Category Archives: Escárnio e mal-dizer
Cozinho para o Povo
Estreia esta semana a nova grelha de programação do canal que está a revolucionar a televisão portuguesa. Esta transformação, lenta mas profunda, nota-se particularmente nos serviços informativos. Outrora aborrecidos, sem emoção ou espectáculo, os noticiários são hoje pródigos em sensações fortes. O Canal, o tal revolucionário, é especialista em crime e derivados. Obrigou todos os concorrentes a inovar o alinhamento noticioso, fornecendo-nos (até que enfim!) boas e intensas reportagens de tragédia, violência e miséria moral. Ah, portugalidade esquecida e ostracizada que finalmente é exposta ao escrutínio de toda a população. Agora sim, a televisão como espelho de nós próprios, tal e qual aquilo que somos. Não há psicopata cuja barbárie não seja uma enorme, chocante e totalmente inesperada surpresa para todos os vizinhos e convivas. São pacatos e amigos do seu amigo, adeptos de boa, tradicional e bem condimentada cozinha portuguesa. Paninhos quentes e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…
Esta massa (a)crítica a que vulgarmente se chama “Classe Média”, clama e agradece todos os programas de comentário e análise. Haja quem explique a culinária! Lá estará o Canal, o tal, a liderar a mudança. Novas causas, novo Menu. Depois da lavoura, da defesa do contribuinte e demais receitas, o irrevogável Chef cedeu o lugar à nova protagonista – Cozinheira de mão cheia, perita de reconhecido mérito em preparados “Redon“, lança-se agora na desinteressada ajuda a todos os telespectadores do Tal Canal, na sua nova rubrica de gastronomia com restos denominada “Cozinho para o Povo“. Pulverizar-nos-á com muita, imensa paprika!
Catch Me If You Can
Um clássico relativamente recente, um entre muitos dos êxitos do famoso realizador e produtor Steven Spielberg, “Apanha-me se Puderes” é um filme que nos conta a história de um jovem, autodidacta, dinâmico e espertalhão, boy de profissão cuja vivacidade permite exercer toda e qualquer função. Um caso raro de adaptabilidade e improviso. O logro funciona graças à ingenuidade geral. Consta que o próprio cita o conterrâneo de Tom Sawyer, Samuel Clemens: “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas…”. E não é que funciona? Ele foi aviador, sem nunca pilotar, foi médico sem nunca tratar e até foi advogado depois de no exame passar. Assim prossegue o filme, sempre em crescendo de ousadia e descaramento, até à detenção final. Cumprida a pena, é recrutado para ajudar a investigar.
Tal por cá seria impossível! Em nenhum outro país a licenciatura é tão escrutinada como entre nós, não pelo seu valor cientifico ou profissional, mas simplesmente porque deixou de ser uma licença para aprender sozinho para se tornar um sinónimo de prestigio outorgado, independente e imune à (in)competência de quem a ostenta. Pessoalmente, estou-me nas tintas para tudo isto… Muito pior que um falso testemunho, foi a reacção à “investigação” jornalística. Confrontado com os factos, terá tentado enjeitar responsabilidade, dizendo que os dados publicados aquando da nomeação como adjunto do primeiro-ministro “baseiam-se nas informações prestadas pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra datadas de Outubro de 2009″. Inqualificável, mas revelador da estirpe dos “jotas”.
Nobel do Orçamento
Longa foi a espera, semanas de grande expectativa, inquietação e até alguma ansiedade, mas a Academia Sueca lá divulgou finalmente o novo prémio Nobel do Orçamento. Anunciado o vencedor, de imediato se intensificou a polémica e se extremaram posições entre apoiantes e oponentes. Os críticos atacaram a obra do artista, os fãs enalteceram. Será Literatura? Prosa não é certamente e a poesia, segundo sei, nem sempre é assim. Uma coisa é certa, presta-se a todo o tipo de ambiguidade e a muito pouca certeza.
Em rigor é uma obra incomparável – O Orçamento não é comparável com nenhum dos que o precedeu. Todas as generalizações viáveis, toda a especulação possível, todas as interpretações sustentáveis à luz deste ou daquele detalhe, subtil ou abrupto. Compreender o seu verdadeiro impacto é um exercício de sensibilidade, logo, absolutamente subjectivo. Talvez por isso me incline para a poesia. Deve ser isso que o galardoado documento é, poesia.
Bob Centeno, poeta de fraquíssimos dotes vocais, mas cujo virtuosismo como instrumentista muito tem surpreendido, lá conseguiu dar-nos música, uma melodia manifestamente banal, mas suficientemente harmoniosa para conjugar os graves acordes de Guitarra requeridos pelos parceiros da banda “a geringonça”, com as notas de Harmónica (vulgo Gaita-de-Beiços) tão agudas quanto o exigido pela Europa. Não é de direita, também não é de esquerda, nem de centro. Nem sim, nem não, antes pelo contrário. É um Orçamento de protectorado. Deixámos de ser uma província submissa, obediente e periférica para passarmos a ser uma região quase autónoma, paralisada e dependente.
Obrigado, obrigado, obrigado
Diz que devemos agradecer ao Universo por aquilo que nos concede tentando sempre descortinar o lado positivo mesmo quando o cenário parece catastrófico. Pelo que, quero aqui fazer a minha parte e realizar alguns agradecimentos relativos a eventos recentes.
Obrigado ao nosso Presidente da República que demonstra o impacto e influência que o seu cargo não executivo pode ter sobre quem está em exercício de funções, ora dando uma no cravo, ora dando outra na ferradura, ora sendo acelerador, ora sendo travão de ideias geringonças. Depois de retiradas as silvas o jardim de Belém parece agora florescer.
Obrigado aos chineses que nos ajudaram a trafulhar seus conterrâneos. Claro que o pagaremos caro, com juros, mas como bom povo mediterrâneo sabemos aproveitar ao máximo o sol de pouca dura antes da chegada de novo Outono-Inverno.
Obrigado à América por nos demonstrar a sua democracia vanguardista onde o embate político se tornou um misto de entretenimento e reality show ao estilo da “Casa Branca dos Segredos”. Mais importante do que ideias é saber que tipo de uso dá um candidato à sua genitália. Mérito ao primeiro a reconhecê-lo em Portugal, José António Saraiva.
Obrigado a Maria Leal por confirmar a qualidade dos curadores de artes performativas que apenas dão visibilidade e oportunidade a grandes valores artísticos.
Obrigado aos taxistas por com a sua manifestação nos fazerem esquecer por um dia a qualidade dos nossos transportes públicos, muito bem pensados à medida do orçamento possível.
Obrigado à Assembleia Geral da ONU por escolher um imaculado e verdadeiramente bem intencionado António Guterres para seu secretário geral. Também eu gosto e acredito na nossa picareta falante que tanto cresceu durante o seu mandato de 10 anos como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, ou por outras palavras como responsável pela gestão de danos sociais causados pelas guerras mundiais. Foram 10 anos de forte crescimento onde mesmo assim se conseguiram milagres a nível orçamental gerindo-se a crise humanitária sem que fossem levantadas grandes ondas em termos mediáticos (só mais para o final a coisa se tornou um pouco viral mas rapidamente voltou a sair de cena). Desconfio que para os grandes líderes mundiais Guterres seja um género de picareta de São João, colorida e sonora mas que apenas dá pancadinhas de amor, em teoria fácil de aturar portanto. Agora com as rédeas de uma organização poderosa, com maior abrangência da sua área de influência e intervenção, espero que saia um pouco mais da casca procurando atravessar a fronteira da contenção em direcção à verdadeira resolução dos graves problemas mundiais. Se faz favor faça-se ouvir e aponte o dedo, doa a quem doer. Em último recurso não se embarace de trair alguns princípios e defender a capacitação dos refugiados para o reconquistar de tudo o que lhes foi tirado.
Finalmente obrigado ao PC e ao BE por se manterem fiéis ao PS garantindo assim uma estabilidade de pedra e cal que nos proporcionarão a todos um muito melhor Natal junto de nossos pais e avós um pouco mais sorridentes.
Tu és lindo Universo!
Jabba the Guterres
Eis-nos de volta aos clássicos do cinema e à grande saga “Guerra das Estrelas”. A personagem de hoje está no pedestal da adoração nacional. Devotos de sempre e detractores de outrora, todos, unidos em uníssono elogiam o mestre do dialogo, Jabba the Guterres. O momento festivo resulta da sua nomeação pelo Conselho de Segurança para Secretário-geral das Nações Unidas. Jabba, ex-chefe do executivo desta pequena nação à beira mar plantada nos confins do continente Europeu, será o próximo líder das Nações Unidas. Não, não é ficção cientifica. Deixou a concorrência para tras e ganhou.
Curioso contraste este entre o percurso dos ex-primeiros que nos deixaram a meio do mandando. Um fugiu do pântano, terá um dos mais ingratos e exigentes cargos do mundo, o outro, aquele que encontrou uma nação de tanga, é “consultor” do banco de investimento mais poderoso do mundo. É giro!
A vitória é sem duvida um tónico poderoso, capaz de elevar uma picareta falante ao papel de ídolo nacional, uma unanimidade praticamente inédita. Bem, talvez não seja absolutamente inédita, a aclamação do futebolista Éderzito tem sem duvida semelhanças. De vergonha ao orgulho em segundos. Fantástico! Talvez venha desfilar pela capital abordo de um autocarro de dois andares, acenando à multidão entusiástica e no fim discursar na Alameda Dom Afonso Henriques, bem em frente ao Instituto que o formou, o Superior Técnico e no palanque proferir um patriótico e sucinto discurso enaltecendo a vitória e invocando o Cesto da Gávea, numa clara alusão à nossa tradição marítima…
Smart Silva
Anos a fio, a áurea de homem sério foi quanto baste para se manter a salvo de toda e qualquer acusação. Uma vez invocado o autoproclamado estatuto, aqui e ali adornado com uma ou outra alusão subtil (nunca concretizada) a campanhas orquestradas contra si, todas as suspeitas foram esquecidas, relegadas ao eterno esquecimento. Porém, numa época dominada pela tributação dos imóveis, qual fénix renascida, ressurge a polémica da Gaivota Azul. Ao invés da reacção tradicional, desta feita, nada. Nem sim, nem não. Zero, silencio total.
Noutros tempos teríamos já sido brindados com um categórico e sucinto comunicado desmentido tudo, provavelmente reiterando sound bites do passado, conclusivas singelas e curtas, “por vezes” auto-elogios mas sempre, sempre compatíveis com a persona construída, como a celebre tirada sobre seriedade na qual garantiu ser tanta a sua que para qualquer um de nós ir a meças, teria de nascer mais uma vez. Um conceito complexo, mas seja como for, a moral é simples, diz-se sério.
Parece contudo, a fazer fé em noticias vindas a publico recentemente, que nenhum de nós terá de voltar a nascer para com ele ombrear em seriedade. Já não é preciso, basta ser esperto. Mesmo tendo duvidas, o que hoje é verdadeiramente relevante é a esperteza. Sinal dos tempos, talvez apenas uma manifestação do processo de aculturação em curso, influenciada pela maior e mais liberal economia do mundo, mas parece que actualmente pagar menos impostos é sinal de esperteza. Quem não a tem paga, quem tem paga menos. Muito menos.
Wirtschaftsnachrichten
O canal televisivo SAT.1 acaba de anunciar a contratação de um dos maiores especialistas económicos nacionais, quiçá o mais valioso activo (“asset” em “economês”) da comunicação nacional, José Gomes Ferreira, aceitou o convite da estação privada alemã para liderar uma rubrica de comentário e notícias de negócios. As extraordinárias competências do nosso concidadão não passaram despercebidas aos germânicos e nem a barreira linguística parece ter demovido os responsáveis. A convicção com que apresenta números e multiplicadores é tal que a linguagem corporal valerá por si. A direcção de programas da estação explica num sucinto comunicado que os dotes argumentativos e o domínio dos modelos matemáticos por parte do nosso Zé, muito embora ponderados, não foram os factores decisivos para a escolha, mas sim a sua prestação na explicação à população nacional portuguesa sobre a robustez do extinto BES. Está também prevista a edição de um inédito e despretensioso livro intitulado “mein Regierungsprogramm“…
Os rumores sobre as dificuldades do Deutsche Bank terão igualmente contribuído para justificar as alterações ao critério editorial da estação, nomeadamente a necessidade de preparar as mentes não só dos contribuintes germânicos, mas igualmente dos futuros lesados do Deutsche, tarefa para a qual o perfil do nosso compatriota constituiu garantia para uma resposta de excelência.
Tal como cá, a guerra pelas audiências é implacável, e ao que consta a estação rival, a RTL já terá sondado um tal de Camilo Lourenço para responder à altura. Muito embora até ao momento não se conheçam quaisquer desenvolvimentos, diz-se que não será piegas.
Paraquedista
Como quando o Cristiano Ronaldo é candidato a um qualquer prémio internacional, o país sustem a respiração até ao anúncio da vitória. Há como uma partilha, uma redistribuição do mérito e do prestígio conquistado. Na política também. Foi assim quando Diogo Freitas do Amaral foi nomeado Presidente da assembleia geral das Nações Unidas. Depois lá percebemos que a nós pouco beneficiou tal cargo. Mal seria. Esta ideia peregrina que os compatriotas em cargos internacionais nos vão favorecer é absurda. Quanto muito não nos prejudicariam deliberadamente, mas nem a primeira nem a segunda fazem sentido. Apenas a isenção é desejável. O favorecimento de alguns será sempre em prejuízo de outros, logo tudo o que devemos esperar é a equidistância. O percurso do anterior Presidente da comissão europeia deveria ter-nos ensinado qualquer coisa…
A nomeação que se segue é a de secretário-geral das Nações Unidas. Haverá organização internacional mais importante? Certamente que não. E nós, como estamos nesse campeonato? Estamos bem, temos candidato. Não é muito forte em aritmética, mas já venceu 5 das votações preliminares. Tudo corria bem para as nossas cores, mas eis senão quando a organização que procurava ser mais transparente e credível vê o processo de eleição tomado de assalto por uma (já há muito preparada) candidatura: Apoiada pela matriarca alemã, a búlgara Kristalina Georgieva entra na corrida a meio. Deixa a vice-presidência da união europeia e salta destemida para o centro da contenda. Entre nós há algum desconforto contido, entre dentes diz-se que há batota, chamam-lhe até paraquedista…
Nadar com Porcos
As Bahamas, um arquipélago de ilhas paradisíacas e terra natal do povo Taíno, são deste a chegada de Colombo em 1492 um território condenado à patifaria. Logo no inicio do século XVI toda a população indígena foi escravizada e enviada para outras paragens. Extraída a mão-de-obra, os espanhóis partiram, deixando o arquipélago completamente deserto durante mais de um século.
Os britânicos começaram a chegar na segunda metade do século XVII, mas só em 1718 as ilhas se tornaram uma colonia britânica. De entre os súbitos de sua majestade, provavelmente o mais celebre de todos os colonos foi Edward Teach, um famoso empreendedor que ficou conhecido como Barba Negra, o pirata.
A independência chegou no século XX, no excelente ano de 1973. Foi em Janeiro desse ano, graças a uma acção de “sedução, roubo e fotocópia” (digna de um filme do 007), a autoridade fiscal norte-americana conseguiu obter de um imprudente funcionário bancário uma lista com o nome de mais de 300 cidadãos americanos. A estes cobrou coercivamente mais de 50 milhões de dólares em impostos não pagos. As quatro décadas seguintes foram absolutamente tranquilas.
Destino turístico de elite, detém uma oferta balnear única no mundo! Nas Bahamas, o turista ao invés de ir a banhos com cetáceos, pode nadar com suínos! Esta singular vivência raramente é partilhada pois os banhistas preferem o sigilo. São férias envoltas em secretismo, uma vez reveladas criam embaraço a quem as usufruiu. A ex-comissária europeia para a concorrência, a holandesa Neelie Kroes que o diga… Na União de Europeia de hoje, carenciada de novos e virtuosos exemplos, a omissão pode vir a custar-lhe a pensão de reforma, mas tal como o anterior episódio da saga “Papers“, a sensação do momento dará rapidamente lugar à inconsequência.
Exterminador 2
Seria para a semana, mas já não vai acontecer. Lamentavelmente o futuro não será aquele que esperávamos. O dia da Apresentação não chegará. A Saraivada venderá, mas já sem o patrocínio do protagonista do segundo extermínio, o modelo T-1000. Vindo do futuro, o ultra moderno robô evoluiu em relação ao antecessor, uma nova geração com outro nível de plasticidade, inovação que lhe permite assumir qualquer forma inerte, vegetal ou humana. Apresenta-se normalmente na forma de policia vaticinador e tem na viscosidade da sua persona a maior e temível arma. Faz da humildade modo de vida e da boa educação uma marca pessoal – Diz “muito´brigado” como ninguém.
Bravateiro, amigo do seu amigo, nunca volta com a palavra atrás. É lá homem, perdão, robô para isso. Como boa máquina que é, processou primeiro o risco envolvido na ousada apresentação e ponderada a ameaça decidiu avançar, concluiu sem ler a obra que a amizade do autor o colocava ao fresco e que por isso não se queimaria naquele fogo onde outros são chamuscados ou mesmo torrados, mas enganou-se. Mesmo poupado na devassa publicada, foi gravemente atingido na cabeça quando manteve a postura implacável de quem corta a direito, de quem não cede e determinado reiterou no inicio da semana que não faltaria ao amigo naquela hora, mas os danos do episódio são tais que hoje “pediu ao autor, por motivos pessoais, para o desobrigar de estar presente na sessão de lançamento do livro“. Evento cancelado. Terá sido um murro no estômago do arquitecto?











