Category Archives: Mentalidade Tuga

Ouça cá, sabe quem eu sou?

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Nação quase milenar, valente quanto baste, fazemos da contradição a regra. Não obstante, desta feita a coerência foi total. Decididamente, somos contra as listas VIP. Seja qual for o contexto, abominamos a soberba. Distinto ou plebeu, com ou sem pedigree, estimamos a mais rigorosa observação dos protocolos. Pelos outros claro!

Ficámos ontem a saber que há quinze dias, bárbaros do norte, ousaram barrar a entrada a um dos nossos. Concretamente a uma das nossas Ministras Plenipotenciárias, e logo de 1ª classe. Não se admite! Uma desconsideração destas não pode ficar impune. Por certo que o responsável da tutela vai protestar, pedir satisfações e exigir um pedido formal de desculpa! Nem mesmo a abundância nos cofres lá do sítio os salvaguardará de um valente puxão de orelhas. Pelo menos vão aprender a receber condignamente. Selvagens, explicam o sucedido de forma leviana – Parece que o evento requeria inscrição prévia. Um absurdo. Nem o Núncio Apostólico lhes perdoaria tal ousadia. Bem esteve a nossa chefe de legação. Sem se deixar beliscar pela arrogância do subalterno que lhe barrou a entrada (por alegadamente não constar da lista), actuou de acordo como situação requeria, proferiu com a altivez a elegantíssima frase: “Ouça cá, sabe quem eu sou?“. Haja classe.

Programa Espacial Português

O desígnio da nação é o Mar, porém outros vectores de desenvolvimento são há muito perspectivados pelos lideres nacionais. O Programa Espacial Português é disto bom exemplo. Após várias décadas de secretismo, o nosso Programa Espacial tornou-se publico a 25 de Setembro de 1993, aquando do lançamento do nosso primeiro satélite. Foi giro. Na falta de um von Broun ou de um Korolev, liderou o simpatiquíssimo Prof. Carvalho Rodrigues. Já lá vão quase 22 anos. Após esta importante demonstração de poderio tecnológico, o Programa Espacial Português regressou ao secretismo de estado.

Assim ficou até 2011, ano em que o actual executivo relançou publicamente a iniciativa através do apelo ao êxodo. Um sucesso, mas o verdadeiro objectivo não foi então revelado. O alcance da expressão “zona de conforto” não foi à época verdadeiramente entendido. Ninguém compreendeu qual a Gravidade que estava em causa. Lamentável, pois tudo teria sido explicado no briefing que não chegou a realizar-se. Uma pena. O porta-voz submeteu-se a um ambicioso treino durante largos meses. Ninguém o viu ou ouviu. Foi duro e rigoroso, mas valeu a pena.

Apresentou-se na passada semana como o primeiro Vácuonauta – Será esta a designação do viajante espacial português, rejeitando assim as nomenclaturas vigentes: Astronauta (EUA); e Cosmonauta (Rússia). O Vácuonauta está finalmente certificado para todo o tipo de missão. Anunciou também a celebração de uma parceria com a Roscosmos para a utilização da nave Soyuz nas 49 reentradas previstas (o que explica o desaparecimento do líder russo durante os últimos 12 dias. Estava entre nós a negociar ao mais alto nível. Secretamente, claro).

Realismo é a palavra de ordem. O orçamento do Programa Espacial Português não está acima das nossas possibilidades. Se nem a NASA tem dinheiro para manter o programa dos Vai-e-Vem, não seremos nós a faze-lo. Negativo. Entre nós a ida é por conta de quem vai. Apenas o regresso interessa à governação. Não nos podemos dar ao luxo de deixar em orbita geoestacionária os nossos compatriotas mais capazes e empreendedores. Esperemos que consigam sobreviver à reentrada!

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A Sucessão

Cartaz

Cedo ou tarde em cada reinado, surge a questão da sucessão. Quando o soberano não tem filho varão, isto é, herdeiro natural, procura designar em vida o seu sucessor. É saudável que assim seja. O nosso bom e velho reino não é excepção à regra. A sofisticação do sec XXI permite-nos encarar estes problemas com optimismo. Vantagens da democracia. Já ninguém se lembra o que foi o absolutismo. Nenhum povo vive hoje oprimido na Europa. Soberanos há que até conseguem tornar obsoleto o acto de votar. A elevada abstenção está ai para o provar. Votar é até uma maçada, um aborrecimento, um dia perdido com um acto inconsequente.

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Bons monarcas reforçam esta convicção abstencionista. É o caso do “nosso”. Com empenho e dedicação, muito trabalho e afinco conseguiu de facto preparar toda uma população para viver sem soberano. A sua acção, sempre discreta, oferece essa garantia a todos os seus súbitos. Não há altruísmo maior do que o rei que voluntariamente se torna irrelevante. É a prova maior de emancipação do seu povo.

Ao contrário de alguns (não muitos), vi com bons olhos o traçar do perfil para o novo monarca. Sim, acho útil e subscrevo a teoria do “mais do mesmo”. Bem sei que pode parecer que o actual monarca tem preferidos entre os seus súbitos, mas tenho a firme convicção que a todos nos ama por igual. E o contrário também é verdade, nós amamos o nosso soberano e respectiva consorte. Todos.

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Bacamarte – o novo LDG

Como sempre, a critica pela crítica, a maledicência infundada são regra entre nós. Já há quem critique a generosidade do nosso Ministério da Defesa Nacional. Inacreditável! Refiro-me obviamente à magnifica perspectiva de compra de um navio logístico, o Siroco. Este segundo e ultimo navio da classe Foudre é um prodígio da tecnologia. Apenas as mais modernas e sofisticadas Nações terão alguma vez acesso a este tipo de equipamentos –  A França que os vende, nós e o Chile. É realmente triste que os nossos concidadãos não consigam reconhecer uma boa oportunidade quando a têm perante os olhos.

Um sonho que se ajustou aos tempos, uma ideia que se comprovou válida. Senão não teríamos chegado a este solene momento. É indiscutível a importância estratégica desta opção. Seria um disparate investir no desenvolvimento de Corvetas para patrulhar a nossa Zona Económica Exclusiva, seria um absurdo dar continuidade aos programas de modernização das nossas Fragatas. Haja rumo.

Obviamente que o país necessita de um Porta-Aviões, mas como não podemos viver acima das nossas possibilidades, contentar-nos-íamos com um Navio de Assalto. Talvez um Mistral. Mas, até para sonhar é necessário responsabilidade e sentido de estado. Assim, e porque a Nação não pretende assaltar ninguém (no exterior), talvez seja melhor comprar um Navio Logístico. Além disso, o assalto aos portugueses não requer nenhum equipamento em especial. É consentido.

preços de mercado, um Mistral custa 600 milhões (€). Está certo que seria novo em folha, mas tinha o inconveniente dos manuais de instrução na língua de Tolstoi. É verdade que num Mistral sempre dava para operar os famosos EH-101 da FAP, mas esse é outro facto que me revolta na critica – a atenção a pormenores sem importância. Os Merlin não cabem no Siroco? Ok, não tem problema, não temos os Alouette III? Cabem perfeitamente!  (esqueçam lá os Sud Aviation PUMA, esses é para fingir que nunca existiram, ok?)

Apesar de a Marinha já não ter asas, tem os Super Lynx. Se as Fragatas vão ficar acostadas, já não necessitam de helicópteros para nada. Podemos até comprar, sei lá, F35B aos inquilinos das Lajes. E blindados? É verdade que podíamos também comprar uns blindados modernos, talvez austríacos, mas devemos ser realistas e dizer “Alto” – é um navio logístico, não é de assalto!

O Siroco pode ainda ser útil em acções de apoio humanitário. Por exemplo nas Ilhas Selvagens! De que outra forma poderíamos salvar as populações das Selvagens? Por fim, o derradeiro argumento: No ano passado, a Marinha abateu a ultima Lancha de Desembarque Grande (LDG), Bacamarte de seu nome. Eis o substituto.

Decididamente uma oportunidade a não perder. Apenas 80 milhões (€) por um navio que é de uma eficiência de custo inquestionável, cuja utilidade estratégica fala por si, e cujos benefícios para toda a população são tão evidentes (que se torna irrelevante referi-los), é pechincha! Deixemos as “más-línguas” entregues ao seu próprio veneno. Ignoremos a impertinente pergunta “porque é que a França o abateu ao efectivo?”. Não merece resposta.

Novo-Bacamarte

Milho aos Pombos

Ele garante que lhe garantiram, ele surpreende-se com o que já sabe, ele fala quando nada tem a dizer e cala-se quando muito há por explicar. Atempadamente nos explica e avisa. Apela aos consensos em geral e à continuidade da paz podre em particular. É um legitimo porta-voz da subserviência ante os mercados. milho-ao-pombosCelebra os feitos nacionais e critica despudoradamente os inventores da democracia. Lá na sua azáfama consegue condecorar os seus, e borrifar-se para o galardoado com um Grammy. Ninguém fala nisso porque não só está no seu direito de preservar ódios de estimação, como (reconheço) é brilhante na gestão do tempo. Normalmente basta-lhe fingir de morto um mês. Compreendo, é o presidente da minoria que nele votou (aproveito para agradecer a quem se absteve).

Enfim, tanto que fica por relatar sobre o seu rasto. Juro que a cada dedicatória penso: é a ultima, já não há pachorra. Eu bem tento, mas hoje não contenho o ímpeto. Não é que o homem resolveu dar milho aos pombos? Já se sabe que quem o feio ama bonito lhe parece, mas há limites, ou pelo menos deveria haver. Saberá quão perigosas podem ser estas aves?

D’armas Imobiliária, SMI

Castelo-do-Queijo

Zé, a guiar, foi à biblioteca e descobriu um livro. Percebeu nesse instante: “é por aqui” – Compreendeu estar perante uma das mais importantes obras da nossa história militar – o Livro das Fortalezas, da autoria de Duarte d’Armas, obra Manuelina que descreve e ilustra pormenorizadamente as 56 fortificações que no inicio do século XVI defendiam a raia.

A descoberta não poderia ser mais oportuna. Consta que existem por aí uns equipamentos porreiros, a bom preço. Há peixes voadores dinamarqueses e até a hipótese de uma estreia absoluta, o nosso primeiro anfíbio para salvarmos o arquipélago das Selvagens. Preocupado? Calma, nada como vimos no passado. Desta feita os processos serão conduzidos sem ajuda de consultores ou especialistas em financiamentos. Então? Há dinheiro para a entrada, o resto será a prestações. Mas há dinheiro em caixa? Não, mas há património. Vendam-se as fortalezas! Ficam umas da raia, e vendem-se umas quantas no litoral, sem qualquer interesse estratégico militar. O Castelo do Queijo, por exemplo.

Serenidade é preciso. Quem diz vender, diz arrendar, concessionar. Assim, compramos os novos equipamentos, mas os amigos mais empreendedores não terão que desembolsar verbas por ai além significativas. E aos incautos o estado pode sempre garantir que não vendeu os anéis. Claro, também poderá ocorrer uma ou outra permuta, mas nada que prejudique o património. São decisores sérios, jamais aceitarão qualquer permuta que não seja vantajosa para a nação. Empreender sim, mas não à custa do estado. Nunca tal entre nós aconteceu! Os jornalistas sérios e íntegros não deixam, e os contribuintes também não.

Aquele cujo apelido designa todas as cores do espectro óptico, garante que por cá há juízo e gente séria, não somos como outros países, onde precocemente se celebra a democracia, mas onde falta dinheiro para a manutenção dos equipamentos militares. Nós não, nós não somos nem corruptos nem incompetentes. Muito menos mentirosos. Ao invés do passado recente, são os outros que tremem.

TAP – Take Another Plane

De um lado o (des)governo, do outro os trabalhadores da companhia aérea de bandeira. Curiosa, ou talvez não, é a coincidência de argumentos. As partes, ditas contrárias, apresentam as mesmas razões. Tudo se resume a “porque sim”. O executivo privatiza porque sim. Os sindicatos fazem greve porque sim. Extraordinário! Interesse nacional? Interesse da própria empresa? Nada disso é relevante para os protagonistas. Comove-me o empenho de ambas as partes em fazer jus à alcunha que a companhia (infelizmente) tem: TAP – Take Another Plane.

Confesso que não sei o que será mais estúpido, a privatização ou a greve suicida nesta altura do campeonato. Será assim tão difícil compreender que a greve fragiliza a posição dos funcionários da TAP. Será difícil entender que é mais fácil reunir apoio de todos nós se não morderem o isco da greve?

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Número Primo

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Quando factos são infâmias, quando tantos são poucos para tamanha responsabilidade, constatamos que afinal qualquer um de nós poderia tomar posse como administrador bancário. Parece que no fundo ninguém sabe de nada. Há até quem afirme que entra mudo e sai calado. Aposto que assinou presenças e actas.

Nem a densa nomenclatura financeira permite disfarçar o nanismo do regulador. Não é por certo a quantificação anglo-saxónica que o faz pequeno! Já a divulgação de documentação a conta-gotas (e em função das necessidades) demonstra quão defensiva tem sido a postura. Compreende-se, é como regular bolhas de sabão.

Mais uma que rebentou. Uns queixam-se da falta de tempo, outros acusam quem se queixa. Será criptografia baseada na Teoria dos Números? Será a chave assimétrica? Existirá chave publica? Não. Felizmente que não. É bem mais simples. Desta feita a comissão parlamentar vai mesmo esclarecer tudo devidamente. Todos ficaremos abundantemente esclarecidos. Como então? Bom, tal como Euclides demonstrou há mais de mil anos, estamos perante um Número Primo. Tão só e apenas. Sem ele, a bolha não teria rebentado. É que tempo é dinheiro…

O Comenta dos numeros primos

 

Placebo

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Placebo é um fármaco, tratamento ou procedimento cirúrgico dissimulado, inerte, sem principio activo. Trata todo o tipo enfermidade e baseia-se na reacção psicossomática dos pacientes. Pode de facto promover um efeito benéfico real e físico.

Não consultei nenhum simpósio terapêutico, não sei se a doença existe, mas suspeito que vivemos um surto de grave défice de cidadania. Eis as questões de teste e diagnóstico:

  • Quem é que quer saber da venda da TAP quando há tanta e tão relevante informação em Évora?
  • Quem quer saber do Orçamento de Estado para 2015 quando há teorias da conspiração para denunciar ou subscrever?
  • Quem quer saber da reposição das subvenções vitalícias (não contributivas) quando há apostas a fazer sobre quem será o próximo a ser detido?

A resposta a qualquer uma das questões é: ninguém! Ninguém quer saber. Porquê? Bem, na verdade, é muito simples. É o efeito placebo. Mais uma teoria da conspiração? Negativo, é apenas o egoísmo colectivo a funcionar. Eis como:

Sem subscrever a teoria do bode expiatório, constato o reflexo da detenção preventiva nos Sistemas Límbicos dos telespectadores. Continuamos sem nada saber sobre a acusação, mas tal pouco importa. Cada um de nós tem a sua própria acusação! Eu, por exemplo, guardo com carinho um velho rancor. Remonta, imaginem, a 2011. Fatídico ano em que uma medida de excepção ao orçamento de estado desse ano me atribuiu um corte seis vezes superior ao previsto. Pequeno contratempo que está aliás na génese deste blog. É este abrangente e democrático critério que explica a euforia, a alegria que vivemos. É irrelevante a causa, cada qual escolhe a que quer. Importante é saber que há um castigo. Preventivo que seja, estamos perante a cura de muito descontentamento e revolta.

E os crentes, aqueles que acreditam na inocência do detido? Bom, para esses o placebo tem o mesmo efeito terapêutico, uma vez que toda a sua atenção está igualmente desviada. Ora testem lá as perguntas de diagnóstico novamente.

 

 

Die Zauberflöte

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Mas que bela opereta esta. Já sabemos tudo, mas sempre com prefixo: Alegadamente. O Libretto está escrito há algum tempo. Diz-se que é obra maçónica. Teorias da conspiração não faltam, mas concreto, nada. O público vibra com emoção. Uns indignados outros em êxtase. A transformação dos estados de espírito é mágica. Será que ouvimos a Flauta Mágica?

Tamino e Papageno cumprem o ritual iniciático, o silêncio. Para uns o detido é Monostatos, para outros é Sarastro. Tenho dúvidas. E se a obra for outra? E se é ópera bufa? Nada sabemos.

Não estou certo que seja este o caminho da virtude, mas confesso que gostava de estar enganado. Temo precoce toda esta celebração da mudança. Tantos outros que vimos passar esta fase e que hoje se passeiam alegremente, impunes.

Entre nós, a Rainha da Noite vence sempre. Aguardemos pelo concreto.