Lisboa Menina e Moça que os meus olhos te vêm tão pobre

Lisboa está na moda! Em rota de contra-ciclo com a economia portuguesa, o turismo da capital tem ganho um novo fulgor. De repente, as sete colinas, a luz e o pitoresco das ruas atraem a atenção dos jornalistas da especialidade.

Para mim, nada mais óbvio. Sempre que visitei o estrangeiro e as outras capitais europeias, e por mais belas e monumentais que fossem, sempre achei que lhes faltava a claridade e a proximidade do rio que Lisboa possui.

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O turismo é encarado como algo positivo em Portugal, e ai de quem disser o contrário, afinal mexe com os interesses de muitos e o trabalho de tantos. Contudo o país virar-se para o turismo como aposta é errado e não se coaduna com um país que se quer desenvolvido. Nós portugueses, nunca fomos mesmo bons nesta coisa de se pensar no que se quer do país. Nós só pensamos o país de repente, quando a coisa corre para o torto, e de repente todos sabíamos que isto ia dar mau resultado, mas também de repente paramos de pensar…

A aposta no turismo como modelo económico de determinadas zona do país como o Algarve e a Madeira, para além de descaracterizarem as religiões (o Algarve todos o vêm como zona balnear, com casas vazias e hotéis que se enchem no verão, e todos desconhecem o Algarve das gentes rurais, de povoamentos isolados, das gentes pobres que caminhavam quilómetros e quilómetros sob o sol que queima para chegar ao médico, à biblioteca, à farmácia). Essa aposta leva a que essas zonas para além de dependerem de uma actividade sazonal (no caso do Algarve cujo pico de turismo é no verão) expõe-o às flutuações das condições económicas (veja-se aquando do início da crise de 2008 o sufoco que foi no Algarve e também na Madeira devido à queda da procura generalizada). Para além de que para estas duas zonas, o turismo não tem sido uma boa arma para fixar a população jovem, sendo zonas de grande êxodo.

O Douro, que já está em rampa de lançamento acelerado para o turismo, corre um certo risco de descaracterização, embora menor do que aquele a que o Algarve esteve e está exposto, mas depende da vontade de quem domina esse turismo, e lembre-mo-nos que as grandes propriedades vinícolas do Douro estão nas mãos de estrangeiros. Neste processo de descaracterização que o turismo provoca, é cultura que se perde. E a cultura é aquilo que nos une enquanto povo.

O turismo tem ainda outro risco, é que ele é apenas um serviço, e não cria riqueza. Talvez por isso, o turismo em Portugal tem sido gerador de postos de trabalho precários, empregando muita mão-de-obra pouco qualificada e com taxas de sindicalização muito baixas, o que reduz ainda mais os salários, não pingando para a sociedade os recursos adquiridos com a actividade. O comércio criado ao serviço deste turismo também não cria postos de trabalho seguros. A giríssima marca “LisbonLovers” é acusada de contratar os seus trabalhadores a recibos verdes. 

Quando o turismo é uma aposta em anos de empobrecimento e de acentuação profunda das desigualdades, e quando é um sector que nesses anos cresce sem que haja condições do fomento da procura interna mas o enfoque na atracção da procura externa, é só mais um sinal de empobrecimento e um veículo de aprofundamento das desigualdades. Isto acontece em Portugal e nós não temos desculpa, porque sabemos muito bem o que é o turismo. Tornar o país num destino turístico sem que haja uma visão estratégica para o país, sem que o turismo seja enquadrado como apenas mais uma dimensão, mas em vez disso como oportunidade e recurso de criação de riqueza a curto prazo, é uma mentalidade terceiro mundista, própria de países pobres e atrasados que não têm mais nada para oferecer.

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Atenção, eu não estou contra o turismo. Ele cria postos de trabalho e acima de tudo promove a requalificação urbana da cidade. Mas não nego que me causa a sensação de soco no estômago quando na minha hora de almoço, diariamente, dia após dia, vejo a pobreza que vai nas ruas da capital. Os sem-abrigos são em número nunca visto, os portugueses passam nas ruas de olhos tristes, após 8 horas, 9 horas, 10 horas ou até mais de trabalho, sem conseguirem fazer face às despesas,  com familiares em casa desempregados e crianças para cuidar, na incerteza de um futuro que não se quer ver, ou os portugueses que já nem trabalho têm nem a esperança de um dia o voltar a ter e que caminham vencidos neste país, que em vez de os apoiar os engole.

Diariamente, várias vezes ao dia, passo pelos mesmos pedintes, pelos mesmos rostos, alguns já idosos, outros mais jovens, uns alcoólicos que desistiram já deste mundo, uns que aparecem num dia e no outro já não os vejo, outros que um dia apareceram e desde aí todos os dias os vejo, outros ainda que terão casa e tecto mas simplesmente o rendimentos não lhes basta para o dia-a-dia. Alguns é certo, conheço-os há anos demais e não posso culpar a crise: há um senhor que vende fotografias e relógios de sol e tem dois cães, chegou a ter 11 samoiedos, conheço-o desde miúda, creio que é da América do Sul e gosto dele.  Existe ainda a famosa D.Maria que canta o fado à porta da Lord, ou o grupo de freaks que na rua do Carmo pedem dinheiro para cerveja e charros. Mas e os outros todos? E o velhote que está todas as manhãs à saída do parque Camões e pede repetidamente “uma moedinha”? E a velhota que em vários pontos da cidade ao passarem por ela no passeio grita que está cega e pede 10euros para pagar a renda?  E as duas senhoras que vendem poemas entre o Carmo e a Rua Garret? Em torno do Teatro D. Maria uma fila de sem-abrigos dormem lado a lado. Pela Avenida da Liberdade outros não sei quantos fazem daquela calçada sua cama. O Sofitel recentemente colocou ferros para evitar que os sem abrigo se deitem ali. A loja da Gant há vários anos que partilha o seu tapete da rua com um sem abrigo, jovem, toxicodependente. Ao lado do São Luís 3 homens dormem, pelo menos 1 está lá sempre. Tem um cartaz a pedir respeito e para não o incomodarem. Sempre existiram sem abrigos, mas não neste número. Os Restauradores, ao cair da noite, transforma-se num dos dormitórios de Lisboa. Santa Apolónia assiste ao engrossamento do seu exército de hóspedes há anos. O número de sem-abrigos cresceu silenciosamente, o perfil do sem-abrigo mudou. Há famílias a viveram na rua, em carros, em dormitórios incertos. Arriscam manchar o turismo da cidade.

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Na cidade onde ainda aqueles que trabalham (mas não conseguem já aqui morar, porque muitos foram empurrados para procurar casa longe da sua cidade natal), ou na cidade daqueles que ainda aqui moram, nesta cidade abrem hotéis atrás de hotéis, transformam-se terraços em restaurantes de luxo e bares finos, nos quais a maioria dos lisboetas não poderá jamais jantar ou beber uma imperial. As ruas desta cidade desenhada por colinas, onde abrem esplanadas no mesmo sítio onde antes brincaram os lisboetas, são de facto lindas. Os turistas são bem vindos, os lisboetas certamente ficam felizes por verem Lisboa reconhecida por aquilo que eles sempre souberam: é a mais bela cidade do mundo. Mas os lisboetas desta cidade da moda agonizam, e com eles agoniza também a cidade. Porque onde abre um hotel foi antes a casa de alguém ou os escritórios de uma importante empresa, onde abre um restaurante de um qualquer chef, foi uma loja habitual de muitos lisboetas, ou o seu ponto de encontro. E uma após outra loja foram fechando e vão fechando, cedendo ao low cost, às lojas dos chineses, às lojas dos indianos, aos hotéis, aos restaurantes… Livrarias, alfarrabistas, ourivesarias, capelistas, lojas de roupa, pastelarias, tascas… E uma e outra, vão morrendo, e com elas morre também uma parte de Lisboa.

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O Turismo é bom. Mas este turismo que ameaça a memória da cidade, que destrói postos de trabalho, e que é feito ao lado da miséria de tantos e que exclui os lisboetas e os portugueses, este turismo destrói!

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About Mafalda Dias

Exerço o contraditório... Estudei economia quando o mundo estava contra a economia, optei pela sociologia quando a economia optou por se virar contra a sociedade. Gosto de provocar, de tocar no nervo, de testar o limite e a paciência dos que comigo convivem, assim sei até onde eles conseguem ir. Sou do contra, não por opção, mas porque vejo tudo do avesso, ou estarei eu do avesso. Desarrumo para voltar a arrumar. Não passei ainda a fase dos porquês e gosto de escarafunchar no porquê das coisas. Questiono, ponho tudo em causa, porque nada deve estar protegido de se questionar e reflectir, nem que seja para chegarmos à conclusão que como está é que está bem. Não sou só contras, também tenho causas, a minha causa é a causa animal, e por mais causas que acolha de modo temporário ou permanente, é dela que nunca me afasto e que sempre retorno após outras frentes. Por isso, se tiverem paciência leiam-me, se quiserem pensem comigo e partilhem as vossas ideias, debatam-nas e trilhem este caminho comigo.

Posted on Agosto 4, 2014, in Ideias para o País, Memórias e Sonhos, Mentalidade Tuga. Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. Gonçalo Moura da Silva

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