Category Archives: Escárnio e mal-dizer

Nada como uma boa troça visando quem o merece. Por vezes hipérboles, alegorias e metáforas conduzem a um certo enfabulamento mas muitas vezes a acutilância mordaz mais não faz do que realçar o ridículo da realidade.

Smart Silva

Anos a fio, a áurea de homem sério foi quanto baste para se manter a salvo de toda e qualquer acusação. Uma vez invocado o autoproclamado estatuto, aqui e ali adornado com uma ou outra alusão subtil (nunca concretizada) a campanhas orquestradas contra si, todas as suspeitas foram esquecidas, relegadas ao eterno esquecimento. Porém, numa época dominada pela tributação dos imóveis, qual fénix renascida, ressurge a polémica da Gaivota Azul. Ao invés da reacção tradicional, desta feita, nada. Nem sim, nem não. Zero, silencio total.

Noutros tempos teríamos já sido brindados com um categórico e sucinto comunicado desmentido tudo, provavelmente reiterando sound bites do passado, conclusivas singelas e curtas, “por vezes” auto-elogios mas sempre, sempre compatíveis com a persona construída, como a celebre tirada sobre seriedade na qual garantiu ser tanta a sua que para qualquer um de nós ir a meças, teria de nascer mais uma vez. Um conceito complexo, mas seja como for, a moral é simples, diz-se sério.

Parece contudo, a fazer fé em noticias vindas a publico recentemente, que nenhum de nós terá de voltar a nascer para com ele ombrear em seriedade. Já não é preciso, basta ser esperto. Mesmo tendo duvidas, o que hoje é verdadeiramente relevante é a esperteza. Sinal dos tempos, talvez apenas uma manifestação do processo de aculturação em curso, influenciada pela maior e mais liberal economia do mundo, mas parece que actualmente pagar menos impostos é sinal de esperteza. Quem não a tem paga, quem tem paga menos. Muito menos.

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Wirtschaftsnachrichten

O canal televisivo SAT.1 acaba de anunciar a contratação de um dos maiores especialistas económicos nacionais, quiçá o mais valioso activo (“asset” em “economês”) da comunicação nacional, José Gomes Ferreira, aceitou o convite da estação privada alemã para liderar uma rubrica de comentário e notícias de negócios. As extraordinárias competências do nosso concidadão não passaram despercebidas aos germânicos e nem a barreira linguística parece ter demovido os responsáveis. A convicção com que apresenta números e multiplicadores é tal que a linguagem corporal valerá por si. A direcção de programas da estação explica num sucinto comunicado que os dotes argumentativos e o domínio dos modelos matemáticos por parte do nosso Zé, muito embora ponderados, não foram os factores decisivos para a escolha, mas sim a sua prestação na explicação à população nacional portuguesa sobre a robustez do extinto BES. Está também prevista a edição de um inédito e despretensioso livro intitulado “mein Regierungsprogramm“…

Os rumores sobre as dificuldades do Deutsche Bank terão igualmente contribuído para justificar as alterações ao critério editorial da estação, nomeadamente a necessidade de preparar as mentes não só dos contribuintes germânicos, mas igualmente dos futuros lesados do Deutsche, tarefa para a qual o perfil do nosso compatriota constituiu garantia para uma resposta de excelência.

Tal como cá, a guerra pelas audiências é implacável, e ao que consta a estação rival, a RTL já terá sondado um tal de Camilo Lourenço para responder à altura. Muito embora até ao momento não se conheçam quaisquer desenvolvimentos, diz-se que não será piegas.

wirtschaftsnachrichten

Paraquedista

Como quando o Cristiano Ronaldo é candidato a um qualquer prémio internacional, o país sustem a respiração até ao anúncio da vitória. Há como uma partilha, uma redistribuição do mérito e do prestígio conquistado. Na política também. Foi assim quando Diogo Freitas do Amaral foi nomeado Presidente da assembleia geral das Nações Unidas. Depois lá percebemos que a nós pouco beneficiou tal cargo. Mal seria. Esta ideia peregrina que os compatriotas em cargos internacionais nos vão favorecer é absurda. Quanto muito não nos prejudicariam deliberadamente, mas nem a primeira nem a segunda fazem sentido. Apenas a isenção é desejável. O favorecimento de alguns será sempre em prejuízo de outros, logo tudo o que devemos esperar é a equidistância. O percurso do anterior Presidente da comissão europeia deveria ter-nos ensinado qualquer coisa…

A nomeação que se segue é a de secretário-geral das Nações Unidas. Haverá organização internacional mais importante? Certamente que não. E nós, como estamos nesse campeonato? Estamos bem, temos candidato. Não é muito forte em aritmética, mas já venceu 5 das votações preliminares. Tudo corria bem para as nossas cores, mas eis senão quando a organização que procurava ser mais transparente e credível vê o processo de eleição tomado de assalto por uma (já há muito preparada) candidatura: Apoiada pela matriarca alemã, a búlgara Kristalina Georgieva entra na corrida a meio. Deixa a vice-presidência da união europeia e salta destemida para o centro da contenda. Entre nós há algum desconforto contido, entre dentes diz-se que há batota, chamam-lhe até paraquedista…

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Nadar com Porcos

As Bahamas, um arquipélago de ilhas paradisíacas e terra natal do povo Taíno, são deste a chegada de Colombo em 1492 um território condenado à patifaria. Logo no inicio do século XVI toda a população indígena foi escravizada e enviada para outras paragens. Extraída a mão-de-obra, os espanhóis partiram, deixando o arquipélago completamente deserto durante mais de um século.

Os britânicos começaram a chegar na segunda metade do século XVII, mas só em 1718 as ilhas se tornaram uma colonia britânica. De entre os súbitos de sua majestade, provavelmente o mais celebre de todos os colonos foi Edward Teach, um famoso empreendedor que ficou conhecido como Barba Negra, o pirata.

A independência chegou no século XX, no excelente ano de 1973. Foi em Janeiro desse ano, graças a uma acção de “sedução, roubo e fotocópia” (digna de um filme do 007), a autoridade fiscal norte-americana conseguiu obter de um imprudente funcionário bancário uma lista com o nome de mais de 300 cidadãos americanos. A estes cobrou coercivamente mais de 50 milhões de dólares em impostos não pagos. As quatro décadas seguintes foram absolutamente tranquilas.

Destino turístico de elite, detém uma oferta balnear única no mundo! Nas Bahamas, o turista ao invés de ir a banhos com cetáceos, pode nadar com suínos! Esta singular vivência raramente é partilhada pois os banhistas preferem o sigilo. São férias envoltas em secretismo, uma vez reveladas criam embaraço a quem as usufruiu. A ex-comissária europeia para a concorrência, a holandesa Neelie Kroes que o diga… Na União de Europeia de hoje, carenciada de novos e virtuosos exemplos, a omissão pode vir a custar-lhe a pensão de reforma, mas tal como o anterior episódio da saga “Papers“, a sensação do momento dará rapidamente lugar à inconsequência.

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Exterminador 2

Seria para a semana, mas já não vai acontecer. Lamentavelmente o futuro não será aquele que esperávamos. O dia da Apresentação não chegará. A Saraivada venderá, mas já sem o patrocínio do protagonista do segundo extermínio, o modelo T-1000. Vindo do futuro, o ultra moderno robô evoluiu em relação ao antecessor, uma nova geração com outro nível de plasticidade, inovação que lhe permite assumir qualquer forma inerte, vegetal ou humana. Apresenta-se normalmente na forma de policia vaticinador e tem na viscosidade da sua persona a maior e temível arma. Faz da humildade modo de vida e da boa educação uma marca pessoal – Diz “muito´brigado” como ninguém.

Bravateiro, amigo do seu amigo, nunca volta com a palavra atrás. É lá homem, perdão, robô para isso. Como boa máquina que é, processou primeiro o risco envolvido na ousada apresentação e ponderada a ameaça decidiu avançar, concluiu sem ler a obra que a amizade do autor o colocava ao fresco e que por isso não se queimaria naquele fogo onde outros são chamuscados ou mesmo torrados, mas enganou-se. Mesmo poupado na devassa publicada, foi gravemente atingido na cabeça quando manteve a postura implacável de quem corta a direito, de quem não cede e determinado reiterou no inicio da semana que não faltaria ao amigo naquela hora, mas os danos do episódio são tais que hoje “pediu ao autor, por motivos pessoais, para o desobrigar de estar presente na sessão de lançamento do livro“. Evento cancelado. Terá sido um murro no estômago do arquitecto?

 

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Saraivada

Há quase 27 anos, a revista “Semana Ilustrada” – um pasquim da época, fez capa com um escândalo protagonizado pelo arquitecto Tomás Taveira, figura que pelo carácter e obra nunca fora consensual, mas cuja intensa actividade laboral no escritório das Amoreiras se imortalizou. Quem nunca ouviu as sinceras palavras do arquitecto? Frases como “isto aqui está um inferno” ou “ai menina kookai” permanecem até hoje na nossa memória colectiva. Um raríssimo caso de longevidade num país onde qualquer discurso ou promessa eleitoral são rapidamente esquecidos. Talvez a solução para baixar a abstenção passe por recrutar mais arquitectos para a política, quem sabe…

Na falta de políticos licenciados em arquitectura, talvez os jornalistas com essa formação possam contribuir. Não há muitos, mas um em particular, José António Saraiva, tem vindo a dar o seu contributo, quer escrevendo, quer dirigindo importantes semanários. No auto-intitulado “Hipermercado da informação” foi director durante mais de 20 anos, lugar que mais tarde assumiu no concorrente directo até ao final do ano passado. Ao todo, três décadas a dirigir os principais jornais nacionais! Dirá isto mais sobre quem os detêm do que propriamente sobre o próprio.

Finda a carreira jornalística, e por certo procurando contribuir para ampliar a participação eleitoral dos seus concidadãos, o arquitecto Saraiva decidiu criar de uma assentada uma saraivada de novas “meninas kookai”. Lançará para a semana um livrito sobre a vida íntima dos políticos com quem conviveu, episódios que nunca teve oportunidade de contar, logo a nós, compatriotas que adoramos a devassa da vida privada.

saraivada

Regente Agrícola

A sátira de hoje é sobre a desilusão manifestada pelo regente agrícola que preside ao Eurogrupo, o indivíduo cujo impronunciável nome é Dijsselbloem. Rapaz católico nascido em terra protestante, é um tipo importante! Ele assim pensa. Preside ao encontro mensal e informal dos Ministros das Finanças dos países do euro, reunião à qual alguém teve a original ideia de atribuir um nome próprio, como se de uma instituição, que não é, se tratasse. Mensalmente, aqueles que gerem o destino financeiro dos países do euro reúnem sob o comando de um especialista em agricultura, mas não é por isso que lhes chamam nabos…

Após as tradicionais ameaças, desta feita sem sequer disfarçar a chantagem, afirmou que a submissão nacional o levaria a intervir de forma benevolente. A tirada aparentemente paternalista foi apenas mais uma manifestação de soberba. Por isso lhe inchou o ego. Mas a desilusão não se deveu apenas à vaidade, deveu-se sobretudo à sua inabalável ideologia, à sua profunda crença no modelo de negócio e de gestão da virtuosa Vereenigde Oostindische Compagnie, empreendimento que entre nós ficou conhecido como a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Estudioso destas coisas da economia agrária, tem particular admiração pela condução do negócio das especiarias no inicio do sec XVII nas longínquas ilhas Molucas. A cultura que mais o fascina é a do Cravo-da-índia, daí recorrer a métodos semelhantes aos de então. Parece porém, que este valiosíssimo intelectual tem vindo a cavar a sua própria cova. Não é suposto haver espaço para veleidades dos nativos…

MestreAgricola

Dão-se Alvíssaras

A detalhada, profunda e rigorosa investigação jornalística ao denominado “escândalo” dos “Panamá Papers” decorre com normalidade. Pelo menos até prova em contrário… Aguardemos, afinal, se chegámos ao Verão sem novidades de relevo, podemos perfeitamente esperar mais uns tempos. Pelo menos até à mudança da estação. Por certo que mais dia, menos dia, mais semana menos mês, importantes conclusões serão noticiadas, sem precipitações ou sensacionalismos, como é salutar! Entre nós não há acusações infundadas, nem processos de intenção, nem pensar. Credo! Tanto Pokémon para caçar, tanto disparate para noticiar, porquê antecipar?

Decididamente, não há pressa. A curiosidade inicial perdeu-se, dispersou-se por outros temas, é verdade, mas pelo sim, pelo não, ou na falta de motivo válido, talvez por palermice e infantilidade, possamos, quiçá, lançar uma campanha lá para o Natal, um apelo aos investigadores para emergirem, respirarem um pouco de ar puro e connosco partilharem o fardo, o tenebroso peso do conhecimento à tanto tempo sob reserva. Aqui deixo a ideia, dêem-se alvíssaras a quem conseguir fazer chegar alguma informação, por pouca ou escassa que seja, ao Ministério Público.

A menos que tudo não tenha passado de um embuste, de um truque de entretenimento, um falso escape à indignação com a liberdade oferecida aos capitais. Será? Façamos o teste, analisemos o que mudou desde então, desde do momento em que estoirou a bronca, o dia da revelação! Há legislação nova? Novos meios ao dispor das autoridades, ou está tudo na mesma? Também aí se dão alvíssaras! Alguém nos diga qual foi a evolução.

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Aldeia Cósmica

Partiu de Cabo Canaveral a bordo de um potente foguetão Atlas V. Após quase 5 anos de viagem, a sonda Juno chegou finalmente à orbita do gigante gasoso, o Planeta Júpiter. O maior planeta do sistema solar e nosso maior protector, recebeu a sonda Juno com um estrondoso e arrepiante rosnar – O som do vento solar ao chocar com a magnetosfera de Júpiter, segundo explicaram os cientistas. Prodigioso! A nossa “cobertura de rede” alarga no Cosmos. Parece que lentamente a ficção cientifica se vai transformando em realidade do quotidiano. Vivemos tempos extraordinários, presenciamos momentos únicos da história da nossa espécie. O Cosmos é o nosso novo horizonte.

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De volta à Terra, constatamos que apesar da nacionalidade norte-americana da sonda Juno, é à União Europeia que cabe liderar o planeta. É verdade, apenas a comissão europeia e apenas ela parece ter acesso aos grandes líderes da galáxia, quiçá do universo, e com eles pode até trocar ideias sobre os mais mundanos dos temas, como sejam as eventuais sanções aos modestos países Ibéricos, ou sobre o divórcio do Reino Unido da União Europeia. Para o provar, Jean Claude Juncker afirmou ontem que os líderes de vários planetas lhe manifestaram profunda preocupação com as consequências do brexit.

Os mal-intencionados dizem hoje que se tratou de um lapso, um eventual resultado da inabalável crença do presidente da comissão europeia nas propriedades hidratantes da bebida tradicional da Caledónia, mas eu discordo. Acredito que ele está mesmo em contacto, ligado ao mais alto nível da liderança cósmica…

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Preparada para este referendo hoje?

Em dia de referendo decisivo para o futuro de seus súbitos, sua alteza real, a Rainha Isabel II foi passear de manhãzinha. Foi abordada por um repórter que sem a reverência que lhe é devida perguntou de forma impertinente: “Preparada para este referendo hoje?”. Magnânima, sua majestade simplesmente sorriu e acenou. Disse tudo. A monarca com o reinado mais longo da história britânica está nitidamente preparada! O critério editorial do género sensacionalista é registo banal e antigo entre os anglo-saxónicos. A população gosta, a coroa aceita. Sabe lidar com o fenómeno sem perder dignidade. Muito britânico! Apesar da sua ascendência germânica e da legitimidade hereditária, a rainha sabe que a verdadeira soberania reside nos cidadãos. Age em claro contraste com a soberba típica da união tecnocrática que hoje será sufragada.

Quanto a prognósticos, aposto no empate. Sabemos que a vitória é possível empatando. No fim, avançam para a fase seguinte, nenhum favoritismo será lembrado e tudo será perdoado. Poderá até ser uma forma de salvar a face e assim evitar o regresso de outras pretensões separatistas. Confesso que palpito a contragosto. Gostava de um resultado claro e contundente. Prefiro a ruptura. Creio contudo, que este meu desejo não será atendido pelos britânicos que hoje votam. A eles e apenas a eles compete a decisão. Seja qual for o resultado, será democrático, qualquer que seja o desfecho, a eles, cidadãos da Grã-Bretanha, a questão foi colocada, a opção ponderada e a decisão tomada. A nós por cá, ninguém nos perguntará nada!

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