Category Archives: Escárnio e mal-dizer

O confuso mundo cor-de-rosa

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2016 tem-me deixado demasiado confuso, quase incapaz de processar factos para formar opiniões seguras.

Ainda na ressaca de 2015 o futuro parecia um pouco mais risonho, mas de imediato surgem sinais contraditórios com a maior fonte de energia do planeta a tornar-se mais barata e apetecível, o suficiente para que governos gulosos cavalguem a onda das maiores margens de lucro, ao invés de potenciar o desenvolvimento exponencial de um parque automóvel assente numa rede eléctrica robusta e fiável. É então que me lembro que esta é conversa global antiga com pelo menos 20 anos de meu testemunho. E fico confuso como conversa e medidas com mais de 20 anos podem ser consideradas uma novidade refrescante, um novo começo.

O fantasma dos bancos recentemente desaparecidos assombram-me também com frequência. Levam-me a suspeitar ser impossível a separação entre gestão e governação nestes casos catastróficos e eis que, quando começo a recuperar a confiança nos nossos políticos e reguladores, é a própria comissão europeia que nos dá um golpe de machadada. Acusam-nos de não sermos nem íntegros nem transparentes, atrevem-se a sugerir-nos medidas fáceis de combate à corrupção. E fico confuso como nos aventuramos na imprevisível rota da austeridade, sem demonstração de resultados prévios, e nos coibimos de nos lançarmos no combate à corrupção com medidas demonstradas eficazes noutros países.

E é quando penso obter refúgio noutras paragens que me deparo com os refugiados Sírios. Primeiro deveríamos acolhê-los a todo o gás para pouco depois se fecharem fronteiras, se baixarem níveis de hospitalidade e se controlarem as notícias de ‘má publicidade’ aos refugiados. De uma crise humanitária urgente passou a assunto corriqueiro, hipoteticamente controlado qb ou quiçá mesmo desaparecido. E fico confuso, perco o genuíno sentimento de solidariedade, tão habilmente cultivado pelos media, e volto ao meu velho eu, mais cru, mais beligerante, mais prático.

É ao recomeçar a pintar de cinza os cenários cor-de-rosa apresentados que percebo a falta que me faz o professor Marcelo Rebelo de Sousa de domingo à noite, para me sugerir literatura da sarjeta que me mantenha entretido e alheado da verdadeira sarjeta.

sarjeta

O Retrato Oficial

Quadro-PR-Cavaco-Silva

Após algumas semanas de ansiedade, chegou finalmente o dia da apresentação do entediante Orçamento de Estado no Parlamento. Que alivio. Vamos finalmente deixar de assistir ao jogo de parada e resposta entre a dramatização e a desdramatização. O processo apenas serve um propósito – desviar as atenções e banalizar a soberania abdicada. Dirão os euro-crentes que a mesma foi voluntária, que consta de tratados, assinados claro está sem nenhuma arma apontada à cabeça. Uma arma não, mas o Pacto Fiscal Europeu foi assinado em Março de 2012. Por vezes, sobretudo quando conveniente, a emergência financeira é esquecida. Enfim, todo este processo de normalização por anestesia serve apenas para nos habituarmos à ideia do fim da soberania Nacional, para a termos como banal. Para meu profundo desagrado, está a resultar.

Opto então por comentar outro assunto. Prefiro as boas notícias. Preparados? Aqui vai: faltam apenas 28 dias para terminar o mandato do actual Presidente da República! É ou não é uma boa noticia? É excelente! Mas há mais. Há pelo menos mais uma boa noticia: Antecedendo o instante da sentida despedida, será apresentada a mais recente e valiosa peça do acervo do Museu da Presidência da República, mais uma maravilhosa pintura para a Galeria de Retratos Oficiais.

Depois do conservadorismo de artistas como Columbano Bordalo Pinheiro, Henrique Medina e Eduardo Malta terem feito escola, a tradição foi rompida pela originalidade de Júlio Pomar, logo seguido pelo retrato contemporâneo da autoria de Paula Rego. Sei, de fonte insegura, que o Presidente cessante vai manter esta tendência de ruptura com os cânones do retrato presidencial. Vai inovar. Desta feita, a obra fala por si. O autor permanecerá anónimo, mas o seu mérito é inegável. O quadro caracteriza o retratado tão bem como aos seus concidadãos, aqueles que por voto ou omissão o elegeram tantas vezes. Celebremos.

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O Aeroplano

Airplane-Cockpit

Porque nem todos os grandes clássicos do cinema são tragédias e porque nem todas as comédias tem graça, recordamos hoje uma das maiores paródias de todos os tempos – O Aeroplano. Foi estreado em 1980 mas mantém-se em cena até aos nossos dias. Provavelmente um dos mais notáveis exemplos da comédia absurda e do humor negro, relata-nos a emocionante viagem de uma aeronave, metáfora para companhia aérea de bandeira, afectada por um severo caso de intoxicação alimentar. O problema foram os tomates! Ou a falta deles. Certo é que a rambóia é completa e as cenas caricatas sucedem-se a um ritmo alucinante. Acaba por ser fácil adjectivar o argumento: despropositado, incongruente, irracional, contraditório e insensato. Na prática, acaba por satirizar todo um sector, o da aviação civil. Viva a regulação, saudável e intendente. Sobretudo imparcial!

TAPzinha

O filme fez o seu trajecto até aos nossos dias, sendo lentamente revelados segredos e pormenores da sua produção. Ficámos há dias a saber, em época de contenção orçamental e de grande rigor na gestão dos dinheiros públicos, que houve aumentos na direcção do regulador. Apenas 150%, mas houve. Tudo legal e com a vantagem de ninguém ter responsabilidade. Pagámos aos ministros das finanças e da economia para nomearem outras pessoas, as quais de graça e sem regalias tomaram as decisões. Não é bom? É excelente! Nada lava mais branco que uma “comissão de vencimentos”. Coincidência, ou talvez não, foi a posterior aprovação da venda da TAP. Resumindo e concluído, quem manda é o boneco, dito piloto automático…

The-End

Balanço das Presidenciais

Passado uns dias sobre as eleições presidenciais e assentado a poeira das vitórias e derrotas, vale a pena fazer um balanço mais frio.

Ao contrário de muitas opiniões penso que foi uma boa campanha e que a participação de 10 candidatos mostra uma certa vitalidade da democracia e de uma vontade de mais pessoas intervirem e mudarem os destinos da nação. Sem surpresa, infelizmente, se regista uma acentuada abstenção (50%) e a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa.

Todavia denotam-se duas questões essenciais:

  1. A promoção pessoal através da campanha eleitoral, como o caso dos candidatos Tino de Rãs, Jorge Sequeira e Cândido Ferreira;
  2. Falta de debate de ideias concretas da esmagadora maioria dos candidatos: os únicos candidatos interessados no debate de ideias e em fazerem passar ideias concretas foram Henrique Neto e Edgar Silva.

Assinala-se também o assassinato político de Maria de Belém depois de uma irritada e desesperada campanha para vencer Costa e Sampaio da Nóvoa. Maria de Belém fez uma campanha vazia, justificada numa carreira de 40 anos que gostaria que terminasse em chave de ouro, como Presidente. Mostrou-se incapaz de lidar com as criticas de Henrique Neto e Paulo Morais, respondendo irritada e justificando-se repetidamente na absoluta legalidade das suas acções. Como se a legalidade fosse justificação! Desde que seja legal está tudo bem… na lei a tourada é legal no entanto ela é uma actividade absolutamente imoral. Na lei já esteve a escravatura, a pena de morte… Na lei está a possibilidade de deputados acumularem funções com o privado, no caso da Maria de Belém, consultora no BES, ao mesmo tempo que presidia a comissão da saúde. Maria de Belém pura e simplesmente não conseguiu ultrapassar a questão, explicar o que fez no BES… aliás nem no BES nem em outro lado qualquer. Maria de Belém exaltou os cargos por onde passou mas não enumerou obra.

Todavia o golpe baixo veio de Marisa Matias, que depois de a enfrentar amigavelmente frente a frente, é num debate a 9, na sua ausência, que se lança contra as já extintas subvenções vitalícias, desesperada por um populismo que lhe rendeu votos.

Marisa Matias fez uma boa campanha, baseada em sentimentos e pensamentos em vez de ideias. Apagou mentiras, como a dada a Edgar Silva sobre a Líbia, chorou, abraçou a mãe, uma campanha baseada em pensamentos e não em ideias. O Bloco sabe que o país está carente, as pessoas estão desalentadas, então elaboraram duas campanhas em que exploram de forma extraordinária isso. Marisa e o Bloco falam da União Europeia mas não falam de como a mudar, falam do mal da economia mas não como a alterar, falam da banca mas não de como a travar. O Bloco fala da constatação dos factos, fala da necessidade de mudança mas não de transformação. Isto metido num discurso com sentimentos, lágrimas e emoções as pessoas papam. A forma pouco séria de fazer política fá-los falar e abarbatar-se a projectos lei que não são seus, a mentir desavergonhadamente em debates… É literalmente um fast food da esquerda… ainda tive esperança que com a saída da Ana Drago o eurocomunismo tivesse sido finalmente superados no Bloco, mas definitivamente que não!

O aparecimento de Sampaio da Nóvoa foi uma verdadeira lufada de ar fresco na política em Portugal, com um tipo de discurso novo, sem a concretização de grandes ideias, mas com uma visível esperança nas suas palavras e uma vontade de agregar a sociedade para a transformação. Pessoa idónea e verdadeiramente livre, é um homem independente e não um político. A sua derrota é também o fim desta nova esperança. Todavia não foi além dos consensos, do tempo novo, não conseguiu concretizar ideias.

A campanha do candidato Edgar Silva, simpática escolha do PCP, prometia mais do que aquilo que rendeu em votos. Edgar colheu a simpatia de muitos e tantos que nunca se reviram no PCP mas que se reviram naquele humanista e comunista que baseou a campanha na defesa e no cumprimento da constituição. Foi o único que defendeu a soberania nacional contra as ingerências europeias, à parte de umas pinceladas dadas por Nóvoa sobre o mesmo tema. Sabe-se no entanto que as presidenciais não são uma aposta central do PCP, marcando no entanto sempre presença com um candidato próprio.

Esta campanha foi marcada por uma maioria de candidatos de esquerda. De assinalar que Sampaio da Nóvoa serve as medidas do espectro político do Bloco de Esquerda e de forças progressistas em Portugal. Logo aqui então temos três candidatos: Edgar, Marisa e Nóvoa. Nóvoa representava então a aliança que sustenta este executivo.

Henrique Neto foi uma boa surpresa e fez uma campanha tentando debater ideias para o futuro do país. Embora nem sempre concordando com ele, reconheço-lhe o valor e a mais valia para esta campanha. A par de Edgar, foi o único que se atreveu a tal… mas isso não rende votos.

Paulo Morais realizou uma campanha à base da análises das estruturas de poder que facilitam a corrupção. Apesar de talvez ter sido mono temático, é um grande tema e constitui um desafio das democracias modernas. Só pela discussão que nos trouxe já valeu a pena esta candidatura. Foi, sem duvida nenhuma, bastante inconveniente para muitos, que ancorados nas estruturas de poder dependem das promiscuidades entre público e privado. O próprio Bloco de Esquerda sentiu-se incomodado, não fosse Paulo Morais lhes tirar os vótinhos de protesto. No debate a 9, Paulo Morais foi outro dos visados pelo populismo de Marisa Matias, que não conseguiu distinguir entre falar sobre corrupção sem ter de necessariamente lançar nomes e julgar em praça pública.

Marcelo Rebelo de Sousa, vencedor desta corrida, fez uma campanha de silêncio. Vaidoso, no final estava desesperado e até velhinhas penteou.  Todavia com Sampaio da Nóvoa mostrou o seu carácter… ou a falta dele. Não reconheceu o direito a um cidadão comum, sem filiação nem passado político, de concorrer ao mais alto cargo da nação, passando segundo palavras suas “de soldado raso a general”. Ele sente-se agora o General de toda esta Nação! Elegemos um TV Man Show.

Primeira Volta

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As sondagens só acertaram no vencedor. Quanto à proporção de votos nos restantes candidatos, a falha foi total. Diga-se, só não falharam naquilo que todos sabíamos. A noite eleitoral foi de tal forma ligeira que tudo estava despachado à hora das crianças irem para a cama. É o novo tempo dos afectos. Destoou, é certo, o último discurso da noite ser protagonizado por quem nada ganhou, o primeiro-ministro. Tomou-lhe o gosto, será? Diz o protocolo que os últimos são os primeiros, mas enfim. Talvez não tenhamos compreendido o que ganhou ontem. Talvez um aliado, talvez menos inimigos.

Acabou por ser um Domingo tranquilo. O suspense acabou cedo, logo pela hora de jantar. A emoção de uns, o quebrar da expectativa de outros: Não há segunda volta para ninguém! Não há mais fichas, o carrossel eleitoral acabou. Abençoada abstenção. Algo me diz que continuaremos a ser mais de nove milhões de eleitores. Seja. Continuaremos a bater recordes, nem que seja do absurdo. Resta-nos aguardar pelo mês de Março. A oito acaba-se a feira…

Entretanto, procurando ir além dos afectos, imaginamos como será o próximo Presidente da República? Imparcial? Espero que não! A imparcialidade tem protegido a paz podre reinante. Confesso não ter nem grande expectativa, nem grande receio. Diria mesmo, receio algum. Afinal, quem sobreviveu a uma década com o actual inquilino de Belém, não teria qualquer motivo para temores, fosse qual fosse a candidatura vencedora. Por mais ténue, seria sempre uma melhoria. Mesmo não sendo grande consolo, que não é, a criatividade, a alegria que caracteriza o vencedor vai dar mais cor ao panorama Nacional. Não esquecer que o primeiro mandato é sempre um estado de graça, uma serena e tranquila campanha para o próximo mandato. Há sempre uma segunda volta!

Estafeta presidencial

As eleições presidenciais a ocorrer já neste mês têm 10 candidatos, porém Marcelo Rebelo de Sousa parece ser o já eleito ao cargo.
Estafeta-Presidencial
Depois de 10 anos de sofrimento com Cavaco Silva, vejamos o que poderá vir aí. Pela espada do Dom Afonso Henriques que isto não augura nada de bom!

Marcelo Rebelo de Sousa, exímio comentador televisivo, fazedor de opiniões há larguíssimos anos, é assim das pessoas mais influentes e por isso, também, das mais poderosas do país. Já é um clássico que em qualquer café ou tasco na segunda feira que se debite as opiniões e julgamentos por ele proferidos no domingo. Sai assim do seu emprego de comentador para o mais alto cargo da nação.

Tem assim um capital muito superior a qualquer político. Ele próprio é o juiz de todos os políticos. Aliás, ele é o juiz de tudo. Fala barato por excelência, até de espirros fala se for preciso. E não, não estou a brincar. Eis que hoje me cai em mão um livro sobre… espirros lá está, e com prefácio de quem? Do Marcelo!

Marcelo, fala barato por natureza, é um homem muito bem relacionado. Professor, de profissão e de nome (o que até dá uma certa autoridade no saber, que o povo é muito ignorante), homem do PDS, bom nadador, juiz na causa de todos, é homem próximos das mais altas esferas do poder. É o eleito pela comunicação social, que tomou partido de si antes mesmo de ser candidato. Gasta menos na campanha por isso, não precisa simplesmente de gastar nada, até capa de jornais tem em plena campanha eleitoral. Aliás, a comunicação social em Portugal tem mostrado tudo aquilo que não é: séria, isenta e honesta! Talvez por isso se mantenham jornais que não dão 1 tostão de lucro durante anos! Serve inteiramente os interesses do capital. A comunicação social é um investimento que o capital sempre teve, e agora domina sem se quer ter interesse em dissimular, estando por isso disposto a assumir as perdas, que mais não são do que investimentos com elevados retornos privados. Nem a RTP faz um serviço público, canal pago com os impostos de todos nós! Ainda ontem, fiquei abismada com a prestação do José Eduardo dos Santos perante o debate entre Edgar e Sampaio da Nóvoa. Mas depois da sua falta de profissionalismo e de isenção na famosa entrevista ao Sócrates, nada me deveria pasmar.

Não há por isso como ter confiança na informação que nos é dada. Se a comunicação social, que devia ter como objectivo informar em vez de manipular a informação, não informa, os cidadãos e os eleitores não poderão tomar decisões de forma informada e ponderada. Esta é uma das grandes questões das democracias modernas, e da nossa em particular.
As regras do jogo são assim injustas, e quem paga são os cidadãos. As elites têm o candidato que lhes serve os interesses e lhes garantirá o poder económico e assim a sua influência política. É por isso que tantos se sentem alienados e desiludidos. Porque no fundo, quem elege é, mais uma vez, o poder económico, os banqueiros e a comunidade empresarial. Como se essa já não tivessem bem servidos pelas suas sociedades de advogados, as quais por sua vez têm deputados eleitos, e assim legislam segundo os interesses da oligarquia económica. Os interesses dos cidadãos, daqueles que trabalham, dos que infelizmente não têm trabalho, dos que já trabalharam, dos mais pobres, o interesse desses que é o interesse da maioria, do povo, do país, esse ficará mais uma vez subjugado aos interesses da minoria. Até porque haverá uma maioria, silenciosa, alienada e desiludida que não irá votar. Os custos de oportunidade de ir votar, de forma devidamente informada são demasiado elevados para aqueles que se sentem esquecidos.

Vejamos, vejamos alguns exemplo representativos de Marcelo:
– Marcelo, homem de direita e comprometido com o antigo regime, filho de um homem do regime e afilhado de Marcelo Caetano;

– Marcelo que se diz defensor do Estado Social, votou contra a lei de bases do Serviço Nacional de Saúde. Ou seja, Marcelo, foi contra a saúde universal e gratuita para todos os cidadãos;

– Marcelo é um homem próximo do poder económico, alias tão próximo mas tão próximo, que é amigo intimo de Salgado, em casa do qual passava férias no Brasil.

Marcelo é um homem do sistema. Não há por isso esperança que a mudança seja feita por alguém que é um dos interessados no actual estado de coisas.

 

Divórcio ou Separação Temporária?

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Como era esperado e expectável, a coligação de direita terminou com o seu governo. Tendo a direita se unido para nos desgovernar, e após a esquerda se ter unido para que a direita fosse direitinha arredada no parlamento, deixou de fazer sentido o Paulinho da Feiras (Catherine Deneuve para quem ainda se lembra) e Passos Coelho continuarem neste casamento por conveniência. A conveniência manda agora cada um se separar, como partidos distintos que são, e cada um fazer a sua oposição. A conveniência pela sobrevivência manda Portas também se retirar, temporariamente sabemos.

Alguns falam de divórcio. Foi um casamento por conveniência, tal como a AD em 79. Juntos se encontram sempre que a cama do poder os convida a se deitarem. E juntos fizeram um trabalho estupendo e serviram bem a classe que representam. Cortaram nos salários, cortaram nas pensões, aumentaram exponencialmente os impostos, recusaram empregos, promoveram a insegurança social, acabaram com a concertação social, esmagaram direitos laborais e sociais, colapsaram a saúde, criminalizaram o desemprego, promoveram a fome, fomentaram a pobreza e empurraram para a miséria grande parte dos portugueses. Mas financiaram salários por via da Segurança Social, salvaram o BES, compraram o Banif (e deu hoje no que se viu), devolveram hospitais públicos às misericórdias, promoveram a caridade como negócio rentável, vendaram a TAP, concessionaram os transportes públicos, não acabaram com as rendas do Estado à EDP, revolucionaram a lei das rendas, não atacaram as santas Parcerias Público-Privadas, fomentaram a promiscuidade entre público e privado… Esqueceram as pessoas, esqueceram a social democracia e a democracia dita cristã, que mais nunca foi do que reaccionários que se protegem atrás de um Cristo misericordioso.

Mas não foi um divórcio, foi uma separação. Não é com dor nem com mágoa que o fazem. A direita sempre se soube unir quando lhes cheira a poder. Mas convenhamos que não foi uma união fácil. Há agora que separar as águas e tentar limpar o nome dos dois partidos, na ante-visão do ataque aos noivos. Paulo Portas, também conhecido por Catherine Deneuve, nome de guerra no Parque Eduardo VII, astuto e malabarista, sabe-se mexer e ao demitir-se irrevogavelmente deu um golpe no PSD e satisfez a sua sede de protagonismo, qual diva da política, com o cargo de vice primeiro ministro! Sai agora da presidência do CDS porque sabe que é a altura certa para sair. Virão aí tempos quentes. O calor do Banif foi só o inicio. Paulo Portas sabe que podem-no queimar, mas se estiver ausente, saberá também regressar sem ter de responder.

Convém relembrar a capacidade de Portas de sempre renascer. O Passos vai passar mas o Paulo Portas esse nunca baterá com a porta. Esteve envolvido no caso moderna, nos submarinos e nem do caso casa pia escapou, na onda de destruição de personalidades politicas. Recuemos a 2003, quando os meios de comunicação social avançaram que miúdos da casa pia o apontaram como envolvido, e conhecido por andar no Parque Eduardo VII de cabeleira. Sobre este escândalo nada foi na verdade provado. Está ainda na memória de muitos mas hoje é difícil encontrar na internet matéria sobre isso. Nas tentativas de assassinato político aquele que realmente morreu foi Paulo Pedroso. Outros nomes foram avançados como Jaime Gama ou Bagão Felix, todavia aí o caso começou a perder credibilidade. Mas Paulo Portas, efectivamente enxovalhado pelos detalhes da sua transfiguração, renasceu sempre das cinzas, com uma ajuda incrível da comunicação social, tendo tomado de assalto o CDS, depois de o ter abandonado e literalmente desaparecido após o aparecimento da Catherine Deneuve. Quando reapareceu parecia o Dom Sebastião a regressar e a salvar a nação.


Mas vejamos este ser de personalidade peculiar, de cariz duvidoso, e que impõe os seus caprichos. Recuemos no tempo. Recuemos à tentativa de resgatar a Aliança Democrática. Recuemos ao Independente e um certo jantar entre o Presidente da Républica e alguns constitucionalistas. Ora bem, Marcelo então informador de Paulo Portas passou-lhe informações falsas, disse ter jantado uma certa sopa fria, vichyssoise, o que não tendo sido verdade levou ao corte de relações entre os dois. Foi com uma sopa que terminou com a AD! Marcelo Rebelo de Sousa afinal não jantou sopa fria mas serviu-a fria como à vingança a Paulo Portas. Mentiu e Portas zangou-se. Por isso, a tentativa de uma nova AD terminou, terminou por uma sopa! Portas não perdoa, a sopa acabou com uma amizade.

Mas eis que então o que não chegou a ser casamento culmina hoje no apoio de Paulo Portas a Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais. Esta é a prova que as separações mesmo acabando com sopas frias nunca são definitivas.

No ano quente de 2013, em que a contestação social subia de tom, a direita esmagava as pessoas e as pessoas respondiam, Paulo Portas demite-se irrevogavelmente, após a saída de Vítor Gaspar e mediante a nomeação de Maria Luís. Paulo Portas demitiu-se, Mota Soares demitiu-se, Cristas demitiu-se. Chegou-se a comemorar no Marques de Pombal a queda do governo. Mas da demissão irrevogável renasceu um novo cargo governativo, o de Vice Primeiro Ministro. E Mota Soares lá continuou e a Cristas também. Paulo Portas deu um golpe de Estado e, como anteriormente tomou conta do CDS, tomou conta do governo do PSD e para o qual havia sido convidado. Paulo Portas é mestre na acção da ressurreição e da afirmação de poder.

Portas tem uma influência brutal no nosso país. Quando se uniu à vergonhosa governação de Durão Barroso e foi responsável pelo desmontar das nossas forças armadas e de outras actividades a ela ligadas que produziam riqueza e constituíam postos de trabalho, foi responsável pela compra ruinosa e muito pouco clara de submarinos e outros escândalos. Mas parece que não é nada com ele. Mas a verdade é que é! É considerado das personalidades com mais influência na economia. Paulo Portas esteve envolvido na demissão de Maria José Morgado quando esta estava à frente do combate ao crime económico. Paulo Portas, que vai buscar votos a camadas pobres da sociedade, como os reformados que foram uma das suas bandeiras, não teve vergonha de  cortar nas pensões mais baixas e de cortar no complemento solidário para idosos que é a ferramenta que permite muitos pensionistas saírem de uma situação de pobreza. Ele que até nem se quer imiscuir em questões de económicas, preferindo “a conversa da cueca” em politica, é uma pessoa que, quanto aos interesses instalados, faz todo o trabalho atrás do pano.

Paulo Portas separou-se agora do PSD, e já começou a fazer o seu trabalho de casa. Dedica-se agora a atacar a esquerda e garante que só a direita defende os direitos nacionais e da população. Paulo Portas, nódoa escondida da politica portuguesa, dedicar-se-á a manchar as forças politicas de esquerda e a preparar o seu regresso.

Ideologia de Natal

Grã-Cruz-do-Alberto-João
Amanhã a esta hora, quem ainda acredita no Pai Natal estará feliz e ansioso pela chegada do momento alto do ano, a meia-noite. Convenhamos, todos abraçámos esta ideologia, algures no passado, pelo menos enquanto pudemos. Depois, acabámos derrotados pela realidade. A fantasia do Pai Natal apenas pode durar algum tempo nas nossas vidas, depois aparecem as facturas para pagar. Não há ideologia que resista aos duros factos da vida adulta, excepto se o adulto for agraciado pelo Sr. Silva, seja cozinheiro, artista, desportista, gestor ou ex-governante. Para estes o Natal chega mais cedo. O Grau esse, depende da grandiosidade dos feitos.

Na sua grande indulgência, sua excelência perdoa até aqueles que no passado lhe teceram grandes e ferozes críticas, mesmo aos da mesma família ideológica. À época, a crítica, até dava um certo jeito, ajudava a compor a ideia da independência, do supra partidarismo que hoje outros procuram replicar.

Enfim, adiante que a hora é do condecorado, o Grande, o Enorme, o inigualável Vice-Rei da Madeira, Porto Santo e arquipélago das Selvagens, Alberto João Jardim, o único político lusitano que não deixou um tostão de défice, apenas obra. E que obra! Nunca o seu record de inaugurações será batido, mesmo se à contagem forem deduzidas as cerimónias repetidas, o seu desempenho é imbatível! São homens (e mulheres) como Alberto João Jardim que nos fazem acreditar que afinal, o Pai Natal existe mesmo. Para alguns, não para todos, mas existe!

Eu não roubei! Eu sou gay!

Sócrates é um caso português de Dr. Jekyll and Mr. Hide, dependendo se o vemos defendendo a sua honra, em entrevistas sem contraditório, ou se o vemos em soberba esgrima ao defrontar os procuradores que explanam as acusações contra si. No primeiro caso parece estarmos perante a vítima de uma conspiração cujo fim é o seu assassinato político e prejudício do PS, no segundo dá ares de vilão, com inteligência e sagacidade muito acima da média, capaz de montar o esquema perfeito baseado em intricados códigos de honra e  de comunicação. A única certeza dada por esta devassa da sua vida privada é a de que Sócrates gastou muito dinheiro nos últimos tempos.

Uma vez que o sistema judicial parece estar plenamente controlado resta-lhe a hercúlea tarefa de evitar, ou anular, a condenação pelo julgamento popular, menos dado à interpretação do código penal, ao cumprimento de todas as regras e trâmites da acusação. Algo necessário pois Sócrates é ainda um jovem para a vida política, com uma folha limpa poderia ter legítimas aspirações a PM ou PR. Se Cavaco o conseguiu porque não ele?

Sr. Sócrates, permita-me vir por este meio colocar em cima da mesa uma possível solução para o seu intrincado problema. Talvez não seja do seu conhecimento mas uma outra sombra existe sobre si, no diz que disse popular, a da sua real orientação sexual. Para muitos portugueses você é incondicionalmente gay. Com namorados apontados e tudo! Sim! Sim! Não se admire, nem se apoquente. Porque se há uns bons anos atrás isso seria contraproducente para o sucesso de uma carreira política hoje em dia já não é bem assim.

Acredito que seja dos poucos políticos portugueses com a fibra necessária para uma estratégia deste tipo: apagar da memória dos portugueses importantes factos judiciais e políticos contra si, utilizando como borracha cusquices relacionadas com a sua privacidade.

O ajustamento é ligeiro. Por uns tempos salte do CM, Publico, Visão, JN, etc para a Caras, Nova Gente, Maria, etc (talvez não consiga sair do CM mesmo assim). Aproveite para fazer política GLF, mudar completamente a sua imagem, reconquistando a simpatia e admiração de outrora. Demonstre novamente a sua coragem, pujança e descaramento, noutros termos menos bélicos e mais paz e amor. Transforme-se de um feroz animal político para uma, para A, amável bicha política. Veja-o como o surfar de uma onda para amainar um tsunami.

Acha que é absurdo e não vai funcionar? Pois pergunto-lhe se assim de rajada me consegue apontar um gay assumido reconhecidamente mal-feitor ou culpado de grandes crimes de corrupção? Pois… vê como é difícil? É como se o manto da homossexualidade funcionasse de forma imediata como um manto de honestidade!

Sugeria desde já que visitasse a sua antiga prisão, retribuisse os mimos que os presos e guardas tiveram para consigo, e ainda antes do Ano Novo marque uma conferência de impresa para esta revelação bombástica que será arrasadora (pelo menos das memórias lusas relativas ao processo “Operação Marquês”).

Neste momento pode optar por uma de duas tocas: a do coelho Ladrão e a do coelho Homossexual. Como isto não é uma fábula mas sim a vida real não poderá matar ambos de uma cajadada só. Seja forte, escolha um deles e vista a pele que melhor lhe assenta ou a que mais votos lhe renderá no futuro.

socrates-2015_final

PS – Atenção que esta é uma estratégia desenhada absolutamente para território português. Se visitar terras brasileiras não existe qualquer escapatória possível à carga negativa colonialista de um político português que ouse roubar dinheiro ao povo brasileiro! No Brasil ser ratazana é mais forte do que ser veado. Em caso de emergência fale com Duarte Lima.

Pateta de Natal

Pateta-de-Natal

A personagem de hoje é um dos mais notáveis membros do Olimpo da Banda Desenhada, uma das criações originais de Walt Disney e Frank Webb. Tal como a sua antecessora, é do género canino. O antropomorfismo é comum no cargo. Alto, magro, bem-disposto, engraçado e desengonçado, assim é o nosso herói. Tem na risada um hábito persistente, uma forma de estar, independentemente do contexto ou da circunstância. Esta capacidade de em tudo encontrar graça é complacência a que nem todos reconhecem a virtude. É pena, mas geralmente o eleitor apenas é benévolo com os sisudos.

Com bondade nos falou de esperança, de mudança, do virar da página. Virou ontem, constatou a necessidade da implementação de medidas adicionais que permitam a saída de Portugal do procedimento por défices excessivos. Chocados? Nem por isso. Todos sabíamos que o livro é antigo, a história é a de sempre: um austero e natalício conto sobre a amizade, o amor e a ternura. Democracia, pois claro, mas se e só se o crivo for o mesmo, sejam quais forem as vicissitudes ou contingências do quotidiano. Cumpra-se a meta por uma vez. A ser, será a primeira, uma novidade. Aleluia!

As prendas, comprou-as o Pai Natal, a antecessora embrulhou-as. Por isso tanto se têm rido as renas e restante séquito. Compete agora ao Pateta entregá-las. São três, mas só depois de aberto o embrulho saberemos o que são. Que entusiasmo, que excitação, nunca mais é meia-noite…