A Europa Chipruda

Afinal há dois ralos vazadouros da liquidez monetária de qualquer um. Um, sobejamente conhecido, é o da tributação fiscal com capacidade de mutação capaz de fazer inveja a qualquer H1N1, o outro é um camaleão que sempre se perfilou como uma caixa forte  hermética e que agora se começa a revelar.

Chipre demonstrou que se necessário as poupanças dos cidadãos podem a qualquer momento ser usadas como argamassa para soldo de buracos. Porque é preciso para evitar cenários piores. O plano inicial distribuia o mal pelas aldeias contudo, devido à convulsão social e temores em toda a Europa, acabou por optar-se por uma penalização sobretudo aos grandes depósitos, já tolerável  pela maioria dos europeus. Quem percebe do sistema bancário retirará as suas conclusões  e será forçado a ajustar-se às movimentações que esta solução irá originar. Os depositantes limitam-se a especular qual a quantia máxima que faz sentido manter no banco, !hoje em dia 10 000 € pode ser considerado um grande depósito em Portugal!,  e a readquirir respeito pelos sábios que nunca abandonaram a confiança no seu colchão.

Esta situação demonstra que a Europa é cada vez mais uma fachada de direitos e valores sociais. Chipre entrou na Europa em 2004 e foi depois dessa entrada que se afirmou como um paraíso fiscal e um oásis para investidores estrangeiros. Sem grande preocupações em saber a origem do capital que acolhia Chipre engordou muito para além da linha. E a Europa sabia-o, e a Europa deixou-o. Assim como sabe que existem, e continuarão a existir, no seu seio esquemas financeiros para lavagem de dinheiro e enriquecimento de uns poucos à custa dos direitos e valores de muitos.

No momento da ‘punição’ eis que germinam argumentos justificativos de que a maioria dos milhares de milhões de Euros em Chipre provêm de actividades ilícitas, levadas a cabo por máfias de dimensão global. Querem maquilhar este acto de confisco cego como uma certa justiça divina através de um merecido ajuste de contas. Não. Este acto é o corolário do crime. Aqueles que deviam impedir a prática de actividades ilícitas, juntam a sua inabilidade policial e judicial à tolerância para com o resultado dessas práticas. A Europa ao invés de rejeitar tacitamente o contacto com esse tipo de dividendos assume uma postura de “Nós sabemos o que vocês fazem, não conseguimos prová-lo e só por isso permitimos que depositem no nosso sistema financeiro os vossos milhares de milhões de euros, seus safados!”

A droga interceptada é destruída, os produtos contrafeitos são destruídos, já o dinheiro sujo é simpleslmente lavado e reciclado. Dinheiro é dinheiro. Dinheiro é presente e futuro. Não há passado no dinheiro. Não há exploração sexual de mulheres e crianças, não há escravatura humana, não há comércio de armas, não há crimes de sangue, não há mercado de drogas, não há expropriação de recursos de povos e nações, há apenas e só DINHEIRO.

E agora  é exigido com gáudio o uso desse dinheiro sem passado para corrigir os erros de decisores Europeus.

Neste momento a Europa dos mais altos direitos e valores sociais mais não é do que uma cúmplice descarada da sua antítese.

Upgrade ao Salário Mínimo

Recentemente Belmiro de Azevedo disse “Diz-se que não se devem ter economias baseadas em mão-de-obra barata. Não sei por que não. Porque se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém.” Deu o exemplo do sector primário /agrícola onde Portugal tem oferta excessiva de mão-de-obra logo deve ser barata. Apesar de tentado a explorar o tema de como o eucalipto Sonae procura secar as margens dos produtores, estrangulando-os ao ponto de praticamente oferecer a sua produção para a engorda dos intermediários e distribuidores, não vou entrar por aí. Vou focar-me no tema da mão-de-obra barata.

Uma mão-de-obra barata é por inerência uma mão-de-obra não qualificada. Trabalhadores pouco instruídos para executar tarefas pouco exigentes. Só que nas últimas décadas assistimos ao seguinte em Portugal:

  1. O salário mínimo subiu 2 939% entre 1974 (16,50 €) e 2012 (485 €);
  2. O investimento em Educação subiu 38 381% entre 1972 (22,3 M €) e 2010 (8 559,2 M €)
  3. A descida da percentagem de trabalhadores com Ensino Básico ou inferior de 91,7 % em 1985 para 63% em 2009
  4. O aumento da percentagem de trabalhadores a auferir o salário mínimo nacional situando-se actualmente perto dos 11% da população activa (mais de meio milhão de trabalhadores com aumento de 115% entre 2007 e 2011)

O que isto evidencia é que o país investiu fortemente na Educação e formação dos seus cidadãos sem que houvesse um acompanhamento condizente a nível de salários. Em grandes organizações, como as do senhor Belmiro de Azevedo, existem com certeza vários tipos de postos de trabalho que não necessitam de grandes habilitações para o seu desempenho. Por exemplo os ‘simples’ caixas de supermercados. A máquina faz o trabalho aritmético, aquilo é praticamente passar os produtos e ensacar.

Pergunto-me qual será o nível médio de habilitações dos caixas de supermercado?

Serão pessoas com o ensino básico? Ensino secundário? Ou mesmo ensino superior dado o estado fatal da nossa economia? Não existe uma formação específica para caixas de supermercados mas certamente que beneficiarão de contratar pessoas com qualificações muito acima do necessário para as funções. E com isso beneficiam de muitos outros aspectos tendo trabalhadores mais perspicazes e mais instruídos, com reflexo imediato na assimilação das suas tarefas,  normas internas da empresa, bem como na interacção com os clientes. Arrisco-me a colocar a mão no fogo que a maioria dos caixas de supermercado são trabalhadores com qualificações muito acima do necessário. Que recebem exactamente o mesmo que as pessoas de qualificações mais baixas que estariam aptas a desempenhar aquelas funções.

Pergunto-me se faz sentido o país andar a investir para qualificar pessoas que vão executar tarefas de mão-de-obra barata e não qualificada!?

Outra vertente é o facto do salário mínimo ser cego e transversal. Num entry-level o salário mínimo de um trabalhador agrícola, sem estudos, é equivalente ao salário mínimo para um informático licenciado. Em teoria as leis do mercado iriam funcionar naturalmente e definir o salário mínimo de cada profissão. Na prática os gestores e patrões portugueses, com habilidade, conseguiram baixar radicalmente o salário de entrada de várias profissões altamente qualificadas. Hoje em dia um informático pode sair da universidade e entrar no mercado a exercer a sua actividade ganhando o mesmo que um caixa de supermercado.

Pergunto-me se faz sentido o país andar a investir para qualificar pessoas que vão exercer actividades complexas sendo tratadas como mão-de-obra barata e não qualificada?

E chego à conclusão que talvez o conceito de salário mínimo necessitasse de um upgrade. Deveria existir um salário mínimo por actividade profissional. E um suplemento mínimo adicional sempre que fosse contratado para uma actividade um trabalhador sobrequalificado.

Por exemplo digamos que para caixa de supermercado tinhamos apontada uma qualificação de Ensino Básico para o exercício de funções. O salário mínimo seria os actuais 485 €. Se o contratado tivesse o Ensino Secundário passaria a +10% e acima disso +20%.

É verdade que apesar de num nível de experiência de ofício zero à partida todos têm o mesmo potencial de evolução. Mas é inegável que a probabilidade é a de que os mais formados tenham mais sucesso e produtividade. Acertos que se realizam rapidamente em revisões salariais ou despedimento dos empregados de qualificações superiores que estão a ganhar mais mas não correspondem às expectativas.

Estas medidas tinham o único objectivo de trazer uma maior justiça ao mercado de trabalho e obrigar os empregadores a compensar o estado pelo investimento realizado na Educação. Estes empregadores são os principais beneficiados pelas maiores qualificações da população Portuguesa. Hoje em dia pelo mesmo custo conseguem contratar trabalhadores que lhes dão mais garantias e proveitos. Com estas medidas os empregadores poderiam perfeitamente limitar-se a contratar as pessoas menos qualificadas para o exercício de certas funções. Mas claro que isso traria efeitos imediatos no nível de serviço e nas necessidades acrescidas de formação e gestão. Caberia aos gestores avaliar da melhor forma a relação custo vs benefícios de cada contratação.

Ao mesmo tempo seria dado incentivo e motivção ao prolongar dos estudos porque os futuros trabalhadores saberiam que cada ciclo completado na sua formação se reflete imediatamente na sua folha salarial. Algo que hoje em dia não é de todo líquido.

E desta forma patrões como o senhor Belmiro de Azevedo e outros poderiam tomar deliberadamente, e em consciência plena, a opção de rechear as suas organizações da mão-de-obra barata em que deve ser assente uma economia forte e saudável.

O melhor de dois mundos.

Masters of the Universe

Masters_He-man_400x339pxA acção desenrola-se no planeta Europa, no mítico lugar da Lusitânia. O príncipe Tozé protegia o legado do castelo do Rato. Quando em apuros, desembainhava a espada do poder e proferia as palavras mágicas “pelo poder de Grayskull, eu tenho o poder”, transformando-se assim no socialista mais poderoso do universo, o He-Man. A sua sagacidade é lendária. Farão escola as estratégias da “abstenção violenta”, ou a mais recente moção de censura que não visa derrubar o governo… Tudo corria de feição ao situacionismo. Contudo o perigo espreita, o mal espera sempre uma oportunidade: Dos confins do universo, da longínqua Paris, regressa Skeletor, o terrível engenheiro dominical.

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A população não esqueceu as privações que passou às ordens do execrável Skeletor. Parece que nem a renovada sapiência atenua o desejo de o ver severamente castigado, isto é, calado. O filósofo de quarta-feira não é bem-vindo. Compreensível. Afinal tudo tem corrido tão bem com He-man.

A sofisticada cidadania participativa, que tanto nos caracteriza, nunca aceitará o regresso de Skaletor. É a história que o garante: No passado, outro malvado senhor, o mui sério Aníbal Cavaco Silva foi condenado à mesma pena.

Nunca mais se ouviu falar dele!

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Voltar às Bases – Família e Vizinhança

Finalmente percebi a razão porque por vezes os bancos dançam ao sabor da música do estado e vice-versa. Alguns trabalhos sujos têm de ser executados por ambos ao estilo de uma valsa sanguinária e não convém que estejam de costas viradas.

Quão perto estaremos desta realidade? Valerá realmente a pena acumular poupanças para dormir mais descansado? Ou um dia seremos também roubados descaradamente? Será mais prudente ter uma conta bancária próxima do zero para diminuir o impacto de uma medida como esta!?

O nível de vida da população Portuguesa continua em deslize contínuo, com a agravante de muitos estarem asfixiados por prestações de crédito habitação e crédito ao consumo oriundos da época de estímulo à contratação dos mesmos. Para muitos Portugueses umas poucas dezenas de € mensais passaram a fazer toda a diferença no seu orçamento familiar e é frequente a ginástica para cumprir com as responsabilidades e garantir os níveis de alimentação e vivência básicos.

Um dos maiores indicadores deste facto é que os Portugueses cada vez mais medem a vida em euros. Antes de avaliar se uma determinada actividade é enriquecedora, e a que ponto contribui para uma sensação pessoal de felicidade e bem-estar, é imediatamente feita a questão: “Quanto custa?” E muitas vezes nem se passa da resposta a essa pergunta.  Por exemplo as distâncias que no passado se mediam sobretudo em km, recentemente passaram a medir-se em minutos e agora medem-se em euros. Os outrora longíquos 50 km, passaram a escassos 25 minutos,  e são agora uns inconvenientes X € de despesa de combustível e portagens, ou muitos minutos acrescidos se se optar por estradas alternativas.

Devido a factores económicos voltámos a estar mais longe uns dos outros mesmo mantendo-se a distância física. Isto em conjugação com o facto de que nos dias de hoje é frequente a distribuição geográfica de famílias e que existe um distanciamento significativo na relação social para com vizinhos. Há quem viva a dezenas de km dos pais, dos tios, dos avós. Há quem viva em prédios de 9 andares com 3x apartamentos por andar e se relacione no máximo com 2 ou 3 dos seus vizinhos no prédio. O bairro então é um mundo desconhecido. Compreende-se. A vida parecia seguir numa direcção em que o apoio da família e dos vizinhos era dispensável. Até que se deu esta inversão.

Hoje em dia a proximidade para com a família e o sentido de comunidade para com a vizinhança voltam a ser grandes balões de oxigénio. Poder contar com familia ou vizinhos para, por exemplo, o apoio a crianças ou idosos pode significar dezenas a centenas de € de poupança em ATLs, lares de idosos e serviços de apoio ao domícilio. A troca espontânea de actos e favores numa comunidade dinâmica e preocupada encontra organicamente soluções que permitem aliviar alguma logística e preocupações com situações mundanas do dia-a-dia. Muitas famílias poderiam certamente melhorar as suas condições de vida se conseguissem reaproximar-se geograficamente da sua família e/ou socialmente da sua vizinhança.

Para construção deste sentido de comunidade não é necessário apoio externo bastando mudar a mentalidade individual e ter a iniciativa de criar ou aderir a eventos locais onde se formam os laços e sociabilidade entre vizinhos. Voltar a fomentar as brincadeiras entre as crianças de bairro pois também elas forçam ao relacionamento entre os seus pais. Não temos de amar todos os nossos vizinhos mas deveríamos dar-nos bem com a sua maioria, para além dos corriqueiros bons dias, boas tardes e boas noites.

Para a reaproximação geográfica de famílias já não depende da vontade de cada um.  A banca poderia dar uma grande ajuda, sendo até uma das principais interessadas em que os seus clientes não entrem em incumprimento. Muitas pessoas poderiam poupar dezenas ou centenas de euros por mês se vivessem mais perto do seu local de trabalho ou da sua família mais próxima reduzindo drasticamente algumas rubricas de despesas mensais.

A criação de um mecanismo que permitisse a permuta directa de casas de valor aproximado poderia beneficiar milhares de famílias.  Uma permuta silenciosa, que não passaria por um processo de compra e venda cruzada, sendo simplesmente a transferência do imóvel entre clientes, entre bancos, mantendo-se todas as condições para os clientes em termos de condições contratuais e montante em dívida. Sem ganhos para o banco que não o  diminuir o risco de incumprimento e o ajudar das famílias. A banca criaria uma oferta centralizada de casas de famílias dispostas a permutas. As famílias negociariam entre si, arcando com possíveis perdas, garantindo um tecto sem custo acrescido mais próximo de quem lhes pode valer em tempos difíceis. Quem sabe mesmo uma permuta temporária ao estilo “Troca de Casa” por X anos em que cada família viveria esses anos na casa da outra após o que reavaliariam o processo?

Estará a banca disposta a bailar com as famílias e vice-versa?

Os pais e avós apoiam certamente!

A Tourada

A 7ª corrida de avaliação será, à semelhança das anteriores, decisiva. Na tribuna a troika. À sombra, o delegado Etíope, ao sol os delegados Europeus. As corridas de avaliação são exclusivamente para turistas estrangeiros. Os veraneantes locais estarão na arena, entre barreiras e no curro, isto é, no seu devido lugar. Não faltarão Cortesias e Brindes à praça. Aplausos, chapéus e flores para os artistas, sal nas feridas para o touro.

Cartaz 7ª avaliação da Troika

O cartaz promete uma noite de triunfo. A tribuna aplaudirá de pé, a banda tocará o passo doble. Será um sucesso. Em Portugal não se matam touros na arena, mas cortar-se-ão orelhas. Tendo sobrevivido às 6 corridas anteriores, um único e magnífico exemplar da ganadaria Lusitana, um Almalho de seu nome “Povo”, será lidado por todos os artistas em cartaz: Dois cavaleiros, suas quadrilhas; dois grupos de forcados amadores; um picador e a estrela da corrida, o matador de touros Victor Gaspar, el Verdugo. Brindar-nos-á com os seus lances de muleta, ora Afarolado, ora Ajudado. A Faena habitual, sem  Chicuelinas. Cortará um Rabo, e sairá em ombros. Na recolha, “Povo” acompanhará os Cabrestos. Aos turistas diremos que são vacas. Um dia quererão mugi-las. Nesse dia, sorriremos.

Victor Gaspar - el Verdugo

Voltar às Bases – Serviço Militar Obrigatório

O buzz do momento é o revivalismo dos cantares revolucionários. O “Grândola Vila Morena” cantado simbolicamente no parlamento e nos eventos onde participam membros do governo. Evoca a revolução dos cravos que apesar de ter tido essa canção como parte da banda sonora foi executada e perpetuada por operações militares. Faz toda a diferença a troca de uma letra em canÇão para canHão. Uma diferença capaz de ganhar batalhas.

Temos milhões de desempregados, milhões de Portugueses à espera de dias melhores. A descrença reina. Os mais espevitados abalam para outros países. Os que ficam marinam numa sopa social indefinida, sem uma concreta definição do seu sentido de orientação e da sua capacidade concretizadora de reais mudanças.

Com um mercado de emprego estagnado há cada vez mais magotes de jovens a sair do seu percurso escolar ou académico com entrada directa no marasmo e falta de oportunidades.

Olhando para toda esta conjuntura e para o recente anúncio de cortes nas despesas militares atrevi-me a pensar num movimento contrário. No final do meu percurso académico fui à inspecção militar obrigatória e ‘escapei’ ao serviço por ter já um contrato assinado para iniciar carreira profissional. Nessa altura o mercado estava ávido de mão de obra qualificada e absorvia praticamente todas as fornadas que saiam das Universidades. Cumprir o serviço militar obrigatório era visto como algo tedioso, um verdadeiro empecilho ao futuro.

Nesta altura isso não se verifica. Não há mercado. E também se perderam muitos valores e muita gana. Já lá vão as gerações offline. As gerações que passavam mais tempo na rua do que na net. As gerações que ao brincar suavam, sujavam, lutavam, choravam e amadureciam um pouco mais rápido. Agora caminhamos para os seres digitais. Alimentados a centenas de canais de TV, a milhares de jogos de computadores/consolas, a smartphones, a relações à distância cada um na segurança e conforto do seu quarto ou de uma redoma bem montada a dar ares de total liberdade e arbitrariedade. As gerações de hoje revolucionam nas redes sociais, deslumbradas com o volume de likes, assinantes de petições e minutos acumulados em reportagens relâmpago nos telejornais. Mas perderam o contacto directo com a Terra, deixou de se sentir com frequência o choque e solidez de uma violenta queda ao solo, deixou de haver a necessidade constante de superação perante condições adversas surgidas do nada e sem ponto de fuga possível. A descrença antes de ser nacional é pessoal. Uma pessoa foi formada toda a vida num ambiente propício para ser X e não crê que possa facilmente ser Y, Z ou XPTO.

E por isso, neste momento particular, parece-me que o serviço militar obrigatório poderia ser uma boa forma de servir de continuidade à formação pessoal dos homens e mulheres  após final do percurso escolar ou académico. Sendo uma fusão de treino militar com escola de ofícios, aumentando a auto-estima dos seus formandos bem como desenvolvendo-lhes novas valências e competências. Uma recruta militar que obrigue os seus formandos a viver mais tempo no mundo offline, a explorar os seus limites físicos e mentais, a cooperar com tudo e todos sem hipótese de fuga para o coito mais próximo.

Em termos de fundos, necessários para concretizar a logística deste programa, poderia ser feito o desvio de verbas aos programas de apoio a jovens desempregados. Para cortar na despesa, e ao mesmo tempo servir de acção formadora, muitas das tarefas ‘domésticas’ e de manutenção seriam executadas pelos próprios, inclusive o cultivo hortícola para o máximo de auto-suficiência. No fundo existiria uma deslocalização de parte das acções de formação para os quartéis. O aumento de consumo de bens como fardas, calçado, alimentos, etc, seria também um incentivo a alguns sectores nacionais que se assumiriam como fornecedores destes novos polos de consumo. Seria um meio de injecção de capital na economia de uma forma distribuída ao invés de concentrá-lo em empresas prestadoras de serviços, como acontece actualmente com muitas acções de formação em que por vezes parece mais importante zelar pelos interesses do prestador do serviço do que pelos interesses reais para os formandos e para o país.

Para concluir não queria deixar de notar que na maior parte dos casos vejo que quem fala do serviço militar cumprido fá-lo com uma certa nostalgia de bons velhos tempos e com orgulho da superação de obstáculos tendo sido um período marcante na lapidação da sua personalidade. Mais, vejo-lhes uma centelha de quem já fez coisas complicadas e estaria preparado para o fazer novamente se assim fosse preciso. Perdido por 1 perdido por 1000.

E esta centelha seria o principal ganho para o país. O de transformar uma manada de insatisfação submissa num enxame de operativos capazes de iniciativa real sem necessidade de grandes holofotes. Homens e mulheres confiantes na sua capacidade de sobrevivência perante qualquer adversidade. Custaria bem menos do que dois submarinos. Seria tão mais produtivo para Portugal. Ter um governo perfeitamente ciente que a maioria da população dispõe das capacidades necessárias para mudar usando as canções meramente como música de fundo.

Para quem naturalmente vá ter fortes anticorpos a esta ideia ‘retro’ só lhes queria lembrar que uma outra canção foi usada na revolução. Pensando em quem disse ou vai dizer adeus ao emprego, adeus à casa, adeus à família, adeus ao país ou simplesmente adeus à vida deixo-a aqui porque também ela é história apesar de menos querida pelos revolucionários.

Driving Miss Daisy

DrivingMissDaisy_Seguro_CostaSenhora do seu nariz, Miss Daisy conduzia o seu próprio automóvel. Por mais desconcertante a condução, acreditava em si própria, nunca ligando a buzinadelas ou às infundadas críticas dos outros automobilistas. Afinal, uma senhora é sempre uma senhora. Um dia, um pequeno acidente, foi a desculpa  perfeita para o seu SEGURO cancelar a apólice. Foi um rude golpe na autonomia de Miss Daisy. Seus filhos socráticos, ávidos por restabelecer a alegria dos tempos idos, precipitaram uma solução: Miss Daisy teria um motorista, alguém que a conduzisse sem percalços. “Qual a pressa?” questionou Miss Daisy. Pragmática, decidiu fingir aceitar a vontade de sua prole. O voluntarioso Mr. Hoke Coleburn apresentou-se ao serviço. O desdém e antipatia inicial, foram teatralmente dando lugar à empatia e ao profundo respeito. Os múltiplos prémios e distinções atribuídos a este filme nunca ocultaram a singela verdade:

É uma monumental e inconsequente séca!

DrivingMissSeguro

The Matrix

Matrix à Portuguesa

Pedro Morpheus aceitou o destino que lhe fora revelado por Angela Oracle: Seria ele a encontrar o escolhido. Ao leme do hovercraft “Nebuchadnezzar”, Morpheus manobrava pelos esgotos em busca do salvador. A tripulação partilhava o empenho do seu comandante.OracleMerkel Contudo, Álvaro Cypher vivia descontente. Conhecia a verdade, mas sonhava voltar à ignorância. Trinity Portas, sorria em silêncio. Após uma longa busca, Morpheus encontrou Franquelim Neo, o predestinado. Cypher viu então a oportunidade para se pirar e exclamou: “a escolha é minha, o homem até ajudou a desmascarar o enredo insular”. Morpheus de pronto partilhou a responsabilidade na escolha, fazendo aquilo que dissera nunca fazer, comentar trocas de subalternos. Mas o momento era festivo, por isso abriu uma excepção.

Oliveiraecosta

Agora sim, empreenderemos à séria. Nada, nem ninguém deterá o avanço dos salvadores de Zion. José, o Arquitecto não contesta, não questiona. Contempla a sua obra. Está tudo bem. Fica-nos a importante lição de Manuel, o rapaz da colher. “Não tentes dobrar a colher, isso é impossível. Tenta antes compreender a verdade: a colher não existe”.

Manuel Dias Loureiro

Voltar às bases – TV Rural

Recentemente deu-se o buzz TV Rural. O governo levou à discussão no parlamento a sugestão de recolocar na grelha um programa sobre a Agricultura e o Mar que tanto sucesso fez durante 3 décadas entre 1960 e 1990.

Oh a ironia! TV Rural, um programa saído de cena a meio do período do Cavaquismo que governou Portugal entre 1985 e 1995, agora ressuscitado pelos seus herdeiros políticos.

Pudera tudo o que esse senhor matou na altura poder ser assim recuperado de um momento para o outro… No seu tempo acreditava que Portugal se transformaria essencialmente num País prestador de serviços, sem necessidade de produção agrícola e industrial que prontamente desmantelou. Só não esperava que os prestadores de serviços algum dia tivessem de sair em massa de Portugal para poderem exercer a servitude humilde e honrosa no estrangeiro. Como adivinhar que a grande dependência da produção externa nos pudesse um dia fragilizar ao ponto de condicionar a tomada de decisões que afectam directamente a nossa soberania e o nosso Estado?

A oposição portuguesa por tradição é uma oposição do contra procurando sempre focar-se nos aspectos negativos de medidas tomadas pelo governo, mesmo quando aparentemente positivas. Vemos assim os partidos que defenderam as vantagens da manutenção de um canal de televisão pública, para salvaguardar um meio de comunicação que não possa ser instrumentalizado, condenar o uso de influência política para pôr no ar um programa, interferindo assim na normal gestão da RTP.

Ora é exactamente esta a vantagem de ter um canal público. O de contra a lógica comercial substituir uma potencial novela, reality show ou programas da socialite por um programa útil apesar de aparentemente pouco atractivo e com fome de audiências. Apoio e digo que o simples relançamento do TV Rural é pouco. No passado o TV Rural beneficiou do facto de não existirem canais concorrentes e os jovens que acordavam cedo para ver os cartoons matinais acabavam por aprender umas coisas de forma inconsciente enquanto esperavam e viam a única coisa disponível.

Como recolocar o TV Rural no horizonte de interesse dos Portugueses e ao mesmo tempo vincar a aposta nos sectores primários da economia? Simples. Tenham a coragem de colocar nos programas escolares projectos obrigatórios de produção de hortas caseiras. Não como um mero ATL mas como uma disciplina durante um ciclo escolar completo. Através dos jovens e entusiastas alunos ensinem os pais a ganhar maior autonomia alimentar e a aliviar o orçamento familiar produzindo parte da sua alimentação.

Desta forma a prazo teremos garantido que todos os Portugueses passaram ao longo da sua vida escolar por um período de formação em actividades agrícolas que cada um escolherá, ou não, desenvolver no futuro, seja a nível profissional, seja a nível doméstico.

Ensinemos os Portugueses a sujar as mãos,  preparando-os para o colapso do período de dominância do colarinho branco no nosso mercado de trabalho.

Duodécimo de Actualidade

Cumprimos a meta nominal do défice, voltámos aos mercados e ficámos a saber que a victoria é nossa, é produto do nosso esforço. Quando o “futebolês” entra no léxico governativo, quando o marcador do golo enjeita com falsa modéstia o protagonismo, há confusão no balneário. José MourinhoEstá para breve a chicotada psicológica. Até lá, o grupo está unido, empenhado na preparação do próximo embate, ávido por dar o seu contributo à equipa. Pois…

 

saldosConcluída a época de saldos, nenhuma venda foi ainda concretizada. A companhia aérea por falta de garantias bancárias, a televisão publica pelas adversas condições de mercado, e imagine-se a ironia na anunciada venda da ANA: Gaspar está na mão de Jardim. O disciplinador à mercê do despesista. Tão trágico que chega a ser divertido.

Mais um “não assunto”. O magnânimo Optimist, senhor de muita pose, mas desprovido de pensamento próprio, dá largas à sua soberba: Remodelações de secretários de estado é tema sem envergadura, sem dignidade quanto baste para merecer o seu comentário. Um prodígio!

Do outro lado da barricada, a completa barracada. A carcaça está lá, mas a prazo. A média anuncia um facto e seu contrário. Em que ficamos? Na mesma. Nada disto interessa, nada disto conta. A festa prossegue, valha-nos o havaiano na Nazaré. Somos notícia no mundo. O maior vagalho é nosso. Por mais paupérrimo o país, é vicio que nunca perderemos, a mania das grandezas. Afinal, não há razão para tristezas, animem-se meus caros, 2013 será o melhor ano dos próximos 5. Dúvidas?

Não se esqueçam de se absterem nas próximas eleições! Por certo que governança e oposição tremerão com medo…