Category Archives: Mentalidade Tuga

A falácia do empreendedorismo

Nesta segunda década do Século XXI, Portugal ficou cheio de empreendedores. O empreendedorismo entra-nos pelos olhos, ouvidos e outros sentidos a dentro, como se disso dependesse o nosso futuro. O problema, é que visto com uma lupa maior, rapidamente se percebe que o empreendedorismo não é mais que uma moda, uma buzzword que fica bem.
Na sua grande maioria o nosso empreendedorismo não é mais do que aquilo que Portugal teve sempre acima da média. O Auto-Emprego. A maior diferença para um fenómeno sempre tão popular em Portugal está nas condições e motivações dos empreendedores, que passaram de “querer ser patrão de si mesmo” para “não há emprego na minha área de formação”. Portanto, na sua maioria o nosso empreendedorismo é auto-emprego mas com um objectivo de sobrevivência.

Há obviamente diferenças de um Portugal dos anos 80 e primeira metade dos 90s em que vivíamos num país menos formado e essencialmente intermediário. A grande maioria dos negócios próprios era baseados quase exclusivamente na compra e venda de bens, sem qualquer criação de valor. Muita gente prosperou, alguns tiveram a inteligência de perceber que não era isso que lhes iria garantir o crescimento. De resto quase tudo era alicerçado num negócio que criando património não trás qualquer valor acrescentado ao país. O negócio da construção civil.
Hoje em dia é diferente. A construção atingiu um ponto de saturação e a nossa economia, especialmente por responsabilidade dos governos de Cavaco Silva, esqueceu a noção de criação e achou que o futuro eram os serviços. E é aí que essencialmente estamos encravados.

E é por isso que o Empreendedorismo à portuguesa é falacioso, porque é na sua grande maioria baseado em serviços, ou em bens não essenciais. Estão melhor encaixotados, em Marcas mais bonitas, com embalagens mais bonitas mas são actividades na sua grande maioria que não só não contribuem para a nossa independência económica enquanto país, como agravam essa falta de independência, pois são na sua essência negócios que dependem de uma dinâmica de mercado interno, que não temos, para prosperar.

 

Sim, porque empreendedor não é a milésima loja de roupa de crianças, ou a amiga que faz os melhores cupcakes de sempre, ou o cake designer que faz bolos lindos. Muito menos empreendedor é o gajo que vive de vender palestras sobre empreendedorismo ou o gajo que tem uma consultora informática, que na sua maioria nada mais são que um mercado de carne humana, criado para contornar as leis laborais.
O empreendedorismo deve ter um foco de criação, de trazer algo novo, ou de pegar em algo tradicional e essencial e reposicioná-lo no mercado global.

O empreendedor é aquele que sonha com o mundo e que faz a pensar no mundo, não a pensar no nosso pequeno mercado interno.

Em portugal, há dois bons exemplos enquanto grupos de empreendedores. A industria têxtil e a agricultura, na área dos vinhos e azeites.

São grupos que estão, para usar um chavão, a agir local e a pensar global.

E os outros?

 

Os outros, e este é o maior problema na minha opinião, estão a ser atirados para negócios sem futuro, que em nada contribuem para a saúde económica do país e que na sua maioria, sem se aperceberem, estão a fazê-lo por razões muitíssimo pouco nobres, ou de desejo individual.

O que está a acontecer e que para mim é o mais preocupante, é que este “Empreendedorismo”, que nos está a ser vendido de forma massiva como a solução para o nosso país, não é mais do que mais um forma de encapotar uma das maiores desvalorizações que assistimos na nossa sociedade. A dignidade dos trabalhadores.

Este é o empreendedorismo dos eternos estagiários, das pessoas que a única coisa que encontram é um ordenado miserável, em sítios com condições de trabalho miseráveis, sem qualquer perspectiva de futuro.

São estes os “empreendedores”. São aqueles que não têm outra solução, que querem poder ter uma casa, ou umas férias como qualquer pessoa com um mínimo de dignidade.

Sendo também que estes “empreendedores” que são óptimos para o estado, porque ao serem “empreendedores” deixam de ser desemprego, contribuições sociais, etc, para passarem a ser IRC/IVA, etc.

 

Acima de tudo precisamos de empreendedores a sério. Muito menos que os que achamos que temos, mas precisamos.

Até porque só esses conseguirão gerar o emprego digno que os outros, podem e devem ter.

 

 

P.S.: Há alguns meses o Nuno Faria convidou-me para me juntar a este blog. Só agora o faço, não porque o projecto não me tenha interessado, mas apenas e só porque sinto que tenho pouco a dizer. Mas aqui fica o meu olá a todos.

Lisboa Menina e Moça que os meus olhos te vêm tão pobre

Lisboa está na moda! Em rota de contra-ciclo com a economia portuguesa, o turismo da capital tem ganho um novo fulgor. De repente, as sete colinas, a luz e o pitoresco das ruas atraem a atenção dos jornalistas da especialidade.

Para mim, nada mais óbvio. Sempre que visitei o estrangeiro e as outras capitais europeias, e por mais belas e monumentais que fossem, sempre achei que lhes faltava a claridade e a proximidade do rio que Lisboa possui.

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O turismo é encarado como algo positivo em Portugal, e ai de quem disser o contrário, afinal mexe com os interesses de muitos e o trabalho de tantos. Contudo o país virar-se para o turismo como aposta é errado e não se coaduna com um país que se quer desenvolvido. Nós portugueses, nunca fomos mesmo bons nesta coisa de se pensar no que se quer do país. Nós só pensamos o país de repente, quando a coisa corre para o torto, e de repente todos sabíamos que isto ia dar mau resultado, mas também de repente paramos de pensar…

A aposta no turismo como modelo económico de determinadas zona do país como o Algarve e a Madeira, para além de descaracterizarem as religiões (o Algarve todos o vêm como zona balnear, com casas vazias e hotéis que se enchem no verão, e todos desconhecem o Algarve das gentes rurais, de povoamentos isolados, das gentes pobres que caminhavam quilómetros e quilómetros sob o sol que queima para chegar ao médico, à biblioteca, à farmácia). Essa aposta leva a que essas zonas para além de dependerem de uma actividade sazonal (no caso do Algarve cujo pico de turismo é no verão) expõe-o às flutuações das condições económicas (veja-se aquando do início da crise de 2008 o sufoco que foi no Algarve e também na Madeira devido à queda da procura generalizada). Para além de que para estas duas zonas, o turismo não tem sido uma boa arma para fixar a população jovem, sendo zonas de grande êxodo.

O Douro, que já está em rampa de lançamento acelerado para o turismo, corre um certo risco de descaracterização, embora menor do que aquele a que o Algarve esteve e está exposto, mas depende da vontade de quem domina esse turismo, e lembre-mo-nos que as grandes propriedades vinícolas do Douro estão nas mãos de estrangeiros. Neste processo de descaracterização que o turismo provoca, é cultura que se perde. E a cultura é aquilo que nos une enquanto povo.

O turismo tem ainda outro risco, é que ele é apenas um serviço, e não cria riqueza. Talvez por isso, o turismo em Portugal tem sido gerador de postos de trabalho precários, empregando muita mão-de-obra pouco qualificada e com taxas de sindicalização muito baixas, o que reduz ainda mais os salários, não pingando para a sociedade os recursos adquiridos com a actividade. O comércio criado ao serviço deste turismo também não cria postos de trabalho seguros. A giríssima marca “LisbonLovers” é acusada de contratar os seus trabalhadores a recibos verdes. 

Quando o turismo é uma aposta em anos de empobrecimento e de acentuação profunda das desigualdades, e quando é um sector que nesses anos cresce sem que haja condições do fomento da procura interna mas o enfoque na atracção da procura externa, é só mais um sinal de empobrecimento e um veículo de aprofundamento das desigualdades. Isto acontece em Portugal e nós não temos desculpa, porque sabemos muito bem o que é o turismo. Tornar o país num destino turístico sem que haja uma visão estratégica para o país, sem que o turismo seja enquadrado como apenas mais uma dimensão, mas em vez disso como oportunidade e recurso de criação de riqueza a curto prazo, é uma mentalidade terceiro mundista, própria de países pobres e atrasados que não têm mais nada para oferecer.

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Atenção, eu não estou contra o turismo. Ele cria postos de trabalho e acima de tudo promove a requalificação urbana da cidade. Mas não nego que me causa a sensação de soco no estômago quando na minha hora de almoço, diariamente, dia após dia, vejo a pobreza que vai nas ruas da capital. Os sem-abrigos são em número nunca visto, os portugueses passam nas ruas de olhos tristes, após 8 horas, 9 horas, 10 horas ou até mais de trabalho, sem conseguirem fazer face às despesas,  com familiares em casa desempregados e crianças para cuidar, na incerteza de um futuro que não se quer ver, ou os portugueses que já nem trabalho têm nem a esperança de um dia o voltar a ter e que caminham vencidos neste país, que em vez de os apoiar os engole.

Diariamente, várias vezes ao dia, passo pelos mesmos pedintes, pelos mesmos rostos, alguns já idosos, outros mais jovens, uns alcoólicos que desistiram já deste mundo, uns que aparecem num dia e no outro já não os vejo, outros que um dia apareceram e desde aí todos os dias os vejo, outros ainda que terão casa e tecto mas simplesmente o rendimentos não lhes basta para o dia-a-dia. Alguns é certo, conheço-os há anos demais e não posso culpar a crise: há um senhor que vende fotografias e relógios de sol e tem dois cães, chegou a ter 11 samoiedos, conheço-o desde miúda, creio que é da América do Sul e gosto dele.  Existe ainda a famosa D.Maria que canta o fado à porta da Lord, ou o grupo de freaks que na rua do Carmo pedem dinheiro para cerveja e charros. Mas e os outros todos? E o velhote que está todas as manhãs à saída do parque Camões e pede repetidamente “uma moedinha”? E a velhota que em vários pontos da cidade ao passarem por ela no passeio grita que está cega e pede 10euros para pagar a renda?  E as duas senhoras que vendem poemas entre o Carmo e a Rua Garret? Em torno do Teatro D. Maria uma fila de sem-abrigos dormem lado a lado. Pela Avenida da Liberdade outros não sei quantos fazem daquela calçada sua cama. O Sofitel recentemente colocou ferros para evitar que os sem abrigo se deitem ali. A loja da Gant há vários anos que partilha o seu tapete da rua com um sem abrigo, jovem, toxicodependente. Ao lado do São Luís 3 homens dormem, pelo menos 1 está lá sempre. Tem um cartaz a pedir respeito e para não o incomodarem. Sempre existiram sem abrigos, mas não neste número. Os Restauradores, ao cair da noite, transforma-se num dos dormitórios de Lisboa. Santa Apolónia assiste ao engrossamento do seu exército de hóspedes há anos. O número de sem-abrigos cresceu silenciosamente, o perfil do sem-abrigo mudou. Há famílias a viveram na rua, em carros, em dormitórios incertos. Arriscam manchar o turismo da cidade.

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Na cidade onde ainda aqueles que trabalham (mas não conseguem já aqui morar, porque muitos foram empurrados para procurar casa longe da sua cidade natal), ou na cidade daqueles que ainda aqui moram, nesta cidade abrem hotéis atrás de hotéis, transformam-se terraços em restaurantes de luxo e bares finos, nos quais a maioria dos lisboetas não poderá jamais jantar ou beber uma imperial. As ruas desta cidade desenhada por colinas, onde abrem esplanadas no mesmo sítio onde antes brincaram os lisboetas, são de facto lindas. Os turistas são bem vindos, os lisboetas certamente ficam felizes por verem Lisboa reconhecida por aquilo que eles sempre souberam: é a mais bela cidade do mundo. Mas os lisboetas desta cidade da moda agonizam, e com eles agoniza também a cidade. Porque onde abre um hotel foi antes a casa de alguém ou os escritórios de uma importante empresa, onde abre um restaurante de um qualquer chef, foi uma loja habitual de muitos lisboetas, ou o seu ponto de encontro. E uma após outra loja foram fechando e vão fechando, cedendo ao low cost, às lojas dos chineses, às lojas dos indianos, aos hotéis, aos restaurantes… Livrarias, alfarrabistas, ourivesarias, capelistas, lojas de roupa, pastelarias, tascas… E uma e outra, vão morrendo, e com elas morre também uma parte de Lisboa.

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O Turismo é bom. Mas este turismo que ameaça a memória da cidade, que destrói postos de trabalho, e que é feito ao lado da miséria de tantos e que exclui os lisboetas e os portugueses, este turismo destrói!

A injeção

O plano nacional de vacinação prossegue a todo o vapor. Felizmente há quem pense no bem comum. Estamos em boas mãos, dizem entre eles, uns dos outros. Cortesias de “médico”.

É da nossa saúde que se trata, não da deles. Nitidamente! Os depósitos, os depósitos… não havia um fundo para os garantir? Os postos de trabalho, os postos de trabalho… O que terão estes de especial quando comparados com os dos outros bancos? (Já nem pergunto sobre o desemprego noutras aéreas). Sim, é por todos nós que zelam.
Relembremos o Diagnóstico e plano terapêutico.
Primeiro o banco era sólido e tinha reservas (2kM€). Viva o aumento de capital. Aprove-se o prospecto. Foi um sucesso. Depois, anunciada a saída da família santa, o espírito de brincadeira promove umas travessuras, coisa pouca (+1,7kM€). Impossível de antever. Bom, é aqui entram os profissionais! Adiam, adiam. São contas difíceis, reconheço.
Afinal não é tão sólido. Pois. E agora? Bom, o plano era tão secreto (a bem da estabilidade) que todos os “comentadeiros” ao serviço da causa “eis aquilo que deves pensar” sabiam dele. Seríssimo.
A aritmética, essa, fica para depois. Repito, é da nossa saúde que estamos a tratar.
Finalmente o plano “Novo Banco”. Que bonito. Dinheiros públicos? Nada, quer dizer, um pouquinho, bem, tudo, mas reembolsável. Ah, fico mais descansado. Tratam de mim e nem tenho que pagar. Nem em Cuba!
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E o banco mau? Fica com os acionistas, esses malandros. É fofinho não é? Até soa a justo…
Por fim a injeção (4,9kM€) no BOM, no NOVO BANCO, aquele que não tem nada tóxico. Esperem. Alto. Se é bom, se não padece de qualquer enfermidade, porquê a injeção? A minha aritmética é fraca. Ajudem-me se puderem:
2+1,7=3,7
4,9-3,7=1,2…

Isolofobia: Orgulhosamente juntos

How to Be DifferentHá dois dias ouvi uma comunicação do nosso primeiro ministro, relativa à adesão da Guiné Equatorial à CPLP, que me transtornou bastante pois representa bem a génese de uma certa forma de estar portuguesa: a isolofobia

Nem vou aqui discutir se a Guiné Equatorial deve ou não deve aceder à CPLP, se lá estivemos uns séculos  provavelmente fizemos estragos suficientes para que nos mereçam essa consideração, até porque a bem dizer já temos na caderneta uns quantos cromos raros de oligarquias e ditaduras mais ou menos disfarçadas. É um género de Karma e por outro lado acredito que os bons valores se passam pela convivência condicionada e não pela ostracização. Desde que seja a democracia a contaminar a ditadura e não o contrário parece-me bem.

Voltando ao ponto de partida, que trauma será este que demonstramos continuamente, o de não querermos ficar só e isolados mesmo que em defesa de valores legítimos e íntegros? Desde empresários, banqueiros e investidores que embarcam juntos em esquemas obscuros de alta rentabilidade para não ficarem sozinhos com os instrumentos financeiros de média e baixa rentabilidade, políticos que se anulam para manter a paz e o grupo unido evitando uma liderança isolada, no mundo laboral e autárquico proliferam nomeações para criar um ambiente de trabalho mais coeso e acolhedor afastando a solidão, e por fim até os comuns cidadãos que compactuam com pequenas trafulhices, não porque concordem com a sua justiça mas sim porque todos os outros o fazem e não o fazer é ser estúpido, sozinho.

Oliveira e Costa promete revelações no ParlamentoIronicamente na ponta oposta temos homens capazes de assumir as culpas sozinhos, mesmo que existam muitos outros culpados com quem andaram de mãos dadas. Julgo que este mecanismo de convicção própria, plena, independente e sobretudo pessoal e intransmissível  só é despoletada por um complexo processo que conduz ao “tenho quase tudo perdido… resta-me apenas lucrar com o evitar da perdição de outros, assumindo as culpas integralmente e só”.

Num passado não muito distante o “orgulhosamente sós” foi um lema de regime mas também uma forma de estar de muitos portugueses que de forma quase isolada enfrentavam o regime em pequenas insurgências pessoais, que cumpriam solitária por sozinhos desafiarem o sistema, que tomavam a decisão de contra tudo e contra todos desertar de guerras ultra-marinas que não lhes faziam sentido. Apesar da conotação negativa que foi dada a essa expressão, pelo seu uso em discurso de Salazar, a verdade é que estar orgulhosamente só é uma característica essencial para despoletar grandes mudanças de forma eticamente admirável.

SPREAD THE WORD ABOUT THE TIANANMEN SQUARE MASSACRE!

Como seu expoente máximo temos Ghandi e Mandela que a partir da sua recusa pessoal, em aceitar o sistema vingente, geraram movimentos de multidões imparáveis. E tem uma tal força que a sua demonstração pública sem pudor, mesmo que a fundo perdido, é capaz de inspirar gerações futuras a lutar pelos seus ideais de justiça.

Ontem Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho poderão ter caído numa armadilha diplomática, quando Obiang irrompeu pela sala como membro efectivo da CPLP antes de qualquer discussão e votação que o oficializasse, ficarão nessa fotografia incomóda cuja imagem é indelével. Só lhes ficaria bem compensar a situação erguendo a sua voz, a voz de Portugal, contra toda e qualquer situação de violação da democracia dos direitos humanos por parte do novo e de qualquer dos membros da CPLP.

Chamem-me fascista, chamem-me antiquado, mas admito preferir sentir fazer parte de um Portugal ostensivo de um incómodo “Orgulhosamente Sós!” do que de um resignado e submisso “…orgulhosamente…juntos…”

Aristides de Sousa Mendes

MH 666

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Desde o inicio da legislatura que os membros do governo e dos órgãos de soberania foram condenados a voar em turística. Duríssimas medidas! Mas esses dias acabaram, essa desprestigiante prática chegou ao fim. Não, o orçamento nem tem folga! É o mercado! Apesar de Adam Smith nunca ter visto um avião, uma vez mais se confirma a valência premonitória deste autor. Brilhante!

Dizia eu “é o mercado”: Pois bem, após o encorajador exemplo da FPF – Federação Portuguesa de Futebol , ao decidir preterir dos serviços da TAP,  a lei da oferta e procura ditou novas regras. A Companhia aérea Malaysia Airlines promoveu uma acção comercial junto da Lusofonia. Parece que a fraca procura permitiu uma tarifa absolutamente excepcional em classe executiva. Mais barato que a mais barata das lowcost. Prova provada que deixados a si próprios, os mercados funcionam às mil maravilhas.

Observe-se o exemplo da X Conferência de Chefes de Estado e de Governo (CCEG) da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Os líderes de todos os países membros voaram até a paradisíaca Ilha de Timor leste ao abrigo do acordo da companhia aérea malaia com a Lusofonia. Todos os países marcam presença ao mais alto nível, com excepção de Angola e do Brasil, cujos presidentes recusaram o catering de Kuala Lumpur. Ou então, qual desculpa “Alberto João Jardim“, apenas não querem estar presentes no momento do alargamento desta comunidade, pois não apreciam a língua castelhana. Manias…

Todos os nossos governantes regressarão via Damasco, no voo MH666.

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*** PROGRAMA DA TROIKA ***

*** BEM-VINDO À INSTALAÇÃO DO PROGRAMA DA TROIKA ***

Antes de mais queira saber que lamentamos ter chegado ao ponto de ser necessária a nossa intervenção para recuperar a operacionalidade total dos seus recursos disponíveis. Provavelmente terá descurado a administração de sistemas ou sofrido da infecção por viroses que desviam e absorvem toda a energia produtiva via sugadouros obscuros.

Felizmente tomou a decisão acertada ao recorrer ao nosso programa para correcção de erros e recuperação de danos causados pela sua desleixada gestão autónoma. Beneficie de décadas de experiência acumulada onde temos crescido com os nossos próprios erros.

Contudo devemos preveni-lo que trabalhamos em baixo nível, usando um low profile de sistema e executando mudanças estruturais muito para além do ponto de restauro de segurança. Existem riscos e eventos inesperados que podem levar este programa a danificar o seu sistema.

Tem a certeza que quer instalar este programa?
> Sim_

Detectamos a execução de firewalls e antivirus. Para evitar falsos alertas o Programa da Troika terá de desligar todo o tipo de programas de regulação, monitorização e protecção contra ameças externas. Deseja continuar a instalação?
> Sim_

Desinstalando todo o tipo de Firewalls e Antí-Virus existentes no sistema……. OK

A Troika está a analisar os seus recursos………. !!! ………. ??? ………. €€€ …….

Detectamos uma série de pastas escondidas que ocupam um grande número de recursos disponíveis. Pretende
[1] tornar essas pastas visíveis para análise e histórico do desperdício em termos de volume e autores do seu consumo
[2] remover pastas sem manutenção de histórico impossibilitando apuramento de acontecimentos e responsabilidades
> 2_
Removendo pastas invisíveis……………….. OK
A Troika está a analisar os seus recursos…………………… recursos insuficientes para a instalação!

Para garantir o sucesso da instalação será necessária a remoção de parte ou da totalidade dos seus ficheiro pessoais e essenciais sem garantias de backup. Deseja continuar a instalação?
> Sim_

Obrigado pela solícita autorização expressa para a instalação do Programa da Troika!
Por precaução e para evitar a contaminação do novo sistema procederemos a uma formatação total do sistema actual.

Formatando………. OK
Alocando recursos necessários para execução do sistema operativo….. OK
Estabelecendo novas políticas e regras de funcionamento….. OK
Instalando agentes necessários para monitorização…….. OK

Parabens! O seu novo sistema operativo está devidamente instalado! Para garantir o seu correcto funcionamento não terá permissões para instalar qualquer outro tipo de programa.
> abrir pasta pessoal_
ERRO: Pasta não existente!
> abrir rede social_
ERRO: Pasta não existente!
> criar pasta pessoal_
ERRO: não tem permissões para criar pastas pessoais
> criar pasta qualquer_
ERRO: não tem permissões para criar pastas quaisquer
> help_
ERRO: comando não reconhecido
> uninstall_
Confirma que pretende a saída do Programa da Troika?
> Sim_

Removendo ficheiros do programa da Troika………OK
Preparando sistema para facilitar futura instalação do programa da Troika……OK
O programa da Troika terminou a sua saída limpa.
Após o reiniciar proceda à instalação de novo sistema operativo.

Loading…………
ERRO: não existe um sistema operativo instalado!
> D:\luzfundotunel\install.exe_

*** BEM-VINDO À INSTALAÇÃO DA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL ***
O sistema operativo Luz ao Fundo do Túnel é um software gratuito construído por todos para todos. Garantimos governação e operacionalidade sem custos externos nem desperdício de recursos.

Estamos a analisar os seus recursos……………………………………………………
ERRO: Insuficiência de recursos ou recursos existentes irremediavelmente danificados!

> D:\programatroika\reinstall.exe_

Está bom de Sal?

O caldo reduz em lume brando. Ingredientes? Os tradicionais. Nutrição, eis a questão. O segredo do caldo está na forma como é servido. Da panela para a terrina nada se perde, mas da terrina para o prato e da colher até à boca, tudo pode acontecer. A uns, poucos, calham nutritivas porções, aos outros, água, ou mesmo nada. Com sorte, mata-se a sede.

caldo
Então e a nutrição? É a que temos. Metade dos comensais, ilustres eleitores e contribuintes, contribui mas não vota. Paga, mas não opina. Essa “coisa” da distribuição dos rendimentos não lhes diz respeito. Ciclos viciosos? Promiscuidade entre politica e economia? Sim, claro que sim, mas votar nem pensar. Afinal quem rebate a famosa frase “são todos iguais, querem é tacho”? Ninguém! Como pode uma população ser simultaneamente tão sábia na análise e tão burra na acção. Não vota, entrega o tacho. Assim sendo, os tais bem nutridos, comem, repetem e ainda contemplam a nossa busca por migalhas enquanto saboreiam a sobremesa. Salgado sai, bem nutrido, entrega o tacho. Mas isto insonso não fica. Entram os profissionais, os tecnocratas. Parece que o amadorismo dos que saem não lhe correu particularmente mal. Há rumores sobre reformas um tudo-nada acima da media. Teremos novos “Chefs” da panela-de-pressão. Dizem que assim se garante a solidez do banco. Isso! Um grupo é um grupo, um banco é um banco. Mesmo que o primeiro se sente no segundo, ou vice-versa. Semelhanças só nas cores e no nome. De resto, qual parvalorem, o mal para um lado, o bem para o outro. Onde é que já vimos isto? É uma questão privada, logicamente, decidem os accionistas. Está certo. Soberanos na sua decisão, optam por imitar os chineses. Escolhem alguém que tenha recusado oCALMA cargo de ministro das finanças, alguém sério e idóneo. Imparidades? Poucas, nada que os fundos públicos não possam cobrir, nem que seja pedindo emprestado.

E que outras  iguarias se preparam neste grande concurso de cozinha tradicional? Um pouco de tudo, desde votar contra o cozinhado italiano sobre o pacto orçamental, passando pela adorável disputa ao lugar de alcaide do castelo do rato, até à privatização da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Diz que dá lucro. Imagine-se a vergonha, uma empresa de capitais públicos que dá lucro! O que fazer? Vender! Que tal “a investidores institucionais”? Singelo eufemismo para “a quem mais nos convier”. Nada como agradar aos accionistas mesmo antes de estes o serem. Tudo legal, tudo legítimo, pois a posteriori saberão nomear as pessoas certas, os profissionais! Sal quanto baste para durar mais uma legislatura. Não votem, não atrapalhem os mestres da culinária.

Dança com Antónios

Antes de mais um mea culpa.

Não tenho cumprido com o meu dever de agitar das águas na tentativa de limpeza do convés.

Não sei que vos diga. São baldes de água fria a mais para dias de verão a menos.

Uma equipa de futebol que decide suar a camisola da selecção tanto como o trabalhador médio Português sua a camisola da sua empresa, um grande grupo económico que usa Angola como território ‘aceitável’ para execução de fraudes e tráfico de influências ‘inaceitáveis’, um governo sombra de si próprio num auto-eclipse que dura há meses e por fim uma luta fraternal pelo lugar de capitão da tripulação alternativa.

Parece não haver escapatória, nem moratória, mesmo reconhecendo-se ser o mais sensato.

Vamos pagar, vamos mirrar, vamos tolerar.

Mal ou bem continuaremos fiéis a esta forma de ser Portugal.

Mas foquemo-nos no bailarico. O PS assume-se como a melhor escola de dança do país. Se queres dançar e não tens par chama o António, se queres dançar e não tens pernas chama os Antónios. Os Antónios são assim tipo gémeos siameses separados ao sufrágio. Apesar de partilharem o mesmo útero suspeita-se que tenham paternidades diferentes, isto se tivermos por base apenas as suas tezes, porque geneticamente é difícil apontar-lhes diferenças. Um aguentou à tona a jangada socialista, o outro refugiou-se em terra firme e diz-se agora mais qualificado para abordagem ao galeão nacional. Os sábios corsários de outrora apoiam agora o homem vindo da Costa, estando o aprendiz de pirata dependente, mas Seguro, do apoio popular que optou por convocar.

E são estas primárias que me dão alguma esperança. A esperança de que surja alguém inesperado, alguém que seja globalmente vilipendiado, alguém que com aparente destrambelho, suba ao pulpito, discurse o não dito pelos adversários e, sem saber bem como, acabe por vencer desmontando o aparelho. Porque estes dois, estes dois são coelhos de uma mesma cartola, meros acessórios dos mesmos ilusionistas que criaram esta falácia estatal.

Estranhamente, apercebo-me que a solução para quebra de ciclo poderá passar por um género de fenómeno Cavaco Silva à socialista.

E agora vou vomitar.

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/delito-de-opiniao-6136475

 

Jota Kafka

(depois do almoço), e você já a pensar no lanche.

05-Jota Kafka-03É para que saiba o que custa uma espera, para mais, sabendo que enquanto espera, alguém está refastelado a almoçar ou a degustar qualquer outra coisa comezinha enquanto nós estamos aqui, na ignorância dum atendimento adequado hoje, se hoje, e se hoje, se será loquaz, paciente e explicativo. Nós sim senhor!, que eu também estou cá! Como você.

Estas azias não são de nada que tenha comido, muito menos pela sua presença, companhia que aprecio e agradeço, mas do adiantado da hora que já se verifica, uma vez que, da esquerda não vem viva alma nem da direita vivalma e já passaram as treze e cinquenta e cinco. Essa é que é essa! Peço desculpas pelo você; você merece-me realmente outro trato só pelo facto de estar atento à narrativa e pelo lanche que foi a brincar, pelas minhas origens anglófonas. Refiro-me ao sub-título e não ao texto que agora se inicia. Mantenho porém, o depois do almoço, porque é do que se trata finalmente, embora não tenha almoçado, conforme prometido e a referência ao lanche tem a ver com a palavra derivativa de “lunch”, e quanto ao eventual evento está desde já convidado.

Abre-se a porta dos sustos mais uma vez «até que enfim», e, qual não é o nosso espanto quando, quem a abre é alguém. Bem podia ser um daqueles automatismos modernos que evitam mais um salário e, por isso, menos uma despesa, mas não, era mesmo alguém que abria a porta e, como não tinha sido vista vindo do lado das vivas almas nem do lado das vivalmas, só poderia ter vindo do lado dos sustos e, agora percebemos tudo, não a vimos porque a porta que se abria agora para a população, vulgo utentes como descrito na parte da manhã antes do almoço, estava fechada.

Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… Dlim-Dlam… com licença, com licença, com licença e, nem queira saber o que vi na pantalha, que, só soube nos final da manhã que era um plasma e que muito enfadou J. uma vez que se sentiu enganado desta a sua chegada. «Pantalha é pantalha, plasma é plasma!, não se brinca assim com uma pessoa!», disse-o do alto do seu aborrecimento e com muita razão. Embora ecrã para nós fosse suficiente. É ou não é?

Com a minha ascendência na Cornualha preferiria “screen”, mas não faço questão nem alarido. Perdeu J. a conta dos Dlim-Dlams que ouviu até ter conseguido entrar no corredor de espera. Era a sua vez na mesa cinco, a mesma, e única, que tinha estado ocupada durante toda a manhã, era seu alguém, a senhora do chamamento detalhadamente descrita pelas doze e trinta para que não fosse confundida o que criava à partida um problema, talvez até, um grande problema.

Apelo ao melhor discernimento e sentido de crítica do meu querido companheiro de leitura para a seguinte falha na organização da adm. central anteriormente elogiada, e seus executores: – quem é alguém, nunca poderá ser outrem, e muito menos, e simplesmente, funcionária, como foi adiantado aí pelas dez e trinta da manhã. Não é obvio que J. tenha dado pela falha, mas, há ainda um detalhe a ter em conta que nos pode até, levar a uma certa omnipresença preocupante se levada à letra a expressão utilizada nas famosas “duas linhas” de oratória com um «… façam o favor de se dirigirem a mim…». Será um premonitório “vinde a mim” pensado na alta adm. central no sentido de arrebanhar a grei, na sua totalidade à repartição em causa. Deus nos livre e guarde e J. nem sonhe. Já nos basta que seja omnipotente para alguns. Seria o cabo dos trabalhos.

De seguida convido-o a não interromper o que penso ser o final dos trabalhos em curso, uma vez que vai dar início o tão esperado encontro entre quem precisa e quem tem. Peço-lhe, além do maior silêncio, a maior atenção também. Sei que é capaz.

«Boa tarde», «Boa tarde», «faça favor de sentar», «Obrigado», «Qual é o seu número, se faz favor?», «A49», «Pode mostrar-me a ficha de presença?», «Com certeza, aqui está.», «Olá… temos aqui um problema…», «Problema?…», «Sim, a sua ficha é a A49.», «É», «Não é E, mas sim A.», «Sim, disse é com o sentido de ser, como se dissesse é a á quarenta e nove.», «O sr…», «J.», «O sr. Jota Ponto…», «Só J.», «Hum… o sr. Jota está a tentar colocar entraves à adm. pública na pessoa dum seu funcionário?», «Não!, eu…», «O sr. Jota pensa que eu não sou ninguém?», «Não!… Tenho a certeza que a senhora é alguém!», «Ainda bem», «O sr. Jota quando entrou nesta repartição estava a ser atendida a ficha de presença A15, certo?», «Certo», «E o sr. Jota disse, os nossos serviços bem ouviram, que só faltavam 33, certo?», «Hum… não me lembro bem…», «Mas se fosse uma pessoa responsável devia lembrar. Faça o favor de me seguir na aritmética, quinze mais trinta e três perfaz… perfaz… 48 e não, 49!, certo?», «Certíssimo.», «Então, se me faz o favor, e para que não tenhamos que prosseguir para instâncias superiores, levante-se e, aguarde a sua vez.», «Mas… nem sei… talvez tenha feito mal as contas, talvez estivesse a pensar nos A16, aquele casal que esteve nesta mesa a manhã toda…», «O sr. Jota só está a piorar a sua situação!», «Como assim?», «O casal A16 não esteve nesta mesa a manhã toda, o casal A16 esteve nesta mesa a tratar dum problema complicadíssimo para ele e para os nossos serviços, durante a manhã toda, o que é bem diferente!», «Pois sim, não digo que não, mas, a repartição está quase a fechar, eu sou o último utente, mesmo que saia, não tem mais ninguém a seguir…», «O sr. Jota além de estar a ser inconveniente, está a tentar defraudar o normal funcionamento do serviço e, mais grave ainda, a tentar adulterar a honestidade da ordem de chamada!», «Não é minha intenção, não é minha intenção, eu é que, eu estou aqui desde as dez da manhã, este assunto tenho de o ter resolvido hoje, da parte da tarde não veio ninguém…», «Como é que o sr. Jota pode afirmar, e logo cabalmente, que da parte de tarde não veio ninguém se a chamada foi feita, completa e pela ordem autenticada no final do turno da manhã?», «Minha senhora…», «Não me trate por minha senhora!, eu sou alguém!», «Claro! É o meu sistema nervoso, peço desculpa, mas acontece que eu estava ali à porta, quase não fui almoçar e vi toda a gente a entrar e», « O sr. Jota não se cansa de fazer falsas declarações. Nós sabemos muito bem que almoçou. Quem pensa que são os nossos serviços? Sopa e conduto!, ouviu?, sopa e conduto, é o que diz a nota interna dos nossos serviços!», «Pois… certo, foi tão rápido para não perder a vez, mas o que eu queria dizer é que, da parte da manhã para a parte da tarde, depois do atendimento da A16, e depois de muitos Dlim-Dlams sem qualquer presença foi o meu Dlim- Dlam, o Dlim-Dlam do A49 que foi chamado, por conseguinte…», «Mas o que é que o sr. Jota tem a ver com as ausências verificadas no turno da tarde. Provavelmente as pessoas não quiseram aguardar aqui até às doze e trinta para serem autenticadas ou não quiseram voltar de tarde, provavelmente não tiveram tempo de ir e voltar e desistiram a meio do caminho, provavelmente estão a aproveitar o tempo das três senhas de tolerância, provavelmente até, não era assim tão urgente e voltarão, que é o que costumam fazer as pessoas com coisas urgentes a tratar e não têm paciência para esperar!», «Acredito, acredito, sei que a vossa função não é fácil e, ainda bem que há alguém que disponibilize a sua vida para atender aos problemas do cidadão, mas, veja bem, são quinze e trinta e cinco, a repartição fecha às dezasseis horas, eu sou o único utente, será que…», «Se a adm. central se tivesse que preocupar com serás, e outros elementos do existencialismo, do ente humano, da pessoa física e moral no seu conjunto, do ser como um todo, era o cabo dos trabalhos sr. Jota. A nossa função é o rigor, o exemplo e a execução. O resto sr. Jota, o resto são filosofias!», «Então, resta-me, sair, e, aguardar a minha vez que penso ser esta», «Exacto!», «E, se me permite a pergunta… se não for chamado até às dezasseis horas?, «Terá de voltar amanhã, mais cedo, que era o que devia ter feito hoje!», «Então repete-se o sistema da autentic», «Era o que havia de faltar!, já agora!, amanhã começa do zero! Vocês não queriam mais nada!».

Respiremos agora um pouco. Bem precisamos. Mas só o suficiente para ver o nosso J. muito conformado, a reentrar na sala de espera que era mais um corredor, agora vazio, e aguardar a sua chamada, ou a chegada do chefe da repartição, que até aí, assoberbado nas suas tarefas se tinha mantido invisível, para mandar todos os cidadãos abandonarem o atendimento. E J., creia meu ilustre, ao ver a porta dos sustos fechar-se atrás dele como que protegendo-o dos sobressaltos da existência, abandonou-se caminho fora sabendo, sem qualquer dúvida agora, que era cidadão. A incerteza era se amanhã, na volta, seria considerado pessoa.

Para mim, e porque merece, será sempre o nosso J. e, nunca mais, só, Jota kafka.

FIM! Finalmente (quem sabe até, do Mundo).

sobre a figura: da WEB, sem paternidade registada.

Jota Kafka

(depois do almoço), ainda com partes do jejum.

 

05-Jota Kafka-02

Boas tardes então, e desculpe, nunca gostei lá muito da expressão “repasto”. É incisivo demais para a variedade das ementas oferecidas, mas enfim, foi para não dizer assim, de chofre, mastigado o comer… Não leve a mal.

Já está almoçado, que bem se vê, mas isto aqui ainda vai uma açorda. Nem queira saber.

Está o J. de regresso, guarda-chuva a tiracolo, castelo bem axilado e olho em riste procurando assento. Olhe!, lá vem ele… sentou-se; ainda bem. A espera desespera, vamos ver se alcança.

Provavelmente já se perguntou, mas que raio é aquilo do castelo que, uma vez se sovaca e outra se axila? Tem razão, eu mesmo já me tinha feito a mesma pergunta e, merece uma explicação. Explicação que, lamentavelmente, não tenho processo de dar.

Também me causa espécie o facto do guarda-chuva em dia de Sol, e não me vê aqui de patas ao ar numa metamorfose ridícula a tentar descobrir. Para mais não temos nada com isso.

É ou não é?

J. olhou em volta e era um conhecido no meio de conhecidos. Não conhecia ninguém mas não havia cara que lhe escapasse desde que tinha saído para ver se chovia. O que não acontecia.

Sentou-se na beirinha dum vaso baixinho e desfolhou o livro. Nessa altura eram onze e meia na espera e vinte e duas e quarenta e cinco no livro e, Kapa continuava a tentar espreitar Klamm sentado no colo de Barnabás, que se tinha escondido da estalajadeira com medo de ser visto a dar cobertura ao desaforo que era espreitar Frieda uma vez que, todos sabiam, esta tinha sido amante dum kapa e era, agora, noiva de outro. Sim, dois kapas. Um para Kapa, que, para evitarmos confusões doravante escreveremos K com ponto e Klamm, que, como inicial tem, também, K, mas sem ponto. E, para que não pense que era má vontade desvendar-lhe o que era “o castelo”, fique sabendo que só o descobri porque perguntei ao sr. Aníbal, acabadinho de pagar o dízimo que lhe tinha custado uma vigésima. Pelo menos assim lhe pareceu e me disse. E, quanto a doravante escreverem apenas K., isto é, Kapa ponto, não sei como isso será possível, uma vez que só um escreve, que sou eu, e não escreverá mais nada sobre K. ou qualquer outra coisa sobre o referido livro. Não se aplica portanto, nem o plural, nem o lembrete.

Nestas e noutras deambulações foi passando o tempo, ouvindo Dlim-Dlams e zum-zums até às doze e trinta, a hora do almoço, onde, o seu papel acetinado devia ser assinado com a competência do alguém para que outrem, ao regressar, soubesse que se tinha estado em fila de espera, de manhã, até às doze e trinta. A senhora afónica tinha já saído para tomar uma gemada, e eu tenho estado a falar de J..

NOTA: – (pequena nota: – esta nota não fica nada bem num texto que não se pretende panfletário, e é utilizada apenas porque não há outra forma de notar o que se segue na nota). Mantém-se a designação “manhã” embora fossem doze e trinta. Ora, como sabe, a hora convencionada para se passar a designar tarde é o meio-dia, isto é, as doze horas (12:00 em alguns relógios). Aqui, nesta nota, tenta explicar-se que, também a hora do almoço, que não tem hora, pode separar a manhã da tarde. No caso vertente, nem se tratava duma coisa nem doutra mas sim, a hora determinada pela administração central para os seus funcionários irem almoçar e que, ultrapassada essa e o respectivo tempo em minutos necessário à refeição, fosse considerada após publicação, a parte da tarde, logo, depois do almoço. Fim da NOTA.

Perguntar-me-á muito pertinentemente, «Mas como sabia J. que eram doze e trinta se não havia relógio na espera?»

Dir-lhe-ei que «Foi muito bem observado, sim senhor!», uma vez que, não conhecendo o recinto e não lho tendo sido alguma vez descrito qualquer tic-tac ou pantalha digital, podia realmente existir. Mas não, não existia.

O processo foi o do chamamento histriónico de quem tem fome e mastiga apetites de saída imediata, e, da seguinte forma «senhores utentes, por ordem, façam o favor de se dirigirem a mim para autenticar as vossas fichas de presença, sem a qual não serão reconhecidas após o almoço. Obrigada.»

Veja, meu fiel, a eficiência da administração central (tão desprestigiantemente chamada de, função pública), sim, que isto não é só dizer mal. Veja, o quanto se desvendou em duas linhas de oratória. Certifique-se, de uma vez por todas que, não é necessário ser-se, como dizer, tonitruante, para que uma pessoa se faça entender. Decomponhamos; raciocine comigo.

Acabaram as indefinições quanto à pessoa. Nunca mais confusões como, contribuintes, obrigados, retribuidores, nem o que mais quiser pensar. Utentes. E a senhora aí da fila dos émes tenha lá mais respeitinho que não é só quem o tem que tem obrigações, está bem?

Quem não o tem que se arranje, que vá trabalhar, porque quando for chamado a ter, será utente como qualquer um de nós!, essa agora… Ou será tenente?

E por ordem, muito bem, não queremos cá autenticar o trinta antes do vinte-e-sete, nem o quarenta depois do quarenta-e-nove; que ao J. ninguém passa à frente!

Autenticar, vê!, quem sabe, sabe; era a palavra que me faltava ao meio da manhã para lhe explicar o que significava a assinatura rubricada no papel acetinado. É que não basta a máquina cuspir um papelinho acetinado com uma letrinha e um numerozinho. Nada! A coisa só é autêntica quando autenticada. Não sei onde residia a sua dúvida. Que era nossa.

E mais, caso não siga escrupulosamente todo o procedimento, que são vários, não haverá lugar a reconhecimento em posterior atendimento após o tal repasto. Disse o alguém.

Para finalizar, porque é importantíssimo, não deixarei de salientar que finalmente, sabemos quem é alguém. Alguém é uma senhora de meia-idade, seja lá o que isso for, com saia abaixo do joelho, casaco de fazenda, meias de nylon lá de cima até uns sapatos azuis a condizer. Por dentro uma blusa algo vaporosa com uma flor de bom gosto presa ao peito esquerdo com reluzente alfinete. Mãos cuidadas e unhas com perfeição de gel alegremente pintadas. Não são feitas referências à cor do cabelo e respectivo penteado uma vez que as senhoras o alteram com mais rapidez que uma mudança de roupa. Eis alguém.

Quanto á obrigatoriedade de almoçar, uma vez que não tem senha para autenticar nem número que o identifique, pode saltá-lo. Obrigada na mesma. Subentendeu-se.

Pare, escute, olhe e aperceba-se da fiabilidade da máquina administrativa e quão árduo é o trabalho de sequenciação da população, mesmo na mais pequena escala duma repartição. Na senda da optimização, que não pode descurar o ínfimo pormenor, uma vez que, hei!, hei!, mas onde é que o sr. vai?! já foi autenticado? Ai não?! De tarde não se queixe que não for atendido, que isto com franqueza, não se pode confiar em ninguém, em tudo a adm. central pensa, em tudo a adm. central tem que pensar, uma vez que o utente; nem tenente.

Apesar de cansado, que sei que está, queria só lembrar-lhe que, nós, sim, nós, ainda não fomos almoçar, e esta, talvez seja a única oportunidade de o fazer, uma vez que alguém já saiu na companhia de todos os outros alguéns, utentes e tenentes também e até o J., que se levantou esbaforido ao saber que só tem noventa minutos para ir a casa, aquecer a sopa e o conduto, comer este e depois aquele e, regressar. Regressar a tempo de nova conferência, que sabe, e nova espera, que adivinha. Por isso até depois, agora sim, do almoço. Eu fico por cá, não vá o diabo tecê-las e a chamada começar mais cedo.

(continua)

sobre a figura:       da WEB, sem paternidade registada.