Vamos lá ver quem é que aterra amanhã na Portela depois da noite de hoje…
Devemos muito à Troika! Graças a ela o Sócrates foi-se embora e nós pudemos matar saudades de ver o Portas outra vez ministro: qual peru engalanado rumo ao seu sempre sonhado Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas mais, o Paulinho das Feiras, pôde inaugurar o novo cargo da República, Vice-Primeiro Ministro. E com ele todos nós vibrámos, por termos mais de menos, que dará sempre mais. Ao lado do famoso líder da JSD, Pedro Passos Coelho, formaram uma dupla que ficará nos anais da história.
Graças a estes senhores, aprendemos muito sobre nós. Impossibilitados de reflectirmos sobre nós próprios e o nosso passado recente, Passos Coelho fê-lo por nós, fez-nos ver a nossa real dimensão: país pobre, corrupto, improdutivo, com vícios insuportáveis de pagar, com direitos impensáveis, com um Estado Social que não poderíamos nem merecíamos ter. Famílias endividadas souberam que não se podiam ter endividado e que teriam que pagar não só as suas dívidas (o luxo de se comprar casa e ter um carro… como se almejassem ter um nível de vida comparável aos dos restantes cidadãos europeus) como as dívidas que elas não contraíram.
Os trabalhadores viram com os seus salários diminuídos porque não eram produtivos o suficiente, e por isso passaram a trabalhar feriados e a ganhar menos pelas horas extras, em contrapartida pagariam mais IRS, para não acusarem o governo de diminuir tudo (e para não falar nos outros direitos laborais completamente varridos por este governo em sede de desconcertação social). É que os rácios do trabalho sobre o capital teriam de se aproximar dos níveis da Alemanha (o famoso modelo alemão, que anda aí fazer correr tinta em papers académicos e jornais da especialidade), todavia ninguém se lembrou que os nossos níveis de capital são muito inferiores e o nosso modelo produtivo também, logo a nossa capacidade de acumulação de capital também o é. Todavia eis que o custo marginal do trabalho (e aqui já se lembraram da nossa estrutura económica) não se deveria aproximar à Alemanha, mas antes aos países com os quais competimos a nível internacional: o sudoeste asiático.
Desempregados dependentes da segurança social ficaram também a saber que afinal não tinham direito aos apoios para os quais descontaram, que é para não termos dúvidas: a Segurança Social não é a Santa Casa da Misericórdia. E para terem direito ao subsídio para o qual descontaram passaram a ter que fazer apresentações periódicas e frequentarem cursos de formação, durante os quais deixam de fazer parte da taxa de desemprego, contribuindo assim para o melhoramento das estatísticas nacionais.
Os jovens desempregados também levam da Troika uma lição de vida: se estão desempregados é porque não são empreendedores. Neste país, os jovens ou emigram ou criam empresas, que este país não investiu tanto na educação para agora os jovens estarem em casa no facebook (já diz a Isabelucha Jonet e com toda a razão).
Ficámos também a saber que somos responsáveis também pelo endividamento dos bancos portugueses. Os mesmos emprestaram dinheiro a famílias pouco conscienciosas (não se fala no endividamento das empresas nem da cultura empresarial deste país, porque isso fica-lhes mal…então coitadinhas, criam postos de trabalho…os créditos são para pagar os chorudos salários de trabalhadores mandriões). Por isso, nada mais justo do que usar o dinheiro do resgate do FMI para injectar nos bancos, afinal o dinheiro é de um Fundo Monetário Internacional…Nada mais apropriado. Afinal a dívida dos bancos não pertence aos bancos, mas a todos nós!
Mas aprendemos mais: aprendemos que os direitos não são direitos, mas regalias. Que afinal o trabalho não é um direito, mas um privilégio. Que isso do direito à saúde, educação, habitação, segurança social são lirismos próprios de um povo saudosista… Só faltava cantarmos todos “a paz o pão habitação, saúde, educação”… paroles paroles.
Mas mais, e esta é uma lição a ter em conta: O Estado não é para ter empresas. Por isso, e para corrigir esses desequilíbrios antigos, privatizou-se a EDP (vendeu-se ao Partido Comunista Chinês….e não, não foi o PCP, foi o PSD) e aumentou-se as PPP na saúde. Chegou-se à conclusão que afinal as PPP’s não são um saco sem fundo para o qual escorre o dinheiro do Estado, mas alternativas à gestão pública que se revelou danosa.
E com tudo isto, e passado este período de intervenção externa, de ocupação estrangeira, voltámos aos mercados para nos refinanciarmos para podermos pagar a nossa dívida e…os juros voltaram a subir!
Mas mais do que juros, mais do que mercados, mais do que dívida… a suposta saída limpa deve-se ao grandioso dia de hoje: as eleições europeias! Como todos sabemos, as agendas políticas e os interesses partidários não podem ser ameaçados. Apesar de todos sabermos que o PSD chumbou o PEC4 do Sócrates porque os portugueses não aguentavam mais austeridade, num oportunismo muito politiqueiro, também agora o PSD bateu o pé e quis uma saída limpa, sem Troikas, sem cautelares, sem manchas para o seu partido, e levando para a campanha eleitoral a vitória da expulsão da Troika que eles mesmos obrigaram a chamar. Nesta semana, e em plena campanha eleitoral, eu fiquei muito descansada pelo conhecimento e pela verdade expressas pelos candidatos do PS e da Aliança Portugal à cerca do que é para cada um deles a crise do país. Para o PS e para Francisco Assis, a crise começou com o chumbo do PEC4 pelo PSD, ou seja, para o PS tudo reside na queda do Sócrates, cujas políticas estavam a fazer Portugal prosperar. Para o PSD o que nos levou à crise foram as “políticas socialistas” do PS. Ou seja, para Paulo Rangel, privatizações, reformas profundas nas leis laborais, desregulações económicas etc são políticas socialistas. Por um lado, Francisco Assis com uma memória que não vai além dos 3 anos, e o Paulo Rangel sem saber o que é o socialismo, e que o socialismo no PS terminou no dia em que o Mário Soares o decidiu colocar definitivamente na gaveta.
Terminado o período eleitoral cujo resultado hoje se saberá, e terminada mais uma campanha eleitoral europeia onde se fala de tudo mas muito pouco da incomoda Europa, saberemos finalmente que tipo de saída limpa efectivamente temos. Uma coisa é certa, o vencedor destas eleições será, em toda a Europa, a abstenção… Sendo a prova de que uma Europa construída nas costas dos cidadãos tem como resposta em eleições, as costas dos mesmos.
VOLTA-FACE! STOP.
B
(continuando-A)
O hábito que faz o monge, é um costume asseado.
Ao Sebastião(zinho) Júnior, acabados os estudos com assiduidade no Liceu Nacional de Chaves e pintando-se-lhe já o buço, fora dada a rara oportunidade de estudar em Coimbra; essa Lusa-Atenas onde tantos moços cursaram e donde tantos ilustres saíram enobrecendo Portugal. Frequentaria direito, sabida matéria que patrocina as rectidões necessárias ao Mundo conhecido, e tão privadas ao Mundo sentido.
Percebeu-se um bruaá… pelos lugares circundantes, não que duvidassem das capacidades financeiras do casal, nada disso!, e fora um bruaá… recatado, mas Coimbra… para onde era tão raro ir um conterrâneo, mesmo fidalgo. Tinham portanto razão para que se abrissem as bocas, mormente as mais desdentadas e titilassem as línguas. Era acontecimento para foguetório.
Que não, que era muito longe, muitas horas de caminho, que não aguentaria o latim, não tinha saúde, que queria fazer versos, que…
– Sebas-tião! Que… coisa nenhuma! Está decidido! Filho meu será doutor ou honrará as linhagens da família com uma carreira de armas. Passa pelo Albino a quem já lhe encomendei um traje nas melhores fazendas e te espera para tirar as medidas.
– Mas ó meu pai…
O capitão, lançando-lhe um dedo cominatório, comandou:
– Bastião! Sentido! Ou capa e batina, ou rancho e caserna!
– Pronto meu pai, se vossemecê assim quer… está bem, vou-me a Coimbra…
– Assim é que é Bastião! Descan-sar!…
Dona Maria do Carmo, presa a uma vida de compromissos e rendas, tremia de inquietude e já saudade. Era ao seu filho único, ao seu menino, que traçavam ali o destino e ao vê-lo assim, tão aflito e sem poder opinar, também chorou; chorou e tentou uma intercedência:
– Meu esposo, não leve a mal mas, se o Bastiãozinho não quer ir quem sabe…
– Senhora Dona Maria do Carmo; já fiz as minhas démarches. O futuro do mancebo está decidido.
Ficou-se então a Senhora Dona Maria do Carmo, humedecendo um lenço do enxoval sem sonhar que o capitão, homem avisado em deambulações de tropas e entendendo a mocidade ociosa, pedira já a um seu camarada de caserna que o apresentasse aos rapazes grados de Coimbra por forma a desvia-lo da tentação das tabernas e das sopeiras, fontes sabidas de complicações.
Assim o manda a mais antiga usança em se encontrando amigo a quem não se tolheram os cios nem, no caso, os bolores da caserna adulteraram o conhecimento das ruas circundantes. E a mãe que não se apoquentasse, pois o seu menino não assentaria praça em nenhuma república, abrenúncio!, esse regime de vícios e pouca-vergonha em que os rapazolas se faziam homens e logo regrediam, não! Estava já falado para pensão da Ermelinda, mulher de reputação e asseio conhecidos.
Idas as despedidas, os soluços da partida e passada a Pampilhosa, o estômago borboletava-lhe agora com uma saudade intensa, uma inquietação ignorada que o levava quase ao vómito «é este bambolear cadenciado que me tonteia», dizia à sacola da merenda enquanto rebuscava uns bolinhos de bacalhau que a Maria do Amparo lhe aprimorara para vencer o caminho.
A viagem, em vez de lhe alargar os horizontes não, fechava-lhe o futuro ao irredutível.
Um suspiro mais sonoro, e o cheiro das frituras, alertaram os sentidos dum camarada risonho, sabe-se hoje que do Porto, levando-o às falas e a uma espreitadela ao bornal. Fez-se amizade, repartiu-se o farnel, trocaram-se informações e; ficou Sebastiãozinho a saber que tinha ao seu lado um vizinho de quarto na Pensão e que, precisando de ajuda e explicações estaria ali ao dispor «com três anos de primeiro semestre sei as matérias de fio a pavio, meu menino…».
O conforto da companhia e o esvaziar da sacola aceleraram a viagem e fizerem voar as preocupações a tal ponto que, quando deu por si estava já no quarto, derreado pela subida exterior e interior para o quinto andar do nº_ _ das Escadas do Quebra- Costas. Pousou a mala e sentou-se olhando os telhados que desciam, até se deixar dormir.
Alfredo bateu à porta com energia no momento em que a Ermelinda chamava para o jantar. Conhecido da casa, o Portuense fazia de cicerone apontando as portas dos cómodos e segredando incontáveis que por pudor e recato não se revelam.
A sala de jantar sendo modesta, era familiar «então boas noites…» e o colega prometeu um amanhã cansativo que passaria num salto.
Obliteram-se ao sucedido dois meses de calendário, contados corridos em dias úteis e inúteis, e não serão enumerados os ah!s… caramba!s… céu!s… uis!… puxas!… shh!s…, alto lá!s… arre!s… e irra!s… Senhor me perdoe!s e outras interjeições e locuções que se foram proferindo por essa Coimbra fora e n’algumas passagens por cadeiras leccionadas. Pede-se compreensão, pela abstinência em comentários detalhados que é, em prol do bom nome de presentes e familiares, vivos ou memórias. Respeite-se a Academia e poupe-se o leitor (V.a Exa.); que estão de paciência esgotada.
E o desabotoado não era ostentação! mas sim falta jeito para pregar botões, ora essa!…
Há dois meses tropeçado na Lex Duodecim Tabularum e jamais visto à Porta Férrea, arguiram-lhe uma inadimplência e chamam-no de contumaz, coisa que o pasmou por pouco saber em latins. O apodo dera-lho um lente, que o ameaçara, mos maiorum, com a expulsão da Academia. Credo!…
Tudo na vida é um equivoco, um mal entendido; e este, era da cor do traje. Que apresentar como alegação?
Sem resposta para os telegramas hebdominários do pai, nem notas para apresentar, restavam-lhe as moedas para um pedido.
Mais a acrescentar? Sim, aproximava-se o Natal. Esse era o busílis in diebus illis.
Continua para “Cedário” e, Fim.
(da figura: In Jornal ‘A Liberdade’ (Viseu), de 22 Out. de 1886, 16º Anno, Nº 829)
Pensar em grande, votar em pequenos
Aqui há dois dias fui surpreendido pela compreensão choque de que as eleições europeias são já este Domingo! Uma campanha que não se sente na rua, que não tem expressão nos media, praticamente inexistente. Claro que o ciclo se renova e agora o PS pede um castigo dos partidos no poder, coisa que as sondagens prevêm acontecer qb. Tal como muitos não tenho ainda firmado onde recairá o meu voto e chego a recorrer à bruxa para encontrar o caminho.
Um lugar no parlamento europeu, para além da suposta representatividade dos interesses de Portugal, representa uma vida cómoda do ponto de vista financeiro. Em adenda quando se dê a saída do parlamento europeu existe um subsídio de apoio à reintegração na vida activa ao estilo de subsídio de desemprego igualmente chorudo. Tal como no parlamento português existe uma panóplia de famílias políticas com a união de esquerdas, união de centristas, união de direitas, etc. E tal como nele existe uma tendencial flutuação entre uma maior representatividade do centro-esquerda e uma maior representatividade do centro-direita, existindo depois outras facções mais marginais.
Pus-me a matutar em acções de ‘terrorismo’ eleitoral que pudessem dar uma pedrada no charco e vim parar ao facto da abstenção nas eleições europeias (>60%) ser bem mais alta do que a abstenção nas eleições nacionais (>40%). O que só beneficia os candidatos dos maiores partidos pois a proporção de votos dos seus fiéis e crentes eleitores aumenta em muito o seu peso face ao diminuído universo de votantes.
Contudo estes 20% de diferencial na abstenção dão-me esperança para a possibilidade de usar estas eleições como real arma política. Se apenas estes 20% decidirem votar podem ter grande influência na configuração da representação portuguesa!
Compreendo que nas eleições nacionais exista um maior receio de delegar o voto, que não se quer dar aos ‘grandes’ do costume, num pequeno partido. O refúgio acaba por ser um voto nulo, em branco ou mesmo a abstenção. Acabando mais uma vez por só fortalecer o peso dos chamados ‘grandes’.
Para evitar essa rasteira auto-infligida, faço aqui uma proposta criativa para a tentativa de geração de uma onda de manifestação de insatisfação para com os aparelhos partidários responsáveis pela nossa situação: o voto válido num pequeno partido!
E de que forma votar num pequeno partido nestas eleições europeias pode ajudar a mudar algo? Provavelmente não mudará nada no imediato mas serviria de um grande sinal de alerta e sobretudo de meio de preparação de melhores políticos. Se a predominância dos votos nas europeias fosse distribuída pelos pequenos partidos estaríamos a:
- Levar para o parlamento europeu ideias e argumentos alternativos aliados à tenacidade destes novos agentes do nosso tecido político. Mostraríamos assim que nós, Portugueses, estamos saturados de ser manipulados pelos amigos ?do alheio? do costume, estando a atingir o ponto de ruptura para com o status quo instalado sem receio do desconhecido;
- Dar aos políticos emergentes, com menos holofotes e presença em palco, uma experiência internacional permitindo-lhes contacto com formas de trabalho e correntes de pensamento díspares para que retornem mais fortes e mais capazes;
- Permitir aos pequenos peixes nutrir-se do fitoplâncton europeu passando a um regime de dieta os actuais tubarões e baleias do nosso panorama político. Por outras palavras os deputados europeus destes pequenos partidos poderão amealhar uma quantia simpática que podem colocar ao serviço dos seus partidos para maior financiamento autónomo de campanhas em futuras eleições nacionais;
- Assustar realmente os partidos nacionais tradicionalmente mais votados com esta demonstração de desbloqueio mental no acto do voto, criando assim um cenário imprevísivel para o resultado das próximas eleições para a Assembleia da República;
O mais importante seria ganhar a coragem de votar num pequeno partido sem provas dadas, com ideias inovadoras e fracturantes, com o qual apenas simpatizamos mas ainda não confiamos plenamente. Chamem-lhe um salto de fé ou um benefício da dúvida. Durante um ano poderíamos avaliar o seu desempenho no Parlamento Europeu e a sua evolução. Mesmo que não tenhamos a coragem de lhes atribuir voto nas eleições em 2015 teríamos mais 3 anos de levedação e a partir de 2018 saberíamos se valeu ou não a pena o investimento.
Corro o risco de estar a pensar demais, isto seria uma coisa em grande, sendo o meu único consolo o facto de apesar de tudo ainda ter a capacidade de sonhar. E vocês?
> Saber mais sobre 5 Pequenos Partidos a Considerar nestas Eleições <
VOLTA-FACE! STOP.
A
Bravuras que um povo olvida.
Quando o capitão chegava trepidante ao cimo do morro era como um clangor e o Zêi, como lhe chamava, parava a freima da pastorícia e antes que ele posicionasse a mão Napoleónica no colete já corria desbarretando-se «às ordens do Sr. Capitão».
Imobilizada a montada «aííí…», duma mansidão que o seu ventre dilatado aceitava sem grandes ondulações, o castrense tonitroava comandando:
– Bom dia Zêi! Então não me alinhaste as ovelhas?
Era assim Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção, terratenente, capitão de cavalaria graduado e colocado em reserva antecipada pelo regimento de Cavalaria de Estremoz, mas no activo, e nas suas quintas. Da sua esposa, melhor dizendo, que o capitão era de antiga e mui nobre família de armas, servidora do reino na Guerra Fantástica e por isso, detentora de lustrosas salvas de prata e ornamentada com vasta medalhagem (embora patinada, como adiante se assestará para registo), mas sem terras conhecidas como suas, além da Pátria.
– Não senhor, senhor capitão, são umas desordenadas!… Mesmo assobiando aos rafeiros um toque a reunir elas não alinham, não senhor…
O ardor de comando e da ordem-unida estava-lhe no sangue e vinha-lhe de seu tetravô (investiga-se ainda, por indeterminação segura de datas, se pentavô); um façanhudo alferes de infantaria que se dera, por razões de entendimento nas diversas movimentações de tropas, com um oficial vindo das Índias Orientais, um tal Robert McNamara, que, olhe, quem sabe… isto das coincidências históricas são realidades tão antigas como hoje estarmos aqui e termos tantos compatriotas de olho azul. Bem, tamanho foi o entendimento que, ao que se sabe, não foi disparado um tiro, alinhada uma alabarda nem arreado um cavalo para que a guerra efectivamente se efectivasse. Razão pela qual se pensa o seu nome não constar nos anais heroicos de tão importante conflito, mas o do estrangeiro sim!, que nós, para os nossos somos uns desagradecidos mas para os de fora são as ondas que se têm visto.
No entanto e ressalve-se, ambos combateram, se assim se pode dizer, na Guerra Fantástica, desenrolada (é o termo certo) em mais de metade do ano de Mil Setecentos e Sessenta e Dois, e bem se lhe pode chamar “fantástica”, pois só em dois casos dois, que se saiba, o povo Português ganhou uma guerra sem que se disparasse um tiro. Duzentos e doze anos depois, secundava-se a façanha.
Seria injusto e incompleto se não se elogiasse aqui também a sua metade, que o era, não só de cara mas de alma e corpo inteiro; Senhora Dona Maria do Carmo Bentes, essa santa de famílias gradas, verdadeiro refrigério dos humores e impulsos do capitão que, ao contrário do que possa parecer pelo que se disse ou dirá, tinha um coração onde cabia o Mundo e sobejava espaço.
Pois a Senhora Dona Maria do Carmo era dos “Bentes” (você deve conhecer…) de Boticas, ali para os lados de Chaves, seu tetravô, os nossos respeitos, servira em infantaria e na mesma guerra que o avô de seu sogro (ou bisavô, é o tal alvitre), ambos participando nas movimentações Alentejanas, durante as quais, após assertivos posicionamentos e, temendo acusações de bastardia, acabou casando com a sua irmã mais nova, uma solteirona até à data. (irmã do futuro cunhado, entenda-se).
Fora um gesto bonito, e, veja como são as coisas; são portanto primos a Senhora Dona Maria do Carmo e o Sr. Capitão de Azinheiro Carvalho e Assumpção.
Era vê-lo galhardo, montado naquele cavalo inteiro dum ruço cardão, «comandando um pelotão de infantaria marchando de Chaves para a Torre de Moncorvo», lia-se na chapinha dum quadro que descansava as telas fendidas ao lado da cristaleira à mão direita quem entra na ampla sala de jantar e onde se via um outro, mais rendado e pequeno, num alinhamento que punha a jeito uma moça airosa, acenando adeuses com um lenço de saudades. Era sua tetravó, Deus haja, que se despedia.
Que quadros, que figuras, que história, quanta memória vertida aos vindouros que saberão, é uma certeza, enaltecê-la, quem sabe em versos, dando-nos o merecido épico pelos acontecimentos decorridos. Oxalá…
É nesses vindouros que uma família confia e nesta, estava depositada em Sebastião de Azinheiro Carvalho e Assumpção Júnior, primogénito, e até ver, único do casal de quem se fala, a esperança no que se espera.
Continua para “B” (com a licença de vosselência)
(sobre a figura: Moncorvo e a guerra Fantástica de 1762
In Cartografia Histórica Portuguesa – Catálogo de Manuscritos (Siglos XVII-XVIII)
Real Academia de la Historia Madrid)
Vai ficar tudo bem.

Vai ficar tudo bem. Todos prometem não aumentar mais os impostos.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem não haver mais despedimentos na função pública.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem reduzir na despesa pública.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem aumentar o salário mínimo.
Vai ficar tudo bem. Todos prometem o crescimento da Economia.
Vai ficar tudo bem. Só nos faltam políticos honestos. Alto e parou o baile!






